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terça-feira, 7 de julho de 2026

Livro: Esquerdismo, doença infantil do comunismo - Vladímir Ilitch Lênin



Refeição Cultural

LITERATURA POLÍTICA


INTRODUÇÃO 

As reflexões e ensinamentos do grande líder revolucionário russo Vladímir Ilitch Lênin, que além de ser um homem da práxis era um intelectual orgânico do movimento de esquerda internacional, sempre foram referências para nós da esquerda brasileira. 

A minha formação política não foi revolucionária, devo registrar essa questão logo de cara em meus comentários sobre a leitura do livro Esquerdismo, doença infantil do comunismo, texto escrito por Lênin em 1920. Fui politizado pelo movimento sindical bancário, na corrente política Articulação Sindical da CUT, corrente surgida em meados dos anos oitenta. 

Quando virei dirigente sindical da CUT, no início dos anos dois mil, já tinha mais de trinta anos de idade e uns doze anos de categoria bancária. Mesmo assim, foram necessários alguns anos de sindicalismo cutista para compreender o que eu era e representava, nossas concepções e práticas sindicais. 

O Novo Sindicalismo surgido nos anos setenta e oitenta, liderado por figuras como Lula dos metalúrgicos, Gushiken e Augusto Campos dos bancários, e outras lideranças da classe trabalhadora brasileira, tinha na sua práxis muito do que li nesta clássica obra de Lênin, mesmo não sendo um movimento revolucionário. 

A CUT nasceu com outra concepção sindical, principalmente sua corrente hegemônica, a Articulação Sindical. Os sindicatos tinham como prioridade conquistar direitos e melhores condições de trabalho e não o foco na revolução socialista, como um braço do partido revolucionário. 

Enfim, essa obra de Lênin sobre o esquerdismo infantil sempre balizou o nosso sindicalismo, principalmente no que diz respeito as estratégias e táticas para se alcançar os objetivos, tanto imediatos quanto históricos da classe trabalhadora. O que li não foi diferente do que ouvi, aprendi e pratiquei enquanto dirigente sindical cutista. 

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POR QUE LI AGORA O TEXTO DE LÊNIN?

Recentemente, em um evento internacional, o presidente Lula afirmou para lideranças políticas de grandes países, que nunca foi "esquerdista". Isso gerou diversas reações aos mais diversos espectros políticos que existem. 

Pela vivência e experiência ao ser militante cutista por décadas, entendi perfeitamente o que Lula disse, e é exatamente isso: Lula nunca foi um "esquerdista", num sentido muito parecido ao que Lênin desenvolve em seu texto: não fazer frentes com grupos diferentes mais à direita e ao centro; não disputar parlamentos e eleições burguesas; não fazer composições com pelegos para fazer parte de sindicatos etc.

A CUT e o PT também nunca foram "esquerdistas" no sentido leninista de táticas e estratégias. É a minha opinião. São de esquerda, mas construíram suas histórias de lutas e conquistas fazendo mobilizações com frentes amplas, compondo com forças políticas diferentes, participando de parlamentos e direções sindicais conservadores e "pelegos" em composições de chapas, organizando movimentos e negociando avanços para seus representados - a classe trabalhadora -, sempre construindo reivindicações que congregam questões imediatas e históricas e de interesse das classes populares. 

Comecei a ler o livro através de uma edição digital, no Kindle, e acabei comprando uma edição impressa, na qual finalizei a leitura. 

Aliás, edição espetacular a da série "Armas da crítica", Arsenal Lênin, da Boitempo, 2025. Recomendo!

Foi muito bom ler Esquerdismo, doença infantil do comunismo, de Vladímir Ilitch Lênin. 

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Apresentação 

O texto inicial de Atilio Borón na edição que adquiri da Boitempo foi muito esclarecedor sobre as ideias marxistas-leninistas.

Li a apresentação após o fim de minha leitura do livro e ensaio de Lênin no Kindle. São 30 páginas que agregam muita informação. 

Estava terminando a leitura na edição virtual quando decidi ter o livro "de verdade" rsrs, em edição impressa. 

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Apêndice - Sobre a doença infantil do "Esquerdismo" e o espírito pequeno-burguês

Texto de maio de 1918. Excelente e muito atual para pensarmos a China que chegou até aqui, na minha opinião.

Lênin aborda bastante o Capitalismo de Estado, etapa necessária para se chegar ao Socialismo de Estado. Algo assim, nas minhas palavras. 

Alguns excertos:

Correlação de forças 

"(...) Quando éramos representantes de uma classe oprimida, não adotávamos uma atitude leviana perante a defesa da pátria na guerra imperialista, negávamos por princípio essa defesa. Quando nos tornamos representantes da classe dominante que começou a organizar o socialismo, exigimos que todos tivessem uma atitude séria perante a defesa do país. E ter uma atitude séria perante a defesa do país significa preparar-se a fundo e ter rigorosamente em conta a correlação de forças. (...) Mas entre os 'comunistas de esquerda' não existe o menor indício de que compreendam a importância da questão da correlação de forças." (p. 162)

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Capitalismo ou Socialismo de Estado

"O socialismo é inconcebível sem a grande técnica capitalista baseada nas últimas descobertas da ciência moderna, sem uma organização estatal planificada que submeta dezenas de milhões de pessoas à mais rigorosa observância de uma norma única na produção e na distribuição dos produtos. Nós, marxistas, sempre falamos sobre isso, e não vale a pena perder nem sequer dois segundos conversando com gente que não compreende nem sequer isso (os anarquistas e uma boa parte dos socialistas-revolucionários de esquerda)." (p. 169)

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"(...) Pois o socialismo não é outra coisa senão o passo em frente seguinte a partir do monopólio capitalista de Estado. [...] O capitalismo monopolista de Estado é a mais completa preparação material do socialismo, é a sua antecâmara, é o degrau da escada da história sem nenhum degrau intermediário entre si e o degrau chamado socialismo.*" (p. 171/172)

*A catástrofe que nos ameaça e como combatê-la (1917), de Vladímir Ilitch Lênin 

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"De qualquer ponto que se aborde a questão, a conclusão é uma e só uma: o raciocínio dos 'comunistas de esquerda' sobre o 'capitalismo de Estado' ser uma ameaça é um completo erro econômico e uma prova clara de que eles são prisioneiros absolutos da ideologia pequeno-burguesa." (p. 172)

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Marx e a grande produção 

"(...) Marx tinha a mais profunda razão quando ensinava aos operários a importância de preservar a organização da grande produção para facilitar a transição ao socialismo..." (p. 174)

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"(...) Os operários não são pequenos burgueses. Não temem o grande 'capitalismo de Estado', apreciam-no como um instrumento seu, proletário, que o seu poder soviético utilizará contra a desagregação e desorganização dos pequenos proprietários." (p. 179)

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"(...) o socialismo é impossível sem aproveitar as conquistas da técnica e da cultura pelo grande capitalismo..." (p. 180)

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Lênin termina o texto explicando que os revolucionários russos precisaram naquele momento da história (1918 a 1920) dos conhecimentos dos capitalistas para aprenderem a técnica, coisa que os chineses fizeram por umas três décadas no final do século, até dominarem a economia mundial como vemos no século XXI.

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Comentário final 

Enfim, feita a leitura deste grande clássico da literatura política. Fiz mais três postagens no blog durante a leitura.

A obra de Lênin trouxe muitas explicações para o mundo que eu conheço na atualidade. Incrível!

Sigamos lendo e tentando conhecer a história e compreender o mundo. 

William 

06/07/26


Bibliografia:

LÊNIN, Vladímir Ilitch (1870-1934). Esquerdismo, doença infantil do comunismo. Tradução: Edições Avante!. 1. ed. - São Paulo: Boitempo, 2025.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Tecnologia em benefício de quem? (3)



Refeição Cultural

Opinião 


"O que há de errado em tudo isso? Marx já constatava, muito tempo atrás, que a tecnologia é trabalho acumulado. Suas modificações surgem das contradições sociais: de um lado, ela aumenta a riqueza social e o domínio sobre a natureza; de outro, aumenta a alienação do trabalhador e acresce de mais-valia o capital. 'A maquinaria é meio para produzir mais-valia'" (p. 11)


O livro "Tecnologia, Cultura e Formação... ainda Auschwitz" me chamou a atenção em 2017, quando vi meu sobrinho estudando nele as temáticas de autores como Adorno, Marcuse, Horkheimer e demais pensadores frankfurtianos clássicos.

