Mostrando postagens com marcador Literatura Tcheca. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Literatura Tcheca. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Livro: O processo - Franz Kafka



Refeição Cultural - Cem clássicos

Dias atrás, assisti ao filme O processo (1962), dirigido por Orson Welles, com Anthony Perkins na interpretação de Joseph K. e o próprio Welles na interpretação do advogado Albert Hastler. O filme é inspirado no clássico homônimo de Kafka. Algumas cenas e cenários criados pelo diretor se encaixaram perfeitamente nas imagens que eu havia criado em minha mente quando li o livro pela primeira vez. Muito legal isso!

O processo, obra fantástica e inacabada do escritor tcheco Franz Kafka, organizada e publicada postumamente por seu amigo Max Brod, é uma estória claustrofóbica, única, que nos traz agonia, mas é uma leitura necessária em algum momento da vida dos leitores engajados em obras clássicas. Felizmente, tive a oportunidade de ler e reler esse livro de Kafka. 

Tenho duas edições. Uma da coleção Clássicos de Bolso, da Ediouro, com prefácio e tradução de Torrieri Guimarães. Nessa edição consta que a li em fevereiro de 2001. A outra edição é do Círculo do Livro, com tradução de Manoel Paulo Ferreira, volume que reli agora. 

Terminei a releitura hoje, leitura iniciada e retomada várias vezes entre 2016 e agora. Peguei pra ler o livro de Kafka durante o golpe de Estado no Brasil, durante o processo de lawfare no qual fui vítima em meu mandato eletivo de gestor de saúde - um verdadeiro processo kafkiano -, e li vários trechos durante o maior dos processos kafkianos da história jurídica mundial, a merda toda montada contra o presidente Lula e a democracia no Brasil.

O clássico processo pelo qual passa o bancário Joseph K. já foi interpretado de várias formas ao longo do século de existência da obra. O que Lula enfrentou seria (ainda é) um fato bem concreto do mundo real para se comparar ao processo no qual Joseph K. foi vítima da burocracia de um Estado totalitário. Assim como K., até o momento o cidadão Lula não encontrou a Justiça e segue condenado sem crime, sem culpa, sem provas e sem acesso à Lei. 

A postagem não tem objetivo de fazer análise crítica da obra, é mais um registro pessoal de minhas leituras clássicas.

Por sinal, o processo kafkiano pelo qual passamos no Brasil desde o golpe de Estado, a tomada das instituições por neofascistas e todo tipo de bandidos e gente da pior espécie, com consequências irreversíveis como a destruição do país não me deixam muito ânimo para escrever a respeito dessa tragédia que vivemos. Processos kafkianos nos levaram à banalidade do mal, para usar uma expressão de Hannah Arendt.

O processo é um clássico atemporal, assim como seu autor Franz Kafka (ou "Kafta" como disse um ministro da "educação" do atual regime neofascista no Brasil). 

A leitura vale muito a pena, ontem, hoje e sempre.

William


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Leitura: Um artista da fome, seguido de Na colônia penal (1924) - Franz Kafka





Refeição Cultural - Mundo kafkiano

"Esta é a situação. O capitão me procurou há menos de uma hora, tomei o depoimento dele e no instante seguinte lavrei a sentença. Tudo foi muito simples. Se eu o tivesse chamado para um interrogatório, só haveria confusão..." (Na colônia penal, 1919)


Ao ler sobre leitores e leituras, e atos de leitores, e atos de leituras, e consequentemente, atos de escritores leitores, cheguei a este pequeno livro de Franz Kafka, dado de presente a mim por minha esposa já faz alguns anos.

Estava lendo a respeito de leitores no livro do escritor argentino Ricardo Piglia - O último leitor (2005) - livro no qual ele dedica capítulos de reflexão a escritores e livros clássicos. Um dos capítulos é sobre Kafka - "Uma narrativa sobre Kafka" - e ao ler o ensaio de Piglia aprendemos tanto sobre o escritor tcheco que o desejo é sair lendo e relendo tudo o que temos dele ou sobre ele.

