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sábado, 22 de agosto de 2026

Meu pai e Santos Dumont (1)



Refeição Cultural

Na casa de meus pais, em Minas Gerais, tem um livro antigo, dos anos setenta, sobre Alberto Santos Dumont, uma biografia. 

Perguntei sobre o livro, certa vez, e meus pais me disseram que era para meu pai participar de um programa de TV no qual a pessoa respondia sobre a vida de alguma personalidade. Era no Silvio Santos, se não me engano. 

Já folheei o livro diversas vezes ao longo do tempo. É um catatau, tem 500 páginas. O livro se chama As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont, de Fernando Jorge.

Meu querido pai fará 84 anos nos próximos dias. Ele tem uma história de vida incrível. Dias atrás, li um texto dele muito emocionante, no qual descreve sua vida e da família ao longo de décadas (comentário aqui). 

Enquanto lia o memorial de meu pai, via a história do Brasil desde a década de quarenta e os acontecimentos políticos que impactaram a vida de milhões de brasileiros como ele, gente simples da classe trabalhadora. 

Fiquei pensando dias atrás, quando estive lá em Uberlândia no dia dos pais, o que poderia fazer para estimular a memória e a capacidade cognitiva de meu pai, que já não tem a mesma agilidade que sempre teve na criação e imaginação para as coisas do cotidiano. Meu pai sempre foi um inventor e solucionador de problemas domésticos. 

Sugeri a ele reler o livro sobre Santos Dumont. Na verdade a leitura seria como uma primeira vez, devido ao tempo decorrido após o estudo do livro há tantas décadas. A biografia de nosso grande inventor brasileiro, o pai da aviação, deve ser muito interessante. 

Sempre que lemos um livro lido muito tempo antes, fazemos uma nova leitura, porque somos outra pessoa. 

A ideia seria eu ler também e conversar por ligação com meu pai para comentarmos sobre a leitura. 

Meu pai talvez não leia, alegou dificuldades, mas quem sabe eu consiga ativar um pouco a memória dele lendo aos poucos e conversando com ele.

Enfim, a gente não tem receita mágica para tentar interagir e apoiar as pessoas com mais idade e ou com as dificuldades cognitivas que a vida nos impõe. Mas não custa tentar alguma coisa. 

Vamos ler a biografia do grande brasileiro Santos Dumont. Vamos conversar com o senhor Palmério sobre o inventor do avião. 

William 

22/08/26


segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Frei Betto: una biografía (3)



Refeição Cultural 


A profundidade do conteúdo do livro biográfico sobre o dominicano Frei Betto é incrível! Ganhei o livro de presente do próprio autor numa oportunidade histórica que tive neste ano de estar com ele por três dias na 32ª Feira Internacional do Livro em Havana, Cuba, evento realizado em fevereiro de 2024.

A leitura do livro tem sido lenta - é um estudo -, é feita na exata medida de tempo necessária para refletir a quantidade enorme de informação histórica contida a cada dez ou vinte páginas. A história da vida de Frei Betto se confunde com a nossa história de vida do povo brasileiro, história das lutas da esquerda por independência e protagonismo político e por uma vida melhor para o povo.

No capítulo que iniciei a leitura hoje "Movimiento popular y campañas presidenciales de Lula", aprendi sobre a participação central de Frei Betto na articulação, junto com os movimentos organizados no país, da criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da Central dos Movimentos Populares (CMP), através da Articulação Nacional dos Movimentos Populares e Sindicais (ANAMPOS), na qual ele era o secretário geral.

É muita história!

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Conceitos que me chamaram a atenção

"acontecimentos biográficos"

Logo no início do capítulo, fiquei pensando a respeito dos chamados "acontecimentos biográficos". 

Quais seriam os acontecimentos biográficos em minha vida? Sem dúvida, a entrada para o movimento sindical brasileiro, em 2002, foi um acontecimento que mudou minha vida.

No livro se explica que "acontecimentos biográficos" são "eventos fundacionales que marcan una nueva etapa en la vida." (p. 293)

"Construtor de pontes"

Também fiquei pensando na grandeza do papel de pessoas que são construtoras de pontes entre grupos sociais e segmentos representativos de setores da sociedade humana. Sem dúvida, o presidente Lula e Frei Betto são dois grandes exemplos humanos de pessoas que constroem pontes.

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Livros

Fiquei com meus botões pensando nas minhas lacunas culturais... eu ainda não li livros centrais nas mais diversas áreas do conhecimento humano. Dois deles são os livros do Frei Betto "Batismo de sangue" e "Fidel e a religião".

Quem sabe um dia eu os leia. O tempo disponível para tudo que quero aprender e conhecer é limitado em relação ao desejo de saber, mas pelo menos me esforço para estudar e ler todos os dias de minha vida, ainda hoje, retirado do movimento sindical e com mais de 55 anos de idade. Sigo tentando aprender algo todos os dias de minha existência. 

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ANAMPOS: bloco combativo x Unidade Sindical 

Da leitura que fiz, achei interessante essa parte:

"En los años siguientes, la disputa política entre los dos bloques se intensificó, lo que tornó inviable la formación de una entidad intersindical como se previera y aprobara en la CONCLAT. En agosto de 1983, el bloque combativo, con un importante apoyo de la ANAMPOS, fundó la CUT. Meses después, en noviembre, Unidad Sindical lideró la creación de la Coordinación Nacional de la Clase Trabajadora (CONCLAT), que en 1986 daría origen a la Central General de los Trabajadores (CGT). Quedaba sellada la división del sindicalismo brasileño." (p. 297/298)

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COMENTÁRIO FINAL

Enfim, da quantidade enorme de informações lidas hoje, achei interessante a questão sintética de que a ANAMPOS teve importância primeiro na criação da CUT, através da CONCLAT, e depois na criação da CMP.

Os debates e diferenças entre os diversos grupos e movimentos que participaram dessas construções passaram por pontos como a necessidade de independência das organizações em relação a partidos e governos. Isso eu aprendi assim que entrei para o movimento e me tornei um estudioso de nossas histórias de lutas.

O que eu não tinha uma noção mínima era a questão do papel desse intelectual militante dos movimentos, o dominicano Frei Betto.

A gente tem muito que aprender, isso eu tenho claro!

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HISTÓRIA DO BRASIL

Segue abaixo um excerto que gostei sobre a ANAMPOS e as lutas do final dos anos setenta e dos anos oitenta e noventa no Brasil.


Documento de Monlevade (reunião de 7 a 9 de fevereiro de 1980)

"Al finalizar la reunión se divulgó el Documento de Monlevade, que reunía un conjunto de propuestas para el fortalecimiento del movimiento sindical. Las más importantes eran el combate al régimen dictatorial, que no podría hacerse ni por vía de la 'transacción política' entre el gobierno y la oposición parlamentaria, ni por la del 'vanguardismo político' desvinculado de las bases populares, sino por intermedio de la movilización de la clase trabajadora; la acción sindical, cuyo norte debían ser principios como la convivencia democrática con las oposiciones; la desvinculación entre el sindicato y el partido político; la ampliación de los vínculos intersindicales; la democratización de la estructura interna del sindicato; y el estímulo a la articulación entre las luchas sindicales y las del movimiento popular." (p. 295/296)

O papel de Frei Betto na organização:

"Al término de la reunión, Betto fue electo secretario general del grupo." (p. 296)

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Sigamos lendo e aprendendo.