Eu era gestor eleito de uma grande autogestão em saúde e lidava diariamente com as contradições éticas da questão da tecnologia no setor. 

Cansei de ver, à época, a questão técnica prevalecer de forma acrítica em situações nas quais o uso da tecnologia não beneficiava os seres humanos e as instituições. 

Como explica Marx, a maquinaria era usada para produzir mais-valia e não para beneficiar as pessoas. Pelo contrário, por meio da alienação, era usada para prejudicar as coletividades em benefício de alguns canalhas detentores de saberes técnicos. 

Amig@s leitores, isso vem piorando exponencialmente desde a época que cito aqui, menos de dez anos. 

Sigamos refletindo sobre a tecnologia e a ética em seu uso.

William Mendes 

21/11/25

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Entrevista: Leonardo Boff (2005)



Refeição Cultural

A Fundação Perseu Abramo publicou em abril de 2006 o livro "Leituras da crise - Diálogos sobre o PT, a democracia brasileira e o socialismo". À época, a entrevista da filósofa Marilena Chaui foi fundamental para mim, dirigente sindical da categoria bancária. 

Estávamos no ano de eleições presidenciais e o primeiro governo Lula havia enfrentado uma crise política motivada principalmente pelas questões de financiamento de campanhas eleitorais, crise batizada pelos nossos inimigos de classe como crise do "mensalão", uma invenção do deputado Roberto Jefferson (PTB) em entrevista à Folha de S. Paulo, à Renata Lo Prete, em junho de 2005. 

A crise trouxe à público a questão do "caixa dois", prática de uso de recursos não contabilizados formalmente pelos partidos. Dirigentes do PT e aliados tiveram que responder a processos referentes a isso.

Feita a contextualização do momento no qual o livro foi lançado, registro a atualidade dos pensamentos e reflexões de Leonardo Boff, ao rever a entrevista. Mais ainda, a leitura de "A Carta da Terra", aprovada em 14/03/2000 pela Unesco, me fez lembrar o quanto é antigo e urgente o tema do colapso social e ambiental. O documento deveria ser adotado por todas as instituições da sociedade humana. 

Enfim, eu não teria condições de destacar na postagem tudo que considerei relevante, são dezenas de páginas de reflexões e ideias extraordinárias. 

Cito alguma coisa e sugiro aos leitores do blog que leiam na íntegra as 4 entrevistas do livro. Vocês vão se surpreender com a atualidade das reflexões de Chaui, Stedile, Wanderley Guilherme e Boff.

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UTOPIA

"A utopia pertence à realidade. A realidade nunca é apenas o dado empírico. Ela contém dentro de si infindas virtualidades e possibilidades."

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IMPORTÂNCIA DA BASE

"Ligados organicamente às bases, os políticos são continuamente educados, reeducados pelo povo e nele encontram mil razões para continuar a lutar por causas justas que atendam às demandas desse povo."

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INDIVÍDUO E REVOLUÇÃO 

"A revolução, para ser radical (mudança de rumo na história para atender às demandas da população sistematicamente negadas), precisa envolver todo o homem e todos os homens." (A palavra homem está aqui como genérica de homens e mulheres)

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"Cada sujeito deve ser envolvido nesse processo e ele mesmo mudar. Se não mudar, a revolução em algum momento mostrará seu impasse. Foi por não ter tido cuidado com esse processo global, que inclui o sujeito concreto e pessoal, que o socialismo, no meu entender, abortou seu projeto libertador."

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"O sujeito não pode ser entendido nos moldes do liberalismo e da visão burguesa da sociedade, em seu esplêndido isolamento e independência. O sujeito é sempre e concretamente um nó de relações, não apenas sociais (a tendência do pensamento de Marx), mas de relações totais e em todas as direções, até aquelas que incluem o transcendente e a sede de infinito."

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"Não basta que sejam transformadas apenas as relações sociais. Cada sujeito deve ser envolvido nesse processo e ele mesmo mudar."

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"Viva de tal maneira que aquilo que você vive possa ser válido para todos os demais seres humanos." (Kant)

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Sobre o PT 

"Pretendeu, na linha de Paulo Freire, fazer dos pobres e excluídos, uma vez conscientizados e organizados, os sujeitos do processo de libertação."

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TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO 

Nesta parte da entrevista, Boff explica o que é a Teologia da Libertação, fala sobre o papa Wojtyla (João Paulo II, inimigo da Teologia da Libertação) e Ratzinger (Depois Bento XVI), sobre marxismo e socialismo real etc. Muita informação relevante. 

"A Teologia da Libertação é uma teologia militante. Não se contenta em pensar a ortodoxia apenas como se faz normalmente nas faculdades de teologia. Quer a ortopráxis, quer dizer, incentiva uma prática que nasce do capital religioso do cristianismo, mas visa transformar a realidade social por considerá-la dissimétrica (analiticamente), injusta (eticamente) e pecaminosa (teologicamente). Essa libertação tem de ser libertação mesmo, quer dizer, não pode ser assistencialista e paternalista - que faz para os pobres, mas não se dá conta da força histórica dos pobres. Ela somente é libertadora se tiver os oprimidos (que são pobres e simultaneamente cristãos) como sujeitos de sua libertação, libertação com os pobres e a partir dos pobres. A igreja é apenas aliada e fornece os espaços institucionais aos pobres."

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Uma alternativa ao capitalismo 

"No fundo se pensava: o capitalismo não ocupa todo o espaço, há um antipoder, uma alternativa possível de organização das sociedades humanas, com limitações e avanços que não se podem desconhecer. Defendia-se não tanto o socialismo real, mas a oposição ao capitalismo."

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"A derrocada do socialismo atingiu a Teologia da Libertação, pois sabíamos que sem ele começaria a barbárie do capitalismo."

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A Teologia da Libertação e Marx

"A Teologia da Libertação nunca teve Marx como pai nem como padrinho. Ela bebeu primeiramente de sua própria fonte, que é a tradição judeu-cristã, que sempre deu centralidade aos pobres, ao tema da libertação do cativeiro egípcio e babilônico e à prática histórica de Jesus, que foi pobre e disse 'felizes de vocês pobres e ai de vós ricos'. E que não morreu tranquilamente na cama como um piedoso rabino cercado de discípulos, mas na cruz, fruto de um juízo político-religioso que o condenou com o castigo dado a revoltosos sociais."

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"Mas ela encontrou em Marx as boas razões para entender por que o pobre não é pobre, e sim um explorado e injustiçado. Ele é um empobrecido, feito pobre por fatores de ordem econômica, social e cultural, que hoje ganham corpo especialmente no capitalismo."

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Natureza e ambientalismo

"Precisamos de outro paradigma de civilização, que inaugure outro tipo de relação, não contra a natureza, mas em sinergia com ela."

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RETOMAR O CONTATO VIVO COM AS BASES

"Os membros do PT encontrarão mil razões para viver, para continuar no PT, quando se ligarem à vida concreta do povo."

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"A insensibilidade social dos estratos poderosos de nosso país é simplesmente criminosa."

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A LUTA PELA SUPERAÇÃO DAS DESIGUALDADES 

"O que escandaliza no Brasil não é tanto a pobreza mas a desigualdade social, porque ela esconde uma grave distorção política e ética da sociedade. Politicamente, significa que a sociedade não foi pensada para todos, mas fundamentalmente para atender às demandas das elites e dos incluídos no sistema de acumulação. Eticamente, significa uma falta perversa de humanidade, de solidariedade social e de compaixão para com a desgraça dos demais concidadãos."

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"Tudo o que se fizer para salvar vidas que estão sob risco não é assistencialismo nem paternalismo mas humanitarismo básico, em grau zero. Se falto a esse gesto me torno inumano e me faço inimigo de minha própria humanidade."

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Fé-libertação 

"O povo é pobre e religioso. Durante séculos vivia uma fé-resignação. A partir dos anos 1960 começou a viver uma fé-libertação."

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DEMOCRACIA SEM FIM E ÉTICA 

"Em ética não podemos ser ambíguos nem tergiversar. É de sua natureza a inteireza e a transparência."

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"Neste ponto prefiro ser kantiano: 'Age de tal maneira que tua ação possa ser válida para todos'. Se o PT aceitar o jogo da ética dominante, utilitarista e a serviço de interesses não coletivos, ele jamais inaugurará uma ruptura ética na política e perpetuará a sociedade que queremos exatamente superar..."

