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domingo, 9 de novembro de 2014

O Tempo e o Vento – A mesma crítica política um século depois





Refeição Cultural

O Retrato II – 4º volume

Ao ler as críticas dos personagens lá nos primórdios da República Brasileira após a frustração do embate político para a eleição presidencial entre o candidato situacionista, Hermes da Fonseca, e o da oposição pela campanha civilista, Rui Barbosa, vemos comentários muito semelhantes aos que presenciamos em 2014 nas eleições presidenciais entre a candidatura de Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB). As críticas são semelhantes, mas os contextos completamente diferentes. Vemos a mesma agressividade à flor da pele, embate político marcado por certo ódio e com possibilidades remotas de conciliação entre as partes.


DESDE SEMPRE, REPÚBLICA SEM POVO

(Rodrigo Cambará, conversando com a tia Maria Valéria, revoltado pelo candidato dos militares ganhar a eleição do civilista Rui Barbosa)

“- Palavra de honra. Esse país não tem jeito. Só uma revolução.
Soergueu-se na cama, e, como se a frase anterior tivesse sido dita por ela e não por ele, perguntou:

- Fazer uma revolução com quem? Com o povo? Mas não é possível ir contra as classes armadas! (Na verdade não se estava dirigindo à tia, mas aos leitores d’A Farpa.) Neste pobre país parece que nada se pode fazer sem o concurso dos militares. Foram civis como Castilhos, Patrocínio, Bocaiuva e outros que fizeram a república com ideias. Mas na hora de dar o golpe, desgraçadamente recorreu-se ao Exército. O primeiro presidente foi um marechal. E que fez ele? Dissolveu o Congresso. Agora, pra mal dos pecados, parece que vamos ter outro soldado na presidência. Outro Fonseca! Este país está perdido. Só uma revolução!” (pág. 299)


GAÚCHOS: ASPEREZA ESPARTANA, SEGUNDO DESCRIÇÃO DA OBRA

“(...) Pensou no pai... Como acontecia com quase todos os homens do campo, Licurgo Cambará desprezava o conforto. Gaúchos como ele em geral dormiam em camas duras, sentavam-se em cadeiras duras, lavavam-se com sabão de pedra e pareciam achar indigno de macho tudo quanto fosse expressão de arte, beleza e bom-gosto. Isso explicava a nudez e o desconforto de suas casas, a aspereza espartana de suas vidas.” (pág. 301)




RUI BARBOSA X HERMES DA FONSECA

“Chiru e Saturnino entraram a discutir animadamente as eleições. Nos primeiros dias de março o Correio do Povo publicara alguns resultados parciais das cidades, que acusavam pequeno saldo de votos favorável a Rui Barbosa. Agora, porém, vinham de todo o País telegramas desanimadores para os civilistas: o Marechal estava vitorioso na maioria das urnas, e tudo indicava que o candidato oposicionista se encontrava irremediavelmente derrotado. Rui Barbosa lançara um manifesto, afirmando que as eleições haviam sido feitas sob pressão do governo, à sombra da fraude: os hermistas subtraíam as atas ou as falsificavam. A propalada neutralidade de Nilo Peçanha – clamava o candidato civilista – era como as saias postas em moda na França por Mme de Maintenon para esconder a barriga das mulheres grávidas.” (pág. 303)


O PENSAMENTO DA ELITE TACANHA SEGUE O MESMO UM SÉCULO DEPOIS

“- Mas que absurdo! – protestou Rodrigo – Para principiar: como por em prática esse individualismo aristocrático?
- Muito simples – replicou Rubim, com sua voz de flauta. Tomou um gole de champanha. – Nietzsche preconiza, e nisso estou plenamente de acordo com o Mestre, a formação do Estado militar.
- Tenente! – repreendeu-o Jairo, sorrindo.
- Estamos entre amigos, coronel. Mas, como dizia, só esse Estado militar é que poderá consolidar o domínio da casta superior, usando a força para organizar disciplinarmente todos os recursos sociais...
- Mas será uma ditadura insuportável! – atalhou-o Rodrigo. E tomou com fúria um largo gole de champanha, enchendo logo em seguida a taça com vinho branco.
- isso mesmo. Uma ditadura. E insuportável, sim, para as classes inferiores. Porque será preciso esmagar sempre todas as tentativas de insurreição das massas.”


(COMENTÁRIO: ler esse sujeito falando é o mesmo que ver em 2014 o que a elite e os tucanos pensam sobre governar para poucos e o tratamento do povo como caso de polícia)


SEGUE

“Don Pepe levantou-se, avançou para o tenente de artilharia e, erguendo a mão que segurava o copo, como se fosse atirar vinho na cara do militar, bradou:
- Pero no hay fuerza humana que pueda detener las masas!
Rubim limitou-se a lançar para o espanhol um rápido olhar neutro.
- O Brasil – continuou – é um país novo e informe, que só poderá ser governado mediante uma ditadura de ferro.
Jairo estava escandalizado.
- Tenente, o senhor está se excedendo!
Rubim sorriu e encheu o cálice de vinho.
- Coronel, estou apenas dizendo o que penso.
- Deus nos livre de ter o tenente um dia na presidência da República! – exclamou Rodrigo.
Olhou para Pepe, que começava já a dar seus passinhos para diante e para trás, e viu nos olhos do anarquista duas bombas prestes a explodir.
- Essa casta superior – prosseguiu Rubim, cruzando as pernas – não deverá de maneira nenhuma preocupar-se com a educação das classes populares. O cultivo das massas pode prejudicar os objetivos mais altos do Estado, isto é, a formação da aristocracia...” (pág. 304/305)


ARROGÂNCIA DE PARTE DA CLASSE MÉDICA VEM DE LONGE (FELIZMENTE HÁ EXCEÇÕES)

