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sábado, 22 de agosto de 2026

Meu pai e Santos Dumont (1)



Refeição Cultural

Na casa de meus pais, em Minas Gerais, tem um livro antigo, dos anos setenta, sobre Alberto Santos Dumont, uma biografia. 

Perguntei sobre o livro, certa vez, e meus pais me disseram que era para meu pai participar de um programa de TV no qual a pessoa respondia sobre a vida de alguma personalidade. Era no Silvio Santos, se não me engano. 

Já folheei o livro diversas vezes ao longo do tempo. É um catatau, tem 500 páginas. O livro se chama As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont, de Fernando Jorge.

Meu querido pai fará 84 anos nos próximos dias. Ele tem uma história de vida incrível. Dias atrás, li um texto dele muito emocionante, no qual descreve sua vida e da família ao longo de décadas (comentário aqui). 

Enquanto lia o memorial de meu pai, via a história do Brasil desde a década de quarenta e os acontecimentos políticos que impactaram a vida de milhões de brasileiros como ele, gente simples da classe trabalhadora. 

Fiquei pensando dias atrás, quando estive lá em Uberlândia no dia dos pais, o que poderia fazer para estimular a memória e a capacidade cognitiva de meu pai, que já não tem a mesma agilidade que sempre teve na criação e imaginação para as coisas do cotidiano. Meu pai sempre foi um inventor e solucionador de problemas domésticos. 

Sugeri a ele reler o livro sobre Santos Dumont. Na verdade a leitura seria como uma primeira vez, devido ao tempo decorrido após o estudo do livro há tantas décadas. A biografia de nosso grande inventor brasileiro, o pai da aviação, deve ser muito interessante. 

Sempre que lemos um livro lido muito tempo antes, fazemos uma nova leitura, porque somos outra pessoa. 

A ideia seria eu ler também e conversar por ligação com meu pai para comentarmos sobre a leitura. 

Meu pai talvez não leia, alegou dificuldades, mas quem sabe eu consiga ativar um pouco a memória dele lendo aos poucos e conversando com ele.

Enfim, a gente não tem receita mágica para tentar interagir e apoiar as pessoas com mais idade e ou com as dificuldades cognitivas que a vida nos impõe. Mas não custa tentar alguma coisa. 

Vamos ler a biografia do grande brasileiro Santos Dumont. Vamos conversar com o senhor Palmério sobre o inventor do avião. 

William 

22/08/26


domingo, 2 de agosto de 2026

Leitura: Tal Pai Tal Filho



Refeição Cultural

Já faz alguns anos, meu pai me entregou um caderno de textos, organizados por ele mesmo, reunindo textos meus e textos dele. O caderno se chama Tal Pai Tal Filho.

Já li trechos do caderno várias vezes, mas nunca li o caderno inteiro. A gente tem o costume ruim de fazer isso com as pessoas queridas, amigos e familiares. Tudo no cotidiano é mais urgente e importante que as nossas relações de afeto.

Quando acordei neste domingo, uma semana antes do domingo dos pais, tive um impulso de pegar o caderno que meu pai idoso fez pra mim e lê-lo completamente, corretamente. É o mínimo que eu já deveria ter feito desde quando ele mo presenteou.

A primeira metade são textos meus retirados do blog Refeitório Cultural, textos que tratam de minha relação com os pais e com meu filho. São textos sobre pais e filhos. Alguns são incríveis! São declarações de amor, agradecimentos, reflexões em momentos de dor e angústia. 

Durante um curto período, meu pai passou a escrever bastante, já depois dos setenta anos. Até antes: "Divagando pela vida", ele finaliza aos 67 anos, no dia de seu aniversário. Ele conseguiu mexer com computador e internet até o período da pandemia mundial, já perto de seus oitenta anos. Naquele momento, meus textos tinham ao menos um leitor: meu pai!

A coletânea que ele fez pra ele e pra mim é incrível! Ao me entregar aquele caderno, anos atrás, meu pai pode ter querido dizer várias coisas, várias! Respeito por mim, amor, orgulho pelo filho que teve. Um pedido de socorro, por solidão em um ambiente de desentendimento na própria casa. Um chamado para que eu visse a história incrível da vida dele, que nunca havia sabido de forma tão organizada. 

De meus textos, ao relê-los, fiquei estupefato. Não me lembrava com detalhes daqueles acontecimentos e sentimentos. 

Escrevi um sobre idosos, estando na UTI com meu pai infartado em 2012. Imagino que seja um de meus melhores textos sobre a importância de se amar os idosos.

Meu pai reuniu textos nos quais falo de meu filho, de minha mãe, de mim e ele com nossas duras vidas vividas.

Aí começa a história da vida dele. Incrível! Dá vontade de ler em voz alta numa roda de amigos e familiares. De parar a cada parágrafo e comentar sobre aquela vida, aquela gente, aquele mundo de onde nós viemos. Qualquer pessoa minimamente conhecedora do Brasil do século vinte, sabe que aquela narrativa é sobre todos nós.

Enfim, neste momento, apenas comecei a leitura da história da vida de meu pai, de meus pais, dessa gente de onde viemos, de muitos de nós. 

A vida é um instante. Enquanto me afogo no catarro de uma gripe insistente, posso deixar de existir num instante. O mesmo com meu velho pai, próximo de completar 84 anos. O mesmo com meu filho, que num rolê com algum exagero na bebida, pode se pôr em risco desnecessário...

Fiz muitas das coisas que meu pai fez na juventude. Meu filho, idem. Bebemos mais do que o saudável. Meu pai ainda fumou por 37 anos. Cada vida é única. Cada história de vida, também. Os contextos e o mundo nunca são os mesmos, apesar das escolhas serem talvez parecidas.

Sou grato por estarmos vivos neste domingo. 

William 

02/08/26

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Diário e reflexões - Na Catedral da Sé



Refeição Cultural

Sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026.


NA CATEDRAL DA SÉ

Passei duas horas na Catedral da Sé, no centro de São Paulo. Foi interessante. Fui encontrar um amigo e resolvi esperá-lo na paz da casa do Senhor. 

A arquitetura da catedral é belíssima, imponente. 

Certa vez, ouvi dizer que a grandeza das catedrais fazia homens e mulheres se sentirem pequenos perante a grandeza de Deus. É inegável que isso dá algum tipo de poder aos operadores da fé. 

Durante minha estadia naquele ambiente sagrado, assisti a duas celebrações: a Via Sacra de Jesus Cristo - paixão, morte e ressurreição - e depois a missa do meio-dia com o tema da Eucaristia. 

