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terça-feira, 16 de setembro de 2025

O último poema

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O ÚLTIMO POEMA


O primeiro poema foi um balanço dos trinta anos.

A infância feliz e depois infeliz, do amor ao ódio.

Exploração infantil na venda do seu trabalho.

As relações de afeto, sempre regadas com lágrimas.


Aos trinta, já era pai e funcionário de banco público.

Formado, por acaso, em Contábeis. Não se formou

em Educação Física porque o salário não deu.

Passou no vestibular e entrou nas Letras...


A vida andou. Virou sindicalista. Se politizou.

Por duas décadas, outra vida, um novo homem.

Aos cinquenta, virada radical nos papéis sociais.

Saiu do BB. Da representação. Do espaço de atuação.


Aos cinquenta e seis anos, o mundo se desfaz.

Na política e na economia do seu país e do mundo, 

a extrema-direita e o capitalismo em crise estrutural

estão colapsando a sociedade humana e a Terra mãe.


No pessoal, o balanço da vida se parece com o mundo.

A saúde: bomba-relógio: genética e veredas da vida.

As relações: o retrato dos tempos: incomunicabilidades.

Teria contribuições a fazer... sente que não vai rolar.


William Mendes

16/09/25

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Instantes (10h24)



Refeição Cultural

Acordei pensando nas reflexões do personagem Winston, do clássico livro de George Orwell, "1984". Ele refletia sobre o esforço necessário para não se deixar apagar a verdade verdadeira e como resistir à "verdade" de mentira que o regime implantava diariamente, reescrevendo o passado. 

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"Quem controla o passado, controla o futuro;

quem controla o presente, controla o passado."

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Aí pensei no presente do meu tempo. O passado está sendo apagado. O presente está sendo registrado em "nuvens" (dos inimigos) e, com isso, no futuro, não teremos mais nem o passado (o presente), nem perspectivas de futuro. 

Eu fico com dó da gente, dos seres humanos... temos histórias tão bonitas pra contar... a dos bancários, por exemplo, são muitas histórias bonitas da categoria que enfrenta nada mais nada menos do que os donos do capital.

E no meio das lutas de classes diárias, tem as lutas diárias pessoais, dos trabalhadores. Meus blogs e meus registros são isso, memórias de nosso passado coletivo, registros de nossos acertos e erros, sentimentos e ações. 

Onde fui ler que meu pai infartou em fevereiro de 2012, e que o dirigente sindical escreveu um poema na UTI do hospital, decepcionado com as privatizações dos aeroportos brasileiros naquele momento? No meu blog...

Winston reflete sobre a verdade verdadeira e se desespera ao saber que ao morrer, morrerá com ele a verdade, e ficará registrada só a "verdade" mentirosa, reescrita pelo regime. 

Preciso terminar de vez a revisão de meu livro de memórias e imprimir algumas unidades para presentear pessoas conhecidas. Recebi o boneco da edição e relendo os textos me surpreendi com o conteúdo. Não está ruim. São nossas histórias ali, não são só minhas. 

Nosso sindicato e nossas entidades de classe têm histórias bonitas para serem contadas, e devem ser preservadas por nós que as vivemos. Um futuro que não tenha referência no passado coletivo que construímos é um futuro distópico.

Tenho que seguir resgatando o nosso passado, é minha obrigação como ser social, minha e de todos nós da classe trabalhadora explorada e subjugada pelos donos do capital, e dos meios de produção, incluídas as "nuvens" que guardam nosso presente e nosso passado.

William Mendes


Post Scriptum: aqui pode ser lido artigo que fiz em fevereiro de 2012 sobre o tema "1984", de George Orwell.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Livro: Deuses humanos - H. G. Wells



Refeição Cultural

"Isso é o que fazemos agora habitualmente neste mundo. Pensamos diretamente uns para os outros. Determinamos transmitir o pensamento e é transmitido imediatamente, contanto que a distância não seja grande demais. Agora usamos sons neste mundo apenas para poesia e para o prazer e nos momentos de emoção ou para gritar de longe, ou com animais, não para a transmissão de ideias da mente humana para outra mente irmã. Quando eu penso para você, o pensamento é refletido em sua mente, desde que encontre ideias correspondentes e palavras adequadas em sua mente. Meu pensamento se reveste de palavras em sua mente, palavras que vocês parecem ouvir - e naturalmente em sua própria língua e com suas frases habituais. Muito provavelmente, os membros de seu grupo estão ouvindo o que estou dizendo a você cada um com suas próprias diferenças de vocabulário e sintaxe." (p. 50)


O livro de Herbert George Wells, Deuses humanos, veio até mim de forma casual, o vi numa banquinha de livros num shopping center. Paguei por ele quinze reais.

Pelo que pesquisei, o livro não é daqueles mais conhecidos do autor inglês como Guerra dos mundos, A ilha do Dr. Moreau, O homem invisível, A máquina do tempo e outros. 


LIVRO 1 - A IRRUPÇÃO DOS TERRÁQUEOS 

No enredo, o senhor Barnstaple, um trabalhador do periódico Liberal - um subeditor e um faz-tudo -, reflete sobre a necessidade de férias, ele está esgotado pela rotina no trabalho e também em casa. Quer férias até da família. 

Sendo assim, ele pega o carro e sai escondido por uns dias. Dirige a esmo e numa derrapada se vê em outro mundo. Começa aí sua experiência em "Outro Lugar", um lugar chamado Utopia.