William Mendes


domingo, 8 de dezembro de 2024

A Comédia Humana - Honoré de Balzac (5)



Refeição Cultural 

"Balzac [...] nos dá, em A comédia humana, a história mais maravilhosamente realista da société francesa [...] descrevendo sob forma de crônica de costumes, quase de ano a ano, de 1816 a 1848, a pressão cada vez maior que a burguesia ascendente exercia sobre a nobreza que se reconstituíra depois de 1815 e que, tant bien que mal, na medida do possível, levantava outra vez a bandeira da vielle politesse française..."* (p. 49)

* Carta de Friedrich Engels a Margaret Harkness em Londres, abril de 1888. (N.E.)


Hoje retomei a leitura de Balzac, iniciada meses atrás. O Volume 1 de minha coleção começa com uma biografia do escritor, feita por Paulo Rónai. 

Na parte que estou, Rónai descreve o quanto Balzac era de direita e conservador. Mesmo assim, sua condição pessoal não prejudicou ou interferiu na qualidade de sua produção textual. 

Uma prova disso é a avaliação que o marxista Engels faz da monumental obra A Comédia Humana, décadas depois do falecimento de Balzac. 

Enfim, vamos terminar o ano lendo e aprendendo mais sobre literatura. 

William Mendes 


domingo, 29 de setembro de 2024

A Comédia Humana - Honoré de Balzac (4)



Refeição Cultural 

"Comparado com Walter Scott, seu discípulo assinala-se por uma particularidade bem francesa, de que, aliás, tinha plena consciência. O romancista escocês idealiza a paixão. Por temperamento ou para agradar a um público maior, desconhece o amor sexual e faz intervir em suas narrativas mulheres sublimes e pálidas, quase figuras de altar. O romancista francês, desde seu primeiro verdadeiro romance, explora todas as riquezas da mina das paixões. 'A paixão é toda a humanidade!', escreverá anos depois no prefácio de A comédia humana, ao reconhecer a sua dívida para com Walter Scott." (p. 41)


Seguindo na leitura da biografia de Honoré de Balzac, Paulo Rónai nos conta que o escritor escocês, Walter Scott, se tornou a referência para ele, pois seus romances históricos eram baseados em documentos, pesquisas e viagens investigativas nos locais que seriam cenários de seus livros. 

A diferença é que ao invés de romances históricos, Balzac atuaria com foco na história dos costumes da sociedade francesa da primeira metade do século XIX, período conhecido como Restauração. 

Walter Scott é outra de minhas lacunas culturais... ainda não li nenhuma obra sua. Tenho que viver bastante para ler autores e obras clássicas que nunca li.

William 


sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Memorial de Aires - Machado de Assis (4)



Refeição Cultural 

"Diferença de vocações: o casal Aguiar morre por filhos, eu nunca pensei neles, nem lhes sinto a falta, apesar de só. Alguns há que os quiseram, que os tiveram e não souberam guardá-los." (p. 21)


Quem falou acima? O personagem Conselheiro Aires? O escritor por trás do personagem Aires?

Essas são algumas das elucubrações que deliciam os leitores dos grandes autores da literatura universal. 

Machado de Assis e Carolina Augusta não tiveram filhos. Carolina faleceu em 1904 e Machado nunca superou a perda de sua esposa, amiga e cara-metade.

Este romance de 1908 é, na minha leitura, muito autobiográfico. Vejo o autor o tempo todo por trás do intelectual aposentado, o Conselheiro Aires.

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E eu, o leitor do Machado e do Aires?

Bateu uma identificação forte com o Machado de 1908 e com o retirado Conselheiro Aires...

...

William 


quinta-feira, 12 de setembro de 2024

A Comédia Humana - Honoré de Balzac (3)



Refeição Cultural 

"(...) Teremos a ocasião de mostrar que nem por isso A comédia humana, este grandioso fresco da sociedade da Restauração, ficaria manchada de parcialidade, pois o gênio do autor felizmente sobrepujou as tendências de seu espírito. Mas o homem nunca se libertaria desse deplorável esnobismo que lhe faria buscar as rodas aristocráticas, estragando-lhe a felicidade." (p. 36)


É muito interessante conhecer a biografia de figura tão singular da literatura universal do século XIX.

Paulo Rónai vai aos poucos nos apresentando não só as características do escritor francês Honoré de Balzac, como a sociedade francesa das primeiras décadas do século XIX. 

"As tendências monarquistas de Balzac originadas em seu esnobismo (lembre-se o caso da partícula 'de'!) devem ter sido fortalecidas pela atmosfera geral da época, em que era moda entre os jovens literatos ser favorável à Restauração - da qual precisamente o futuro apóstolo republicano, Victor Hugo, era o poeta oficial -, pelo exemplo de certos amigos e, principalmente, de certas amigas..." (p. 35)

O biógrafo nesta parte que li nos apresenta alguns casos amorosos do jovem Balzac. Dois deles, com mulheres mais velhas que ele. A principal delas, a sra. de Berny - a "Dilecta" -, e também a duquesa de Abrantes.

Por fim, a última curiosidade, Balzac publicou em escala "industrial" romances ruins sob pseudônimos, ele tentava se sustentar através da literatura. 

"(...) é que não punha seu nome em nenhum deles, mas publicava-os sob pseudônimos - Lord R'hoone (anagrama de Honoré), Horace de Saint-Aubin etc. - ou anonimamente. Mais tarde, embora necessidades de dinheiro o tenham forçado a negociar outra vez os direitos dessas obras, não as quis jamais reconhecer expressamente." (p. 31)

É isso! Legal essa preparação para mergulhar em A Comédia Humana

William 


sábado, 7 de setembro de 2024

A Comédia Humana - Honoré de Balzac (2)



Refeição Cultural 

"(...) Surgiam novos poderes: o capital, a imprensa, a publicidade. Patenteava-se a ascensão prodigiosa do dinheiro, que reivindicaria um papel cada vez maior em todos os domínios. Estavam, pois, aparecendo e desenvolvendo-se as forças que passariam a moldar todo o período da história europeia até a Primeira Guerra Mundial. Esboçavam-se, desde então, os tipos humanos que as novas possibilidades não deixariam de produzir. A comédia humana de Balzac contém uma imagem fiel e pormenorizada de toda essa fermentação, de seus resultados visíveis e de suas consequências conjeturáveis; embora concluída em 1850, é um espelho de todo o século XIX. (p. 14/15)


Lendo a biografia do escritor francês Honoré de Balzac, vemos o quanto é válido o esforço e a transpiração, pois de pessoa sem grandes talentos na infância e adolescência, Balzac se tornou um grande escritor dos romances de costumes.

TRATADO DA VONTADE 

"(...) Com uma vontade de ferro realizaria de fato um milagre sem analogias na história das literaturas: de autor péssimo, abaixo de medíocre, que seria até quase os trinta anos, de repente se tornaria um escritor grandioso, criador do gênero mais importante da literatura moderna, o romance de costumes." (p. 23)

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Paulo Rónai nos conta que cada experiência do jovem Balzac serviria anos depois de referência para os romances que desenvolveria. 

E a literatura se firmava junto ao público do século XIX com aquilo que chamaríamos de romance moderno.

"Lembremos que agora o romance não constitui para nós apenas uma diversão. É um importante instrumento de conhecimento indireto, abre ambientes e perspectivas que nunca teríamos oportunidade de conhecer, fornece uma visão prática e real do mundo..." (p. 25)

Seguimos conhecendo um pouco de Honoré de Balzac. 

William 


terça-feira, 3 de setembro de 2024

A Comédia Humana - Honoré de Balzac



Refeição Cultural 

A Comédia Humana é composta por 89 obras de Honoré de Balzac. 

