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terça-feira, 1 de abril de 2025

Instantes de leitura (e da vida)



Refeição Cultural

"Porque pictura est laicorum literatura" (O Nome da Rosa, Umberto Eco, 2003, p. 48)


Eu já havia lido quase duzentas páginas deste clássico de Umberto Eco quando tive a consciência de que estava lendo mal o romance. Parei. 

A lição de Paulo Freire é séria: não importa a quantidade e sim a qualidade da leitura. 

Recomecei a ler e sem pressa O Nome da Rosa (1980). Ler sem me concentrar e viajar na história com Adso de Melk e o Frei Guilherme de Baskerville seria pura perda de tempo, um tempo que não tenho de sobra mais. 

Na passagem que li hoje, a dupla de personagens está admirando o portal da igreja que compõe o conjunto arquitetônico da abadia que visitam. Eles estão hipnotizados com as pinturas desenhadas no portal.

Ler com atenção é a única leitura que dá prazer. Até a citação em latim entendi sem precisar de tradução. A lição é antiga: como o povo era analfabeto, eram as pinturas que contavam as histórias e passagens dos livros sagrados.

Enquanto lia as descrições das figuras que Adso de Melk nos contava, fiquei me lembrando das pinturas e esculturas em relevo que vi em igrejas famosas na Itália e outros lugares. É algo espetacular!

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"Você não pode embarcar de novo na vida, esta viagem de carro única, quando ela termina" (p. 37/38)

Quanto ao livro de Alberto Manguel, Uma história da leitura (1999), livro que marcou minha história da leitura, o peguei pra ler como um crente com sua Bíblia. 

A mensagem acima parece ter sido escrita para mim...

Não poderia perder um segundo desta viagem única, pois não poderei embarcar nela novamente, como podemos fazer com os livros, como eu fiz com o do Umberto Eco. 

Estou vivendo esta viagem única da mesma forma que estava lendo Umberto Eco meses atrás...

Que foda.

William 

sábado, 1 de março de 2025

O nome da rosa: arquitetura



Refeição Cultural 

Umberto Eco, um grande pensador


"Pois a arquitetura é dentre todas as artes a que mais ousadamente busca reproduzir em seu ritmo a ordem do universo, que os antigos chamavam de kosmos, isto é, ornado, enquanto parece um grande animal sobre o qual refulge a perfeição e a proporção de todos os seus membros. E seja louvado o Nosso Criador que, como diz Agostinho, estabeleceu as coisas em número, peso e medida." (p. 34)


O noviço beneditino Adso de Melk estava impressionado com o conjunto arquitetônico que via na abadia que acabara de adentrar em companhia de seu mestre, o sábio franciscano frei Guilherme de Baskerville, mais ou menos entre 1324 e 1327 quando pensou a ideia acima.

Ao pegar o clássico de Umberto Eco para ler semanas atrás, parei quando estava chegando à metade do livro. Percebi que não estava lendo com a devida atenção. 

Paulo Freire nos ensina lição importante sobre leitura: devemos prestar atenção e compreender cada palavra e sentença do texto que estamos lendo. Ler é compreender o texto lido, é refletir sobre a leitura e seu significado. Não importa a quantidade de leitura, mas a qualidade da leitura. 

Para se ter uma ideia do quanto minha leitura anterior estava inadequada, ao ler a descrição sobre a impressão que os personagens tiveram ao se depararem com a abadia, eu não havia criado em minha mente a imagem da descrição que Adso fez da entrada pelo único portal da muralha, não tinha imaginado a alameda até a igreja, o horto à esquerda e outras descrições do cenário. Eu havia lido sem ler.

Adso diz ser a abadia em questão a mais bela que viu na vida, citando outras famosas para comparar. 

Enfim... se for para ler, devemos ler corretamente. 

William 


Bibliografia:

ECO, Umberto. O nome da rosa. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Rio de Janeiro: O Globo; Folha de São Paulo, 2003.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (46) - No meio do caminho, Drummond



NO MEIO DO CAMINHO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.


Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.


Do livro Alguma poesia, de 1930.

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COMENTÁRIO:

Não sou determinista. Acredito no poder da educação, que, se efetiva, pode mudar as pessoas, que, educadas, podem mudar a realidade do mundo.

Paulo Freire diz em Pedagogia da Autonomia que só se educa gente.

Mas... são tantas pedras no caminho!

Os fascistas estão em ascensão. Fascistas são contra Educação e Cultura. A mentira é a base da propaganda do nazismo e do fascismo. 

São as pedras no caminho.  

Aqueles que não são fascistas não se entendem. Progressistas e esquerdistas parecem incapazes de se unirem para combater a ascensão do nazifascismo atual.

São as pedras no caminho. 

Pensando nas mentiras que se impõem, na força repressora dos capitalistas que se impõe, nos ideólogos dos poderosos que se impõem, pensei nas pedras no caminho, de Drummond. 

William 


ANDRADE, Carlos Drummond. Nova reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Poema da realidade



POEMA DA REALIDADE

Trump eleito nos EUA.
Bacen aumentou a Selic.
Derrite disse: vitimismo barato!
(A morte por fuzil de uma criança de 4 anos)

Netanyahu segue matando gentes.
Tarcísio disse: no Boulos.
(PCC orientando voto)

Gonet não denunciou Bolsonaro.
Nunes eleito prefeito.

Brasil vetou a Venezuela nos Brics.

João Paulo quer Lira Ministro.
Tatto queria o PT com Nunes.
Melo eleito prefeito.

Paulo Freire: só se ensina gente!

Não há um futuro determinado.
Somos seres históricos e fazemos história.
A mudança depende de nós.

William Mendes

sexta-feira, 26 de julho de 2024

Leituras Capitais - Crime em família



Refeição Cultural - CartaCapital nº 1320

Osasco, 26 de julho de 2024. Sexta-feira.


CRIME EM FAMÍLIA

O conluio para proteger Flávio Bolsonaro e o déficit de inteligência do esquema

Ao ler reportagens como a que narra os crimes de peculato, advocacia administrativa e tráfico de influência do clã de corruptos que governou o país, dá um desânimo terrível na gente.

O conjunto de provas contra essa família que enriqueceu como poucos no país é incrível! A matéria de capa que se inicia na p. 10 é de dar raiva em qualquer pessoa honesta e com um mínimo de caráter e decência. Até um bolsonarista deveria rever suas preferências políticas, se tivesse vergonha na cara.

O pior, o pior mesmo, é ver a tendência do que vai dar tudo isso: EM NADA! Tudo indica que o PGR nomeado por Lula vai fazer o que todos fazem quando as acusações são contra a casa-grande e os ricos: vai enrolar, postergar, adiar as denúncias para que a extrema-direita faça um número gigante de prefeituras e vereanças nos mais de 5 mil municípios do Brasil. Depois, com o crescimento do bolsonarismo e antilulismo, não haverá "condições políticas" para processar e condenar o clã...

Nojo de tudo isso! Saco cheio de saber que no Brasil não há democracia e que os meus pares da militância política vivem seus cotidianos até de forma esforçada, mas sem tesão para lutar pelo socialismo e pelo fim dessa plutocracia que mantém tudo como está há 500 anos!

Não tenho mais saco para conciliar com tudo isso! Quem não luta pelo fim do capitalismo neoliberal plutocrático é conivente com essa merda toda. Não defende os interesses do povo.

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O ERRO DA ISENÇÃO DA CARNE - Aldo Fornazieri (p. 9)

"A medida produz dois grandes danos: aumenta as desigualdades sociais e contribui para o aquecimento global"

Fiquei curioso em saber qual seria a opinião de meus companheir@s sindicalistas e petistas em relação à decisão do Congresso em isentar a carne na tributação brasileira. 

A medida favoreceu os ricos e não os pobres ao não optar-se por um cashback como muitos países fazem para beneficiar as classes desfavorecidas. Foi uma medida regressiva, como sempre no Brasil da casa-grande.

Qual a porcentagem de nossas lideranças de esquerda teria a compreensão de que a decisão foi um golaço a favor do capitalismo e da acumulação de riqueza do 1% e um grande prejuízo para o Estado nacional sob a governança de um presidente e um partido de esquerda? Cinquenta, dez ou um por cento teria a compreensão do que rolou na isenção da carne?

Ao ver as explicações do professor Aldo Fornazieri, concordei com as argumentações dele de que a decisão foi uma derrota para todos nós que não somos de direita, privatistas e que não somos favoráveis ao capitalismo. Que tristeza!

Que tristeza ver que a decisão foi tomada com o apoio de quase todo mundo do nosso lado. Falta formação política, falta visão socialista de mundo a médio e longo prazo; sobra imediatismo eleitoreiro e pragmatismo preguiçoso, fatos que nos impedem de politizarmos as coisas do cotidiano junto às nossas bases sociais, os trabalhadores.

Tenho a consciência de que por quase duas décadas atuei diariamente para politizar a classe trabalhadora que representava, o ano todo. As bancárias e bancários que representei sabem disso.