O padre nos falou em seu sermão sobre a quaresma e a questão do jejum. Eu gostei das reflexões e ensinamentos dele.

Aqueles que jejuam por opção, tendo o que comer, devem se colocar no lugar daqueles que não têm o que comer, e por isso têm fome.

Após explicar o sentido de se fazer jejum durante a quaresma, o padre avançou em uma metáfora de se jejuar também com a língua, aconselhou os fiéis a medirem as palavras durante essa quaresma, evitando-se maledicências, intrigas e mentiras.

Durante a metade da minha existência fui muito religioso, conhecia bastante os dogmas e doutrinas da igreja católica apostólica romana. Essa é nossa matriz cultural brasileira. 

Assistir hoje a duas missas foi como se o tempo estivesse parado há décadas. Os ritos de uma missa são exatamente os mesmos de antes, de sempre. Em dois milênios devem ter mudado pouca coisa. Após décadas, eu sabia cada passagem da missa.

Eu me persignei por décadas, tinha minha visão de mundo organizada através da concepção religiosa da vida humana. 

Por causa dessa experiência, tenho boa compreensão a respeito do comportamento humano por causa da fé em alguma religião. 

Durante as duas horas na Catedral da Sé, pude refletir muito sobre os brasileiros e os seres humanos. 

William 

sábado, 25 de outubro de 2025

Instantes (14h56)



Refeição Cultural

Acordei neste sábado com o corpo moído, cansado. Está claro que meu corpo não acompanha mais meu espírito. Bastou três dias seguidos de atividades políticas para cansar fisicamente. Por décadas, minha resistência não tinha fim... agora tem (risos irônicos).

Sabendo que meus sistemas cardíaco, muscular e endócrino estão sob risco, mantive minha disciplina de tentar fazer atividades físicas e saí para uma corridinha. Corri menos do que queria, mas acolhi o pedido do meu corpo. Sem ele, não seria nem estaria aqui.

HOMENAGEM A VLADIMIR HERZOG 

Se eu ouvisse somente os desejos do espírito (meu cérebro, o verdadeiro criador de tudo), teria um evento político para ir hoje, dia que nos lembra os 50 anos do assassinato do jornalista Vladimir Herzog, morto pelos trogloditas da extrema-direita que deu um golpe de Estado em 1964. Estarei na Sé presente em pensamento. Vladimir Herzog, presente!

Preciso descansar. Sou novo na idade, mas meu corpo é como um carro de aplicativo: rodou por muitos percursos e trilhas, algumas bem difíceis, e agora o motor está meio capenga.

Sigo como posso.

Will i am 

25/10/25

sábado, 2 de agosto de 2025

Leituras tardias



Refeição Cultural

Ao longo do viver, sempre guardei materiais de cultura que gostaria de ler ou ver algum dia. 

Quando voltei para São Paulo, antes dos dezoito anos, trouxe somente algumas roupas e pequenos pertences pessoais (é o que me lembro). Iria morar na casa de minha avó Deolinda e já moravam com ela outros jovens, meus primos. Apesar do aperto, comecei ali a colecionar livros, revistas, partes de jornais e outras mídias.

Naquela época, anos oitenta, era consenso na sociedade humana que a educação e o conhecimento tinham importância para o caminhar pela vida adulta, principalmente para nós da classe trabalhadora, chamada às vezes de periférica. Queríamos ser inteligentes, ter formação escolar e adquirir cultura para evoluirmos como seres humanos e vencermos na vida, como se dizia.

Tenho materiais de cultura que datam dos anos oitenta e noventa: muitos livros, por suposto, e recortes de jornais e materiais do movimento sindical, inclusive. Nunca tive coragem de me desfazer dessas mídias, a maioria nunca lida por ter outras prioridades no viver diário de um proletário.

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Imigração japonesa - 100 anos (2008)

O caderno que li desta vez é sobre os 100 anos da imigração japonesa para o Brasil, publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo, no dia 12 de junho de 2008, uma quinta-feira.

Eu tenho interesse pela cultura oriental desde que era criança, sempre apreciei coisas relativas ao povo japonês e chinês. 

Na adolescência, ao avaliar possibilidades na vida, pensei até em ser decasségui (dekasegi). No fim, um primo é que foi trabalhar no Japão por alguns anos.

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100 anos de imigração completados em 2008

De forma resumida, o caderno traz informações básicas sobre o Japão e o processo de imigração japonesa para o nosso país.

O artigo de Simone Iwasso conta a história da família imperial. As comemorações no Brasil contaram com a visita do príncipe herdeiro, Naruhito, à época com 48 anos, filho do imperador Akihito e da imperatriz Michiko.

Na matéria de Fernando Nakagawa, soube que "Dos japoneses e descendentes que vivem fora do Japão, 60% escolheram o Brasil. Atualmente (ou seja, 2008), há cerca de 1,5 milhão de japoneses e descendentes no País. Em seguida, estão Estados Unidos, com 900 mil, e Peru, com 90 mil descendentes."

Celso Kinjô, em texto feito para o caderno, nos conta que até o fim da 2ª Guerra Mundial os imperadores japoneses eram considerados deuses. Foi o imperador Akihito, em 16 de agosto de 1945, que revelou aos súditos que era "um humano igual a todos" ao declarar que o Japão estava se rendendo ao inimigo. O anúncio foi em rede de rádios.

Márcia Placa nos revela a origem do saquê, descoberto por acaso, quando um barril de arroz não foi vedado corretamente e azedou. No final do caderno, ela faz outra matéria sobre a Turma da Mônica e os personagens Keika e Tikara, criados por Maurício de Sousa em homenagem ao centenário.

A matéria de Valéria Zukeran "O desafio: preservar a memória em papel" é muito boa. Livros e revistas ajudam a manter a história dos imigrantes e à época havia um esforço grande para se digitalizar materiais antigos e disponibilizar outras formas de mídia para a preservação de cultura.


Gostei da reportagem de Fernanda Yoneya sobre os festejos em Santos, SP. Foi lá que aportou, em 18/06/1908, o navio Kasato-Maru, "trazendo os primeiros imigrantes japoneses - uma chegada tão marcante que a cidade, na época, ficou conhecida como Porta do Sol Nascente". Os imigrantes tiveram contribuições importantes na região como, por exemplo, na atividade da pesca.

A cidade de Santos inaugurou no centenário a escultura "Vermelha", homenagem aos 100 anos da imigração japonesa no Brasil, doada pela artista Tomie Ohtake (1913-2015), localizada na extremidade do Parque Municipal Roberto Mário Santini, na orla do José Menino.


Literatura japonesa

A matéria de Renato Cruz, sobre a tradutora Leiko Gotoda, convida a gente a ler os livros traduzidos por ela.

