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quinta-feira, 27 de junho de 2013

Sobre o novo "imortal" FHC e aquilo que chamam ABL


Imortal FHC - foto: J. Freitas
Wikipedia
Olha, vou usar uma frase de Luis Fernando Verissimo comentando sobre gramática para dizer o que eu penso da ABL, aquela antiga academia de letras, cujo primeiro presidente foi o escritor Machado de Assis, respeitada naquelas primeiras décadas do século XX.

"A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva."

Não preciso dizer mais nada, né!

Francamente, o que os amantes da leitura, das línguas e do mundo da literatura podem esperar de uma Academia que tem como ilustres imortais membros do porte de um José Sarney, um Merval Pereira e agora um sociólogo do naipe de um Fernando Henrique Cardoso?...


O poeta Cazuza (não imortal para a ABL) já dizia:

"A tua piscina tá cheia de ratos,
Tuas ideias não correspondem aos fatos,
O tempo não para..."

Quem diria que um dia eu iria publicar uma foto do FHC em meu blog!

Bom, vamos falar de coisa boa. Leiam a crônica do Verissimo sobre o Gigolô das palavras, é muito legal.

sábado, 9 de junho de 2012

MEMÓRIA: Ray Bradbury, um escritor de ideias (22/8/20-06/6/12)


Texto de Rosane Pavam, de Carta Capital.

Ray Bradbury, sempre ligado ao público.
Fonte: Carta Capital.
O escritor norte-americano Ray Douglas Bradbury, morto dia 6, aos 91 anos, de causas desconhecidas, viajou pela literatura como um grande aventureiro. Ele se dizia um “escritor de ideias”, não de ficção científica, como ficou conhecido após criar sucessos como Crônicas Marcianas (1950), O Homem Ilustrado (1951), ou o romance Farenheit 451 (1953), este transformado em filme por François Truffaut em 1966. Seu método consistia em associar palavras a ponto de lhes dar uma história inteira, como explicou certa vez no documentário The Illustrated Man. O que viesse como consequência era o inesperado, mas também o que morava dentro dele.

Toda a sua escrita era marcada por esse método associativo, algo assemelhado ao da poesia, aquela com a qual trabalha um Manoel Barros, no Brasil. Em Bradbury, um escrito sempre começava por uma palavra, digamos “berçário”, conforme explicava naquele documentário: “Datilografo a palavra em minha máquina, não sei por quê. E imagino como seria esse berçário. Do passado, do presente? Do futuro. Em que país? No Pólo Norte, na África? E então começo a construir um ambiente tridimensional. Você põe as crianças naquele lugar, seus pais, relaciona-os  com o mundo. De repente, você voa apenas porque ousou colocar as palavras no papel. Nem sabia que a história estava com você, mas continua a escrever”.

Nadava em bom humor. Dizia divertir-se com as ideias. Melhor dizendo, brincava com elas: “Não sou uma pessoa séria e não gosto de gente séria.” Sua disposição para falar ao público durou até o fim. Em 1955, casado, pai de quatro meninas, foi à televisão para que Groucho Marx o desafiasse no show You Bet Your Life. Groucho não o conhecia, mas ele, então com 35 anos, já escrevera seus livros mais importantes e roteirizara Moby Dick, de John Huston. “O que você faz, Ray?”, pergunta-lhe Groucho. “Sou um escritor (a writer).” Groucho, confundindo writer com rider (piloto): “De motocicleta?” Ray esclarece a diferença de ofícios, soletrando a palavra writer. E Groucho: “Muito confortante que estejamos diante de um escritor que saiba soletrar”.

Desinteressado em que somente o público da FC o distinguisse, Bradbury escreveu fantasias científicas sem preocupações de verossimilhança. Em sua Marte, era possível respirar e viver dos sonhos. E ele não imaginava um mundo sem bibliotecas. Em Farenheit 451, o protagonista, um bombeiro, faz as fogueiras onde os livros, objetos condenados, devem ser destruídos. Muitos leram esta ficção como uma condenação ao autoritarismo político. Não Bradbury, o livre: “Minha ideia era alertar contra os males da televisão”.


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Hoje morreu o nosso Tuckinho

(02.01.12) Chegamos hoje à tarde em casa e nosso esquilinho da mongólia estava morto. Por mais que já esperássemos que nosso Tuckinho morresse a qualquer momento, encontrá-lo morto em sua gaiolinha foi muito triste. Muito triste mesmo! A vida é sempre cheia de momentos opostos: alegria e tristeza, perdas e ganhos.


Em 2009, com uns 6 meses. Ele adorava roer papelão.