“Isso não vai lhe custar nada. A consulta é grátis. Os clientes balbuciavam agradecimentos e se iam. Rodrigo então abria as janelas para deixar entrar o ar fresco, lavava as mãos demoradamente com sabonete de Houbigant, tirava do bolso o lenço perfumado de Royal Cyclamen e agitava-o de leve junto do nariz. Concluía que o sacerdócio da medicina, visto através da arte e da literatura, era algo de belo, nobre e limpo. Na realidade, porém, impunha um tributo pesadíssimo à sensibilidade do sacerdote, principalmente ao seu olfato. Rodrigo comovia-se até as lágrimas diante da miséria descrita em livros ou representada em quadros; posto, porém, diante dum miserável de carne e osso – e em geral aquela pobre gente era mais osso que carne – ficava tomado dum misto de repugnância e impaciência. Achava impossível amar a chamada ‘humanidade sofredora’, pois ela era feia, triste e mal-cheirante. No entanto – refletia, quando ficava a sós no consultório com seus melhores pensamentos e intenções – teoricamente amava os pobres e, fosse como fosse, estava fazendo alguma coisa para minorar-lhes os sofrimentos. Não tens razão, meu caro Rubim. Podemos e devemos elevar o nível material e espiritual das massas. Tenho grande admiração por César, Cromwell, Napoleão, Bolívar; foram homens de prol, dotados de energia, coragem e audácia, figuras admiradas, respeitadas e temidas. Mas para mim, meu caro Cel. Jairo, é mais importante ser amado que respeitado e mesmo admirado. O tipo humano ideal, o supremo paradigma, seria uma combinação de Napoleão Bonaparte e Abraão Lincoln. O ditador perfeito, amigos, será o homem que tiver as mais altas qualidades do soldado corso combinadas com as do lenhador de Illinois. O diabo é que a bondade e a força são atributos que raramente ou nunca se encontram reunidos numa mesma e única pessoa. A menos que essa pessoa seja eu – acrescentou, um pouco por brincadeira e um pouco a sério.” (pág. 312)


MÉDICOS NÃO SABEM NADA: VÃO MAIS É NA APALPAÇÃO

(conversa entre o velho médico de Santa Fé e Rodrigo Cambará, o novo)

“- Já fez alguma burrada?
- Acho que sim.
- isso é do programa. Não se impressione. Acontece com todos. No final de contas os médicos não sabem nada. Nem os grandes do Rio de Janeiro nem os figurões da Europa. Todos vão mas é no palpite, na apalpação.
- Eu sei.
- E se a gente fosse pensar no que não sabe e nas doenças que não têm cura, acabava ficando louco. Tu pensas?
- Faço o possível pra não pensar.
- Olha, vou te dar um conselho. Não vás muito atrás de conversa de doentes. Eles falam demais. E quanto mais falam menos a gente entende o que é que estão sentindo.
- Já descobri isso.
- E mesmo quando não for caso de dar remédio, dê remédio, porque o paciente desconfia do doutor que não receita muita droga. E quando estiver diante dum caso complicado e ficar no escuro, receite uma dose pequena de citrato de magnésia. Não faz mal pra ninguém. É só pra ganhar tempo e estudar melhor o caso. Mas não digas nunca que não sabes. O doente pode perder a fé... e adeus, tia Chica!
- Muito obrigado pelos conselhos, doutor.” (pág. 317)


MELHOR QUE MÉDICO, SÓ AS BENZEDEIRAS

“- E não te iludas com a clientela. No fundo essa gente acredita mas é nessas negras velhas benzedeiras e nos curandeiros. E quando a gente não acerta logo com o remédio pros achaques deles, procuram logo o índio Taboca, que vem com as suas aguinhas milagrosas e suas benzeduras.
- Em caso de aperto – sorriu Rodrigo – o recurso então é pedir uma conferência médica com o Taboca.” (pág. 318)


O DESPEITO DO DOUTOR BRANCO EM RELAÇÃO AO CURANDEIRO E AO PEÃO

(após contar que o Taboca salvou um peão picado de cobra)

“Olhando para o peão, Rodrigo fez reflexões amargas. Taboca, um curandeiro índio, acabara de salvar a vida do negro Antero, que no Angico partilhara com ele, Dr. Rodrigo, o amor da chinoca Ondina. Era o desprestígio da raça branca, da cultura e da ciência! – concluiu, sorrindo e achando tudo aquilo muito estranho. Chers Messieurs Richet et Charcot, estais convidados a explicar os mistérios das milagrosas aguinhas do Taboca! Porque moi, eu desisto.” (pág. 319)


DIGESTÃO CULTURAL

Relendo esses trechos do capítulo Chantecler, do quarto volume de O Tempo e o Vento, fiquei impressionado com a atualidade dos debates e dos discursos ao relembrar o horror que estamos vivendo na atualidade em nosso país, após as eleições presidenciais de 2014. O mesmo ódio, a mesma arrogância de classe “superior” versus a “massa inculta” e coisas do gênero.

Que dizer então dos últimos trechos sobre a arrogância de alguns médicos brancos, filhos da elite, que ao exercer a profissão, chegam a ter nojo dos pobres “mal-cheirantes” como disse o nosso herói Dr. Rodrigo Cambará?

Nas primeiras citações que fiz, é destaque e fica claro que por dezenas de anos, a política e o Estado ficaram na mão das elites, que disputavam entre si, o domínio e os bens públicos, para total apropriação do público para uso privado pelas elites brancas seculares. Até que no século XXI de nossa era surge um metalúrgico, oriundo das classes populares, e vindo da região mais explorada do país, o Nordeste, e vence as eleições presidenciais e começa a mudar o país, a contragosto das elites dominantes desde sempre.

É isso.



As coisas estão aí. É só abrir os olhos e ver. E vendo, compreender o que está em jogo. Há que se ter lado, e o meu é o da classe trabalhadora, é contra as elites históricas que tratam o povo como gente inferior. Eu detesto essa tal “aristocracia”!

