Mostrando postagens com marcador Pedagogia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pedagogia. Mostrar todas as postagens

sábado, 4 de maio de 2024

Livro: Pedagogia da Autonomia - Paulo Freire



Refeição Cultural

Osasco, 4 de maio de 2024. Sábado.


"(...) quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado." (from "Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa" by Paulo Freire)


"Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. Quem ensina ensina alguma coisa a alguém. É por isso que, do ponto de vista gramatical, o verbo ensinar é um verbo transitivo relativo. Verbo que pede um objeto direto — alguma coisa — e um objeto indireto — a alguém." (from "Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa" by Paulo Freire)


CONHECENDO PAULO FREIRE

Ao longo de muitos anos de vida sindical, ouvi falar do "método de ensino Paulo Freire", da luta contra a "educação bancária" e dos livros clássicos do mestre cujos nomes começavam com a palavra "Pedagogia".

Sendo eu um típico exemplar humano do que Paulo Freire nos explica sobre sermos seres incompletos, minhas lacunas culturais sempre me constrangeram como se eu tivesse culpa de ter passado a vida vendendo a minha força de trabalho e estudando como fosse possível na fase de adulto jovem. Li o que pude, mas li pouco na vida.

Agora, retirado do dia a dia do mundo do trabalho e do movimento sindical que integrei por bastante tempo, tenho conseguido ler um pouco mais que antes. 

Acumulei por décadas uma quantidade grande de mídias para ler e estudar. Muitas temáticas perderam um pouco do sentido para mim, pois a leitura era para ser o melhor possível no que fazia. Agora que não tenho mais "utilidade" para o movimento sindical, vou inventando roteiros de leitura para mim mesmo.

Eu sonhei em ser professor, função social que entendo como a mais importante da sociedade humana. Por duas vezes, entrei em cursos acadêmicos pensando em atuar na área da educação: quando iniciei uma graduação em Educação Física (não pude terminá-la) e quando fiz uma graduação em Letras. 

As veredas que se abriram em meu caminho me levaram para outras paragens. Quando entrei na USP para cursar Letras, virei sindicalista e o curso perdeu a prioridade. Fiz o possível para ser um bom representante dos trabalhadores. A graduação não foi feita como eu gostaria.

Nos últimos anos, me esforcei para estabelecer um hábito de leitura regular e acabei conseguindo ler dezenas de livros das mais diversas áreas do conhecimento humano. No blog, compartilho o que aprendi. E assim vou vivendo: aprendendo e tentando diminuir a minha incompletude. 

Com a leitura de Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa (1996), completo o 3º livro do mestre Paulo Freire. Para este leitor que vos fala, só é possível ler suas obras de forma lenta, pausada, reflexiva. A gente lê uma página e volta duas, lê mais duas e volta três (risos). Eu não tenho pressa, não para esse tipo de aproveitamento do meu tempo.

Não me sinto com capacidade para ficar escrevendo de forma crítica os textos de Paulo Freire. Ainda não. Quem sabe um dia. No entanto, não me custa citar alguns excertos do livro para ilustrar a sabedoria que esse ser humano extraordinário nos legou em vida e para a posteridade.

Feitas essas reflexões iniciais, eis abaixo alguns pensamentos que destaquei da leitura de Paulo Freire.

William Mendes

---

ÉTICA UNIVERSAL DO SER HUMANO

"O meu ponto de vista é o dos “condenados da Terra”, o dos excluídos. Não aceito, porém, em nome de nada, ações terroristas, pois que delas resultam a morte de inocentes e a insegurança de seres humanos. O terrorismo nega o que venho chamando de ética universal do ser humano. Estou com os árabes na luta por seus direitos, mas não pude aceitar a malvadez do ato terrorista nas Olimpíadas de Munique." 

---

SOMOS SERES CONDICIONADOS, MAS NÃO DETERMINADOS

"Como presença consciente no mundo não posso escapar à responsabilidade ética no meu mover-me no mundo. Se sou puro produto da determinação genética ou cultural ou de classe, sou irresponsável pelo que faço no mover-me no mundo, e se careço de responsabilidade não posso falar em ética. Isso não significa negar os condicionamentos genéticos, culturais, sociais a que estamos submetidos. Significa reconhecer que somos seres condicionados mas não determinados. Reconhecer que a história é tempo de possibilidade e não de determinismo, que o futuro, permita-se-me reiterar, é problemático e não inexorável." 

---

ENSINAR NÃO É TRANSFERIR CONHECIMENTO

"É preciso, sobretudo, e aí já vai um destes saberes indispensáveis, que o formando, desde o princípio mesmo de sua experiência formadora, assumindo-se como sujeito também da produção do saber, se convença definitivamente de que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção." 

---

ENSINAR INEXISTE SEM APRENDER E VICE-VERSA

"Ensinar inexiste sem aprender e vice-versa, e foi aprendendo socialmente que, historicamente, mulheres e homens descobriram que era possível ensinar" 

---

A LEITURA VERDADEIRA

"A leitura verdadeira me compromete de imediato com o texto que a mim se dá e a que me dou e de cuja compreensão fundamental me vou tornando também sujeito." 

---

PENSAR CERTO...

"Só, na verdade, quem pensa certo, mesmo que, às vezes, pense errado, é quem pode ensinar a pensar certo. E uma das condições necessárias a pensar certo é não estarmos demasiado certos de nossas certezas." 

---

O PROFESSOR QUE PENSA CERTO

"O professor que pensa certo deixa transparecer aos educandos que uma das bonitezas de nossa maneira de estar no mundo e com o mundo, como seres históricos, é a capacidade de, intervindo no mundo, conhecer o mundo. Mas, histórico como nós, o nosso conhecimento do mundo tem historicidade. Ao ser produzido, o conhecimento novo supera outro que antes foi novo e se fez velho e se “dispõe” a ser ultrapassado por outro amanhã." 

---

"DODISCÊNCIA"

"A “dodiscência” — docência-discência — e a pesquisa, indicotomizáveis, são assim práticas requeridas por esses momentos do ciclo gnosiológico." 

---

TODO(A) PROFESSOR(A) DEVE SER UM PESQUISADOR(A)

"Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. Esses quefazeres se encontram um no corpo do outro. Enquanto ensino continuo buscando, reprocurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para constatar, constatando, intervenho, intervindo educo e me educo. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade."

---

COMPROMISSO COM A CONSCIÊNCIA CRÍTICA DO EDUCANDO

"Pensar certo, do ponto de vista do professor, tanto implica o respeito ao senso comum no processo de sua necessária superação quanto o respeito e o estímulo à capacidade criadora do educando. Implica o compromisso da educadora com a consciência crítica do educando, cuja “promoção” da ingenuidade não se faz automaticamente."

---

SER HUMANO = ÉTICA

"Não é possível pensar os seres humanos longe, sequer, da ética, quanto mais fora dela. Estar longe ou, pior, fora da ética, entre nós, mulheres e homens, é uma transgressão."

---

A PRÁTICA COMO CRITÉRIO DA VERDADE

"Quem pensa certo está cansado de saber que as palavras a que falta a corporeidade do exemplo pouco ou quase nada valem. Pensar certo é fazer certo."

---

PRÁTICA DOCENTE = ENSAIO ESTÉTICO E ÉTICO

"Não é possível também formação docente indiferente à boniteza e à decência que estar no mundo, com o mundo e com os outros substantivamente exige de nós. Não há prática docente verdadeira que não seja ela mesma um ensaio estético e ético, permita-se-me a repetição."

---

TECNOLOGIA: NEM BOA, NEM RUIM

"Divinizar ou diabolizar a tecnologia ou a ciência é uma forma altamente negativa e perigosa de pensar errado."

---

ASSIM COMO O DIREITO, A ÉTICA É UM ATRIBUTO HUMANO

"Só os seres que se tornaram éticos podem romper com a ética. Não se sabe de leões que covardemente tenham assassinado leões do mesmo ou de outro grupo familiar e depois tenham visitado os “familiares” para levar-lhes sua solidariedade. Não se sabe de tigres africanos que tenham jogado bombas altamente destruidoras em “cidades” de tigres asiáticos."