Do escritor já li duas obras - "O processo" e "A metamorfose" -, esta publicada em vida e aquela após sua morte precoce por tuberculose em 1924. Fuçando em minha estante, encontrei edições de outras obras de Kafka, ainda por serem lidas: "O castelo", "América" e esta coletânea com 4 contos "Um artista da fome", junto com "Na colônia penal".

Fiz uma postagem sobre minha 3ª leitura do livro "A metamorfose", realizada em março de 2016. Aos interessados é só clicar AQUI. Sobre o livro "O processo", que peguei para reler em 2015, fiz postagens naquele ano, associadas ao que estava acontecendo no Brasil, mas não terminei a releitura ainda.

Amig@s, como é interessante ler a respeito do autor e de seu contexto para complementar a nossa leitura crítica de suas obras!

A leitura dos textos do livro "Um artista da fome, seguido de Na colônia penal & outras histórias" foi de boa compreensão porque já entrei na leitura com algum conhecimento prévio sobre eles e sobre o autor.

As estórias "Primeira dor", "Uma pequena mulher", "Um artista da fome", "Josefine, a cantora ou O povo dos ratos" e "Na colônia penal" são de leitura difícil, na minha opinião. O da ratinha cantora, por exemplo, foi um desafio, pois em determinado momento senti que não estava entendendo nada. Fiz uma pesquisa na rede mundial e encontrei um trabalho acadêmico sobre esse conto e foi muito legal a análise feita pelo autor do trabalho.

PRIMEIRA DOR

"Um trapezista - sabe-se que essa arte praticada nas alturas da cúpula dos grandes teatros de variedades é uma das mais difíceis ao alcance do homem - havia, a princípio apenas como um esforço em busca de aperfeiçoamento, mais tarde também por um costume tirânico, ordenado sua vida de modo que, enquanto trabalhasse em uma única temporada, pudesse passar dia e noite em cima do trapézio..."

A ideia de isolamento, de viver numa caverna, para poder escrever e produzir ininterruptamente, está clara neste personagem de Kafka. Sobre essa questão, foi muito interessante a leitura que já havia feito de Piglia sobre o autor tcheco.

UMA PEQUENA MULHER

"(...) Essa pequena mulher está muito insatisfeita comigo, tem sempre algo a criticar em mim, sempre uma injustiça a me imputar, irrito-a por tudo e por nada; se alguém pudesse separar a vida em suas menores partes e analisar cada uma das partezinhas isoladas, sem dúvida cada partezinha da minha vida seria motivo de irritação para ela. Muitas vezes perguntei-me por que a irrito tanto; pode ser que tudo em mim contrarie seu senso estético, seu sentimento de justiça, seus hábitos, suas tradições, suas esperanças, existem naturezas assim, contrárias, mas por que ela sofre tanto com isso? Não existe relação nenhuma entre nós que pudesse levá-la a sofrer por minha causa. Bastaria ela decidir me encarar como um estranho total, o que afinal sou, e eu sequer me oporia a essa decisão, pelo contrário, recebê-la-ia de braços abertos, bastaria ela decidir esquecer minha existência, que eu jamais impus nem seria capaz de impor a ela - e todo o sofrimento desapareceria..."

Ao ler esse excerto, já é possível avaliar como Kafka aborda temáticas de difícil manuseio como a questão da mulher. Na minha leitura de século 21, por exemplo, não gostei do termo usado por ele no conto (se a tradução estiver fiel) ao se referir à mulher como "mulherzinha". Mas literatura tem dessas coisas.