William

domingo, 6 de abril de 2014

Viver é Bom! Superação física e mental nos faz sentir super-humanos!!!





Refeição Cultural


Como é bom estar em casa, estar com a família após uma semana de seis longos dias de viagens e conversas com bancários e bancárias por todo o país.

Acordei quebradão neste domingo de sol devido à longa semana de trabalho. Tomei coragem, venci o cansaço e saí para correr.

Após conversar um tempão com os vizinhos do prédio, saí pensando em correr ao menos uns 30 minutos para tirar a semana das costas. Mentalizei muito durante a corrida porque tenho que acompanhar as dores nos calcanhares e demais locais pelo cansaço físico e mental. Mas mentalmente estava cantando Welcome to the jungle... (afinal, vivemos numa selva mesmo).

Fui correndo até a pista de 500 metros do parque, dei quatro voltas lá e meu corpo foi dando sinais de que aguentava mais. Encarei a primeira subidona, dei a volta completa no Parque Continental, desci a Franz Voegeli, subi de volta o quilômetro dela e ao final completei 55 minutos de corrida. Que sensação incrível!


SUPERAÇÕES FÍSICAS

As pessoas deveriam experimentar essas atividades que nos testam como seres dotados de capacidade de superação. Saltar de paraquedas como já fiz, andar 80 km como faço todo ano lá em MG, correr e superar condições adversas e testar novos limites para seu corpo, são coisas que nos fazem sentir super-humanos.


FORMAÇÃO

O mesmo se dá quando temos desafios duros no trabalho ou no movimento social como, por exemplo, fazer acontecer diversos cursos de formação nos últimos anos, mesmo sabendo que na hora H vai faltar dinheiro e sobrar desculpas para as pessoas e entidades falarem que não puderam etc. Com empenho, gana e parceria das entidades e dos própri@s participantes, estivemos com mais de 350 pessoas em formação no período em que estou à frente da formação da Contraf-CUT.


LEITURAS

Antes de correr, já li também um pouco do quarto volume de O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo.


VIVER É BOM!

Ou seja, a frase dita pelos Rodrigos (Cambarás), tanto avô no século XIX quanto o neto no século XX, é sempre uma coisa que ficou martelando em minha mente depois que comecei a epopeia dos sete volumes de Érico Veríssimo.

Viver é Bom! Nada como uma boa corrida de superação, uma boa leitura, um bom sexo e o descanso no seu reino, na sua casa, em família.

É isso!

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A vida era boa, era bela, tinha um sentido






Refeição Cultural

A vida era boa, era bela, tinha um sentido

“Rodrigo suspirou. Num ponto o poeta (Lamartine) se enganava. Cada homem tem, sim, seu porto. O dele, Rodrigo Terra Cambará, era Santa Fé, onde lançara profundamente sua âncora. O tempo, certo, não tinha margens, deslizava como um rio e o homem passava. Mas quantas coisas grandes e belas podia fazer durante sua passagem pela terra!”

(O Tempo e o Vento – O Retrato I, Chantecler, Capítulo V, parte 2, página 129)


Mais uma vez, paro cismando sobre as reflexões do personagem Rodrigo Cambará. Este é o neto do Rodrigo Cambará que chegou a Santa Fé lá nos anos 30 do século XIX e decidiu ficar e conquistar a bela Bibiana Terra. O neto está pensando sobre a vida valer a pena uns oitenta anos depois. Ele está entrando em 1910.

Essas reflexões desses Cambarás têm me levado a pensar aqui no século XXI sobre a vida e as coisas da vida. Esse é um dos muitos presentes que a leitura brinda a seus amantes: a análise e a reflexão dos fatos; a parada para olhar, pensar, sentir e avaliar aonde podem chegar as coisas.


“Estava decidido a conquistar Santa Fé, a submetê-la à sua vontade, a moldá-la de acordo com seus melhores sonhos. Não se deixaria dominar por ela. Jamais se entregaria ao desânimo e à rotina. Jamais seria um maldizente municipal como o Cuca Lopes, um indolente inútil como o Chiru Mena e muito menos um capacho como o Amintas. Não perderia de vista Paris, e não esqueceria nunca que o mundo não terminava nos limites do município de Santa Fé.”

(O Tempo e o Vento – O Retrato I, Chantecler, Capítulo V, parte 2, página 129)


Veja que belo propósito do personagem Rodrigo Cambará. Ele acaba de voltar de seu período de estudos de medicina fora de Santa Fé. Ficou cinco anos fora.

Nesta fala dele fiquei pensando em conversas comuns que tive com conhecidos nestes últimos dias de minhas férias. As pessoas falam o tempo todo as frases básicas de que estão desanimadas com as coisas, que ninguém faz nada mesmo pela cidade, pelo país, que não adianta acreditar em um partido ou em algum movimento, que todos e tudo é a mesma coisa...

É impressionante ouvir isso!

Não é verdade! Tudo e todos NÃO são a mesma coisa! 

Mas... francamente, em hipótese alguma ficar parado e não fazer nada traz o mesmo resultado de arregaçar as mangas e fazer alguma coisa!

“Sob as estrelas daquela última noite do ano de 1909, Rodrigo Cambará fez um silencioso juramento. Cumpriria seus propósitos, acontecesse o que acontecesse. Sentiu-se forte, nobre e bom. Se realizasse todas as belas coisas que projetava, sua passagem pela terra não teria sido em vão. E se de algum ponto do universo Deus pudesse vê-lo e ouvi-lo... Mas Deus existia mesmo? Tornou a olhar para o céu e, tocado pela tranquila e profunda beleza da noite, concluiu que Deus não podia deixar de existir. A terra era boa, a vida era bela, a vida tinha um sentido.”

