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terça-feira, 26 de setembro de 2023

Brasil capitalista e racista



Refeição Cultural

Osasco, 26 de setembro de 2023. Terça-feira.


Opinião


"Se os negros vivem nas favelas porque não possuem meios para alugar ou comprar residência nas áreas habitáveis, por sua vez a falta de dinheiro resulta da discriminação no emprego. Se a falta de emprego é por causa de carência de preparo técnico e de instrução adequada, a falta desta aptidão se deve à ausência de recurso financeiro. Nesta teia, o afro-brasileiro se vê tolhido de todos os lados, prisioneiro de um círculo vicioso de discriminação – no emprego, na escola – e trancadas as oportunidades que lhe permitiriam melhorar suas condições de vida, sua moradia, inclusive." (from: "O Genocídio do negro brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado", by: Abdias Nascimento)


O Brasil é um país racista. Nós somos um povo racista. Não existe democracia racial no Brasil. Nós somos um povo violento. Somos um país capitalista. Somos um país misógino. Não somos um país laico. Somos um povo violento até quando achamos que não somos. Essas são as minhas impressões sobre o país onde nasci e vivo há décadas. Essa é a minha opinião após anos de estudos e de vivência entre a classe trabalhadora, que representei e organizei por muito tempo. Essa é a minha opinião dita aqui como garante a lei maior a respeito da liberdade de opinião, a mesma lei maior - a Constituição Federal de 1988 - que usam para dizer que o Brasil é laico e que, no entanto, fala em nome de "Deus" em seu preâmbulo... (laico, sim, sei...)

Somos racistas e violentos não porque queremos ou por destino, como se fosse algo biológico ou do plano místico, somos o que somos por causa da história, por causa da nossa história, por causa da nossa realidade material construída nos últimos séculos. Somos o que somos pelos acontecimentos históricos que impactaram na conformação da vida nacional. Como não existem essas abstrações mentais deterministas de destino ou que algo estava escrito em algum lugar místico, poderíamos no instante seguinte mudar a tendência de seguir sendo o que somos... o problema é que não vislumbro perspectivas de mudança, infelizmente.

Estou lendo Eliane Brum discorrendo sobre a Amazônia e a emergência climática num calor de fritar ovo no asfalto, cozinhando corpo e mente em nosso apartamento sem ar-condicionado, só com ventiladores soprando o vento quente da realidade material do mundo sendo consumido por nós consumistas das coisas criadas pelas corporações capitalistas do mundo. O livro Banzeiro òkòtó (2021) é uma catarse a cada parágrafo, a cada capítulo, e a gente vai lendo e sofrendo ao entender o quão foda é o que estão(mos) fazendo com a floresta amazônica e com os povos que protegiam a floresta de nós. (aí me lembro que nem as lideranças do PT aceitam mais falarmos em socialismo e lutar contra o capitalismo...)

Enquanto frito no calor da realidade da emergência climática, leio também o livro-denúncia de Abdias Nascimento - O genocídio do negro brasileiro (1978). Que porrada! Já começo a acumular leituras de textos engajados nessas temáticas sobre a condição das negras e negros no Brasil (as pessoas "de cor"). No entanto, Abdias traz novidades ao fazer tantas citações de figuras públicas que eu não sabia que eram racistas que a gente fica de queixo caído... Somos um povo racista, até quando achamos que não somos, essa é a verdade!

Aliás, o desconforto que Eliane Brum descreve por ter plena consciência de sua condição de branca no Brasil racista deveria ser o mesmo desconforto ou consciência que todos nós poderíamos sentir ao nos identificarmos como brancos nessa terra racista. Como percebemos ao ler Abdias Nascimento e Eliane Brum, em algum momento de nossas vidas de brancos neste país racista, tivemos nosso cotidiano marcado por algum privilégio por causa da cor da nossa pele ou origem racial. Qualquer dado estatístico sobre o povo brasileiro demonstra os efeitos do racismo estrutural.

Da leitura de hoje de Abdias, pincei uma frase do escritor e pensador que ilustra bem o que aprendi nas formações políticas do movimento sindical, um conceito que a companheira Deise Recoaro explicava nas suas palestras sobre questões de gênero, raça e orientação sexual. Ela nos explicava que:

- Preconceito gera discriminação, discriminação gera falta de oportunidades e falta de oportunidades gera desigualdade social. Somos nós, o Brasil, o país mais desigual do mundo! Um país capitalista e racista. E misógino! Tudo junto e misturado.

Enfim, somos natureza, tudo está contido na mesma natureza chamada planeta Terra. Nós animais humanos só somos componentes da natureza, como todos os demais componentes da natureza. Assim como a natureza muda o tempo todo, e o animal humano altera a natureza com mais velocidade que os demais seres e elementos, podemos alterar a tendência atual das coisas. A questão é: queremos mudar a tendência escatológica das coisas no mundo atual? Se queremos, estamos atuando para mudar algo ou não em relação a postergar o fim das condições de vida na Terra?

William


quarta-feira, 5 de abril de 2023

Leitura: Gen Pés Descalços (4) - Keiji Nakazawa



Refeição Cultural

Gen Pés Descalços - Cresça firme, trigo verde

Volume 4


Registro impressões sobre a leitura do quarto volume de Gen Pés Descalços influenciado pela tristeza de uma tragédia ocorrida hoje em nosso país. Um homem de 25 anos assassinou crianças em uma creche em Blumenau, Santa Catarina. Nossa sociedade humana falhou miseravelmente! 

O mangá que estou lendo de Keiji Nakazawa é um clássico das Histórias em Quadrinhos. Gen Pés Descalços foi publicado nos anos 70 e o autor é um sobrevivente da bomba atômica lançada em Hiroshima pelos norte-americanos. Ele tinha 6 anos e toda sua família foi morta pela bomba, com exceção de sua mãe.

No primeiro volume vemos a miséria à qual está submetida a população japonesa por causa da guerra. Vemos o clima fascista do império militarista japonês. E vemos a forma de tratamento dura e preconceituosa imposta à família Nakaoka por ela ser contra a guerra. 

Ao longo dos volumes que já vi o leitor toma contato com as consequências da bomba atômica, que matou na hora mais de 100.000 civis e os efeitos da radioatividade seguiu matando dezenas de milhares de pessoas ao longo dos meses e anos seguintes. 

Imaginem vocês, leitores e leitoras, mulheres, crianças e idosos vaporizados na hora e depois morrendo dolorosamente por causa de uma bomba lançada pelos poderosos norte-americanos mesmo após a guerra estar vencida pelos aliados. Imaginem a fome durante anos e a miséria assolando um país... esse é o cenário de Gen Pés Descalços.

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A MISÉRIA E A VIOLÊNCIA COMO RESULTADOS DO FASCISMO

A leitura desse volume foi bem mais difícil que a leitura do anterior (ler comentário aqui). Foram quase 300 páginas e eu tive que parar de ler algumas vezes porque ficava mal durante a leitura. 

O sofrimento da família Nakaoka seguiu nesta parte da história - nos dois anos seguintes ao 6 de agosto de 1945 - da mesma forma que nos volumes anteriores. É muito duro acompanhar tanto infortúnio de uma família como vemos no mangá de Nakazawa.

O autor ficou conhecido por ser um pacifista, no entanto a expressão dos desenhos é marcada por muita violência. É o retrato fiel do que são sociedades cuja essência cultural é a violência e o autoritarismo. Estamos vivendo isso neste momento do mundo de 2023, décadas depois da 2ª GM.

A fome é a marca dos 4 volumes que li até agora. A maldade nas pessoas também. Crianças são más, maltratam e humilham umas às outras; pessoas com um pouquinho a mais são egoístas e se aproveitam dessa condição para explorar miseráveis; raros são aqueles e aquelas que se preocupam com os outros como é o caso do garoto Gen. Dureza, viu!

Neste volume a família Nakaoka voltou a sofrer com perdas e teve que se reinventar para seguir adiante na luta pela sobrevivência na Hiroshima destruída pela bomba atômica dos EUA.

É isso. Seguiremos na leitura dos 10 volumes do mangá Gen Pés Descalços. A mãe de Nakazawa faleceu de câncer em 1966 e ele faleceu de câncer em 2012. Apesar disso, sua obra denunciando a guerra e a violência como cultura é atemporal.

O texto sobre o volume seguinte (nº 5) pode ser lido aqui.

William


Bibliografia:

NAKAZAWA, Keiji. Gen Pés Descalços - Cresça firme, trigo verde. Vol. 4. Tradução Drik Sada. - São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2012.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Leitura: Gen Pés Descalços (3) - Keiji Nakazawa



Refeição Cultural

Gen Pés Descalços - Trigo, é hora de brotar

Volume 3


Aos poucos, vou me familiarizando com a linguagem dos mangás e ampliando meus conhecimentos nas diversas formas de mídias de cultura.