Um dos romances japoneses mais conhecidos no Brasil é Musashi, de Eiji Yoshikawa, publicado no Brasil em 1999. Leiko traduziu diversos livros de seu tio Jun'ichiro Tanizaki, autor importante do século passado.

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O artigo de Jorge J. Okubaro - "Da rejeição à integração" - descreve um pouco do que os imigrantes japoneses tiveram que enfrentar ao longo desse século no Brasil. 

"Em Raça e assimilação, editado em 1933, Oliveira Viana escreveu que 'o japonês é como o enxofre: insolúvel', dando um certo ar científico à tese, popular na época, de que o japonês é 'inassimilável'."

Vejam o que pensava dos imigrantes um dos autores famosos da época, intelectual querido até por gente do campo chamado "progressista". 

O povo japonês veio ao Brasil para trabalhar quase como escravo em lavouras paulistas de café e depois sofreu na pele o peso da 2ª Guerra Mundial ao pertencer ao país associado aos nazistas e fascistas (Eixo).

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A riqueza da cultura japonesa 

Enfim, terminada a leitura do caderno inteiro dedicado ao centenário da imigração japonesa para o Brasil, acrescentei algum conhecimento novo ao pouco que conheço dessa temática.

Quase duas décadas depois da publicação do caderno especial, um leitor do futuro leu as matérias olhando para o passado. A experiência é interessante. Sempre gostei de fazer isso.

A cultura japonesa faz parte do cotidiano do autor do blog porque os mangás e animes fazem parte dos momentos culturais da família, sem contar o interesse que tenho pelo idioma japonês.

Sigamos lendo e aprendendo alguma coisa nova todos os dias de existência neste belo planeta Terra, um mundo sendo destruído pelo animal humano.

William


Bibliografia:

Caderno Imigração japonesa 100 anos. O Estado de S. Paulo, quinta-feira, 12 de junho de 2008.


terça-feira, 1 de julho de 2025

Instantes (22h17)



Refeição Cultural

Pode ser só impressão do observador, mas me parece que estamos vivenciando o fim de um ciclo da sociedade humana, se não global, pelo menos desta a qual pertenço. 

Tudo está se degenerando, perdendo a qualidade, estragando. Ao ouvir o noticiário, dá vontade de mudar de mundo, mas só temos este. As pessoas... alteradas pelos donos do poder ideológico, degeneraram. As coisas das relações humanas, então, fodeu.

Como disse no primeiro parágrafo, pode ser somente o mundo ao qual pertenço essa degeneração, o fim dos tempos, o tempo escatológico. Pode ser que lá do outro lado da Terra, na Ásia, no Oriente, haja um mundo de esperança. 

Aqui no meu mundo, o Nunes e o Tarcísio estão vendendo tudo, tudo, tudo, todo dia, todo dia, tudo. Até rua agora é vendida pros parças. Tudo. Se ligar a TV, entrar na internet, olhar qualquer coisa como tv de elevador, lá estão eles, Nunes, Tarcísio, Bolsonaro, Motta... Trump, Netanyahu, os "coitados" dos sionistas... uma blitzkrieg comunicacional da extrema-direita dona do capital para pautar a agenda da massa alienada.

Degeneração da sociedade humana ("Ocidental"?).

É o que tenho visto com meus olhos míopes... essa blitzkrieg desarranja todo o organismo que nos mantém vivo...

Tá foda! Mas quero viver. Preciso viver. A vida é uma oportunidade diária. 

Will i am

01/07/25

domingo, 25 de maio de 2025

Instantes (15h46)



Refeitório Cultural

Quando fui comer um pão de queijo que trouxe da padaria para o café, fiz uma prece ao Deus dos palestinos para que ele interceda por seu povo que está morrendo de fome neste momento na Faixa de Gaza sendo ocupada pelo exército de Israel, que mata crianças, mulheres, idosos e civis diariamente e o mundo não faz nada para interromper esse genocídio. Mais cedo, ao tomar um copo de iogurte e comer uma banana, também me senti mal ao pensar na fome dos palestinos em Gaza. Que mundo é esse? O que posso fazer para mudar essa realidade? Estou com vergonha da minha espécie animal.

Ao caminhar no Parque Continental, uma região ainda arborizada da cidade e do Estado governados por dois humanos que representam a morte e a destruição da natureza em benefício de seus parças capitalistas, minha mente esperançava utopias contrariando minha razão que me deixa com cara de cu para a existência humana. Na caminhada com dores no quadril esperançava que ainda posso melhorar minha condição física, quase acreditando em milagres. Ao redor a natureza: que insiste em viver, mesmo sob ataque feroz dos humanos, que insistem em matar a vida de tudo. Até borboletas e flores multicores enfeitaram meu caminho.

Os filhotes da fauna e os brotos da flora são sempre a esperança da vida. Sempre. Sementes da esperança os filhotes, as crianças e as plantas. Até o quentinho do sol insiste em fazer a gente acreditar no amanhã.

Que o Deus dos palestinos e os deuses de todos os povos (os que pregam o amor e não o ódio) prevaleçam e a gente possa ter um amanhã.

William

25/05/25

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Poema 24: Ao modo Mario Quintana


AO MODO MARIO QUINTANA


A vida foi assim:

Quando vi, era criança feliz no Jardim Ivana.

Quando vi, era criança infeliz no Marta Helena.

Quando vi, era ódio e vontade de morrer.

Me vi mudado, organizando o mundo.

Quando fui ver, estava cancelado, por quê, não sei.

Faria diferente se outra oportunidade tivesse?

Não! Fiz o melhor que pude do meu tempo.


William Mendes

15/01/25 (Diálogo com o poema "Seiscentos e sessenta e seis)


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Poema 11: Normalizaram tudo


NORMALIZARAM TUDO


Gonet almoça com indiciados bolsonaristas!

Itaú Unibanco tem lucro de 41,4 bilhões de reais!

Golpistas planejaram matar o presidente Lula, o vice e Moraes!

Congressistas brasileiros discutem anistia geral a golpistas!

Normal?


Ministério Público autoriza "penduricalho" de 1 milhão a promotores!

Juízes recebem mais de 500 mil reais de bônus além dos salários!

Ex-segurança de Tarcísio é afastado por suspeita de envolvimento com PCC...

No dia da eleição, Tarcísio acusou Boulos de envolvimento com PCC...

Tarcísio segue sem processos e elegível.

Normal?


A Alemanha de Hitler criou as leis de Nuremberg

nas quais judeus, ciganos e negros não eram cidadãos.