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CRISE ECOLÓGICA GLOBAL 

"A grande maioria da humanidade não se conscientizou suficientemente da singularidade do momento histórico que estamos vivendo. Nunca uma civilização como a nossa se propôs como meta explorar a Terra e seus recursos de forma ilimitada como no capitalismo..."

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COMENTÁRIO FINAL 

Enfim, amig@s leitores, a resenha ficou grande, e deu trabalho fazê-la. 

Como digo a vocês, leiam a entrevista inteira. Nem parece que foi feita há 20 anos, de tão atual.

Sigamos estudando e compartilhando conhecimento. 

Podemos salvar a humanidade e o planeta através da educação, ciência e cultura. 

William 

domingo, 5 de outubro de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Domingo, 5 de outubro de 2025.


FORMAÇÃO NA UNESP

No sábado, concluímos um curso de extensão universitária que iniciamos em julho. O curso "Como impedir o fim do mundo - Colapso ambiental e alternativas", promovido por IBEC, Unesp e demais parceiros, superou nossas expectativas - minhas e de meu filho.

Como admiro o papel social desempenhado pelas pessoas que se dedicam à educação e cultura! Ensinar e transmitir conhecimentos é uma das funções mais nobres e importantes da espécie humana.

Foram 50 horas de aulas com professoras e professores de altíssimo nível, compartilhando conosco conceitos e conhecimentos das áreas de economia, política e meio ambiente, tendo como referência as obras de Karl Marx e estudiosos marxistas como István Mészáros. Curso espetacular! 

Estou muito reflexivo por causa desse curso.

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ATO CONTRA O GENOCÍDIO DO POVO PALESTINO

Estive em diversas manifestações nas últimas semanas, mas estava muito cansado hoje para participar do ato na Avenida Paulista em defesa da causa palestina e pelo fim do genocídio em Gaza. Minhas energias corporais estão diferentes de outras épocas. 

Todo apoio à causa do povo palestino!

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CADERNOS DOS BLOGS

Não tenho conseguido avançar no trabalho de sistematização de minha produção cultural ao longo das últimas duas décadas. Já fiz bastante coisa, mas estou longe de acabar.

Queria terminar a confecção dos cadernos neste ano, mas não darei conta. São mais de seis mil registros. Pode ser vaidade o desejo de salvar os textos, mas ali contém um pouco de nossa história coletiva também. Tenho dó de deixar se perder tudo que está registrado naquelas páginas digitais. 

MEMÓRIAS

Estava pensando nestes dias: já recebi as unidades que editei de meu livro de memórias sindicais, registros retirados de um dos blogs. Agora que tenho o livro em mãos, estou em dúvida sobre o que fazer com eles. Enviei dois a amigos e presenteei mais dois a pessoas de minhas relações. 

Apesar de conter passagens interessantes da história das lutas da categoria bancária, não sei se alguém perderia tempo lendo isso. Os textos foram escritos no blog durante a pandemia de Covid-19 e uma coisa é disponibilizar minhas memórias num lugar para quem quiser lê-las, outra coisa é dar a alguém um conjunto de textos como se estivesse obrigando a pessoa a ler aquilo...

Enfim, estou cheio de dúvidas meio bestas, que não mudam nada o colapso atual da sociedade humana. 

William 

sábado, 6 de setembro de 2025

Leitura: Artigo "Capitalismo financeiro digital, crise e desigualdade social", de Adilson Marques Gennari



Refeição Cultural

Artigo: "Capitalismo financeiro digital, crise e desigualdade social", de Adilson Marques Gennari. Revista Fim do Mundo, Marília, SP, número 8, 2023. O articulista é economista, doutor em Sociologia, Professor da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP Araraquara.

Leitura para reflexão antes de uma aula sobre o tema (em 06/09/25)

Aula VII (manhã) - Donald Trump, Misérias e Ideias para adiar o fim do mundo

Objetivo: textos de apoio para o curso de extensão "Como impedir o fim do mundo: colapso ambiental e alternativas", organizado e ministrado por IBEC, Unesp e demais parcerias

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A postagem é uma espécie de fichamento feito pelo autor do blog. Qualquer interpretação divergente do texto original é de responsabilidade deste leitor que comenta o texto.

Abaixo algumas palavras-chave ou ideias que gostei no referido texto.

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Resumo do artigo que vamos ler:

A sociedade capitalista global vem experimentando transformações determinadas, de um lado pela própria crise estrutural do capital que já vem se desenvolvendo desde o final do século passado na forma de crise econômica, crise ambiental, crise nas relações sociais (do emprego) e até crise de legitimidade; e de outro lado, pelos impulsos causados por revoluções tecnológicas que avançam para sua quarta fase (grundrissização), no contexto de uma fase de desglobalização do capitalismo e mudanças significativas nas relações internacionais com a emergência da Eurásia e dos países dos BRICS, em um novo contexto multipolar e pós-pandemia. O objetivo deste paper é contribuir ao debate sobre as contradições deste processo em relação a crise estrutural e seu impacto na pobreza e desigualdade social.

- O prof. Adilson começa o artigo citando os principais fatores que demonstram a atual fase do capitalismo e a crise estrutural na qual ele se encontra, com destaque para a decadência do império norte-americano e ascensão da Eurásia e BRICS, a destruição acelerada da natureza e a produção de lixo em escala que coloca em risco a vida na Terra

- Muito interessante a separação em lados antagônicos das forças que estão em disputa no momento: os contrarrevolucionários têm tipos como neonazistas e fascistas, burguesias decadentes urbanas, donos de terras e classes médias ressentidas... e do lado de cá, do meu lado, as forças sociais da revolução, onde cabem comunistas, socialistas, anarquistas, socialdemocratas, feministas...

- Duas crises marcam o fim da fase globalizada do capitalismo: a crise de 2008 do subprime e os movimentos de Trump da atualidade

- No entanto, o articulista nos explica que não é tão simples assim se desfazer no século XXI da cadeia global de produção capitalista como quer Trump

- O "capitalismo da globalização neoliberal" transitou para o "capitalismo global em crise estrutural"

- No trabalho, o autor questiona se há saídas para economias ex-colonizadas e escravizadas para além da subordinação aos centros econômicos hegemônicos do capital

- Celso Furtado é referência do prof. Adilson para explicar nossa desigualdade histórica desses cinco séculos de superexploração


Capital financeiro

- O articulista explica no texto o papel central do capital financeiro na atua crise estrutural do capital

- A mais-valia global vem se concentrando nas mãos dos donos do capital através da financeirização da economia

- Segundo Adilson, "A economia do capital é uma economia financeira"

- Comentário do blog: tenho achado o conjunto dos textos e aulas dos professores e professora marxistas excepcionais no sentido de trazer para nós a atualidade dos textos de Marx, principalmente de sua obra máxima, O Capital

- Adilson explica em seu artigo a materialidade da teoria de Marx já em início de funcionamento desde o financiamento dos holandeses ao negócio colonial com exploração da mão de obra dos povos africanos e originários das Américas por portugueses e ingleses e suas corporações

- Vemos ali o que já seria o papel do capital financeiro desde sempre nesse modo de produção e exploração que seria definido mais adiante como capitalismo (p. 7 do meu pdf)


A crise estrutural do capital

- Diferente das crises cíclicas, crises NO sistema, a crise estrutural é uma crise DO sistema capitalista

- Em outras dimensões categoriais, pode-se dizer que a "crise estrutural" é uma crise do próprio modo de produção capitalista

- O autor nos cita István Mészáros para elencar os motivos da crise estrutural do capital (obra "Para além do capital"), na p. 8 do pdf

- A destruição acelerada da natureza, a produtividade tecnológica e não necessidade de mão de obra humana e gastos crescentes na área militar com redução nos gastos sociais (subdesenvolvimento forçado) são exemplos claros da crise estrutural do capital

- Está em jogo o papel do trabalho no universo do capital na sociedade humana

- A quarta revolução tecnológica em andamento é tão impactante quanto a primeira lá no século XVIII e suas consequências também (p. 10 do pdf)

- "Chamamos essas mudanças e impactos de grundrissização da sociedade em uma referência direta a Fragmento sobre máquinas do clássico texto de Karl Marx (2011)"

- A máquina do capital possuía 3 partes, mas agora na quarta revolução tecnológica, teria o 4ª órgão (Bacchi), o órgão de controle (a máquina programável)

- Nesta fase científica e tecnológica, se torna cada vez menor a participação do trabalho vivo no processo produtivo das mercadorias