Meu filho ganhou seu gerbil em 2008, no dia das crianças. Batizou o bichinho com o nome de Bidoof, em referência a um programa infantil - Pokemón - com vários personagens. Mas sempre o chamamos de Tuck.

Bidoof em 2009 com um ano, após um cafuné do Guto.

O esquilinho esteve conosco por mais de três anos. Meu filho foi de criança a adolescente enquanto o esquilinho chegava a sua expectativa de vida.

Foi importante para meu filho ter um bichinho de estimação nessa fase de sua vida, pois ele sempre quis um cachorro e não foi possível por morarmos em um apartamento - apto. muito pequeno, por sinal. O esquilinho da Mongólia supriu esse desejo infantil de se ter um animalzinho em casa.

Com 2 anos. Ele preferia coçar e desgastar seus dentes aí.

A morte do Tuckinho me doeu muito também. Em outubro passado, morreu a nossa hamster anã russa - Titch -, e agora morre o Tuck.

Durante dois anos, meu hábito sempre foi chegar em casa e, já da porta, chamá-los e pegá-los na mão. A Titch, doidinha para ser pega na mão e ganhar sementes de girassol ou outra guloseima. O Tuckinho me via como um pão ambulante, pois ele vinha na minha mão comer casquinhas de pão. Era só chamá-lo ou ele me ver passando perto da gaiola que já levantava a cabeça e ficava me esperando.

Olha nosso xodozinho comendo pãozinho em 2010.

Nos últimos meses, o esquilinho deu uma espécie de tumor na barriguinha e a feridinha foi piorando nas últimas semanas. Ele já estava com a idade acima da expectativa média de vida dos esquilinhos da Mongólia. Fizemos o que entendemos ser possível: gaiola sempre limpinha, proteções para ele não cair do andar de cima, carinho e cafuné sempre que possível. O bichinho se desmanchava em prazer quando recebia cafuné na cabeça e no pescocinho.

Nosso velhinho tomando água. Está com 3 anos na foto.

Após enterrá-lo ao lado da Titch, saí para correr e espairecer a cabeça. Fiquei pensando sobre as últimas vezes em que sua ferida sangrou e ele não morreu. A gente sempre estava ao lado para um cafuné, para por uma comidinha na boca dele e para animá-lo. Nas últimas duas vezes - véspera do natal e antes de eu ir para a praia - achamos que ele morreria, mas ele resistiu. Em segundos, já recebia um cafuné para acalmar e umas guloseimas nas patinhas para mastigar.

Eu não quis ficar a semana toda na praia com a família porque tinha que trabalhar; porque precisei acompanhar meu pai ao médico; e porque não queria deixar o Tuckinho sozinho muitos dias.

Final de 2011, nosso velho Tuckinho brinca com papel.

DILEMA
Eu só o deixei sozinho por três dias porque também não seria justo, depois de um ano todo ausente em casa com minhas viagens de trabalho, não estar ao menos três dias com a família na colônia de férias em que eles estiveram por uma semana.

Dormindo todo relaxado em minha mão, algumas semanas atrás.

Mas bateu uma tristeza muito grande quando refletia sobre a morte do bichinho. Apesar de um vizinho amigo cuidar dele nesses três dias, ele ficou sozinho em casa. Ficou sem o pãozinho. Ficou sem os chamamentos constantes e ficou sem os cafunés que ele adorava. Morreu sozinho em casa à tarde, pouco antes de chegarmos.

Por um lado, me parece que alongamos a vida dele nas últimas semanas com o carinho necessário e revigorante a um bichinho idoso e no fim da vida. Mas, por outro, me parece também que ele não resistiu à falta desse carinho por três dias seguidos.

A vida é assim. Hoje morreu o nosso Tuckinho.

Tristeza!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A Partida - 2008, Japão.



Foto de divulgação

A PARTIDA
Um filme dirigido por Yôjirô Takita.
Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009.

A beleza deste filme japonês, na minha opinião, só se equipara à beleza do filme americano Uma história real. Leia aqui.
O filme nos traz uma lição de vida a cada caso de morte. Temos a relação entre pais e filhos. Temos a questão da aceitação ou não dos pais que têm os filhos diferentes. Temos muitas questões de preconceito.
O filme é uma bela lição de vida, apesar de ser um filme sobre a morte.

