Mostrando postagens com marcador Chris McCandless. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Chris McCandless. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 16 de março de 2026

Vendo filmes (XXXIV)



Refeição Cultural

A EFEMERIDADE DA VIDA HUMANA


Quatro filmes me deixaram pensativo nesses dias, quatro filmes muito diferentes em suas temáticas e enredos, mas que me chamaram a atenção para uma questão: a efemeridade da vida humana. 

As histórias do professor Marcelo ("O agente secreto"), do lenhador Robert ("Sonhos de trem") e do autor de peças teatrais William ("Hamnet") são histórias de todos nós, homens e mulheres do mundo, de hoje e de ontem. 

A história do andarilho Chris McCandless ("Na natureza selvagem") é a história de pessoas que não se encaixam na sociedade humana dominada pela lógica da posse supérflua de coisas, coisas e mais coisas, mercadorias inúteis do fetiche capitalista. 

Uma história se passa nos anos setenta, durante a ditadura no Brasil, outra se passa um século antes, ainda na expansão para o Oeste, nos Estados Unidos, e uma terceira se passa lá na Inglaterra, séculos atrás. 

A história do jovem McCandless é a mais recente, é do tempo da minha adolescência, no início dos anos noventa do século XX. 

O que é a vida humana se a compararmos com a natureza e seus elementos? 

Podemos existir por muito ou pouco tempo, fazer coisas grandes e importantes ou nada de relevância histórica, nossa lembrança pode permanecer por um breve tempo ou por um pouco mais de tempo. No entanto, estamos fadados ao esquecimento, ao desaparecimento. 

A vida e a existência são assim mesmo. E tudo bem. Quer dizer, tudo bem nada! O difícil é aceitar essa nossa pequeneza diante do mundo, da natureza em si.

Ainda estou bolado, pensando nessa questão da efemeridade natural da vida, a partir das histórias das personagens dos filmes. 

Sabedores dessa realidade, deveríamos viver de maneira mais consciente, sorvendo o que importa sem desvios de atenção para coisas irrelevantes. 

E o pior é que não fazemos isso. E a vida passa e não fizemos ou sentimos o que poderia ser feito ou sentido...

A vida é breve, é um instante, mesmo quando se vive algumas décadas... um instante. 

E como estamos vivendo? O que temos priorizado na vida? Já fizemos algo hoje que valha a pena?

Nunca se sabe se ao sair de casa um galho vá cair em nossa cabeça e o fim seja aquele instante. 

---

FILMES


O agente secreto (2025)

Direção: Kleber Mendonça Filho. Com: Wagner Moura, Tânia Maria, Maria Fernanda Cândido e elenco.

Sinopse:

Ambientado no Recife, no final dos anos setenta, período de exceção da ditadura no Brasil, o filme conta a história de Marcelo, professor universitário - cujo nome verdadeiro é Armando - que retorna à terra natal após conflitos com um industrial poderoso que paga assassinos de aluguel para perseguir o professor. Marcelo quer encontrar seu filho, que está com os avós, e viver a sua vida e ser feliz.

Comentário:

A cena inicial do filme já me transportou para o passado no qual cresci: policiais bandidos e abusadores tentando receber propina dos cidadãos no cotidiano do Brasil dos anos setenta e oitenta (e ainda hoje). 

Mesmo sendo pobre de pele branca, tomei enquadro dos desgraçados da polícia desde pequeno...

Com os cidadãos afrodescendentes é mil vezes pior, a vida do pobre não vale nada para a polícia da casa-grande: matam o povo periférico mais do que se mata nas guerras. A maioria dos negros e descendentes ocupam as bases da pirâmide social. 

Gostei muito do filme! O que se passou com Armando, ou Marcelo, ser vítima de algum poderoso por qualquer motivo banal, é o retrato do Brasil do passado e do presente. 

Nossa vida pode encontrar o fim só pela casualidade de se cruzar o caminho de um fdp desses, caras do 1% ou do exército dessa casta canalha, que odeia o povo e o Brasil.

Quem nunca ouviu falar do perigo do guarda da esquina... 