O Brasil nos BRICS na nova fase da (des) globalização multipolar

- O autor nos explica origem e atualidades dos BRICS

- Neste subitem, o prof. Adilson apresenta os novos desafios para o Brasil e demais membros dos BRICS e do movimento Sul-Sul frente ao colapso da velha ordem econômica e política hegemonizada por Estados Unidos e Europa


O trágico legado do Governo de Jair Bolsonaro (2019 - 2022)

- O inominável conseguiu realizar a façanha de derrubar o IDH do país após 3 décadas de governos brasileiros, ou seja, piora das condições de vida do povo como nunca visto

- O Brasil voltou também ao Mapa da Fome, tendo a metade da população vivendo sob insegurança alimentar e 33 milhões passando fome (p. 43 do artigo)

- Entre as causas o articulista cita 8 motivos para tal resultado no período: enviamos 28 bilhões de dólares a remunerar juros, lucros, royalties etc

- Outras causas: concentração de renda, redução de gastos sociais e da transferência de renda, arrocho salarial e no benefício dos aposentados, a inflação do desgoverno Bolsonaro com a reforma trabalhista, a militância bolsonarista com a morte de brasileiros durante a pandemia mundial, e a destruição da natureza e dos biomas, os números citados demonstram a tragédia do período bolsonarista


Considerações finais

- Inexiste a tão falada "concorrência de mercado" na realidade do sistema capitalista, principalmente na fase atual de capitalismo financeiro

- Urge o desenvolvimento de novas formas de produzir os bens úteis aos seres humanos como, por exemplo, as formas cooperativas da economia solidária

- A produção social humana deve focar o valor de uso e não a mais-valia, desenvolvendo forças produtivas em busca de uma sociedade mais solidária e sustentável

- Rússia e China saem na frente em relação à produção social contemporânea, já o Brasil precisa sair do modelo exportador de commodities que o mantém atrelado ao passado na produção mundial econômica

- A desigualdade social no Brasil segue altíssima e um dos motivos é sua forma de produção social atrelada ao passado como colônia exportadora e baixos direitos sociais

- O governo Bolsonaro fez o Brasil regredir em todos os índices que se têm notícias em décadas de história do país

- O autor afirma, observando os processos em andamento no mundo: "nunca a utopia de Marx de uma 'sociedade livre de homens livres conscientemente organizada' esteve tão distante do mundo real"

- A atual crise estrutural do capital é dupla: em Marx vemos a explicação da queda das taxas de lucros e em Mészáros vemos a destruição das relações sociais e do próprio planeta, ameaçando a existência humana

- Adilson levanta questões de difícil resposta em relação aos BRICS e seus membros estendidos, no que concerne às contradições do capitalismo sendo o modo de produção social dessas nações

- Por fim, sem a distribuição dos meios de produção e sem a mudança de relação entre os seres humanos e a natureza, não será fácil mudar a tendência de perspectivas sombrias para as gerações futuras.

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Leitura feita por 

William Mendes

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Leitura: Capítulo 6 do livro Casa à venda: Turismo, mercado de imóveis e transformação sócio-espacial em Havana - Aline Marcondes Miglioli



Refeição Cultural

Artigo: Capítulo 6 do livro Casa à venda: Turismo, mercado de imóveis e transformação sócio-espacial em Havana - Aline Marcondes Miglioli

Leitura para reflexão antes de uma aula sobre o tema (em 23/08/25)

Aula V (manhã) - Cidade neoliberal, reforma urbana e a questão ambiental

Objetivo: textos de apoio para o curso de extensão "Como impedir o fim do mundo: colapso ambiental e alternativas", organizado e ministrado por IBEC, Unesp e demais parcerias

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A postagem é uma espécie de fichamento feito pelo autor do blog. Qualquer interpretação divergente do texto original é de responsabilidade deste leitor que comenta o texto.

Abaixo algumas palavras-chave ou ideias que gostei no referido texto.

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- Ao ler a introdução do texto, já fiquei com vontade de adquirir o livro, que é fruto de uma pesquisa acadêmica para tese de doutorado que estudou a questão habitacional em Havana, Cuba. Estive na Ilha socialista nos últimos dois anos, em 2023 e 2024, e as experiências foram inesquecíveis. A leitura do trabalho de Aline Marcondes Miglioli me permitirá compreender bem melhor o que vi e conheci em Cuba

A TEORIA DA RENDA DA TERRA EM MARX E SUA APLICAÇÃO NO ESPAÇO URBANO

- O início do capítulo 6 já explica bastante a teoria marxista sobre o tema:

"A teoria da renda da terra (TRT), tal como foi desenvolvida por Marx em O Capital (2017), pretendia interpretar o papel da renda da terra no modo de produção capitalista, portanto, levava em conta a existência da Lei do Valor e das classes sociais capitalistas: os capitalistas, os trabalhadores e os proprietários fundiários. Nesse modo de produção, os primeiros são proprietários dos meios de produção; os segundos, da força de trabalho; e os proprietários fundiários detêm a propriedade da terra, e por isso podem cobrar dos capitalistas e trabalhadores um preço sobre ela."

- Para diferenciar resultados diferentes de produções em terras de mesmo tamanho e com o mesmo uso de capital e trabalho, lucro maior que o lucro médio de outros produtores, Marx aponta características específicas da terra como, por exemplo, fertilidade e localização

- A autora diz que, em geral, no capitalismo, o capitalista não detém a propriedade da terra, ele arrenda ela do proprietário fundiário. Ao saber das qualidades de solos mais férteis, seus donos cobram aluguéis maiores, se apropriando de parte do sobrelucro dos capitalistas, é a renda da terra

- Marx explica isso: "Por tratar-se de uma renda originada pelo diferencial de produtividade, Marx a denomina de renda da terra diferencial de tipo 1, pois ela depende da produtividade natural dos terrenos."

- Na renda da terra diferencial de tipo 2, há mais questões além das qualidades originais da terra, pois serão avaliados investimentos consecutivos e respectivos resultados adquiridos

- Temos ainda a renda fundiária absoluta, para aquelas terras que não têm o diferencial de produtividade, mas que não são gratuitas:

"Marx responde essa pergunta através da renda fundiária absoluta, a qual corresponde ao rendimento cobrado pelo proprietário fundiário para que ele coloque seu lote à disposição da produção capitalista. A cobrança da renda absoluta garante que em nenhuma situação o preço da terra seja igual a zero, pois existirá sempre um preço que corresponderá ao preço de integrar a terra à produção capitalista."

- Ainda temos a expressão da renda da terra de proprietário fundiário monopolista (no exemplo, uma vinícola):

"O proprietário fundiário pode cobrar do capitalista parte desse lucro extraordinário através da renda da terra. Nesse caso, a renda não guarda relação alguma com a fertilidade da terra, e resulta tão somente do preço de monopólio daquele vinho (Marx, 2017)."

- Em resumo, a renda da terra é contraditória no capitalismo, mas:

"A renda da terra ocupa, assim, uma posição contraditória no capitalismo, pois ao mesmo tempo que a propriedade privada da terra é necessária ao capitalismo, ela representa barreiras ao capital em sua esfera produtiva (Harvey, 2001)."

- Aline explica as adaptações necessárias para interpretar a realidade presente na questão da renda da terra interpretada por Marx no passado e no contexto urbano atual:

"pois diferentemente dos bens agrícolas, os bens urbanos são consumidos no mesmo local em que são produzidos, e sendo construções, tratam-se de bens de consumo de longa duração. Ademais, enquanto na terra agrícola a renda é extraída no momento de realização da produção, nas cidades a renda da terra aparece em dois momentos: quando a produção urbana se realiza, por exemplo, na venda de um imóvel; e quando comercializa-se valores de uso do solo — o residencial, comercial e industrial (Jaramillo, 2003) —, transformando as possibilidades e formas de obtenção de lucro-excedente em cada espaço."

- A autora nos explica o conceito de "construibilidade", que equivale a renda diferencial do tipo 1, pois importa as características do terreno para estabelecer os custos de produção

- A renda diferencial do tipo 2 teria relação com a verticalização nos centros urbanos. A cada pavimento superior, aumentam-se os custos de produção, em linhas gerais

- A renda absoluta nas cidades teria a mesma característica que na produção agrícola ao incorporar-se a produção no espaço urbano

- Por fim, sobre a renda monopolista, Aline nos explica que:

"No que diz respeito à renda monopolista, no espaço urbano encontramos preços de monopólio nas construções localizadas em bairros prestigiados pela burguesia, as quais são vendidas por preços superiores aos de mercado e de produção com o objetivo de restringir o acesso do restante da população àquele imóvel."