OS MOMENTOS PESAM
Rever o filme A Partida, neste momento, tocou-me profundamente. Vi algumas “partidas” nos últimos meses que me entristeceram muito.
Ver a dona Irene, que nos vendia pãezinhos na frente do condomínio, morrer de câncer em poucas semanas, foi algo triste e chocante.
Ver o meu vizinho e colega Rogério, bancário do Bradesco, morrer na véspera do Natal, de maneira tão boba, após uma cirurgia de estômago, e deixar dois filhinhos de menos de dois anos, é muito triste.
Ver uma família de amigos de infância sofrer pela morte prematura de uma filha de 22 anos, na mesma semana de Natal da morte do Rogério, é também tristeza pura.
Fiquei pensando na família do companheiro Edmundo, ex-presidente do Sindicato dos bancários de Alagoas, que morreu prematuramente neste semestre.
Alguns filmes são feitos para serem vistos várias vezes. A Partida é um deles.

COM A IDADE, TORNA-SE COMUM VER “PARTIDAS”
Tantas Partidas virão em minha vida, pois já estou na fase de ver pessoas próximas e da família, muitas delas mais velhas, partindo – ou morrendo -, haja vista que sou ateu e não acredito em nenhuma sequência, porta ou passagem para outra vida.
A Partida pra mim é só passagem para a volta à natureza.

Recomendo muito a toda pessoa que ainda não tenha visto este filme, que o faça, pois ele é de uma beleza incrível e trata a morte com um respeito absurdo!

sábado, 3 de dezembro de 2011

Refeição Cultural - Antes de partir


Foto divulgação

ANTES DE PARTIR – Bucket list

Este é um belo filme com Jack Nicholson e Morgan Freeman. O filme tem direção de Rod Reiner e estreou em 2007.
Ao tecer comentários sobre filmes em meu blog, gosto de escrever algo que realmente tenha me tocado ou alguma reflexão que o filme tenha me levado a pensar.
O ano de 1996 foi um dos anos mais duros de minha vida. Foi um ano de transições, rompimentos e de desistências. Estive completamente sem motivo de seguir adiante naquela época.
Uma das coisas que fiz para mirar em algo a cada dia quando acordava foi uma lista com algumas coisas que desejaria conseguir ou fazer naquela época, com aquela visão de mundo daquele cara.
Logo se vê que o ato humano de fazer listas de coisas a realizar é muito antigo. Acredito que o que varia são as motivações das listas e não o conteúdo das listas em si, que, via de regra, deve até ser muito parecido.
Não descreverei toda a minha lista de motivações para viver a partir daquele ano. Mas o filme me fez procurá-la novamente, pois fazia tempo que não a visitava.

CASA PRÓPRIA
Lá na lista estão ticadas coisas importantes e difíceis de conseguir para a classe trabalhadora pobre e humilde. Adquiri meu pequeno apartamento de cooperativa e não pago mais aluguel. Consegui ajudar meus pais a terminarem a casinha deles lá em Uberlândia. Nesses últimos quinze anos, muitas pessoas de origem simples conseguiram isso, algo que deveria ser fácil em sociedades justas.
Também está ticado o sonho de fazer uma faculdade pública. Passei na Fuvest e fiz Letras na USP. Eu vinha de uma decepção enorme por largar por falta de condições financeiras um curso de Educação Física em uma faculdade privada, curso que adorava e no qual me destacava nas aulas.

SÃO SILVESTRE
Eu não me lembrava de ter listado que tinha o sonho de correr a famosa corrida de São Silvestre. Realizei esse sonho em 2007 e corri nos anos seguintes. Ou seja, realizei com folga esse objetivo.
Hoje, meu desejo é bem mais difícil, pois sonho em correr e completar uma maratona. Com a vida que levo é completamente inviável treinar e me preparar para uma prova de 42 km.

SALTAR DE PARAQUEDAS
Eu me lembro de ter ficado muito impressionado nos anos noventa quando vi na TV um homem saltar de um avião e sair surfando no ar. Eu nunca havia saído do chão. Eu desejei muito voar e fazer um salto de paraquedas.
No dia 19 de fevereiro do ano 2000, abria-se a porta daquele pequeno avião a uns 4.500 pés e o instrutor me chamava a dependurar-me na asa, seguir as instruções de verificação e soltar as mãos para o vazio...
Após abrir o paraquedas foi um dos gritos de emoção mais libertadores que já dei. Estava vivo e estava voando sozinho junto aos pássaros no céu de Piracicaba. Naquele dia me senti o super-homem.
Depois desse primeiro salto sozinho, fiz mais treze saltos e cheguei a ficar nove minutos em descida lenta no céu, curtindo o barulho do vento nos velames, o silêncio do céu. Foi algo maravilhoso que já fiz.

