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segunda-feira, 1 de julho de 2024

37 de 100 dias



37. Fui hoje à Feira do Livro na Praça Charles Miller, em frente ao antigo Estádio do Pacaembu. Fui dar um abraço em um grande amigo, Sérgio Gouveia. 

O local está tomado por tapumes e estruturas de obras que nos lembram que os tucanos (Bruno Covas) privatizaram o estádio em 2019 e o que os paulistanos viram nos 5 anos seguintes foi a destruição do Pacaembu e prejuízos ao erário público em benefício de um indivíduo.

Registro o que acho desses fdp privatistas: são uns canalhas e vigaristas que privam a cidadania dos bens comuns.

Ir à feira do livro não foi o motivo de sair de casa e sim rever um amigo. 

Na programação do dia na feira do livro, assistimos a uma roda de conversa com escritoras e escritores gaúchos que falaram sobre suas obras e prestaram homenagens ao Rio Grande do Sul e a Porto Alegre, que sedia uma feira do livro que inspirou a paulistana. 

Os sulistas sofrem as consequências de uma catástrofe climática ocorrida recentemente.

Participaram Jeferson Tenório, Mar Becker, Clara Averbuck, Veronica Stigger, Morgana Kretzmann e Paulo Scott. A mediação foi de Tatiana Vasconcellos.

O bate-papo entre os autores foi interessante. 

Quanto à feira do livro em si, acho que terei dificuldade em considerar um evento desse de forma elogiosa depois de participar de uma feira do livro em Cuba.

Os preços dos livros nos estandes no Brasil são a partir de dezenas de reais, tudo muito caro, preços proibitivos. Uma (micro)latinha de cerveja pouco maior que uma unidade de Yakult custava 14 reais na feira paulistana, um roubo!

Em Havana, todos os estandes de livros tinham livros com preços simbólicos, custavam em pesos o equivalente a centavos de dólar ou euro. As pessoas saíam da feira carregadas de livros. A feira é em benefício da Educação e Cultura do povo cubano. 

No Brasil, o preço dos livros é para que só uma pequena parcela do povo possa ler. Aqui, livro é privilégio de poucos. 

Enfim, valeu o esforço de sair de Osasco e ir a um local que tem história (apesar dos tucanos) para rever um amigo. Trabalhamos juntos no Banco do Brasil e o Sérgio decidiu abraçar a profissão de professor. Nobre escolha!

Estar com pessoas queridas é um dos meus objetivos. A vida é um instante. 

William


terça-feira, 11 de junho de 2024

17 de 100 dias



17. Uma das coisas que estou fazendo mais uma vez e quem sabe agora eu vá adiante nesses 100 dias de busca de sentidos é manusear e definir o que faço com a grande quantidade de mídias que tenho guardadas em casa sobre a história do movimento sindical e dos trabalhadores do Brasil. Ainda tenho que ver o que farei com as pilhas de materiais xerocados da Faculdade de Letras e com as centenas de revistas que tenho.

Estou apartando um grupo de materiais de formação para enviar a um companheiro de Belém (PA) que demonstrou interesse pelo material que anunciei e estou preparando outro grupo de materiais para um companheiro e amigo do BB de Guarulhos, aqui na região metropolitana de São Paulo. E um amigo do sindicato me pediu o material específico que tenho sobre negociação coletiva.

Seguindo no manuseio das mídias de estudos e cultura do mundo do trabalho, vou organizar um pequeno cedoc próprio, catalogado para facilitar o uso. Parte do que estou avaliando vai ficar neste meu acervo cultural.

Somarei ao cedoc os cadernos dos blogs de cultura e sindical, que tenho revisado e impresso aos poucos. Esse trabalho de organização vai compilar de certa forma minha formação política e cidadã dos últimos vinte e poucos anos de vida, a fase adulta de maior produção intelectual deste homo sapiens.

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A DÉCADA DA PERVERSIDADE (BRASIL E RS, DE COLLOR A FHC)

Hoje vi o vídeo produzido em 2010 pelo SindBancários abordando a terrível década dos anos noventa fazendo um contraponto com a década de oitenta, sendo esta de grandes manifestações e avanços populares conseguidos através das mobilizações do povo brasileiro.

O documentário tem quase uma hora e os depoimentos me fizeram recordar um período duro de nossas vidas de classe trabalhadora. Além de Collor, tivemos os dois governos do Fernando Henrique Cardoso, de privatizações e ataque violento aos direitos do povo trabalhador. Durante aquele período, dezenas de pessoas cometeram suicídio nas empresas públicas que sofreram processos de enxugamento e assédio moral institucional. Foi terrível!

É isso!

William


terça-feira, 14 de maio de 2024

Leituras Capitais - S.O.S.



Refeição Cultural - CartaCapital nº 1310

Osasco, 14 de maio de 2024. Terça-feira.


S.O.S.

O subtítulo da matéria de capa já anuncia a que ponto falimentar chegamos na sociedade humana.