-


Sonhos de trem (2025)

Direção e roteiro: Clint Bentley. Com: Joel Edgerton, Felicity Jones e elenco.

Sinopse:

O filme conta a história de Robert Grainier, um lenhador do início do século XX nos Estados Unidos, desde sua adolescência, união com Gladys Olding, com quem constitui família, e suas jornadas e ausências de casa para ganhar o sustento cortando árvores centenárias para a construção de trilhos de trem rumo ao Oeste.

Comentário:

De todos os filmes dos quais teço impressões, "Sonhos de trem" é o de maior temática sobre a brevidade da vida, na minha opinião. 

Num instante, estamos e não estamos mais aqui, somos e não somos mais. 

Num instante, uma árvore com centenas de anos de existência perde a vida, morta por uns minúsculos seres com ferramentas cortantes lá no rés do chão. 

Num instante, um galho de uma árvore centenária cai na cabeça de um ser minúsculo lá no rés do chão e lá se vai a vida, num instante. 

Num instante, um incêndio pode por fim a inumeráveis formas de vida... e das cinzas novas formas de vida podem surgir. Outras vidas nunca mais serão as mesmas após um grande incêndio.

Somos natureza, somos seres quase invisíveis em nossas existências, assim somos nós. Robert é uma existência única, sua esposa e filha também, eu e vocês somos existências únicas. 

Todos somos passageiros do mesmo trem, o trem da vida, o trem da brevidade da vida. 

E todos temos nossos sonhos. E os sonhos nos movem por esses trilhos e caminhos...

-


Hamnet: a vida antes de Hamlet (2025)

Direção: Chloé Zhao. Com: Jessie Buckley, Paul Mescal e elenco.

Sinopse:

O filme conta a história do casal Shakespeare, o nascimento dos filhos, a morte do filho Hamnet ainda pequeno, e o drama que essa perda trouxe à família. A tragédia inspirou o dramaturgo a escrever uma de suas peças mais famosas, Hamlet.

Comentário:

A interpretação brilhante de Jessie Buckley como Agnes Hathaway, esposa de William Shakespeare, rendeu a ela o prêmio de melhor atriz da Academia em 2026. Incrível sua performance, sem dúvida. O prêmio foi merecido.

No entanto, o filme me levou às lágrimas por uma questão sempre muito pessoal, naquilo que mais toca a cada um de nós: a morte e o sentido da vida. No meu caso, a lembrança do dilema dramático do personagem Hamlet, da clássica peça de Shakespeare. 

Ser ou não ser, eis a questão...

A reflexão completa do personagem é desconhecida por aqueles que ainda não conhecem a peça, Hamlet vive sob intensa dor ao saber das traições em família que levaram à morte seu pai. A dor lancinante aumenta ao ver sua mãe esposa de seu tio.

O filme me trouxe reflexões sobre a brevidade da vida, sobre o ser e estar por aqui ou não, me lembrou a difícil superação de não querer ser e estar por aqui por longos anos e pelas oportunidades surgidas por ter sido e ter estado por aqui nas últimas décadas... ser ou não ser... dormir, acordar, talvez sonhar...

Shakespeare, Hamlet, Hamnet... valem a pena!

-


Na natureza selvagem (2007)

Direção: Sean Penn - Trilha sonora de Eddie Vedder

Com: Emile Hirsch (Chris), Jena Malone (irmã), Kristen Stewart ("crush"), William Hurt (pai), Marcia Gay Harden (mãe), e elenco. 

Sinopse:

Christopher McCandless, filho de pais ricos, se forma na Universidade de Emory como um dos melhores estudantes e atletas. Porém, ao invés de partir para uma carreira prestigiosa e lucrativa, ele escolhe doar suas economias para a caridade, livrar-se de seus pertences e viajar rumo ao Alasca.

Comentário:

Quando vi pela primeira vez o filme baseado na história real de Chris McCandless, dirigido por Sean Penn, a partir do livro de Jon Krakauer, fiquei impactado por muito tempo. 