COISAS A FAZER
Uma das coisas por fazer e que necessita de fôlego e tempo está relacionada com meu amor pela leitura e literatura.
Para ticar o item de ler no mínimo cem clássicos da literatura mundial, tenho muita estrada a percorrer. Não fiz uma lista dos clássicos que já li, mas sei que estou longe.
Também sei da questão da dificuldade de se classificar o que seria ou não um clássico da literatura mundial.
Mas alguns clássicos são indiscutíveis. Já percorri obras fantásticas e que me marcaram profundamente como Don Quijote de la Mancha, de Cervantes; Ulisses, de Joyce; A Montanha Mágica, de Mann; O Processo e A Metamorfose, de Kafka; Pedro Páramo, de Rulfo; Vidas Secas, de Graciliano; O Velho e o Mar, de Hemingway; Irmãos Karamázov, de Dostoiévisk; Hamlet, de Shakespeare; Cem Anos de Solidão, de Garcia Marquez; Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado; Macunaíma, de Andrade; Alguma Poesia, de Drummond... e falta muita coisa que já está em minha estante e só falta sentar e Ler...

O FILME
Voltando ao filme "Antes de partir": gostei do filme. Gostei das atuações de Nicholson e Freeman.
O personagem Carter é encantador. Cole é o inverso. O casamento entre ambos é fruto daquilo que penso a respeito das possibilidades humanas: para o ser humano tudo é possível.
Um ser humano pode mudar a vida de outra pessoa. Nós podemos ser fantásticos. Podemos marcar a vida das pessoas. É ISTO O QUE SOMOS, POSSIBILIDADES!
Assistam ao filme!

(após esta reflexão, saí e fui correr 5 km)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Refeição Cultural - Da Morte

Meus últimos dias foram marcados de alguma forma por mortes que me sensibilizaram muito. As mortes foram me sensibilizando gradativamente. Estou cismando sobre elas agora e pensando sobre a vida. Ou melhor, estou pensando sobre a existência dos seres.

A primeira coisa que fiquei refletindo a respeito da morte é se ela faz parte de algum sentido ou razão na existência, como “plano” de algo metafísico. A síntese de minhas reflexões é que não há uma razão na existência. O que há é simplesmente a própria existência das coisas, a vida de cada ser, até o momento em que cessa aquela mesma vida – a morte.


Chlorostilbon lucidus
(Foto ilustrativa da Wikipédia)
 
- Fiquei babando feito bobo na beleza de um par de filhotinhos de beija-flor durante três dias da semana que passou. Eles estavam em um arbusto baixo, no local onde nos hospedamos para um curso de formação de uma semana, lá em Florianópolis. Eu já temia pela sorte daquelas coisinhas frágeis. O que poderia fazer a mamãe beija-flor contra gigantes? Cada vez que um de nós se aproximava do arbusto, ela ficava num galho de árvore mais distante com um cantar agoniado. Na quinta-feira pela manhã ocorreu o que eu temia. Os galhos ao redor do ninho foram arrancados, os filhotes sumiram e o ninho foi parcialmente destruído. Foram mãos humanas que fizeram aquilo. Havia no hotel mais de uma centena de pessoas. Breve foi a existência daqueles bichinhos que vi por três dias com seus biquinhos apontados para cima, esperando pela mamãe beija-flor. Como aquela morte maldosa me incomodou! Fiquei os dois dias finais do curso pensando naquilo.
        

Nossa Titch quando chegou em 2009.


 
- Pousei em Congonhas na sexta à noite. Assim que liguei o celular no avião, recebi a mensagem que me dizia que nossa hamster anã russa não estava bem e que parecia que estava morrendo de uma hora para outra. Após uma semana de trabalho ausente de casa, cheguei para encontrar minha Titch agonizando. Ainda corremos de madrugada em um veterinário que lhe aplicou uma pequena injeção. Ela morreu pela manhã na minha mão. Viveu conosco quase dois anos. Era o meu xodozinho.

Nossa Titch no semestre passado.
Comendo na minha mão.


Sempre que chegava em casa nesses dois anos a primeira coisa que fazia era pegá-la na mão. Ela ficava doidinha quando me via. Como fiquei arrasado! Fiquei pensando em uma forma de me confortar com a perda, pensando na fragilidade desses pequenos animais na natureza. Parece que a função deles é ser alimento do ser acima na cadeia alimentar. Quanto tempo duraria a nossa Titch na natureza? Ela viveu dois anos ao menos recebendo comida sem precisar caçar ou ser caça, água sempre disponível, habitat confortável, carinho e cafuné até o último instante. Seria um conforto para a morte de um ser ele ter vivido bem?

Olha lá o belo ipê branco.
Olha lá a towner da dona Irene.