"Na tragédia gaúcha, agravada pelo aquecimento global, o Brasil solidário e consciente se digladia com a parcela negacionista, inconsequente e velhaca"

A reportagem está se referindo aos fdp que estão atuando para piorar a situação de centenas de milhares de vítimas das inundações no Rio Grande do Sul, produzindo e divulgando mentiras em escala industrial (chamadas de fake news) para prejudicar os trabalhos de salvamento e recuperação de 90% das cidades do Estado atingido pela violência climática (consequência da destruição do mundo pelo capitalismo).

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A IMPUNIDADE dos mentirosos é o maior incentivo para se continuar a inventar mentiras! Além dos gabinetes do ódio dos bolsonaristas e extremistas da direita, a imprensa comercial dos barões, velha e canalha, produz mentiras nos jornais e revistas e TVs e rádios e nada acontece a ninguém... Em algumas situações e contextos sociais, na minha opinião, produção proposital de mentiras deveria ser tratada como traição em guerra, com pena capital. Estamos em guerra! Só não vê quem não lê o mundo e só não fala quem acha melhor ficar na moita e se fazer de neutro.

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É tanta merda que dá até preguiça de comentar. Prefeitos e parlamentares canalhas (todos de partidos de direita e extrema-direita) utilizando o tempo para lacrar em redes sociais, uns fdp mesmo, tempo que seria necessário a salvar vidas e agir para minorar as consequências da tragédia climática anunciada pela ciência há tempos. Tragédia agravada por causa dos neoliberais hipócritas que mudaram as leis de proteção ambiental e que não fizeram investimentos e manutenção em sistemas de contenção que existem há décadas para suportar momentos de grande volume de chuvas. A tragédia tem culpados! A tragédia deve ser politizada porque poderia ser evitada!

E o pior para quem estuda História é que sabemos que situações de miséria e carência não geram consciência política, nunca gerou consciência de classe. Pelo contrário, sem educação e formação política, a tendência é haver movimentos oportunistas à direita, povo sofrendo e sem educação e cultura é povo à mercê de canalhas aproveitadores da fé das pessoas e políticos extremistas pregando fascismo e autoritarismo. E, infelizmente, educação libertadora e formação política são coisas que nossos governos Lula e Dilma perderam a oportunidade de fazer durante os mandatos do Partido dos Trabalhadores desde 2003. Concordo com Frei Betto nessa leitura.

Não seria hora de acordar e começar a politizar a classe trabalhadora? Somos seres históricos, sempre é tempo de mudar. Não existe um futuro pré-determinado, o futuro é uma construção do hoje, construção humana. Podem inventar as explicações mitológicas que quiserem, mas o amanhã bom ou ruim depende do que fizermos ou não fizermos hoje.

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A EDIÇÃO 1310 E SUAS EXCELENTES MATÉRIAS E ARTIGOS

A leitura de uma edição completa da revista CartaCapital é uma oportunidade que seu leitor(a) tem de se atualizar sobre temas diversos e relevantes ocorridos no Brasil e no mundo. A partir dessas informações, é possível formar opinião ou gerar curiosidade de aprofundamento na questão de interesse.

Intelecção - Meu caso de leitor da revista, por exemplo. Ao ler toda a revista consigo ter uma compreensão melhor do mundo da forma como ele é, as coisas todas estão imbricadas umas nas outras, tudo é causa e consequência das decisões que tomamos diariamente enquanto sociedade humana. As matérias das seções "Seu país", "Economia", "Nosso Mundo" e "Plural" se interligam inevitavelmente.

CAPITALISMO, ESTADO MÍNIMO E O EFEITO BORBOLETA

A matéria de capa sobre as consequências das inundações e violências climáticas (p. 16) está conectada com a matéria sobre a privatização dos serviços funerários na cidade de São Paulo (p. 37), sob gestão de neoliberais de merda. Com o foco no lucro de alguns e prejuízo de todos é o povo que se ferra, sempre!

Quando serviços públicos que interferem diretamente na vida de toda a coletividade passam para a mão de algum fdp que vai focar no lucro com aquilo, é óbvio que na outra ponta estão as pessoas, os milhares e milhões de usuários dos serviços ruins das "empresas" de alguns sujeitos que estão em paraísos na terra, cercados de luxo, longe das consequências da falta de Estado na vida de toda a cidadania. 

É o caso dos donos da Enel em São Paulo (que se danem as pessoas sem luz por vários dias!). Será o caso dos futuros donos da Sabesp (que se danem as pessoas sem água...). É o caso dos donos dos serviços funerários na capital paulista. É o caso dos donos das empresas públicas privatizadas no Rio Grande do Sul.

Essa gente que defende ausência de Estado no capitalismo é um misto de pessoas que não têm educação libertadora e formação política porque não tiveram oportunidade (não associam causa e consequência das coisas) com pessoas que estão no topo da hierarquia do poder econômico e político e que não concordam com sociedades igualitárias e mais justas para todas as pessoas. Defendem o privilégio, o privado, privar todos em benefício de alguns...

O caso do Rio Grande do Sul e o povo brasileiro daquela região é um exemplo típico do cenário mundial. Não fosse Lula o presidente do Brasil neste momento, a situação daquelas irmãs e irmãos estaria muito pior do que já está. 