A leitura do volume 3 de Gen Pés Descalços se deu em um único dia. Peguei logo cedo o mangá para ler e consegui terminar o volume no final da noite de ontem. Que dureza a vida dos personagens! Quanto sofrimento suporta a família Nakaoka!

Para escrever esta postagem e minhas impressões, reli o texto de prefácio do volume 1 "Os quadrinhos depois da bomba", de Art Spiegelman. O texto é muito elucidativo sobre os mangás de Keiji Nakazawa, ele próprio sobrevivente da bomba de Hiroshima assim como o personagem Gen.

"O simbolismo evidente é característico dos quadrinhos japoneses. Para Nakazawa, isso toma a forma de um sol que reaparece sem piedade, brilhando implacavelmente ao longo das páginas. É o que marca a passagem do tempo, o que dá a vida, a bandeira do Japão, a lembrança da bomba com o calor de mil sóis, e o instrumento que dá ritmo à história de Gen." (V. 1, Prefácio)

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Gen Pés Descalços conta a história de Gen Nakaoka e sua família, descrevendo o dia a dia do povo japonês desde abril de 1945, meses antes do lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki, e avança para o período posterior à hecatombe nuclear e à derrota na 2ª Guerra Mundial.

O 1º volume foca no período que antecede o lançamento da bomba, de abril até 6 de agosto. O povo estava vivendo sob condição de miséria absoluta, um cotidiano de fome e o clima de intolerância era absurdo contra qualquer questionamento ao imperador e à guerra. A família Nakaoka era contra a guerra e eles eram considerados antipatriotas e sofreram muita violência e humilhação por causa disso.

No 2º volume, o leitor sofre muito com os personagens e as cenas que retratam os efeitos da bomba atômica. Os desenhos são incríveis, duros, chocantes. O incrível é que o jovem Gen segue sendo um garoto bom, que se mete em apuros toda vez que seu coração se sensibiliza com a desgraça dos outros. Ele acaba deixando as urgências de si próprio e família para ajudar alguém. É tocante! E ao seu redor, é só maldade e indiferença. Como o povo está embrutecido!

No 3º volume, Gen conhece o senhor Keiji, outra vítima da bomba atômica, uma pessoa desprezada pela própria família por estar entre a vida e a morte pelos efeitos da bomba. Gen precisa desesperadamente de um emprego para ajudar a família e aceita cuidar do senhor Keiji. São fortes as cenas que Nakazawa nos apresenta nessa parte da história.

A maldade inunda o cotidiano japonês e é exemplificada a todo instante, seja através da velha sogra de Kiyo, amiga de Kimie (mãe de Gen), que humilha e trama coisas terríveis contra os inquilinos, seja através da família do senhor Keiji, que deseja a morte dele o tempo todo, seja ainda a cada cenário novo por onde passa Gen.

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IMPÉRIOS, GUERRAS E CAPITALISMO...

A leitura do clássico Gen Pés Descalços me coloca o tempo todo refletindo sobre o mundo em 2023, a respeito da guerra entre os Estados Unidos e Otan contra a Rússia, usando o povo ucraniano como bucha de canhão através do palhaço presidente da Ucrânia, colocado no poder após um golpe de Estado em 2014, início da desestabilização que gerou a guerra. Quem sofre é sempre o povo... sempre! 

Ainda a guerra na Ucrânia e sua continuidade. É idêntico ao caso do império japonês derrotado na 2ª GM: não importava o povo, o imperador e os militares só pensavam nas consequências políticas da guerra. Os Estados Unidos querem derrotar economicamente o inimigo russo e prejudicar a potência econômica China, obrigando a Rússia a colocar seus recursos na guerra em detrimento das necessidades de seu povo. 

PAZ? Nem o imperador japonês queria em 1945, nem os Estados Unidos querem hoje. Os EUA irão alongar a guerra para ver se o povo russo depõe o governo Putin. E o povo ucraniano? Vocês acham que o império norte-americano liga pra eles? As indústrias de armas estão vendendo como nunca...

O lastro da moeda norte-americana é a bomba, as armas, a ameaça de morte a quem não se submete.

Enfim, vamos para o próximo volume do mangá, serão 10 volumes e mais de duas mil páginas.

William


Post Scriptum: para ler os comentários sobre o 2º volume é só clicar aqui. O texto seguinte, volume 4, pode ser lido aqui.


terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Leitura: Gen Pés Descalços (2) - Keiji Nakazawa



Refeição Cultural

Gen Pés Descalços - O trigo é pisoteado 

Volume 2


A leitura do volume 2 do mangá Gen Pés Descalços - O trigo é pisoteado é uma leitura dura, difícil, que gera muito sofrimento e reflexão no leitor. No entanto, minha leitura foi mais fácil. Diferente do 1º volume, que levei muito tempo pra ler e reler, este li em dois dias.

No 1º volume do clássico (ler aqui um comentário), conhecemos a família Nakaoka, na qual Gen nasceu, uma família pacifista e contrária à guerra. Essa postura ética e ideológica traz consequências sérias à família porque o governo tem uma máquina de propaganda implacável em defesa da guerra e a família é tratada por todos ao redor como antipatriotas, como traidores, como covardes.

O cenário da história é Hiroshima, cenário no qual conhecemos o dia a dia da família Nakaoka e do povo japonês entre meados de abril e o dia da destruição total através da bomba atômica detonada sobre a cidade no dia 6 de agosto de 1945. O governo japonês faz parte do Eixo e o cenário da história é o final da 2ª Guerra Mundial, já vencida àquela altura pelos Aliados.

O primeiro volume termina com a detonação da bomba e o segundo começa com a consequência da explosão e destruição de Hiroshima.

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Raro momento sem fome, mas isso dura pouco.

AUTOR DESCREVE UM MUNDO RUIM E DE GENTE RUIM

O que se percebe no 1º e no 2º volume de Gen Pés Descalços é a descrição de um mundo ruim, independente do ângulo em que se observa aquele cenário. Talvez a escolha do autor seja pela sua vivência pessoal, haja vista que Keiji Nakazawa é uma vítima real da guerra e da bomba de Hiroshima. Ele tinha 6 anos quando a cidade foi destruída e sobreviveu juntamente com sua mãe.

Neste volume, o foco muda da guerra em andamento para a sobrevivência na cidade de Hiroshima após a explosão da bomba atômica. Os desenhos entre o final do volume 1 e este são muito fortes, pessoas sobreviventes com as peles derretidas, muita sede, cadáveres das mais diversas formas, espalhados por terra e rios. Se já havia fome antes, muita fome, agora temos a fome e as consequências da bomba.

É notória a falta de solidariedade entre as pessoas. Que chocante! A minha geração pelo menos não tratava essa falta de solidariedade de forma tão natural como se vê ali. Ao se pedir uma porção pequena de arroz, a negativa é "te vira" porque a pessoa quer cuidar de si e dane-se os outros. Cresci no Brasil do último meio século sendo aculturado em ambientes pobres nos quais uns ajudam aos outros, principalmente nas comunidades mais carentes, favelas etc. No cenário de Nakazawa isso não existe, cada um por si e tudo pelo imperador e pelo Japão.

Tenho que dar o devido crédito ao autor, afinal de contas ele deve ter seus motivos para retratar um país e um contexto tão duro, autoritário e individualista como vemos no mangá. 

Considerando a metáfora da história, o trigo verde foi pisoteado e agora veremos como Gen irá sobreviver e se comportar no próximo volume da História em Quadrinhos. O sofrimento e humilhação que ele e a mãe passaram são indescritíveis! Aperta o peito da gente!

É isso! Novas culturas, velhos problemas humanos retratados nas diversas formas culturais.

William


Post Scriptum: para ler os comentários sobre a leitura do volume 1, clique aqui. O texto seguinte, do volume 3, pode ser lido aqui.


domingo, 15 de janeiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba IV (15/01/23)


Trótski, capa interna do livro de Padura.

Refeição Cultural - Cuba (IV)

Osasco, 15 de janeiro de 2023. Manhã ensolarada. Li com a pálpebra pesada pela sonolência de uma noite mal dormida.


Defini que nestes primeiros meses do ano irei ler e estudar um pouco a respeito da história de Cuba, de seu povo e de figuras destacadas da ilha caribenha ao longo do tempo. Hoje já sei alguma coisa a mais do que sabia ontem sobre esse país fantástico, sobre seu povo aguerrido que resiste ao embargo imperialista de décadas, povo que persegue os objetivos históricos de construir uma sociedade mais justa e igualitária.