- Comércio não gera valor, nos explica Marx. Vejamos a nota da autora:

"De acordo com Marx, o comércio não produz valor, pois não gera-se mais-valia. O que torna-se o lucro comercial nesse caso é a captura, por parte dos capitalistas comerciais, de parte da mais-valia produzida nos setores produtivos. Ainda assim, apesar do comércio não gerar mais-valor, na medida em que contribuem para a abreviação do tempo de circulação das mercadorias, ele pode contribuir para aumentar o mais-valor gerado pelo capital industrial, o que lhes garante o direito a uma parcela do mais-valor gerado pelo capital industrial (Marx, 2017)."

- Aline conclui nesta parte o seguinte:

"Por fim, destacamos que três aspectos da concepção de renda da terra de Marx serão fundamentais para o debate sobre o mercado de imóveis cubano: a necessidade de existir propriedade privada dos meios de produção para garantir o direito de apropriação da renda da terra por uma classe social; a conceitualização da renda da terra enquanto uma parte do sobrelucro gerado em uma atividade produtiva; e a existência da renda da terra no meio urbano em duas formas, pelos diferenciais de “construibilidade” e pelo valor de uso do espaço."

RENDA DA TERRA NO MERCADO DE IMÓVEIS CUBANO

- A autora começa a seção explicando que muitos estudos já foram realizados em relação às possibilidades de haver ou não os efeitos da Teoria da Renda da Terra nas sociedades em transição para o socialismo como URSS, China e outros países

- "Sendo assim, investigar a existência da renda da terra em Cuba significa responder a um conjunto de perguntas: existe um sobrelucro sendo apropriado enquanto renda da terra? De que forma ele é apropriado? Quem o recebe? Qual o seu uso econômico, ou seja, qual seu papel na organização da produção na transição socialista? Qual a consequência da apropriação de sobrelucro sob a forma de renda da terra? Nesta seção buscaremos responder essas perguntas nos baseando na dinâmica do mercado de imóveis havaneiro exposta no Capítulo 5."

- Aline explica que há mais-valia ou mais-valor nas sociedades em transição do capitalismo para outra forma de produção. No caso, caberia ao Estado se apropriar desse valor e distribui-lo:

"Nesse período, ainda que indesejavelmente, segue vigente a produção de mais-valor, mesmo nos casos em que ela se realiza de forma coletiva através da estatização dos meios de produção. Logo, cabe ao Estado apropriar-se desse mais-valor e distribuí-lo 'a cada qual segundo seu aporte'."

- O parágrafo seguinte é importante destacar aqui na resenha, pois explica bem o que compreendi nas duas vezes em que estive em Cuba e conversei com os cubanos:

"Vimos também que é teoricamente possível admitir a propriedade privada dos meios de produção durante a transição socialista, desde que a produção seja centralmente planejada e socialmente distribuída. Em Cuba, a propriedade dos meios de produção esteve historicamente concentrada no Estado, no entanto, nas últimas três décadas houve uma desconcentração para a propriedade privada na tentativa de recuperar e estimular determinados setores econômicos. Ainda assim, o controle sobre a produção do setor privado é realizado de maneira indireta pelo Estado, seja através de seu monopólio sobre as licenças para o trabalho autônomo e privado, ou da reapropriação de parte da produção privada através dos impostos, com os quais busca-se estatizar parte do mais-valor gerado privadamente para distribuí-lo socialmente na forma de bens e serviços públicos."

- A autora também considera a existência do sobrelucro nas relações de produção social em Cuba

- Quem são os agentes proprietários dos meios de produção no setor de turismo em Cuba?

"o Estado cubano; as empresas internacionais, que operam em associação com o Estado; e os trabalhadores cuentapropia, que praticam as mesmas atividades dos outros dois agentes de forma privada e autônoma."

- Os cubanos que trabalham por conta própria são os TCP, na descrição do texto

- Esses três agentes possuem a propriedade privada dos meios de produção: o Estado possui os imóveis e as autorizações onde se instalam os hotéis, os hotéis possuem a marca e a técnica da hotelaria e os cubanos possuem suas casas-negócio, carros, instrumentos musicais etc

- A explicação seguinte de Aline é muito esclarecedora para compreender a economia cubana: quando fico na casa de um cubano, fico lá por motivos turísticos, localização e outras benesses que o local vai me oferecer. Então, não estão todos os cubanos em condições igualitárias para aquele processo de produção social:

"No caso cubano, se analisarmos o mercado de imóveis, não iremos encontrar a exclusividade da propriedade da terra, uma vez que os terrenos são públicos e não há cubanos excluídos do direito a uma moradia. No entanto, a indústria do turismo é uma atividade econômica cuja principal fonte de rendimento é o próprio consumo do espaço. Sendo assim, por mais que todos os cubanos possuam uma moradia, nem todos possuem uma moradia que cumpre o papel de um meio de produção, como fazem as moradias em localização turística. Concluímos, portanto, que frente à propriedade privada das casas-negócio é que emerge a possibilidade de apropriação da renda da terra."

- No caso da instalação do negócio "hotel" o local exótico pesa nesse processo de produção. "Traduzindo para os termos cunhados por Marx, trata-se da captura de um sobrelucro que deriva do monopólio de uma característica específica do espaço, ou seja, da renda da terra de monopólio (Harvey, 2013; Silva, 2010)."

- Aline explica muito claramente as relações de produção na Cuba atual que tive a oportunidade de conhecer. Ao ficarmos numa boa casa-negócio em Havana, entende-se perfeitamente a processo de "renda da terra de monopólio"

- Seguindo com as explicações que Aline fornece aos leitores, fica bem mais fácil entender processos sociais na República Socialista de Cuba como, por exemplo, a canasta básica fornecida pelo Estado ao conjunto da população. Quem financia esse direito social ao alimento na Ilha? Os impostos nas suas diversas formas de arrecadação:

"Com relação à disputa pelo excedente entre o Estado e os TCP, como disposto no Capítulo 4, inicialmente o trabalho autônomo era uma forma provisória de prestação dos serviços não atendidos pelo Estado. Aos poucos, o segmento foi ganhando espaço e protagonismo em outros setores econômicos, e a política tributária passou a servir como limite à acumulação de capital e como forma de recuperar parte dos rendimentos gerados pelos trabalhadores autônomos para distribuí-los socialmente. Com o fortalecimento econômico dessa categoria, Cuba está deixando o modelo de organização econômica no qual o Estado promove diretamente a produção e distribuição do produto social, e avançando para um modelo em que o Estado reúne as contribuições sociais através dos impostos e as distribui socialmente atendendo ao critério da equidade."

- No avançar do texto, a autora nos apresenta as movimentações na última década, entre 2011 e 2021, dos investidores internacionais, no que diz respeito ao interesse de adquirir propriedade na Ilha e obterem lucros com a atividade econômica do turismo

- Fica clara a importância do setor de turismo em Cuba para a manutenção da economia e para a capacidade do Estado de realizar a redistribuição dos recursos econômicos na forma de benefícios sociais ao conjunto da população da ilha caribenha

- Como resumo desta parte do capítulo seis, temos:

"Em suma, o que demonstrou-se no trecho anterior é a emergência de dois fenômenos. Primeiro, evidenciou-se que a forma primária de disputa pelo excedente em Cuba se dá através dos impostos. É no campo da legislação tributária que o Estado controla sua participação nos lucros das empresas internacionais e nos rendimentos dos trabalhos autônomos. Essa conclusão condiz com o novo modelo de socialismo cubano, que pretende financiar as políticas sociais através dos rendimentos da atividade estatal produtiva e de parte das atividades privadas, que é apropriada pelo Estado na forma de imposto.

e

"Em segundo lugar, evidenciou-se que parte desses rendimentos é atualmente apropriada na forma de renda da terra, o que leva à disputa por parte desses sobrelucros através do mercado de imóveis e da tributação. Internamente, o Estado e os proprietários de casas-negócio disputam parte dessa renda através dos impostos: enquanto o primeiro aumenta a quantidade de impostos incidentes sobre as operações de compra e venda, os segundos ampliam e diversificam as formas de evasão fiscal. Destacamos que, apesar do fenômeno apresentar-se como uma disputa, esta não ocorre entre classes sociais, pois se dá internamente na classe de trabalhadores, opondo os trabalhadores proprietários de casas-negócio ao Estado proletário. Trata-se de uma disputa entre estratos de classe: o estatal, representando todos os trabalhadores, inclusive os autônomos, em oposição aos trabalhadores cuentapropia e proprietários de imóveis."