UM ARTISTA DA FOME

"Nas últimas décadas o interesse pelos artistas da fome diminuiu bastante. Enquanto antes era um bom negócio organizar grandes apresentações do tipo por conta própria, hoje em dia é totalmente impossível. Os tempos eram outros. Naquela época a cidade inteira se ocupava com o artista da fome; a cada dia de jejum o público aumentava; todos queriam ver o artista da fome pelo menos uma vez por dia; nos últimos dias havia quem passasse o dia inteiro sentado diante da pequena jaula; à noite também havia visitação, à luz de tochas, para aumentar o efeito; nos dias bonitos a jaula era transportada ao ar livre, e então eram principalmente às crianças que exibiam o artista da fome; enquanto para os adultos ele não era mais do que um passatempo, com o qual se entretinham porque era moda, as crianças olhavam-no impressionadas, de boca aberta, com as mãos dadas para vencer o temor, enquanto o homem, pálido, vestindo um abrigo escuro, com costelas muito protuberantes, desprezando até mesmo uma cadeira, ficava sentado na palha, com um aceno polido de cabeça, respondia perguntas com um sorriso forçado e estendia o braço por entre as barras, para que pudessem sentir com as mãos sua magreza, quando então ele se recolhia uma vez mais em si mesmo, não se preocupava com mais ninguém, nem mesmo com as graves badaladas do relógio, que era o único móvel no interior da jaula, mas apenas olhava para o vazio com os olhos semicerrados e de vez em quando bebericava um gole d'água para umedecer os lábios."

Esse é o longo primeiro parágrafo do conto. A cena é bem forte. Chamativa.

"O artista poderia jejuar tão bem quanto quisesse, e era o que fazia, mas nada mais poderia salvá-lo; passavam por ele sem ao menos notá-lo. Tente explicar a alguém a arte da fome! Não há como torná-la compreensível a alguém que não a sente..."

Sentiram a pegada do conto? Muitos críticos apontam esse conto como um dos contos mais autobiográficos de Kafka.

Além disso, é um conto bastante metafórico.

JOSEFINE, A CANTORA OU O POVO DOS RATOS

"Nossa cantora chama-se Josefine. Quem nunca a ouviu não conhece a força do canto. Não existe quem não fique deslumbrado com o canto dela, um fato ainda mais admirável porque, em geral, nossa espécie não aprecia a música. A música que mais apreciamos é a paz silenciosa; nossa vida é dura, por mais que tentemos deixar de lado as preocupações do dia a dia, não conseguimos elevar-nos a coisas tão afastadas do nosso cotidiano como a música..."

Esse é outro conto bastante metafórico e hermético, na minha opinião. Após a leitura, fiquei com dúvidas de entendimento. Ao ler um trabalho de interpretação sobre o conto, fiquei com uma compreensão melhor. Terei que reler o conto mais vezes.

NA COLÔNIA PENAL

"O explorador queria fazer várias perguntas, mas ao ver o homem perguntou apenas: 'Ele conhece a sentença?' 'Não', disse o oficial e tentou dar prosseguimento à explicação, mas o explorador interrompeu-o: 'Ele não conhece a própria sentença?' 'Não', disse mais uma vez o oficial, deteve-se por um instante, como se exigisse do explorador uma fundamentação mais precisa para a pergunta, e então disse: 'Seria inútil comunicá-la. A sentença é aplicada ao corpo' (...) 'Mas ele sabe ao menos que foi condenado?' 'Também não', disse o oficial e abriu um sorriso ao explorador, como se esperasse dele mais alguns questionamentos estranhos. 'Ora', disse o explorador e passou a mão pela testa, 'então este homem também não sabe como sua defesa foi recebida?' 'Ele não teve nenhuma oportunidade de apresentar uma defesa', disse o oficial e desviou o olhar, como se falasse consigo próprio e não quisesse constranger o explorador com explicações sobre coisas tão evidentes. 'Mas ele precisa de oportunidade para apresentar uma defesa', disse o explorador e levantou-se da cadeira..."