E tem mais: os negacionistas e mentirosos que se aproveitam do caos para lacrar e monetizar suas contas em redes sociais são passageiros em tragédias como essas. O que aconteceu no RS mudou a vida de centenas de milhares de pessoas para sempre. Daqui alguns dias, a comoção nacional vai diminuir, e se não houver ESTADO, órgãos públicos, recursos públicos, agências dos CORREIOS, BANCOS PÚBLICOS, SUS, as pessoas não terão como recomeçar suas vidas. 

Não é o capitalismo neoliberal que vai recuperar a vida de toda a gente do Rio Grande do Sul. É o Estado, é o público, o coletivo, é a solidariedade da coisa pública. Não é o privilégio que salva o povo.

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A ERA DAS CATÁSTROFES - Aldo Fornazieri (p. 21)

"A degradação ambiental, que provoca morte entrópica do planeta, é resultado de uma concepção de mundo, de formas de conhecimento científico, social e religioso com que a humanidade construiu um mundo no qual se destrói a natureza e mantém bilhões de indivíduos na pobreza. O parâmetro principal da medida de todas as coisas não é a vida ou o bem-estar, mas o lucro rápido."

O artigo de Fornazieri é esclarecedor, ele fala sobre a tese do Antropoceno, uma era na qual o ser humano tornou-se a força impulsionadora da degradação ambiental e catalisadora das condições para a catástrofe ecológica.

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MORDOMO DO RENTISMO

Na seção de economia, a matéria sobre o bolsonarista Campos Neto, colocado no Banco Central para bloquear os avanços na economia do país sob gestão de eventual governo progressista (como o de Lula), me deixa pensando muito sobre o que é e o que não é crime... Qual o tamanho da consequência negativa das decisões desse sujeito em manter juros altíssimos (em favor dos bilionários rentistas) na vida de milhões de pessoas comuns em nosso país?

Como medir todo o mal que um sujeito pode fazer ao povo de uma comunidade humana? Um sujeito com o poder de bloquear o crescimento do emprego e renda de mais de uma centena de milhão de pessoas? Na minha opinião, opinião de quem estudou economia por muito tempo, o comando do Banco Central é desastroso, enviesado, e claramente focado no privilégio de alguns em prejuízo de milhões de pessoas.

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IDEOLOGIAS DE CANALHAS

Duas matérias desta edição dão bons exemplos sobre canalhices criadas a soldo, ideólogos que criam teses e ideias para justificar os interesses e os privilégios dos donos do poder em detrimento das massas humanas exploradas.

Na matéria "Traquinagens econométricas", assinada pelo professor Belluzzo e por Nathan Caixeta (p. 43), assino embaixo o que eles denunciam sobre um tal Instituto Fiscal Independente (IFI) e um de seus ideólogos que justificam a importância de um "superávit primário estrutural" e blá blá blá com um objetivo final de dizer que expansão fiscal é uma merda e que austeridade fiscal é a salvação da humanidade... (que nos diga a respeito o povo do Sul, o que pensam os desabrigados sobre isso?)

Na outra matéria "Falsificação histórica", de Will Hutton, à página 54 da seção "Nosso Mundo", vemos outra tentativa de ideólogos, no caso ideóloga (e negra), de negar o peso da escravidão para o sucesso da acumulação capitalista do império inglês ao longo de séculos, séculos de exploração e usurpação de um quarto do planeta Terra. Canalhice... os tempos são de negacionismo, de imposição de pós-verdades por parte dos donos do poder.

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CULTURA

Na última vez que consegui ler uma edição completa de CartaCapital (ver aqui), acabei sendo instado a ler "Ricardo III" de Shakespeare por causa de uma matéria da revista.

Agora, fiquei curiosíssimo com a matéria sobre Caetano Galindo, professor da Universidade Federal do Paraná, autor de dois livros abordados na matéria que chamam a atenção dos amantes da leitura.

Eu gostei muito da versão do Ulisses, de James Joyce, traduzida por Galindo (comentário aqui). Achei o texto diferente em relação à tradução do Houaiss, que já havia lido. Óbvio que o leitor era outro também, duas décadas depois. 

A matéria de Luis Capagnoli, uma entrevista, me instigou tanto que talvez até vá à Feira do Livro em São Paulo neste ano, coisa que não costumo fazer. Galindo será uma das atrações.

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É isso!

A leitura de mais uma edição de CartaCapital me fez pensar e me trouxe de forma organizada um conjunto de informações sobre a atualidade. Valeu a pena a leitura.

Abraços e recomendo o jornalismo da equipe liderada por Mino Carta.

William Mendes


domingo, 11 de junho de 2017

Leitura: O BB de bombachas (2016) - Alcy Cheuiche (Organizador)



Homenagens ao centenário do BB no Rio Grande do Sul.

Refeição Cultural

Li nesta semana um livro que ganhei em uma de minhas passagens pelo Rio Grande do Sul. O livro é fruto de uma oficina literária do SindBancários de Porto Alegre e região. Com a coordenação de Alcy Cheuiche, diversos colegas bancários e bancárias do Banco do Brasil e um pai de bancário produziram contos deliciosos sobre a história do nosso banco público no Estado do RS, história que completou cem anos em 2016.