- A seguir, temos um resumo de Aline concluindo a seção em análise:

"Em resumo, retomando as perguntas feitas no início desta seção: 

• Existe um sobrelucro sendo apropriado no mercado de imóveis? Sim, trata-se do sobrelucro correspondente à atividade cuentapropia relacionada ao turismo; 

• De que forma ele é apropriado? Os rendimentos da atividade turística podem ser apropriados primariamente por três agentes: os capitalistas estrangeiros, o Estado e os trabalhadores autônomos. Ao longo do capítulo identificou-se uma apropriação secundária do sobrelucro recebido pelos TCP para os proprietários de casas-negócio através da renda da terra, no momento de venda dos imóveis; 

• Quais as consequências dessa redistribuição de renda para a transição socialista? Ao longo da seção, exploramos a relação contraditória entre a distribuição e redistribuição dos rendimentos do turismo e os propósitos da Revolução. Por um lado, a redistribuição de renda garante a inserção de outros estratos de classe na atividade turística; por outro lado, cria disputas por esses rendimentos entre os estratos de classe. Por fim, também constatamos que a partir da redistribuição secundária desses rendimentos na forma de renda da terra há um novo estrato capaz de ascender socialmente — os proprietários de casas-negócio. Ao mesmo tempo, conforma-se um novo modelo de organização da distribuição dos rendimentos da atividade econômica, baseado na apropriação privada em alguns setores e posterior tributação desses valores."

CONSEQUÊNCIAS URBANAS E HABITACIONAIS

- Um dos problemas antigos em Cuba é o déficit habitacional, fazendo com que muitas vezes resida no mesmo imóvel mais de um núcleo familiar. Com a questão do turismo e as oportunidades de um imóvel residencial se tornar meio de produção de valores, a situação se agrava

- Sobre as migrações internas no país, Aline nos conta que nos primeiros 30 anos da Revolução, não havia migrações importantes do interior para a capital Havana. Na atualidade, há, por causa das oportunidades de trabalho, seja como TCP ou a serviço das empresas que operam na região

- Durante o período especial, nos anos noventa, houve mais controle do governo. Já após os anos dois mil, as migrações das regiões orientais - Santiago de Cuba, Granma e Guantánamo - rumo a Havana aumentaram consideravelmente

- Achei bem interessante conhecer as movimentações migratórias em Cuba, em especial em Havana. Conhecendo um pouco a cidade e a região, é possível visualizar o que a autora nos explica:

"Em suma, apesar das tentativas de manter a população local no Centro Histórico e recuperar as construções históricas sem mudar a função do bairro, inevitavelmente há um processo de remoção dos moradores, os quais são deslocados para os bairros onde encontram-se os principais conjuntos habitacionais estatais. Não é possível conhecer o volume da população deslocada, no entanto, de acordo com o Censo de 2012, havia naquele ano 4.775 moradias temporárias, o que corresponde a 1% do total de moradias da cidade (ONEI, 2012)."

- As consequências do turismo nas partes centrais de Havana, principalmente La Habana Vieja e Centro Habana, no centro histórico da cidade, são as dificuldades para os moradores locais sobreviverem ali, pensando a inflação da região pelo acesso e demanda dos turistas:

"No que diz respeito aos motivos para saída de moradores do Centro Histórico, Gonzales (2019) cita o encarecimento dos produtos nas lojas de produtos importados; a diminuição das lojas estatais de distribuição de alimentos, chamadas de bodegas; e a diminuição dos espaços culturais e esportivos em relação aos espaços comerciais e turísticos."

- A autora informa até que há suspeitas do fenômeno da gentrificação como causa das migrações de cubanos para fora do casco histórico de Havana, onde é maior o fluxo de turistas

- Por outro lado, parte da população, inclusive local, entende que é necessário o processo de reforma e investimento na recuperação dos imóveis locais para favorecer o turismo que, por sinal, é central para a economia e para que o governo possa realizar as ações sociais como distribuição da canasta básica, educação e saúde públicas, lazer e emprego

- Enfim, seria um processo de gentrificação o que acontece em Cuba? A autora diz:

"A partir dessa sucinta explanação sobre o processo de gentrificação tal como foi desenvolvido para explicar o fenômeno em países do capitalismo central, e considerando as diversas especificidades da sociedade cubana, seria possível nomear o fenômeno urbano em Cuba de gentrificação? Para responder essa pergunta é preciso, em primeiro lugar, avaliar as razões da deterioração das moradias cubanas. Vimos no Capítulo 1 que ela é resultado de um plano econômico e social que por um longo período priorizou investir no campo — principalmente para o desenvolvimento da indústria sucroalcooleira — e em políticas sociais universais. Sendo assim, a ausência de investimentos estatais para habitação não corresponde à lógica capitalista de acumulação de capital, e sim à dificuldade cubana de superar o subdesenvolvimento, o que impôs a priorização de outros gastos frente à manutenção e reforma das moradias."

- E tem mais, Aline afirma que:

"Ao contrário, ela vem do Estado e, como argumentamos anteriormente, parece que a possibilidade de incluir trabalhadores autônomos e proprietários de imóveis nesse circuito de renda representa uma tentativa de contornar a falta de postos de emprego estatais, apresentando-se como um instrumento indireto de distribuição de renda. Sendo assim, diferentemente do que acontece nos países capitalistas, em Cuba, a apropriação do rent-gap pelo Estado tem um destino claro: fomentar as políticas sociais da Revolução Cubana, e um objetivo secundário de incluir nesse circuito de renda novos agentes sociais."

- Após Aline deixar claro que não ocorreu em Cuba o processo de gentrificação que ocorre nos países capitalistas, algumas consequências inevitáveis acabam ocorrendo:

"Apesar das diferenças entre a definição de gentrificação — tal como foi elaborada para descrever os processos nos países capitalistas centrais — e o fenômeno que observou-se neste trabalho, é possível dizer que o último compartilha de alguns dos efeitos típicos da gentrificação capitalista. Por exemplo, na atuação da OHCH, apesar da sua preocupação com a preservação da população local, podemos considerar que devido à necessidade de liberar espaço para empreendimentos turísticos, ocorre o deslocamento da população local e a atração de outros grupos sociais para o território — majoritariamente os trabalhadores autônomos. Ademais, após a autorização para a compra e venda de moradias, podemos assumir a existência de rent-gaps, considerando que parte do preço dos imóveis nessas regiões corresponde ao potencial de ganho com a conversão de seu uso residencial para o comercial. Ou seja, apesar das diversas particularidades do caso cubano, existe rent-gap e ocorrem deslocamentos, inclusive com a saída da população local dos bairros reformados para abrigar o turismo."

- Caminhando para as conclusões do estudo, a autora diz que é melhor avaliar o processo urbano e social em Cuba considerando o histórico e estudo que ela apresentou nos capítulos iniciais do livro e não baseado no processo de gentrificação frequente nos sistemas urbanos capitalistas

- Uma das conclusões que Aline apresenta é o efeito real no imaginário das pessoas derivado dos preconceitos e situações sociais em Cuba anteriores à Revolução de 1959, das décadas iniciais do século XX:

"A primeira camada, e mais profunda, é a das estruturas herdadas do sistema anterior, ou seja, as desigualdades territoriais próprias do capitalismo dependente cubano anterior a 1959. Nessa camada encontram-se, por exemplo, as diferentes apreciações sobre o espaço urbano, as impressões e as valorações dos bairros no imaginário coletivo, ou seja, os elementos que ocupam o campo das subjetividades e que tornam os antigos bairros burgueses imageticamente mais aprazíveis e os antigos bairros de trabalhadores os menos desejados."

- Como a capacidade de consumo determina os processos de ascensão social na Ilha, os espaços geográficos pesam nessa questão. Aline explica isso como uma segunda camada em suas conclusões:

"Em resumo, foi sobreposto à estrutura universal de educação e de saúde uma camada de acessos desiguais ao consumo através das diferentes possibilidades de emprego em cada bairro ou município. Essa seria a segunda camada das desigualdades territoriais, em que o território condiciona as possibilidades de mobilidade social."

