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sábado, 18 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (48) - A inspiração em Caeiro, de Wmofox



A INSPIRAÇÃO EM CAEIRO - Wmofox


A necessidade de escrever continua.
É importante buscar a felicidade 
ou mais prazer no existir.
Caeiramente, 
existe o Sol 
e o luar 
e os montes 
e as flores 
e as árvores.

Preciso achar o meu Sol 

e a minha Lua 
e as minhas árvores 
e os meus montes 
e as minhas flores.

Sei que os dele são concretos,

mas os meus podem ser metafóricos.

Meu Sol, que a tudo dá vida,

pode ser as Letras, os livros.
Quem sabe minha Lua 
não seja a música?

Minha família consubstancia

as árvores e suas raízes.
Os montes projetam 
o meu prazer pelo esporte
e pelo silêncio e frescor 
dos cimos altos 
que me apaixonam.

As flores... 

bem, as flores são as flores, 
pois que isso me convém.


Wmofox

08/04/06

---

COMENTÁRIO:

Hoje vou postar outro poema meu.

Durante o dia, trabalhei um pouco a revisão de meus textos no blog. Terminei a coletânea de poemas que publiquei ao longo de quase duas décadas no Refeitório Cultural.

Vou encadernar minha produção poética. São 39 poemas e alguns eu gostei bastante ao relê-los, seguem de meu agrado. 

Sobre o poema "A inspiração em Caeiro", digo que Alberto Caeiro é o heterônimo que mais gosto do poeta Fernando Pessoa. 

Não conheço muito a obra do poeta, mas adoro "O guardador de rebanho", de Caeiro.

É isso! Tenho intenção de seguir lendo poesia.

William


Post Scriptum: soube que faleceu neste sábado o grande jornalista Marco Weissheimer, de câncer. Leio seus textos desde a criação do Portal da Carta Maior no início dos anos dois mil. Aprendi muito com ele. Nossos sentimentos à família e aos amig@s.


domingo, 10 de janeiro de 2016

Poema - A inspiração em Caeiro


A necessidade de escrever continua.
É importante buscar a felicidade
ou mais prazer no existir.
Caeiramente,
existe o Sol
e o luar
e os montes
e as flores
e as árvores.

Preciso achar o meu Sol
e a minha Lua
e as minhas árvores
e os meus montes
e as minhas flores.

Sei que os dele são concretos,
mas os meus podem ser metafóricos.

Meu Sol, que a tudo dá vida,
pode ser as Letras, os livros.
Quem sabe minha Lua
não seja a música?

Minha família consubstancia
as árvores e suas raízes.
Os montes projetam
o meu prazer pelo esporte
e pelo silêncio e frescor
dos cimos altos
que me apaixonam.

As flores...
bem, as flores são as flores,
pois que isso me convém.


Wmofox
08/04/06

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Crônica: Férias na Praia Grande (SP)


Leitura, cervejinha, ócio...
Colônia Sinpro SP.


REFEIÇÃO CULTURAL - FÉRIAS NA PRAIA GRANDE SP

Passamos seis dias na colônia de férias do Sinpro São Paulo (Sindicato dos Professores) na cidade de Praia Grande - SP.

Sempre que possível, dou um jeito de irmos lá. É um dos poucos lugares em que eu realmente consigo descansar quando viajo e quando não estou no trabalho e militância.

O lugar é simples, bem simples, e isso é o que me agrada. A comidinha é com sabor caseiro, são poucas vagas – no máximo 20 famílias – e a própria região da praia também é organizada.

Já fui a várias praias dessas bem-conceituadas do Nordeste. Famosas e isso e aquilo. Certa vez, escrevi que não havia diferença alguma em estar em uma praia do Nordeste ou do Sul e estar nas praias da região de Praia Grande - SP. Eu reafirmo o que sempre digo.

Foram dias de leitura, corridinhas e caminhadas na praia, cervejinha na piscina, dormir depois do almoço, passeio na feirinha de artesanato, ócio e não fazer nada com hora marcada, jogar conversa fora...

Para descansar, eu não troco passar uns dias na Colônia por nenhum pacote de viagem desses pomposos de trocentos mil reais.

Fui feliz! Pena que acabou!

William

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Em homenagem à Praia Grande dos paulistas, segue o poema de Alberto Caeiro.


"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que veem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele."

Alberto Caeiro

domingo, 20 de novembro de 2011

A Náusea – Perceber-se a existir (ou só Existir)


Jean-Paul Sartre

A NÁUSEA – PERCEBER-SE A EXISTIR (OU SÓ EXISTIR)

Diálogos entre ideias de Sartre e Fernando Pessoa.
Com a palavra: Antoine Roquentin e Alberto Caeiro

Para tentar entender a obra de Sartre e sua filosofia existencialista, fico buscando relações pertinentes na literatura e nos autores que já conheço para possíveis intertextualidades.
A partir da ideia de Existencialismo e do Existir lembrei-me de Alberto Caeiro e do “Guardador de Rebanhos”.
Creio ser interessante, neste momento, simplesmente deixar os dois falarem entre si e ficar observando o debate de ideias e, vez por outra, expressar algum comentário.