---

O FUTURO NÃO ESTÁ DETERMINADO PARA OS HUMANOS

"Gosto de ser homem, de ser gente, porque não está dado como certo, inequívoco, irrevogável que sou ou serei decente, que testemunharei sempre gestos puros, que sou e que serei justo, que respeitarei os outros, que não mentirei escondendo o seu valor porque a inveja de sua presença no mundo me incomoda e me enraivece. Gosto de ser homem, de ser gente, porque sei que a minha passagem pelo mundo não é predeterminada, preestabelecida. Que o meu 'destino' não é um dado, mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir. Gosto de ser gente porque a história em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de possibilidades, e não de determinismo. Daí que insista tanto na problematização do futuro e recuse sua inexorabilidade."

---

O HUMANO ESTÁ NO MUNDO PARA SER SUJEITO DA HISTÓRIA E NÃO OBJETO

"Afinal, minha presença no mundo não é a de quem a ele se adapta, mas a de quem nele se insere. É a posição de quem luta para não ser apenas objeto, mas sujeito também da história."

---

SOMOS NATUREZA, SOMOS SERES INCONCLUSOS

"Em lugar de estranha, a conscientização é natural ao ser que, inacabado, se sabe inacabado. A questão substantiva não está por isso no puro inacabamento ou na pura inconclusão. A inconclusão, repito, faz parte da natureza do fenômeno vital. Inconclusos somos nós, mulheres e homens, mas inconclusos são também as jabuticabeiras que enchem, na safra, o meu quintal de pássaros cantadores; inconclusos são estes pássaros como inconcluso é Eico, meu pastor alemão, que me 'saúda' contente no começo das manhãs."

---

NÃO SE FINALIZAM AS LEITURAS E ESTUDOS SOBRE PAULO FREIRE

Enfim, é hora de finalizar a postagem sobre a leitura dessa obra seminal do educador Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia é um clássico da produção textual e intelectual do povo brasileiro.

Não citei nem a metade do livro nesta postagem. No entanto, só pelas citações que destaquei aqui é possível perceber a profundidade das mensagens que Paulo Freire nos deixa. 

Somos seres inacabados, passíveis de sermos educados. Como diz o educador "só se educa gente". Como não acreditar na formação política, na educação libertadora? Em novos homens e mulheres, como pensava o médico revolucionário Ernesto Che Guevara?

Ao estudar Paulo Freire fica impossível a mim e ao estudioso(a) de suas ideias acharmos que o mundo não tem mais jeito, que os seres humanos não têm mais jeito, que está tudo acabado... impossível! Somos seres históricos, que transformam a realidade do mundo a partir da inteligência e da vontade.

Com educação libertadora, com vontade e amor pela vida, pelos seres e pelo mundo podemos mudar a realidade que está ruim (eu diria que está uma merda!), podemos mudar! É só querermos e fazermos o certo para mudar a realidade. Seres humanos podem fazer isso!

A emergência climática pode ser revertida! Ela foi consequência de nosso mau uso da natureza do planeta, mau uso que nós humanos causamos ao vivermos no planeta Terra permitindo que uma abstração inventada por humanos - o capitalismo - destrua a vida, o mundo, a solidariedade entre as pessoas. MUDEMOS O MUNDO, LUTEMOS PELO FIM DO CAPITALISMO!

Não adianta só nos sensibilizarmos com as vítimas de catástrofes naturais a cada momento no qual elas aconteçam e não atuarmos para mudar a realidade do mundo causada pela mão dos seres humanos. Entendem? Ao mesmo tempo que temos que acudir nossos irmãos nas catástrofes, temos que refletir as causas e as mudanças necessárias para que catástrofes não ocorram.

Temos que estudar porque somos gente, e só se educa gente! Educados, podemos mudar a realidade a qualquer tempo, em qualquer situação. Somos seres que fazem história!

William Mendes

Bibliografia:


FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia - Saberes necessários à prática educativa. Edição especial 1.000.000 de exemplares. Editora Paz e Terra. Coleção Leitura. São Paulo, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo, Paz e Terra, 2011. Formato ePub. Versão para kindle.


segunda-feira, 1 de abril de 2024

Língua Espanhola I - Ano 2002 (II)



Refeição Cultural

Revisita aos estudos de graduação na FFLCH-USP


Folheando um pouco a apostila do primeiro ano de estudos de idiomas, achei interessante rever o fenômeno do Yeísmo na Língua Espanhola.

Para deixar uma referência atual, cito abaixo a definição do fenômeno do dicionário da Real Academia Española (RAE):

Yeísmo - 1. m. Fon. Desaparición de la diferencia fonológica entre la consonante lateral palatal y la fricativa palatal sonora, de manera que, en la pronunciación, no se distinguen palabras como callado (silencioso, reservado) e cayado (bastón, palo).

---

Na apostila, tem uma seção inteira dedicada ao tema. Transcrevo o texto abaixo para fins didáticos.

LL - Y (delante de vocales)

La pronunciación de los fonemas representados por la LL e por la Y (esta con vocales) se hace distintamente en el mundo hispánico.

a) Distinción entre LL / Y: la LL se pronuncia como la LH del portugués y la Y con un sonido consonante. Algunos hablantes de España y de buena parte de América (sobre todo del altiplano andino) distinguen la pronunciación de estos fonemas, pero actualmente hay una fuerte tendencia a igualarlos.

b) El yeísmo: consiste en igualar la pronunciación de la LL a la de Y. El yeísmo está muy difundido en Hispanoamérica, aunque presente diferencias, por exemplo: en la región del Río de la Plata, la LL/Y suenan como la J del portugués, en Chile la pronunciación de estos fonemas es más suave que la pronunciación rioplatense y en el Caribe la pronunciación de la LL/Y se aproxima de una I. En España el yeísmo se está imponiendo a la distinción LL/Y.

Según Manuel Seco, el yeísmo existe hoy en España (ou seja, 2002): en toda Andalucía, en Murcia (sólo en las ciudades), en Extremadura, en Castilla la Nueva (principalmente en Madrid, Toledo y Ciudad Real), en Castilla la Vieja (Ávila, Valladolid), en Cantabria (Santander), en León (Salamanca, capital), en Asturias (Oviedo y Gijón), en Cataluña (Cuencas del Ter y Llobregat) y las Islas Baleares y Canarias.

--------------------

COMENTÁRIO:

Como falante de língua portuguesa que aprendeu língua espanhola, posso dar o depoimento de experiências locais ao ouvir falantes de espanhol.

Já estive em Madri e Toledo, na Espanha. Já estive também no Chile, Argentina, Uruguai e em Cuba. Por ter estudado o idioma, fiquei atento aos falares nessas regiões.

De fato, na Argentina e Uruguai é muito claro o Yeísmo com som de J ou CH do português. No Chile é bem suave a pronúncia. Em Cuba eu consegui perceber o som mais próximo ao I. E a fala dos espanhóis de Madri é bem mais "cantada" em relação às falas dos hispano-americanos.

O estudante de espanhol precisa treinar o ouvido para os diversos "acentos" dos falantes da língua.

--------------------

LA "LL"

CALLE  VILLA  LLORAR  LLUVIA  CALLISTA  ESTRELLA

No hay pueblo como mi pueblo,

ni valle como mi valle,

ni casa como mi casa,

ni calle como mi calle.


La chiquilla, con la lluvia, a la villa lleva la llave.

---

LA "Y"

AYUDAR    YERNO    YA    YO    YUGULAR    HOYO

Ya viene mayo, mayo,

Ya viene el rumbo,

Ya viene la alegría

pa todo el mundo.


¡Ay, mal haya, mal haya

mi cobardía,

que por ser yo cobarde

no eres tú mia!


El yerno del yegüero da yerba a la yeguada.


Referências: Valmaseda Regueiro, 1992.