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SEU PAÍS

A seção é de deprimir qualquer pessoa de esquerda. São 4 matérias que retratam o que é o Brasil. Um país do mandonismo das capitanias hereditárias que pouco mudou em séculos. Uma plutocracia.

MERCADORES DA FÉ - As matérias que deprimem são sobre o tráfico carioca que utiliza a manipulação da fé, com chefes do crime se dizendo "evangélicos" e proibindo religiões de outras matrizes - afro e católica, por exemplo - nas comunidades dominadas pelo tráfico e milícia.

HIPÓCRITAS NA ÁREA DE HIPÓCRATES - Na área da medicina, os negacionistas bolsonaristas provavelmente seguirão no comando do CFM, trocando a ciência pelas crenças bizarras que eles defendem prejudicando mulheres, crianças e toda a sociedade com práticas contra vacinas, aborto etc.

PARA "NEM" EDUCAR O POVO - Eu que sou grande admirador da educação, fico arrasado cada vez que leio sobre o Novo Ensino Médio (NEM). Um artigo na p. 28 nos conta que eles venceram, aqueles que odeiam a educação e que querem o povo atrasado conseguiram manter o Brasil entre os piores na educação na América Latina.

VIVA O MST! - A única notícia de esperança é a que nos conta que o MST está atuando com estratégia e planejamento para tentar eleger centenas de candidatos nas eleições de outubro nas câmaras municipais e algumas prefeituras, pois nas comunidades onde atua, o movimento traz resultados concretos para a população e isso facilita o diálogo local.

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ECONOMIA

Seguimos aceitando a esculhambação daquele neto de ditador no Banco Central sem fazer nada... 

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NOSSO MUNDO

Das 4 matérias da seção, duas me impactaram: a sobre Cuba (p. 42) e o artigo do professor Belluzzo (p. 40). 

A das eleições da plutocracia norte-americana, caguei pra ela.

Belluzzo me lembrou o artigo do professor Pedro Serrano sobre a necessidade de se defender os direitos porque direitos são criações humanas, não são naturais. Belluzzo afirma que apenas o Estado, fundado na lei, pode proteger a sociedade dos que visam impor o terror privado. O texto é conceitual e profundo. 

A matéria do TheObserver, de Ruaridh Nicoll e Eileen Sosin, que demonstra que "A crise econômica afeta de forma mais cruel os idosos" quase me levou aos prantos... estive em Cuba nos últimos dois anos e sei das consequências do embargo criminoso e de lesa-humanidade imposto pelos maiores terroristas do mundo, os plutocratas do norte.

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PLURAL

Na seção, o que mais gostei foi a matéria "O ABC da liberdade", anunciando o livro "Inquérito Paulo Freire - A ditadura interroga o educador" (p. 54).

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É como digo ao ler uma edição da revista CartaCapital: saio da leitura bem-informado, politizado e consciente da realidade do Brasil e do mundo. 

Posso até sair da leitura desanimado, mas não perco minha crença na mudança a partir da inteligência e da luta coletiva. 

Somos seres históricos e o futuro não está definido, nós fazemos o futuro. 

William 


Post Scriptum: o comentário anterior sobre as leituras capitais pode ser lido aqui.


domingo, 9 de junho de 2024

15 de 100 dias



15. Sigo em busca de mudanças, de sentidos para a existência. Estou sem pertencimento às coisas. Para seguir existindo, aliás, tenho que fazer a minha parte em relação ao meu corpo, o condutor de minha pessoa, de minha personalidade. Como o meu envelhecimento tem se mostrado desafiador, pois acredito que abusei do meu organismo animal, estou em busca de diagnósticos para identificar se tenho apenas desgastes nos quadris e mais alguns envelhecimentos de sistemas internos ou se tenho algo a mais para tentar resolver. Tenho uns exames em andamento para identificar meu estado de saúde. Estranho dizer que estou me acostumando a viver com dores... (que merda, isso!).

Como é de responsabilidade exclusivamente minha revigorar meu organismo, sei que tenho que fazer um pouco de musculação para recuperar a massa muscular perdida (sarcopenia) e tenho que atuar com periodicidade para manter e melhorar minhas capacidades cardiorrespiratória, musculoesquelética e circulatória, é minha obrigação manter esses sistemas em bom funcionamento. Correr, andar e pedalar são as minhas preferências em relação a isso, atividades aeróbicas. Desde que iniciei esse período de 100 dias, pratiquei atividades físicas em 9 dias, sendo 3 corridas, 4 dias de musculação e 2 de caminhadas. Estou atento a isso.

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Em relação aos materiais de educação e formação política e sindical, estou separando mídias que podem ser úteis às lideranças sindicais que me disseram que têm interesse nos materiais que estou separando para doar.

Hoje assisti a dois vídeos muito bons, que nos emocionam pelo que retratam.

TODAS AS LETRAS

O primeiro vídeo é sobre o projeto de alfabetização de jovens e adultos "Histórias e Sonhos com Todas as Letras". O documentário aborda a experiência entre os anos de 2005 a 2008 e os depoimentos de educandos e educadores nos tocam profundamente. Durante o projeto, mais de 200 mil pessoas tiveram a oportunidade de se alfabetizarem.

1º DE OUTUBRO DE 1981 - DIA NACIONAL DE LUTA (DF)

O segundo vídeo é um documentário histórico feito pelos companheiros de Brasília sobre o 1º de outubro de 1981, um dia de lutas organizativo para a Conclat na Praia Grande. No vídeo, nos emociona ouvir depoimentos e ver imagens daquele período.

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Passando adiante essas mídias, espero contribuir de alguma forma para que elas encontrem pessoas que se interessam por nossa história da classe trabalhadora brasileira. Estes dois DVDs eu tenho repetidos, ficarei com um deles para meu cedoc e doarei a cópia.

William


domingo, 26 de maio de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 26 de maio de 2024. Domingo. 135 anos depois da publicação do texto de José Martí "Las ruinas indias", do livro Edad de Oro


"(...) Hubo sacrificios en masa, como los había en la Plaza Mayor, delante de los obispos y del rey, cuando la Inquisición de España quemaba a los hombres vivos, con mucho lujo de leña y de procesión, y veían la quema las señoras madrileñas desde los balcones. La superstición y la ignorancia hacen bárbaros a los hombres en todos los pueblos." (Martí, p. 520)


SUPERSTIÇÃO E IGNORÂNCIA 

A superstição e a ignorância fazem bárbaros aos homens e mulheres de todos os povos.

José Martí afirmou isso em agosto de 1889. Eu afirmo isso em maio de 2024. Lógico que não é preciso ser nenhum sábio como Martí para perceber isso que se afirma. Um sujeito mediano e alfabetizado como eu consegue perceber a questão, basta saber ler o mundo. Basta não querer enganar aos outros e a si mesmo.

Olhando a história e observando as perspectivas atuais, não é difícil imaginar, numa data futura, a mim mesmo ou a alguém que vê o mundo como eu e com algumas décadas a menos de vida, sendo martirizado aos olhos dos espectadores adoradores de alguma das religiões dominantes num lugar chamado Brasil já dominado por essa gente que hoje cresce em domínio da mente das massas. 

Alguns séculos atrás é nada para vermos a humanidade em movimento. Nossa espécie faz isso, martirizar e sacrificar semelhantes, há milênios.

Há oitenta anos nossa espécie estava queimando milhões de pessoas em alguns lugares da Europa. Durante muito tempo, as pessoas comeram de talheres em suas salas sabendo que tinha gente sendo queimada e faziam de conta que não sabiam ou que aquilo não era problema delas.

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DESCRENÇA NA MINHA ESPÉCIE, APESAR DE NÃO SER DETERMINISTA

Apesar de já conhecer alguma coisa de José Martí e Paulo Freire, duas figuras humanas extraordinárias, humanos que acreditavam na educação e cultura como ferramentas de construção de seres humanos capazes de alterar a realidade insatisfatória e criar sociedades melhores para todos, me encontro pessoalmente num momento de descrença no presente e no futuro de minha espécie. 

Não sou determinista, entendi o ensinamento do mestre Freire, mas minha leitura de mundo, uma leitura de conjuntura e contextos históricos, me faz ter uma leitura desesperançosa do presente e do futuro de minha espécie e por conseguinte de diversas espécies viventes nos biomas nos quais o homem habita e destrói.

A leitura desse texto LAS RUINAS INDIAS de José Martí, descrevendo a diversidade e a riqueza material e intelectual dos povos que habitavam as Américas e que foram destroçados pelos povos que habitavam a Europa e que aqui chegaram para se apossar das terras dos que aqui estavam, e a própria descrição de Martí nos contando que os povos daqui também faziam isso uns com os outros, me fez pensar na "normalidade" de tudo o que se passa neste momento na terra onde habito, um lugar chamado atualmente de Brasil.

Não é "normal" a barbárie do capitalismo neoliberal, o fascismo do bolsonarismo, não é normal. Mas é fato o poder dos donos dos meios capitalistas de normalizar a barbárie. Infelizmente.