O livro me foi presenteado pelo companheiro Irineu Roque Zolin, um dos escritores dos contos, e, desde já, agradeço pelo belo presente. Neste sábado 10 tive o privilégio de participar, a convite da Fetrafi RS, do Encontro dos Empregados da Caixa e dos Funcionários do Banco do Brasil e contribuir com uma análise de conjuntura abordando a conjuntura e os bancos públicos. Esta foi minha sétima passagem pelo Estado do RS para conversar com a base social do BB. (leia AQUI)

É emocionante conhecer as histórias cotidianas de cada bancário e bancária de nosso banco público em um Estado cujo papel do BB sempre foi muito relevante no apoio à comunidade rural gaúcha. Ao mesmo tempo, não tem como não ficar triste ao ver o governo atacando nosso patrimônio público, fechando centenas de agências justamente a partir de 2016 e fechando quase dez mil postos de trabalho. O povo brasileiro e nosso Banco não merecem esse sucateamento.

Eu parabenizo esta iniciativa do SindBancários que já produziu diversas obras com artistas e escritores bancários a partir das Oficinas Literárias. Esta nossa categoria é repleta de trabalhadores com diversas aptidões e vivências culturais, e cada entidade sindical que contribui para o desenvolvimento dessas dimensões humanas deve ser enaltecida.

O livro está em duas línguas, português e espanhol. Há contos que nos lembram da Cassi, da Previ, dos Cesec; contos que nos falam de presidente do BB oriundo do Rio Grande do Sul; contos que nos falam da história do Estado e dos gaúchos, assim como da participação do BB lá na Itália, durante a 2ª Guerra Mundial.

Não sei se está disponível para aquisição, mas sugiro a leitura. É sempre bom ler a respeito de nossa história.

William

Leia abaixo a matéria do SindBancários sobre o lançamento da obra.



(reprodução de matéria do SindBancários)


Lançamento da antologia de contos sobre história de 100 anos do BB na 62ª Feira do Livro consagra nono livro da Oficina do SindBancários


Lançamento do livro em Porto Alegre.

14/nov/16 - site do SindBancários


A sala Oeste do andar G do Santander Cultural, acolheu na sexta-feira, 11/11, um grupo de oito estudantes da Oficina Literária do SindBancários e revelou mais uma virtude de reunir bancários para escrever: contar a própria história ou pesquisar sobre a história de um banco fundamental para o desenvolvimento do País. Os oficineiros puderam, no mesmo dia à noite, também, agora no Memorial do Rio Grande do Sul, autografar “O BB de Bombachas – Homenagem ao Centenário do Banco do Brasil no Rio Grande do Sul”. Trata-se da nona antologia publicada pela Oficina Literária do SindBancários, desde 2008, sob a orientação do escritor Alcy Cheuiche. O lançamento fez parte da programação da 62ª Feira do Livro de Porto Alegre.


A nona antologia de contos segue a premissa das oito anteriores da oficina do SindBancários. São 60 contos, todos traduzidos para o espanhol, pela tradutora Andrea Barrios. A capa é um primor de arte, a cargo do ilustrador Marcos Cena, que vem a ser o presidente da Câmara Riograndense do Livro, dirigente da 62ª Feira do Livro de Porto Alegre. Durante a apresentação do livro no Santander Cultural, Alcy Cheuiche, falou sobre o tema. “Nosso desafio foi não só mostrar a história dos 100 anos do Banco do Brasil aqui no Rio Grande do Sul, mas a história de mulheres e homens que construíram essa história. Foi um privilégio trabalhar com vocês pela emoção, o carinho e a amizade. Vocês só não vão continuar escrevendo, e bem, se não quiserem”, discursou.


O presidente do SindBancários, Everton Gimenis, abordou o esforço que o Sindicato faz todo o ano e a importância de manter uma oficina literária no contexto político de agora. “A função primordial do nosso Sindicato é a luta da categoria. Mas o Sindicato tem que ter um papel na disputa da consciência das pessoas. Abrimos espaços culturais, como o nosso cinema, oficinas de dança e de teatro e um Festival de Música. As funções dos bancários são muito desgastantes dentro do banco. Ter um espaço de cultura e lazer é fundamental. Descobrimos que temos bancários e bancárias que são escritores de talento”, pontuou Gimenis.


Os 60 contos dos oito oficineiros foram produzidos ao longo do ano. Desde março, em encontros semanais às segundas-feiras, os oficineiros pesquisam, trocam ideias e escrevem. Neste ano, para reconstituir o centenário do Banco do Brasil, os alunos da oficina viajaram a Pelotas, Rio Grande e Bento Gonçalves. A primeira agência do Banco do Brasil foi inaugurada em 1º de março de 2016 na esquina da General Câmara (mesma rua da Casa dos Bancários, sede do SindBancários), com Sete de Setembro, no Centro Histórico de Porto Alegre. A Agência continua aberta no mesmo endereço. Após essa primeira agencia, vieram as de Pelotas e Rio Grande.


“É importante ter banco público. Neste momento em que um grupo político muito conservador e que tomou o poder sem ganhar as eleições ameaça o patrimônio público, mostramos a importância histórica de manter bancos púbicos. É preciso fortalecer cada vez mais o Banco do Brasil”, acrescentou Everton Gimenis.