Essa é a condição dos condenados na novela de Kafka. Os condenados não sabem que estão condenados, não sabem a sentença e não têm a menor chance sequer de se defenderem. Já viram algo parecido no mundo real? Algum processo entre o Estado e o cidadão, onde o cidadão não tem a menor chance de se defender do sistema?

O melhor vem agora, o juiz e sua postura e seu poder ilimitado, parecendo um caso recente na república bananeira em que vivemos.

"A coisa funciona do seguinte modo. Fui nomeado juiz aqui na colônia penal. Apesar da minha pouca idade. Porque estive ao lado do antigo comandante em todas as ocorrências criminais e sou quem melhor conhece o aparelho. O princípio que guia as minhas decisões é: a culpa é sempre indubitável. Outras cortes podem não se pautar por esse princípio, porque são compostas por muitos membros e também porque têm cortes mais altas acima de si. Não é o que acontece aqui, ou ao menos não era o que acontecia com o antigo comandante..."

Amig@s leitores, apesar da semelhança com fatos reais, isso não é uma descrição do dia a dia do Brasil com seu novo regime de lawfare, é um texto ficcional publicado em 1919 por Kafka.

A novela é chocante, é o cenário típico e constante nos textos de Franz Kafka. Um mundo angustiante, um mundo distópico, com processos absurdos e totalitários contra os frágeis humanos frente a sistemas opressores e aniquiladores.

Enfim, leitura feita e cinco novas estórias de Kafka na bagagem. Recomendo o livro aos leitores e leitoras.

William

domingo, 13 de março de 2016

A metamorfose (1912) – Franz Kafka




Refeição Cultural - Literatura tcheca

“Gregor Samsa acordou naquela manhã de sonhos agitados e viu-se na sua cama transfigurado num enorme inseto. Estava deitado sobre suas costas, tão duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, pode ver o ventre curvo, castanho, dividido por pregas arqueadas, sobre o qual o cobertor, dificilmente se sustinha e estava a ponto de cair completamente. As inúmeras pernas, deploravelmente finas se comparadas com o resto do corpo, balançavam desamparadas diante dos seus olhos.

- O que me aconteceu?, pensou...”



Assim começa uma das estórias mais fantásticas e mais dramáticas da literatura clássica mundial. Fiz a leitura pela terceira vez nestes meus 46 anos. O momento por que passa meu país, do absurdo golpismo e fascismo que tomou conta do cotidiano do Brasil, nos remete a leituras que versam sobre mundos distópicos, sobre mundos dramáticos e nos remete a obras de cunho melancólico e depressivo.

Ao longo de um século, várias foram as leituras críticas e interpretativas das obras do autor tcheco Franz Kafka. Neste momento em que reli o drama de Gregor Samsa, evidenciou-me metáforas dramáticas sobre o peso de ser proletário num mundo capitalista e ainda ter que cuidar da família.


“Não parecia um sonho. Seu quarto, um verdadeiro quarto humano, apenas bastante simples, continuava tranquilo entre as quatro paredes bem familiares. Por cima da mesa, se espalhava, aberta, uma série de amostras de tecidos – Samsa era caixeiro-viajante – e estava pendurada uma fotografia que ele, recentemente, havia recortado de uma revista ilustrada e mandara colocar numa linda moldura dourada. Exibia uma moça de chapéu e estola de pele, sentada, a estender um enorme regalo também de peles, no qual todo o seu antebraço desaparecia.”


Fica evidente a condição de Gregor Samsa, proletário. Aliás, a primeira demonstração da metáfora para o trabalho que maltrata está na reflexão de Gregor logo na segunda página, quando lamenta o quanto seu trabalho é cansativo.


“ – Ah, meu Deus! Pensou – Que trabalho cansativo escolhi. Viver viajando, dia sim, dia não. A agitação comercial é mais irritante que o próprio trabalho do escritório, além disso há a cansativa necessidade de viajar, sempre preocupado com troca de trens, fazendo refeições a qualquer hora, num convívio humano superficial que nunca se torna íntimo. Aos diabos com tudo isso!”