McCandless nasceu um ano antes de mim e no início dos anos noventa estava em sua busca pessoal por liberdade, autoconhecimento e fuga de uma sociedade humana capitalista, toda ela baseada nas posses de coisas, coisas, coisas. Ele estava de saco cheio de relacionamentos humanos tóxicos e interesseiros e queria se isolar na natureza selvagem do Alasca. 

Na mesma idade e na mesma época, eu procurava respostas para as mesmas perguntas.

Ao rever o filme duas décadas depois, já sabendo da descoberta feita por "Alex Supertramp", o nome que McCandless adotou em seus tempos de andarilho, fiquei pensando em muitas coisas, muitas. 

A lição a respeito da felicidade verdadeira ser alcançada através dos relacionamentos humanos, algo que Chris compreendeu a partir da vivência de sua jornada e também pela leitura de grandes autores como, por exemplo, Tolstoi - e o livro "Felicidade conjugal" -, me pegou de jeito desde o instante que tomei conhecimento da história do jovem andarilho.

"Happiness only real when shared"... (é isso mesmo! é verdade isso! e nesse sentido, posso dizer que fui feliz... os momentos mais marcantes de minha vida foram ao lado de alguém)

---

É isso, termina aqui mais um texto da série de comentários sobre filmes que me trazem reflexões sobre a vida.

O comentário anterior pode ser lido aqui

William Mendes 

16/03/26

domingo, 16 de março de 2025

Instante (Manguel, Borges cego, tio Léo, minha avó, Chris McCandless)



Refeição Cultural

Alberto Manguel conta em seu livro Uma história da leitura que por dois anos leu para Jorge Luis Borges já quase cego. Manguel era um jovem vivendo em Buenos Aires nos anos sessenta. Borges disse ao rapaz que sua mãe de 88 anos estava com dificuldades de ler para ele.

Tenho pensado muito esses dias no tio Léo. A situação de meu quadril me faz tentar imaginar o que o tio Léo pensava ou sentia ao perceber que suas pernas começavam a falhar e deixá-lo na mão. 

Ouvindo a trilha sonora de Na natureza selvagem, história do jovem "Alex Supertramp", na verdade Chris McCandless, trilha musicada por Eddie Vedder, também fico imaginando em tudo que Chris sentiu e pensou sozinho por meses no Alasca, principalmente quando riscou as últimas palavras no ônibus mágico: "Happiness is only real when shared". Pensei muito nessa mensagem... é verdade!

A foto que está marcando as páginas do livro de Manguel é da minha avozinha Cornélia, mãe do tio Léo e de minha mãe. A vó faleceu já faz alguns anos. Minha vó e o tio Léo, o filho caçula, eram muito apegados à vida.

Borges cego, tio Léo, minha avó, Chris McCandless sozinho no Alasca...

Minha avó caiu num segundo que viu uma oportunidade de andar sozinha quando não tinha ninguém por perto... quebrou o fêmur. 

A vida é tudo isso que viveu tio Léo, minha avó, McCandless, Borges... e nós. 

William 

16/3/25 (2h49)

sábado, 11 de junho de 2022

Diário e reflexões (11/06/22)


Refeição Cultural

Osasco, 11 de junho de 2022. Sábado frio.


Estava ouvindo Eddie Vedder nesta manhã de sábado. Suas músicas nos levam para a essência do que somos - um universo de possibilidades a partir das projeções de nosso cérebro humano. Músicas melodiosas, suaves acordes de guitarra que nos fazem viajar, letras com substância - amor, natureza, buscas pessoais... Voz inconfundível e potente do cantor. O mundo da cultura nos salva! Ouvi uma playlist vinculada ao filme e à história de Chris McCandless - Na natureza selvagem. Viagem, viagens...

Ao ouvir Eddie Vedder, ao me lembrar de McCandless, me lembrei de Jesse Koz e seu cãopanheiro Shurastey. Ao me lembrar deles, me lembrei do conceito humano "liberdade". E junto com a abstração "liberdade" veio o seu complemento conceitual "felicidade".  Liberdade e felicidade, duas abstrações humanas que preenchem os sonhos de parte considerável dos animais da espécie humana.