Outro carro com um grupo eclético, incluindo um político do partido Conservador inglês, foi parar naquele mundo também. Personagens: sr. Cecil Burleigh, líder Conservador; sr. Rupert Catskill, secretário de Estado para a Guerra; temos ainda o chofer, Lady Stella, Freddy Mush (secretário de Rupert) e o padre Amerton.

O senhor Barnstaple é um liberal, mas:

"De fato, o sr. Barnstaple estava deixando de ter esperanças, e para tipos como ele, esperança é o solvente essencial sem o qual a vida não pode ser digerida. Sua esperança sempre havia sido o liberalismo e o generoso esforço liberal, mas ele começava a achar que o liberalismo jamais faria nada além de se sentar curvado com as mãos no bolso, resmungando e implicando com as atividades de homens mais vulgares, porém mais enérgicos, cujas atividades iriam, inevitavelmente, acabar com o mundo." (p. 12/13)

O senhor Barnstaple tem um pequeno automóvel:

"Era um carro de dois lugares. Era conhecido na família como Banheirinha, Mostarda Colman e Perigo Amarelo. Como esses nomes sugerem, era um carro baixo, conversível, de uma cor amarela clara. O sr. Barnstaple o usava para ir de Sydenham ao escritório, porque fazia cinquenta quilômetros por galão e era muito mais barato do que uma passagem de temporada." (p. 15)

Uma ideia é destaque na saída furtiva do senhor Barnstaple de casa para descansar uns dias:

"(...) Mas não importava muito. Qualquer caminho levava para Outro Lugar, e ele podia seguir para o norte depois." (p. 18)

Localização temporal

"O dia era um desses dias de sol claro característicos da grande seca de 1921 (...) enquanto estivesse dando as costas para Sydenham e o escritório do Liberal, não importaria para qual direção seguiria." (p. 18)

Outro Lugar

O grupo de terráqueos estabelece uma troca de informações e conhecimentos com os indivíduos daquele mundo e assim segue o enredo do romance ficcional. 

Serviço Universal

A base da organização social em Utopia é um novo método de cooperação econômica: o serviço universal para o bem comum.

O novo modelo social surgiu lentamente após a última Era de Confusão. Não houve revolução. Foram séculos de educação e ciência. 

Personagens utopianos até esta parte da leitura (livro um): sr. Serpentine, sr. Urthred, Lion, Lychnis.

Mais personagens

Mais adiante, aparecem novos personagens: Lorde Barralonga, o chofer Ridley, a srta. Greta Grey, Hunker - o rei do cinema -, o francês Emile Dupont e Penk. O bando chegou atropelando e matando um cidadão de Utopia. 

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LIVRO 2 - A QUARENTENA

A segunda parte do romance começa anunciando uma epidemia na população de Utopia causada pelos germes trazidos pelos estrangeiros terráqueos. 

Os utopianos eram como os povos originários das terras invadidas pelos homens brancos europeus em meados do segundo milênio da chamada era cristã. 

De forma sintética, resumiria que o grupo de terráqueos foi isolado num castelo no alto de uma montanha. Os doze humanos discutem sobre o que fazer, sendo o sr. Barnstaple o único divergente na proposta do grupo.

O subeditor do Liberal não vê sentido na ideia do grupo de se contrapor aos utopianos e fazer de Utopia o que seria a sociedade humana naquele momento em 1921. Os utopianos estavam séculos à frente em avanços sociais, pensava o sr. Barnstaple. 

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LIVRO 3 - UM NOVATO EM UTOPIA

"- Aqui - disse ela - não há descanso. Todos os dias homens e mulheres acordam e dizem: 'Que coisa nova faremos hoje? O que vamos mudar?'.

- Eles transformaram um planeta selvagem, com doenças e desordem, numa esfera de beleza e segurança. Fizeram a selva das motivações humanas conter união, conhecimento e poder." (p. 192)


Nesta parte da história veremos o desfecho da aventura do sr. Barnstaple. 

Para mim, como leitor, foram esclarecidas várias dúvidas em relação ao enredo do romance de H. G. Wells.

Certas afirmações pejorativas feitas pelos utopianos sobre a raça humana me deixaram perplexo, no sentido de que poderiam ser ditas hoje, um século depois do enunciado, e não como ficção, mas como descrição do que somos.

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COMENTÁRIO FINAL 

"Em Utopia, assim como na Terra, houvera pessoas escuras e morenas, e permaneciam distintas. As várias raças interagiam socialmente, mas não procriavam muito entre elas; em vez disso, purificavam e intensificavam suas belezas e dons raciais (...) Houvera uma certa eliminação deliberada de tipos feios, malignos, estreitos, estúpidos e soturnos durante os doze anos anteriores." (p. 197)


Esse enunciado é de um século atrás. Chocante, não? Porém, as ideias contidas no texto fazem parte de um romance ficcional. 

No entanto, ideias semelhantes foram ditas faz poucos anos, já no século XXI, por um deputado federal à época para uma entrevistadora negra. Bolsonaro disse para Preta Gil que seus filhos não tinham risco de namorar negras porque foram bem-educados...

Preta Gil processou o sujeito por racismo e teve ganho de causa. Infelizmente, a cantora faleceu ontem. (Preta Gil, presente!)

O livro de H. G. Wells, de 1923, traz uma temática absurdamente atual um século depois. 

A ficção traz de volta o tema da existência de um não lugar, um lugar nenhum idealizado, assim como fez Thomas More em 1516, com sua célebre obra "Utopia".

Nessas idealizações de mundos imaginários entram de tudo: socialismo ou comunismo, eugenia, tecnologias impossíveis etc.

Quando peguei o livro na banca de promoções de livros baratos não imaginava do que se tratava o enredo. Foi sorte minha, li um livro muito bom!