Aff! Se eu trocar o transporte citado por ele (trem) por avião, posso utilizar essa expressão do cansaço de viver viajando. Aliás, eu poderia ter escolhido o conforto de passar meu mandato sentado no escritório da sede da empresa que administro, mas não é de minha natureza e nem meu perfil ficar sem ir às bases sociais que represento. A consequência é dobrar as jornadas de trabalho para dar conta do dia a dia do escritório, e da agenda de viagem às bases.


Logo em seguida, Gregor imobilizado na cama como um inseto, lembra o quanto gostaria de dormir mais um pouco porque “o ser humano precisa de seu sono”. Lembra que não pode ter regalias como os comerciantes para quem vende os produtos e nem como o seu chefe, que tem que suportar falando sentado do alto de sua mesa para baixo ao lidar com Gregor. Tudo porque ele tem que trabalhar ainda uns cinco anos para pagar uma dívida de seus pais.

Por fim, ali imobilizado, começa o desespero de Gregor por sua condição porque ele vai perder o trem para o trabalho.


“Mas, e agora, o que deveria fazer? O próximo trem sairia às sete horas; para embarcar precisaria correr como louco, o mostruário ainda não estava na mala e ele mesmo não se sentia preparado e ativo. E mesmo que pegasse o trem, seria inevitável uma repreensão do chefe, pois o contínuo da firma teria esperado junto ao trem das cinco e fazia muito tempo que havia comunicado sua ausência. O contínuo era uma criatura do chefe, invertebrado e sem pensamentos próprios...”


Alguma semelhança com o que os trabalhadores vivem nos seus locais de trabalho cada vez mais degradados por assédio, condições humilhantes, e colegas puxando o tapete uns dos outros?


E a questão da dedicação total ao patrão, não querendo faltar nem quando está doente?


“E, se avisasse que estava doente? Mas isso seria desagradável e suspeito, pois durante os cinco anos de serviço Gregor nunca tinha adoecido. Certamente o chefe o visitaria com o médico do seguro de saúde, censuraria os pais pela preguiça do filho e não aceitaria desculpas, apoiado no médico, para quem não existia doentes, só pessoas inteiramente saudáveis, mas refratárias ao trabalho. E, será que estava tão enganado, dessa vez? Certamente, com exceção de uma sonolência inútil depois de tão longo sono, Gregor sentia-se muito bem e até mesmo com uma fome especialmente forte...”


Já no início do século passado, havia a relação complicada entre alguns médicos e os capitalistas para atestarem que o empregado estava bom para trabalhar e não parar a produção.

(poderia seguir incluindo excertos marcantes, mas vale a pena recomendar que o leitor e a leitora abram o livro e leiam a obra)

.............................



Enfim, a releitura da obra neste momento me fez sentir uma tristeza e uma certa impotência doída.

Neste momento histórico (2016), os empresários capitalistas preparam um Golpe de Estado no Brasil contra um governo e um partido que mudaram objetivamente, após a eleição de um metalúrgico nordestino em 2002, a vida de dezenas de milhões de miseráveis e de proletários, gente à margem da sociedade como, por exemplo, os milhões de brasileiros afrodescendentes em um Brasil que foi o último país a abolir a escravidão dos seres humanos de pele negra.

Os patrões, os capitalistas, parte da estrutura burguesa montada para a manutenção do status quo burguês, que inclui o poder de polícia para ser usado para controle e repressão dos proletários rebeldes e não submissos e, no mundo moderno, os donos dos meios de comunicação, que são os mesmos capitalistas donos dos meios de vida e dos meios de produção, enfim, esses golpistas manipulam a população para se juntarem a eles no golpe e perseguir e aniquilar os movimentos sociais mais importantes do país e protetores dos direitos das minorias – sindicatos, movimento rural, estudantil, partidário de esquerda.

Estamos vivendo um momento kafkiano, mas não ficcional.