Leitura de contos

No encontro do Santander Cultural, a já tradicional leitura de alguns contos ficou marcada pela democracia. Foram sorteados dois contos para serem lidos em português, pelo autor, e em espanhol pela tradutora Andrea Barrios. Assim, Michele Cardoso leu o “Canto do quero-quero”, que chamou de “uma tentativa de homenagear os bancários e os clientes que fazem o Banco do Brasil”. José Rodrigues Pereira leu “A Viagem de Numerário”, e chegou a cantar uma canção de bar que bancários costumavam entoar juntos em suas horas de lazer. De aniversários na sexta-feira, 11/11, Heraldo Velho Becker, ganhou de presente o “Parabéns a você” e a leitura do seu conto, “Grãos Dourados” sobre a importância do financiamento, via BB, da cultura agrícola da soja no Rio Grande do Sul.


Palavra de oficineiro

“Num primeiro momento, a dificuldade é criar um texto de duas páginas e reduzir para uma. Quando falamos em 1916, o centro de Porto Alegre era uma província com ruas mal desenhadas. O progresso de cada cidade veio junto com a chegada do Banco do Brasil.” Paulo Evaerte Ricalde de Freitas

“Trabalho há 41 anos na Caixa. Fiz uma linha do nosso trabalho e vivência. Tenho um filho que trabalha no Banco do Brasil. Um conto que escrevi fala da viagem que ele faz para trabalhar de Charqueadas para Triunfo. Fala da travessia de barco que ele faz diariamente.” Everton Araujo Pires

Para ver matéria e fotos, clique AQUI.

Fonte: site do SindBancários

domingo, 9 de novembro de 2014

O Tempo e o Vento – A mesma crítica política um século depois





Refeição Cultural

O Retrato II – 4º volume

Ao ler as críticas dos personagens lá nos primórdios da República Brasileira após a frustração do embate político para a eleição presidencial entre o candidato situacionista, Hermes da Fonseca, e o da oposição pela campanha civilista, Rui Barbosa, vemos comentários muito semelhantes aos que presenciamos em 2014 nas eleições presidenciais entre a candidatura de Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB). As críticas são semelhantes, mas os contextos completamente diferentes. Vemos a mesma agressividade à flor da pele, embate político marcado por certo ódio e com possibilidades remotas de conciliação entre as partes.


DESDE SEMPRE, REPÚBLICA SEM POVO

(Rodrigo Cambará, conversando com a tia Maria Valéria, revoltado pelo candidato dos militares ganhar a eleição do civilista Rui Barbosa)

“- Palavra de honra. Esse país não tem jeito. Só uma revolução.
Soergueu-se na cama, e, como se a frase anterior tivesse sido dita por ela e não por ele, perguntou:

- Fazer uma revolução com quem? Com o povo? Mas não é possível ir contra as classes armadas! (Na verdade não se estava dirigindo à tia, mas aos leitores d’A Farpa.) Neste pobre país parece que nada se pode fazer sem o concurso dos militares. Foram civis como Castilhos, Patrocínio, Bocaiuva e outros que fizeram a república com ideias. Mas na hora de dar o golpe, desgraçadamente recorreu-se ao Exército. O primeiro presidente foi um marechal. E que fez ele? Dissolveu o Congresso. Agora, pra mal dos pecados, parece que vamos ter outro soldado na presidência. Outro Fonseca! Este país está perdido. Só uma revolução!” (pág. 299)


GAÚCHOS: ASPEREZA ESPARTANA, SEGUNDO DESCRIÇÃO DA OBRA

“(...) Pensou no pai... Como acontecia com quase todos os homens do campo, Licurgo Cambará desprezava o conforto. Gaúchos como ele em geral dormiam em camas duras, sentavam-se em cadeiras duras, lavavam-se com sabão de pedra e pareciam achar indigno de macho tudo quanto fosse expressão de arte, beleza e bom-gosto. Isso explicava a nudez e o desconforto de suas casas, a aspereza espartana de suas vidas.” (pág. 301)




RUI BARBOSA X HERMES DA FONSECA

“Chiru e Saturnino entraram a discutir animadamente as eleições. Nos primeiros dias de março o Correio do Povo publicara alguns resultados parciais das cidades, que acusavam pequeno saldo de votos favorável a Rui Barbosa. Agora, porém, vinham de todo o País telegramas desanimadores para os civilistas: o Marechal estava vitorioso na maioria das urnas, e tudo indicava que o candidato oposicionista se encontrava irremediavelmente derrotado. Rui Barbosa lançara um manifesto, afirmando que as eleições haviam sido feitas sob pressão do governo, à sombra da fraude: os hermistas subtraíam as atas ou as falsificavam. A propalada neutralidade de Nilo Peçanha – clamava o candidato civilista – era como as saias postas em moda na França por Mme de Maintenon para esconder a barriga das mulheres grávidas.” (pág. 303)


O PENSAMENTO DA ELITE TACANHA SEGUE O MESMO UM SÉCULO DEPOIS

“- Mas que absurdo! – protestou Rodrigo – Para principiar: como por em prática esse individualismo aristocrático?
- Muito simples – replicou Rubim, com sua voz de flauta. Tomou um gole de champanha. – Nietzsche preconiza, e nisso estou plenamente de acordo com o Mestre, a formação do Estado militar.
- Tenente! – repreendeu-o Jairo, sorrindo.
- Estamos entre amigos, coronel. Mas, como dizia, só esse Estado militar é que poderá consolidar o domínio da casta superior, usando a força para organizar disciplinarmente todos os recursos sociais...
- Mas será uma ditadura insuportável! – atalhou-o Rodrigo. E tomou com fúria um largo gole de champanha, enchendo logo em seguida a taça com vinho branco.
- isso mesmo. Uma ditadura. E insuportável, sim, para as classes inferiores. Porque será preciso esmagar sempre todas as tentativas de insurreição das massas.”