Os Estados Unidos de Trump assinaram leis

nas quais imigrantes perdem direitos constitucionais.

Normal?


Trump quer anexar Canadá, Panamá e Groelândia.

Hitler e os alemães sonhavam com o "Espaço Vital" alemão.

Unido a Netanyahu, Trump quer realocar 2 milhões de Palestinos de Gaza.

Normal?


Os donos dos meios de comunicação de massa

como as big techs e os barões da mídia comercial

normalizaram tudo. Até Bolsonaro e Lira foram normalizados.


Normalizaram tudo...

O nome disso é ideologia.


William

06/02/25


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Poema 10: Sorry, o Brasil não é dos brasileiros


SORRY, O BRASIL NÃO É DOS BRASILEIROS


Itaú Unibanco tem lucro de 41,4 bilhões. 

Banco Central aumenta selic para 13,25%.

(O "mercado" estava nervoso)

MST na mira da grilagem urbana.

Receita não vai monitorar transferências por Pix.

("Empresários" seguem sem pagar impostos)

Lucro do agro vai para paraísos fiscais. 

Os donos da Enel cagam pros paulistas.

O superávit da Sabesp agora é lucro dos parças.


Definitivamente,

o Brasil não é dos brasileiros!

Infelizmente. 


William 

05/02/25


quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (25) - Lembrança de morrer, Álvares de Azevedo



LEMBRANÇA DE MORRER - ÁLVARES DE AZEVEDO 

          No more! o never more!

                       Shelley


Quando em meu peito rebentar-se a fibra

Que o espírito enlaça à dor vivente,

Não derramem por mim nem uma lágrima 

              Em pálpebra demente.


E nem desfolhem na matéria impura

A flor do vale que adormece ao vento:

Não quero que uma nota de alegria 

Se cale por meu triste pensamento. 


Eu deixo a vida como deixa o tédio

Do deserto, o poento caminheiro 

- Como as horas de um longo pesadelo 

Que se desfaz ao dobre de um sineiro;


Com o desterro de minh'alma errante,

Onde fogo isensato a consumia:

Só levo uma saudade - é desses tempos

Que amorosa ilusão embelecia.


Só levo uma saudade - e dessas sombras 

Que eu sentia velar nas noites minhas...

De ti, ó minha mãe! pobre coitada

Que por minha tristeza te definhas!


De meu pai... de meus únicos amigos,

Poucos - bem poucos - e que não zombavam

Quando, em noites de febre endoidecido,

Minhas pálidas crenças duvidavam.


Se uma lágrima as pálpebras me inunda,

Se um suspiro nos seios treme ainda,

É pela virgem que sonhei... que nunca 

Aos lábios me encostou a face linda!


Só tu à mocidade sonhadora

Do pálido poeta deste flores...

Se viveu, foi por ti! e de esperança

De na vida gozar de teus amores.


Beijarei a verdade santa e nua,

Verei cristalizar-se o sonho amigo...

Ó minha virgem dos errantes sonhos,

Filha do céu, eu vou amar contigo!


Descansem o meu leito solitário 

Na floresta dos homens esquecida,

À sombra de uma cruz, e escrevam nela:

- Foi poeta - sonhou - e amou na vida. -


Sombras do vale, noites da montanha 

Que minh'alma cantou e amava tanto,

Protegei o meu corpo abandonado,

E no silêncio derramai-lhe um canto!


Mas quando preludia ave d'aurora

E quando à meia-noite o céu repousa,

Arvoredos do bosque, abri os ramos...

Deixai a lua pratear-me a lousa!

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COMENTÁRIO:

Alguns poetas, poemas e poéticas vão melhor nos meus entendimentos. Outros são bem mais desafiadores pra mim.

Li quase a primeira parte inteira da "Lira dos Vinte Anos" para escolher esse poema.

As primeiras duas estrofes posso declamá-las por mim mesmo, pois nada quero que digam depois que não mais existir.

Minha mãe foi também confidente e cúmplice décadas atrás, quando perdido estava no começo da vida adulta. À época, a morte se lembrava de mim o tempo todo. Passou.

Enfim, eis aí o poema do dia.

William Mendes


Bibliografia:

AZEVEDO, Álvares. Lira dos vinte anos. Coleção Vestibular, O Estado de São Paulo. Klick Editora: São Paulo, 1999.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Natais - 1981


Meu minuto no paraíso: Parque do Sabiá.

Refeição Cultural

Uberlândia, 16 de dezembro de 2024. Segunda-feira.


Vim visitar meus pais e familiares alguns dias antes do Natal deste ano. Nossa porção paulista não virá a Minas Gerais como fizemos nos dois últimos anos.

Felizmente, pude rever a abraçar pais, irmã e cunhado, sobrinhos e família, tia e primo. Tenho muitos familiares na cidade, mas a correria dos afazeres que tento encaminhar quando venho aos meus pais dificulta fazer outras visitas a tios e primos. Mas sei que estão bem, é o que nos deixa feliz.

Vim pensando muito nas questões da temporalidade da vida e no instante presente, que é único. Estou ainda com a frase que ouvi de uma entrevista antiga de Fernanda Montenegro, ao responder sobre medo da morte e dizer que tem pena de morrer, porque viver é poder ver o céu azul, estar com pessoas que se ama, ter acesso a conhecimento e cultura etc.

É isso, querida Fernanda Montenegro, pode acreditar que ontem, ao passar por uma floreira cheia de borboletas coloridas em festa, sob um céu azul intenso, parei e fiquei lá vários minutos VIVENDO...

Viver é a oportunidade de ver um céu azul e 
flores e borboletas coloridas num instante único.

Outra coisa que me preocupa sobre a efemeridade da vida é a questão da memória, da essência do que nós seres humanos somos, nossas memórias e nossa identidade, guardadas em nossa mente, em nosso cérebro de bilhões de neurônios que nos fazem ser o que somos, a partir do aculturamento que cada um de nós teve ao longo da vida.

Tenho um desafio enorme como cada semelhante nosso: viver o presente e o amanhã, caso ele exista para mim.

Honestamente, avalio que as relações humanas estão ruins, em todos os âmbitos sociais, aqui e acolá, e não podemos desistir de mudar o comportamento humano individualista, intolerante e sem paciência alguma para a alteridade e a diversidade de pensamentos e características pessoais. A mesmice em qualquer espécie é a morte dela.

Tenho tanta coisa nas ideias para falar sobre isso que vou fazer o contrário, não vou rabiscá-las aqui.