William Mendes

sábado, 5 de março de 2016

O processo kafkiano... no Brasil



Uma de minhas edições do livro.

"- Não pode haver dúvidas - prosseguiu K. em voz muito baixa, pois sentia-se feliz com a viva atenção dos ouvintes; naquela quietude os sussurros reprimidos, e apenas audíveis, eram mais estimulantes do que os aplausos mais entusiasmados -, não pode haver dúvidas, senhores, de que por trás das manifestações desta justiça, por trás da minha detenção, consequentemente, para falar de mim, e do interrogatório de hoje, encontra-se uma grande organização em atividade. Uma organização que não apenas emprega guardas corruptos, inspetores e juízes de instrução imbecis, mas também tem ao seu dispor uma hierarquia judiciária de um nível elevado, aliás do mais elevado nível, com o seu indispensável e numeroso séquito de empregados, funcionários, policiais e outros auxiliares, talvez até carrascos - e não estremeço ao pronunciar esta palavra. E qual o sentido dessa grande organização, senhores? Prender inocentes e mover-lhes processos sem razão e, na maioria das vezes, sem resultado, como no meu caso. Como seria possível, no absurdo do conjunto de um sistema como este, que a venalidade* dos funcionários não viesse à luz?" (página 49)

(O Processo, Franz Kafka (1883/1924)


Refeição Cultural

Seria cômico, se não fosse trágico. Juro!

Esta passagem da célebre obra de Franz Kafka descreve o que aconteceu ontem no Brasil, sexta-feira, 4 de março de 2016. Cada frase acima descreve o processo de tomada dos órgãos de justiça brasileiros por parte de alguns agentes públicos, pessoas físicas, que tomaram de assalto os órgãos públicos que deveriam servir de proteção às leis e aos cidadãos brasileiros.

Uma parte dos agentes públicos, partidarizados politicamente, se uniu às forças de oposição ao partido político (PT) que venceu as últimas 4 eleições para a Presidência da República, e esses agentes públicos estão rasgando a Constituição Federal, os direitos individuais dos cidadãos e perderam completamente o limite, executando prisões políticas sem provas, sem acusações e inclusive com a intenção de torturar psicologicamente por meses pessoas presas sem crime até que elas aceitem falar o que os agentes públicos querem.

Essa merda é o que está acontecendo com parte da justiça brasileira.

Nesta sexta 4, um juiz que deixaram até o momento mandar e desmandar, parar o que quiser no país, mandar prender quem bem entender, em qualquer lugar, associando qualquer coisa e qualquer pessoa a um processo ao qual ele está designado, enfim, esse sujeito, mandou levar coercitivamente para depor (preso) o presidente Lula, sem sequer convidá-lo antes, o maior e melhor presidente que o Brasil já teve, reconhecido no mundo todo e aqui, onde saiu após dois mandatos com 80% de aprovação e fez sua sucessora, a primeira presidenta do país. 

O tal juiz armou todo o circo de humilhações ao presidente e seus familiares e amigos, combinado com as emissoras de TV e imprensa golpista, conhecidos no Brasil como PIG (Partido da Imprensa Golpista), como o maior partido de oposição ao PT e aos avanços incontestáveis em direitos sociais para milhões de brasileiros e brasileiras após a posse de Lula e o PT no governo federal em 2002.

Onde vamos parar? Espero que não sigamos o roteiro da obra fantástica de Franz Kafka e nem do personagem Joseph K.

William


*Venalidade:

1. Qualidade de venal, do que pode ser vendido.

2. Fig. Qualidade daquele que se vende, prostitui ou deixa se corromper por dinheiro ou outros valores.


Fonte: Dicionário Aulete

sábado, 7 de novembro de 2015

Diário - 071115





Refeição Cultural

Sábado. Acordei. Tomei um copo de água. Abri a janela da sala e fiquei minutos vendo o movimento das folhas nas árvores e o movimento dos pássaros. Peguei O processo e li por uma hora. Li o terceiro capítulo.