Recomendo a leitura dessa obra posterior ao período mais notabilizado do autor, entre 1895 e 1905, quando saíram seus grandes clássicos de ficção. Dessa fase eu li "A guerra dos mundos" (1898) e achei o enredo fascinante (comentário aqui). 

Seguimos lendo porque a leitura é uma das maravilhas da espécie animal homo sapiens. Como diz Paulo Freire, só se educa gente! Leitura educa as pessoas.

William Mendes


Bibliografia:

WELLS, H. G. Deuses humanos (Men like Gods). Tradução de Santiago Nazarian e Thelma Nóbrega. Barueri, SP: Amoler, 2022.

terça-feira, 15 de julho de 2025

Instantes (12h49)



Refeição Cultural

No romance, estou numa parte na qual parece ser o fim para o senhor Barnstaple, ele está numa reentrância na rocha em um penhasco. Abaixo, o desfiladeiro, acima, rochas por onde escorregou até ali, fugindo de seus pares terráqueos. Ele avalia que as opções nessa situação são duas: esperar a morte por inanição ou se jogar para a morte.

Estou com as palavras do professor Domenico de Masi circulando pelas sinapses de meu cérebro criador de tudo. Vi uma aula dele sobre o tema "O ócio criativo" (no ICL). Ele explica sobre o trabalho, seu objeto de análise e estudos por décadas. 

Nas minhas reflexões, me lembrei do sofrimento que o trabalho significou em minha vida. Vejo a trabalhadora limpando a piscina, trabalhando, e me lembro do meu primeiro dia como ajudante de encanador antes dos dezesseis anos... depois me lembro daquelas latas de palmito podres que tinha que abrir pra jogar fora... Temos que trabalhar para sobreviver.

De Masi nos conta que por milênios, o trabalho não tinha essa interpretação recente de "dignificar" o homem (mulher nem era considerada em relação aos direitos nos mundos dos homens). Trabalhar era castigo divino, era para escravizados. Dignificar os homens era através da filosofia, da arte, do belo, dos esportes e da gestão da Pólis

Esse papo de trabalhar dignifica o homem veio dos últimos dois séculos, da era industrial. Locke, Smith e Marx mudaram o olhar sobre o trabalho. Segundo De Masi, desde sempre (milhares de anos de homo sapiens), nosso objetivo foi trabalhar pouco ou não trabalhar. 

Isso me parece ter todo o sentido!

Agora temos máquinas e tecnologias para livrar a espécie humana da maior parte do trabalho ruim, insalubre, de risco e humilhante. E também de trabalhos mais considerados pelas sociedades. Poderíamos viver para o belo, para estudar e criar, para a cultura. Mas 99% estão no "corre" por um trabalho qualquer, até por um prato de comida, e 1% acumula tudo.

Pior: isso é normalizado!

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Confesso que estou tão cansado quanto meu corpo, que cansou de sobreviver dez anos a mil.

Por consciência, busco sentidos. Mas confesso que está difícil encontrar sentidos. 

Me despeço amanhã do paraíso, da singela colônia de férias dos professores na Praia Grande. 

Voltarei para o caos.

Will i am 

15/07/25

domingo, 13 de julho de 2025

Instantes (11h11)



Refeição Cultural

Sempre que penso em parar de escrever, depois de alguns dias volto atrás e venho aqui burilar alguma coisa do que vai em minh'alma. 

A memória é um suporte orgânico de registros de experiências e pensamentos: conhecimentos e culturas. 

Todo organismo morre porque é parte da natureza. Tudo se transforma, muda o tempo todo. Somos parte dos ciclos do Carbono e do Nitrogênio. É o que somos, natureza.

A memória é uma ferramenta essencial dos seres vivos. Nos humanos a memória é seletiva. O animal humano é um contador de histórias, somos todos forrest gumps.

Meus textos têm uma importância para ao menos um leitor: eu mesmo, aquele que fui no momento do registro. 

Já tive a vaidade de todos nós de achar que nossas coisas têm serventia no mundo. Não têm. 

Escrevo hoje e se estiver por aqui amanhã, poderei ver o que escrevi naquele instante, se ainda me lembrar quem sou no amanhã. 

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Incomunicabilidade

Lendo sobre neurociência e tecnologia atual - leio Miguel Nicolelis - compartilho a percepção dele de que o mundo digital pode mudar a espécie humana de forma permanente, uma outra espécie talvez surja, uma espécie de homo digital, que não necessariamente será inteligente como a homo sapiens

Faz tempo que venho lendo e observando o mundo e os humanos ao meu redor... degeneração da espécie não é uma expressão exagerada para denominar o que eu vejo ao meu redor.

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Neste instante, ouvindo música na piscina da colônia de férias dos professores num domingo frio, me sinto verdadeiramente de férias, até de minha casa. Férias de tudo. São só uns dias. O caos está ao redor. O autoritarismo fascista está ao redor... Não estamos preparados. 

No livro de H. G. Wells "Deuses humanos", de 1923, o personagem sr. Barnstaple quer férias e vai parar em Utopia. Até onde li, ele, um liberal, está achando o máximo aquele mundo "perfeito", sem doenças, sem insetos, sem governantes, sem as complexidades do mundo dos humanos. Uma porra de mundo fascista. Todas as facilidades pensadas na sociedade utopiana têm uma coisa meio fascista, a ideia vendida de um mundo perfeito. Do tipo: não quer insetos e sujeira, cimenta o chão que tinha uma floresta e pronto.