(COMENTÁRIO: ler esse sujeito falando é o mesmo que ver em 2014 o que a elite e os tucanos pensam sobre governar para poucos e o tratamento do povo como caso de polícia)


SEGUE

“Don Pepe levantou-se, avançou para o tenente de artilharia e, erguendo a mão que segurava o copo, como se fosse atirar vinho na cara do militar, bradou:
- Pero no hay fuerza humana que pueda detener las masas!
Rubim limitou-se a lançar para o espanhol um rápido olhar neutro.
- O Brasil – continuou – é um país novo e informe, que só poderá ser governado mediante uma ditadura de ferro.
Jairo estava escandalizado.
- Tenente, o senhor está se excedendo!
Rubim sorriu e encheu o cálice de vinho.
- Coronel, estou apenas dizendo o que penso.
- Deus nos livre de ter o tenente um dia na presidência da República! – exclamou Rodrigo.
Olhou para Pepe, que começava já a dar seus passinhos para diante e para trás, e viu nos olhos do anarquista duas bombas prestes a explodir.
- Essa casta superior – prosseguiu Rubim, cruzando as pernas – não deverá de maneira nenhuma preocupar-se com a educação das classes populares. O cultivo das massas pode prejudicar os objetivos mais altos do Estado, isto é, a formação da aristocracia...” (pág. 304/305)


ARROGÂNCIA DE PARTE DA CLASSE MÉDICA VEM DE LONGE (FELIZMENTE HÁ EXCEÇÕES)

“Isso não vai lhe custar nada. A consulta é grátis. Os clientes balbuciavam agradecimentos e se iam. Rodrigo então abria as janelas para deixar entrar o ar fresco, lavava as mãos demoradamente com sabonete de Houbigant, tirava do bolso o lenço perfumado de Royal Cyclamen e agitava-o de leve junto do nariz. Concluía que o sacerdócio da medicina, visto através da arte e da literatura, era algo de belo, nobre e limpo. Na realidade, porém, impunha um tributo pesadíssimo à sensibilidade do sacerdote, principalmente ao seu olfato. Rodrigo comovia-se até as lágrimas diante da miséria descrita em livros ou representada em quadros; posto, porém, diante dum miserável de carne e osso – e em geral aquela pobre gente era mais osso que carne – ficava tomado dum misto de repugnância e impaciência. Achava impossível amar a chamada ‘humanidade sofredora’, pois ela era feia, triste e mal-cheirante. No entanto – refletia, quando ficava a sós no consultório com seus melhores pensamentos e intenções – teoricamente amava os pobres e, fosse como fosse, estava fazendo alguma coisa para minorar-lhes os sofrimentos. Não tens razão, meu caro Rubim. Podemos e devemos elevar o nível material e espiritual das massas. Tenho grande admiração por César, Cromwell, Napoleão, Bolívar; foram homens de prol, dotados de energia, coragem e audácia, figuras admiradas, respeitadas e temidas. Mas para mim, meu caro Cel. Jairo, é mais importante ser amado que respeitado e mesmo admirado. O tipo humano ideal, o supremo paradigma, seria uma combinação de Napoleão Bonaparte e Abraão Lincoln. O ditador perfeito, amigos, será o homem que tiver as mais altas qualidades do soldado corso combinadas com as do lenhador de Illinois. O diabo é que a bondade e a força são atributos que raramente ou nunca se encontram reunidos numa mesma e única pessoa. A menos que essa pessoa seja eu – acrescentou, um pouco por brincadeira e um pouco a sério.” (pág. 312)


MÉDICOS NÃO SABEM NADA: VÃO MAIS É NA APALPAÇÃO

(conversa entre o velho médico de Santa Fé e Rodrigo Cambará, o novo)

“- Já fez alguma burrada?
- Acho que sim.
- isso é do programa. Não se impressione. Acontece com todos. No final de contas os médicos não sabem nada. Nem os grandes do Rio de Janeiro nem os figurões da Europa. Todos vão mas é no palpite, na apalpação.
- Eu sei.
- E se a gente fosse pensar no que não sabe e nas doenças que não têm cura, acabava ficando louco. Tu pensas?
- Faço o possível pra não pensar.
- Olha, vou te dar um conselho. Não vás muito atrás de conversa de doentes. Eles falam demais. E quanto mais falam menos a gente entende o que é que estão sentindo.
- Já descobri isso.
- E mesmo quando não for caso de dar remédio, dê remédio, porque o paciente desconfia do doutor que não receita muita droga. E quando estiver diante dum caso complicado e ficar no escuro, receite uma dose pequena de citrato de magnésia. Não faz mal pra ninguém. É só pra ganhar tempo e estudar melhor o caso. Mas não digas nunca que não sabes. O doente pode perder a fé... e adeus, tia Chica!
- Muito obrigado pelos conselhos, doutor.” (pág. 317)