Textos y grabaciones adaptados de BRUNO, Fátima C. & MENDOZA, Maria Angélica. Hacia el español 1. São Paulo, Saraiva. Unidad 8, Hacia Letras y Sonidos.

---

Tradución:

Yerno: genro

Yegua: hembra del caballo

Yerba: erva, capim

---


A primeira postagem deste tema pode ser lida clicando aqui.

William


Fonte: Apostila da Faculdade de Letras/USP, 2002.


sexta-feira, 29 de março de 2024

Língua Espanhola I - Ano 2002 (I)



Refeição Cultural

Revisita aos estudos de graduação na FFLCH-USP


Entrei na Universidade de São Paulo no vestibular do ano de 2000 e comecei a cursar a Faculdade de Letras em 2001. Já não era um jovem se comparado com a maioria dos estudantes do curso noturno, que tinham uns dez anos a menos que eu. Fiz o primeiro ano do Ciclo Básico com 32 anos de idade. 

No ano seguinte, comecei a cursar a Língua Espanhola, a habilitação que escolhi durante o Ciclo Básico, juntamente com a habilitação em Português. 

O curso de graduação acabaria por se estender por muitos anos porque eu era sindicalista e todos os segundos semestres eu tinha dificuldades de assistir às aulas porque era o período de data-base da categoria bancária. Com o tempo, até os professores sabiam que eu teria dificuldades em concluir as disciplinas se a campanha dos bancários fosse complicada.

LÍNGUA ESPANHOLA

Estava revendo a primeira apostila de Língua Espanhola e achei interessante o material. Estou falando de um material didático de mais de duas décadas atrás, praticamente não existia a internet como nós a conhecemos hoje. Os estudantes de línguas tinham que ouvir fitas cassete em laboratórios para terem contato com a língua que estavam estudando.

ALFABETO

Na época do curso, o alfabeto espanhol continha 29 letras. Fui consultar agora, no curso de espanhol do ICL e a professora Pilar explicou que o alfabeto contém 27 letras porque o LL e o CH passaram a ser considerados dígrafos desde a Reforma de 2010.

Ou seja, essas mudanças acontecem nas línguas vivas, com o passar do tempo podem ocorrer mudanças nas normas e usos das línguas.

Finalizo esta postagem de revisita aos estudos de Língua Espanhola com um poema de Pablo Neruda, que nós estudamos na aula de idioma para conhecer as diferentes formas de falar LL e Y porque existe o fenômeno do Yeísmo na Argentina e Uruguai, com o som diferente da maioria dos países que falam a língua.

POEMA XV

Me gustas cuando callas

porque estás como ausente

y me oyes desde lejos

y mi voz no te toca.

Parece que los ojos

se te hubieran volado

y parece que un beso

te cerrara la boca.

Me gustas cuando callas

porque estás como ausente,

y estás quejándote,

mariposa en arrullo,

y me oyes desde lejos

y mi voz no te alcanza.

Déjame que me calle

en el silencio tuyo.


(In: XX poemas de amor y una canción desesperada)


A apostila perguntava para os alunos, após ouvirem o poema declamado por uma pessoa da Espanha e outra da Argentina, qual era a diferença que mais chamava a atenção.

O Yeísmo, um som mais de "lh" na Espanha e mais de "ge" ou "dje" na Argentina. O LL e o Y também podem ter um som mais próximo ao "i" em algumas regiões de fala espanhola como no Caribe, por exemplo.

Fiz uma postagem sobre o fenômeno do Yeísmo, para ler é só clicar aqui.

É isso. As minhas lembranças da Universidade de São Paulo são algumas das melhores de minha vida de estudante. Entrei lá pensando em ser professor, mas as veredas da vida me levaram para outros caminhos.

William


quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Brasil, república que não é República



Refeição Cultural


A república brasileira nasceu para não ser República

Antonio Candido fala, em outubro de 2002, sobre a democracia e a educação pública no Brasil, o sistema republicano, o papel do governo no sistema público de ensino e o papel suplementar da educação privada. Entrevista muito didática, como era de costume ao ouvir ou ler o professor falar sobre temáticas desenvolvidas por ele como intelectual.


"Educação - É possível restaurar o espírito republicano?

Candido - A República é o regime de todos; o regime contra os privilégios. Claro que você tem repúblicas aristocráticas, como foi a de Veneza. Mas República vincula-se à ideia de democracia de direitos. No caso brasileiro, infelizmente, ela é muito ambígua porque nasceu em grande parte de um sentimento de revolta das elites por perda de privilégios. A elite perdeu seus escravos com a Abolição decretada pela Monarquia. Aderiu à República para se vingar do imperador. A República brasileira nasceu desse sentimento de revolta por perda de propriedade."


Comentário do blog: o destaque sublinhado é para reflexão sobre a história do Brasil e para pensarmos nos motivos de termos aqui uma das elites ou burguesias mais atrasadas do mundo, perversa, ignorante e violenta. E preconceituosa, é claro! No Brasil, a república é para manter privilégios e não para democratizar o acesso aos direitos para todos. A república não é o que deveria ser... desde a origem!


Fonte:

Revista Educação, Ano 6, Número 66, de outubro de 2002.


sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Leitura: Educação como prática da liberdade - Paulo Freire



Refeição Cultural 

Osasco, Brasil. Num mundo em emergência climática 


A leitura de Educação como prática da liberdade foi motivada por participar de um curso do ICL: "Paulo Freire: Educar e Esperançar".

O estudo é mais uma oportunidade de novos conhecimentos na área da Educação com origem no Instituto Conhecimento Liberta (ICL).

A edição que tenho é a 15a edição da editora Paz e Terra, de 1984. Pierre Furter faz uma apresentação da obra nas orelhas da capa da edição. 

---

1o texto

EDUCAÇÃO E POLÍTICA - Francisco C. Weffort

Reflexões sociológicas sobre uma pedagogia da Liberdade 


Weffort situa o leitor sobre o contexto de confecção do livro de Freire: "(...) escrito, depois da queda do governo Goulart, nos intervalos das prisões e concluído no exílio..."

Weffort explica que Paulo Freire teve menos tempo do que gostaria para sistematizar suas teorias porque esteve o tempo todo na luta pela alfabetização e redemocratização, mesmo no exílio. A sistematização só veio depois. 

Esta obra de Paulo Freire seria, segundo Weffort, um "ensaio educacional" não acabado de todo, pois "é do estilo deste pensamento unido à prática encontrar-se em constante reformulação e desenvolvimento". Mas é obra sistemática sobre a pedagogia de Freire.

Esta obra é considerada por Weffort também uma pedagogia que pode ser aplicada aos movimentos de educação popular em diversas comunidades e países, mesmo sendo marcada pelas condições históricas brasileiras à época da confecção da mesma.

"Não seria ilegítimo pretender que esta visão educacional diga algo verdadeiro para todos os povos dominados do Terceiro Mundo." (Weffort)

- Base para uma educação como prática da liberdade: o diálogo, o respeito à liberdade dos educandos, que são "alfabetizandos" e nunca "analfabetos". 

- Um princípio essencial: a alfabetização e a conscientização jamais se separam. 

"Estamos perante uma pedagogia para homens livres" (Weffort)

- O que fundamentalmente importa é que os educandos - pessoas reais do povo - se reconheçam a si próprios, no transcurso da discussão, como criadores de cultura.

Weffort nos conta sobre as experiências de alfabetização de adultos no Nordeste por Paulo Freire antes do golpe de Estado de 1964. A elite da casa-grande viu com preocupação aquilo e passou a inventar um vínculo inexistente de Freire com o comunismo. A alfabetização era o foco do educador, educação libertadora, claro!

- Muito interessante o apanhado histórico feito por Weffort sobre a educação no Brasil no século 20 e o quanto era estratégico para a classe dominante manter o povo analfabeto e fora da participação política nas eleições. Ele pontua o período anterior e posterior a "Revolução de 1930". Depois chega ao golpe de 1964 contra Goulart.

Weffort termina sua reflexão comentando como os políticos, inclusive de oposição aos representantes da classe dominante, viram a alfabetização como fator de participação política dos pobres como massa de manobra.