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Com o advento das plataformas digitais, algoritmos, IAs, a captura da mente humana por alguns humanos (corporações), a economia da atenção baseada no ódio, seremos bilhões de humanos sem conseguir consenso algum. A tribalização da espécie está acelerada.

Não conseguimos ser ouvidos sequer por nossos pais, filhos, amigos, membros de grupos afins. Discordância é algo impossível. Guerra de todos contra todos. É o que vem por aí. 

Vejam a guerra entre ICL e Brasil247. É só um exemplo.

Eu percebi faz tempo isso na nossa espécie. Discordar ou opinar é a morte em vida, o cancelamento. 

No meu caso: não diga nada sobre a Cassi, o BB, o PT, a CUT, o sindicalismo, a Articulação Sindical... não diga nada que não seja amém aos que estão ao meu redor. Amém!

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Férias de tudo neste momento sozinho no solzinho frio da piscina da colônia de férias dos professores. Férias só estes dias. 

Depois, o caos na minha vida e no meu mundo.

Instantes. 

Este é único. Nunca mais!

William

13/07/25

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Livro: Nada mais será como antes - Miguel Nicolelis



Refeição Cultural

"(...) Contra todas as predições feitas pelos evangelistas fanáticos da inteligência artificial, que não seria de fato capaz de reproduzir como o cérebro humano funciona e, mesmo a longo prazo, não poderia nos substituir como sistemas digitais, o uso de IA causou danos tremendos e devastadores para o nosso modo natural de vida, obliterando as características puramente analógicas do nosso cérebro, como a inteligência, criatividade, intuição e o pensamento inovador fora da caixa. Neste processo, a imersão digital em tempo integral transformou quase a humanidade numa massa amorfa e semiconsciente, sem nenhuma perspectiva futura de se livrar dos grilhões desta escravidão digital." (p. 469)


Ao finalizar a leitura de mais um grande livro, a primeira reflexão que me vem à mente é aquela sobre a caminhada ser mais importante que a chegada. 

Quando comecei a ler a ficção do neurocientista escritor Miguel Nicolelis já sabia que a leitura seria demorada (ler aqui). 

Por acompanhar as entrevistas e postagens do professor, tinha noção do que seria tema no enredo do romance: as questões de IA e big techs etc. Então, curti a jornada sem a pressa da chegada.

Ao longo das 500 páginas do romance, fiquei reflexivo inúmeras vezes ao me deparar com o cenário daquele mundo de 2036. São muito provocativas as situações apresentadas na sociedade dos humanos autointitulados "homens sábios".

Desemprego global na casa dos 80%, por exemplo. A ideia não é de todo absurda de se imaginar num mundo onde as máquinas fazem tudo em benefício de aumentar a acumulação de riqueza na mão de pouquíssimos humanos. 

Não cito outros cenários da ficção para não dar spoiler de nada. Sugiro a leitura deste e de outros livros de Nicolelis. A obra científica "O verdadeiro criador de tudo", de 2020 (ler comentário aqui), impactou minha visão de mundo para sempre. 

Ao longo da leitura, fiz quinze postagens pequenas com comentários sobre algo que me instigou uma reflexão. No link da primeira postagem (aqui), pode-se ler as seguintes.

O final do romance é bem ficção científica mesmo (risos). Interessante!

Nada mais será como antes...

William


Bibliografia:

NICOLELIS, Miguel. Nada mais será como antes. São Paulo: Planeta do Brasil, 2024.


quinta-feira, 3 de julho de 2025

Black Mirror T1 - Questões para refletir



Refeição Cultural

T1.E1. Hino Nacional ("The National Anthem") - Dirigido por Otto Bathurst e escrito por Charlie Brooker. Exibido em 04/12/11.

Sinopse da Netflix: O primeiro-ministro Michael Callow enfrenta um chocante dilema quando a amada princesa Susannah é raptada.

Comentário:

As questões colocadas em evidência no episódio de lançamento da série Black Mirror são impactantes, não tem como não ficar pensando a respeito dos dilemas apresentados aos telespectadores. 

O episódio foi exibido há 14 anos e antecipou bastante o mundo das representações que só fez aumentar a cada ano. 

O que somos neste momento da sociedade humana? Somos de fato aquilo que conseguimos representar ao público de nossas bolhas virtuais? Eu existo caso não seja validado pelos outros?

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T1.E2. Quinze milhões de méritos ("Fifteen Million Merit") - Dirigido por Euros Lyn e escrito por Charlie Brooker e Kanak Huq. Exibido em 11/12/11.

Sinopse da Netflix: Após fracassar em um concurso como cantora, uma mulher tem que escolher entre praticar atos humilhantes ou voltar a viver praticamente como escrava.

Comentário: 

O episódio apresenta pessoas numa condição quase de escravidão. Todos os dias, cada pessoa precisa ficar o dia todo pedalando em bicicletas fixas, tipo ergométricas, para ganharem créditos (méritos) como nos jogos eletrônicos do tipo fliperama ou videogame. Quanto mais pedalam e fazem o que as máquinas pedem e pontuam por aquilo, mais acumulam "méritos" para adquirir de tudo, pois os "méritos" são o dinheiro daquele mundo. 

Mesmo quando não estão pedalando, os cubículos onde descansam e dormem são câmaras de paredes-televisores para se seguir pontuando ou gastando os méritos. 

É possível sair desse mundo e ser alguém mais que o avatar digital? Dá para se libertar e viver num mundo real? 

O final da trama é a única saída?

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T1.E3. Toda a sua história ("The Entire History of You") - Dirigido por Brian Welsh e escrito por Jesse Armstrong. Exibido em 18/12/11.