- Passei o fim de semana com a tristeza da morte de um bichinho de estimação e aquele incômodo da morte dos beija-flores. Agora à noite, após um cochilo, fiquei sabendo da morte da dona Irene. Ela vendia pães aqui na rua de nosso condomínio. Sempre que acordávamos, olhávamos pela janela para ver se ela estava lá para irmos buscar pão. Era uma pessoa de bem com a vida. Falava do netinho, dizia que gostava de forró e conversava com todo mundo. Ficou sumida só umas semanas, mas me lembro que ela disse que estava pensando em ir para a praia. Dizem que sentiu queimação no estômago e morreu de câncer neste domingo. É chocante! Foi a mesma coisa com a minha querida tia Alice. De novo, fiquei pensando na existência dos seres vivos. A vida na natureza apenas é. A gente simplesmente existe, e só.

Hoje somos e estamos, amanhã não estamos mais. Os seres humanos são diferentes dos demais seres vivos porque têm sentimentos e abstrações, cultuam o belo, constroem coisas que precisaram da imaginação, matam por maldade e por prazer, buscam há milênios explicação para a vida, a morte, a existência das coisas. Para dar conformação à solidão e à perda da existência trágica, os seres humanos criam explicações metafísicas e deuses.
A morte é a parte da existência de tudo que é vivo. Essa certeza poderia ao menos nos tornar melhores como seres humanos. Mas isso acontece com uns e não acontece com outros. A verdade é que a morte é uma tristeza. A perda nos dá um vazio na rotina que precisa ser superado. Quando vamos vivendo mais tempo, ou seja, quando vamos sobrevivendo neste mundo, a tendência é que passemos a conviver com a morte comum mais rotineiramente. Nos casos de guerras e calamidades constantes, não precisa nem de mais idade para o hábito da convivência com a morte.
A morte simplesmente está aí, por todos os lados, todos os instantes, assim como a vida e as existências efêmeras.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Refeição Cultural 54

Foto wikipedia

INDIGESTÃO CULTURAL - A MORTE DE JOSÉ SARAMAGO e outras mortes...

"Cala-te, disse suavemente a mulher do médico, calemo-nos todos, há ocasiões em que as palavras não servem de nada, quem me dera a mim poder também chorar, dizer tudo com lágrimas, não ter de falar para ser entendida" (Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago)

Não sei por onde começar essa indigestão cultural: a morte de José Saramago.

Quando soube da morte de um de meus heróis, eu estava em Belém do Pará. Ele morreu pela manhã e eu só fui saber à noite.

Fiquei com um nó na garganta quando no hotel vi pela tv que havia morrido mais um de meus ícones velhinhos. Digo mais um porque admirava muito o outro josé morto recentemente, o José Mindlin, bibliófilo que dedicou sua vida aos livros.

Tem uma frase de um autor americano - não me lembro o nome, comentando a morte de um colega seu - J. D. Salinger-, que me marcou bastante. Ele dizia que percebemos que estamos ficando velhos quando começamos a enterrar nossos entes queridos.

Eu percebo que começo a ficar velho. Já ando enterrando meus entes queridos faz uns cinco anos.

Sem contar meus entes queridos com laços familiares, quedei pensando há bem pouco tempo que seria muito triste ver morrer alguns heróis e referências humanas. Eu os cito aqui: José Saramago, José Mindlin, Eric Hobsbawn, Maria da Conceição Tavares, Antonio Candido.

Cara, morreram os dois josés em um prazo muito pequeno.

Eu saí há pouco para caminhar, pois tive uma explosão de raiva em casa enquanto comia e passei dos limites comigo mesmo. Fiquei muito decepcionado e saí para andar um pouco e refletir.

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara" ("Livro dos Conselhos" citado por José Saramago no Ensaio sobre a cegueira)

Ando cansado e também deprimido. O pior é que em termos de papel social as coisas andam muito bem - estou a todo vapor em minha função de formador sindical. O problema é o bicho humano por trás do papel social. Percebo que não mudei muita coisa. É a natureza, essa não muda. Não mudei minha natureza... Mas que ninguém ouse falar merda nenhuma, porque estou desempenhando meu papel social da melhor forma possível. Eu sei disso.

"A cegueira não se pega só por olhar um cego alguém que o não é, a cegueira é uma questão privada entre a pessoa e os olhos com que nasceu" (Ensaio sobre a cegueira, José Saramago)

Fiquei pensando em um monte de coisas enquanto caminhava. Me vinham à cabeça lances, imagens de mim mesmo de ontem e de hoje, fiquei pensando em minha existência, na casualidade de tudo na porra da minha existência. O acaso me ajudou bastante em sempre canalizar o meu ódio para fazer o bem e não o mal. Minha energia sempre foi a raiva, o ódio, a ira.