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"De Cholula, de aquella Cholula de los templos, que dejó asombrado a Cortés, no quedan más que los restos de la pirámide de cuatro terrazas, dos veces más grande que la famosa pirámide de Cheops. En Xochicalco solo está en pie, en la cumbre de su eminencia llena de túneles y arcos, el templo de granito cincelado, con las piezas enormes tan juntas que no se ve la unión, y la piedra tan dura que no se sabe ni con qué instrumento la pudieron cortar, ni con qué máquina la subieron tan arriba..." (p. 523)

Vejam essa descrição de Martí e pensem agora alguém descrevendo num eventual futuro a antiga Faixa de Gaza... algum eventual sábio como Martí (se ainda houver) contando sobre os povos milenares que ali viveram, árabes palestinos, com sua cultura e construções etc.

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BRASIL DA SUPERSTIÇÃO, DA IGNORÃNCIA E DA IMPUNIDADE

Surpresa alguma ver os acordos para manter numa boa sujeitos como o marreco de Curitiba - um agente do império que fode com nossa terra e nossa gente e ainda é aclamado por milhões -, o clã de genocidas e milicianos do Rio de Janeiro - nenhum deles será preso e podem barbarizar o quanto quiserem -, os homens livres e inimputáveis com carros que custam um milhão de moedas que matam pobres ou arrancam a perna das pessoas miseráveis por dirigirem bêbados etc. Surpresa alguma. Sei ler o mundo.

Surpresa alguma ver o trator passando por cima de nosso estado de São Paulo, pisoteando e martirizando pobres, pretos, estudantes, o trator do fascismo cagando e andando para as manifestações pacíficas de nosso lado. O inimigo está armado, o inimigo manda nas forças repressivas e estimula a violência contra nossos corpos... não somos nada a não ser alvo, mira. Não vamos vencer nossos inimigos com flores, palavras, ideias. Esse tempo passou. Ou reagimos com as mesmas armas ou seremos os povos descritos por José Martí antes da chegada dos homens com armaduras e armas letais.

Minha repreensão, minha cobrança, vai para aquelas pessoas físicas e jurídicas que deveriam politizar a minha classe e não alienar o meu lado. Isso me dá raiva! Tem horas que fico enojado da gente que se diz de "esquerda" ficar iludindo e enganando a massa miserável do meu lado da classe. Meus ex-companheir@s e meus jornalistas preferidos chamam até por apelido o fdp da Corte burguesa feita para favorecer os donos do poder e foder com a nossa vida como há séculos. Mas, e daí? Que diferença isso faz lá fora, lá fora de minha casa, fora de meu corpo?

Acho que os sinais estão claros para mim. Sinais de meu corpo, sinais que vêm lá de fora. É hora de tentar compreender os sinais, ler o mundo e o meu mundo. Acho que não quero mais. Não quero mais participar dessa enganação da gente do meu lado que não acorda o povo para a luta de vida ou morte contra os donos do poder, que não querem conciliar porra nenhuma com o nosso lado. Tínhamos que ir para a guerra total com esses desgraçados. Se for esperar o meu lado reagir, não vai sobrar um de nós. E acho que não vai sobrar mesmo.

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"(...) Hay piedra en que un hombre en pie envía un rayo desde sus labios entreabiertos a otro hombre sentado. Hay grupos y símbolos que parecen contar, en una lengua que no se puede leer con el alfabeto indio incompleto del obispo Landa, los secretos del pueblo que construyó el Circo, el Castillo, el Palacio de las Monjas, el Caracol, el pozo de los sacrificios, lleno en lo hondo de una como piedra blanca, que acaso es la ceniza endurecida de los cuerpos de las vírgenes hermosas, que morían en ofrenda a su dios, sonriendo e cantando, como morían por el dios hebreo en el circo de Roma las vírgenes cristianas, como moría por el dios egipcio, coronada de flores y seguida del pueblo, la virgen más bella, sacrificada al agua del Nilo. ¿Quién trabajó como el encaje las estatuas de Chichén-Itzá? ¿Adónde ha ido, adónde, el pueblo fuerte y gracioso que ideó la casa redonda del Caracol; la casita tallada del Enano, la culebra grandiosa de la Casa de las Monjas en Uxmal? ¿Qué novela tan linda la historia de América!" (p. 526)

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Inteligência, ainda tem na minha espécie. Ainda somos animais passíveis de sermos educados: só se educa gente, nos ensina Paulo Freire. Habilidade, ainda temos. Eu acho que nos faltam líderes. Líderes que compreendam os novos tempos e que tenham desejo verdadeiro de salvar a humanidade e a vida no planeta DERROTANDO nossos inimigos, que estão dispostos a nos derrotar. É uma guerra de vida ou morte. A perspectiva atual é de morte. Mas a vida é sempre uma alternativa. E aprendi que viver é bom, viver é uma oportunidade diária. Mas pra viver temos que derrotar nossos inimigos, que atuam para nos eliminar. É só olhar a história!

Não sei do amanhã. Mas sei que não tenho mais pertencimento a esses grupos que pregam a alienação ao meu lado da classe.

Cheio de alienações.

William


Bibliografia:

Martí en su universo - Una antología. Edición Conmemorativa. Real Academia Española y Asociación de Academias de la Lengua Española. Impreso en Barcelona, 2021.


sábado, 4 de maio de 2024

Livro: Pedagogia da Autonomia - Paulo Freire



Refeição Cultural

Osasco, 4 de maio de 2024. Sábado.


"(...) quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado." (from "Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa" by Paulo Freire)


"Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. Quem ensina ensina alguma coisa a alguém. É por isso que, do ponto de vista gramatical, o verbo ensinar é um verbo transitivo relativo. Verbo que pede um objeto direto — alguma coisa — e um objeto indireto — a alguém." (from "Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa" by Paulo Freire)


CONHECENDO PAULO FREIRE

Ao longo de muitos anos de vida sindical, ouvi falar do "método de ensino Paulo Freire", da luta contra a "educação bancária" e dos livros clássicos do mestre cujos nomes começavam com a palavra "Pedagogia".

Sendo eu um típico exemplar humano do que Paulo Freire nos explica sobre sermos seres incompletos, minhas lacunas culturais sempre me constrangeram como se eu tivesse culpa de ter passado a vida vendendo a minha força de trabalho e estudando como fosse possível na fase de adulto jovem. Li o que pude, mas li pouco na vida.

Agora, retirado do dia a dia do mundo do trabalho e do movimento sindical que integrei por bastante tempo, tenho conseguido ler um pouco mais que antes. 

Acumulei por décadas uma quantidade grande de mídias para ler e estudar. Muitas temáticas perderam um pouco do sentido para mim, pois a leitura era para ser o melhor possível no que fazia. Agora que não tenho mais "utilidade" para o movimento sindical, vou inventando roteiros de leitura para mim mesmo.

Eu sonhei em ser professor, função social que entendo como a mais importante da sociedade humana. Por duas vezes, entrei em cursos acadêmicos pensando em atuar na área da educação: quando iniciei uma graduação em Educação Física (não pude terminá-la) e quando fiz uma graduação em Letras. 

As veredas que se abriram em meu caminho me levaram para outras paragens. Quando entrei na USP para cursar Letras, virei sindicalista e o curso perdeu a prioridade. Fiz o possível para ser um bom representante dos trabalhadores. A graduação não foi feita como eu gostaria.

Nos últimos anos, me esforcei para estabelecer um hábito de leitura regular e acabei conseguindo ler dezenas de livros das mais diversas áreas do conhecimento humano. No blog, compartilho o que aprendi. E assim vou vivendo: aprendendo e tentando diminuir a minha incompletude. 

Com a leitura de Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa (1996), completo o 3º livro do mestre Paulo Freire. Para este leitor que vos fala, só é possível ler suas obras de forma lenta, pausada, reflexiva. A gente lê uma página e volta duas, lê mais duas e volta três (risos). Eu não tenho pressa, não para esse tipo de aproveitamento do meu tempo.

Não me sinto com capacidade para ficar escrevendo de forma crítica os textos de Paulo Freire. Ainda não. Quem sabe um dia. No entanto, não me custa citar alguns excertos do livro para ilustrar a sabedoria que esse ser humano extraordinário nos legou em vida e para a posteridade.

Feitas essas reflexões iniciais, eis abaixo alguns pensamentos que destaquei da leitura de Paulo Freire.

William Mendes

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ÉTICA UNIVERSAL DO SER HUMANO

"O meu ponto de vista é o dos “condenados da Terra”, o dos excluídos. Não aceito, porém, em nome de nada, ações terroristas, pois que delas resultam a morte de inocentes e a insegurança de seres humanos. O terrorismo nega o que venho chamando de ética universal do ser humano. Estou com os árabes na luta por seus direitos, mas não pude aceitar a malvadez do ato terrorista nas Olimpíadas de Munique." 