Sinopse da Netflix: No futuro, todos têm acesso a um implante de memória que grava tudo que os seres humanos fazem, veem e ouvem.

Comentário:

Difícil decidir qual episódio é mais provocador e causador de reflexões a respeito de nossas vidas e das tendências que podem vigorar na sociedade humana. 

Esse com a gravação digital de tudo que vivemos é chocante!

O que nos torna únicos no mundo? Nossa individualidade, história, desejos, nossos pensamentos e realizações. Nossos segredos!

De certa forma, o que o episódio lançou como ideia de memória individual gravada em ferramentas que outros podem ver já é realidade: as plataformas digitais. 

Boa parte da humanidade tem contas em plataformas digitais e nelas estão todos os nossos dados, até aquilo que esquecemos que fizemos, dissemos e vimos de forma compartilhada.

A realidade é pior do que a ideia do episódio. Um canalha qualquer está olhando a minha vida ou a sua atrás da tela da plataforma na qual temos perfis e contas.

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Há saídas para as situações apresentadas?

Uma linha unifica os três episódios de estreia de Black Mirror (2011): os dilemas enfrentados pelos personagens nos são apresentados como problemas sem saída, ou pior ainda, com uma saída: a não saída do sistema que os aprisiona.

Essa é a questão que me chamou a atenção. 

Há saídas para nós em relação à tendência de fim de mundo com a destruição causada pelo capitalismo, de fim da natureza por causa da emergência climática, de fim da sociabilidade humana por causa da ideologia do "todos contra todos"?

Como ser humano consciente, entendo que há saídas porque somos seres históricos e fazemos a nossa história humana tomando decisões diariamente. Podemos mudar o rumo das coisas que nós mesmos fizemos.

A hegemonia do capitalismo neoliberal, o individualismo estúpido de nossa sociedade humana e a forma destruidora da natureza na atual relação entre humanos e planeta Terra podem mudar, pois somos dotados de inteligência, ainda.

Mas... sempre tem um senão, temos que ter objetivos claros, estratégias, táticas, e unidade daqueles e daquelas que querem mudar a tendência de fim do mundo.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac. O relógio do fim do mundo segue correndo...

Uma das soluções passa pela educação. Paulo Freire nos ensina: só se educa gente!

William 

terça-feira, 1 de julho de 2025

Instantes (22h17)



Refeição Cultural

Pode ser só impressão do observador, mas me parece que estamos vivenciando o fim de um ciclo da sociedade humana, se não global, pelo menos desta a qual pertenço. 

Tudo está se degenerando, perdendo a qualidade, estragando. Ao ouvir o noticiário, dá vontade de mudar de mundo, mas só temos este. As pessoas... alteradas pelos donos do poder ideológico, degeneraram. As coisas das relações humanas, então, fodeu.

Como disse no primeiro parágrafo, pode ser somente o mundo ao qual pertenço essa degeneração, o fim dos tempos, o tempo escatológico. Pode ser que lá do outro lado da Terra, na Ásia, no Oriente, haja um mundo de esperança. 

Aqui no meu mundo, o Nunes e o Tarcísio estão vendendo tudo, tudo, tudo, todo dia, todo dia, tudo. Até rua agora é vendida pros parças. Tudo. Se ligar a TV, entrar na internet, olhar qualquer coisa como tv de elevador, lá estão eles, Nunes, Tarcísio, Bolsonaro, Motta... Trump, Netanyahu, os "coitados" dos sionistas... uma blitzkrieg comunicacional da extrema-direita dona do capital para pautar a agenda da massa alienada.

Degeneração da sociedade humana ("Ocidental"?).

É o que tenho visto com meus olhos míopes... essa blitzkrieg desarranja todo o organismo que nos mantém vivo...

Tá foda! Mas quero viver. Preciso viver. A vida é uma oportunidade diária. 

Will i am

01/07/25

terça-feira, 24 de junho de 2025

Nada mais será como antes - Miguel Nicolelis (15)



Refeição Cultural

"(...) Cosmologia Cérebro-cêntrica. Em primeiro lugar, o nascimento da civilização dependeu da habilidade única do cérebro humano de gerar abstrações, coisas como religião, mitos, deuses, ideologias políticas, sistemas econômicos, arte, ciência, dinheiro, classes sociais, nações e suas fronteiras, ética, moral, leis, para citar alguns itens apenas. Tais abstrações se tornaram tão poderosas e influentes que, eventualmente, elas ficaram mais importantes do que o nosso instinto de sobrevivência coletivo..." (p. 412)


O capítulo 28 da ficção científica de Miguel Nicolelis "Nada mais será como antes" faz uma excelente síntese da teoria do Universo Humano desenvolvida pelo neurocientista em 40 anos de estudos e pesquisas. 

Por sermos animais com alta capacidade de criação de abstrações mentais, invenções imaginárias que unificam grupos de humanos através dessas abstrações (crenças), chegamos até aqui neste mundo natural desafiador: a Terra e o universo.

Mas sermos como somos tem consequências: as abstrações e crenças que inventamos são tão poderosas que podemos destruir o mundo por causa delas, elas superaram em muito nosso instinto de sobrevivência. 

É o que vejo muito melhor depois que passei a ler Miguel Nicolelis. Até o momento, o mundo tá fodido...

Sei que podemos reverter o caminho para o fim, porque somos inteligentes, mas sei que está difícil reverter a tendência do fim. Nos faltam coragem e disciplina. 

Não vejo vontade de ruptura com as abstrações "religião", "capitalismo" e "mito da tecnologia", nem nos grupos chamados de progressistas ou apelidos do tipo.

Nos faltam coragem e disciplina... 