Lembremos o começo da obra:

"Alguém devia ter contado mentiras a respeito de Joseph K., pois, não tendo feito nada de condenável, uma bela manhã foi preso..."


Passados alguns dias, o personagem começa a viver o processo. Os locais onde deve ir, a forma como as sessões do processo se dá e as pessoas com quem Joseph K. lida são coisas sem sentido, sem lógica. É algo semelhante ao mundo do faz de conta, da fantasia.

Joseph K está preso, mas está livre para ir e vir durante o processo. Mas está preso, porque o processo está em andamento.


Liberdade

Quem de nós está livre? Eu estou preso ou estou livre?

Posso ir e vir... ou seja, estou livre. Mas sou livre?

As obras de Franz Kafka, principalmente O processo, ganharam interpretações às mais variadas ao longo do século 20. É o efeito posterior de boas obras.

Eu li O processo quando era adolescente. Imagine só como era minha cabeça, meu mundo, o mundo, quando li a obra lá nos anos oitenta do Brasil miserável, de minha família em condição financeira miserável, de um mundo miserável, dividido pela Guerra Fria?

E hoje, falamos de um mundo miserável. Falam ou plantam para os jovens de hoje que o Brasil é miserável... Canalhas miseráveis!

Que merda tudo isso! Que processo kafkiano vivemos!

William

domingo, 1 de novembro de 2015

O Brasil virou o cenário do processo kafkiano



Brasil virou cenário d'O processo...

Refeição Cultural

"Alguém devia ter contado mentiras a respeito de Joseph K., pois, não tendo feito nada de condenável, uma bela manhã foi preso..." (O processo, Franz Kafka)


Assim começa uma das obras mais interessantes da literatura mundial. O processo, do escritor tcheco Franz Kafka (1883/1924), é obra de referência inclusive por ter dado nome a uma expressão popular "processo kafkiano" para algo absurdo que aconteça com um cidadão, algo impossível de acontecer por ir contra o sentido normal de respeito aos direitos de uma pessoa quando lida com o Estado/Sistema e coisas do gênero.

Quando nós escrevemos e falamos nos últimos anos sobre os riscos existentes em se abrir a Caixa de Pandora no Brasil, riscos motivados pela perda de limites em relação ao respeito mútuo entre a classe política e lideranças sociais, tendo como consequência o aumento das agressões recíprocas nas eleições presidenciais de 2010, disputadas entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB), estávamos prevendo que, ao se estimular a barbárie na sociedade civil, seria difícil se controlar o que viria depois.

A chamada "oposição" aos governos do Partido dos Trabalhadores, que ascendeu ao poder com Lula em 2002, sendo Lula reeleito em 2006 e elegendo sua candidata Dilma Rousseff em 2010, essa "oposição", liderada pelos tucanos e pelos grupos mais à direita e reacionários do país, mas tendo como um dos pilares de sustentação as famílias donas dos meios de comunicação brasileiros - grupos Globo, Folha, Estadão e Abril -, essa "oposição" é responsável, na minha opinião, pelo avanço da intolerância entre o povo brasileiro e pela destruição do pouco de imparcialidade e igualdade que pudesse existir no Estado brasileiro em relação ao trato com os estratos sociais menos privilegiados - pobres e minorias em geral - por parte dos órgãos oficiais da chamada democracia e sua estrutura burguesa: Judiciário e sua estrutura e legislativo federal, que elegeu a bancada mais retrógrada na concepção, canalha na índole e reacionária na questão de direitos populares das últimas décadas.