"(...) mas, nenhum de nós, candeias, cães ou humanos, sabe, ao princípio, tudo para que tinha vindo" (Ensaio sobre a cegueira, José Saramago)

Passei os últimos oito anos me esforçando muito para ser um bom militante de esquerda e bom representante da classe trabalhadora. Eu tenho a convicção que desde o dia em que fui eleito e liberado para um mandato sindical em 5.ago.02 venho fazendo um trabalho honesto e com foco na ética e na boa prática sindical.

"É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade" (Ensaio sobre a cegueira, José Saramago)

Aprendi bastante e mudei como pessoa. Fui educado politicamente. O movimento sindical cutista complementou a educação que meu pai e minha mãe me deram. E olha que meus pais conseguiram frear minha natureza intolerante e de explosões. Me tiraram do caminho errado socialmente.

"(...) lembrou-se daquela quadra popular que diz, O que está para além da morte, nunca ninguém viu nem verá, de tantos que para lá foram, nunca nenhum voltou cá" (Todos os nomes, de José Saramago)

Como esta indigestão cultural é sobre as mortes e sobre a natureza das coisas, estive pensando também que até hoje não me conformo com a morte de minha tia Alice. Ela foi a pessoa mais simples que conheci e convivi. A simplicidade dela me encantava e me dava ânimo de lutar para mudar o mundo para que a vida fosse melhor para pessoas simples como ela.

O mesmo se dá com a morte de meu tio Valdeci, outra pessoa que era a simplicidade em essência. Eu detesto gente entojada, metida a besta e arrogante. Tenho nojo de gente assim. Só sigo lutando por saber que tem muita gente simples no mundo.

Quando penso no que fazer depois que deixar minha missão no movimento sindical, ao término de meu mandato, fico dividido em fazer alguma outra coisa social para os outros ou buscar ganhar o suficiente para fazer algo social para os meus agregados, que deixei na mão por não ter ido atrás de boa condição financeira.

"Em rigor, não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós" (Todos os nomes, de José Saramago)

O problema é se eu perder meus entes queridos no meio do caminho do desafio de buscar um outro concurso público e um motivo para ganhar uma remuneração melhor. Não gosto e não ligo para dinheiro, mas sei que ferrei minha família pelas opções que fiz em não tê-lo.

Estou me sentindo um pouco como o cartunista argentino Quino, criador de Mafalda. Ele disse em entrevista recente que o mundo dos humanos continua sem muita novidade em relação à melhorias sociais e comportamentais. Fica difícil fazer tirinhas de denúncias políticas e sociais porque as coisas estão sempre na mesma, de modo que após décadas denunciando as mesmas coisas sem melhorarem fica sem sentido fazer seu trabalho.

"É como a vida, minha filha, começa não se sabe para quê e termina não se sabe porquê" (Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago)

Chega de escrever. Chega de lamentações. Amanhã acordarei como sempre e vou fazer o meu papel social de lutar por um mundo melhor, esteja eu feliz ou não. Farei até o último dia o que tenho que fazer.

“(...) dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos” (Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago)

domingo, 22 de novembro de 2009

Refeição Cultural 39 - Dias de luto

Dias de luto – percepção da Depressão

Uberlândia, 16 de novembro de 2009, pós-enterro de minha querida tia Alice.

1. A fase é de luto. Eu estou me recordando do texto de Sigmund Freud sobre Luto e Melancolia. Pelo que andei cismando sobre as explicações do doutor, percebo que sou um melancólico - um ser com depressão - há uns trinta anos. A fase da pena no luto é normal e até necessária. É o momento de desligar-se do objeto libidinal externo. Lembrando-se que este objeto libidinal pode ser uma pessoa, um ideal, alguma coisa. Mas, o comportamento normal após o luto é a pessoa se apegar novamente a vida e ao viver.

2. Vi outro dia uma entrevista sobre a depressão, doença que acomete a milhões de pessoas no mundo, que falava de alguns sintomas característicos do mal. Tenho quase todos eles desde sempre. Muito rapidamente é possível lembrar-me de algumas crises que tive nestes trinta anos e ver claramente os sintomas presentes ali. Exponenciar problemas comuns como algo do fim do mundo, do seu mundo; perder o amor à própria vida constantemente e ter crises e explosões de ódio ou de tristeza profundos de tempos em tempos são alguns dos sintomas da depressão, presentes em minha pessoa. O fato é que eu sofro de depressão há três décadas.