Optei por começar a leitura de um livro que já é considerado um clássico da literatura, apesar de ser um romance contemporâneo, lançado em 2009 pelo escritor cubano Leonardo Padura. O livro O homem que amava os cachorros é um livro que mescla história com ficção, e temos no enredo a lendária figura de um dos líderes da Revolução de Outubro, Trótski. É um livrão, denso, de leitura lenta. Levarei semanas na leitura.

Também decidi ler José Martí, figura histórica e muito importante na história de Cuba, na história de Nuestra América e na história da intelectualidade porque ele é escritor, ensaísta, poeta, político, diplomata e um dos líderes da independência da ilha caribenha em relação à Espanha no final do século XIX. Adquiri uma obra comemorativa organizada pela Real Academia Espanhola (RAE) e demais academias da Língua Espanhola (ASALE). Se trata do livro Martí en su universo. Una antología (2021). Já li os ensaios que abrem o livro e agora vou começar a leitura de seus textos. É leitura pra muito tempo também.

Estou pra receber um terceiro livro com a temática relativa a Cuba. Se trata do livro reportagem de nosso querido escritor Fernando Morais - A ilha (1976). Assim que chegar eu começo a leitura também. Dessa maneira, vou alternando diferentes visões a respeito de Cuba e de sua história, visões de hoje e do passado.

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AOS HUMANOS O QUE SÃO DOS HUMANOS: OS SENTIMENTOS DIVERSOS, AS CONTRADIÇÕES, ESPERANÇAS E DESESPERANÇAS, UTOPIAS E DECEPÇÕES

Cenário 1 - No romance que estou lendo - li os capítulos 6 e 7 -, o personagem Liev Davidovitch vive dramas pessoais como quaisquer dos mortais humanos. Para a história das sociedades humanas dos séculos XX e XXI, Trótski foi uma figura lendária, foi um dos artífices de uma das maiores revoluções da história humana. Um pensador, articulador, organizador das massas. Em um momento, estava numa condição de liderança e condução da revolução. Noutro momento, estava exilado, expurgado, perseguido. Era mantido vivo para ser a justificativa de seu perseguidor em aprofundar o expurgo e a repressão contra ideias dissonantes do regime socialista: o ex-líder seria uma espécie de "contrarrevolucionário". Liev Davidovitch viu sua família se dividir, filhos e filhas e netos sofrerem as consequências de sua vida política. Esse homem sofreu as dores e alegrias de conciliar sua vida com a vida de seu personagem na história.

Cenário 2 - Após uma noite mal dormida, preocupado com o filho que não voltou pra casa, vejo pela manhã diversas mensagens e tentativas de ligações de minha mãe informando a piora do estado de saúde do irmão, nosso tio. Nesse meio tempo, o filho chega e vai dormir. A manhã se consome entre decidir viajar ou não para a cidade onde está o familiar adoecido e de que forma. Meu papel é mais ou menos o de tentar ajudar a família da forma mais adequada. As tratativas do que fazer são tensas porque a cada dia está mais difícil lidar com os seres humanos, além da dificuldade das dores e tristezas que deixam a todos sem saber o que fazer, temos a intolerância que nos dominou como animais humanos. As casas brasileiras nas quais não são as mulheres que suportam e sustentam tudo - nestas, os ambientes são mais tolerantes e acolhedores -, é comum haver machos alfa cheios de intolerância e de comportamento opressor. É o caso da casa de meus pais. A família está toda distante uns dos outros, centenas de quilômetros (distância física e psicológica). Decidir se alguns viajam, quem, quando é um quebra-cabeça. Nenhum humano escapa dessas horas na vida.

Cenário X - Para cada ser humano tem-se um cenário de situações complexas, contraditórias, difíceis de se resolver. Esteja a pessoa bem-posicionada na escala social, esteja na pior das condições sociais, o viver é uma complexidade sem tamanho. O presidente Lula viveu um dos momentos inesquecíveis de sua vida no domingo 1º de janeiro, dia de sua posse do mandato popular e com a população no comando, inclusive na transmissão da faixa presidencial. No domingo seguinte, o homem e o político sentiram uma dor inenarrável, pois é difícil imaginarmos o que sentiu Lula ao ver toda aquela destruição dos símbolos dos poderes da república e saber que aquilo contou com a organização e conivência de certas autoridades do Estado nacional que deveriam proteger aquelas instituições. 

E assim é a vida para cada ser humano, liderança política ou pessoa simples do povo, rico ou pobre. Um bilionário pode se achar grande coisa e num instante sofrer uma tragédia pessoal indescritível. Às vezes, nem o dinheiro, essa criação humana, tira a sensação de impotência e miséria dos seres humanos.

Citei esses cenários comuns dos contextos humanos porque a vida me parece ser exatamente isso o tempo todo - oportunidades de acontecimentos bons e situações difíceis a todo momento do viver - e desde que nós homo sapiens passamos a existir e observar e tentar racionalizar a vida e o ambiente onde vivemos lidamos com os antagonismos, as contradições, as alterações de bons e maus momentos e situações.

PRA FINALIZAR O REGISTRO DO INSTANTE

Eu, por exemplo, tento racionalizar o viver. Compreendo bem melhor a existência hoje do que ontem. Neste instante, já não tenho tantas perguntas sem respostas como tive por décadas. Não acharia que isso fosse possível se me colocasse no meu lugar tempos atrás.

Apesar de não concordar com um monte de coisas e não aceitar as coisas como elas são, tenho uma compreensão melhor do porquê as coisas são como são. A busca de sabedoria no existir do ser humano é seguir tentando identificar o que é passível de mudança e o que não é...

É isso! Sigo estudando, observando, quando possível interferindo nas coisas.

Sigo lendo sobre Cuba e os cubanos. A postagem anterior está aqui. Ao final das leituras saberei um pouco mais do que sei hoje.

William (revisão final do texto às 15h23)


sexta-feira, 29 de julho de 2022

O bolsonarismo que existe em nós


Refeição Cultural (indigesta)

Outro dia, a jornalista Dhayane Santos (TV 247) perguntava ao professor Pedro Serrano qual a explicação que ele teria para ainda hoje um terço do povo brasileiro ser apoiador e se ver representado pelo ser mais repugnante que já chegou a um cargo eletivo no Brasil. Dhayane fez referência a um artigo recente de Serrano na revista CartaCapital sobre o circuito afetivo no autoritarismo...

Serrano começa a responder assim: "Política é afeto, afeto não é emoção..." e depois diz que "afeto não é divorciado da razão, razão e afetividade atuam juntas, uma interfere na outra..." 

Na sequência da explicação, Serrano vai abordar a questão da tirania sob a ótica de Étienne de la Boétie, um filósofo do iluminismo que fez uma obra clássica abordando os motivos pelos quais as pessoas se submetiam à tirania. 

Uma das respostas de Boétie e que Serrano faz uma analogia com o Brasil e os apoiadores do tirano daqui é que as pessoas o apoiam para poderem exercer suas pequenas tiranias.

"As pessoas apoiam os tiranos para poderem ser pequenos tiranos em seu cotidiano", diz Pedro Serrano pensando sobre os bolsonaristas. Então, os homens brancos da elite, por exemplo, se sentiriam ressentidos de não poderem mais bater nas mulheres, estuprarem as mulheres, privilégios dos homens que constavam no código de direito civil de 1916...

É uma verdadeira aula que o ouvinte teve com o professor Serrano.

Ou seja, aquele sujeito representa os valores dos homens brancos das casas-grandes e dos colonizadores, essa gente que barbarizou por aqui nos últimos séculos. Os valores dessa gente que via mulheres e filhos como propriedade, escravos como animais de carga e objetos de prazer e sarro, a coisa pública como extensão de suas propriedades privadas, a igreja como sua subalterna no domínio local etc.

Isso tem muito sentido. Esse homem que representa o mal em sua forma mais básica representa também toda essa gente que não gostou de se ver contestada, freada em seus impulsos mais primitivos e repulsivos como o estupro, o assassinato, a violência, a opressão por poder oprimir. 

Talvez esse sujeito na presidência dessa terra opressora chamada Brasil, sujeito que virou uma palavra da língua portuguesa, um qualitativo pejorativo de pessoas e comportamentos, talvez ele represente um pouco do que existe dentro de cada um de nós.

José Saramago, no Ensaio sobre a cegueira, disse num momento duríssimo do romance que "Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos". Não paro de pensar nisso quando olho e vejo o que somos algumas vezes...

Mas por que então parcelas de mulheres, pretos e pobres, gays e oprimidos em geral também apoiam esse ser opressor e demoníaco? Porque todo oprimido também tem o seu espaço de opressor dentro da família, do trabalho etc. Deter a opressão significa também coibir os pequenos opressores nos cotidianos de nossa vida em sociedade.