- Milton Santos criou metáfora usada por Iñiguez para descrever o fenômeno em Cuba como "bairros luminosos" e "bairros opacos", os que oferecem e os que não oferecem oportunidades aos moradores cubanos:

"Estudando esse processo, Luisa Iñiguez (2014) emprega a metáfora criada por Milton Santos (2006) para diferenciar os dois perfis de bairros que emergiram após o Período Especial: os luminosos são aqueles onde instalaram-se os novos empreendimentos turísticos e neles os moradores podem ascender socialmente através do emprego no turismo ou no setor privado; os territórios opacos são aqueles que comportam majoritariamente o setor estatal e que têm pouca capacidade de atender às demandas de emprego e consumo de seus moradores."

- Por fim, a autora cita uma terceira camada de desigualdades em Cuba:

"A terceira camada de desigualdades do território, e a mais recente, foi inaugurada com a abertura do mercado de imóveis, evento que, como expressado anteriormente, marca um novo padrão de mobilidade da população, que reforça os fluxos migratórios e aprofunda a especialização produtiva baseada nos diferentes usos do solo de cada região da cidade. Nesse novo cenário, que iniciou-se em 2011, o perfil de renda e de ocupação dos cubanos passou a determinar o bairro ou município em que se localizariam. Ou seja, pela primeira vez desde a Revolução, o espaço está se reorganizando de acordo com as possibilidades de ascensão social dos seus moradores. O preço dos imóveis é uma evidência dessa nova etapa, pois ele restringe o uso de alguns imóveis — e, portanto, do espaço — a alguns estratos específicos."

- Efeitos da legislação de 2011 que criou o mercado de imóveis em Cuba: realocação da população de acordo com subgrupos sociais:

"Nesse aspecto, identificamos duas tendências: a concentração de TCP no centro de Havana e dos trabalhadores estatais na periferia, composta por municípios com padrões de ocupação e capacidade de consumo semelhantes. Consideramos o mercado de imóveis como responsável por esse fenômeno, pois em primeiro lugar permitiu que os grupos sociais se reorganizassem pela cidade através da compra e venda de moradias e, em seguida, que os preços desses imóveis se transformassem em sinalizadores — e barreiras — para a ocupação de certas localizações por outros estratos de classe."

- Sobre o poder político em Cuba é importante reforçar o que a autora nos demonstra: 

"Cuba possui um sistema de representação política que não corresponde à hierarquia da estratificação socioclassista. Ou seja, as pessoas que pertencem aos grupos sociais identificados como “mais vantajosos” — TCP, empregados no setor emergente e recebedores de remessas — não detêm a maioria do poder político."

- Algumas conclusões do capítulo:

"No caso cubano, vimos a partir do estudo sobre Havana, que a renda da terra corresponde ao sobrelucro das atividades comerciais e de serviço voltadas ao turismo realizadas nas moradias pelos TCP. Concluímos que esse sobrelucro é apropriado por quatro agentes: o Estado, as empresas internacionais, os trabalhadores autônomos e os proprietários de casas-negócio."

- Camadas de desigualdades constatadas na questão urbana em Cuba:

"pudemos distinguir entre três camadas de desigualdade que se avolumam sobre o espaço urbano: 

• Primeira camada: corresponde às desigualdades territoriais herdadas da história cubana pré-revolucionária e que fazem com que bairros e municípios sejam diferentes entre si em termos de infraestrutura urbana e apreciação no imaginário popular; 

• Segunda camada: após o Período Especial criam-se condições de ascensão social que relacionam-se com o espaço. Nesse sentido, alguns bairros e localizações permitem aos seus moradores trabalharem no setor turístico e com isso garantir melhores padrões de consumo; 

• Terceira camada: depois do estabelecimento do mercado de imóveis, o acesso a esses bairros e, como consequência, às oportunidades de trabalho que eles oferecem, passou a depender também da posição da pessoa na estrutura social. Aqueles que possuem família no exterior ou que conseguiram juntar dinheiro para a compra de uma moradia nessas localizações passaram a poder ter acesso a elas."

- A autora conclui no capítulo:

"Em suma, essa nova desigualdade urbana é a expressão territorial da reestratificação social que está em curso desde os anos 1990 e que se apresenta como um desafio a ser equacionado dentro do novo modelo do socialismo cubano."

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Texto lido por

William Mendes

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Professores Aline Miglioli e Ivan Jacob

Post Scriptum (após a aula):

Aula: Cidade neoliberal, reforma urbana e a questão ambiental

A professora Aline nos proporcionou uma aula muito dinâmica, dialogada e demonstrou didática inclusiva e leve. Foi uma aula bem legal. As aulas que estamos tendo neste curso de extensão - "Como impedir o fim do mundo: colapso ambiental e alternativas" - são oportunidades extraordinárias de novos conhecimentos e reflexões.

Aline nos falou a respeito do estudo de Engels sobre moradias e os motivos pelos quais as moradias eram tão caras na região de estudo, na Inglaterra.

A moradia é uma das necessidades básicas dos trabalhadores e um dos motivos para que ele se submeta à exploração capitalista. Sem vender sua força de trabalho, não há moradia.

Esquema de reprodução de mercadoria de Marx (em linhas gerais e bem resumidamente):

D ($) inicial -- fatores de produção M (Trabalho, Terra, ferramentas etc) -- gera M' (mercadoria) -- D' ($) valor maior final ao ser vendida a mercadoria

No caso da moradia

T (Terra) + MO (mão de obra, materiais etc) = M (casa) -- M' ($) valor maior ao ser vendida a mercadoria casa

Comentário do blog: repito, esquema bem simplificado só para destacar linhas gerais

Ainda no caso das moradias, cujo valor da mercadoria é alto, não é valor que se tenha facilmente como coisas do cotidiano, para realizar esta mercadoria (vender a casa) é necessário outro agente, o banco que financia o imóvel ao comprador.

A professora Aline nos explica a Teoria da Renda da Terra, de Karl Marx: há uma certa disputa entre o proprietário da terra, que arrenda, e o produtor. Quem fica com o sobrelucro? (renda diferencial)

Nos são explicadas as formas de renda: a renda diferencial, a renda absoluta e a renda de monopólio, como está citado na resenha do capítulo 6, que fiz acima.

Temos além da renda diferencial, a renda absoluta, que os proprietários e os herdeiros da terra cobram por disponibilizar a terra e ainda tem a renda de monopólio, quando o domínio do espaço diferenciado por suas características é um privilégio desse proprietário.

A professora cita o famoso vídeo do empresário Silvio Santos reunido com o querido Zé Celso, em tentativa de solução para o terreno do Teatro Oficina. 

Eu avalio que ali tem uma mescla de dois tipos de renda do imóvel do Silvio Santos, poderia ser um exemplo de renda de monopólio e uma renda absoluta. 

Por fim, Aline abordou a questão da gentrificação no mercado de imóveis na lógica capitalista, suas causas e consequências, e citou como exemplo atual o mercado dos apps do tipo Airbnb, que tem causado a expulsão da classe trabalhadora de regiões importantes das cidades.

Aula excelente!

Comprei o livro da professora Aline e já estou lendo. Estou gostando bastante da leitura.

William Mendes

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sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Leitura: Breves notas sobre a ecologia como limite absoluto ao capital em Mészáros - Ivan Lucon Jacob



Refeição Cultural

Artigo: Breves notas sobre a ecologia como limite absoluto ao capital em Mészáros. Ivan Lucon Jacob, doutorando em Desenvolvimento Econômico (IE/UNICAMP) e pesquisador do IBEC

Leitura para reflexão antes de uma aula sobre o tema (em 09/08/25)

Aula III (manhã) - Papel do Estado na aceleração do fim do mundo

Objetivo: textos de apoio para o curso de extensão "Como impedir o fim do mundo: colapso ambiental e alternativas", organizado e ministrado por IBEC, Unesp e demais parcerias

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A postagem é uma espécie de fichamento feito pelo autor do blog. Qualquer interpretação divergente do texto original é de responsabilidade deste leitor que comenta o texto.

Abaixo algumas palavras-chave ou ideias que gostei no referido texto.