A edição que vou ler é a da Editora Globo, cuja 1ª edição é de 1946-1955. Minha coleção é a 3ª edição, de 2012, organizada sob a regência de Paulo Rónai, intelectual húngaro naturalizado brasileiro. 

Tenho 9 dos 17 volumes previstos para a coleção, da Biblioteca Azul. Os livros foram um presente de minha companheira Ione.

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A VIDA DE BALZAC, POR PAULO RÓNAI

A primeira parte do primeiro volume é uma introdução abordando a biografia do escritor Honoré de Balzac, que nasceu em 1799 e faleceu aos 51 anos, em 1850.

Ao falar sobre estudos biográficos, Rónai afirma que as gerações futuras acabam conhecendo mais os autores do que seus contemporâneos. Concordo com ele.

Cito um esboço rápido do escritor:

"(...) Jovem derrotado logo nos primeiros encontros com o destino, marcado pelo resto da vida com o estigma da incapacidade. Homem já feito, arrastando complexos de inferioridade e procurando compensar a consciência da inata vulgaridade por um esforço desesperado para atingir os cumes brilhantes da vida, a beleza, a nobreza, a fortuna. Velho antes do tempo, esgotado por milhares de noites de trabalho feroz, abatendo-se no limiar da felicidade almejada. Vemos-lhe os olhos em brasa, as faces rechonchudas, o papo do pescoço, os membros sem graça, a gesticulação exuberante, as vestes berrantes..." (p. 12)

Vejam se não é uma das imagens clássicas de Balzac.

A Comédia Humana em uma avaliação de Paulo Rónai:

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"a maior fusão já conseguida na literatura com a vida real"

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Interessante essa observação do crítico. Poderei concordar ou não com ele após ler algumas dezenas de obras de Balzac.

Por enquanto, só conheço o romance "A mulher de trinta anos", que gostei bastante. 

É isso. Começamos com o Balzac também. 

William 


sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Frei Betto: una biografía



Refeição Cultural 

Um dos livros que trouxe de minha segunda viagem a Cuba foi a biografia do dominicano Frei Betto, que completou dias atrás 80 anos de vida.

Já li quase trezentas páginas do excelente livro produzido por Evanize Sydow e Américo Freire, cuja primeira edição é de 2016.

O livro me foi presenteado pelo estande onde estava disponível na 32ª Feira Internacional do Livro de Havana. Ganhei outros livros de Betto. Eu estava acompanhando o Frei na ocasião. 

Amigas e amigos leitores, estar com Frei Betto, ouvi-lo palestrar e trocar ideias com ele é uma experiência transformadora. 

Tive essa oportunidade em Havana, por estar com uma amiga de Betto, nossa companheira Telma Araújo, mineira que organiza Brigadas de Solidariedade a Cuba.

Imaginem vocês a emoção que senti ao ler o prólogo escrito por seu amigo revolucionário, o Comandante em Chefe Fidel Castro Ruz! 

Fidel e Betto foram amigos por décadas. O Comandante diz sobre o amigo dominicano:

"Hombre sencillo, de habla pausada, con la modestia y la humildad que enaltece su condición de fraile, se identificó con los valores genuinos de nuestra revolución que, según afirma, son también los de la religión que él profesa: justicia, igualdad, compromiso con los pobres y discriminados."

Ao conhecer o que já li de sua biografia e ao ouvir e ler seus ensinamentos, me tornei um grande admirador de Frei Betto. Tê-lo entre nós é uma honra e uma oportunidade. 

Sigamos aprendendo com este grande ser humano. 

William Mendes 


sábado, 11 de maio de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 11 de maio de 2023. Início da madrugada de sábado.


A possibilidade de participar de uma reunião do nosso partido com a presença de José Dirceu me fez pegar na estante o livro de Memórias dessa figura importante de nossa história do partido e do país.

Zé Dirceu lançou o primeiro volume de suas Memórias em agosto de 2018 e dias depois do lançamento eu já estava com o livro em mãos. Li de supetão quase duzentas páginas naquele ano. 

Acabei não terminando a leitura. Aquele ano foi muito difícil para mim. Mesmo assim, garanto a vocês que o conteúdo histórico e biográfico do livro de Zé Dirceu é extraordinário para qualquer pessoa que se disponha a viajar pela história dele e do país, e é mais interessante ainda para um militante de esquerda e do partido, e que goste de história do Brasil.

Ao pegar o livro na estante nesta semana, acabei recomeçando a leitura desde o início. Além de não perder nada com a releitura, e sim o contrário, só ganhar com isso, tenho consciência de como minhas leituras foram complicadas naquele ano de 2018. Avalio que tudo que li naquele ano precisaria ser relido para um aproveitamento melhor.

A primeira anotação minha no livro de Zé Dirceu, ao final do primeiro capítulo, lendo o livro no início do mês de setembro daquele ano, me lembra que mesmo tendo saído de um processo de perseguição e assédio moral na instituição onde havia terminado um mandato eletivo, um processo fraudulento de lawfare, arquivado um tempo depois por falta de provas, tive que sofrer por muitos meses ainda o terror das ameaças que chegavam a mim por parte de meus adversários políticos no patronato já sob o regime de exceção de Temer e Bolsonaro.

O fim de meu mandato e trabalho em Brasília, a volta para Osasco em SP, e as ameaças constantes de um processo inventado com carta anônima para me prejudicar na carreira de décadas no banco público ao qual dediquei minha vida, e ainda a forma como me silenciaram politicamente após mais de duas décadas de representação da classe trabalhadora, fez com que o ano de 2018 fosse um ano dificílimo para mim e, além disso, vivíamos no país a ascensão do mal com a prisão de nosso presidente Lula, vítima daquela operação canalha de lawfare chamada de Lava Jato, e, para terminar o ano de forma trágica, a eleição do clã de milicianos ao poder central. Tudo isso pesou na minha vida naquele ano.

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AULA DE HISTÓRIA DO BRASIL

"Dependíamos do carcereiro que, como alertaria depois o líder negro sul-africano Nelson Mandela, passava a ser o ser humano mais importante em nossas vidas." (p. 89)


Amigas e amigos leitores, nessa releitura desses dias, viajei pela história do Brasil nos sete capítulos que li. As Memórias de Zé Dirceu são aulas de nossa história, contadas com uma fluidez incrível.

Pelos temas dos capítulos, vocês podem ter uma ideia do que vamos conhecer de história: 

1. Se não me falha a memória; 2. Os primeiros passos na política; 3. Coração de estudante; 4. A oposição e suas armas; 5. Às armas, cidadãos!; 6. A batalha da Maria Antônia; 7. Cabras marcados para morrer...


Enfim, conhecer a nossa história é fundamental, inclusive para termos uma melhor perspectiva do momento atual no qual nos encontramos, de uma complexidade ímpar na história política do Partido dos Trabalhadores e do Brasil.

Sigamos estudando, ouvindo as pessoas, lutando por um mundo mais justo e solidário, um mundo livre do capitalismo para que possamos existir, e sigamos compartilhando o conhecimento e as nossas opiniões e ideias de forma honesta e militante.

William Mendes


terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Leitura - Liberdade 1880-1882 - Luiz Gama



Refeição Cultural

Osasco, 27 de dezembro de 2022. Terça-feira.


Graças à participação em um curso do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) - "13 livros para compreender o Brasil" -, curso ministrado por Lindener Pareto e Suze Piza, tive contato com a história e a obra deste homem extraordinário: Luiz Gama (1830-1882).