Conversando com minha mãe ontem, só poderia dizer que ambos lamentam nossas experiências e pequenas sabedorias não servirem para nada para as pessoas que amamos. A gente vai se cansando de tentar passar alguma coisa de boa que aprendemos por sobreviver neste mundo duro que sobrevivemos. Ninguém quer saber de nossa opinião, nem no ambiente familiar, nem nos grupos onde um dia convivemos socialmente.

Eu tenho consciência sobre as coisas do mundo. Burro não diria que sou. Sei do meu lugar no mundo. E sei que no momento atual desse mundo nenhum de meus conhecimentos e acúmulos tanto pessoais como coletivos serve para nada, sequer para as pessoas mais próximas a mim. Isso é um fato e a vida de todo mundo segue neste minuto e no seguinte, até não seguir mais.

Enfim, tenho a impressão nesta véspera de mais um Natal que há um espírito de pouca solidariedade entre as pessoas, tenho a leitura que algumas daquelas recomendações do cristianismo estão fora de moda: o perdão de forma gratuita, acolher a quem pensa diferente, não querer ao outro o que não se quer para si mesmo e vários ensinamentos que o homem Jesus Cristo pregou em sua passagem por este mundo.

Eu sou ateu há mais de duas décadas, mas por três décadas fui criado e aculturado na ambiência do cristianismo da igreja católica. Às vezes, acho que sou hoje mais dogmático e seguidor das palavras de Jesus do que muita gente que se diz religiosa e só usa o nome de Deus e do Cristo para arrotar ódio, violência, vingança, individualismo, intolerância e manifestações demoníacas do tipo, caso houvesse demônios por aí.

Enfim, estou procurando equilíbrio, algum sentido para a vida minha e de todos nós, e acredito na inteligência humana e na educação e formação política. Não sou determinista. Nós podemos criar e mudar tudo porque é da nossa natureza humana fazer isso.

Sigamos tentando viver, contribuir para o mundo e as pessoas no mundo e lutando por salvar o próprio mundo, a natureza onde todos nós vivemos.

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NATAL DE 1981

Nosso Natal deve ter sido em Uberlândia (MG), para onde nos mudamos desde o início do ano anterior. 

A gente morava numa casa de fundo na Av. Comendador Alexandrino Garcia, no Marta Helena. Na casa da frente, a proprietária era a Dona Nenzinha, benzedeira da região. 

Me lembro que ela me dava uns trocados para copiar rezas em folhas de papel para ela dar aos fiéis. Ela me benzia de "espinhela caída". 

Fiz da 5ª a 8ª série na E. E. Hortêncio Diniz. 

Foi um tempo de mudanças para mim. Me lembro da casa pequena e do quintal com pés de frutas. 

É incrível como meu mundo de criança mudou! Tirando bolinhas de gude, que segui jogando e ganhando latas de bolinhas - que em MG se chamavam bilocas -, eu não empinei mais pipas porque ninguém brincava disso e de outras coisas que fazíamos em São Paulo. 

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Mundo

Tenho uma leve lembrança dos atentados que Ronald Reagan (EUA) e o Papa João Paulo II sofreram em 1981. Eles foram baleados. 

Ainda na política, sei que os desgraçados dos milicos iriam promover um atentado num festival de MPB para culpar a resistência civil e democrática na véspera do dia dos trabalhadores, mas se ferraram, a bomba explodiu no colo de um dos fdp. 

O evento é conhecido como Atentado do Riocentro.

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Os milicos em 2022 - A história no Brasil é um treco bem jabuticaba, só aqui mesmo. Décadas depois de impunidade e anistias a fdp golpistas, não é que meses atrás, uns milicos de merda, junto com um "presidente" de merda (ele é cagão mesmo), organizaram um novo golpe de Estado até com listinha de assassinatos de autoridades da República! Iam explodir o Aeroporto de Brasília, matar Lula, Alckmin e um ministro do STF etc. Esse mundo é um lugar velho... as coisas são antigas e vêm de longe.

William Mendes


Post Scriptum: o texto anterior desta série pode ser lido aqui.


sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (6) - Ai Jesus!, Álvares de Azevedo



AI JESUS! - ÁLVARES DE AZEVEDO 


Ai, Jesus! não vês que gemo,

Que desmaio de paixão 

Pelos teus olhos azuis?

Que empalideço, que tremo,

Que me expira o coração?

               Ai Jesus!


Que por um olhar, donzela,

Eu poderia morrer

Dos teus olhos pela luz?

Que morte! que morte bela!

Antes seria viver!

               Ai Jesus!


Que por um beijo perdido 

Eu de gozo morreria 

Em teus níveos seios nus?

Que no oceano dum gemido

Minh'alma se afogaria?

               Ai Jesus!

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COMENTÁRIO:

Amores reais ou platônicos, em sociedades do passado ou do presente, entre iguais ou divergentes, amores, humanos sentimentos, abstrações criadas pela mente humana. 

Ao ler sobre o poeta brasileiro Manuel Antônio Álvares de Azevedo, fiquei pensando na vida do autor. O paulistano morreu aos 21 anos de idade! Mal teve vida adulta.

Ele viveu suas duas décadas de vida naquele Brasil dos anos 1831 e 1853, entre São Paulo e Rio de Janeiro. São Paulo, a cidade no morro, lá em cima no planalto, que tinha cerca de 15 mil habitantes, ladeiras de barro pra lá e pra cá. 

Pelo que li na seção de informações da edição que tenho - "É Help" - quase toda a criação poética e literária de Álvares de Azevedo foi reunida e publicada após sua morte.

Os críticos classificam sua criação poética no período do Romantismo brasileiro. 

A leitura de poemas como os da poética de Azevedo é uma leitura gostosa por causa das rimas, da sonoridade. 

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É isso! Seguimos lendo poemas neste mês de dezembro. Não tenho muita coisa nova em casa, vou continuar a leitura dos livros dos autores que tenho e que iniciei neste mês.

O tempo é curto também. O importante é um pouco de contato diário com poesia. Só para atiçar a mente e o coração.

William Mendes


Bibliografia:

AZEVEDO, Álvares. Lira dos vinte anos. Coleção Vestibular, O Estado de São Paulo. Klick Editora: São Paulo, 1999.


domingo, 10 de novembro de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 10 de novembro de 2024. Domingo.


CORRIDA DA AABB-SP

Dias atrás, ao reiniciar alguns trotes após um mês sem atividades físicas por causa da militância nas eleições municipais, corri 2K e 3K e vi que estava muito ruim de condicionamento físico. Temi não conseguir correr a prova de 5,1K na AABB-SP neste domingo. Felizmente, deu tudo certo. Fiz meu trotinho tranquilo pelas alamedas do clube e corri a prova em uns 37'.