(O Tempo e o Vento – O Retrato I, Chantecler, Capítulo V, parte 2, página 129)

Eu vou retomar a vida caótica que me impossibilita a leitura de literatura. Isso me faz muita falta...

O pouco que fuço nas obras de grandes autores, acho gotas de ânimo para seguir adiante na vida, na luta, buscando sentido para a dureza das coisas.

A gente relê um pouquinho do Dom Quixote e fica encantado com aquele senhor cinquentenário, que decide sair pelo mundo lutando pelos fracos e oprimidos em nome de sua honra e de seu país, que busca recuperar uma época de ouro que nunca existiu na vida real, somente nas obras literárias, mas é encantador toda essa utopia e esse ânimo de fazer as coisas.

Desânimo, todos nós temos, mas a luta e as melhorias em nosso mundo têm que ser feitas... então, não tem jeito, temos que fazê-las. É simples assim a nossa passagem pelo mundo.

É isso!


William Mendes


Bibliografia:


VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento – O Retrato I. Editora Globo. 31ª edição. 1995

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O Medo – Cenas literárias






O Medo – cenas literárias


In: O Tempo e o Vento – O Continente (capítulo: O Sobrado I)


Érico Veríssimo descreve através do personagem Liroca, José Lírio, a sensação do medo numa noite de São João, durante o combate entre maragatos e pica-paus, lá no ano de 1895, em Santa Fé, Rio Grande.


“Os segundos passavam. Era preciso cumprir a ordem. Liroca não queria que ninguém percebesse que ele hesitava, que era um covarde. Sim, covarde. Podia enganar os outros, mas não conseguia iludir-se a si mesmo. Estava metido naquela revolução porque era federalista e tinha vergonha na cara. Mas não se habituava nunca ao perigo. Sentira medo desde o primeiro dia, desde a primeira hora – um medo que lhe vinha de baixo, das tripas, e lhe subia pelo estômago até a goela, como uma geada, amolecendo-lhe as pernas, os braços, a vontade. Medo é doença: medo é febre.

                Engraçado. A noite estava fria mas o suor escorria-lhe pela cara barbuda e entrava-lhe na boca, com gosto de salmoura.

                O tiroteio cessara ao entardecer. Talvez a munição da gente do Sobrado tivesse acabado. Ele podia atravessar a rua devagarinho, assobiando e acendendo um cigarro. Seria até uma provocação bonita. Vamos, Liroca, honra o lenço encarnado. Mas qual! Lá estava aquela sensação fria de vazio e enjoo na boca do estômago, o minuano gelado nos miúdos.

                Donde lhe vinha tanto medo? Decerto do sangue da mãe, pois as gentes do lado paterno eram corajosas. O avô de Liroca fora um bravo em 35. O pai lhe morrera naquela mesma revolução, havia pouco mais dum ano – tombara estripado numa carga de lança, mas lutando até o último momento.

                “Lírio é macho” – murmurou Liroca para si mesmo. “Lírio é macho.” Sempre que ia entrar num combate, repetia estas palavras: “Lírio é macho.”

                (...)”


COMENTÁRIO

A literatura de qualidade tem uma beleza que muitas vezes não é percebida pelo leitor. Abrimos o livro e vamos embora pelas páginas, numa leitura rápida e descompromissada.

Os bons autores têm uma grande capacidade de por em palavras atos, fatos e sensações que nos satisfazem no ato da leitura.

Quantas vezes o leitor não se pega sozinho pensando ou falando alto que sempre pensou aquilo que acabou de ler, mas nunca tinha conseguido enunciar ou escrever tal coisa de maneira tão... tão perfeita e tão completa! Tão definitiva!

O ato da leitura de obras de qualidade tem o dom de introduzir em nós reflexões que estarão para sempre lá em nossa memória, nas sensações que tivemos durante o prazer da leitura. Lá adiante, nós não nos lembraremos exatamente das palavras, mas o significado delas terá ficado naquilo que nos tornamos.



A leitura nos dá oportunidades de avançar nos conhecimentos do mundo. A partir dela e mesclados com nossos atos no mundo em que vivemos, poderemos ser pessoas melhores atuando por um mundo melhor.



Bibliografia:


VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento – O Continente I. Editora Globo. 31ª edição. 1995

domingo, 10 de novembro de 2013

O Tempo e o Vento - A vida nas Missões (Séc. XVIII)


Ruínas das Missões - Foto: Renato Costa (Wikipedia)

A FONTE


COMENTÁRIO:

Esta parte é importante para se conhecer o locus (as missões jesuíticas espanholas) onde surge Pedro, chamado missioneiro. Ele é filho de uma índia que morreu após o parto. Ele conhecerá Ana Terra no futuro. Ele também portará o punhal que acompanhará as gerações da família Terra Cambará.

Pedro foi educado pelo Pe. Alonzo nos Sete Povos de Missões (era domínio Espanhol), depois trocado pelos reis com a Colônia de Sacramento (era domínio Português) - Tratado de Madri (1750).

Achei a leitura muito interessante e me fez pesquisar um pouco sobre o tema por curiosidade e para melhorar meus conhecimentos.

Não há subtítulos no livro. Estes na postagem são criados por mim para melhor apresentação dos excertos.


(3)

A VIDA NAS MISSÕES EM 1745

Carta de Pe. Alonzo à família na Espanha:

“Se pensais que vivo no meio de bárbaros, estais completamente enganados. Nos Sete Povos começa a nascer uma das mais belas civilizações de que o mundo tem notícia. Enquanto vos escrevo, vejo através da janela a nossa bela catedral, toda de arenito vermelho, com seu tímpano grandioso, o seu átrio com uma longa fileira de colunas, e a sua resplandecente cruz de ouro. Seu estilo lembra o de certas igrejas do fim do Renascimento italiano (o que não é de admirar, pois foi ela construída por um milanês).