O livro Liberdade (1880-1882) é um dos volumes das Obras Completas de Luiz Gama, projeto que está sendo editado pela Editora Hedra com cerca de 800 textos do advogado, poeta, jornalista, militante da causa republicana e abolicionista negro que se destacou nas lutas pela democracia e pela liberdade no Brasil do século XIX. São inéditos na coleção cerca de 600 textos.

O acesso aos textos de Luiz Gama, boa parte deles, é fruto de uma pesquisa de quase uma década do jovem Bruno Rodrigues de Lima, advogado e historiador do direito. Ao ver a entrevista de Bruno ao Lindener Pareto no programa Provocação Histórica (programa nº 30, de julho de 2021) é possível avaliar a grandeza do trabalho de pesquisa que Bruno realizou. Sorte nossa!

Se o curso do ICL tivesse somente esse livro e essa figura histórica - Luiz Gama - já teria valido a pena participar do projeto de educação e cultura do Instituto. Por mais que eu tenha passado duas décadas envolvido diretamente nas lutas sindicais e populares da classe trabalhadora brasileira, eu não conhecia Luiz Gama. Sei que o fato é uma lacuna imperdoável, mas tod@s nós temos essas lacunas culturais e temos que ter a humildade de reconhecer isso e seguir estudando enquanto tivermos condições para aprender algo novo em nossas vidas.

Luiz Gama tem uma história de vida incrível! Nasceu livre na cidade de Salvador (BA), filho de uma mulher de luta - Luíza Mahin -, guerreira pela liberdade de seu povo. Quando sua mãe desaparece lutando pela causa, seu pai o vende como escravo aos dez anos de idade. Escravizado em São Paulo até os 18 anos, se alfabetiza, foge do cativeiro, prova ser um homem livre, trabalha na força pública paulista e depois começa sua atuação intelectual e engajada na libertação de escravizados e pelo fim da monarquia e instituição de uma república democrática no Brasil. A história desse homem é incrível! E quase ninguém o conhece!

O livro tem uma edição e organização muito favorável à leitura. Li com facilidade as 446 páginas do volume (comprei na versão digital). Bruno comenta e introduz todos os textos de Luiz Gama, explicando o contexto no qual o texto foi publicado na imprensa paulista e carioca ao longo da segunda metade do século XIX. Uma certeza fiquei da leitura desse primeiro volume que conheci das Obras Completas: é fundamental que os brasileiros e brasileiras conheçam Luiz Gama.

CENTENAS DE ESCRAVIZADOS LIBERTADOS POR GAMA

Eu não sabia quase nada sobre Luiz Gama, apenas conhecia o nome de ouvir falar. O advogado e intelectual foi um homem da teoria e da prática revolucionária na luta pela libertação de homens e mulheres e pela construção de uma sociedade democrática e libertária e com educação pública para toda a população.

Através do livro e dos textos de Luiz Gama conheci bem mais sobre o processo da escravidão no Brasil. O advogado era muito conhecido em São Paulo e libertou mais de 500 pessoas escravizadas dentro das normas jurídicas que ele conhecia como ninguém. Eu não sabia que tivemos um homem que conseguia libertar escravizados com base em leis e normas do início do século XIX (leis desde 1818), muito antes das leis de 1850 (Lei Eusébio de Queirós) e 1871 (Lei do Ventre Livre). Ele se baseava em leis anteriores que proibiam a escravização de pessoas sequestradas na África e "comercializadas" no Brasil.

Gama rompe com seus companheiros republicanos e liberais ao entender que eles estavam pusilânimes em acelerar o fim da escravidão. Os caras falavam da boca para fora sobre democracia e liberdade, mas no fundo queriam que a escravidão durasse até o século seguinte. O interesse dos capitalistas prevalecia na hora do vamos ver.

Esse período de 1880 a 1882 foi uma fase radical na luta pelo fim da escravidão como sistema e pela exposição dos algozes dessa tragédia humanitária. O livro é de formação histórica, humanista, jurídica, e de conhecimentos gerais. 

Saí da leitura muito mais consciente do que significa a escravidão no Brasil. Saí da leitura como grande admirador de Luiz Gama.

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Uma postura tocante de Luiz Gama e que demonstra o homem que ele foi se deu ao final de sua vida. Amigos coletaram recursos para fazerem um quadro em sua homenagem. Educadamente, ele pediu que não desperdiçassem dinheiro com isso e sim que libertassem um escravizado com o recurso... esse foi Luiz Gama!

William


Bibliografia:

GAMA, Luiz. Liberdade 1880-1882, org. Bruno Rodrigues de Lima. 1ª edição. Editora Hedra: São Paulo, 2021.


quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Leitura: Stephen Hawking - A life from beginning to end, Hourly History



Refeição Cultural

Osasco, 8 de dezembro de 2022. Quinta-feira.


"“Hello. My name is Stephen Hawking: physicist, cosmologist and something of a dreamer. Although I cannot move, and I have to speak through a computer, in my mind I am free.” —Stephen Hawking" (from "Stephen Hawking: A Life From Beginning to End (Biographies of Physicists Book 4) (English Edition)" by Hourly History)


Terminei a leitura da biografia de Stephen Hawking. Que história incrível de superação pessoal e busca de conhecimento! 

Li através do Kindle, aparelho ao qual estou tentando me adaptar para ler alguns livros. Sou um leitor que prefere as obras impressas. 

A biografia de Hawking, de autoria de Hourly History, publicada em 2019, tem os seguintes capítulos:

Introduction, Early Years, Studies at Oxford and Cambridge, Hawking's Terminal Illness, Playing the Game of the Universe, Hawking Radiation and Black Holes, The Hawking Family, Information Loss, A Brief History of Time, A Gambling Man, Late Life and Death, Conclusion.

A leitura foi de muito proveito para mim. Além de conhecer a história do grande cientista Stephen Hawking que dedicou sua vida a pesquisar o Universo, nossas origens, Cosmologia, Física, Astronomia, o funcionamento do mundo, os buracos negros e outras áreas afins, sua vida é inspiradora porque ele desafiou o senso comum e a medicina ao não aceitar que morreria em dois anos após ser diagnosticado ainda jovem com ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica).

Ler em inglês me fez dedicar algumas horas na revisão da língua estrangeira, usando o próprio dicionário do Kindle e outras fontes de pesquisa. Tenho consciência da importância de exercitar meu cérebro todos os dias, o tempo todo. Eu sou meu cérebro de 86 bilhões de neurônios como nos ensina o neurocientista Miguel Nicolelis.

FRASES E INFORMAÇÕES MARCANTES

Algumas ideias de Hawking são dignas de muita reflexão. Tanto aquelas que falam sobre a forma de encarar a vida cotidiana quanto as ideias a respeito do Universo e do funcionamento das coisas no mundo.

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A CURIOSIDADE FILOSÓFICA

"I am just a child who has never grown up. I still keep asking these how and why questions. Occasionally I find an answer." ( do 1º capítulo, Early Years)

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ATMOSFERA DOMÉSTICA À LA DICKENS

A família de Hawking, tanto a de seus pais quanto a própria família depois de adulto, nunca teve muita folga de recursos financeiros, apesar de serem da classe média. Era uma família da classe trabalhadora. Veja essa passagem que fala sobre o uso de estantes de livros para ajudar no aquecimento do ambiente interno nos invernos:

"In the post-war years, most families, even those who were once wealthy, lived frugaly. The Hawkings took this to the extreme. In the place of central heating, bookshelves stacked with books lined the walls. There was no carpet, broken windows, few electric lights, and an overall atmosphere of Dickensian gloom." (1º capítulo)

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MATA-BORRÃO SORVENDO TUDO

O jovem Stephen não ligava muito para tirar as melhores notas nas classes, mas era um garoto que absorvia tudo que podia.