Reencontrei no clube o grande amigo Ramon, presidente de nossa associação atlética. Nos conhecemos desde quando entrei no Banco do Brasil, em 1992, e Ramon foi um baita companheiro de gestão e lutas pelos direitos em saúde dos associados da Cassi durante nossa gestão eleita entre 2014 e 2018. O amigo me deu uma linda camisa comemorativa dos 90 anos de nossa AABB, entregue por sua esposa Viviane. Valeu, meus queridos! Vida longa e de sucesso à nossa AABB.

A deliciosa participação no circuito de corridas da AABB teve a participação decisiva de outro amigo do BB, o Roberto, que me inscreveu pela equipe Suçuarana: eu não tinha me atentado para o calendário de corridas e ele me fez o convite e a lembrança sobre a prova. Eu participo das corridas de nossa associação desde que elas começaram faz bastante tempo. Valeu, Roberto! O amigo não conseguiu vir para São Paulo hoje. 

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MANIFESTAÇÃO: NÃO AO TÚNEL SENA MADUREIRA!

Depois da participação bem cedinho na corrida da AABB-SP, fui me solidarizar e participar da luta contra a construção de um túnel na região da Sena Madureira, na Vila Mariana. 

Hoje teve um grande ato em defesa dos moradores da região da Sena Madureira, da comunidade Souza Ramos e do meio ambiente, pois a obra está destruindo um corredor verde com mais de 170 árvores enormes, saudáveis e muito antigas da região e ameaça retirar mais de 200 famílias do local.

A obra está envolvida em denúncias e irregularidades há mais de uma década e ela não resolve praticamente nada em termos de trânsito, além de ser ruim ambientalmente e urbanisticamente.

Participaram companheiras e companheiros nossos da região do Butantã, que também enfrenta obra danosa e destruidora: a Nova Raposo Tavares. Várias lideranças políticas estiveram presentes no ato.

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O DOMINGO FOI DE ATIVIDADES

Só uma reflexão antes de finalizar: tenho uma preocupação com a tendência de muita gente a não sair mais de casa, fato que aumentou após a pandemia e com a ampliação dos sistemas de entrega a domicílio. Acho importante o contato com as pessoas nas ruas e nos transportes públicos. Somos humanos, somos seres sociais, ainda. 

Hoje conversei com o motorista do uber, que fez uma fala de quem não votou no Boulos e duvidou da proposta do Poupatempo da Saúde. Expliquei a ele que trabalhei com gestão de saúde e falei o quanto a proposta era inovadora e necessária. Estávamos falando do tema porque citei os problemas do Hospital do Campo Limpo. 

Peguei várias linhas de metrô e trem, como faço desde adolescente. Hoje foi catraca livre por causa do Enem. O trem demorou pra caramba! 

É isso!

William Mendes


terça-feira, 5 de novembro de 2024

Opinião - Os significados por trás das desfiliações partidárias e sindicais



Os significados por trás das desfiliações partidárias e sindicais


Opinião

O peso de uma desfiliação na vida pessoal e da instituição que perdeu aquela militância


1a parte

Fiquei refletindo por um tempo para avaliar a melhor forma de abordar a simbologia da perda de um companheiro valoroso de nosso Partido dos Trabalhadores nesta semana. O amigo e colega do Banco do Brasil, Daniel Kenzo, presidente do Diretório Zonal do Butantã, informou ontem que se desfiliou do Partido. Entendo que sua saída foi uma perda imensa para o PT. 

Quem de nós militantes sindicais ou partidários já não pensou alguma vez em se desfiliar do sindicato ou do partido por motivações diversas? Quando uso o termo "militante" estou indo um pouco além da relação formal entre a pessoa e a instituição à qual se associou. Militância é um grau acima na relação. Já tem coração envolvido naquela filiação, tem sentimento de pertencimento.

Até mesmo as motivações para se filiar ao sindicato ou ao partido são diversas, é verdade. Algumas são até descompromissadas, episódicas, sem um conteúdo ideológico. No entanto, avalio que uma das questões centrais de uma filiação seja o sentimento de confiança nos propósitos, nas práticas e nas pessoas que lideram aquela instituição de luta política. (falarei a respeito disso na 2ª parte desta reflexão)

Como afirmo em minhas reflexões, sempre recorro às experiências que acumulei na luta política para analisar e tentar compreender o mundo. Respeito as avaliações teóricas baseadas nos estudos, acredito na ciência e na capacidade da mente humana em analisar situações e criar soluções para os problemas do mundo.

O peso da experiência - No entanto, tem um ditado muito válido que aprendi no movimento sindical que carrego comigo desde o contato com ele: "a prática como critério da verdade". Desde que compreendi a ideia por trás desse conceito, tentei exercer os mandatos de representação baseados nesse princípio ético.

O companheiro e militante Daniel Kenzo desempenhou na presidência do Partido e nos movimentos populares em nossa região esse princípio ético da prática como critério da verdade. E sob sua liderança, a militância viveu intensamente o sentimento de confiança nos propósitos, nas práticas e nas pessoas que lideram nossas frentes de lutas.

Na última vez que conversamos, no dia da foto acima, lutando para eleger nosso projeto para a cidade de São Paulo, falamos um pouco sobre nossos sentimentos em relação ao Partido e à linha política mais ao centro e liberal que as direções do PT vêm tomando. Não concordamos com o afastamento do Partido dos princípios, concepções e práticas basilares da esquerda e da busca por uma sociedade socialista, ou pelo menos de combate ao capitalismo. 

Partilhei com ele minha opinião de que seria interessante tentar um pouco mais a luta interna pelos rumos do Partido, pois sua liderança poderia nos ajudar pelo respeito que ele tem da militância e dos outros diretórios. Mas só a pessoa para saber os seus limites e o que já vem enfrentando no cotidiano como membro da direção partidária.

Desejo que o amigo Daniel siga firme nas lutas por um mundo mais justo e solidário porque sabemos que ele é um militante de esquerda apaixonado, mas desejo sobretudo que o companheiro encontre um pouco de paz de espírito e alegria na militância, porque queremos mudar o mundo e não deixá-lo como está. Tamo junto, compa! Você tem o meu apreço e carinho e você é um exemplo de liderança!

(Post Scriptum: espero que lideranças partidárias consigam convencer o companheiro a permanecer no Partido)

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2a parte

SINDICALIZAÇÃO E FILIAÇÃO PARTIDÁRIA

"Avalio que uma das questões centrais de uma filiação seja o sentimento de confiança nos propósitos, nas práticas e nas pessoas que lideram aquela instituição de luta política"


Tenho inúmeras lembranças da vida de trabalhador bancário, memórias tanto como trabalhador de base como de dirigente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região e da Confederação da categoria, a Contraf-CUT.