---

2o texto

ESCLARECIMENTO - Paulo Freire 


Neste texto, o educador reafirma seus compromissos com uma educação libertadora em oposição a uma educação alienante. 

- "A educação das massas se faz, assim, algo de absolutamente fundamental entre nós. Educação que, desvestida da roupagem alienada e alienante, seja uma força de mudança e de libertação. A opção por isso, teria de ser também, entre uma 'educação' para a 'domesticação', para a alienação, e uma educação para a liberdade. 'Educação' para o homem-objeto ou educação para o homem-sujeito."

Freire explica seus objetivos de educador:

"Expulsar esta sombra (da opressão) pela conscientização é uma das fundamentais tarefas de uma educação realmente libertadora e por isto respeitadora do homem como pessoa. "

---

3o texto (Leitura finalizada em 01/10/23)

A SOCIEDADE BRASILEIRA EM TRANSIÇÃO - Paulo Freire


O educador começa nos explicando que o homem além de estar no mundo, ele está com o mundo.

"Estar com o mundo resulta de sua abertura à realidade, que o faz ser o ente de relações que é."

HOMEM-SUJEITO - Na página 42 da minha edição, Paulo Freire insiste na importância das pessoas se colocarem no mundo como sujeitos e não como objetos, explicando que não devemos nos acomodar aos contextos e sim atuar para alterar os contextos. 

RADICAL X SECTÁRIO - Paulo Freire constrói de forma excepcional os conceitos das coisas. Ao elogiar o radical e diferenciá-lo do sectário, como seu oposto, o educador nos coloca a pensar a respeito de nossa posição no mundo.

Sectarismo: "A sectarização tem uma matriz preponderantemente emocional e acrítica. É arrogante, antidialogal e por isso anticomunicativa. É reacionária, seja assumida por direitista, que para nós é um sectário de 'nascença', ou esquerdista."

Radical: "Para o radical, que não pode ser um centrista ou um direitista, não se detém nem se antecipa a História, sem que se corra o risco de uma punição. Não é mero espectador do processo, mas cada vez mais sujeito, na medida em que, crítico, capta suas contradições. Não é também seu proprietário. Reconhece, porém, que, se não pode deter nem antecipar, pode e deve, como sujeito, com outros sujeitos, ajudar e acelerar as transformações, na medida em que conhece para poder interferir." 

Paulo Freire nos explica que o assistencialismo pode nos levar à postura de sujeitos-objetos.

Assistencialismo: "O assistencialismo, ao contrário, é uma forma de ação que rouba ao homem condições à consecução de uma das necessidades fundamentais de uma alma - a responsabilidade, 'A satisfação desta necessidade', afirma Simone Weil, referindo-se à responsabilidade, 'exige que o homem tenha de tomar a miúdo decisões em problemas, grandes ou pequenos, que afetam interesses alheios aos seus próprios, com os quais, porém, se sente comprometido'."

Sem vivenciar a responsabilidade, não se experimenta a liberdade e sim a domesticação.

As explicações de Freire sobre as fases de transitividade das pessoas são incríveis! Da página 59 adiante ele discorre a respeito. Fica fácil entender por que a maioria das pessoas, as massas, ainda apreendem somente suas necessidades biológicas... Não tiveram o despertar da educação dialogal crítica e libertadora. 

Coisas complexas devem ser analisadas de forma complexa e não simplória (p. 61): "Pela substituição de explicações mágicas por princípios causais."

Este capítulo é profundo! Ao final, Freire nos alertou para o perigo de se sair da intransitividade fechada para a transitividade ingênua e ali ficar, sem alcançar uma transitividade crítica. Disse que nos encontrávamos neste momento quando sofremos o golpe civil-militar de 1964.

---

4º texto (Leitura em 04/10/23)

SOCIEDADE FECHADA E INEXPERIÊNCIA DEMOCRÁTICA - Paulo Freire


É interessante como Paulo Freire apresenta explicações para nosso jeito antidemocrático e autoritário de ser a partir da invasão portuguesa e do uso comercial e exploratório das terras do Brasil. 

Os afetos ficaram lá na metrópole, para onde se desejava voltar após explorar aqui. Nunca o amor à nossa terra fez parte da colonização portuguesa. 

Profundo isso! Até hoje é assim: a elite canalha brasileira ama o que é de fora e odeia tudo (d)aqui.

Que foda isso!

Ao falar da falta de "dialogação", do mutismo do povo perante a violência e domínio do mundo pelos poderosos das grandes extensões de terra e casas-grandes, Freire explica a nossa inexperiência democracia:

"Esta foi, na verdade, a constante de toda a nossa vida colonial. Sempre o homem esmagado pelo poder. Poder dos senhores das terras. Poder dos governadores-gerais, dos capitães-gerais, dos vice-reis, do capitão-mor. Nunca, ou quase nunca, interferindo o homem na constituição e na organização da vida comum." (p. 74)

COPIAR MODELOS DE DEMOCRACIA SEM A PARTICIPAÇÃO DO POVO NÃO DÁ CERTO

"Importávamos o estado democrático não apenas quando não tínhamos nenhuma experiência de autogoverno, inexistente em toda a nossa vida colonial, mas também e sobretudo quando não tínhamos ainda condições capazes de oferecer ao 'povo' inexperimentado, circunstâncias ou clima para as primeiras experiências verdadeiramente democráticas. Superpúnhamos a uma estrutura economicamente feudal e a uma estrutura social em que o homem vivia vencido, esmagado e 'mudo', uma forma política e social cujos fundamentos exigiam, ao contrário do mutismo, a dialogação, a participação, a responsabilidade, política e social. A solidariedade social e política, também, a que não poderíamos chegar, tendo parado, como paráramos, na solidariedade privada, revelada numa ou noutra manifestação como o 'mutirão'." (79)

---

5º texto (Leitura em 08/10/23)

EDUCAÇÃO VERSUS MASSIFICAÇÃO - Paulo Freire


"Ora, a democracia e a educação democrática se fundam ambas, precisamente, na crença no homem. Na crença em que ele não só pode mas deve discutir os seus problemas. Os problemas do seu País. Do seu Continente. Do mundo. Os problemas do seu trabalho. Os problemas da própria democracia." (p. 96)

Gostei de alguns temas tratados por Paulo Freire neste capítulo. Um deles o risco do excesso de especialização em oposição a um conhecimento geral, com a possibilidade de deixar as pessoas alienadas do mundo real e material.

Sobre a questão da racionalidade e razão, Freire cita Popper para esclarecer o que ele quer dizer com razão ou racionalismo de Sócrates (nota 55 da minha edição, à p. 90):

"Ao usarmos a expressão racionalidade ou racionalismo, fazemos nossas as palavras de Popper: 'O que chamo de verdadeiro racionalismo é o racionalismo de Sócrates. É a consciência das próprias limitações, a modéstia intelectual dos que sabem quantas vezes erram e quanto dependem dos outros até para esse conhecimento.'."

A REBELIÃO COMO OPORTUNIDADE: "Entendíamos a rebelião como um sintoma de ascensão, como uma introdução à plenitude. Por isso mesmo é que nossa simpatia pela rebelião não poderia ficar nunca nas suas manifestações preponderantemente passionais. Pelo contrário, nossa simpatia estava somada a um profundo senso de responsabilidade que sempre nos levou a lutar pela promoção inadiável da ingenuidade em criticidade. Da rebelião em inserção." (p. 92)

TEORIA DE VERDADE É O QUE NÓS PRECISAMOS: "De teoria, na verdade, precisamos nós. De teoria que implica numa inserção na realidade, num contato analítico com o existente, para comprová-lo, para vivê-lo plenamente, praticamente. Neste sentido é que teorizar é contemplar. Não no sentido destorcido que lhe damos, de oposição à realidade. De abstração. Nossa educação não é teórica porque lhe falta esse gosto da comprovação, da invenção, da pesquisa. Ela é verbosa. Palavresca. É 'sonora'. É 'assistencializadora'. Não comunica. Faz comunicados, coisas diferentes." (p. 93)

Ao longo do capítulo, Freire vai nos ensinando a diferença da educação que liberta, que nos leva a consciência transitivo-crítica, ao invés da educação do palavrório oco, do blá blá blá, que direciona o estudante para a consciência ingênua. A educação bancária, que só deposita conceitos e não envolve o estudante para a tomada de consciência e posição na sua realidade.