3. Ao constatar que tenho depressão há tanto tempo e perceber que estou vivo e que sou um cidadão ativo e produtivo, vê-se que é possível driblar a doença e lidar com ela de várias formas. A maneira que sempre encontrei de lidar com minha depressão, involuntariamente por suposto, foi sempre estabelecer objetivos e ir em busca deles desde a adolescência. Na pobreza quis comprar uma bicicleta, um som, um tênis; depois quis arranjar um emprego em que sofresse menos que com o serviço braçal; quis ter uma moto; uma casa própria; e por aí vai. Por sorte e por esforço, cheguei aos quarenta anos com pai e mãe vivos; tenho um apa(e)rtamento de cooperativa; esposa (com um carro popular) e filho; tenho um bacharelado em Ciências Contábeis feito e outro em Letras eternamente inconcluso. Ah, tenho emprego fixo há dezessete anos em banco. Mas, estou muito infeliz, apesar de cumprir todas, todas!, as minhas obrigações sociais. É fato que não sou feliz.

4. Sobre a questão do Valer à Pena. “Tudo vale à pena, quando a alma não é pequena!”. Que bonito! Estou me perguntando o que vale à pena, pois quando olho para trás e vou procurando o valido à pena, fico cismando se valeu ou não à pena as opções feitas por mim nas encruzilhadas diárias que a vida nos apresenta. Como reconheço minha melancolia, devo ter claro que minha cisma é marcada, definida por isso também. Mas, estou olhando para trás e buscando compreensão até para achar maneiras de seguir para este amanhã indefinido de todos nós. O que vale à pena para mim no amanhã que sou responsável? O que vale à pena ainda?

5. Por exemplo, valeria à pena lutar por uma ocupação que rendesse um bom salário para poder cuidar da saúde e das necessidades dos meus queridos pais sexagenários? Eles não têm plano de saúde e não têm conseguido atendimento público e a qualquer hora morrem à míngua, como ocorreu com a minha tia Alice. Morreriam à míngua por eu não ter me preocupado em ganhar dinheiro e dar o conforto que eles precisam. Mas, veja o problema: se eu resolver passar em algum concurso, agora, para ganhar um bom salário, vou precisar de uns anos de preparação e pode ser que, quando eu passar, eles já tenham morrido. Que merda! Sempre fiz as opções erradas e nas horas erradas. Minha tia morreu em três meses com o mesmo câncer que tem há vinte anos o empresário e vicepresidente da república. E os dois casos, quando tratados no Brasil, têm os custos pagos pelo SUS, mas o José Alencar tem atendimento pago no começo e então usa o SUS. No caso dele, há vinte anos vale à pena combater e extirpar as partes com câncer. No caso da minha tia, uma varredora de rua, aposentada, da prefeitura de Uberlândia, não valia à pena tentar arrancar as partes com câncer. Foi fechar o abdome e deixar morrer em casa com tratamentos paliativos. O mundo é dividido assim. São assim as questões da referência na importância, no VALER À PENA.

6. Pensando a respeito de meu eterno e inconcluso Curso de Letras, novamente estou para abandonar, no momento de fechamento de semestre, as três matérias em que me matriculei. Somo o período que faltei mais o cansaço, mais o desânimo, mais a depressão e chego à conclusão que não vou nem fazer a prova de uma delas nem o trabalho final das outras duas. Não tem porquê fazê-lo. Eu não sei o suficiente sobre nenhuma delas para merecer passar. Eu não estou atrás de diploma – canudo – para enfeitar parede. Já tenho um e não uso para nada. Continuo sendo um não-técnico. Se um dia eu tivesse preparo para dar aula não seria o diploma de Bacharelado de Letras da USP que me habilitaria e sim um mestrado ou doutorado. A feitura de meu curso foi tão espaçada e sem sequência que, sinceramente, é como se eu não tivesse feito o Curso de Letras. Não sei gramática, não sei na ponta da língua sobre os conceitos básicos de nenhum movimento da literatura mundial e brasileira e não ajudaria ninguém a aprender mais do que se se buscasse no Google a informação necessária sobre o tema. Fracassei em meu projeto pensado no ano 2000 de sair do banco e ser professor. Não sei o suficiente para ser professor de nada. Só isso!

7. Passei a tarde na casa de minha avozinha, com meus dois tios e com minha mãezinha. Assim como minha mãe, que acordou às seis horas da manhã chorando muito por saudade do viver em companhia de minha tia falecida – cuidada com todo carinho por ela durante todo o período da doença-, minha avó também chora sempre que pára lembrando-se da filha que viveu com ela mais de sessenta anos. É tudo muito triste, tudo lembra nossa querida Alice!