Eu achei a explicação de uma coerência nunca imaginada por mim. Essa gente que se identifica com o criminoso no poder tem um sentimento afetivo com ele. De certa forma, elas sabem que com ele no poder e dando a linha das normas na sociedade na qual vivemos, elas têm a liberdade de seguirem fazendo as suas pequenas barbaridades diárias, nos seus espaços de opressão.

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E o bolsonarismo que existe em nós?

Após essa aula de Serrano ressoando sem parar em meu cérebro como as badaladas de um sino gigante me peguei nervoso e falando alto em casa... após um momento de decepção e de intolerância com um evento cotidiano, lá estava eu gritando em casa... Que merda! Fiquei tão arrasado, tão decepcionado comigo mesmo que não sabia onde enfiar a cabeça... 

Dessa decepção comigo mesmo, fiquei um tempão relembrando meu passado e minha vida ao longo de décadas. Aquelas palavras de Serrano ressoando na cabeça... os pequenos tiranos...

Fiquei pensando em mim e nos homens de minha família, nos homens intolerantes das gerações de meu pequeno mundo miserável em todos os sentidos, no início miserável por falta de quase tudo, depois miserável pelo que fomos ou somos nos momentos das pequenas tiranias cotidianas...

Qual diferença haveria entre mim e entre nós que nos apresentamos como pessoas contrárias ao que representa o bolsonarismo e os chamados bolsonaristas raízes, que nada mais seriam que pessoas que pertencem a esse circuito de afetos que une o que eles são e o que o sujeito no poder representa?

Como extirpar esse bolsonarismo que talvez exista dentro de cada um de nós, de alguns de nós, nascidos, criados e aculturados nessa terra com o passado bárbaro que tem?

Percebi que não tenho a resposta...

William


quinta-feira, 19 de maio de 2022

"Já pensou se cercam e botam fogo?"

Em 2014, neonazistas da Ucrânia perseguiram
e carbonizaram sindicalistas e esquerdistas.
Créditos: Revista Fórum (rep. de redes sociais)


E pensar que eu estive por tanto tempo em mesas de negociações com gente que pensa em cercar e queimar pessoas...

No dia 2 de maio de 2014, grupos de neonazistas ucranianos cercaram sindicalistas, comunistas e pessoas que defendem um mundo mais justo e solidário, que defendem direitos trabalhistas, previdenciários, direitos em saúde pública, direitos humanos e demais pautas das causas dos grupos de esquerda e progressistas. Os neonazistas cercaram os sindicalistas e botaram fogo na Casa dos Sindicatos em Odessa, Ucrânia.

Foi terrível! 39 pessoas morreram carbonizadas. Jovens, mulheres, crianças, adultos... seres humanos com visões de um mundo mais justo e solidário, um mundo com direitos sociais, civis e políticos como defendem os sindicatos e partidos de esquerda.

Algumas pessoas que tentaram fugir do incêndio se jogando ou saindo pelas portas eram espancadas com porretes, correntes e outras armas para se exterminar sindicalistas e esquerdistas. Foi um dia de muita vergonha para a humanidade. Foi um dia de glória para aquelas pessoas que pregam o ódio, a intolerância, o extermínio de quem pensa diferente.

Aí eu entro em uma rede social e vejo por acaso uma postagem de um colega da comunidade Banco do Brasil fazendo uma espécie de piada ou ironia sobre não ter sido convidado para o casamento do presidente Lula e Janja no dia de ontem. A postagem é equivocada na minha opinião porque confunde pagamento de impostos com a questão privada do casamento do cidadão Lula. Mas é uma postagem normal, dentro das regras da democracia e da livre opinião.

No entanto, o primeiro comentário que vejo na postagem do colega é de uma personalidade conhecida na comunidade Banco do Brasil, uma pessoa com funções públicas porque ocupa cargo de presidência em entidades associativas de nossa comunidade de trabalhadores do Banco do Brasil. A pessoa teve a coragem de escrever:

"Já pensou se cercam e botam fogo?"

É demais pra mim! É demais!

Que gente é essa? Que gente é essa com as quais convivi por tanto tempo em mesas de negociações lutando por direitos trabalhistas, de saúde e previdenciários? Direitos de colegas da comunidade que só existem porque existe um banco público e funcionários da ativa e aposentados desse banco público. Direitos de previdência complementar que milhares de nós da comunidade usufruem e têm direito neste momento porque sempre houve lutas sindicais, de esquerda! Que gente odiosa é essa?

Que gente odiosa é essa que sonha em cercar e queimar pessoas como eu e diversos companheiros e companheiras que lutamos pelos direitos trabalhistas, de saúde e previdenciários de toda uma coletividade? Que gente doente é essa?

Cara, é por coisas como essa que estou cansando do mundo, da vida, da existência. Uma senhora que teria tudo para defender a solidariedade de classe, os direitos de todas as pessoas porque ela é representante de trabalhadores de ontem e de hoje - ela tem benefício de previdência complementar por causa de nossas lutas coletivas - e ela sonha repetir aqui com o presidente Lula e com uma centena de convidados o que os neonazistas da Ucrânia fizeram com sindicalistas ao cercar e queimar dezenas de lutadores por um mundo melhor.

Que mundo é esse? Que gente é essa?

William


Post Scriptum: é um print triste de se guardar... de novo, eu não me conformo em ver gente com quem estive tanto tempo lutando por direitos coletivos defendendo cercar e queimar pessoas como o Lula, eu e meus colegas de luta.

E só pra registrar no meu espaço de opinião: ladrão e corrupto é quem acusa Lula de ladrão porque este cidadão é investigado há quase 50 anos e se está livre e com seus direitos políticos é porque nunca acharam uma agulha roubada por Lula. Já quem chama ele de ladrão... com certeza já pagou propina pra alguém, já burlou o imposto de renda, já fez das suas corrupções, mas é gente hipócrita! É o que mais se tem nesta terra bárbara!


quarta-feira, 20 de abril de 2022

Artigo de jan/2020: Extremismo de Bolsonaro possibilita manifestações nazistas, diz Pedro Serrano

Apresentação do blog: 

No início de 2020, li um artigo do professor Pedro Serrano, publicado na Rede Brasil Atual, que abordava conceitos muito importantes a respeito de manifestações nazistas no governo Bolsonaro (o caso em questão à época era o do secretário da cultura Alvim e a encenação ridícula no estilo Goebbels).

Pedro Serrano explica também as diferenças entre pessoas ou regimes conservadores ou reacionários, e explica que Bolsonaro é reacionário; fala também que não há que se comparar nazismo/fascismo e comunismo. 

É muito bom vermos lá atrás, dois anos antes, uma pessoa com tanto saber notório apontar o quanto a imprensa brasileira passa pano para Bolsonaro desde sempre, como denuncia Serrano. Isso não mudou nada neste ano eleitoral de 2022: se em 2018 era "uma escolha difícil" entre um professor da USP e um miliciano corrupto, os grandes veículos de comunicação seguem normalizando o regime Bolsonaro. Isso é notório para qualquer pessoa que entenda minimamente de jornalismo e comunicação.

Se nos atentarmos aos ensinamentos de Serrano, veremos que se houvessem instituições funcionando de verdade no país após o golpe de Estado em 2016, casos como o do youtuber Monark e do deputado entrevistado por ele em fev/2022, quando eles defenderam o nazismo e a possibilidade de haver um partido nazista no Brasil não ficariam impunes. O youtuber já está de volta em outro canal e a vida segue normalmente para ele... O vereador carioca Gabriel Monteiro, suspeito de crimes como estupro nunca é citado como sendo uma pessoa próxima ao clã miliciano no poder... e assim a imprensa vai passando o pano para Bolsonaro e o que ele representa.

Enfim, a matéria de Eduardo Maretti (RBA) vale a pena para ler, reler e aprender com o professor Pedro Serrano. Utilizo o blog para guardar textos memoráveis porque depois de um tempo não encontramos mais o texto na internet (error...).

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Na opinião de Serrano, o partido nazista e o movimento
neonazista não são comparáveis ao comunismo.


Extremismo de Bolsonaro possibilita manifestações nazistas, diz Pedro Serrano

“Há na mídia brasileira uma insustentável posição de não caracterizar Bolsonaro como extremista de direita", diz jurista, especialista em Direito Constitucional


Por Eduardo Maretti, da RBA - Publicado em 17/1/20 - 20h04

São Paulo – “Defender o nazismo é ilícito não porque defendê-lo é extremista, como muito se fala. O nazismo é rejeitado por ter como pressuposto o cometimento de um crime de lesa-humanidade, o genocídio racista, a defesa do genocídio racista como um instrumento de melhoria genética da humanidade.” A opinião é do jurista Pedro Serrano, ao comentar o vídeo que motivou a demissão do agora ex-secretário de Cultura do governo Jair Bolsonaro, Roberto Alvim.