No Unibanco, nos anos oitenta, fui sindicalizado pelo pessoal da Regional Osasco do Sindicato. Eu trabalhava no Centro Administrativo (CAU) na Raposo Tavares. Os dirigentes e funcionários do Sindicato me convenceram da importância de ser associado para fortalecer as lutas da categoria. Até ajudei a organizar uma das greves da época. O companheiro Marcos Martins sempre foi minha referência de liderança sindical e política.

Dois anos depois que fui demitido do Unibanco, voltei a ser bancário do Banco do Brasil, entrei por concurso público em 1992. Assim que vi a atuação do Sindicato na região da Lapa, onde trabalhava, voltei a me sindicalizar, e lá se vão mais de três décadas de filiação ao Sindicato de nossa categoria profissional. A companheira Deise Lessa foi a minha primeira referência de liderança sindical e política do BB.

Por ter sido convencido pelas lideranças sindicais, por ter visto a prática cotidiana do Sindicato e por acreditar nos propósitos das lutas coletivas que nós fazíamos, me filiei e passei a ser um incentivador das filiações ao Sindicato. Eu não largava do pé do colega enquanto ele não preenchesse a ficha de sindicalização e me devolvesse, tanto quando estava na base quanto após virar diretor eleito.

As histórias de sindicalização são muitas e dariam crônicas bem legais. Eu gosto de citar a sindicalização de um colega do BB que conheci na agência Pinheiros, ele não gostava de sindicalista nem de sindicato. Não aceitava nem pegar a Folha Bancária. Foi um trabalho persistente de aproximação e construção de confiança no que representávamos. A vida seguiu e um tempo depois eu entro em outra agência em Osasco e ele me chama do fundo da dependência me pedindo uma ficha de sindicalização. Disse que após me conhecer e ver a condução do Sindicato na campanha salarial ele tinha mudado de opinião e aquilo me marcou profundamente. Filiação a um sindicato ou partido é um pouco isso: compartilhar dos propósitos e práticas e confiar nas lideranças!

Minha filiação ao Partido dos Trabalhadores foi uma espécie de formalização de algo que para mim já era um pertencimento de classe. Tirei meu título de eleitor em 1988 e meu primeiro voto foi para eleger Luiza Erundina prefeita de São Paulo. Sempre votei no PT por entender que trabalhador vota em trabalhador e me filiar em 2002, quando o movimento sindical fez uma campanha para fortalecer o partido que tinha acabado de eleger o primeiro presidente vindo das classes populares, o metalúrgico e sindicalista Lula, foi algo mais que natural formalizar a filiação ao PT.

O movimento contrário, desfiliar do partido ou não querer mais ser sócio do sindicato, precisa ser avaliado e considerado com muito peso pelas direções do movimento. Ainda mais quando se trata de um militante, alguém que tem relação mais orgânica com a instituição, como disse no início do texto.

Entendo que evitar uma desfiliação de um militante ou liderança deveria ser algo de extrema relevância pelas instâncias partidárias e sindicais. Não considero adequadas avaliações burocráticas do tipo "vida que segue" ou "isso é assim mesmo, uns entram, outros saem" etc.

Para um militante decidir sair de um movimento ao qual dedica sua vida e suas melhores energias é porque algo não vai bem, porque existe um processo de decepção e sofrimento em curso e muitas vezes a liderança é um reflexo do que muitos militantes estão sentindo. Por isso entendo que nosso Partido e ou nosso Sindicato deveria envidar esforços para acolher lideranças querendo se expressar na instituição, lideranças muitas vezes forjadas nas lutas e com histórico de contribuições coletivas às causas da instituição e do movimento.

A saída do Partido ou de uma corrente política é um processo que causa grande dor e sofrimento, muitas vezes, porque a pessoa tem um forte espírito de pertencimento àquela organização de luta. Sei bem o que é o processo. Mais recentemente, eu fui encontrar pertencimento nas lutas que o Daniel e companheir@s do Butantã e Zona Oeste vinham realizando desde a pandemia mundial de Covid-19. 

Com a saída do Daniel, um amigo de longa data, não sei como ficará minha participação, porque o Diretório não era burocrático, era aberto e acolhia militância para além da formalidade, eu sou de Osasco, por exemplo. Enfim, incertezas...

À ESQUERDA OU À DIREITA?

Para concluir, avalio que o momento histórico pelo qual passa a esquerda no Brasil e no mundo é complexo e todo esforço no sentido de construir unidade deveria ser feito pelas direções partidárias, sindicais e das demais lutas populares. 

No PT e na CUT há uma clara divisão entre aqueles que desejam resgatar as bandeiras históricas da esquerda para cobrar do governo e da política avanços para o povo e há aqueles que sugerem que se dobre ao centro e à direita, abandonando qualquer reivindicação histórica em nome de uma ilusória governabilidade e hipotética reeleição de Lula em 2026, algo que só se realizará se as condições políticas estiverem construídas para tal.

William Mendes
Ex-dirigente nacional dos bancários


Post Scriptum (6/11/24):

Trump é eleito nos EUA - Com a vitória da extrema-direita norte-americana, e global, fica o alerta para a necessidade da unidade da esquerda em torno de pautas que representam  a luta de classes. Ir para o "centro" ou para a direita não fará o povo na condição miserável em que se encontra votar no PT e em Lula. Não fará! Unidade entre nós e tolerância para ouvir e aceitar a diferença de ideias na esquerda é urgente para construirmos uma pauta unificada de uma frente ampla de esquerda.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Diário e reflexões


Nossa homenagem e gratidão a Isabel Suarez,
que faleceu dia 27/10 em Havana, Cuba.
Nossa solidariedade ao amigo Luis Caballero e família.

Refeição Cultural

Osasco, 31 de outubro de 2024. Noite de quinta-feira.


OUTUBRO

Mais um mês se passou em nossas vidas. Mais um mês se passou em minha existência. Como vivi este mês? Espero ter vivido de forma digna e ter tentado contribuir para o bem comum nos 31 dias do mês.

Para tentar mudar o mundo, me uni a diversas pessoas ao longo do mês para abordar cidadãs e cidadãos nos espaços públicos em São Paulo e Osasco no intuito de eleger projetos e representantes políticos com propostas humanistas, inclusivas e que transformariam as comunidades onde vivemos.

Exerci uma militância voluntária em portas de metrôs, feiras e ruas conversando com a população para que o povo paulistano votasse em nossa candidata a vereadora, Luna Zarattini, e Guilherme Boulos para prefeito de São Paulo. A jovem Luna foi eleita e conseguimos levar Boulos para o 2º turno. Infelizmente, não conseguimos maioria no dia 27 e o povo elegeu o candidato que representa tudo o que não queríamos para a maior cidade do país.