ANTOINE ROQUENTIN (os sublinhados são meus)

“Esse momento foi extraordinário. Estava ali, imóvel e gelado, mergulhado num êxtase horrível. Mas, no próprio âmago desse êxtase, algo de novo acabava de surgir; eu compreendia a Náusea, possuía-a. A bem dizer, não me formulava minhas descobertas. Mas creio que agora me seria fácil colocá-las em palavras. O essencial é a contingência. O que quero dizer é que, por definição, a existência não é necessidade. Existir é simplesmente estar presente; os entes aparecem, deixam que os encontremos, mas nunca podemos deduzi-los. Creio que há pessoas que compreendem isso. Só que tentaram superar essa contingência inventando um ser necessário e causa de si próprio. Ora, nenhum ser necessário pode explicar a existência: a contingência não é uma ilusão, uma aparência que se pode dissipar; é o absoluto, por conseguinte a gratuidade perfeita. Tudo é gratuito: este jardim, esta cidade e eu mesmo. Quando ocorre que nos apercebamos disso, sentimos o estômago embrulhado, e tudo se põe a flutuar como outra noite no Rendez-vous des Cheminots: é isso a Náusea (...)”

Fernando Pessoa

ALBERTO CAEIRO (GUARDADOR DE REBANHOS 1911-1912)
V
Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol

E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados

      [das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.


E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

COMENTÁRIO:
Eu já sou fã de Caeiro há um bom tempo. A maravilha do estudo e da leitura é poder usar da intertextualidade e buscar fazer relações de ideias e concepções de grandes pensadores.
É interessante também a ideia do poeta fingidor. As palavras aqui citadas de Caeiro e de Roquentin não são expressões de sujeitos de carne e osso.
Mas AS PALAVRAS SÃO REAIS, EXISTEM, E COOPTAM PESSOAS QUE SE IDENTIFICAM COM ELAS. Então existem! Além dos volumes literários de Sartre e Pessoa.
Existem em mim, em meu texto que incorpora as palavras e ideias deles – homens e personagens. Estão em mim.

Bibliografia:
PESSOA, Fernando. Poemas Escolhidos. Da série “Ler é aprender” de O Estado de S. Paulo, Editora Klick, 1997.
SARTRE, Jean-Paul. A Náusea. Círculo do Livro, 1988-89.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Poema VII - Da minha aldeia (Caeiro)



O guardador de rebanhos - Alberto Caeiro 

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena

Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para
           [longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos
           [olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


COMENTÁRIO:


Li este poema para os participantes de um de nossos cursos de formação sindical da Contraf-CUT em parceria com o Dieese. Ali me referia a atitude que um militante e dirigente sindical deve ter no olhar do mundo.


Também me referi a outras partes deste poema de Caeiro na casa de meus pais certo fim de semana. Várias coisas pensei estando ali, em relação ao que Caeiro fala sobre a Natureza, sobre Deus, sobre o lugar de onde somos, dentre outras coisas.


Leiam o poema inteiro quem não o conhece ainda. 


É MARAVILHOSO!



Post Scriptum (21/4/16):

Escrevi no perfil facebook em 5/11/11 (dois dias antes desta postagem): 

Momento raro!
Estou em MG curtindo meu paizinho, mãezinha e vovózinha, e minha família distante. Quase não pude vê-los neste semestre de lutas contra os putos dos banqueiros e capitalistas.
Carpe Diem. O momento é agora, depois sabe-se lá...

domingo, 31 de maio de 2009

Poema - Musas para o existir


Desenho de Mário Augusto.

Musas para o existir

Não pode ser!
Aceitar a ideia de sobrevida diária
passivamente, pacificamente.

Não pode ser!
Conformar-se em ser infeliz
cotidianamente, diuturnamente.

Caeiro...
Talvez a inspiração em Caeiro seja a solução:
não pensar, não buscar motivos. Só existir.

Drummond...
Atingido o primeiro estágio,
nada mal transfigurar-se em Drummond,
para seguir adiante:

Parecer delicado,
porém ser forte e robusto com as palavras e atos;
parecer negativo,
porém explodir esporadicamente em esperanças;
parecer escondido
atrás dos óculos e bigode, porém irradiar sempre.

Graciliano...
Atingido o segundo estágio,
o ideal, o meu ideal:
ser conciso como Graciliano.

Dizer apenas o necessário,
mas de forma incontestável.
Nunca estar satisfeito com a forma,
por acreditar ser possível dizer mais
com menos.


Wmofox, 8/4/06

Poema - Musas para o existir: Caeiro, Drummond, Graciliano.


Desenho de Mário Augusto.

(em prosa)

Não pode ser, aceitar a ideia de sobrevida diária passivamente, pacificamente.
Não pode ser, conformar-se em ser infeliz cotidianamente, diuturnamente.
Talvez a inspiração em Caeiro seja a solução: não pensar, não buscar motivos; só existir.

Atingido o primeiro estágio, nada mal transfigurar-se em Drummond para seguir adiante: parecer delicado, porém ser forte e robusto, com as palavras e atos; parecer negativo, porém explodir esporadicamente em esperanças; parecer escondido atrás dos óculos e bigode, porém irradiar sempre.

Atingido o segundo estágio, o ideal, o meu ideal, ser conciso como Graciliano: dizer apenas o necessário, mas de forma incontestável; nunca estar satisfeito com a forma, por acreditar ser possível dizer mais com menos.

Wmofox, 8/4/06