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SOMOS SERES CONDICIONADOS, MAS NÃO DETERMINADOS

"Como presença consciente no mundo não posso escapar à responsabilidade ética no meu mover-me no mundo. Se sou puro produto da determinação genética ou cultural ou de classe, sou irresponsável pelo que faço no mover-me no mundo, e se careço de responsabilidade não posso falar em ética. Isso não significa negar os condicionamentos genéticos, culturais, sociais a que estamos submetidos. Significa reconhecer que somos seres condicionados mas não determinados. Reconhecer que a história é tempo de possibilidade e não de determinismo, que o futuro, permita-se-me reiterar, é problemático e não inexorável." 

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ENSINAR NÃO É TRANSFERIR CONHECIMENTO

"É preciso, sobretudo, e aí já vai um destes saberes indispensáveis, que o formando, desde o princípio mesmo de sua experiência formadora, assumindo-se como sujeito também da produção do saber, se convença definitivamente de que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção." 

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ENSINAR INEXISTE SEM APRENDER E VICE-VERSA

"Ensinar inexiste sem aprender e vice-versa, e foi aprendendo socialmente que, historicamente, mulheres e homens descobriram que era possível ensinar" 

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A LEITURA VERDADEIRA

"A leitura verdadeira me compromete de imediato com o texto que a mim se dá e a que me dou e de cuja compreensão fundamental me vou tornando também sujeito." 

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PENSAR CERTO...

"Só, na verdade, quem pensa certo, mesmo que, às vezes, pense errado, é quem pode ensinar a pensar certo. E uma das condições necessárias a pensar certo é não estarmos demasiado certos de nossas certezas." 

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O PROFESSOR QUE PENSA CERTO

"O professor que pensa certo deixa transparecer aos educandos que uma das bonitezas de nossa maneira de estar no mundo e com o mundo, como seres históricos, é a capacidade de, intervindo no mundo, conhecer o mundo. Mas, histórico como nós, o nosso conhecimento do mundo tem historicidade. Ao ser produzido, o conhecimento novo supera outro que antes foi novo e se fez velho e se “dispõe” a ser ultrapassado por outro amanhã." 

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"DODISCÊNCIA"

"A “dodiscência” — docência-discência — e a pesquisa, indicotomizáveis, são assim práticas requeridas por esses momentos do ciclo gnosiológico." 

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TODO(A) PROFESSOR(A) DEVE SER UM PESQUISADOR(A)

"Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. Esses quefazeres se encontram um no corpo do outro. Enquanto ensino continuo buscando, reprocurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para constatar, constatando, intervenho, intervindo educo e me educo. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade."

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COMPROMISSO COM A CONSCIÊNCIA CRÍTICA DO EDUCANDO

"Pensar certo, do ponto de vista do professor, tanto implica o respeito ao senso comum no processo de sua necessária superação quanto o respeito e o estímulo à capacidade criadora do educando. Implica o compromisso da educadora com a consciência crítica do educando, cuja “promoção” da ingenuidade não se faz automaticamente."

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SER HUMANO = ÉTICA

"Não é possível pensar os seres humanos longe, sequer, da ética, quanto mais fora dela. Estar longe ou, pior, fora da ética, entre nós, mulheres e homens, é uma transgressão."

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A PRÁTICA COMO CRITÉRIO DA VERDADE

"Quem pensa certo está cansado de saber que as palavras a que falta a corporeidade do exemplo pouco ou quase nada valem. Pensar certo é fazer certo."

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PRÁTICA DOCENTE = ENSAIO ESTÉTICO E ÉTICO

"Não é possível também formação docente indiferente à boniteza e à decência que estar no mundo, com o mundo e com os outros substantivamente exige de nós. Não há prática docente verdadeira que não seja ela mesma um ensaio estético e ético, permita-se-me a repetição."

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TECNOLOGIA: NEM BOA, NEM RUIM

"Divinizar ou diabolizar a tecnologia ou a ciência é uma forma altamente negativa e perigosa de pensar errado."

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ASSIM COMO O DIREITO, A ÉTICA É UM ATRIBUTO HUMANO

"Só os seres que se tornaram éticos podem romper com a ética. Não se sabe de leões que covardemente tenham assassinado leões do mesmo ou de outro grupo familiar e depois tenham visitado os “familiares” para levar-lhes sua solidariedade. Não se sabe de tigres africanos que tenham jogado bombas altamente destruidoras em “cidades” de tigres asiáticos."

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O FUTURO NÃO ESTÁ DETERMINADO PARA OS HUMANOS

"Gosto de ser homem, de ser gente, porque não está dado como certo, inequívoco, irrevogável que sou ou serei decente, que testemunharei sempre gestos puros, que sou e que serei justo, que respeitarei os outros, que não mentirei escondendo o seu valor porque a inveja de sua presença no mundo me incomoda e me enraivece. Gosto de ser homem, de ser gente, porque sei que a minha passagem pelo mundo não é predeterminada, preestabelecida. Que o meu 'destino' não é um dado, mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir. Gosto de ser gente porque a história em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de possibilidades, e não de determinismo. Daí que insista tanto na problematização do futuro e recuse sua inexorabilidade."

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O HUMANO ESTÁ NO MUNDO PARA SER SUJEITO DA HISTÓRIA E NÃO OBJETO

"Afinal, minha presença no mundo não é a de quem a ele se adapta, mas a de quem nele se insere. É a posição de quem luta para não ser apenas objeto, mas sujeito também da história."

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SOMOS NATUREZA, SOMOS SERES INCONCLUSOS

"Em lugar de estranha, a conscientização é natural ao ser que, inacabado, se sabe inacabado. A questão substantiva não está por isso no puro inacabamento ou na pura inconclusão. A inconclusão, repito, faz parte da natureza do fenômeno vital. Inconclusos somos nós, mulheres e homens, mas inconclusos são também as jabuticabeiras que enchem, na safra, o meu quintal de pássaros cantadores; inconclusos são estes pássaros como inconcluso é Eico, meu pastor alemão, que me 'saúda' contente no começo das manhãs."

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NÃO SE FINALIZAM AS LEITURAS E ESTUDOS SOBRE PAULO FREIRE

Enfim, é hora de finalizar a postagem sobre a leitura dessa obra seminal do educador Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia é um clássico da produção textual e intelectual do povo brasileiro.

Não citei nem a metade do livro nesta postagem. No entanto, só pelas citações que destaquei aqui é possível perceber a profundidade das mensagens que Paulo Freire nos deixa. 

Somos seres inacabados, passíveis de sermos educados. Como diz o educador "só se educa gente". Como não acreditar na formação política, na educação libertadora? Em novos homens e mulheres, como pensava o médico revolucionário Ernesto Che Guevara?

Ao estudar Paulo Freire fica impossível a mim e ao estudioso(a) de suas ideias acharmos que o mundo não tem mais jeito, que os seres humanos não têm mais jeito, que está tudo acabado... impossível! Somos seres históricos, que transformam a realidade do mundo a partir da inteligência e da vontade.

Com educação libertadora, com vontade e amor pela vida, pelos seres e pelo mundo podemos mudar a realidade que está ruim (eu diria que está uma merda!), podemos mudar! É só querermos e fazermos o certo para mudar a realidade. Seres humanos podem fazer isso!

A emergência climática pode ser revertida! Ela foi consequência de nosso mau uso da natureza do planeta, mau uso que nós humanos causamos ao vivermos no planeta Terra permitindo que uma abstração inventada por humanos - o capitalismo - destrua a vida, o mundo, a solidariedade entre as pessoas. MUDEMOS O MUNDO, LUTEMOS PELO FIM DO CAPITALISMO!

Não adianta só nos sensibilizarmos com as vítimas de catástrofes naturais a cada momento no qual elas aconteçam e não atuarmos para mudar a realidade do mundo causada pela mão dos seres humanos. Entendem? Ao mesmo tempo que temos que acudir nossos irmãos nas catástrofes, temos que refletir as causas e as mudanças necessárias para que catástrofes não ocorram.

Temos que estudar porque somos gente, e só se educa gente! Educados, podemos mudar a realidade a qualquer tempo, em qualquer situação. Somos seres que fazem história!

William Mendes

Bibliografia:


FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia - Saberes necessários à prática educativa. Edição especial 1.000.000 de exemplares. Editora Paz e Terra. Coleção Leitura. São Paulo, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo, Paz e Terra, 2011. Formato ePub. Versão para kindle.


sexta-feira, 22 de março de 2024

Artigo: Esquerda e Direita - Por Alexandre Lemos



Refeição Cultural

Apresentação do texto:

Dias atrás, numa série de postagens que venho fazendo em redes sociais por causa da minha frustração pessoal ao ver o veto presidencial à memória dos 60 anos do golpe de Estado de 31 de março de 1964, postei um texto da jornalista Milly Lacombe sobre o tema - "Lula prova que a esquerda está morta (20/3/24)" - e fiz uma brincadeira perguntando quem ou o que seria de esquerda na atualidade. Ainda prometi um picolé de limão para quem me ajudasse a entender o mistério.

Num tempo relativamente curto, a companheira Ana Paula, amiga de longa data - militamos juntos no movimento sindical bancário - postou um texto que me encantou na hora. Adorei a simplicidade e a capacidade de síntese de ideias e conceitos complexos abordados no texto apresentado. Me lembrei na hora dos debates filosóficos que fazíamos aos finais dos dias de trabalho e em eventos nos quais nos reuníamos. Aquele período de militância sindical foi de grande aprendizagem na minha vida.