Conheci as histórias de McCandless e Jesse Koz após eles viverem suas vidas, após experimentarem o viver de forma muito mais intensa que a amplíssima maioria de nós, animais humanos engaiolados nas selvas de pedra de nossos cotidianos envenenados com as coisas coisas coisas da abstração humana "capitalismo". Dois caras que me fazem pensar muito nos significados da existência humana, da minha principalmente...

---

Preciso reencontrar minhas atitudes perdidas. Tenho alguns lugares pra ir. Preciso ver algumas pessoas. Tenho coisas a desfazer. Tenho uma imensidão de coisas pra conhecer, estudar, saber. Cultura pode nos salvar. Como sei que não sei nada! Quero aprender muita coisa ainda. Estou aberto ao novo, ao mundo.

Sigo buscando, procurando...


quinta-feira, 2 de junho de 2022

Lembranças (A busca da felicidade)


A busca da felicidade

- Me lembro que uma das coisas que mais me deixou bolado ao tomar conhecimento da história do jovem Alexander Supertramp - o pseudônimo do norte-americano Chris McCandless, que saiu cortando os Estados Unidos como andarilho com o objetivo de chegar ao Alasca - foi a mensagem que ele nos deixou ao final de sua jornada de busca pela felicidade (ele chegou ao Alasca): "happiness only real when shared". Após dois anos perambulando à margem da sociedade, McCandless descobriu que os momentos de felicidade que mais marcaram pra ele foram aqueles nos quais ele estava com outras pessoas. Na época assisti ao filme sobre sua vida - Na Natureza Selvagem (2008) -, li o livro de Jon Krakauer e ouvi por meses a fio a trilha sonora do filme, feita por Eddie Vedder. Fiquei mals por muito tempo com a história de McCandless. Sua aventura se deu entre os anos 1990 e 1992. Em 2008 eu estava perto dos 40 anos e passei um tempo avaliando minha vida, minhas tristezas e infelicidades, e procurando momentos de felicidade e percebi que Chris tinha razão. Os momentos felizes que vinham em minha memória eram momentos de felicidade compartilhada... eu estava com alguém. Estar feliz sozinho é diferente de estar feliz com alguém.

- Me lembro o tempo todo nos últimos dias da história do jovem Jesse Koz e seu fiel amigo Shurastey, seu cão da raça retriever, e também de seu fusca 1978, o Dodongo. Eu não o seguia, não o conhecia, e acabei tomando conhecimento dessa dupla incrível após a notícia do acidente que tirou a vida deles quase chegando ao Alasca, dias atrás (na segunda-feira 23/5/22). Jesse e seu amigo saíram em uma jornada em busca da liberdade e da felicidade em 2017, após o jovem de 24 anos não aguentar mais a rotina massacrante de trabalhador em loja de shopping center em Balneário Camboriú (SC). A dupla e o Dodongo saíram sem destino e assim foram parar no "fim do mundo", em Ushuaia, na Patagônia Argentina, e de lá começaram a aventura pelos Estados brasileiros e pelos países da América do Sul e Central, até que a pandemia de Covid-19 interrompeu a viagem deles. Lá em Ushuaia, Jesse havia definido seu grande objetivo e destino, o Alasca. Nos últimos meses, eles estavam nos Estados Unidos e quase chegaram ao destino final... 

"Life's a Journey, Not a Destination
And I Just Can't Tell Just What Tomorrow Brings
" (Amazing, Aerosmith)

Pois é, após ver diversos vídeos e momentos dessa jornada, a cabeça da gente lida com um turbilhão de pensamentos sobre a vida. Como diz a música da banda Aerosmith "A vida é uma jornada, não um destino...". Tudo que vi até agora me dá a impressão que esse rapaz e seu fiel amigo mostraram ao mundo do capitalismo e da futilidade de tudo o que pode ser a felicidade e a liberdade tão desejadas por quase todo mundo. A vida é a própria jornada, a própria jornada é a vida e ela pode ser feliz. O que mais vi até agora nos vídeos de Jesse e Shurastey é a felicidade pura e simples... eles foram felizes até o último instante de suas vidas, foram 5 anos de felicidade, mais de 80 mil quilômetros de felicidade. Felicidade compartilhada! Compartilhada inclusive com milhares de pessoas que os seguiam.