MELHOR QUE MÉDICO, SÓ AS BENZEDEIRAS

“- E não te iludas com a clientela. No fundo essa gente acredita mas é nessas negras velhas benzedeiras e nos curandeiros. E quando a gente não acerta logo com o remédio pros achaques deles, procuram logo o índio Taboca, que vem com as suas aguinhas milagrosas e suas benzeduras.
- Em caso de aperto – sorriu Rodrigo – o recurso então é pedir uma conferência médica com o Taboca.” (pág. 318)


O DESPEITO DO DOUTOR BRANCO EM RELAÇÃO AO CURANDEIRO E AO PEÃO

(após contar que o Taboca salvou um peão picado de cobra)

“Olhando para o peão, Rodrigo fez reflexões amargas. Taboca, um curandeiro índio, acabara de salvar a vida do negro Antero, que no Angico partilhara com ele, Dr. Rodrigo, o amor da chinoca Ondina. Era o desprestígio da raça branca, da cultura e da ciência! – concluiu, sorrindo e achando tudo aquilo muito estranho. Chers Messieurs Richet et Charcot, estais convidados a explicar os mistérios das milagrosas aguinhas do Taboca! Porque moi, eu desisto.” (pág. 319)


DIGESTÃO CULTURAL

Relendo esses trechos do capítulo Chantecler, do quarto volume de O Tempo e o Vento, fiquei impressionado com a atualidade dos debates e dos discursos ao relembrar o horror que estamos vivendo na atualidade em nosso país, após as eleições presidenciais de 2014. O mesmo ódio, a mesma arrogância de classe “superior” versus a “massa inculta” e coisas do gênero.

Que dizer então dos últimos trechos sobre a arrogância de alguns médicos brancos, filhos da elite, que ao exercer a profissão, chegam a ter nojo dos pobres “mal-cheirantes” como disse o nosso herói Dr. Rodrigo Cambará?

Nas primeiras citações que fiz, é destaque e fica claro que por dezenas de anos, a política e o Estado ficaram na mão das elites, que disputavam entre si, o domínio e os bens públicos, para total apropriação do público para uso privado pelas elites brancas seculares. Até que no século XXI de nossa era surge um metalúrgico, oriundo das classes populares, e vindo da região mais explorada do país, o Nordeste, e vence as eleições presidenciais e começa a mudar o país, a contragosto das elites dominantes desde sempre.

É isso.



As coisas estão aí. É só abrir os olhos e ver. E vendo, compreender o que está em jogo. Há que se ter lado, e o meu é o da classe trabalhadora, é contra as elites históricas que tratam o povo como gente inferior. Eu detesto essa tal “aristocracia”!

William

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A vida era boa, era bela, tinha um sentido






Refeição Cultural

A vida era boa, era bela, tinha um sentido

“Rodrigo suspirou. Num ponto o poeta (Lamartine) se enganava. Cada homem tem, sim, seu porto. O dele, Rodrigo Terra Cambará, era Santa Fé, onde lançara profundamente sua âncora. O tempo, certo, não tinha margens, deslizava como um rio e o homem passava. Mas quantas coisas grandes e belas podia fazer durante sua passagem pela terra!”

(O Tempo e o Vento – O Retrato I, Chantecler, Capítulo V, parte 2, página 129)


Mais uma vez, paro cismando sobre as reflexões do personagem Rodrigo Cambará. Este é o neto do Rodrigo Cambará que chegou a Santa Fé lá nos anos 30 do século XIX e decidiu ficar e conquistar a bela Bibiana Terra. O neto está pensando sobre a vida valer a pena uns oitenta anos depois. Ele está entrando em 1910.

Essas reflexões desses Cambarás têm me levado a pensar aqui no século XXI sobre a vida e as coisas da vida. Esse é um dos muitos presentes que a leitura brinda a seus amantes: a análise e a reflexão dos fatos; a parada para olhar, pensar, sentir e avaliar aonde podem chegar as coisas.


“Estava decidido a conquistar Santa Fé, a submetê-la à sua vontade, a moldá-la de acordo com seus melhores sonhos. Não se deixaria dominar por ela. Jamais se entregaria ao desânimo e à rotina. Jamais seria um maldizente municipal como o Cuca Lopes, um indolente inútil como o Chiru Mena e muito menos um capacho como o Amintas. Não perderia de vista Paris, e não esqueceria nunca que o mundo não terminava nos limites do município de Santa Fé.”

(O Tempo e o Vento – O Retrato I, Chantecler, Capítulo V, parte 2, página 129)


Veja que belo propósito do personagem Rodrigo Cambará. Ele acaba de voltar de seu período de estudos de medicina fora de Santa Fé. Ficou cinco anos fora.

Nesta fala dele fiquei pensando em conversas comuns que tive com conhecidos nestes últimos dias de minhas férias. As pessoas falam o tempo todo as frases básicas de que estão desanimadas com as coisas, que ninguém faz nada mesmo pela cidade, pelo país, que não adianta acreditar em um partido ou em algum movimento, que todos e tudo é a mesma coisa...