                Os índios das reduções vivem hoje mais cristamente que muitos brancos de Pamplona, Madrid ou Lisboa. Estão já redimidos do feio pecado da promiscuidade, pois todos se casam de acordo com as leis da Igreja e guardam o sexto mandamento; temem a Deus, são batizados e fazem batizar os filhos; no leito de morte nunca deixam de receber o Viático; e quando morrem são encomendados e finalmente enterrados em campo-santo.

                Pois muitos desses chamados selvagens sabem, além da língua nativa, o latim e o espanhol, e são hábeis escultores, pintores, oleiros, ourives, tecelões, fundidores de bronze, e músicos. Um destes dias, escutando um sexteto de índios que tocava com sentimento e correção peças dum compositor bolonhês, fiquei de tal maneira comovido que não pude reprimir as lágrimas.” (pág. 32)


(4)

A MÚSICA COMO CATEQUESE PARA OS ÍNDIOS NAS MISSÕES

“(...) Havia na redução excelentes organistas, harpistas, corneteiros e cravistas. Os instrumentos em sua maioria eram fabricados na redução pelos próprios índios, dirigidos pelos padres. A música havia sido e ainda era para os missionários um dos meios mais efetivos de catequização. Tocando seus instrumentos e cantando, eles se haviam aproximado pela primeira vez dos guaranis, desarmando-os espiritual e fisicamente e conquistando-lhes a confiança e a simpatia. No princípio a música fora a linguagem por meio da qual padres e índios se entendiam. E não teria sido porventura a música a língua do Paraíso – o primeiro idioma da humanidade? Por meio da música os jesuítas induziam os índios ao estudo, à oração e ao trabalho. Era ao som de música e cânticos que eles iam para a lavoura, aravam a terra, plantavam e colhiam – e era sempre debaixo de música que voltavam para a redução ao anoitecer. A música era por assim dizer o veículo que levava aquelas almas a cristo.” (pág. 34)


MISSÕES: A SOCIEDADE PROMETIDA NOS EVANGELHOS

“Uma tarde, à hora do crepúsculo (foi no ano de 1750, por ocasião da Páscoa) Alonzo parou no centro da praça, contemplou a catedral e sonhou de olhos abertos com o Mundo Novo. Havia de ser algo tão belo e sublime que a mais rica das imaginações mal poderia conceber.

                Os povos não mais seriam governados por senhores de terras e nobres corruptos. Seria a sociedade prometida nos Evangelhos, o mundo do Sermão da Montanha, um império teocrático que havia de erguer-se acima das nações, acima de todos os interesses materiais da cobiça, das injustiças e das maquinações políticas.

                Um mundo de igualdade que teria como base a dignidade da pessoa humana e seu amor e obediência a Deus. Nesse regime mirífico o homem não mais seria escravizado pelo homem. Não haveria mais exaltados e humilhados, ricos e pobres, senhores e servos. Que direito tinha de se apossar de largas extensões de terra? A terra, Deus a fizera para todos os homens. O que era de um devia ser de todos, como nos Sete Povos. Todas as criaturas tinham direito a oportunidades iguais. Não era, então, maravilhoso transformar-se um índio pagão num cristão, num artista, num músico, num escultor, num ourives, num arquiteto? Quantos milhares de seres havia no globo que vegetavam na ignorância e na miséria por falta apenas de quem lhes iluminasse o entendimento, despertando-lhes o desejo de melhorar, de criar coisas úteis e belas com a mão e o espírito que Deus lhes dera? Mas para conseguir esse mundo ideal era primeiro necessário combater todos aqueles que por indiferença ou egoísmo se negavam a baixar os olhos para os humildes. Alonzo, que fora sempre um estudioso da História, sabia que os homens em todos os tempos foram sempre levados ao pecado pelo diabo, e a arma de que o diabo mais se servia era o desejo de riqueza, poder e gozo. Para conseguir essa riqueza, essa força e esses prazeres, não hesitavam em escravizar as outras criaturas. E a melhor maneira de conservá-las em estado de escravidão era mantê-las na ignorância...” (pág. 40)


O PAPEL REVOLUCIONÁRIO DA COMPANHIA DE JESUS NO NOVO MUNDO

“Pagavam soldados não só para defender-lhes as vidas e os bens como também para alargar-lhes as conquistas. Mas esses senhores consistiam numa minoria. Ah! Um dia esses eternos humilhados, esses eternos escravos haveriam de tomar consciência de sua força e erguer-se! Mas era indispensável que tal levante se fizesse não em nome do ódio, da vingança e da destruição, mas sim em nome de Deus e da Suprema Justiça. A missão da Igreja – e neste ideal extremado Alonzo sabia que estava só – devia ser a de promover essa Revolução. O trabalho da Companhia de Jesus já havia começado na América. Era preciso primeiro conquistar o Novo Continente, livrar o índio da influência do homem branco, organizar uma grande república teocrática que depois, aos poucos, poderia estender a outras terras a sua influência e o seu exemplo. Ah! Mas para conseguir esse supremo bem os jesuítas seriam obrigados a usar meios aparentemente ignóbeis. Teriam de ser obstinados e implacáveis. No princípio seria necessário exercer uma ditadura justa mas inexorável. Não havia outra alternativa. Seriam os fiadores dessa Revolução em Nome de Deus, pois o povo não estava ainda esclarecido, não sabia o que lhe convinha, e portanto podia ser facilmente ludibriado pelos poderosos. Era pois imprescindível que os sacerdotes exercessem na terra a ditadura em nome de Deus até que um dia (Dali a quantos anos? Cem? Duzentos? Mil? Que importava o tempo?) fosse possível atingir aquele estado ideal, conseguir a igualdade entre as criaturas, a paz e a felicidade universal...” (pág. 41)


COMENTÁRIO FINAL:


Este trecho de reflexões acima é apresentado pelo Pe. Alonzo no momento em que ele fica sabendo que houve um acordo entre as coroas portuguesa e espanhola (Tratado de Madri - 1750):

“(...) Portugal e Espanha, para pôr termo às rixas em que viviam empenhados, tinham assinado um tratado iníquo, segundo o qual os portugueses cediam a seus velhos inimigos a Colônia do Sacramento, e os espanhóis, em troca, lhes entregavam os Sete Povos de Missões” (pág. 41)

A história de nosso país e de nossa América está o tempo inteiro entranhada na estória narrada por Érico Veríssimo. Muito legal!