A TÉCNICA NÃO PODE OBLITERAR A VISÃO GERAL DAS PESSOAS: Passei minha vida de dirigente sindical e representante de classe tentando explicar isso para as pessoas, que a técnica não pode virar algo sagrado (mito), que cega a visão política que todos nós devemos ter das coisas.

Freire cita na nota 64, à p. 97, sobre isso: "Sir Richard Livingston, em Some Thoughts on University Education, adverte-nos deste perigo, sugerindo uma educação técnica e específica que não oblitere a visão total do homem..."

---

6º texto (Leitura em 09/10/23)

EDUCAÇÃO E CONSCIENTIZAÇÃO - Paulo Freire

Neste capítulo, Freire nos conta das experiências educativas do Recife, que balizaram as pedagogias desenvolvidas pelo educador. 

"A consciência crítica 'é a representação das coisas e dos fatos como se dão na existência empírica. Nas suas correlações causais e circunstanciais'. 'A consciência ingênua (pelo contrário) se crê superior aos fatos, dominando-os de fora e, por isso, se julga livre para entendê-los conforme melhor lhe agradar'." (Citando Vieira Pinto, nota 5, p. 105)

CONSCIÊNCIA CRÍTICA x FANATISMO: "Por isso é que é próprio da consciência crítica a sua integração com a realidade, enquanto que da ingênua o próprio é sua superposição à realidade.  Poderíamos acrescentar dentro das análises que fizemos no primeiro capítulo, a propósito da consciência, finalmente que para a consciência fanática, cuja patologia da ingenuidade leva ao irracional, o próprio é a acomodação, o ajustamento, a adaptação. " (p. 106)

CULTURA: "Que cultura é a poesia dos poetas letrados de seu País, como também a poesia de seu cancioneiro popular. Que cultura é toda criação humana." (p. 109)

Nas páginas seguintes, o educador explica como se deve pesquisar as palavras geradoras e os temas ligados à vida e rotina dos educandos para se preparar as aulas de alfabetização e de conscientização crítica. 

Quase no fim, ao analisar o golpe de Estado de 1964 e os porquês das acusações falsas que passaram a fazer contra si e contra a pedagogia que desenvolvia, Paulo Freire explica o medo que a elite e os milico tinham da conscientização do povo.

"PROPAGANDA IDEOLÓGICA OU POLÍTICA" (MEDO DA "PERIGOSA" CONSCIENTIZAÇÃO)

"Nas campanhas que se faziam e se fazem contra nós, nunca nos doeu nem nos dói quando se afirmava e afirma que somos 'ignorantes', 'analfabetos'. Que somos 'autor de um método tão inócuo que não conseguiu, sequer, alfabetizá-lo (ao autor)'. Que não fomos o 'inventor' do diálogo, nem do método analítico-sintético, como se alguma vez tivéssemos feito afirmação tão irresponsável. Que 'nada de original foi feito' e que apenas fizemos 'um plágio de educadores europeus ou norte-americanos. E também de um professor brasileiro, autor de uma cartilha...'. Aliás, a respeito de originalidade sempre pensamos com Dewey, para quem 'a originalidade não está no fantástico, mas no novo de coisas conhecidas'.

     Nunca nos doeu nem nos dói nada disto. O que nos deixa perplexos é ouvir ou ler que pretendíamos 'bolchevizar o País', com 'um método que não existia'... A questão, porém, era bem outra. Suas raízes estavam no trato que déramos, bem ou mal, ao problema da alfabetização, de que retiráramos o aspecto puramente mecânico, associando-o à 'perigosa' conscientização. Estava em que encarávamos e encaramos a educação como um esforço de libertação do homem e não como um instrumento a mais de sua dominação." (Nota 24, p. 121/122)

---

7º texto

APÊNDICE


Nesta última parte do livro, nos é apresentado os materiais de trabalho de Paulo Freire e equipe com a alfabetização de adultos. "(...) apresentamos, agora, em apêndice, as situações existenciais que possibilitam a apreensão do conceito de cultura, acompanhadas de alguns comentários. Pareceu-nos igualmente interessante apresentar as 17 palavras geradoras que constituíram o curriculum dos Círculos de Cultura do Estado do Rio e da Guanabara."

No apêndice temos os desenhos feitos por Vicente de Abreu em substituição aos originais do pintor Francisco Brenand, tomados de Paulo Freire.

---

COMENTÁRIO FINAL

O estímulo para pegar este livro que tinha na estante de casa e finalmente lê-lo foi devido ao curso "Paulo Freire: Educar e Esperançar" que fiz no Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Valeu a pena!

Se ainda conheço pouco sobre o educador e intelectual Paulo Freire, posso dizer que conheço um pouquinho mais hoje do que ontem. E assim seguimos estudando e aprendendo novos saberes.

Enquanto puder, seguirei lendo, pensando e escrevendo.

William


Bibliografia:

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 15ª edição, Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1984. 


domingo, 10 de setembro de 2023

Livro: Cuba insurgente - Maria Leite



Refeição Cultural

Osasco, Brasil. América do Sul.


10/9/23 (13h41)

O livro da professora Maria Leite, sobre a pedagogia em Cuba, é um dos livros que peguei para ler desde que passei a estudar um pouco sobre o país e o povo cubano, há mais ou menos um ano. É um livro exigente, na minha opinião, porque ele é profundo e para mim livros assim não são de leitura rápida, leio e releio parágrafos e páginas, vou e volto, paro e sigo.

Neste momento em que abro esta postagem, ainda faltam cem páginas para terminar a leitura do estudo sobre a pedagogia cubana, é um estudo de 40 anos de vida da doutora e mestra Maria Leite, um estudo profundo sobre a identidade e a educação em Cuba, principalmente após a Revolução de 1959. Já aprendi muito com a leitura feita até aqui. 

Acho que é hora de pegar na leitura até acabar. Já vivi a experiência fantástica em minha vida de ir a Cuba por duas semanas e conhecer Havana e mais três cidades do país, Trinidad, Santa Clara e Varadero. Já me demorei demais na leitura do livro.

---

ANTES, UMA DIGRESSÃO

Escrever na rede mundial pra quem? 

Uma coisa que tenho refletido muito é sobre a profundidade e a superficialidade das coisas, inclusive da sociedade humana. Os problemas atuais do mundo são complexos e toda complexidade deveria ser tratada de forma complexa. Mas os tempos são de superficialidade. 

Não quero ser superficial, nem quero escrever superficialidades como escritor de blog. Faço há tempos um esforço de construir textos enormes, com citações e reflexões para contribuir com o compartilhamento de conhecimento humano de forma gratuita. São mais de 5 mil postagens em meus blogs. Seguirei escrevendo.

No entanto, talvez eu mude um pouco o tipo de conteúdo em algumas postagens. Não sei até que ponto vale a pena eu ficar um dia todo para fazer um texto bem trabalhado para disponibilizar na rede mundial e não saber se o conteúdo foi lido por alguns humanos ou se o conteúdo foi apenas roubado pelas máquinas da mentirosa "Inteligência Artificial", que não é inteligente e não cria nada, só rouba tudo que se escreveu até hoje, usa a nossa criação textual sem citar a fonte e engana o povo do mundo como se a máquina que compila textos fosse "inteligente".

Como saber se as centenas de acessos diários aos meus textos são máquinas ou seres humanos? Acho que não tem como saber. Imagino que é da natureza do que nós escritores fazemos viver com a dúvida se alguém leu o que criamos. Até quem edita um livro pode ter os livros vendidos e os mesmos serem colocados nas estantes de metro (de enfeite) sem nunca serem lidos...