Alvim caiu após utilizar trechos de um discurso do ministro da Propaganda de Adolph Hitler, Joseph Goebbels, em um vídeo para divulgar um programa de governo. O ex-secretário teria sido exonerado após o governo Bolsonaro ter sido pressionado pelo embaixador de Israel no Brasil, Yossi Shelley, segundo a colunista Mônica Bergamo. De acordo com a jornalista, o presidente da República convidou a atriz Regina Duarte para o cargo.

Na opinião de Serrano, a conduta do governo foi positiva ao demitir o auxiliar. “Mas isso não transforma o governo Bolsonaro num governo democrático. Ao contrário, é o extremismo do governo que possibilita o surgimento desse tipo de manifestação.” A intenção óbvia do Palácio do Planalto foi se isentar de ser chamado de nazista.

Porém, se o extremismo do presidente da República é reconhecido mundialmente, por setores da imprensa internacional da esquerda à direita, no Brasil as práticas e o discurso de Bolsonaro são tolerados e até naturalizados. “Há na mídia brasileira uma insustentável posição de não caracterizar Bolsonaro como extremista de direita. Só a mídia brasileira tem essa postura. Nenhuma outra mídia do mundo democrático ocidental tem essa postura”, diz Serrano.

“Ele é descrito como de extrema-direita em publicações desde liberais de direita, como The Economist e Le Figaro, até obviamente a esquerda. Até a extrema-direita francesa alcunha Bolsonaro de extrema-direita. É só a mídia brasileira que o tem preservado dessa alcunha. Mas ele é um homem de extrema-direita.”

Bolsonaro não é conservador, é reacionário, diz Serrano. “E quem apoia Bolsonaro também não é conservador. Está apoiando um governo reacionário.” Para o jurista, é preciso separar conceitos. “O conservador deseja a conservação do status quo como regra geral, com pequenas reformas. Um conservador no Brasil tem que defender o Estado de direito e a Constituição.”

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As pretensões do reacionário têm semelhança formal com o revolucionário – avalia o jurista –, embora sejam coisas diferentes: o revolucionário pretende uma alteração do modelo de vida social para instaurar o novo, enquanto o reacionário pretende mudar a forma de vida “para trazer um passado idílico, fantasiado, que ele tem. Há um forte traço romântico no reacionarismo: portanto, o que ele pretende é uma alteração disruptiva da realidade. Tão disruptiva quanto o revolucionário, mas em sentido totalmente contrário.”

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Especialista em Direito Constitucional, Serrano observa que, “equivocadamente”, muita gente tem confundido o nazismo como um fenômeno semelhante ao do comunismo. Há, nesse sentido, um projeto de lei na Câmara dos Deputados, não por coincidência do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que propõe transformar em crime a apologia não só do nazismo, como também do comunismo.

“Não dá para confundir, porque se tirar o PCdoB do jogo político, por exemplo, já não tem mais democracia no Brasil”, afirma Serrano. “Nazismo e comunismo são totalmente diferentes no plano jurídico.” Em sua opinião, podem-se fazer críticas ao comunismo, ao autoritarismo do regime “de linhagem soviética”. “O comunismo pode defender certas ideias autoritárias, mas não tem como pressuposto o cometimento de um crime de lesa-humanidade, que é o genocídio racista que o nazismo e o fascismo pregam.”

O partido nazista e o movimento neonazista não são comparáveis ao comunismo. “A comparação pode ser feita com um movimento sueco que defende a pedofilia, por exemplo, com movimentos que defendem a institucionalização de algum crime.”

Punição?

O deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP) anunciou que apresentaria ao Ministério Público Federal um pedido de prisão do ex-secretário de Cultura. Ele argumenta que, por apologia ao nazismo, Alvim cometeu crime, segundo a Lei 7.716/89. Por sua vez, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, lembrou, em entrevista à BBC, que, na Alemanha, Alvim seria preso.

A lei brasileira prevê que é crime “fabricar, comercializar, distribuir ou veicular, símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo”. A pena prevista é de reclusão de dois a cinco anos e multa.

Para Serrano, o ato de Alvim ofende o “espírito” da Constituição, já que desrespeita valores morais próprios da democracia constitucional do pós-guerra. “Aquilo a que (Luigi) Ferrajoli dá o nome de semente antinazifascista. O espírito da expressão ‘moralidade’ na Constituição de 1988 é uma semente antinazista e antifascista.”

Porém, para Serrano, se Alvim inegavelmente incorreu em improbidade, seu ato pode não caracterizar crime, dependendo da interpretação. Isso porque, para alguns, basta haver a apologia ao nazismo para se configurar crime. De acordo com outra interpretação da lei brasileira, o enquadramento penal se configura apenas quando se usam símbolos (como a cruz gamada ou suástica), o que Alvim não fez.

“Mas, se pode haver dúvida no campo penal, no campo da improbidade administrativa não há. Mesmo tendo saído do cargo, ele está sujeito a sanções. O Ministério Público tem que processá-lo. Ele tem que repor o dinheiro da produção do vídeo, que é ilícito. Está sujeito a multas e pode ser punido com a perda de direitos políticos e impedido de ser candidato”, interpreta Pedro Serrano.

Fonte: RBA


quarta-feira, 6 de abril de 2022

060422 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 6 de abril de 2022. Quarta-feira. 19h19.


Escrevo com regularidade há mais ou menos duas décadas, antes em diários e depois em blogs e nas produções textuais do movimento sindical bancário. Neste momento não sinto mais vontade de escrever, não vejo mais sentido nisso. Não sei ainda o que vou fazer a respeito disso. Desacorçoei, perdi a confiança na humanidade. Ainda acredito na educação e na formação, mas elas estão vetadas, inviabilizadas neste momento da história humana.

PANDEMIA MUNDIAL

Convive-se com a pandemia mundial de Covid-19 como se ela não existisse mais. Os dados científicos demonstram o contrário. Nos últimos 28 dias se contaminaram com o vírus 44 milhões de pessoas no mundo, tendo falecido 148.736 pessoas (já morreram 6,16 milhões de pessoas). Nos Estados Unidos morreram 19.910 pessoas nesse período. Na Rússia 12.400 mortos; Na Coréia do Sul 8.593 e no Brasil 7.652 mortos. (Fonte: Johns Hopkins University)

Os políticos "acabaram" com a pandemia na canetada. Agora, somos obrigados a entrar em locais fechados como elevadores e estabelecimentos comerciais lotados de gente sem máscara. Que foda! Estamos por conta da sorte e da precaução quando possível. Vale lembrar que as pessoas vacinadas não estão imunes ao vírus, estão com anticorpos para atenuar os efeitos mortais do vírus, mas podem ter sequelas graves, mesmo sendo assintomáticas.

GUERRAS E FIM DAS INSTITUIÇÕES NACIONAIS E MULTILATERAIS

A guerra na Ucrânia entre os Estados Unidos e a Rússia já dura algumas semanas. É difícil dizer algo a respeito da guerra porque a sociedade mundial está perdendo todas as referências que embasavam a vida humana por causa das ferramentas de desinformação em massa. Já que as instituições e os acordos internacionais não são mais respeitados, por exemplo, a ONU e o Conselho de segurança, como as pessoas podem confiar em algum tipo de informação sobre uma guerra como essa? Os Estados Unidos, a Otan, a Rússia, aquele palhaço do presidente da Ucrânia... difícil crer em qualquer informação.

Fake news e pós-verdade - Quando os conhecimentos históricos e científicos não são mais a referência sobre qualquer coisa e o negacionismo e o achismo pessoal se impõem como pós-verdade, a vivência em sociedade se torna algo meio que irrespirável, sem sentido. As vacinas são questionadas, a astronomia e a geografia idem, a ciência, a história... enfim, qual a referência para a convivência em sociedade?

As democracias liberais inventadas pelos Estados burgueses acabaram. Acabaram. O uso da força e da violência voltou a ser a forma definidora do estabelecimento do poder político. Eu não acredito nem um minuto na possibilidade de termos no Brasil neste ano um processo eleitoral sem violência, golpe, ações fascistas e milicianas e mortes e caos. E nós que somos a grande maioria da população que não concorda e não apoia os fascistas e a extrema direita não estamos armados como eles. Vai ser foda. 