"Stephen had no desire to prove that he already understood what they trying to teach him"

mas...

"he was 'like a bit of blotting paper, soaking it all up'" (1º capítulo)

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PESSOAS QUIETAS TÊM MENTES BARULHENTAS

"Quiet people have the loudest minds." (2º capítulo)

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SEJA CURIOSO, QUESTIONE A EXISTÊNCIA OLHANDO AS ESTRELAS NO CÉU

"Remember to look up at the stars and not down at your feet. Try to make sense of what see and wonder about what makes the universe exist. Be curious." (Cap. 4)

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O BIG BANG

"However, as Hawking pointed out, time does have boundaries, a beginning, and an end. If Friedmann's first model of the universe was correct, then the universe began with a Big Bang, with zero space between galaxies." (Cap. 4)

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A VIDA É UMA OPORTUNIDADE

O pensamento abaixo de Stephen Hawking é muito ilustrativo do que tenho pensado a respeito da vida desde que superei a forma negativa com a qual eu via a vida até uns trinta anos de idade. Após me tornar um dirigente da classe trabalhadora passei a ver a vida de uma forma mais positiva.

"However bad life may seem, there is always something you can do, and succeed at. While there's life, there is hope." (Cap. 6)

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CRIATURAS INSIGNIFICANTES DEMAIS PARA TERMOS A ATENÇÃO DE DEUS

"He once said, 'We are such insignificant creatures on a minor planet of a very average star in the outer suburbs of one of a hundred thousand million galaxies. So it is difficult to believe in a God that would care about us or even notice our existence'." (Cap. 6)

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PODE HAVER VIDA EXTRATERRESTRE, MAS É POUCO PROVÁVEL QUE ELA SEJA INTELIGENTE

"He offered his opinion that although the probability of life existing on other planets is high, the probability that the life is inteligent is low." (Cap. 10)

Nesta parte do livro, é dito que após essa afirmação de Hawking algumas pessoas na plateia fizeram um comentário irônico dizendo que a probabilidade de encontrar inteligência aqui na Terra também é pequena.

Hoje, após o aparecimento dos seguidores de Trump e a pandemia de demência coletiva dos brasileiros seguidores do inominável (bolsonaristas) tivemos reforçada a dúvida a respeito da inteligência da espécie humana, ao menos parte dela.

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UM CONCEITO DE LIBERDADE, A DE NOSSO ESPÍRITO

"Hawking's fierce intellect and sharp sense of humor reminded everyone that 'people need not be limited by physical handicaps as long as they are not disabled in spirit.'" (nas Conclusões)

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É isso!

Mais uma leitura, mais um momento de aprendizagem e ginástica para meu eu, meu cérebro.

O livro de Hourly History sobre a biografia de Stephen Hawking pode ser adquirido sem custos no site da Amazon. Pelo menos foi assim que adquiri.

William


Post Scriptum (08/01/23):

Assisti ao filme sobre a vida de Stephen Hawking - A teoria de tudo (2014), filme baseado em um livro escrito por sua ex-esposa, Jane Hawking. A interpretação do ator Eddie Redmayne é espetacular e lhe rendeu o Oscar de melhor ator! Outra interpretação brilhante foi a de Felicity Jones como Jane Hawking. Gostei do filme, sensível e cuidadoso em relação à vida do casal. Eles tiveram três filhos, viveram casados entre 1965 e 1991. O cientista depois viveu uma década com outra esposa - Elaine (1995 a 2006) - e, após a 2ª separação, ele e Jane voltaram a ter uma boa relação de trabalho e apoio. Hawking faleceu em 2018 e Jane é casada até hoje com um amigo comum da família Hawking. (informações Wikipedia)


Bibliografia:

HISTORY, Hourly. Stephen Hawking - A life from beginning to end. 2019.


segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Leitura: Luiz Gama, o libertador de escravos



Refeição Cultural

"O escravo que mata o senhor,
seja em que circunstância for,
mata sempre em legítima defesa."
(Luiz Gama)


Li este pequeno livro da Expressão Popular, sobre Luiz Gama, o libertador de escravos e sua mãe libertária, Luíza Mahin (2006), para começar a conhecer um pouco dessa figura histórica de nossas lutas populares. O livro foi escrito pelo excelente Mouzar Benedito. Eu já tinha faz tempo essa obra em minha biblioteca.

Meu interesse em Luiz Gama neste momento é porque estou fazendo cursos do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) e decidi acompanhar os encontros entre a filósofa Suze Piza e o historiador Lindener Pareto, curso com o nome "13 livros para compreender o Brasil".

A primeira aula foi a respeito do livro A queda do céu - Palavras de um xamã yanomami (2010), de Davi Kopenawa e Bruce Albert. Terminei de assistir a essa primeira aula e gostei da proposta das 13 leituras.

O livro sobre Luiz Gama sugerido para leitura no curso é o Liberdade (1880-1882), um dos volumes da coletânea Obras Completas com centenas de textos do jornalista, advogado negro e abolicionista, que faleceu em 1882, pouco antes da lei de abolição em 1888. Seus textos foram organizados pelo pesquisador Bruno Rodrigues de Lima.

O livro organizado por Mouzar Benedito seria algo como um "primeiro contato" com personagem tão importante de nossa história, como diz Alípio Freire na apresentação deste livro da Expressão Popular, na série Recortes e Perfis.

É isso, vamos para mais uma trilha de busca do conhecimento.

William


domingo, 18 de setembro de 2022

A versão de Gorbachev sobre a Perestroika



Refeição Cultural

Assim que soube da morte de Gorbachev, dia 30 de agosto de 2022, acabei tendo a curiosidade de pegar seu livro Perestroika - Novas ideias para o meu país e o mundo, de 1987, e dar uma folheada, reler a parte que havia lido cinco anos antes (umas cem páginas). Cheguei à metade do livro do ex-líder soviético até agora. 

Meu sentimento até aqui é meio que de lamento por não ter sido possível que as coisas dessem certo como nos anunciava Gorbachev em meados dos anos oitenta. Foi uma pena! O mundo perdeu muito com o fim da bipolaridade mundial em relação a sistemas econômicos e políticos e formas de organizações de comunidades humanas e com o predomínio totalitário do capitalismo e neoliberalismo, representados pelos Estados Unidos ditando as regras para os duzentos países do mundo. Só perdemos com isso. 

Ainda bem que surge um mundo multipolar novamente, ainda bem. Eu não tenho preferência nem por norte-americanos, nem por russos, nem por chineses, eles que sejam felizes ou infelizes ao modo deles. Para nós dos duzentos países periféricos a eles, um mundo multipolar é bem melhor do que um mundo com um ditador só (que dita o que todos devem acatar).

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Li até agora a primeira parte do livro chamada "Perestroika". O capítulo um fala sobre "Perestroika, Origens, Conteúdo, Caráter Revolucionário". No capítulo dois, li subseções abordando a Perestroika em marcha: 1. A sociedade é colocada em movimento; 2. A nova política econômica e social em ação; 3. Caminhando pela estrada da democratização; 4. O ocidente e a reestruturação.

Como costumo fazer, rabisquei o livro todo com comentários e sublinhados de partes que chamam a atenção. Uma das ideias que mais me deixou chocado foi a defesa que Gorbachev faz de uma mudança de conceito sobre o socialismo. 