Bibliografia:


VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento – O Continente I. Editora Globo. 31ª edição. 1995

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A Fonte - O Tempo e o Vento


Volume 1 de O tempo e o vento. Essa é a minha edição...

A FONTE

(1)

“Naquela madrugada de abril de 1745, o Pe. Alonzo acordou angustiado. Seu espírito relutou por alguns segundos, emaranhado nas malhas do sonho, como um peixe que se debate na rede, na ânsia de voltar a seu elemento natural. Por fim deslizou para a água, mergulhou e ficou imóvel naquele poço quadrado, escuro e frio.

                (...) A brisa picante da madrugada bafejou-lhe o rosto. Havia na redução um silêncio leve e úmido, um certo ar de expectativa, como se toda a terra se estivesse preparando para o mistério do amanhecer. Alonzo amava aquela hora. Era quando tinha uma consciência mais lúcida da presença de Deus. Tudo lhe parecia puro, frágil e aéreo...

(...) Naquela direção ficava o Continente do Rio Grande de São Pedro, que Portugal, inimigo da Espanha, estava tratando de garantir para a sua coroa. Um dia, em futuro talvez não mui remoto, os portugueses haveriam de fatalmente voltar seus olhos cobiçosos para os Sete Povos...” (pág. 21)


INTRODUÇÃO

Neste capítulo, aprendi muito sobre as missões jesuíticas na região sul do Continente Americano.


BOA COLHEITA: DEUS E TODOS FICAM FELIZES

(3)

“Às oito horas, os índios que trabalhavam nas plantações e na estância reuniram-se como de costume na frente da igreja e Pe. Alonzo fez-lhes uma pequena preleção. Disse-lhes que se colhessem muito trigo, teriam muita farinha; se tivessem muita farinha dariam serviço ao moinho; se o moinho trabalhasse, os padeiros poderiam fazer muito pão; e se todos tivessem muito pão, ficariam bem alimentados; e se ficassem bem alimentados Deus se sentiria feliz. Acrescentou que naquele ano precisavam exportar mais erva-mate e algodão para Buenos Aires, pois quanto mais coisas exportassem mais dinheiro teriam, não só para pagar os dízimos ao rei de Espanha, como também para comprar remédios, instrumentos e – oh! Sim – mais coisas belas para a igreja: cálices, cruzes, castiçais...” (pág. 29)


CABILDO (E SISTEMA COLETIVISTA NOS SETE POVOS)

“Quando escrevia a parentes e amigos da Espanha, Alonzo nunca deixava de elogiar a organização das reduções, que, à maneira das povoações espanholas, era governada por um Cabildo, para o qual os índios escolhiam em eleições anuais o corregedor – a autoridade máxima – os regedores, os alcaides, o aguazil-mor, um procurador e um secretário. Contava-lhes também como os indígenas aprendiam, através de lições práticas e vivas, que o indivíduo pouco ou nada vale fora da coletividade a que pertence. Toda a produção das lavouras e estâncias de gado das reduções pertencia à comunidade, e os bens de consumo eram distribuídos igualmente entre todos. A gente dos Sete Povos não conhecia nenhuma moeda, pois ali vigorava um regime de permutas. Do dinheiro apurado na venda de erva-mate e outros produtos que exportava para o Rio da Prata, pagava impostos ao rei de Espanha, sendo o resto empregado na compra de instrumentos de trabalho, alfaias e outros objetos para as igrejas. O que sobrava era finalmente remetido aos cofres da Sociedade de Jesus, em Roma...” (pág. 31/32)


COMENTÁRIO

É muito prazeroso reler trechos de um livro onde você já está lá adiante...

Hoje estava lendo no trem pra ir e voltar ao trabalho um capítulo do segundo livro chamado “A guerra” e fiquei pensando muito na existência.

A guerra referida é a do Paraguai, contra Solano Lopes, nos anos sessenta do século XIX. Foi uma carnificina horripilante.

Neste momento, em que estou relendo e anotando excertos do primeiro volume que li já faz semanas, vejo o quanto as estórias das famílias Terra e Cambará, bem como a família Amaral e aquelas de descendência alemã e outras da região sul, são uma reprodução da nossa história do povo brasileiro, tão diverso em sua distribuição geográfica, e tão próximo em suas tragédias e destinos seculares.

Como gosto de ler calmamente, indo e voltando, e com reflexões acerca da leitura! É uma pena que tenha tão pouco tempo para esse prazer na vida.


Bibliografia:

VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento – O Continente I. Editora Globo. 31ª edição. 1995

sábado, 26 de outubro de 2013

O Sobrado (I) - O Tempo e o Vento






O SOBRADO – I

“ERA uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado. Era tanto o silêncio e tão leve o ar, que se alguém aguçasse o ouvido talvez pudesse até escutar o sereno na solidão.

                Agachado atrás dum muro, José Lírio preparava-se para a última corrida. Quantos passos dali até a igreja? Talvez uns dez ou doze, bem puxados. Recebera ordens para revezar o companheiro que estava de vigia no alto duma das torres da Matriz. ‘Tte. Liroca – dissera-lhe o coronel, havia poucos minutos – suba pro alto do campanário e fique de olho firme no quintal do Sobrado. Se alguém aparecer pra tirar água do poço, faça fogo sem piedade...” (pág. 1)


INTRODUÇÃO

Assim começa O tempo e o vento, obra magistral de Érico Veríssimo.