William

24/06/25


Post Scriptum: o comentário final pode ser lido aqui.


sábado, 7 de junho de 2025

Instantes (14h56)



Refeição Cultural

Leituras que nos fazem pensar... 

O romance de ficção científica de Miguel Nicolelis me deixou muito pensativo nos últimos dias... até um relâmpago pela janela do banheiro me assustou! Pensei no cataclismo oriundo da tempestade solar, que já ocorreu em 1859 e pode ocorrer a qualquer momento. É por questões como essa que afirmo que a humanidade precisa salvar nosso conhecimento e cultura em meios físicos. Essas nuvens digitais onde armazenam a produção humana das últimas décadas são como as nuvens do céu... se desfazem com qualquer ventinho.

Monteiro Lobato, escritor e intelectual de seu tempo, é uma de minhas lacunas culturais. Meu consolo é saber que não adianta me martirizar por ter tido que gastar meu tempo de vida tentando sobreviver como um cidadão pobre num país miserável dominado por uma elite desgraçada e fdp. Até li alguma coisa em décadas de venda de meu corpo e minhas horas de vida. Lobato não tinha lido ainda. Estou lendo um de seus romances infanto-juvenis, de 1939. Nunca é tarde para adquirir cultura.

Peguei na portaria a excelente revista do Mino Carta e sua equipe e, cansado das desgraças distópicas da política, comecei a leitura pelo fim, pela seção Plural, que aborda temas culturais. 

Estou vendo os episódios da série The Last of Us... pesado o clima. O corpo fica em choque. No entanto, ler as notícias políticas do Brasil dominado por um parlamento como o nosso é o mesmo que assistir à narrativa de fim do mundo da ficção. Aqueles 450 fdp estão lá para acabar com o mundo. Resta saber quem será o último de nós. 

William 

07/06/25

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Nada mais será como antes - Miguel Nicolelis (14)



Refeição Cultural

"(...) Todos os dados estocados na chamada 'nuvem digital', mantida nos servidores das grandes empresas de tecnologia, subitamente foram deletados; a nuvem digital simplesmente se dissipou como uma corrente de ar quente analógica. Todas as formas de mídia social ficaram mudas instantaneamente..." (Nada mais será como antes, Miguel Nicolelis, p.337)


Nesta semana estou focado em avançar no romance de ficção científica do neurocientista Nicolelis. 

Eu compartilho a preocupação de certos intelectuais e pensadores a respeito do poder incomensurável das big techs e seus donos. Eles armazenam hoje boa parte do conhecimento da humanidade em seus computadores.

O risco que todos nós corremos ao não criarmos as nossas plataformas nas dezenas de países que se pretendem soberanos é claro para qualquer pessoa minimamente inteligente, que dirá se essa pessoa se apresenta como líder e representante de gente ou movimentos.

Eu tenho outras hipóteses a respeito do efeito do mundo somente digital na vida da espécie homo sapiens: não seremos mais essa espécie, seremos outra coisa, talvez menos inteligente, a seguirmos abandonando a vida natural e analógica. 

É isso. O romance caminha para seu desfecho... nada mais será como antes...

William 

04/06/25


Post Scriptum: leia o comentário seguinte aqui.


sábado, 31 de maio de 2025

Vendo filmes (XXIX)



Refeição Cultural

Os robôs e nós (ou as máquinas, ou ainda a IA e nós)


"Durante décadas tive receio em relação à Inteligência Artificial. Era uma das pessoas que temia que as máquinas adquiririam vida própria e colocariam sob ameaça as outras espécies animais, sobretudo a humana. Nicolelis me explicou a falácia da 'Inteligência Artificial', algo impossível de se realizar. 

A inteligência é animal, uma máquina não pode ser inteligente no sentido da criação humana. Só nós somos inteligentes, por enquanto (pode ser que fiquemos limitados como as máquinas se não mudarmos o rumo das coisas)." (William Mendes, Blog Refeitório Cultural, 01/07/21 - ler aqui)


Antes da leitura do livro O verdadeiro criador de tudo (2020), do neurocientista Miguel Nicolelis, eu via e compreendia o mundo humano de uma forma e depois da leitura passei a ver e compreender a humanidade e suas criações no planeta Terra de outra forma, bem mais consciente agora.

Até 2021, eu realmente achava ser possível a realização da ideia central de boa parte da ficção científica e das literaturas ficcionais da possibilidade de máquinas se tornarem inteligentes ao ponto de se rebelarem contra a espécie que a criou - os humanos - e tomarem o mundo para si nos eliminando ou nos fazendo de escravos à sua disposição. 

Eu achava possível isso porque não tinha a compreensão de que só seres vivos podem ser inteligentes, já que a inteligência é analógica e não digital. Só organismos vivos podem desenvolver inteligência e criatividade. Máquinas, não.

A ficção a respeito das máquinas é bem antiga. Em relação a filmes já no século XX, o clássico de Stanley Kubrick virou a referência para tudo que veio depois de 1968. O filme WALL-E, por exemplo, é um diálogo com 2001 e seu computador central HAL 9000.

Dos filmes de robôs e IA, a série que mais me deixou pensativo por muito tempo foi a do Exterminador do Futuro e o domínio da Terra pelos robôs da Skynet. 

Só o professor Nicolelis conseguiu me convencer de que isso jamais acontecerá, pois as máquinas não são inteligentes e não têm vida própria. Tem sempre um animal humano por trás delas, pode ser um lunático fdp, mas estamos lidando com programação.

O assunto é complexo e não se esgota num comentário sobre filmes de ficção científica, é claro!