8. A última cena que acompanhei, antes de pegar um táxi e ir para a rodoviária procurar passagem para voltar a São Paulo, foi um desabafo de minha mãe para os irmãos e vovó, do ocorrido dias antes da morte de minha tia (saída da casa de meus pais e volta para a casa de minha avó e tia). Foi humilhante assistir à minha mãe pedindo desculpas pelo fato de ter ocorrido uma desavença entre a família por estarem na casa de meus pais, cuidando de minha tia acamada, e meu pai andar preocupado com o aumento do consumo de água e energia. EXPLICO: como meus pais não têm condições mínimas de renda, vivem com um cadastro social para quase tudo. Para ter isenção da água, só podem consumir uma pequena quantidade no mês; para ter direito a algumas isenções na luz, só podem consumir certa quantidade de energia por mês; para ter direito ao Bolsa Família etc etc... Para mim, um filho de quarenta anos, ver àquela cena da minha mãe pedindo para a irmã não ficar chateada com meu pai, que não tinha culpa do ocorrido porque a situação de miséria deles é que levou à preocupação de perderem os benefícios sociais da miserabilidade, para mim foi uma dor profunda ver que eu não me preparei para cuidar de meus pais financeiramente. Me senti um fracassado total e egoísta por não ter pensado em ganhar dinheiro para viver nesta merda de sociedade capitalista. Chega!

9. Necrológio: Tia Alice, escrevi ontem no livrinho de lembranças em seu velório o quanto lhe amava e admirava. Ali, anotei que uma das coisas que sempre admirei na senhora foi ter e manter a curiosidade filosófica que a maioria dos jovens hoje já não possui. Admirável a senhora manter a curiosidade de saber sobre as coisas e de ter a humildade de sempre perguntar e ir atrás do conhecimento, mesmo em toda a sua simplicidade – simplicidade robusta em sabedoria. Outro dia a senhora estava me perguntando sobre o caso de Honduras, mesmo vivendo à custa de alimentação por sonda. Que fome de saber simples e bela! Como eram belas nossas tardes em família “filosofando sobre coisas do mundo”. Escrevi também que pessoas simples como a senhora é que nos incentivam de seguir lutando para mudar o mundo. Mas, confesso à senhora que, às vezes, eu me pego cansado e querendo partir para outra. Eu, por exemplo, represento uma categoria que ganha bem mais que a média da população brasileira e, muitas vezes, depois de toda a luta que organizamos, ainda nos ofendem. Quantas vezes já não ouvi de colegas, que ganham dez vezes o que ganho, me ofenderem e dizer que sou isso ou aquilo. Tia, sei que a senhora queria viver e viver de qualquer jeito e pensou nisso até anteontem. Pela manhã, queria estar curada para poder comer como todos da casa e, à tarde, seu corpo esfriou e a pressão caiu e o coração e pulmão lhe falharam. Eu só tenho que admirar pessoas apegadas à vida como a senhora. Tia Alice, obrigado por sua companhia nestes quarenta anos. Obrigado mesmo! Como escrevi ontem, a senhora viverá eternamente, ao menos enquanto eu viver, pois estará sempre em minha lembrança.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Necrológio para minha querida tia Alice

Tia Alice, escrevi ontem no livrinho de lembranças em seu velório o quanto lhe amava e admirava. Ali, anotei que uma das coisas que sempre admirei na senhora foi ter e manter a curiosidade filosófica que a maioria dos jovens hoje já não possui. Admirável a senhora manter a curiosidade de saber sobre as coisas e de ter a humildade de sempre perguntar e ir atrás do conhecimento, mesmo em toda a sua simplicidade – simplicidade robusta em sabedoria. Outro dia a senhora estava me perguntando sobre o caso de Honduras, mesmo vivendo à custa de alimentação por sonda. Que fome de saber simples e bela! Como eram belas nossas tardes em família “filosofando sobre coisas do mundo”. Escrevi também que pessoas simples como a senhora é que nos incentivam de seguir lutando para mudar o mundo. Mas, confesso à senhora que, às vezes, eu me pego cansado e querendo partir para outra. Eu, por exemplo, represento uma categoria que ganha bem mais que a média da população brasileira e, muitas vezes, depois de toda a luta que organizamos, ainda nos ofendem. Quantas vezes já não ouvi de colegas, que ganham dez vezes o que ganho, me ofenderem e dizer que sou isso ou aquilo. Tia, sei que a senhora queria viver e viver de qualquer jeito e pensou nisso até anteontem. Pela manhã, queria estar curada para poder comer como todos da casa e, à tarde, seu corpo esfriou e a pressão caiu e o coração e pulmão lhe falharam. Eu só tenho que admirar pessoas apegadas à vida como a senhora. Tia Alice, obrigado por sua companhia nestes quarenta anos. Obrigado mesmo! Como escrevi ontem, a senhora viverá eternamente, ao menos enquanto eu viver, pois estará sempre em minha lembrança.