Ana me disse que o texto era do companheiro dela, Alexandre Lemos, e eu perguntei se poderia publicar aqui no blog. Vale a pena a leitura! É daqueles textos que voltarei a ele quando estiver refletindo sobre essa tão complexa e contraditória temática do que é e não é ser de esquerda.

Quando estava me formando politicamente no período de representação sindical lia muitos textos a respeito, muitos. Sigo lendo, até porque somos seres incompletos como li recentemente no livro Pedagogia da autonomia, do mestre Paulo Freire, e a cada dia vou tentando diminuir minha incompletude.

Vamos ao texto sobre ser de esquerda (e de direita), vocês vão se surpreender com a clareza do autor.

William Mendes

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ESQUERDA E DIREITA

Por: Alexandre Lemos

Perdi a conta do quanto já ouvi que esquerda e direita são conceitos antiquados.

Vou tentar palpitar sobre o tema, ainda que saiba que são grandes as chances de não servir pra muita coisa. Vou deixar pros enxugadores de gelo a perda de tempo em explicar a origem das definições. O que interessa agora é o que elas significam nos tempos em estamos vivendo.

Ser de esquerda significa compreender a história como um processo dialético que se encaminha para a emancipação do ser humano com a retomada do controle do produto de seu trabalho, ou seja, da produção de riqueza. Assim, luta-se para que se chegue logo a esse momento e se reduza a extensão no tempo e no espaço da exploração do trabalho pelas classes dominantes.

A emancipação das massas trabalhadoras só pode se dar pela socialização da posse dos meios de produção. Tudo o que produz riqueza deve ser propriedade de quem trabalha nesta produção. Terras, fábricas, serviços, tudo o que produz riqueza deve ser compartilhado por todos, partindo do princípio em que numa sociedade assim ninguém é patrão, ninguém vive de renda, ninguém expropria o trabalho de ninguém e todos trabalham.

A partir daí fica fácil compreender que, basicamente, são de esquerda os comunistas e os anarquistas. E é só. Claro que outros tipos de movimentos sociais já surgiram com o pleito da propriedade coletiva em contraponto à lógica burguesa de produção e consumo. Os hippies foram, ou talvez ainda sejam, um bom exemplo disso. Acontece, porém, que o movimento hippie nunca conseguiu ir além da perspectiva comunitária, não oferecendo, portanto, uma alternativa concreta que solucione a complexidade que uma economia precisa ter para manter vivos e saudáveis 7 bilhões de seres humanos.

Dentro da esquerda, por assim dizer, não há um só modo de pensar ou lutar pela emancipação que se almeja. Numa metáfora que era moda nos meus tempos de movimento estudantil, há nuances e matizes diversos que diferenciam comunistas e anarquistas e, além disso, produzem distinções dentro do comunismo e dentro do anarquismo. Pra exemplificar, cito uma diferença bem conhecida dentro do comunismo: os reformistas, que acreditam na emancipação através de sucessivas modificações do modo de produção até que se chegue ao comunismo, e os revolucionários, que propõe a derrubada violenta do capitalismo.

Do outro lado, a direita também se divide em diversas tendências. Dos fascistas aos progressistas, há muita diferença nas práticas e nos conceitos. O que os une? Todos acreditam que é certo e justo que os meios de produção de riqueza sejam propriedade privada. O que varia entre eles? O que eles chamam de certo e de justo.

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Se você acredita que é possível ser um bom patrão, um patrão justo que pague bem a seus funcionários e lhes dê boas condições de trabalho, se você acredita nisso então você não é de esquerda. A seu favor poderá se dizer, por exemplo, que você está à esquerda dos neoliberais ou dos fascistas, mas estar à esquerda de alguém não significa, necessariamente, ser de esquerda.
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Isso se explica a partir da compreensão de que justiça social não se resume a uma boa casa ou um bom salário. Claro que num país como o nosso, esses direitos são tão raros que se fazem urgentes. Mas é importante entender que o trabalho alienado, ou seja, o trabalho vendido ao dono da terra ou da fábrica, pode até garantir o sustento “digno” de uma pessoa, mas a levará obrigatoriamente a uma vida esvaziada de sentido e perspectiva, cuja única fonte possível de “satisfação” se concentra no consumo e na alienação cotidiana da própria realidade, serviço pra lá de bem-feito pelas redes sociais e pelos veículos de comunicação de massa.

Quem é da classe média, num simples exame da própria vida, percebe de qual vazio estou falando. Não é à toa que vivemos a era das drogas lícitas, criadas e prescritas pra que todos sigam produzindo e consumindo regularmente, sem grandes reclamações. Sob o reinado do Rivotril e seus congêneres, fica evidente que uma boa casa ou bom salário não bastam pra quem vive dominado e controlado pelo capital.

Por isso o Ciro Gomes não é de esquerda, mesmo estando à esquerda do Paulo Guedes. Por isso o FHC não é de esquerda, mesmo que seu neoliberalismo seja muito mais flexível que o do presidente fascista quando se trata de costumes e comportamento. Por isso o desenvolvimentismo é, quase sempre, um projeto de direita, ainda que implementado pelo PT.

A maior parte dos movimentos ambientalistas é de direita, mesmo quando assume posições críticas a certas práticas do capitalismo. Nem todos os militantes de pauta ligada às questões de gênero são de esquerda.

A História segue seu caminho.

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quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Diário e reflexões - Fevereiro



Refeição Cultural

Osasco, 29 de fevereiro de 2024. Quinta-feira. Noite quente de um dia trágico (o mundo assiste ao genocídio do povo palestino e nada pára o extermínio).


"Patria es Humanidad" (José Martí)


Depois de duas semanas quase sem ler e escrever, volto ao blog para registrar alguns sentimentos e fatos de nosso mundo mundo vasto mundo, como fazia o nosso cronista e poeta Carlos Drummond de Andrade. Não ouso pensar que tenha nos meus registros a qualidade do mestre, mas ao menos registro com honestidade o que sinto e vejo.

As semanas deste mês de fevereiro foram intensas e incomuns em relação ao meu cotidiano. Este fevereiro foi diferente do cotidiano dos fevereiros comuns, pois este só ocorre a cada quatro anos. 

Quatro anos atrás, o fevereiro nos trouxe a maior pandemia do último século. Oito anos atrás, uma quadrilha de homens brancos canalhas finalizava a trama para roubar o governo que o povo elegeu e semanas depois a presidenta honesta Dilma Rousseff sofreu um golpe de Estado.

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GENOCÍDIO DO POVO PALESTINO 

Neste fevereiro de 29 dias, o que tenho para registrar sobre esse dia extra é o assassinato de mais de uma centena de inocentes palestinos famintos numa fila em busca de algo para comer. Foram metralhados pelo exército do Estado de Israel. 

E pensar que José Martí nos ensina que pátria não é o solo onde pisamos, pátria é a humanidade e cada ser humano morto ou injustiçado deveria doer fundo em cada um de nós. Imaginem a dor que nós que temos uma ética humanista estamos sentindo ao vermos todos os dias dezenas de crianças, mulheres e civis sendo exterminados pelo governo sionista e racista de Israel...

Difícil! Não dá nem para se colocar no lugar do outro, de um palestino ou palestina na Faixa de Gaza, por exemplo. Estou no conforto de meu lar em Osasco, no Brasil do governo Lula, um governo tentando reconstruir um país arrasado por uma horda de genocidas e bandidos, como esta que governa atualmente o Estado de Israel.

Registro minha solidariedade ao povo palestino e aos demais seres humanos que sofrem neste momento em qualquer parte do mundo. Minha pátria é a humanidade.

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UM PROBLEMA DOMÉSTICO RESOLVIDO

Neste mês de fevereiro me desfiz de um problema doméstico que já durava dois quadriênios. A solução da questão era protelada mês após mês, ano após ano, por diversos motivos. E assim o incômodo seguia. Acabou neste mês de fevereiro incomum.

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CUBA, TE QUERO, TE ADMIRO E TE RESPEITO!

Este mês de fevereiro foi marcante em minha vida pessoal, pois tive uma segunda oportunidade de viajar para a República Socialista de Cuba. Acabei de voltar da Ilha.

Ano passado fui com um grupo de brasileir@s para passar o 1º de maio e conhecer algumas cidades e um pouco da cultura e história do povo cubano.

Neste ano voltei com outro grupo de brasileir@s e novamente pude conhecer um pouco mais sobre essa comunidade humana que busca resolver seus problemas e seguir a vida com outra forma de organização social, a construção de uma sociedade solidária, humanista e sem a exploração de humanos por outros humanos.

Vamos ver se escrevo um pouco sobre essa segunda experiência. As sensações foram diferentes, complementares. As veredas da vida nos trazem experiências novas, mesmo quando os caminhos são conhecidos. Basta lembrarmos que mudamos todos os dias, o tempo segue avançando, e todos os dias somos outra pessoa. Tudo muda, pois tudo é natureza.