Com a 4ª derrota da "oposição" para o PT de Dilma Rousseff em 2014, e já havia sido assim com a derrota da "oposição" na 3ª disputa presidencial com o PT de Lula em 2010, acelerou-se a estratégia de caça às lideranças do PT e da esquerda aliada ao Governo Federal. Após as manifestações de junho de 2013, utilizadas e manipuladas pelas máquinas e veículos de comunicação dessa "oposição" para atacar o Governo Dilma e criminalizar o Partido dos Trabalhadores e suas lideranças, entramos numa nova fase do foco opositor na aniquilação e extinção do partido, das conquistas do povo brasileiro advindas com os governos do PT após 2003 e, neste momento em que escrevo, esta história está sendo escrita e vivida por todos nós.

A ascensão do partido nazista em 1933 e o período de Hitler na Alemanha do 3º Reich usou da mesma estratégia ao disputar a hegemonia dos corações e mentes de um povo, o povo alemão. Aqueles anos 20/30 viviam a novidade dos meios de comunicação de massa com rádio e cinema e os governos e donos do poder se utilizaram rapidamente daquela máquina de manipulação de consciências das populações em seus países.

PREGAR O ÓDIO e CULPAR O PT hoje através da máquina da "oposição" aos governos do PT são os mesmos eixos da estratégia de Hitler em meio a crise econômica da época (pós crash de 1929), exatamente como ocorre no mundo hoje (pós crash de 2008). PREGAR O ÓDIO E CULPAR OS JUDEUS foram os eixos estratégicos nazistas ao alimentar o ódio no povo alemão e escolher como culpado por tudo o povo judeu. O resultado da política nazista deu no que deu: Holocausto. Eu nunca me esqueci da frase do ex-senador por Santa Catarina, Jorge Bornhausen (ARENA>PDS>PFL>DEM), que em 2006, pregou a seguinte frase: "precisamos acabar com essa raça", se referindo aos políticos de esquerda e especificamente ao Partido dos Trabalhadores e simpatizantes. 

Que diriam os incrédulos mais à esquerda e progressistas que a caça ao PT e petistas, menos de uma década depois, seria um processo real? A insanidade tomou conta do cotidiano das pessoas e do país. O massacre midiático, cínico, mentiroso, leviano, tirou a noção e o bom senso dos cidadãos. Agora uma corja de corruptos e corruptores históricos fazem passeatas acusando o Governo Federal e o PT e os meios de comunicação da "oposição" estampam ilações quase no sentido de dizer ao cidadão comum: cace um petista! 

Estamos vivendo praticamente o processo nazista do 3º Reich no Brasil. E eu diria que o processo de acusações e ilações às lideranças petistas é kafkiano. Se é para atacar e destruir o Governo Dilma ou Lula - a maior liderança popular do país -, ou suas lideranças regionais e destruir o PT, vale qualquer coisa! Prender sem provas, escrever qualquer merda, ilação ou suspeição em TODOS os veículos de comunicação (PIG) porque pertencem ao mesmo grupo "oposição" e por aí vai.

E o pior e mais parecido com o clima da Alemanha nazista dos anos trinta e dos processos kafkianos das vítimas contra o totalitarismo desses sistemas é que OS CIDADÃOS COMUNS NÃO FAZEM NADA E TODOS LEVAM SUAS VIDAS NORMALMENTE. 

A iniquidade está virando a regra. A injustiça e o tratamento desigual dos órgãos oficiais do Estado estão virando a regra. E aí estamos caminhando para o fim da democracia.

Estamos vivendo a HISTÓRIA. E é a história de amanhã da ascensão do fascismo no Brasil.

William Mendes

---------------------------------------

Post Scriptum:

Escrevi no Facebook ao mudar a foto do perfil para esta da postagem:

Entramos novembro... vamos vivendo num mundo kafkiano. E vamos vivendo e lutando. Depois de descansar uns vinte dias após realizar meu sonho de correr a 1ª meia maratona (21K Floripa), comecei hoje a treinar para correr a São Silvestre (15K). Nada melhor que começar o treino no Parque Continental - Osasco SP, com uma subidona de quase 1K e com chuva... Vamos a luta, vamos com leveza, resistência e muita energia interior nos focos que temos!