- Me lembro que ontem passei o dia pensando em uma forma de buscar alguma mudança na vida. Não rolou nada. Faz meses que estou lidando com uma busca por algo. Interessante que essa busca de algo já dura décadas em minha vida. Até adotei quando era jovem o lema da música "I Still Haven't Found What I'm Looking For", da banda irlandesa U2, como uma espécie de metáfora de minha vida: uma busca de algo que ainda não havia encontrado. Na verdade a gente passa a vida em busca da felicidade, da liberdade, da realização de coisas boas para a nossa vida. Olho pra trás e vejo que fiz coisas boas, e fiz coisas ruins também. Mas que foda! As décadas de existência passaram e me pego neste momento com a mesma busca de toda uma vida... e ainda não encontrei a felicidade. Cheguei a achar que havia achado um sentido, um significado para o viver. Até signifiquei mesmo o viver nas últimas décadas. Mas voltei ao início de toda a busca. Lógico que falo da felicidade sem nenhuma ilusão de uma felicidade permanente. Não estou feliz. Muita coisa faz parte desse sentimento. Não conseguiria ser feliz com a cabeça que tenho hoje, com a miséria e a destruição das pessoas e do mundo como estamos vendo neste momento da história do Brasil e do mundo. Cada um, cada um. Estou infeliz ou triste, ou os dois... mas não desisti. Sigo buscando.

---

Não sonhei solução alguma para a minha mudança de estado. Aliás, sonhei com os contextos aos quais vivi e pertenci e já não pertenço mais. Jesse e Shurastey são uma das coisas mais fantásticas que poderíamos conhecer neste momento macabro do mundo e do capitalismo que coisifica tudo.


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A Era da Empatia - Os mitos de origem, de Frans de Waal


Capa do livro.

Refeição Cultural

A leitura do primeiro capítulo do livro nos leva a pensar muito sobre o ser humano e a sociedade em que vivemos. Também nos coloca a refletir sobre os mitos criados para se justificar como sendo "natural" a dominação por parte daqueles humanos que pertencem ao status quo atual - o sistema capitalista.

Cito abaixo alguns excertos que gostei do capítulo (já fiz outra postagem com algumas coisas legais deste mesmo capítulo).

CAPÍTULO 1

BIOLOGIA, ESQUERDA E DIREITA

"Os que enfatizam a liberdade individual quase sempre consideram os interesses coletivos uma ideia romântica, coisa de maricas e comunistas. Eles preferem a lógica do 'cada um por si'."

E

"Muitos animais sobrevivem cooperando e compartilhando os recursos, e não aniquilando-se uns aos outros ou conservando tudo para si mesmos. Isso se aplica mais claramente aos animais que caçam em bando, como os lobos e as orcas, mas também aos nossos parentes mais próximos, os primatas."

OU SEJA,

"Se o homem é o lobo do homem, isso é verdadeiro em todos os sentidos, e não apenas no sentido negativo. Não seríamos o que somos hoje se nossos ancestrais tivessem vivido isolados uns dos outros." (Muito bom!)

O VÍNCULO É IMPORTANTE PARA A FELICIDADE

"O vínculo é um elemento essencial para a nossa espécie. Não há nada que nos faça mais felizes (...) A busca da felicidade mencionada na Declaração da Independência dos Estados Unidos é antes de tudo um estado de satisfação das pessoas com a própria vida (...) Não é o dinheiro, o sucesso ou a fama o que mais faz bem às pessoas, mas o tempo que elas passam com os amigos e a família."

COMENTÁRIO: 

Aqui, não tem como não me lembrar da descoberta do jovem Chris McCandless (Na Natureza Selvagem) que descobriu que - "HAPPINESS ONLY REAL WHEN SHARED" (a felicidade só é verdadeira quando é compartilhada).