Imaginem vocês que as veredas me colocaram ao lado da escritora Conceição Evaristo para voarmos juntos por horas. Depois tive a oportunidade de passar dias em contato com o querido Frei Betto. Vi Emicida palestrar com uma sapiência que emociona. Conversei com Ailton Krenak e fiquei admirado com sua simplicidade. 

Fui 3 vezes em apresentações em teatro: ouvi música clássica, música brasileira, música cubana. Conversei com lideranças de um Comitê de Defesa da Revolução. Conheci uma pessoa que organiza há décadas brigadas de brasileiras e brasileiros para irem prestar solidariedade a Cuba, conheci um frei brasileiro que é uma grande liderança nas Minas Gerais, entendem como foram os dias? Emoções... Estou repleto de sensações que ainda estou digerindo.

Ao mesmo tempo que temo pelo regime socialista e pelo querido povo cubano, porque acho que existe uma certa inocência por parte deles ao acreditarem que vão conseguir vencer a manipulação das big techs, que chegaram à Ilha, torço para que eles sejam tão criativos e únicos como foram ao longo de sua história, ao derrotarem os dois impérios que os subjugaram em séculos e se reinventam todos os dias, enfrentando com altivez um bloqueio assassino que humilha e sacrifica um povo que só quer ser feliz.

O povo cubano tem a minha solidariedade, o meu respeito e a minha admiração! "Hasta la victoria, siempre!", como disse Ernesto Che Guevara em sua carta de despedida ao seguir seu destino de lutar pela liberdade dos povos explorados pelos impérios capitalistas, lutando ao lado dos oprimidos pela revolução mundial.

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OLHOS D'ÁGUA...

(enquanto escrevo, meus olhos d'água me ofuscam o escrever - lembrei-me dos "Olhos d'água de Evaristo" -, pois meu coração está amargurado com o que sinto, o genocídio do povo palestino, a situação de miséria imposta ao povo cubano pelo bloqueio assassino dos EUA, essas coisas apertam o coração de qualquer pessoa que ainda seja humana e tenha uma ética humana)

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EQUILIBRAR HUMILDADE, ALTIVEZ E AMOR-PRÓPRIO

Fechado o mês incomum de fevereiro. 

Li quase nada, não foi possível. No entanto, li uma imensidão, li o mundo, se considerar que li Paulo Freire, Frei Betto e José Martí... Nestes homens superiores, colhi sabedorias que ainda estou digerindo.

Frei Betto abriu sua palestra para os estudantes da diplomacia cubana dizendo que aprendeu com um mestre que uma pessoa jamais poderia deixar de andar com um livro na mão, a gente pode até não conseguir ler, mas acaba que a gente lê um pouco.

Foi assim comigo. Obrigado pela lição Frei Betto. Nunca estar só, sempre estar com um livro à mão.

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A ÉTICA DO DESPRENDIMENTO

Outro ensinamento que está martelando na minha cabeça desde que ouvi de Frei Betto em outra palestra foi a ética do desprendimento como lição de vida.

Frei Betto citou Ernesto Che Guevara e Francisco de Assis... é muito emocionante a lição dada.

Francisco de Assis, ao compreender o efeito da riqueza e do sucesso de seu pai em prejuízo dos artesãos da comunidade, ele tirou as vestes de sua família e fez a opção pelos pobres.

Che Guevara poderia ter uma vida com todas as venturas que a sociedade humana dispõe, mas fez a opção por lutar pela liberdade do povo oprimido e explorado pelos poderosos. E ainda assim, mesmo depois de triunfar, pediu licença a Fidel e ao povo cubano, deixou mulher e filhos, e partiu para lutar pela revolução mundial, sonhando libertar mais povos no mundo.

Esses homens e esses atos de desprendimento de si mesmos são exemplos para nós de ética.

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EQUILIBRAR HUMILDADE, ALTIVEZ E AMOR-PRÓPRIO (MAS CUIDADO COM A VAIDADE)

Como tenho dito em minhas reflexões, eu não tenho domínio do passado, e pensando o que diz Krenak, nem sequer tenho o amanhã, seria muita audácia achar que o amanhã me pertence. 

Preciso encontrar um equilíbrio em meus sentimentos. Ao ter a consciência de que não temos controle das coisas, precisamos encarar os dias de forma mais racional, e mais leve. Um pouco de amor-próprio pode ser bom para a saúde.

Exercitar a humildade também pode ser uma receita de saúde. Se possível, contribuir de alguma forma para a sociedade humana.

Fechamos o mês e a vida segue. Temos que salvar a humanidade de si mesma. E com isso, tentar salvar o nosso planeta e as formas de vida.


William Mendes

(mais um na multidão)


domingo, 31 de dezembro de 2023

Diário e reflexões - Retrospectiva 2023



Refeição Cultural - 2023

Osasco, 31 de dezembro de 2023. Domingo.


Para reflexão: que perspectivas de futuro teremos caso prevaleça a tendência nas gerações que estão chegando ao mundo de serem aculturadas para desejarem ser youtubers e "influenciadores digitais" sem conhecimento de nada, sem o sonho de serem pessoas educadas, formadas e cientistas?


RETROSPECTIVA E BALANÇO 

Como começo esta retrospectiva pessoal? Do fim para o início ou do início para o fim? Ou in medias res para chamar a atenção das leitoras e leitores? Talvez essa seja a melhor estratégia de narrativa do meu ano vivido.

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VIAGENS


Praia Grande (SP) - A primeira viagem do ano foi uma das que mais gostamos na família: passamos alguns dias da segunda quinzena de janeiro na Colônia do Sindicato dos Professores de São Paulo, Sinpro, na Vila Caiçara, Praia Grande. Desta vez, levamos o Lost, amigo do filhão, e os dias foram muito legais.

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Guarapari (ES) - Minha companheira sempre quis que eu conhecesse a cidade turística de Guarapari, no Espírito Santo. Ela ia para lá nos anos noventa e nosso filho chegou a ir também quando criança. Nossos tios ficavam numa casa bem legal no alto de uma ladeira no centrinho da cidade, entre a Praia das Castanheiras e a Praia dos Namorados. Perto também da Praia da Areia Preta. Eu não conhecia a região ainda. 

Ficamos num hotel bem de frente para a Praia dos Namorados e passamos dias bem legais, lá. Caminhei e corri quase todos os dias. Valeu a pena e vamos voltar.

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Uma viagem ao mundo de Monet

Em março, fomos ver a exposição Monet à beira d'água, no Parque Villa Lobos. A Ione adora as obras do pintor francês. A professora tinha um projeto educacional para as crianças com obras e pintores famosos e Monet sempre estava presente. Foi uma viagem o passeio!

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Uberlândia (MG) - Antes de viajar para Cuba, fui ver meus pais e familiares em Minas Gerais. Foi uma viagem rápida. Também fui me encontrar em minhas caminhadas e reflexões no Parque do Sabiá, lugar que amo. Na oportunidade, decidi visitar o Zoológico local. O Sabiá é um dos lugares que mais gosto no mundo. Sério mesmo!

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Cuba - Finalmente conheci Cuba. Fui pra Cuba! Foi uma experiência interessante! E para ser mais legal a experiência, meu filho foi comigo, foi sua primeira viagem para fora do país.

Antes da viagem, procurei ler um pouco a respeito da história da Ilha e do povo cubano. Li uma obra impactante - O homem que amava os cachorros (2009), de Leonardo Padura -, impactante tanto do ponto de vista da própria história do povo cubano após a Revolução em 1959, quanto do ponto de vista da Revolução Russa e a história de Leon Trótski. Foi difícil a leitura. Mas ela me colocou em reflexões duras a respeito do mundo humano.

Conheci um pouco da história de José Martí, grande figura humana e um dos principais pensadores da história cubana, referência na educação do país. Aliás, a leitura do livro da professora Maria Leite - Cuba insurgente - Identidade e Educação (2023), leitura terminada após a viagem a Cuba, deu clareza à minha hipótese de por que até hoje Cuba resiste ao embargo e ao capitalismo. Li o livro de Fernando Morais A Ilha (1976 e 2001) e essa leitura também me deixou em alerta para quando chegasse a Cuba em abril deste ano. 

Da permanência em Cuba por duas semanas, eu tanto fiquei impressionado e me questionando como é possível a manutenção até hoje, 65 anos depois, do regime socialista na Ilha, quanto compreendi por que até hoje o regime socialista se mantém em Cuba... pode parecer estranho afirmar isso, mas tenho a impressão de que a pedagogia da educação cubana é um dos alicerces do amor-próprio que aquele povo tem. Cubanía e Cubanidad... Os revolucionários liderados por Fidel Castro nos anos cinquenta tinham noção disso, eram martianos...

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Romaria em terras mineiras 

Em agosto, depois de alguns anos sem caminhar entre Uberlândia e Água Suja, voltei para a estrada. Antes de caminhar os quase 80 Km, fiz várias caminhadas preparatórias pela região onde nasci e vivo até hoje, Zona Oeste da Grande São Paulo. 