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"Queremos ser perfeitamente claros nesse ponto: o socialismo não tem nada a ver com uniformização. Ele não pode garantir condição de vida e consumo segundo o princípio 'de cada um de acordo com sua capacidade, para cada um de acordo com suas necessidades'. Isso acontecerá sob o comunismo. O socialismo tem um critério diferente relativo à distribuição de benefícios sociais: de cada um de acordo com sua habilidade, para cada um de acordo com seu trabalho. Não há exploração do homem pelo homem, nenhuma divisão entre ricos e pobres, entre milionários e mendigos; todas as nações são iguais entre os iguais; são garantidos empregos a todas as pessoas; temos educação secundária e superior gratuita, além de serviços médicos gratuitos; os cidadãos são bem amparados na velhice. Essa é a configuração da justiça social no governo socialista." (p. 114)

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Por mais que compreenda o que ele estava dizendo sobre a situação na qual o socialismo soviético se encontrava naquele momento - estagnação econômica e social, mesmice e acomodação de líderes e de parte das pessoas, corrupção interna na burocracia estatal etc -, achei que a ideia é bem perigosa, ela me pareceu muito próxima à concepção neoliberal do self-made man e base da ideologia do capitalismo. 

Hoje chamamos a coisa de meritocracia... uma mentira para encobrir o que é a exploração capitalista e a perpetuação do status quo nas sociedades injustas: quem se deu bem é porque teve mérito próprio, quem não se deu bem é porque não se "esforçou" como os 90% que não venceram na vida... em geral negros, de origens fora das elites etc.

Enfim, como sei que não sei quase nada, vamos lendo e estudando, ouvindo as ideias e opiniões tanto de pessoas que tiveram papeis relevantes na história humana quanto de pessoas comuns e de fora dos cânones e das bolhas de unanimidades artificiais, independente de qual linha política sejam elas. 

Eu defino o que acho que vale ou não vale a pena ler e estudar. Parte das leituras é roteiro próprio, parte é roteiro sugerido.

William


Bibliografia:

GORVACHEV, Mikhail. Perestroika - Novas ideias para o meu país e o mundo (1987). Círculo do Livro. Editora Nova Cultural Ltda.


terça-feira, 13 de setembro de 2022

Lendo sobre Gorbachev e a Perestroika



Refeição Cultural

O último líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev, morreu no dia 30 de agosto de 2022. Eu pouco sei sobre ele pra ser sincero. Sei os lugares-comuns e as leituras mais gerais que fazem sobre ele.

Para líderes dos países centrais do capitalismo e do Ocidente, Gorbachev é um grande líder do século 20 e um dos responsáveis pelo fim da guerra fria e o risco de uma guerra nuclear. Sua relação próxima com os presidentes norte-americanos, Reagan entre eles, ficou marcada na história.

Para algumas lideranças comunistas e do campo da esquerda, Gorbachev é responsabilizado por ser o coveiro do socialismo real, o cara que acabou com a URSS, um traidor das causas do socialismo e comunismo. Essa análise foi a que vi de alguns intelectuais de esquerda que gosto e ouço.

A história da União Soviética e a guerra fria nos anos oitenta, a queda do Muro de Berlim, e as grandes mobilizações populares no Brasil naquela década, tudo isso, acabei estudando um pouco mais a respeito muito depois dos fatos ocorridos porque naquele período eu era um adolescente trabalhador braçal revoltado com o mundo e sem formação política.

Até hoje estudo o passado que já me envolveu como alguém que vivenciava a história e não pertencia ou atuava em movimentos sociais. O caso da União Soviética e de Gorbachev não é diferente disso. Vi o fato pela televisão como um ouvinte e não me envolvi nas discussões a respeito da mudança histórica que estava acontecendo ali.

Eu tinha o livro de Gorbachev em casa há muito tempo, o livro é de 1987. Em 2017, ou seja, 30 anos após seu lançamento, resolvi ler o que Gorbachev dizia a respeito da Perestroika e da Glasnost. Li pouco mais de cem páginas à época. 

Minhas interações com o livro - os sublinhados e os comentários ao longo da centena de páginas lidas - são mais para positivas que negativas. Eu era dirigente nacional de uma autogestão em saúde e atuava com muito esforço em dialogar com a base social que representava como eleito e me esforçava para ser transparente no que pensava e fazia. O que Gorbachev defende na Perestroika e na Glasnost é um pouco disso de participação social, democracia etc.

Após a morte de Gorbachev no dia 30 de agosto, peguei o livro para dar uma olhada e acabei relendo nesses dias a centena de páginas que havia lido 5 anos atrás. Foi uma leitura interessante. Aliás, ler é sempre uma atividade interessante. Sugeriria leituras e estudos a qualquer pessoa caso eu fosse um "influenciador digital" como os que têm por aí com milhões de seguidores. Não sou e não influencio nem os de casa...

Tanto na época como agora na releitura, percebo que o líder soviético tinha uma sinceridade ao dizer que gostaria de preservar o Estado soviético e seguir com o socialismo implantado por lá há 70 anos (Revolução de 1917). Me pareceu sincero em sua busca por democracia e participação social nos destinos do país. É o que percebi até ali nas cem páginas que li.

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"É o opressor quem define a natureza da luta" (Mandela)

INOCÊNCIA... é a palavra-conceito que usaria se eu tivesse que resumir o que penso a respeito do esforço de Gorbachev e sua Perestroika e, inclusive, é o que diria de Lula e sua forma de fazer política com amor pra todo mundo e esperança na conciliação de classes... inocência! Não rola isso no mundo! Com o fascismo, com o capitalismo, com a extrema-direita não é possível lidar com o democratismo que esses líderes defendem... não rola! Como disse Mandela em sua autobiografia: é o inimigo quem escolhe as armas...

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Interessante que minha formação política orgânica, após virar dirigente sindical eleito pela classe trabalhadora - a categoria bancária -, é uma formação baseada nos princípios, concepções e práticas sindicais da Central Única dos Trabalhadores (CUT), e também, de forma colateral e não principal, baseada nas práticas e concepções do Partido dos Trabalhadores (PT) e suas lideranças históricas como, por exemplo, nosso querido presidente Lula.

Em tese, pelo que percebi até agora nas ideias de Gorbachev e da Perestroika e Glasnost, o que ele queria para seu povo e os Estados soviéticos era aquilo que li e vi o PT e a CUT defender ao longo de duas décadas de estudos, leituras e convivência como dirigente orgânico do movimento de luta: participação social das bases, democracia, liberdade, transparência e pertencimento ao que se buscava construir: uma sociedade socialista.

Enfim, é o que penso até agora sobre essas questões que discorri acima.

William


terça-feira, 21 de dezembro de 2021

211221 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Ontem li mais um capítulo do clássico de Daniel Defoe - As aventuras de Robinson Crusoé (1719). Gostaria de terminar a leitura do livro ainda este ano, mas não será fácil. Faltam dez capítulos.

RELIGIÕES

O capítulo XXVI tem uma longa abordagem sobre religião, apontando divergências e convergências entre a religião católica e a religião protestante, a católica dos personagens espanhóis e do padre francês que acompanha Crusoé em uma visita a sua ilha e a protestante dos ingleses.

A convergência de ambas seria a fé cristã, como descreve o padre católico que acompanha Crusoé:

"Embora não professemos a mesma religião, estou todavia seguro de que nós, como cristãos que somos, teríamos o maior prazer em ver as pobres escravas do demônio instruídas nos preceitos do cristianismo, na crença do Redentor, na Ressurreição, na vida eterna e no Juízo final, dogmas estes sobre que não há divergências de doutrina." (p. 373)

A divergência seria a própria estrutura de poder e hierarquia da igreja católica frente ao modelo protestante.