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- Falência dos dois modos estatais de controle e regulação do capital: o modelo keynesiano, responsável pelo welfare state, e o "tipo soviético", que mesmo tendo partido de uma revolução política, acabou por ser, segundo Mészáros, um "sistema sociometabólico do capital"

- Mészáros avalia estarmos chegando a um "limite estrutural do capital" devido ao seu caráter incontrolável de destruição da natureza

- Diz Ivan Jacob "Marx definiu o trabalho em si em uma concepção de metabolismo, dado que 'trabalho é, antes de tudo, um processo entre o homem e a natureza, um processo em que o homem, por meio de suas próprias ações media, regula e controla seu metabolismo com a natureza"

- Em seu caráter social, quando o homem age sobre a natureza e a modifica, modifica a si mesmo, sua própria natureza, é uma relação metabólica

- Falar de suposto controle ou estabilidade do capitalismo é uma mentira cínica, é enganar quem não conhece a natureza expansiva e acumuladora do capital

- Mészáros afirma que o controle social é "a condição prévia necessária para qualquer relação sustentável com as forças da natureza"

- As "soluções" apresentadas pelas corporações monopolistas do capital, a invenção falaciosa do "desenvolvimento sustentável" nada mais são que a continuidade da destruição do mundo como está se dando agora

- A solução para o mundo não é a reprodução do modelo estadunidense de destruição da natureza e do planeta, no qual 5% da população global consomem 25% dos recursos energéticos disponíveis

- A ciência e a tecnologia poderiam alterar o processo atual de destruição do mundo em função do modelo capitalista? Não, pois o uso vem sendo em função da própria acumulação de capital e em desfavor do planeta e da sociedade humana em geral (p. 47 do artigo)

- "Portanto a questão que se coloca 'não se restringe a saber se empregamos ou não a ciência e a tecnologia com a finalidade de resolver nossos problemas' - dada a obviedade da resposta: sim! - 'mas se seremos capazes ou não de redirecioná-las radicalmente, uma vez que ambas estão estritamente determinadas e circunscritas pela necessidade de perpetuação do processo de maximização dos lucros' (diz Mészáros)

- De novo, só o controle social pode alterar a lógica estabelecida hoje, definindo como produzir e o que produzir, na relação sociometabólica com a natureza

- Se a humanidade deseja sobreviver, é preciso superar a fragmentação social e encontrar a unidade para superar o modo de produção capitalista (destruição incontrolável e consumista da natureza para acumulação de capital)

- Ivan Jacob cita Mészáros e Marx ao abordar a questão do desenvolvimento tecnológico e produtivo para reduzir as horas de trabalho humano, mas com benefício da própria sociedade humana, e numa relação metabólica natureza e sociedade mais equilibrada e sustentável (p. 50, item IV do artigo). Esse seria um objetivo do comunismo

- "Marx argumenta que uma sociabilidade advinda de produtores livremente associados deve existir no âmbito do metabolismo prescrito pelas leis naturais da própria vida, assegurando as condições de existência para as gerações presente e futura" (Ivan Jacob)

- Ivan Jacob cita Clark e Foster (autores de referência no artigo), concluindo o texto: "há uma síntese necessária entre Marx e Mészáros, na formulação de uma concepção de transição para um sistema sustentável de reprodução metabólica social. Tanto a igualdade substantiva quanto a sustentabilidade ecológica são os pilares de uma sociedade livre dos ditames e da lógica do capital..."

- Por fim, é urgente também a "necessidade histórica da criação do movimento dos produtores visando a mudança radical nas formas atuais de controle social visando sua emancipação. A necessidade, portanto, do comunismo." (Ivan Jacob)

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Fecho minha resenha e leitura do artigo, concordando com Ivan Jacob, Clark, Foster, Mészáros e Marx... 

Urge a necessidade do comunismo!

Leitura feita por,

William Mendes

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Professor Ivan Jacob


Post Scriptum, após a aula em 09/08/25:

O papel do Estado na aceleração do fim do mundo

O prof. Ivan começa lendo o poema "Congresso Internacional do Medo", do livro Sentimento do Mundo (1940), de Carlos Drummond de Andrade.


Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

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- Algumas teorias afirmam que vivemos o período geológico antropoceno, período no qual as ações humanas impactaram sobremaneira nos ecossistemas do planeta Terra

- Nunca estivemos num grau tão grande de risco para o planeta, um "estado não análogo'

- Crise estrutural do capitalismo (Mészáros)

- Dos anos setenta pra cá as taxas de lucro dos capitalistas vêm caindo, ou seja, vem diminuindo a capacidade de acumulação do capital

- Há uma crise que permeia todos os setores do capital, uma crise global

- Celso Furtado: já nos anos noventa nos alertava sobre a dimensão da crise do capital. Não só as periferias seriam afetadas pela crise, mas também os centros hegemônicos iriam sofrer como as periferias

- A crise é permanente, não é cíclica como até os anos setenta, é uma crise rastejante, a crise atingiu os seus limites incontornáveis. Ex.: meio ambiente e ecologia limitam a expansão do capital

- Taxa de utilização decrescente das mercadorias: não funcionam mais as soluções de gestão do Estado capitalista como ocorreu ao longo do tempo

- Antes: o modo keynesiano (Welfare State), o Estado era mediador da relação K vs T, com as políticas macroeconômicas que permitiam acumulação de K, pois parte da taxa de lucro era usada para bens e direitos sociais

- Mesmo durante o Welfare State, o "Estado de bem-estar social", havia limites temporais e geográficos, os benefícios não eram para todos, eram para alguns escolhidos e privilegiados: os trabalhadores da Europa e dos EUA e durou três décadas

- Enquanto isso, o pau comia nas demais regiões exploradas e vítimas do capitalismo, África e Américas do Sul e Central, por exemplo

- A partir das décadas de 70 e 80 o neoliberalismo iniciou a destruição do Estado de bem-estar social pós-guerra, com Reagan e Thatcher

- No Brasil, a rede de proteção social conquistada a duras penas e com todas as lutas dos anos oitenta (a CF 1988) - e com os governos do PT - começou a ruir com os movimentos organizados a partir de 2013

- Importante registrar que mesmo os direitos da CF 1988 eram para um segmento da sociedade, para o trabalho formal, o restante ficava de fora, o que não é muito diferente do cenário na Europa e EUA com os imigrantes e indocumentados

- Alerta aos reformistas: a crise atual do capital não permite mais a reconstrução do Estado de bem-estar social ou qualquer rede de proteção social, acabou!

- Vejam o que tem acontecido com os avanços dos segmentos de extrema-direita na atualidade: a regra é desfazimento de qualquer direito social, civil ou político e cada um por si, se virem!

- Marx e os órgãos das máquinas: 1º motor, 2º transmissão/energia, 3º ferramentas, 4º os controles automáticos/robotização (Bacchi). A fase atual torna desnecessária a força de trabalho humana:

Citação do meu resumo do texto (aqui) do prof. Fábio Campos: "- O 4º órgão... "Segundo Bacchi (2020), nos anos 1960 foi introduzido o quarto órgão daquela máquina que Marx (2013) descrevera no cap. 13 do Livro I de O Capital. Além do motor, a transmissão e a máquina ferramenta do século XIX, surge o 'quarto órgão de controle' que introduz 'a máquina programável' e, com ela, o que determinou a crise estrutural" (p. 106)

- Quando vêm os robôs são expulsos os humanos que geram valor, que geravam a mais-valia, por isso as taxas de lucro vêm diminuindo: mais máquinas, menos humanos, taxas de lucro menores

- Além da queda nas taxas de lucro com a expulsão do trabalho humano, a massa salarial é reduzida e com isso o consumo é menor

- Temos ainda a obsolescência programada para reduzir a vida útil das mercadorias, que hoje não duram nada, são uma porcaria

- Eis aí a taxa decrescente de utilização das mercadorias, gerando um ponto de sobrecarga insuportável para a natureza, o planeta. É a grande aceleração do uso de recursos naturais dos anos setenta adiante

- Não há saída dentro do sistema capitalista, ou mudamos a relação dos humanos com a natureza ou acaba tudo

- O Estado é a muleta de reprodução do capital atual, é só analisarmos como se dão as coisas nas políticas dos países do mundo

- Para piorar mais ainda, temos o complexo industrial militar dos EUA, que são empresas privadas que recebem encomendas do Estado. Essa "mercadoria" - armas - é feita e estocada sem ser utilizada em sua totalidade, sendo assim uma espécie de K perfeito: tem o Estado por trás, uma fonte inesgotável de dinheiro

- E o Estado norte-americano tem ainda a moeda que domina o mundo capitalista, ou seja, o mundo financia o complexo industrial armamentista dos EUA, tanto por vender mercadorias ao mundo (em dólares), quanto por receber de volta o dólar no investimento de seus papéis da dívida

- Os EUA emitem papéis da dívida, o mundo investe nesses papeis, e o mundo financia o déficit descomunal do país. O dólar vai e volta, financiando o déficit interno

- O braço armado do Estado sempre foi essencial para o capitalismo

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Comentário final do blog:

A aula do prof. Ivan Jacob foi espetacular!

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