No entanto, fica registrado que esses filmes que revi e comento abaixo são filmes que avalio serem muito visionários e que ainda valem pelo que representam. 

As pessoas com cara na tela, que vimos no WALL-E quase duas décadas atrás, foi uma cena premonitória demais! Hoje as pessoas morrem atropeladas ao atravessar a rua porque não olham para a frente.

A questão da imposição do novo por parte das corporações capitalistas e a transformação de sucata e obsolescência de tudo que vemos no filme Robôs é mais atual que nunca!

E sobre IA e corporações e o risco de dominação dos seres humanos por parte das máquinas, que já está acontecendo, o filme Eu, robô nos traz reflexões pertinentes. Não porque uma IA vai se rebelar contra nós, como a Viki, ou a IA do 2001 ou do WALL-E, mas porque tem uns fdp por trás delas levando ao limite o capitalismo exploratório e predatório em benefício de alguns e prejuízo de bilhões de seres humanos e espécies de vidas.

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FILMES


WALL-E (2008) - Direção: Andrew Stanton.

SINOPSE (DVD):

O aclamado diretor de Procurando Nemo e os criadores de Carros e Ratatouille transportam você para uma galáxia não muito distante dessa aventura interplanetária sobre um robô muito determinado chamado WALL-E. Depois de milhares de solitários anos fazendo o que ele foi construído para fazer, o curioso e adorável WALL-E encontra uma nova razão para viver quando conhece uma robô de busca de alto design chamada EVA. Junte-se ao casal e ao divertido elenco de personagens nessa fantástica viagem pelo Universo.

COMENTÁRIO:

Durante anos, tive no filme WALL-E a referência de acerto visionário a respeito do futuro da humanidade, um filme que apontou para onde estávamos caminhando. As redes sociais e os aparelhos celulares que viriam a capturar os seres humanos estavam em seu começo e o enredo apontava para o que viria a ser a geração cara na tela.

A destruição do planeta Terra pela poluição do consumo capitalista e as pessoas que não olhavam mais para a frente e só viam o mundo através da tela em sua cara foram as cenas do filme que nunca mais me esqueci. E aqui estamos nós, dezessete anos depois, nessas condições de destruição do planeta e robotização e desumanização dos humanos por essas máquinas e seus algoritmos.

Ao rever o filme, pude captar muito mais coisas! Que obra extraordinária!

Além do diálogo com o antológico filme de Stanley Kubrick, "2001 - Uma odisseia no espaço" (1968), o filme provoca reflexões sobre amor, amizade, diversidade, o sentido da vida, as consequências da voracidade do capitalismo, e a questão da sustentabilidade. 

O filme é tão incrível que já aponta duas décadas atrás o que os bons neurocientistas como Miguel Nicolelis alertam a respeito da IA, que não é nem inteligente nem artificial.

Se o filme de Kubrick acende o farol vermelho ao apontar que máquina é máquina, que máquina não é inteligente, ela só é programada por mentes humanas, e que o perigo está justamente no fato de não ser possível esperar uma decisão de abortar uma missão porque máquina é máquina, é burra, e nem se os humanos decidirem algo contra o programa, a máquina vai obedecer, WALL-E mostra outra vertente dessas máquinas programadas por nós mesmos.

Por trás da destruição do planeta Terra por falência das condições de abrigo à vida, já que os humanos transformaram nosso mundo num amontoado de lixo proveniente das futilidades do mercado consumidor capitalista, continua na nave Axiom o predomínio do mesmo modus operandi que causou o abandono do planeta: compre, compre, consuma, consuma...

Em 1968, a era do boom espacial, a máquina HAL 9000 decide eliminar a tripulação porque não aceita comandos que abortem a missão a Júpiter. Quarenta anos depois, a IA da nave Axiom desacata o capitão ao se negar a voltar à Terra após os sinais de condições de vida terem sido detectados pelo robô EVA (Examinadora de Vegetação Alienígena). Por trás da IA sempre há um programador, um comando... vimos isso em WALL-E.

Entra década, sai década capitalista, o que está em jogo não é a importância da vida e suas possibilidades infinitas, o que está em jogo é não mudar o rumo das coisas, é deixar tudo como está, já que o mundo e tudo nele contido deve ser apenas um espaço de exploração para os poucos donos dos meios, os capitalistas. Dane-se o planeta, os bilhões de humanos e a infinidade de vida dos ambientes terrestres!

Lógico, o filme tem toda a maravilha dos contos ficcionais, está contratado com os espectadores todas as possibilidades de amor, amizade, humor, drama, tensão e os demais temperos da sétima arte.

Amig@s, vejo esse filme mil vezes!

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ROBÔS (2005) - Direção: Chris Wedge. Roteiro: William Joyce.

SINOPSE (DVD):

Dos criadores de A Era do GeloRobôs é uma nova aventura que irá maravilhar a todos com sua animação computadorizada de última geração. Robôs conta a história de Rodney Lataria, um aspirante a inventor, que viaja para Robópolis para conhecer seu ídolo, o Grande Soldador. Pelo caminho, ele faz muitos amigos e juntos acabam encontrando o malvado Dom Aço. Sob a orientação de sua mãe, Don Aço tomou a empresa do Grande Soldador e decidiu negar acesso aos outros robôs a peças necessárias para sua manutenção. Será que Rodney é feito daquilo que se faz necessário para salvar a todos?