"Na minha qualidade de católico, conheço suficientemente a diferença radical que há entre um protestante e um pagão, entre aquele que invoca o nome de Jesus, embora de uma forma que julgo não ser de acordo com a verdadeira fé, e um bárbaro ou selvagem, que desconhece por completo Deus e o seu Cristo, Redentor da humanidade. Se os protestantes não estão dentro dos umbrais da igreja, pelo menos estão mais perto do que aqueles que nunca ouviram falar dela..." (p. 386)

Enquanto lia, refletia e me lembrava de uma vida longa que tive acreditando nessas abstrações da mente e cultura humanas: o meu ambiente de criação foi o católico apostólico romano. Essas criações dos seres humanos são muito poderosas, tenho plena clareza a respeito disso. E tenho plena compreensão da necessidade humana de encontrar pontos de apoio e suporte para significar a vida e suportar as dificuldades existenciais percebidas pelo animal humano.

Cada pessoa e cada sociedade tem sua cultura e seu momento na busca de consciência e compreensão da vida na Terra.

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KARL MARX

Li mais um pouco do primeiro capítulo do livro de José Paulo Netto sobre a vida de Karl Marx. Muito interessante a forma leve com que Netto nos conta a respeito do grande pensador Marx.

O capítulo I. ADEUS À MISÉRIA ALEMÃ (1818-1843) nos conta o ambiente onde a família de Marx viveu.

Na parte que fala de sua adolescência, crescimento e conclusão de sua educação fundamental - "Os primeiros anos: 1818-1835" - gostei muito de um trecho de um de seus trabalhos de conclusão de curso, um texto com o título "Reflexão de um jovem em face da escolha de uma profissão".

"Se [o homem] trabalha apenas para si mesmo, poderá talvez tornar-se um célebre erudito, um grande sábio ou um excelente poeta, mas nunca será um homem completo, verdadeiramente grande [...]. Se escolhermos uma profissão em que possamos trabalhar ao máximo pela humanidade [...] não fruiremos uma alegria pobre, limitada, egoísta, mas a nossa felicidade pertencerá a milhões [de pessoas]. (NETTO, 2020, p. 42)

Que coisa linda! Um jovem de 17 anos!

Demais!

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Na parte "Dois semestres de boêmia: Bonn, 1835-1836" o leitor fica sabendo das loucuras do jovem estudante Marx, loucuras muito semelhantes às dos jovens estudantes de hoje e de sempre.

O rapaz não faltava a um rolê regado a bebida e tabaco. A faculdade tinha os grupos de afinidades dos filhos dos ricos e os dos não ricos, onde se situava Marx. Ele chegou a duelar com sabre com um rapaz e por pouco não deu merda. Feriu-se apenas acima do olho esquerdo.

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Na parte seguinte - "Os anos de Berlim: de 1836-1837 a meados de 1841) - que estou lendo ainda, já soube da paixão entre Marx e Jenny, mais velha que ele 4 anos. Ao ler sobre o amor e a vida que tiveram juntos, me lembrei de Machado de Assis e sua companheira de toda a vida, Carolina Augusta Xavier de Novais. Marx sentiu muito a morte da esposa em 1882. Machado idem, a morte da esposa em 1904 abalou muito o nosso escritor.

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Enfim, paro por aqui minhas reflexões e registros após meus estudos.

Seguimos em busca de conhecimento, em busca de consciência de classe e na expectativa de contribuir de alguma forma para o fim do regime capitalista e pela construção de um mundo melhor para a humanidade e para o planeta Terra.

William


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

NETTO, José Paulo. Karl Marx: uma biografia. 1ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2020.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

201221 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 20 de dezembro de 2021. Segunda-feira.


Comecei a ler uma biografia de Karl Marx, a biografia escrita por José Paulo Netto. Se não for entusiasmo passageiro, pretendo ler e estudar Marx e o marxismo e me tornar um conhecedor das ideias e estudos de Karl Marx. Se for fogo de palha, logo logo o livro e a necessidade de estudar o marxismo ficarão pelos cantos do meu mundo onde ficam as coisas começadas e não terminadas.

Li cerca de 40 páginas do livro sobre Marx. Muito interessante o que já li. O autor nos conta sobre a Alemanha do início do século XIX, a Alemanha onde nasceu Karl Marx em 1818. O que hoje conhecemos como Alemanha é bem diferente do que ela era naquela época. E a Alemanha estava numa condição muito diferente da Inglaterra, França e países baixos, em relação ao contexto econômico, social e político. Enfim, vamos estudar sem pressa, repito, sem pressa, Marx e o marxismo.

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RETROSPECTIVA E MEMÓRIAS

Estou revendo meus escritos e minhas realizações no ano de 2021. A base de minha retrospectiva pessoal é o que escrevo e registro nos blogs que mantenho. Já fiz uma postagem com uma breve retrospectiva de minha participação política nas lutas sociais deste ano (ver aqui).

A retrospectiva que vai dar bastante trabalho é a da revisão dos textos no blog Refeitório Cultural. Ao tempo em que releio o que escrevi, corrijo e melhoro a redação, vou contando quantos livros li neste ano, relembro momentos vividos, e vou imprimindo para encadernar a produção textual do ano. Neste ano a produção foi grande, voltei a escrever intensamente como fiz em 2016, o ano do golpe de Estado no Brasil.

Ao revisar as 22 postagens de janeiro, vi que li ou terminei a leitura de 3 livros naquele mês, leituras diversificadas porque li em português e espanhol: li Julio Cortázar, conheci as poesias de Bertolt Brecht, e li José J. Veiga. 

Naquele mês alimentava ainda o sonho de correr uma maratona, estava correndo longões muito bons, na casa dos 15K. Pensei em escrever narrativas curtas, cheguei a fazer três textos ficcionais, mas depois voltei aos gêneros discursivos aos quais estou mais acostumado.

Vai dar trabalho essa retrospectiva cultural porque são quase 300 postagens neste ano. Mas ler e reler e me ver nelas é parte do processo de me fazer e de me burilar. Sigamos.

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CLÁSSICOS

Estou em algumas trilhas de leituras que vão demorar a serem percorridas, mas isso é bom. Nas poesias, estou para ler as completas de Drummond e Cecília Meireles. São centenas e centenas de poesias feitas em décadas. Mas não tenho pressa, vou lendo. 

Ainda tenho programados nessas veredas da linguagem poética os livros a Ilíada, a Eneida, a Divina Comédia e depois vou reler Os Lusíadas. Por fim, Mensagem, de Fernando Pessoa. É coisa pra cacete! 

No entanto, se eu for sobrevivendo a esse mundo e a essa vida instável... seguirei lendo, estudando, tentando ser menos ignorante.

Após terminar a leitura de Crusoé, tenho trilhas enormes a percorrer em relação aos romances. O livro seguinte é o clássico de Jonathan Swift, Gulliver. Mas a sequência é enorme...

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Marx e outras leituras biográficas, políticas e filosóficas, romances clássicos, poesias, muita coisa pra estudar e escrever comentários até como forma de memorizar e apreender o que se leu e estudou. O blog tem esse papel.

O outro blog, A Categoria Bancária, é uma outra relação de amor. É uma vida dedicada às lutas políticas, sociais, sindicais. Dá um trabalho talvez maior ainda reler, corrigir, diagramar etc. É história, história minha e de nós todos. Ao revisar e reler, estou escrevendo memórias. Vou tentar seguir essa vereda também.