Enfim, vamos seguir com a leitura do livro profundo e sério da professora Maria Leite. O deleite do novo conhecimento, no fundo, é meu, é do leitor da obra em si.

Aliás, quando penso ainda nas redes sociais das big techs, aí é que eu fico danado com esse mundo da aparência e da superficialidade... A hora que eu tiver coragem de não saber mais sobre os outros, acabo de vez com as contas que tenho nas redes sociais.

---

10/9/23 (21h30)

CAPÍTULO 4

A leitura do Capítulo 4 traz reflexões muito atuais perante os dilemas da sociedade humana, dilemas não só para a República Socialista de Cuba como também para os demais países sob a hegemonia do modelo capitalista. A autora nos falou bastante sobre o modelo de educação cidadã em Cuba.

O capítulo abordou os seguintes pontos:

A EDUCAÇÃO E AS NOVAS DIRETRIZES

4.1 O sistema nacional de educação em Cuba; 4.2 O plano de estudos "E"; 4.3 Os conselhos na atividade educacional; 4.4 As relações entre trabalho e educação; 4.5 A educação para a vida cidadã.

Os "valores morais" devem ser como uma bússola orientadora das conquistas e manutenção do socialismo.

DIREITOS DAS CRIANÇAS E JOVENS CUBANOS

"O Estado Socialista, como poder do povo, garante que não haja criança sem escola, comida e vestuário; que não há jovem que não tenha a oportunidade de estudar; que não há quem não tenha acesso a estudos, cultura e esportes" (Artigo 9, CUBA, 1992)

AS RELAÇÕES ENTRE TRABALHO E EDUCAÇÃO

(...) Em O Capital, a análise da categoria trabalho é apresentada em sua dimensão ontológica, ou seja, a partir da ideia de que é pelo trabalho que se constitui a vida humana ao longo da história..." (p. 139)

Essa parte foi tão profunda na análise que é necessário fazer aqui algumas citações para quando eu for reler a postagem.

A autora cita Marx à página 139:

"Antes de tudo, o trabalho é um processo entre o homem e a Natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a Natureza. Ele mesmo se defronta com a matéria natural como uma força natural. Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes à sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para a sua própria vida. Ao atuar, por meio desse movimento, sobre a Natureza externa a ele e ao modificá-la ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. Ele desenvolve as potências nela adormecidas e sujeita o jogo de suas forças a seu próprio domínio (MARX, 1996, P. 297)"

---

11/9/23 (22h08)

"(...) Na concepção marxista, a divisão técnica e social do trabalho na sociedade capitalista gera a alienação do homem em relação ao próprio trabalho e à natureza, desumanizando-o. Marx une o ato produtivo ao ato educativo, explicitando que a unidade entre a educação e a produção material deve ser admitida como meio decisivo à emancipação humana. No pensamento marxista, a separação entre ensino e trabalho faz da escola uma instituição 'morta'." (p. 139)

Principalmente após a Revolução de 1959, "a escola cubana deposita no trabalho a possibilidade concreta de elevação cultural e desenvolvimento dos seres humanos." (p. 143)

Após a visita a Cuba, acabei vendo diversos vídeos na internet que mostram Che Guevara e os cubanos em intenso trabalho nos primeiros anos da república socialista. É muito legal ver as imagens da época.

O TRABALHO CAPACITA O HOMEM PARA A REALIDADE DA VIDA

"(...) Segundo Castro Ruz (1998, p.12), 'há de ser o trabalho o grande pedagogo da juventude e, simplesmente, é ele que pode capacitar o homem para entender seus deveres e a realidade da vida'." (p. 144)

As leis da didática em Cuba atuam no sentido de criar de forma consciente o amor pelo trabalho socialmente útil nos estudantes e jovens do país.

"A Constituição de 2019 assegura, em seu Capítulo I - Dos fundamentos políticos, Título II, Artigo 31, que: 'o trabalho é um valor primordial de nossa sociedade. É um direito, um dever social e um motivo de honra para todas as pessoas em condições de trabalhar' (CUBA, 2019c)." (p. 147)

No último tópico do Capítulo 4 - "A educação para a vida cidadã" - nos chama a atenção a leitura de que tem sido um desafio para o sistema educativo cubano manter os valores da revolução para as novas gerações, cercadas de novas tecnologias e apelos consumistas.

APARELHOS CELULARES, A ARMA DO INIMIGO DO REGIME: Uma imagem que ficou na minha memória, das caminhadas por Cuba, principalmente em Havana Velha, foi a imagem das pessoas - jovens principalmente - com as caras nas telas de celulares pelas ruas... fiquei triste ao ver isso. Não à toa, diversos cidadãos cubanos com quem conversei, mais velhos, me disseram que a maior arma contra a Revolução é "essa" me mostrando os aparelhos de celulares...

---

12/9/23 (14h35)

CAPÍTULO 5

"Em Cuba, existe a consciência de que o mundo está imerso em um quadro de acentuado desenvolvimento e, paradoxalmente, também de espantosos índices de pobreza. Para os cubanos, muitos fatores deste quadro estão ligados às tentativas, em nível mundializado, de anular, no interior das nações, os sentimentos pátrios e suas identidades como estados soberanos. Desde os primeiros anos da Revolução, a Educação foi chamada a ocupar um lugar privilegiado, como a pedra angular da nova sociedade. Existe uma espécie de consenso de que a criação e a formação de valores na consciência das crianças e dos jovens, desde muito cedo, são agora mais necessárias que nunca para salvar a independência de Cuba e a Revolução." (p. 189)

Terminei a leitura do Capítulo 5 - "A interlocução com a realidade", que tratou dos seguintes temas: 5.1 Espaços de observação; 5.2 A interação face a face; 5.3 Eixos de articulação das entrevistas.

Enquanto lia a análise das entrevistas e estudos feitos por Maria Leite, fiquei me lembrando dos dias que passamos em Cuba meses atrás. Como leio quase todos os dias notícias de Cuba, percebo que o capítulo abordou temas muito atuais como a questão do trabalho autônomo - "cuentapropismo" - e os desafios da educação e da economia do país, sobretudo por causa do bloqueio imposto pelos Estados Unidos.

---

12/9/23 (22h30)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A última parte do livro de Maria Leite são as considerações finais dela. Gostei muito do estudo, do percurso empreendido pela autora e de tudo que passei a saber sobre Cuba e o povo cubano.

Não dá pra fazer grandes citações, mas deixo duas para finalizar a postagem.

MARTÍ E MARX - BASES DO SOCIALISMO CUBANO

"(...) O legado de Martí, entrelaçado às ideias de Marx, acabou por produzir uma recepção ao marxismo distinta daquela até então hegemônica no continente americano. A combinação desses fatores provavelmente é o sustentáculo capaz de explicar a continuidade do regime cubano após a extinção da URSS, mesmo com o fortalecimento do bloqueio imposto a Cuba, como relíquia da Guerra Fria." (p. 196)

UMA DIFERENÇA CENTRAL DA CUBA SOCIALISTA E DO BRASIL CAPITALISTA

"No entendimento desta pesquisa, a distância que separa os grupos em 'desvantagem social' e os que conhecem a 'filiação', se é possível assim chamá-los, dentro do formato identitário cubano, não se inclui a brutalidade, que mantém as massas em estado de alerta contra balas perdidas, assaltos à mão armada e outras formas de criminalidade frequentes nos países alinhados ao capitalismo da era globalizada. A educação tem colaborado acentuadamente para estabelecer em Cuba um quadro distinto do nível de desagregação social, que marca as grandes cidades da América Latina e do Caribe. As limitações engendradas nos períodos de crise não acarretaram o abandono de prédios escolares, o fechamento de hospitais, o fenômeno de 'meninos de rua', grupos de extermínio e massacres perpetrados por atiradores." (p. 201) 

Como cidadãos brasileiros, sabemos o que a autora quer dizer sobre essa brutalidade e os riscos aos quais estamos expostos diariamente. Ao visitar Cuba por duas semanas, andando todos os dias por Havana e pelas outras cidades do país, percebi a diferença em relação ao risco de alguma brutalidade ou ameaça local: praticamente zero risco.