O mundo no qual voltamos a viver é um mundo antes da política, é o mundo da violência explícita e de imposição de poder. Os bolsonaristas e militares e milicianos não vão entregar o poder sem violência. Não vão! Os caras ameaçam até o presidente Lula com arma em vídeos e nada acontece porque as instituições NÃO estão funcionando desde o golpe de 2016! Porra, qualquer anta deveria saber disso!

Chega de registro do que penso para o momento. Estou de muito saco cheio, cheio dos seres humanos, cheio de redes sociais, saco cheio de algoritmos e mentiras, de hipocrisia, cheio de ver os abusos do regime miliciano no poder, cheio de perceber que as instituições do Estado já foram dominadas pelo crime organizado e parceiro da casa-grande e a esquerda e os democratas podem ser vítimas severas do que vem por aí.

Saco!

William (20h26)


terça-feira, 21 de setembro de 2021

A eleição de Bolsonaro foi o nosso 11/9



Refeição Cultural

Segunda-feira, 20 de setembro. 3º ano do impacto.


Estava terminando a leitura da noite quando vi algo na televisão que me fez pensar a respeito de meus sentimentos em relação ao Brasil e ao povo brasileiro neste momento da história. Pela manhã, já havia escrito a respeito de minha desilusão com o país e com os seres humanos.

Um entrevistado no Roda Viva lembrava que em 2018 o povo brasileiro votou em Bolsonaro por ele ser o Bolsonaro. Cara, é isso mesmo! Esse lixo humano foi eleito por ser o que é. Meu padrinho e toda a sua família votou nele. A maior parte das pessoas com quem convivi por décadas na família votou nele por ele ser o que é (deixar ele ser eleito se abstendo foi a mesma coisa naquele fatídico dia do 2º turno, a tal "escolha difícil"). Pessoas que conheço no condomínio onde vivo há duas décadas votaram nele. As pessoas não foram enganadas. Elas votaram no que Bolsonaro disse e pensa e defende, no que ele é.

No início do século 21, o mundo assistiu ao atentado às torres gêmeas do World Trade Center naquela manhã de 11/9 de 2001. Aviões comerciais com dezenas de passageiros foram sequestrados e arremessados contra as torres que simbolizavam o falo do capitalismo norte-americano, o espírito americano do homem branco macho alfa armado até os dentes, senhor de escravos e dominador dos povos do Sul e do Oriente. Aquele ataque ao império romano do século 21 deve ter sido, entre outras coisas da política, o acúmulo de muito ódio dos povos do Oriente em relação ao mundo ocidental. Aquelas cenas de fumaça sobre Nova Iorque mudaram o mundo. O mundo ficou pior com a desculpa dada aos Estados Unidos para implementar sua "Guerra ao Terror".

A eleição de Bolsonaro naquele dia 28 de outubro de 2018 foi o nosso 11/9. O Brasil nunca mais seria o mesmo. As relações sociais nunca mais seriam as mesmas. O povo brasileiro havia eleito o que Bolsonaro significava, o que havia sido a vida inteira na política, na vida pública e na vida privada. Bolsonaro nunca escondeu o que defende, o que pensa, o que propõe, o que fez em três décadas de vida pública (uma das consequências de sua vida de político foi ficar muito rico, ele e toda sua família).

Alguns temas inerentes à sociedade humana ao longo da história do mundo são recorrentes no entorno dessa figura, desse ser humano escolhido pelo povo brasileiro como líder de uma nação: tortura, violência, assassinato, corrupção, privilégio, ignorância, manipulação, machismo, racismo, cinismo, maldade, incompetência, estupro, ódio. 

A história não se repete. Assim como o 11/9 não foi nada parecido com eventos históricos na sociedade humana, nem sequer foi o Pearl Harbor dos norte-americanos, a eleição desse ser pelo povo brasileiro não reproduz o nazismo de Hitler, nem o fascismo de Mussolini, Franco, Salazar entre outros. A eleição de Bolsonaro muda nossa história, assim como a existência daqueles citados mudou a história dos países deles e do mundo. Mas essa aberração é só nossa, de mais ninguém (apesar das consequências globais da destruição física do Brasil).

O difícil é entender o que se passou aqui com o povo. O que ainda se passa com essa massa humana de mais de duzentos milhões de homo sapiens que já permitiram a permanência de Bolsonaro por todo esse tempo. O difícil é entender!

O Brasil nunca mais será o mesmo. A eleição de Bolsonaro foi o nosso 11/9.

William


segunda-feira, 14 de junho de 2021

31. Romeu e Julieta - William Shakespeare



Refeição Cultural - Cem clássicos

"Ama - Seu nome é Romeu, e é um Montéquio: filho único de seu grande inimigo.
Julieta - Meu único amor, nascido de meu único ódio! Cedo demais o vi, ignorando-lhe o nome, e tarde demais fiquei sabendo quem é. Monstruoso para mim é o nascedouro desse amor, que me faz amar tão odiado inimigo.
" (p. 43)


Eu havia lido Romeu e Julieta em 2005. Fiquei impactado pela obra na época. Antes dessa tragédia shakespeariana, já tinha lido Hamlet e Otelo, o mouro de Veneza. E depois ainda li Macbeth. Reli a história dos jovens Montéquio e Capuleto neste domingo. Meu sentimento em relação à obra neste momento de leitura foi de tristeza.

Eu poderia dizer que Romeu e Julieta não se trata de uma trama de amor, se trata de uma estória de ódio, de como o ódio domina e destrói tudo ao redor. É uma tragédia triste demais, mas é uma temática por demais atual, haja vista que a base da destruição das relações humanas no Brasil e dos direitos sociais após o golpe de 2016 é a manipulação das pessoas através do estímulo ao ódio e daí se vai às demais consequências após as pessoas terem se transformado em bichos-feras, em zumbis sem capacidade de pensamento e racionalidade.

A tragédia começa e termina com pessoas brigando e se matando porque são da parte dos Montéquio ou dos Capuleto. Até os deuses estão de saco cheio de tanto ódio de parte a parte e decidem dar uma lição nas famílias destacando o "destino" para colocar um ponto final nas desavenças na cidade com perdas terríveis para todos: as duas famílias e até a família do rei.

"Julieta - É só teu nome que é meu inimigo. Mas tu és tu mesmo, não um Montéquio. E o que é um Montéquio? Não é mão, nem pé, nem braço, nem rosto, nem qualquer outra parte de um homem. Ah, se fosses algum outro nome! O que significa um nome? Aquilo a que chamamos rosa, com qualquer outro nome teria o mesmo e doce perfume. E Romeu também, mesmo que não se chamasse Romeu, ainda assim teria a mesma amada perfeição que lhe é própria, sem esse título. Romeu, livra-te de teu nome; em troca dele, que não é parte de ti, toma-me inteira para ti." (p. 48)

Muito boa essa reflexão da personagem Julieta.

Eu me lembrei do magnífico texto de Rubem Alves sobre o nome (ler aqui). Nós usávamos esse texto nos cursos de formação que fazíamos na confederação dos bancários. Os nomes às vezes podem nos aprisionar ou podem servir para gerar falsas expectativas nos outros, ou ainda, podem nos fechar portas e oportunidades, como no caso do ódio entre os Montéquio e os Capuleto.


EXÍLIO

"Romeu - Exílio! Por misericórdia, diga morte, pois o banimento carrega muito mais terror em seu olhar do que a morte. Não diga exílio.
Frei Lourenço - Desde agora está banido de Verona. Sê paciente, pois o mundo é vasto, é amplo.
Romeu - Não há mundo fora dos muros de Verona, mas sim o purgatório, a tortura, o próprio inferno. Ser daqui banido é o mesmo que ser banido do mundo, e exílio do mundo é a morte. Estar exilado é mero eufemismo para estar morto. Quando o senhor chama a morte de exílio, está decapitando-me com machado de ouro, e o senhor carrega um sorriso no rosto quando o seu golpe me assassina.
" (p. 87)


Uma questão muito em voga por causa da tomada do país pela banalidade do mal após o golpe de Estado e a ascensão da máfia e das milícias ao poder e a desilusão que tem pautado a vida e a morte do povo brasileiro é o exílio, o ir-se daqui. Mesmo estando no século XXI das facilidades tecnológicas do mundo virtual, exílio não é qualquer coisa simples.

Eu particularmente acho algo muito complicado essa questão de exílio, de ir embora daqui, sair do Brasil. Além de não me ver morando em outro país, tem a questão de encarar a tristeza da destruição de nosso mundo por parte do bolsonarismo como algo irreversível. Essa gente pestilenta que chegou ao poder e dominou as instituições do país deve ser retirada de lá e jogada no lixo da história. Temos que recuperar o que é nosso e não podemos desistir do Brasil.