William


segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Morena, pena de amor (1939) - Cecília Meireles



Refeição Cultural

Aos poucos, vamos conhecendo a obra poética de Cecília Meireles. Li mais um livro da poeta - Morena, pena de amor, de 1939. Foram 130 poemas nesta publicação, 129 numerados e uma abertura que dá início aos poemas.

Agora, já li e conheço Espectros (1919), Nunca mais... e Poema dos poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925), Cânticos (1927), A festa das letras (1937) e Morena, pena de amor (1939).

Somando os 130 poemas aos 129 das outras 5 publicações, agora conheço 259 poemas dessa grande poeta e intelectual brasileira.

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MORENA, PENA DE AMOR

"Queria só um sorriso.
Mas deram-me um beijo.
Perdi metade do juízo
e fui dar ao Paraíso.
São Pedro, vendo-me a cara,
dizia: 'Mas que pequena!
Com uma estrela tão clara
numa boca tão morena!'

(Qual seria esse tesouro?
Seria o teu beijo?
Seria o sorriso?
Ou apenas o ouro
do meu dente siso?)
" (p. 191)

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Assim começam os poemas desse trabalho poético de Cecília Meireles.

"1

Me chamam Morena
por ser minha cor.
Mas meu nome é Pena,
Pena de Amor.
"

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Selecionei alguns momentos muito sonoros e prazerosos da obra.

"5

Não perguntes nada,
não perguntes, não.
Tenho uma espada,
enferrujada,
atravessada
no coração.

Como está quebrada,
não se põe a mão.
" (p. 192/193)

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"15

Os meus morenos suspiros
por morenos campos vão,
dentro de morenos rios,
por morena solidão.

Ai, morena sorte
da vida terrena,
ai, morte morena,
ai, terrena morte...
" (p. 195/196)

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"26

Choro de pena,
choro de alegria,
me chamam Morena.
Sou Melancolia.
" (p. 200)

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"32

Chamei Deus - e estava ausente,
ou fez-se desentendido.
Não há nada que atormente
como um chamado perdido.
" (p. 202)

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O próximo poema é muito legal. Basta lembrarmos que Drummond já tinha nos apresentado seu poema "Quadrilha", em Alguma Poesia (1930).

"34

Eu estou sonhando contigo,
tu estás sonhando com ela,
e ela com o teu amigo,
e ele comigo ou com ela...

Tudo sonha e oscila
nas ondas do mundo:
em cima, a lua tranquila,
tranquila, a morte, no fundo.
" (p.202/203)

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"40

De dia, te andei buscando,
de noite, a buscar-te andei.
De tanto andar procurando,
perdi-me e não te encontrei.
" (p. 205)

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"48

Semeei plantas de amores,
nasceram ódios de espinho.
Não foi da mão nem das flores,
foi condição do caminho.
" (p. 207)

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Anotei diversos poemas que me tocaram ou que são muito expressivos para mim. Seria muito trabalhoso postar muitos deles. 

Fecho a seleção com o poema que fala da solidão.

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"62

Bateram na noite escura,
fui abrir com precaução.
Perguntei: 'Quem me procura?'
Disseram-me: 'A Solidão'.

Entrou-me pela vidraça
um vulto de escuridão.
Perguntei: 'Mas quem me abraça?'
Disseram-me: 'A Solidão'.

Viverei com alegria
e sem outra condição
que a da companhia
desta Solidão...
" (p. 214/215)

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CONHECENDO AOS POUCOS CECÍLIA MEIRELES

Hoje vi uma palestra muito interessante na internet a respeito da obra Cânticos (1927), ministrada pela professora Lúcia Helena Galvão, num canal chamado "Nova Acrópole Brasil". A palestrante destaca as mensagens místicas em sua interpretação dos 26 poemas. Outra parte interessante da palestra foi a biografia de Cecília Meireles.

Enfim, sigo avançando na leitura dos poemas da poeta, professora, pintora, educadora, poliglota e tradutora e grande intelectual brasileira Cecília Meireles.

O próximo livro de poesias dela é premiado, vou ler a seguir Viagem (1939).

William


Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.

sábado, 28 de agosto de 2021

Diários com Machado de Assis (III)



Refeição Cultural

"Mas o desconhecido teve um assomo de raiva, que meteu medo ao pacato clérigo. Que podiam fazer ele e o preto, ambos velhos, contra qualquer agressão de um homem forte e louco? Enquanto esperava o auxílio policial, monsenhor Caldas desfazia-se em sorrisos e assentimentos de cabeça, espantava-se com ele, alegrava-se com ele, política útil com os loucos, as mulheres e os potentados." (p. 273)

 

Na sexta-feira à noite e início da madrugada, fiquei ouvindo músicas antigas e lendo a revista Carta Capital, cada notícia mais desanimadora que a outra. Ler enfileiradas as notícias de destruição do país é algo difícil de descrever. A última que li antes de dormir foi a matéria sobre a privatização dos Correios. Um escárnio, um crime de lesa-pátria, uma tortura a cada pessoa que não seja ignorante, canalha ou interessada no roubo.

No sábado pela manhã, peguei o livro organizado por John Gledson com os 50 contos de Machado de Assis e li o conto "A segunda vida", publicado primeiro na Gazeta Literária e depois no livro Histórias sem data, em 1884. A narrativa é muito doida e é sobre um doido (rsrs), como ficamos sabendo nas primeiras linhas do texto. José Maria diz ter morrido e reencarnado e está com o monsenhor Caldas naquele momento porque quer contar a ele algo que teria feito no dia anterior. 

Esse conto eu não conhecia ainda. É uma narrativa envolvente e que prende a atenção do leitor.

Depois fui ler um pouco sobre Machado, no próprio livro porque John Gledson faz uma introdução sobre o autor e os contos escolhidos por ele. Gledson nos explica um pouco a questão da ironia nos textos de Machado de Assis. Teria sido entre os anos finais de 1870 e as publicações dos anos 1880 que nosso escritor maior desenvolveria sua predileção pela ironia, algo muito refinado em sua técnica literária.

Machado de Assis é um brasileiro. Um brasileiro que viveu no século XIX, o século do Segundo Reinado (D. Pedro II). Século do primeiro de uma série de golpes de Estado perpetrados pelos militares em conluio com a casa-grande (1889 e outros até o de 2016). Machado é um escritor mestiço, neto de escravos alforriados por parte de pai. 

"jovem mestiço, de origem pobre, criado sob a proteção de uma família aristocrática dos subúrbios do Rio (...) Casara-se com uma moça acima de sua classe, uma mulher branca e portuguesa, Carolina Xavier de Novaes..." (Gledson, Introdução, p. 8 e 9)

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COMENTÁRIO

O Brasil não é para amadores! Esse é o ditado popular. O mestiço Machado de Assis conseguiu ser escritor no século cuja lei era a escravidão, sendo ele um negro ou mulato livre e casado com uma branca estrangeira, protegido por um escritor escravagista famoso, José de Alencar. "Tão Brasil!" diriam os poetas do Modernismo.

O Brasil é o país onde pessoas negras ou mestiças votam em racistas, onde mulheres votam em machistas e misóginos, onde líderes de igrejas pregam violência, armas e morte aos diferentes, onde servidores públicos votam em privatistas. "Tão Brasil!".

Nós somos isso tudo que está aí, essas coisas somos nós, brasileiros e brasileiras.

William


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. 50 contos de Machado de Assis. Seleção, introdução e notas John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 14ª reimpressão, 2015.