Antes de partir como peregrino e romeiro, tive meus momentos com a família.

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Casório nas Minas Gerais

Em outubro, a família teve nova oportunidade de visitar meus pais e familiares em Uberlândia, para fazer parte de um momento importante de nossa sobrinha Stefani, em seu casamento. Desejamos muitas felicidades ao casal.

As viagens a casa de meus pais é sempre um momento de Carpe Diem, porque a vida é o presente. 

Para todos nós, a vida é uma oportunidade e o tempo presente é o que importa. Tenho refletido sobre o tempo passado, que de fato pode ser como o futuro, do ponto de vista pessoal. Eu não tenho o tempo que passou, nem sei se tenho o tempo que não veio ainda... não tenho! 

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Jaboticabal (SP) - No final de outubro, visitamos a cidade que abrigou nosso filho por alguns anos no interior paulista. Lá fizemos amigos e até hoje temos um carinho especial por Jaboticabal e pelas pessoas queridas da cidade.

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Praia dos Carneiros (PE) - Em novembro, fizemos um passeio muito especial. Fomos passar alguns dias na Praia dos Carneiros numa pousada bem tranquila e com poucos chalés. E também fomos fora de temporada, o que contribui para que os ambientes internos e a praia estejam com pouca gente, permitindo um contato mais introspectivo com as belezas naturais do local. Foi muito bom!

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Seriemas no Parque do Sabiá. Deslumbramento!

Natal em Uberlândia (MG) - A tradicional reunião em família para a ceia de Natal foi nas Minas Gerais. Se, por um lado, os conflitos familiares enchem os nossos corações de amarguras e incertezas quanto ao futuro, por outro, este Natal foi um momento inesquecível em minha vida por causa do meu reencontro com a energia interna de meu corpo. 

Cheguei a Uberlândia tendo desistido de tentar correr a São Silvestre porque meu corpo me dava sinais de que não conseguiria percorrer os 15 Km da prova. E não é que fui três vezes ao Parque do Sabiá e realizei uma façanha incrível, trotei longas distâncias e voltei decidido a correr a prova na virada do ano. Deu tudo certo e aquele meu momento com o Sabiá me emociona demais só de recordar aqueles dias. A natureza do local me inunda e a gente se descobre ali. Obrigado Parque do Sabiá!

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LEITURAS

Durante o ano de 2023 tive a oportunidade de ler e completar a leitura de 32 livros dos mais diversos gêneros literários e discursivos. O homem que termina o ano é uma pessoa diferente daquela que iniciou a jornada da vida em janeiro. 

O esforço para ser uma pessoa melhor continua e sei que através dos livros podemos evoluir, diminuindo aquela incompletude que Paulo Freire nos explica no livro Pedagogia da autonomia.

Livros finalizados

1. A estranha vontade de um morto (2022) - Sandro Sedrez (ver aqui)

2. Torto arado (2018) - Itamar Vieira Junior (ver aqui)

3. rio pequeno (2022) - floresta (ver aqui)

4. Diário de um bandeirante ligeiramente atrasado e totalmente desarmado (2006) - Roberto Buzzo (ver aqui)

5. Manifesto do Partido Comunista (1848) - Marx e Angels (ver aqui)

6. Os sentidos do lulismo - Reforma gradual e pacto conservador (2012) - André Singer (ver aqui)

7. O homem que amava os cachorros (2009) - Leonardo Padura (ver aqui)

8. A Ilha (1976 e 2001) - Fernando Morais (ver aqui)

9. A vida não é útil (2020) - Ailton Krenak (ver aqui)

10. O trono no morro (1987) - José J. Veiga (ver aqui)

11. O governo no futuro (1970) - Noam Chomsky (ver aqui)

12. A impureza da minha mão esquerda (2020) - Henry Bugalho (ver aqui)

13. A Quinta-Coluna (1938) - Ernest Hemingway (ver aqui)

14. A comédia dos erros (1591) - William Shakespeare (ver aqui)

15. A bíblia em crônicas livres (2023) - Roberto Buzzo (ver aqui)

16. Evocación (2007) - Aleida March (ver aqui)

17. Lawfare: uma introdução (2019) - Cristiano Zanin, Valeska Zanin Martis & Rafael Valim (ver aqui)

18. A megera domada (1594) - William Shakespeare (ver aqui)

19. La historia me absolverá (1953) - Fidel Castro Ruz (ver aqui)

20. Novos poemas (1948) - Carlos Drummond de Andrade (ver aqui)

21. Quatro anos das sombras (2022) - org. Cleusa Slaviero (ver aqui)

22. Nuestra América (1891) - José Martí (ver aqui)

23. A verdade vencerá: Lula (2018) - Ivana Jinkings (ver aqui)

24. Operários sem patrão: gestão cooperativa e dilemas da democracia (2001) - Lorena Holzmann (ver aqui)

25. Cuba insurgente: identidade e educação (2023) - Maria Leite (ver aqui)

26. Educação como prática da liberdade (1965) - Paulo Freire (ver aqui)

27. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado (1978) - Abdias Nascimento (ver aqui)

28. Banzeiro Òkóto: uma viagem à Amazônia centro do mundo (2021) - Eliane Brum (ver aqui)

29. Os sertões (1902) - Euclides da Cunha (ver aqui)

30. Os mortos vivos (1979) - Peter Straub (ver aqui)

31. Greve e negociação coletiva: dimensões complementares da luta sindical (2022) - Carlindo Rodrigues Oliveira (ver aqui)

32. O Brasil voltou (2023) - org. Cleusa Slaviero (ver aqui)

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LEITURAS CAPITAIS

Dos livros que li, alguns me deram compreensão de muitas coisas de nossa vida em sociedade. 

Não estou desvalorizando alguns dos livros que li, mas o fato é que algumas leituras e formas de arte e filmes são para entretenimento, para curtição. Outros são para nos causar impactos marcantes, modificadores do ser e do comportamento humano e social.

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LULISMO - O livro de André Singer sobre o conceito de "lulismo" foi um livro impactante para mim. Reforçou algum conhecimento que tinha e me ajudou a compreender por que as coisas são como são no Brasil. A tese de Singer mereceria uma leitura coletiva nos sindicatos, partidos de esquerda e nos movimentos sociais organizados.

Modéstia à parte, as postagens que fiz sobre a leitura do livro de Singer dão uma boa ideia do que o intelectual nos explica sobre o fenômeno. O ideal é sempre ler a obra, mas se os leitores fizerem a leitura de minhas postagens terão uma noção do que Singer defende (ver aqui).

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SOCIALISMO EM CUBA, NA URSS E O "NOVO SINDICALISMO" NO BRASIL - Outro livro impactante para mim e que ao reler a postagem sobre a leitura (ver aqui) me deixou impressionado foi o livro do escritor cubano Leonardo Padura. De novo, modéstia à parte, a postagem tenta contribuir para o debate político, é um ponto de vista honesto de quem viveu duas décadas dentro do movimento sindical. Deem uma conferida nela, comentem à vontade.

Que leitura densa! Que leitura que me fez pensar toda a minha vida sindical e de representação de classe! Enquanto lia nos primeiros meses do ano e do 3º governo Lula, ia revivendo meu dia a dia na principal corrente política da CUT, a Articulação Sindical. Livrão!

CHE GUEVARA E ALEIDA MARCH - O livro Evocación da guerrilheira e companheira de Che Guevara, Aleida March (ver aqui), foi uma das leituras que mais me impactaram no ano de 2023. Foi uma descoberta! Nunca imaginei conhecer tantas informações pessoais da figura humana Ernesto Guevara como conheci através das memórias de sua esposa. Olha, na postagem comento que o livro me marcou como a leitura do livro de Miguel Nicolelis sobre o cérebro humano, um livro que me fez ver a vida de forma mais compreensível.

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AMBIENTALISMO, EMERGÊNCIA CLIMÁTICA E A VIDA - Duas leituras que me trouxeram muita reflexão e desejo de mudança da maneira como o mundo está organizado e da própria vida foram as leituras de Ailton Krenak e de Eliane Brum. 

São leituras imprescindíveis às pessoas de boa vontade e desejosas de um mundo melhor para todas as espécies viventes no planeta Terra.

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ENTENDI QUE SOU ESCRITOR

Edições de livros e produções textuais em andamento:

- Um livro de memórias sindicais

- Um livro sobre o balanço do mandato eletivo na gestão da Cassi (2014-2018)

BLOGS

As publicações nos blogs começam a fazer sentido para mim em 2023 como faziam à época em que era um representante da classe trabalhadora.

A temática das reflexões nos textos produzidos e a quantidade de pessoas que tem acessado os textos me fazem ter cada dia mais responsabilidade com o que escrevo.

O blog Refeitório Cultural recebeu 168 mil acessos em 2023 - média de 14 mil acessos por mês. Avalio que é muita gente que visitou o blog! Me sinto honrado com isso.

Considerando que o blog não é um ambiente da moda atual, na qual a comunicação se dá por imagem e vídeo, 168 mil é uma quantidade respeitável de acessos para um ambiente de textos sobre cultura em geral e política.