É impressionante ouvir isso!

Não é verdade! Tudo e todos NÃO são a mesma coisa! 

Mas... francamente, em hipótese alguma ficar parado e não fazer nada traz o mesmo resultado de arregaçar as mangas e fazer alguma coisa!

“Sob as estrelas daquela última noite do ano de 1909, Rodrigo Cambará fez um silencioso juramento. Cumpriria seus propósitos, acontecesse o que acontecesse. Sentiu-se forte, nobre e bom. Se realizasse todas as belas coisas que projetava, sua passagem pela terra não teria sido em vão. E se de algum ponto do universo Deus pudesse vê-lo e ouvi-lo... Mas Deus existia mesmo? Tornou a olhar para o céu e, tocado pela tranquila e profunda beleza da noite, concluiu que Deus não podia deixar de existir. A terra era boa, a vida era bela, a vida tinha um sentido.”

(O Tempo e o Vento – O Retrato I, Chantecler, Capítulo V, parte 2, página 129)

Eu vou retomar a vida caótica que me impossibilita a leitura de literatura. Isso me faz muita falta...

O pouco que fuço nas obras de grandes autores, acho gotas de ânimo para seguir adiante na vida, na luta, buscando sentido para a dureza das coisas.

A gente relê um pouquinho do Dom Quixote e fica encantado com aquele senhor cinquentenário, que decide sair pelo mundo lutando pelos fracos e oprimidos em nome de sua honra e de seu país, que busca recuperar uma época de ouro que nunca existiu na vida real, somente nas obras literárias, mas é encantador toda essa utopia e esse ânimo de fazer as coisas.

Desânimo, todos nós temos, mas a luta e as melhorias em nosso mundo têm que ser feitas... então, não tem jeito, temos que fazê-las. É simples assim a nossa passagem pelo mundo.

É isso!


William Mendes


Bibliografia:


VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento – O Retrato I. Editora Globo. 31ª edição. 1995

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O Medo – Cenas literárias






O Medo – cenas literárias


In: O Tempo e o Vento – O Continente (capítulo: O Sobrado I)


Érico Veríssimo descreve através do personagem Liroca, José Lírio, a sensação do medo numa noite de São João, durante o combate entre maragatos e pica-paus, lá no ano de 1895, em Santa Fé, Rio Grande.


“Os segundos passavam. Era preciso cumprir a ordem. Liroca não queria que ninguém percebesse que ele hesitava, que era um covarde. Sim, covarde. Podia enganar os outros, mas não conseguia iludir-se a si mesmo. Estava metido naquela revolução porque era federalista e tinha vergonha na cara. Mas não se habituava nunca ao perigo. Sentira medo desde o primeiro dia, desde a primeira hora – um medo que lhe vinha de baixo, das tripas, e lhe subia pelo estômago até a goela, como uma geada, amolecendo-lhe as pernas, os braços, a vontade. Medo é doença: medo é febre.

                Engraçado. A noite estava fria mas o suor escorria-lhe pela cara barbuda e entrava-lhe na boca, com gosto de salmoura.

                O tiroteio cessara ao entardecer. Talvez a munição da gente do Sobrado tivesse acabado. Ele podia atravessar a rua devagarinho, assobiando e acendendo um cigarro. Seria até uma provocação bonita. Vamos, Liroca, honra o lenço encarnado. Mas qual! Lá estava aquela sensação fria de vazio e enjoo na boca do estômago, o minuano gelado nos miúdos.

                Donde lhe vinha tanto medo? Decerto do sangue da mãe, pois as gentes do lado paterno eram corajosas. O avô de Liroca fora um bravo em 35. O pai lhe morrera naquela mesma revolução, havia pouco mais dum ano – tombara estripado numa carga de lança, mas lutando até o último momento.

                “Lírio é macho” – murmurou Liroca para si mesmo. “Lírio é macho.” Sempre que ia entrar num combate, repetia estas palavras: “Lírio é macho.”

                (...)”


COMENTÁRIO

A literatura de qualidade tem uma beleza que muitas vezes não é percebida pelo leitor. Abrimos o livro e vamos embora pelas páginas, numa leitura rápida e descompromissada.

Os bons autores têm uma grande capacidade de por em palavras atos, fatos e sensações que nos satisfazem no ato da leitura.

Quantas vezes o leitor não se pega sozinho pensando ou falando alto que sempre pensou aquilo que acabou de ler, mas nunca tinha conseguido enunciar ou escrever tal coisa de maneira tão... tão perfeita e tão completa! Tão definitiva!

O ato da leitura de obras de qualidade tem o dom de introduzir em nós reflexões que estarão para sempre lá em nossa memória, nas sensações que tivemos durante o prazer da leitura. Lá adiante, nós não nos lembraremos exatamente das palavras, mas o significado delas terá ficado naquilo que nos tornamos.



A leitura nos dá oportunidades de avançar nos conhecimentos do mundo. A partir dela e mesclados com nossos atos no mundo em que vivemos, poderemos ser pessoas melhores atuando por um mundo melhor.



Bibliografia:


VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento – O Continente I. Editora Globo. 31ª edição. 1995