Venci o primeiro volume e já vou empolgado para o segundo livro. Vou deixar registrado em meu blog alguns excertos e passagens mui belas ou que nos levam a reflexões interessantes. Sempre que houver negritos, sublinhados ou marcas do tipo, serão marcas minhas, do leitor.


Atenção leitores: deixo avisado de antemão que minhas postagens revelarão passagens da obra e não terão ordem cronológica. Pode ser que eu comente a morte de algum personagem quando esteja falando de outro. Ou seja, aviso desde já porque não gosto de textos que leio e que revelam enredos de livros e filmes sem avisarem ao leitor.


“O tiroteio cessara ao entardecer. Talvez a munição da gente do Sobrado tivesse acabado. Ele podia atravessar a rua devagarinho, assobiando e acendendo um cigarro. Seria até uma provocação bonita. Vamos, Liroca, honra o lenço encarnado. Mas qual! Lá estava aquela sensação fria de vazio e enjoo do estômago, o minuano gelado nos miúdos.

                Donde lhe vinha tanto medo? Decerto do sangue da mãe, pois as gentes do lado paterno eram corajosas. O avô de Liroca fora um bravo de 35. O pai lhe morrera naquela mesma revolução, havia pouco mais dum ano – tombara estripado numa carga de lança, mas lutando até o último momento.


‘Lírio é macho’ – murmurou Liroca para si mesmo. ‘Lírio é macho.’ Sempre que ia entrar num combate, repetia estas palavras: ‘Lírio é macho.’...” (págs. 1, 2)


Fiz questão de ler primeiro a obra literária antes de assistir a filmes ou minisséries. É que não gosto de contaminação visual ou interpretações alheias na minha construção mental do texto literário. Cinema, teatro e televisão sobre obras literárias são interpretações e visões de diretores.


“Ergueu-se, com alguma relutância e apanhou a carabina.
- Bom, tenho de ir andando... – disse, sem nenhuma vontade de subir para seu posto.
O outro troçou:
- Tome mais um mate, compadre...
Liroca tornou a suspirar:
- Muito mate tomei eu naquela casa.
- No Sobrado?
- É.
- Casa de pica-pau...
- Os Cambarás são gente direita.
- Inimigo é inimigo. O chefe deles é quem diz: ‘Inimigo não se poupa.’
- O Licurgo é um bom homem.
- Todos eles são uns anjos. – Inocêncio deu uma palmada na coronha da arma. – Mas pergunta pra minha Comblain se ela gosta de caçar anjo.” (págs. 4,5)


Nos é apresentado o cenário onde há um casarão, que está cercado por adversários. No casarão tem “pica-paus”, ou seja, republicanos. Mais um pouco e sabemos que é gente dos Cambarás que está no casarão cercado.

Vamos saber mais sobre quem está no casarão (Sobrado).


“A ordem era clara: se alguém viesse buscar água no poço, ele devia fazer fogo. Água... Água pra Maria Valéria. Água pros sitiados. Água pra D. Alice. Água pros meninos. Água pra velha Bibiana. O pior de tudo era haver mulheres e crianças dentro do casarão. No princípio do cerco o chefe federalista tinha erguido uma bandeira branca e mandado o Pe. Romano propor a Licurgo Cambará que fizesse as mulheres e as crianças se refugiarem na casa paroquial, com todas as garantias de vida e de respeito por parte dos revolucionários. Mas Cambará dera uma resposta seca: ‘O lugar da minha família é no Sobrado. Daqui não sai ninguém. Não aceito favor de maragato.’ O padre voltou acabrunhado com a resposta. ‘Sua alma, sua palma’ – disse o chefe federalista. E o tiroteio recomeçou.” (pág. 7)


Agora sabemos que se trata de um embate entre republicanos e federalistas (revolucionários). Estes são chamados de “maragatos” e aqueles de “pica-paus”.

É uma guerra civil brasileira. Irmão que mata irmão. Estamos no ano de 1895. Vamos ver a velha Bibiana.


“Sozinha no seu quarto, sentada na sua cadeira de balanço, e enrolada no seu xale, a velha Bibiana espera... O quarto está escuro, mas para ela nestes últimos anos sempre, sempre é noite, pois a catarata já lhe tomou conta de ambos os olhos. Ela mal e mal enxerga o vulto das pessoas, mas ouve tudo, sabe de tudo, conhece as gentes da casa pela voz, pelo andar e até pelo cheiro. Quando ouviu o primeiro tiroteio, ficou nesta mesma cadeira, esperando e escutando. Quando as balas partiam as vidraças ou se cravavam nas paredes, ela tinha a impressão de estar vendo – não! – de estar ouvindo uma pessoa de sua família ser fuzilada pelos inimigos. Medo não sentiu, isso não. Teve dó. E ódio. Estragarem o Sobrado desse jeito! Mas guerra para ela não é novidade. Tudo isso já aconteceu antes, muitas, muitas vezes. Viu guerras e revoluções sem conta, e sempre ficou esperando. Primeiro, quando menina, esperou o pai: depois, o marido. Criou o filho e um dia o filho também foi para a guerra. Viu o neto crescer, e agora o Licurgo está também na guerra. Houve um tempo em que ela nem mais tirava o luto do corpo. Era morte de parente em cima de morte de parente, guerra sobre guerra, revolução sobre revolução. Como o tempo custa a passar quando a gente espera! Principalmente quando venta. Parece que o vento maneia o tempo...

                (...)

                Ela tem nos dedos murchos um rosário. Esqueceu quase todas as orações. Há uma para dia de tempestade. Outra para tempo de peste. Agora ela precisa rezar pelo bom-sucesso de Alice. Para que botar filhos no mundo, se mais cedo ou mais tarde a guerra leva as criaturinhas?