NINGUÉM SENTE A DOR DO OUTRO

"Romeu - O senhor não pode falar daquilo que não sente. Fosse jovem como eu, fosse Julieta o seu amor, estivesse o senhor recém-casado e Teobaldo morto, o senhor louco de paixão como eu e como eu banido, então sim, poderia falar, então sim, poderia arrancar os cabelos e deixar-se cair no chão, como faço eu agora, para ter as medidas de uma sepultura que só falta ser cavada." (p. 89)


Muitos intelectuais discutem essa questão da impossibilidade de se colocar no lugar do outro e de descrever a dor do outro. Muitas vezes é melhor dizer que a dor existe, mas não tentar explicar ou descrever o que os outros sentem.


AS MULHERES TRATADAS COMO COISAS

"Capuleto - (...) Sê minha filha, e entrego-te ao meu amigo; caso contrário, enforca-te, pede esmolas, passa fome, morre nas ruas, pois, pela minha alma, não mais te reconhecerei como minha filha, e nada do que é meu passará para teu usufruto. Pensa bem, reflete, que sou homem de palavra e não volto atrás." (p. 102)


Tem uma frase de Julieta, dita em um dos momentos mais dramáticos da tragédia, que achei muito forte, muito dura:

"Se nada funcionar, tenho a capacidade de morrer" (Julieta, p. 104)

Que foda!


O PIOR VENENO

"Romeu - Aqui está o seu ouro, o pior veneno para a alma humana, o que comete mais assassinatos neste mundo detestável - mais que esses pobres compostos que o senhor está impedido de vender. Sou eu quem estou lhe vendendo veneno; o senhor não me vendeu nenhum. Adeus. Compre comida, e acrescente carnes a esse seu esqueleto. - Venha, licor estimulante. Não és veneno. Vamos até à sepultura de Julieta, pois é lá que devo te usar." (p. 126)


O "DESTINO" DECIDIU

O frei mandou um mensageiro levar uma carta a Romeu, em Mântua, mas o mensageiro sequer conseguiu sair de Verona por causa de uma quarentena de uma peste. Com isso, Romeu veio atrás de Julieta, pois recebera a notícia de sua morte e enterro. Mas o amante não sabia das articulações entre o Frei Lourenço e Julieta e os desencontros se mostraram fatais.

"Príncipe - (...) Onde estão os inimigos? - Capuleto! - Montéquio! - Vejam que maldição recaiu sobre o ódio de vocês, que até mesmo os céus encontraram meios de matar, com amor, as vossas alegrias! E eu, por fechar meus olhos às vossas discórdias, também perdi dois de minha família. Fomos todos punidos." (p. 139)

É isso! Mais um clássico relido.

William 


Bibliografia:

SHAKESPEARE, William. Romeu e Julieta. In: Tragédias. Tradução: Beatriz Viégas-Faria. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2003.


quinta-feira, 13 de maio de 2021

À la Benjamin Button... (16)


13 de maio de 2015.

Refeição Cultural

Olhar para trás...


13 de Maio

Mais um ano no calendário do povo brasileiro. Agora ano 2021. A data 13 de Maio é uma data que consta no calendário do povo brasileiro como o dia no qual a Princesa Isabel libertou os escravos, lá no ano de 1888. Ela assinou a Lei Áurea (nº 3353). 

Pois é! Essa é a versão da história que nos ensinaram nas escolas durante essas décadas todas entre 1888 e 2021. Agora temos um presidente que se refere ao peso de pessoas negras em "arrobas". Temos um negro racista no alto comando do regime nazifascista no país da Lei Áurea.

As sociedades humanas são constituídas de narrativas assim. Todas. Somos animais homo sapiens e como tais nos constituímos nesta atual forma humana, com os nossos cérebros criando abstrações o tempo todo. Isso é o que nos ensina o neurocientista Miguel Nicolelis.

Estou enojado demais da sociedade humana à qual pertenço, de saco cheio de me encontrar nesta etapa da história humana com o predomínio das mentiras e canalhices na vida cotidiana das sociedades humanas. Sou da época que era feio mentir, era ruim mentir. Não era ético fazer isso. Fui pessoa pública e representante eleito de trabalhadores por 16 anos e jamais menti em meus mandatos. Isso era inadmissível. Hoje é prática pública e privada. Que nojo desse mundo assim! 

Não me entrego à morte na forma de desistência do viver, mas a morte é muito mais iminente para todos nós, babacas brasileiros sem vacina contra o vírus Covid-19, babacas porque ignorantes, manipuláveis, uma massa de 200 milhões de pessoas que não reage contra meia dúzia de bandidos no poder. Pelo contrário, parte apoia o estado das coisas, ou não liga, o que dá no mesmo.

- Pusilânimes! Acomodados do caralho!

Escrevo hoje, respiro a merda do vírus amanhã, morro dali a dez quinze dias. Fim de um núcleo familiar. Não muda nada. Sou átomo. Sou nada.

Achava que era legião... Só se formos legião de vaidosos revolucionários de internet e de sofás de casas classes médias. Porque achávamos que não iriam derrubar a Dilma: derrubaram e não houve reação que revertesse aquilo. Achávamos que não seriam loucos de prender Lula: prenderam por 580 dias e o Brasil seguiu sendo o país do futebol e do Carnaval. Achávamos que não colocariam aquele monstro na presidência: colocaram e votaram nele mulheres e gente preta, porque no Brasil somos mulheres e pretos em mais de 100 milhões.

Enfim, que canseira até falar sobre isso. Olhando para trás, nos 13 de Maio, vi as seguintes postagens em anos anteriores.

(antes, registro o quanto me sinto só, que solidão terrível. É uma solidão que me tira até a paciência de compreender as crenças inventadas pelos humanos para confortar a dura existência mortal, os mitos que dão sentido as vidas dos homo sapiens. Eu compreendo os misticismos e os mitos nas sociedades humanas, mas não quer dizer que porque compreendo que ache razoável tanta gente crente nessas abstrações mentais e culturais. Me sinto muito só!)

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13 de Maio de 2019

57.797.847 pessoas votaram em um racista para a presidência do brazil. Não foram só os brancos que votaram nessa desgraça toda.

O homem que mais fez pelos negros, pobres e trabalhadores brasileiros está numa masmorra, sem nunca ter roubado uma agulha, como ensinou sua mãe, Dona Lindu. Até hoje o povo não retirou ele daquela solitária injusta.

Mais da metade da população brasileira é negra ou mestiça e a absoluta maioria é pobre e foi beneficiária das políticas de oportunidades dos governos petistas.

Lula segue preso e país segue sendo desfeito.

Povo e país miseráveis! Acho que a miséria atual e a ingratidão se merecem, se completam.

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13 de Maio de 2018

Instantes... (neste 13 de Maio)

CONSTATAÇÕES INSTANTÂNEAS DO BRASIL

O Presidente Lula está preso.
O Paulo Preto está solto.
O Alckmin está solto.
O Serra está solto.
Aécio está solto.

A Presidenta Dilma foi impedida.
O presidente Temer refez o Brasil.
O Parente é presidente da Petrobras.

O Moro é um juiz do Brasil.
A Cármen é uma juíza do Brasil.
A Globo é uma organização do Brasil.
A Abril é uma editora do Brasil.
O Itaú é um banco do Brasil.

A Folha disse que a ditadura foi branda no Brasil.
Vários generais foram 'presidentes' do Brasil.
Presidentes autorizavam matar no Brasil.

O Vargas está morto.
O Juscelino está morto.
João Goulart está morto.

O Brasil é o país do futebol.
O Brasil é o país do Carnaval.
O Brasil é o país da Floresta Amazônica.

(O Brasil era o país do pré-sal)

O país da casa-grande.
O país das senzalas, morros, favelas.
Lula está preso: a jato.

E o povo brasileiro?
Quede o povo brasileiro?
Existe o povo brasileiro?
Brasil? Brasileiro?
?

Tem hora que dá vontade de...
Desistir?

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13 de Maio de 2017

(compartilhei no dia um texto de Eliane Brum, através do compartilhamento do amigo Deli Soares. O texto faz referência ao mestre Antonio Candido e a questão do "Tempo", questão muito inquietante para mim. Candido havia falecido no dia anterior e sua morte nos deixou muito tristes, órfãos.)


De Eliane Brum:

Antonio Candido morreu nesta madrugada.

Não dá para pensar o Brasil sem pensar sobre Antonio Candido pensando o Brasil. Que homem gigante. E que homem generoso. Um professor.