Bom, finalizada a leitura. Seguirei acompanhando o dia a dia do povo cubano e a construção do socialismo na Ilha caribenha.

William


Bibliografia:

LEITE, Maria do Carmo Luiz Caldas. Cuba insurgente: identidade e educação. Curitiba: CRV, 2023.


domingo, 6 de agosto de 2023

Diário e reflexões - Cuba XXXI



Refeição Cultural - Cuba (XXXI)

Osasco, 6 de agosto de 2023. Domingo.


Comecei a ler o 4º capítulo do livro da professora Maria Leite sobre a educação na República Socialista de Cuba - Cuba insurgente: Identidade e Educação (2023). O tema é: "A educação e as novas diretrizes".

Leio sobre Cuba com um sentimento de preocupação em relação ao que pode acontecer ao país e aos cubanos no presente e no futuro porque torço por eles e sei que a cada dia se torna maior o desafio de existir enquanto organização social distinta do restante do mundo organizado através do modelo neoliberal e capitalista.

O capítulo fala de "valores morais"... importante isso: valores morais!

A Constituição de Cuba garante a toda criança escola, comida e vestuário. 

E aqui no Estado mais rico do Brasil, o governador carioca de SP, um bolsonarista, corta de milhões de crianças o acesso ao livro didático impresso...

"A Revolução não roga aos pais que se preocupem pelo comportamento e pela educação de seus filhos colaborando com a escola e com os maestros: a Revolução o exige", disse Fidel Castro na inauguração do curso escolar de 1977. (p. 118)

Depois, ainda sobre direcionamentos no processo "Educação para Todos" vemos de novo o foco "valores":

"(...) procurando fortalecer a educação de valores, como a solidariedade e o patriotismo; manter e elevar os conhecimentos nas asignaturas de Matemática, Espanhol e História..." (p. 119)

Pedagogia: ciência, arte ou técnica?

"(...) a Educação cubana busca inserção na corrente contrária às tendências que reduzem a Pedagogia apenas a uma existência instrumental, mera facilitadora de atividades aplicadas pelos professores, produzidas por outros saberes e outras ciências, relegando à própria Pedagogia um papel subalterno." (p. 124)

A professora Maria Leite explica que Cuba foi aos poucos se libertando dos pressupostos positivistas sobre o que seria ciência.

-------------------- 

Comentário: é noite de domingo, estou lendo sobre a Pedagogia em Cuba, enquanto leio, martela na minha memória os argumentos de Gorbachev explicando as boas intenções da "Perestroika" nos anos 80, reestruturação que não deu certo e que levou ao fim a experiência socialista na URSS... infelizmente, me dá uma "bad" ao imaginar o fim da experiência socialista em Cuba... mas tudo conspira contra a continuidade do regime lá. Que foda!

--------------------

FORMAÇÃO INTEGRAL EM CUBA (NOVOS HOMENS E MULHERES)

"Na educação superior cubana, o conceito de formação integral, em termos de paradigma, é definido da seguinte forma: a formação integral dos estudantes universitários deve resultar em graduados com um sólido desenvolvimento político, a partir dos fundamentos da ideologia da Revolução Cubana; egressos dotados de uma ampla cultura científica, ética, legal, humanista, econômica e ambiental; empenhados e preparados à defesa da pátria socialista e às causas justas da humanidade com seus próprios argumentos e competentes ao desempenho profissional e o exercício de uma cidadania consciente (CUBA, 2016a)." (p. 128)

Imaginem só a formação universitária no Brasil... Estamos a anos-luz de atingir uma educação semelhante...

Terminando o item 4.2 que aborda o plano de estudos "E", no qual vemos toda a estrutura do sistema de educação de Cuba, fica a preocupação com os dados relacionados à demografia da Ilha, a população está envelhecendo rapidamente por diversos motivos. 

---

(Leitura segue e postagem idem...)

sábado, 24 de junho de 2023

Diário e reflexões - Cuba XXVI (24/06/23)



Refeição Cultural - Cuba (XXVI)

Osasco, 24 de junho de 2023. Sábado.


"Félix Varela nos ensinou a pensar, Martí no ensinou a lutar e Fidel nos ensinou a vencer" (Armando Hart)


No início deste ano decidi que iria estudar um pouco a respeito de Cuba e de seu povo aguerrido (e insurgente). Já sabia desde meados do ano anterior que iria conhecer o país de regime socialista. A viagem correu tudo bem e por duas semanas pudemos vivenciar na Ilha um pouco do dia a dia do povo cubano.

Passados seis meses de leituras sobre o tema Cuba, eu diria que sigo sabendo menos do que gostaria, contudo posso afirmar que sei um pouco mais do que sabia antes. 

Já tenho alguma noção sobre a história de Cuba e seu povo, sobre José Martí, sobre Fidel Castro, sobre Ernesto Che Guevara, sobre a importância da educação e cultura para o povo e o regime socialista cubano. Repito, não sei quase nada, mas já tenho algumas noções sobre Cuba. Se considerar que vivemos num mundo de gente meio sem noção das coisas, já é alguma coisa conhecer um pouquinho da história da Ilha.

Hoje li o 2º capítulo do livro da doutora e mestra em Educação Maria Leite - Cuba insurgente: identidade e educação (2023). É muito interessante ler sobre o país socialista depois de ter estado lá por alguns dias. É alentador saber da importância da educação na manutenção do regime após mais de seis décadas de Revolução, um processo revolucionário de libertação do povo iniciado por insurgências populares no mínimo desde 1868. Algumas referências retroagem a 1511, como é o caso do cacique Hatuey.

EDUCAÇÃO EM CUBA E NO BRASIL - Quando me lembro da situação da identidade e da educação do Brasil após o golpe de Estado de 2016, após os dois governos de destruição nacional, dois canalhas que tinham como meta desfazer os poucos avanços do povo brasileiro em mais de um século de lutas, e quando me lembro ainda da reforma do ensino médio brasileiro, que acabou de vez com qualquer chance de uma educação universal de verdade, fico muito decepcionado ao não ver o Novo Ensino Médio (NEM) cancelado pelo nosso governo. 

Sabemos das dificuldades de um governo de composição, de frente ampla, mas não revogar o NEM até agora é frustrante. O NEM é um projeto de destruição da educação do Brasil, projeto mais que neocolonial, um projeto de ampliação da desigualdade de conhecimento entre os ricos e seus filhos e a ampla maioria de pobres do país em relação ao acesso à educação de qualidade.

---

A LEITURA

No 1º capítulo, vimos sobre a formação da sociedade cubana (ler breve comentário aqui).

Neste 2º capítulo, foram abordados os seguintes subtemas:

A REVOLUÇÃO CUBANA: Logros, retrocessos e avanços.

2.1 A anatomia do entusiasmo

2.2 A educação como pedra angular da revolução

2.3 A universalização do ensino fundamental

2.4 Os organismos políticos e de massas em Cuba

2.5 A retificação de erros.


ALFABETIZAÇÃO E PARTICIPAÇÃO SOCIAL

"A Campanha de Alfabetização conjurou dialeticamente diversos fatores, contribuindo para que o fazer educativo assumisse uma forte dimensão político-social e o ensino fosse convertido em instrumento participativo." (p. 65)

A INSPIRAÇÃO DO MOVIMENTO 26 DE JULHO, LIDERADO POR FIDEL CASTRO EM 1953: MARTÍ

"Foi a partir desta conjuntura que um pequeno destacamento, autodenominado Generación del Centenario, de diversas procedências geográficas e sociais, adotaram a estratégia insurrecional. Para esse grupo de jovens, era impossível tolerar passivamente que, 100 anos depois do natalício de Martí, reinasse na nação o despotismo e a entrega das riquezas da Ilha, sem manifestações da rebeldia, que o próprio 'apóstolo' da independência demonstrara desde sua infância e sua juventude." (p. 66)

FIDEL CASTRO: A HISTÓRIA ME ABSOLVERÁ

"Durante o julgamento, celebrado na raiz do assalto ao Quartel Moncada, o líder da Revolução Cubana não menciona Marx e Lenin, nenhuma vez, porém em mais de quarenta citações faz alusão a Martí, centrando suas ideias na identidade nacional. Esse manifesto se resumia a seis pontos: uso da terra, industrialização, moradias, emprego, educação e saúde." (p. 67)

FIDEL: É A ECONOMIA... ALÉM DA EDUCAÇÃO

Pensamentos de Fidel antes da Revolução Cubana, durante a prisão no regime do ditador Batista.