Foi bonito ver tanta gente somando para defendermos
nosso projeto de uma cidade mais humana e acolhedora.
A professora Ione passou horas na militância no Rio Pequeno.

Em Osasco, aconteceu a mesma coisa. Nosso projeto para a cidade não foi eleito. Felizmente, elegemos nossa representação para a Câmara Municipal, os jovens do Coletivo JuntOz - Heber, Gabi e Matheus. Ficamos felizes pela conquista dessa candidatura do campo progressista.

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No mês de outubro não consegui me dedicar à saúde. Aliás, foi positivo ter encontrado energia para a dedicação que tive na militância política sem sentir dores na região do quadril e lombar. Não posso reclamar de nada.

A família passou uns sustos, mas estão todos bem. Meu pai e meu cunhado estão bem após sofrerem acidentes de carro lá em Minas Gerais. Minha irmã está se recuperando da cirurgia no ombro. Sigo sendo uma pessoa de sorte.

No dia do resultado das eleições municipais, além da tristeza de ver nossas candidaturas progressistas serem derrotadas em diversas cidades do país, soube do falecimento de nossa querida companheira Isabel Suarez, revolucionária cubana. Ela estava em casa com o senhor Luis quando faleceu. Fiquei muito triste com a perda de nossa amiga e companheira.

A Casa de Isabel sempre acolheu centenas de brasileiros em Cuba e todos nós seremos eternamente gratos a querida Isabel, que estará sempre em nossas memórias e em nossos corações.

Companheira Isabel, presente!

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Consigo apreciar mais o instante do viver?
A florada de um ipê branco é um instante, horas.
Quem tiver a sorte de apreciar esta beleza, que aprecie!

CARPE DIEM

Sinto uma grande necessidade de mudança. Por ter consciência política, por ter alguma experiência de vida, sinto dentro de mim que não podemos desistir do mundo. 

Parece que quanto mais desesperança vejo ao meu redor, mais sinto que é minha responsabilidade fazer algo pela mudança, minha e de todas as pessoas que tiveram a oportunidade de estudar e de evoluir a consciência.

E a mesma consciência que avalio que tenho me lembra o tempo todo que a vida é um instante, que num segundo ela existe, no instante seguinte pode não existir mais. 

Que farei para mudar as coisas a partir das próximas horas do viver? Fiquei pensando nas palavras de Pepe Mujica, em documentário que assisti no ICL agora no final da noite de quinta-feira. 

Não podemos perder tempo com coisas que não são importantes para nós. A vida é muito preciosa para perdermos tempo sem fazer o que nos dá prazer e alegria por estarmos vivos.

Preciso viver cada instante com mais percepção e atenção ao instante vivido. 

O que importa realmente para a minha pessoa neste momento da existência? Como encontrar algum prazer ou motivação no dia que vou vivenciar?

Pense, William! Viva o dia intensamente, mesmo que a intensidade seja observando com prazer uma flor ou uma borboleta. A água que cai do chuveiro em contato com a pele. Um copo de água para matar a sede.

Terminou mais um mês no calendário da vida humana. Começa já um novo dia e um novo instante.

Consigo alguma paz e um Carpe Diem?

William


domingo, 27 de outubro de 2024

Diário e reflexões

 


Refeição Cultural

A semana decisiva foi de muita energia e sentimento de mudança nas ruas de São Paulo

Domingo, 27 de outubro de 2024.


Opinião


ELEIÇÕES MUNICIPAIS

Esta semana foi de muitas atividades da militância para conversarmos com eleitores indecisos e conquistarmos os votos necessários para elegermos Guilherme Boulos e Marta Suplicy para a prefeitura de São Paulo. E o próprio candidato fez algo inédito: ficou a semana toda nas ruas junto à população paulistana.

Nós da militância da Zona Oeste de São Paulo, fizemos atividades praticamente todos os dias. Num dos dias, a professora Ione, minha companheira, ficou horas conosco e o time da vereadora Luna Zarattini virando votos na Avenida do Rio Pequeno, Butantã. Vejam vocês, até pessoas que não estão acostumadas a abordagem popular, entraram em cena pelo vira voto e muda São Paulo. Muita energia no ar!

Estivemos nas imediações dos metrôs da região, onde panfletamos nos últimos meses. A percepção que eu tive foi muito positiva. Diferente de outras fases da campanha, muita gente nos pedia adesivo, trabalhadores de aplicativos colocaram adesivos em suas motos: é Boulos 50 pra mudar São Paulo. Até motoristas de ônibus se aproximaram e de dentro do veículo me pediram adesivos. Clima de virada no ar!

E, no sábado, para fechar a campanha pela eleição de Guilherme Boulos 50 prefeito de São Paulo, fizemos uma ótima caminhada da vitória, saindo da Avenida Paulista e descendo a Rua Augusta até a Praça Roosevelt. Que energia! 

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CRIME ELEITORAL DO GOVERNADOR DE SP

A certeza de impunidade por parte da casa-grande brasileira não tem limites. Eu acompanho e estudo política e história do Brasil há tempos. Já vi muita coisa e sei de muitos abusos dos poderosos no país explorado há séculos pelos imperialismos e por seus lacaios daqui - a burguesia vira-latas.

Hoje a casa-grande se superou. O governador Tarcísio de Freitas, parceiro do candidato Ricardo Nunes a reeleição em São Paulo, ousou no dia da eleição a praticar um crime absurdo de ir à imprensa declarar que a maior facção criminosa do país, o PCC, havia declarado voto e apoio à candidatura de Guilherme Boulos... (sem apresentar provas, e mesmo se as tivesse não poderia ter feito isso)

É tão chocante e descabido o que fez o bolsonarista Tarcísio, de uma forma torpe para que sua declaração influencie os eleitores sem chance de desmentido pelo candidato opositor, que se não houver punição rápida e severa a essa interferência de poder político nas eleições, podem decretar o fim dos processos eleitorais! Que se declare que não há democracia no país e chega de farsa!

Vamos ver o que acontece nas próximas horas.

William Mendes

(Domingo, 17:40 horas)


Post Scriptum: a plutocracia prevaleceu, como se espera em processos de consultas como esses baseados em poder do dinheiro e da máquina estatal pela manutenção do status quo. A candidatura de Guilherme Boulos obteve o apoio de 40% dos eleitores que se dispuseram a votar. A luta deve continuar, não há alternativa para nós que pensamos nas pessoas e no planeta Terra.