Dele carrego comigo dia após dia, para jamais esquecer, um pensamento sobre o tempo. Feito durante a inauguração da biblioteca do MST, esse comentário diz muito sobre o que acontece hoje no Brasil:

“Acho que uma das coisas mais sinistras da história da civilização ocidental é o famoso dito atribuído a Benjamim Franklin, ‘tempo é dinheiro’. Isso é uma monstruosidade. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando. Daqui a 10 minutos eu estou mais velho, daqui a 20 minutos eu estou mais próximo da morte. Portanto, eu tenho direito a esse tempo. Esse tempo pertence a meus afetos. É para amar a mulher que escolhi, para ser amado por ela. Para conviver com meus amigos, para ler Machado de Assis. Isso é o tempo. E justamente a luta pela instrução do trabalhador é a luta pela conquista do tempo como universo de realização própria.
A luta pela justiça social começa por uma reivindicação do tempo: ‘eu quero aproveitar o meu tempo de forma que eu me humanize’. As bibliotecas, os livros, são uma grande necessidade de nossa vida humanizada".


Ainda 13 de Maio de 2017

Estava viajando o Brasil, conversando com a classe trabalhadora sobre o modelo assistencial da Caixa de Assistência dos Funcionários do BB e os direitos em saúde, lá no Rio Grande do Norte e em Pernambuco. Foram dois dias de muito debate com a base social que nós representávamos. Essa história ninguém me tira, apesar que ela morre comigo qualquer dia desses.


"Instantes... (7h)

Partindo de Recife... missão cumprida com as primeiras duas Conferências de Saúde da Cassi e dos Conselhos de Usuários de RN e PE. Agradeço a tod@s pela recepção e pelo trabalho realizado em fortalecer a Cassi e a participação social."

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13 de Maio de 2015

Lá estava eu e companheiras e companheiros defensores dos direitos em saúde e do modelo assistencial da Cassi em mais uma Conferência de Saúde (no DF). São lembranças da história de luta da classe trabalhadora, lembranças que sem registro desaparecem, não são nada. A história da humanidade é assim.

A foto que ilustra essa postagem foi feita pela companheira Chris Rodrigues, no Anfiteatro dos Bancários de Brasília. Fizemos uma conferência bem interessante, com uma programação de dia todo e com a presença de bancári@s da base. A programação foi construída coletivamente, a várias mãos.

Fica aí o registro. Durante o nosso mandato na saúde, realizamos 54 conferências de saúde e eu estive em 53 delas. Duvido que algum dia outro diretor da Cassi faça isso. 

Aliás, na velocidade na qual a Cassi está sendo desfeita em todos os seus conceitos essenciais, talvez daqui a pouco tempo não exista mais a "Cassi"... que tristeza... Estão terceirizando tudo, as pessoas estão saindo ou sendo saídas... Os que ficarem no sistema Cassi lidarão com telas, máquinas, robôs, igualzinho nos bancos...

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Fim das lembranças de alguns 13 de Maio. O poema que fiz no 13 de Maio de 2018 segue atualíssimo... (e a questão do "tempo" nas palavras de Antonio Candido, então? Mais atuais que nunca!)

"E o povo brasileiro?
Quede o povo brasileiro?
Existe o povo brasileiro?
Brasil? Brasileiro?
?"


William


sábado, 27 de março de 2021

Livro: Querô (uma reportagem maldita) - Plínio Marcos



Refeição Cultural

"Raiva é um negócio que ninguém pode tirar da gente. Só podem dar mais." (p. 30)

"Fui sem estrilar. Mas não foi fácil. Acho que nunca tinham limpado aquelas privadas antes. Se alguém fosse cagar nelas, ia sair cagado. Mas eu não dizia porra nenhuma..." (p. 32)

"Até pensava em dar um capricho em mim, pra ela me ver bem vestido. Parei de pensar tanto em arrumar um revólver, pra pensar em roupa. Era do caralho curtir aquela menina, a tal da Lica." (p. 48)

"E viu que eu estava mal. Me fez chá, café, me deu comida. Mas tudo que eu botava pra dentro, as tripas botavam pra fora. Era a porra do medo. Medo ferve as tripas." (p. 65)


Entre ontem e hoje, sábado 27 de março, reli o livro de Plínio Marcos, Querô, obra de 1976. A história de Querô é um soco no estômago de todos nós, é a história de nosso ontem, de hoje, e, infelizmente, de amanhã.

Jerônimo da Piedade, o Querosene, o Querô. Filho da prostituta Alzira da Piedade e sem pai. Crescido no prostíbulo, criado pela cafetina Violeta, e depois nas ruas, e depois recolhido em uma prisão de menores, e depois nas ruas. Querô.

Enquanto lia a história de Querô, via flashs do passado, instantes da minha vida ao longo de décadas. Não via só minha vida, via a vida dos querôs ao meu redor. O tempo inteiro pensava nos querôs espalhados por cada canto desta terra tão fecunda e tão miserável: Brasil.

O acaso me fez um sortudo. Não fui um Querô. Comecei com sorte, sendo filho da Dirce e do Gercir. Mas muitos de nós poderiam ter tido o mesmo percurso de Jerônimo da Piedade. 

A miséria e a pobreza de um país como o Brasil são contagiantes, encurralam a todos nós, nos põem todos em guerra: pobre contra pobre, miserável contra miserável.

(15h27 - interrompo a confecção da postagem... soube neste minuto de mais uma vítima da Covid-19, agora um amigo aqui do condomínio. Mais uma vítima do genocídio. Tantos anos juntos aqui onde moramos, reuniões, confraternizações (Sr. Epaminondas, presente!). Mais uma morte severina, morte matada pelo regime genocida... paro para respirar...)

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As narrativas de Querô me fizeram lembrar de coisas muito duras na vida. 

Baratas. Me lembrei muito de baratas. As baratas foram um verdadeiro tormento na minha vida. As baratas nas diversas residências nas quais vivi. Aquele monstro. Tive azar com baratas ao longo da vida humilde que tive, com a família e depois sozinho. Amassar barata na cara (foi difícil superar isso). Amassar barata na botina... casas onde precisei combater colônias de baratas. Jogava inseticida e matava dezenas delas. Numa casa de fundo de quintal onde morei, na entrada de uma favela e em frente a um córrego sujo, tinha um banheiro comunitário no qual as baratas saíam do ralo enquanto se tomava banho... cara, era foda! Muitas casas com baratas tive nas veredas de minha vida.

Merda. Trabalhei de ajudante de encanador antes dos 17 anos de idade. Quebrar concreto, paredes, passar canos de esgoto. Certa vez, tive que tirar o vaso sanitário e os canos de uma casa em reforma. Tive a experiência de ter que mexer na merda dos outros. Obras novas eram melhores por não ter encanamento usado. É um serviço difícil. A sociedade deveria valorizar, respeitar e remunerar adequadamente os serviços braçais que as maiorias jamais gostariam de fazer.

Ler a história de Querô me fez pensar muito no momento em que estamos no Brasil: pandemia de coronavírus e sob o comando do crime organizado - bandidos endinheirados, gente má e gente com desvios mentais no poder, psicopatas. Desemprego em massa após a destruição do país pela Lava Jato e pelo golpe de 2016 (em 2014 vivíamos a experiência do pleno emprego e as pessoas escolhiam onde trabalhar). Mais de 300 mil mortos oficialmente por Covid-19, sem oxigênio, sem atendimento médico. Sem vacinas para todos. Provavelmente, o mesmo número de mortos por mortes severinas, pela miséria, pelo trabalho intermitente sem direitos, pelo não atendimento médico de urgência.

Querô. Não fui órfão como Querô. Não tive o mesmo fim de Querô por diversas casualidades aparecidas nas veredas da vida neste sertão brasileiro. Tive pais. Tive amigos. Tive amores. Tive sorte. Tive companheiros do movimento sindical e político que me mostraram o caminho da consciência política. Tive empenho sim, mas não foi por meritocracia que vivi até aqui, foi pela solidariedade da vida em sociedade, foi por oportunidades surgidas a partir de movimentos externos a mim. Tudo que nós da classe trabalhadora somos e temos, nós excluídos da casa-grande, que não nascemos naqueles berços, tudo que temos é fruto das lutas sociais coletivas.

Chega. Reflexão feita a partir da obra de Plínio Marcos. Vivendo sob o país dos bolsonaros, de moros e dalagnois e sua multidão de apoiadores dementes, canalhas e trogloditas.

Essa gente vai passar, vai cair, vai encontrar o fim.

William


Post Scriptum (13/12/22): assisti na Netflix ao filme Querô (2007), direção de Carlos Cortez, com Maxwell Nascimento no papel principal. Gostei da adaptação da obra de Plínio Marcos.


Bibliografia:

MARCOS, Plínio. Querô (uma reportagem maldita). São Paulo: Publisher Brasil, 1999.