                A velha Bibiana gosta do barulho da cadeira nas tábuas do soalho. É como uma voz, uma companhia. Lembra-lhe outros tempos, outras largas esperas. Estas batidas surdas e o uivo do vento, e o matraquear das vidraças, e o tempo passando...” (págs. 18, 19)


Adorei a leitura do primeiro volume de O tempo e o vento. Estilo épico, porém com certa leveza na passagem entre o presente da estória e o passado, indo e vindo em mais de um século de gerações de brasileiros na região sul do país em guerras e mais guerras, estabelecendo as nossas fronteiras e definindo a conformação política de nosso Brasil.


Bibliografia:

VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento – O Continente I. Editora Globo. 31ª edição. 1995



Post Scriptum:

No dia 3/11/13, fiz comentário no Facebook a respeito de patifes e me lembrei de leitura que havia feito na obra de Veríssimo.

"Sabe Noni, acordei cedo hoje pra ler O tempo e o vento. Tem uma frase dita por uma personagem sobre patifes que me lembrou o comentário que fizemos ontem sobre certo conhecido nosso que usa adorar amigos com desvio de caráter e falta de ética. Olha que legal a frase:

"Os patifes são em geral pessoas muito simpáticas. Não há nada mais aborrecido que um homem de caráter..."

NÃO É!?"

domingo, 6 de outubro de 2013

O Tempo e o Vento, O Continente I – Érico Veríssimo




O Tempo e o Vento – Érico Veríssimo

O Continente I


Literatura Brasileira – 1948


Apresentação

Pois é, a obra do escritor Érico Veríssimo (1905-1975) é totalmente desconhecida para mim. É um grande autor brasileiro e faz parte das minhas inúmeras lacunas culturais.

Dias atrás, deram-me aqueles cinco minutos de querer ler o grande clássico O Tempo e o Vento. Acredito que o motivo maior foi o lançamento recente de um filme baseado na história.

Saí em busca da obra. Após a pesquisa para comprá-la, descobri que são 3 livros em sete volumes e que cada um custava entre 50 e 55 reais. Para piorar, não achei o primeiro volume.

Recorri a alguns sebos e finalmente encontrei os sete tomos relativamente conservados da 31ª edição da Editora Globo, de 1995. Paguei 15 reais por volume e economizei uns 200 reais.

O meu eterno problema (eterno enquanto dure) é a falta de tempo para leituras literárias. Estamos em plena campanha nacional dos bancários e no meio de uma greve que já dura dezenove dias nesta segunda-feira 7/10.

Consegui ler até este fim de semana os quatro primeiros capítulos e fiz a leitura do jeito que gosto. Parei para pesquisar sobre a história do local onde a estória se passa – o Rio Grande do Sul – e sobre o autor também. Foi uma delícia!


Sumário do primeiro tomo

O sobrado – I...............................................1
A fonte......................................................21
O sobrado – II............................................67
Ana Terra...................................................73
O sobrado – III.........................................159
Um certo capitão Rodrigo............................171
O sobrado – IV..........................................317


COMENTÁRIOS

Civilização versus Barbárie

Ao ler os primeiros capítulos de O tempo e o vento (O Continente, 1948), é impossível não comparar com a história de Gabriel García Márquez – Cem anos de solidão (1967). Eu diria que é uma história de 150 anos de solidão.

Lendo o capítulo Ana Terra, fiquei pensando na questão da dicotomia Civilização versus Barbárie, tão utilizada nos séculos passados pelos colonizadores europeus para invadir as terras de outros povos “bárbaros” e matá-los ao apresentarem resistência aos “civilizados” europeus, utilizando o argumento de que os povos europeus estariam levando a civilização aos bárbaros.

Mas não foi sob esse ponto de vista das invasões imperialistas que fiquei pensando na questão da Civilização versus Barbárie. Fiquei pensando mais especificamente sob o ponto de vista discutido por Thomas Hobbes em sua obra O Leviatã (1651), onde há uma descrição da necessidade de construir sociedades e comunidades com regras que limitem a liberdade total dos homens em estado de natureza e lhes impor limites sobre sua liberdade em nome de certa paz e regras de sobrevivência coletiva. As pessoas que aceitam viver nestas sociedades aceitam abrir mão de sua liberdade total em troca de segurança e proteção.

Pensei nisso durante a leitura da parte violenta e sanguinária do ataque dos castelhanos à estância da família de Maneco Terra lá em 1789. Durante dezenas de anos, foram comuns na região os ataques recíprocos entre castelhanos, portugueses, índios e bandos diversos.

Desde tempos imemoriais os homens vivem sob a ameaça de ataques de forasteiros em seus vilarejos, cidades, estados, vilas etc. A ideia de Civitas (Cidades ou Estados) tem a concepção de proteção às pessoas que nessas comunidades ou estados habitam sob determinadas regras limitadoras da liberdade total (em estado de natureza) de cada animal humano – indivíduos.

Estamos na segunda década do século XXI e após milhares de anos de experiência humana em constituir sociedades, ainda não resolvemos o problema Civilização versus Barbárie. Atualmente, temos diversos países, em diversos continentes, com cidades e vilarejos que vivem a barbárie exatamente como foi descrita por Érico Veríssimo na estória de Ana Terra.


“E a arte vai mais longe ainda, imitando aquela criatura racional, a mais excelente obra da natureza, o Homem. Porque pela arte é criado aquele grande Leviatã a que se chama Estado, ou Cidade (em latim Civitas), que não é senão um homem artificial, embora de maior estatura e força do que o homem natural, para cuja proteção e defesa foi projetado.” (O Leviatã, Thomas Hobbes)


Bibliografia:



VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento – O Continente I. Editora Globo. 31ª edição. 1995