ALGUNS MITOS DE ORIGEM

1º) nossos ancestrais eram os reis da savana

"Pode ser que os nossos ancestrais tenham ocupado uma posição na cadeia alimentar superior à da maior parte dos primatas, mas definitivamente eles não estavam no seu topo. Eles precisavam se manter em permanente estado de alerta. Isso tem relação com o primeiro falso mito acerca do 'estado natural' da nossa espécie, o mito de que os nossos ancestrais eram os reis da savana. Como isso poderia ser verdade se, de pé, esses primatas bípedes não passavam de um metro e vinte de altura? Eles certamente viviam aterrorizados pelas hienas do tamanho de ursos que existiam naqueles tempos, e pelos tigres de dente de sabre que tinham o dobro do tamanho dos leões que conhecemos hoje. Em consequência disso, nossos ancestrais tiveram que se contentar em caçar num horário de 'segunda classe'..."

2º) a sociedade como criação voluntária de homens autônomos

"A segurança é a primeira e a mais forte motivação da vida social. Isso tem relação com o segundo mito de origem, igualmente falso, de que a sociedade humana é uma criação voluntária de homens autônomos. A ilusão, nesse caso, é a de que os nossos ancestrais levavam vidas independentes, não precisando de mais ninguém. O único problema é que eles eram competitivos demais, o que fez com que o custo de suas disputas se tornasse insuportável. Como eles eram animais inteligentes, decidiram abrir mão de algumas liberdades em troca da vida em comunidade. Essa história de origem, proposta pelo filósofo francês Jean-Jacques Rousseau sob o nome de contrato social, inspirou os fundadores dos Estados Unidos a criar a 'terra dos homens livres'. Esse mito permanece extremamente popular nos departamentos de ciência política e nas faculdades de direito, uma vez que ele apresenta a sociedade como um compromisso negociado e não como algo que ocorreu naturalmente com a nossa espécie."

COMENTÁRIO: 

Cara, pelo que li até agora da obra O Leviatã de Thomas Hobbes, ele também aborda essa questão de abrir mão da "liberdade de natureza" para conviver em sociedade.

SEMPRE PRECISAMOS DOS OUTROS: 

"Como ocorre com boa parte dos mamíferos, todo ciclo da vida humana inclui estágios nos quais dependemos dos outros (na infância, na velhice ou quando ficamos doentes) e nos quais os outros dependem de nós (quando cuidamos das crianças, dos velhos ou dos doentes). Precisamos uns dos outros para sobreviver."

3º) sempre nos dedicamos a guerra

"Chegamos assim ao terceiro e falso mito de origem, o de que a nossa espécie vem se dedicando à guerra desde seu aparecimento. Na década de 1960, após as devastações da Segunda Guerra Mundial, os humanos costumavam ser retratados como 'primatas assassinos' - em oposição aos verdadeiros grandes primatas não humanos, considerados pacifistas. A agressão era considerada a marca inconfundível da espécie humana (...) Geralmente, a decisão de entrar em guerra é tomada pelos homens de idade mais avançada que fazem parte do governo. Quando observo um exército marchando, o que vejo não é necessariamente o ataque em ação, mas sim o instinto de manada: milhares de homens em fileira cerrada, dispostos a obedecer a seus superiores."

COMENTÁRIO: 

Eu sempre digo nos cursos de formação ou nas reuniões políticas para as pessoas tomarem muito cuidado com o "espírito de manada" e para buscarem pensar e raciocinar sobre aquilo que fazem.

POTENCIAL PARA A GUERRA: 

"Nossa única certeza é de que nossa espécie dispõe de um potencial para a guerra. Sob certas circunstâncias, esse potencial manifestará sua face tenebrosa."

PORÉM: 

"Os laços com os estranhos asseguram a sobrevivência em ambientes imprevisíveis, possibilitando que os riscos da escassez de água ou de alimentos sejam repartidos entre os grupos."

COMENTÁRIO FINAL

Deu trabalho digitar esses excertos para os leitores, mas eles nos levam a reflexões profundas. Estou lendo lentamente o livro por falta de tempo. Leiam também. É bom.

William Mendes


Bibliografia:
WAAL, Frans de. A era da empatia. Companhia Das Letras. 2010 SP.