"Na missiva, ele apontava que tudo o que se fizesse relativo à técnica e à organização do ensino, nada valeria a pena sem alterar de maneira profunda o status quo econômico da nação." (p. 67)

NÃO BASTA UMA REVOLUÇÃO, É PRECISO SUPERAR A INCULTURA E MUDAR O ESPÍRITO DE UM POVO

Dois pensamentos de José Martí que foram referências nos primeiros anos da Revolução Cubana:

"A pobreza mais difícil de ser vencida era a incultura"

e

"El problema de la independencia no era el cambio de formas, sino el cambio de espiritu." (p. 69)

OPÇÃO PELOS POBRES

Superada a etapa de expulsão do ditador Fulgencio Batista e no dia a dia dos primeiros anos de Revolução, Fidel Castro e os líderes revolucionários tiveram que optar por uma das classes internas na sociedade cubana que estavam em disputa pela hegemonia na Ilha: a burguesia ou os pobres.

O movimento 26 de Julho e a guerrilha fizeram a opção pelos "pobres de la tierra" como dizia Martí.

E as leis de reforma agrária foram centrais nessa opção pelos pobres e mais humildes.

A REAÇÃO BURGUESA

A burguesia cubana reage e passa a financiar contrarrevolucionários. Os primeiros anos foram muito difíceis para Fidel, Che e demais líderes da Revolução.

"(...) a burguesia nacional passou a adotar atitudes de agressão e boicotes no processo, dentre os quais se destacam: o abandono da direção das empresas, a recusa em comercializar produtos e serviços e o financiamento de grupos contrarrevolucionários. Esse fato levou à estatização de 383 empresas industriais e comerciais de capital nacional e a função bancária passou a ser exercida unicamente pelo Estado." (p. 72)

QUARTÉIS VIRAM CENTROS DE ESTUDOS

Uma estratégia muito simbólica por parte dos líderes revolucionários foi transformar diversos quartéis e antigos presídios e centros de tortura em escolas e centros de formação de professores. 

"Em 9 de janeiro de 1960, foi iniciada em toda a Ilha a demolição dos muros dos quartéis. Após 19 dias, centenas de operários da construção, estudantes universitários e contingentes da população, em jornadas de trabalho de três turnos diários, converteram o sombrio Quartel Moncada na Ciudad Escolar 26 de Julio, com capacidade para 2 mil crianças. A Ciudad Libertad, que foi até 1959 o Colúmbia, uma típica e vasta instalação militar, onde se gestaram as piores causas, passou a ser um enorme conjunto com escolas de ensinos primário, secundário, especial e superior, na qual a pista de aviões de guerra transformou-se em um enorme organopónico (hortas orgânicas urbanas). Nesse contexto, teve transcendência política e moral a conversão de 69 quartéis em escolas com capacidade para 40 mil alunos." (p. 72)

O POVO PASSA A TER ACESSO A ASSISTÊNCIA MÉDICA UNIVERSAL

"Graças a esses esforços, a população cubana até a atualidade destaca-se pelo elevado nível de escolaridade e pelo usufruto de serviços de saúde pautados pela lógica da prevenção e do direito universal, com a promoção de iniciativas como o Programa del Médico y la Enfermera de la Familia.

O modelo de saúde cubano começou ainda na Sierra Maestra, quando os camponeses passaram a ser atendidos por Che Guevara e seus companheiros profissionais de saúde.

A EDUCAÇÃO COMO PEDRA ANGULAR DA REVOLUÇÃO

"A primeira etapa da Revolução favoreceu mudanças que estabeleceram novos fundamentos educacionais, inspirados em Martí, com alicerces fincados na autoctonia. A busca do homem novo pela reapropriação da natureza humana, tornou-se o centro da mobilização da sociedade. Segundo Guevara (1988, p. 16), 'o homem novo alcançaria sua plena condição humana quando produzisse sem a compulsão da necessidade física de vender-se como mercadoria." (p. 75)

UNIVERSALIZAÇÃO DO ACESSO À EDUCAÇÃO

Alguns eixos são centrais na nova etapa educativa em Cuba.

"A criação das bases do novo modelo tentava transformar a saúde, a educação e a cultura em direitos de toda a população." (p. 76)

e

"Produziu-se, portanto, a reforma integral do ensino, que representou um primeiro esforço para estruturar um sistema escolar harmônico." (ibidem)

Martí, sempre uma referência:

"Al venir a la tierra, todo hombre tiene derecho a que se le eduque y después, en pago, el deber de contribuir a la educación de los demás." (p. 77)

CHE GUEVARA E OS IDEIAS DO HOMEM NOVO

"As ideias que Guevara (1988) legou à educação podem ser sintetizadas na tarefa de criar um 'homem novo', pelo desenvolvimento da consciência participativa na produção socialista." (p. 78)

---

COMENTÁRIO 

A universalização do ensino fundamental foi abrangida pela autora no item 2.3 do capítulo e no item 2.4 os organismos políticos e de massas em Cuba.

Os subtemas são tão importantes que eu teria que citar muitas partes do texto.

Nada substitui a leitura do livro por parte dos interessados neste conhecimento que a professora Maria Leite compartilhou conosco.

DISCIPLINA - A pedagogia educacional em Cuba trabalha muito a questão da disciplina como um meio para se atingir os objetivos e uma questão socializante também, cooperativa e coletiva.

"O cumprimento das metas estabelecidas por todos só era possível com uma direção firme. Por isso, os alunos tinham consciência de que a disciplina não era um fim, mas um meio, um recurso para vencer as dificuldades." (p. 80)

VOLUNTARIADO - Outro tema importante na sociedade cubana é o trabalho voluntário, cooperativo.

ORGANISMOS POLÍTICOS E DE MASSA - Numa nova sociedade como a cubana, organismos sociais com espírito de pertencimento são fundamentais como, por exemplo, o Partido Comunista de Cuba, os sindicatos de categorias profissionais, os Comitês de Defesa da Revolução, a Federação das Mulheres Cubanas, a União dos Jovens Comunistas, dentre outros.

Com o avanço das conquistas socialistas do povo cubano, a pedagogia foi se aperfeiçoando através das experiências e participações de especialistas da área.

"Em dezembro de 1975, foi editada a Tese de Política Educacional, que oficializava a pedagogia de cunho marxista-leninista, sem perder de vista o pensamento educativo martiano e a herança histórica do pensamento educacional cubano de todos os tempos. O tripé formado pelo Estado, as organizações de massa e o PCC passou a constituir a base do socialismo adotado na Ilha." (p. 83)

---

Finalizo a leitura do capítulo com uma preocupação ao me lembrar do Brasil em 2023. 

Aqui, apesar de suspenso para consulta pública, as bases da educação fundamental do governo Lula é o Novo Ensino Médio (NEM). 

A suspensão só ocorreu por causa do grande esforço feito pelas entidades da sociedade civil envolvidas com educação e direitos sociais e as denúncias dão conta de que o NEM é uma esculhambação, um modelo aprovado pelos governos golpistas.

É isso! Deu trabalho fazer a postagem, mas enquanto escrevi, forcei meu cérebro a se exercitar... isso é bom!

William


Post Scriptum: clique aqui para ver a última postagem com o tema Cuba.


Bibliografia:

LEITE, Maria do Carmo Luiz Caldas. Cuba insurgente: Identidade e Educação. Editora CRV, Curitiba, 2023.