De vez em quando recebo algum retorno de leitores e leitoras dizendo que meus textos são bons e que contribuem para as reflexões deles. Isso é gratificante e dá sentido ao esforço que faço ao escrever.

Para fazer este balanço do ano de 2023, reli os textos sobre as leituras que fiz e os textos de fechamento de mês e percebi que minhas reflexões vêm amadurecendo bastante quando comparo com os textos que releio do período inicial do blog.

Talvez por isso, e por ter pessoas lendo o que escrevo no ano e os textos da história de publicações do blog, eu comece a trabalhar meu psicológico para aceitar a ideia de que eu seja um escritor, de difícil definição do estilo, mas um escritor, ou alguém que escreve com regularidade.

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COISAS DOS HUMANOS, ANIMAIS DEMASIADAMENTE HUMANOS

Meio Ambiente

O ano de 2023 seguiu sendo de destruição do planeta Terra, da vida humana e da sociabilidade humana. Uma percepção da realidade que aprendi ao ler Eliane Brum e seu duríssimo livro Banzeiro Òkòtó: uma viagem à Amazônia centro do mundo (2021) me pareceu muito clara: o futuro será pior que o presente. Eu nunca tinha pensado nisso! Estamos destruindo rapidamente as condições de vida no planeta.

O pior é que é verdade essa questão da destruição do planeta, penso eu, mesmo não tendo leitura determinista de futuro, como nos alerta o educador Paulo Freire ao dizer que temos que problematizar o futuro e mudar as situações ruins porque elas não são "naturais", são consequências de nossas escolhas e nosso comportamento humano. A realidade pode mudar porque somos nós que fazemos a realidade. Mas no momento, e observando as tendências, a perspectiva é de um futuro pior que o presente.

Guerras

Ucrânia e Israel, guerras por procuração dos EUA - No início de 2023, convivíamos com algumas guerras no mundo. A que se desenvolvia em solos ucraniano e russo era a que chamava a atenção da pauta das mídias hegemônicas porque se tratava de uma guerra por hegemonia global, envolvendo o império decadente dos Estados Unidos. 

Terminamos o ano com dois meses de bombardeios genocidas na Faixa de Gaza, na Palestina. Seguimos na mesma. A guerra de um país só - o governo do Estado de Israel -, de um lado, contra civis palestinos, de outro. É mais uma guerra por hegemonia global e com os EUA por trás dela. Humanos, demasiadamente humanos somos nós...

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ALGUNS OBJETIVOS E PROJETOS (TALVEZ DESEJOS)

Ao finalizar o ano de 2023 e olhar para trás e ver o que aconteceu na vida pessoal e no mundo ao redor, sinto que imaginar o amanhã é algo mais difícil que antes, o amanhã que não nos pertence, como bem nos explica o filósofo Ailton Krenak. 

Fico pensando a respeito de projetos de vida ou objetivos a perseguir e acho tudo tão estranho... quero dizer, tão instável, frágil, talvez ilusório. Não queria ter passado a vida deixando a vida me levar, e acabei passando a vida tendo a vida me levado pelos caminhos que trilhei.

Quando era um adulto jovem, tinha os objetivos básicos, à época, de ter uma casa própria, queria ter uma moto, acho que queria ter uma profissão e uma remuneração estável, queria ser erudito (algo do tipo) e queria namorar (talvez ser amado). Quase todo mundo da minha classe social tinha esses objetivos na vida. 

Me lembro de não querer trabalhar em coisas humilhantes e extenuantes, pois era essa a minha realidade na infância e adolescência sendo explorado pelos outros. Talvez por isso odiasse trabalhar e odiasse rico.

E hoje? O que uma pessoa como eu poderia esboçar mentalmente como objetivos e projetos para os próximos meses, talvez anos à frente? O que está sob meu domínio ou controle mínimo no viver cotidiano? O quê?

Percebi que não temos controle de nada, não temos. Deveria então, sabendo disso, deixar a vida me levar, com mais leveza e vivendo o momento da melhor forma possível como se não houvesse o amanhã... pois é, deveria. Mas não consigo. 

Minha natureza não facilita meu viver à toa, "gozar" essa fase da vida. Me sinto culpado por ter conseguido sair daquela condição dos trabalhos humilhantes e extenuantes. Vejo o povo de onde vim se fodendo em trabalhos humilhantes e extenuantes, explorados como escravos, e me sinto mal por isso.

Estou lendo os livros de Paulo Freire e ele fala o tempo todo sobre mudança, sobre não aceitarmos o determinismo que tentam nos vender.

Freire nos ensina que um dos papéis centrais da educação e das pessoas que lidam com a profissão de educar é perceber o mundo e mudar o mundo porque somos seres incompletos e passíveis de educação. 

A tomada de posição para mudar a realidade desfavorável das classes subjugadas e excluídas da cidadania é central na pedagogia freireana. Acho que fiz isso na fase que lutava por mim mesmo e na fase que representava pessoas de minha classe. Isso me deu um sentido no viver, mesmo olhando agora para trás, mesmo que não percebesse isso durante.

Hoje, me sinto deslocado no mundo, após todos os papéis relevantes que desempenhei como ser social, constituinte de ambientes humanos. Não sinto pertencimento em nada. Não me sinto parte de nada. Isso tem dificultado muito meu existir. E nos ambientes onde existo, não tenho influência alguma, não tenho capacidade de mudar realidades de forma dialogada.

Termino um ano calendário e entro outro ano calendário na mesma. Sem sentimento de pertencimento a algo.

Se em termos políticos tenho militado num diretório do partido no qual admiro o trabalho do presidente, o companheiro Daniel do DZ Butantã -, a realidade me lembra o tempo todo que sequer é o diretório onde me localizo pela legislação partidária. Não posso votar nas pessoas que conheço, sequer no PED, pois moro em Osasco, que dirá na vereadora Luna Zarattini e no Guilherme Boulos no ano de 2024. Não pertenço a lugar nenhum. Não tenho militância na cidade onde resido.

Imagine se for falar do movimento político que ajudei a construir por mais de duas décadas, o movimento sindical bancário. O Sindicato fez 100 anos, eu vivo o sindicato há 35 anos - sou sindicalizado desde 1988 e ainda pago mensalidade -, e sequer para um videozinho fui convidado. A Cassi fez 80 anos nestes dias e fui um dos diretores eleitos que mais defendeu a associação e os direitos dos associados, sem falsa modéstia; idem para o apagamento. A Contraf-CUT completou 18 anos, fui o responsável por apresentar a marca da nova entidade no lugar da famosa CNB e fui secretário de formação; idem ao apagamento. Alguém ou "alguéns" mandou apagar a minha foto da história dessas entidades, como ouvimos dizer na história das esquerdas no mundo.

Enfim, quais poderiam ser meus objetivos e projetos de futuro para 2024 e quiçá algum tempo mais? Ou desejos, torcida?


- Ser professor e dar aula em algum projeto voluntário em 2025, me preparar em 2024?

- Voltar a Cuba e seguir estudando experiências de sociedades não capitalistas?

- Viajar à Itália e já falar italiano quando for?

- Vai que eu descubra em mim uma forma de ainda correr uma maratona...

- Ler alguns livros, uns clássicos como, por exemplo, Os miseráveis (comecei já), Guerra e Paz, e mais alguns autores que nunca li.


De verdade, de verdade, eu tenho algumas torcidas, desejos, coisas que não dependem de mim.

Desejo que as pessoas de meus afetos tenham saúde e sobrevivam ao ano de 2024. Gostaria de ver as pessoas que amo se encontrarem, se realizarem, serem um pouco felizes. Serem humanistas e tolerantes umas com as outras.

Desejo ter saúde, não perder minha visão e não piorar minha condição de desgaste nos quadris. Gostaria de correr com regularidade. Minha vista e minhas pernas são importantes para mim. Torcer para não ter infarto, AVC e câncer.

Desejo seguir estudando e o que posso fazer neste momento para a coletividade é escrever o que aprendo e o que penso, escrever com honestidade, e tentar passar adiante o que sei de forma gratuita, porque hoje sobrevivo do meu benefício do fundo de pensão para o qual contribuí por quase três décadas.

Acho que só isso. As outras possibilidades de projetos e objetivos são referências de norte (utopia para andar adiante) não muito realizáveis, a minha vida foi sempre vivida pelos acontecimentos do dia.

Se eu conseguisse, eu esqueceria todo esse passado que sequer existe e esqueceria também tudo o que me oprime a alma e viveria a tal vida gozando o dia a dia, ligando um foda-se para os outros e para o mundo... mas isso não é da minha natureza. Gostaria de mudar isso e esquecer essa merda que me dilacera.

Mas vamos seguir o norte racional que imaginei (o lugar nenhum a se alcançar), seguir lendo e escrevendo, indo em mobilizações de rua que chamam a cidadania etc.

Ajudando quando der e não atrapalhando os outros. Mas falando o que penso, é meu dever e minha obrigação falar baseado no que conheço e penso.


William Mendes

Mais um na multidão