COMENTÁRIO:

O começo da história já é espetacular! Numa comunidade de robôs bem classe trabalhadora, um robô adulto sai gritando pelas ruas que vai ser pai, numa alegria contagiante. Ao voltar para casa, sua companheira diz que ele chegou tarde... já entregaram a encomenda... mas tranquilizou o marido em seguida, lembrando-lhe que o melhor é fazer o bebê juntos! Os dois começam então a montar as peças vindas na caixa e depois de um tempo temos a linda criança robô, batizada pelos pais como Rodney.

O garoto vai crescendo e tomando consciência de seu lugar e de sua família naquela sociedade. Eles são pobres, só usam coisas de segunda mão e seu pai é sempre humilhado pelo patrão em seu emprego de lavador de pratos. O pequeno Rodney é criativo e quer ser inventor. Criou até um robozinho para ajudar seu pai no trabalho. Com o tempo, o jovem se despede da família para ir tentar realizar seu sonho de ser um inventor e poder ajudar as pessoas e a comunidade.

Como anunciado na sinopse, na cidade grande Rodney compreende melhor o mecanismo do sistema capitalista, a criação de necessidades por parte dos capitalistas e o quanto o povão é descartável para os donos do poder.

O filme tem muitas camadas, é muito bem-feito. Tem aventura e graça ao mergulharmos numa cidade com mecanismos incríveis conectados de forma a tudo funcionar perfeitamente como, por exemplo, no transporte público. Tem o aspecto lúdico da luta de classes e dos interesses antagônicos entre os que mandam nos meios de produção e os que dependem dos bens e direitos para sobreviverem.

Olha, amig@s, o filme poderia estrear hoje nos cinemas que seria atualíssimo para pensarmos o mundo e a vida. Incrível um roteiro que tenha envelhecido tão bem quanto esse do filme Robôs.

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EU, ROBÔ (2004) - Direção: Alex Proyas. Inspirado em contos de Isaac Asimov. Com Will Smith, Brigdet Moynahan, Bruce Greenwood, Chi McBride, James Cromwell.

SINOPSE (DVD):

O superastro Will Smith declara guerra às máquinas neste inesquecível suspense de ficção científica que se desenrola em meio à ação alucinante! Quando um importante cientista é encontrado morto, o detetive Del Spooner (Smith), que odeia robôs, desconfia que um avançado modelo de robô é o culpado pelo assassinato. No entanto, de acordo com as Três Leis da Robótica, um robô é incapaz de machucar um humano... mas algumas regras foram feitas para serem quebradas! Brigdet Moynahan co-estreia esta história futurística de suspense que nos leva a questionar se a tecnologia levará o ser humano à salvação... ou à extinção.

COMENTÁRIO:

Duas cenas no filme são bem interessantes para reflexão:

Numa delas, o protagonista - detetive Del Spooner - relembra um episódio doloroso do passado no qual ele ordenou a um robô que salvasse uma garota em um acidente no qual ele também estava envolvido. O robô seguiu a "lógica" e salvou a pessoa que tinha 45% de chances de sobreviver, enquanto a outra tinha 11%. A "lógica" prevalece porque a máquina não pensa, não tem sentimentos, não tem coração. Ela é só um programa.

Na outra cena, o detetive Spooner faz uma pergunta ao robô que se autodenominou Sonny em um interrogatório se ele seria capaz de criar uma música clássica ou de fazer um desenho criado por si, na tentativa de humilhar ou reduzir Sonny à sua condição de máquina e Sonny simplesmente devolve a pergunta a Spooner, deixando ele desconcertado: - você é capaz de fazer uma música clássica ou um desenho?

Daí vemos a importância de se saber fazer as perguntas certas para as mais diversas situações. Pergunta e resposta certa é um dos enigmas que o holograma do Dr. Alfred Lanning, cientista morto, deixa ao seu amigo Spooner.

Sobre perguntas e respostas, nunca me esqueci da lição do professor de química Glicério, quando eu tinha uns doze ou treze anos, na qual ele dizia que os alunos deveriam ler as perguntas com atenção, mais de uma vez, porque muitas vezes a resposta já está indicada na pergunta. Se a pergunta diz qual, quem, o que, como, quando, onde etc, o aluno não vai escolher uma alternativa que não tenha relação com esse pronome interrogativo. Tem uma lógica nisso.

Voltando ao filme, o enredo é uma boa oportunidade ainda hoje, duas décadas depois, para refletirmos sobre a questão da Inteligência Artificial (IA), que evoluiu drasticamente no preenchimento do cotidiano do mundo em 2025. E até um filme como esse é capaz de apontar aquilo que os neurocientistas sérios nos alertam: que IA não é nem inteligente, nem artificial, são programas baseados em dados e velocidade de processamento.

Foi bom rever o filme. Ele tem umas pegadas (sacadas) bem legais!

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COMENTÁRIO FINAL

Esses filmes são bons demais para seres revistos e abrir reflexões sobre o passado, o presente e o futuro da espécie humana e do planeta Terra. Valem a pena!

Para ler outras postagens sobre filmes, é só clicar aqui e ver a anterior desta série.

William


quarta-feira, 30 de abril de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Quarta-feira, 30 de abril de 2025.


ABRIL

O que sei? Por enquanto, sei o que sou, o que fui, e não tenho como saber o que serei, nem se serei alguma coisa. Não poderia dizer que "sei que nada sei", porque eu sei alguma coisa: honestidade intelectual.

Sei, por exemplo, ou tenho forte impressão, por leitura de cenários e por alguma experiência política, que grandes mudanças estão em curso na sociedade humana, grandes mudanças (não são mudanças positivas para as maiorias). 

Sei algo da emergência climática. Sei algo das movimentações da direita fascista. Sei algo do passado, a História, e vejo sinais de grandes tribulações em breve. Sei algo das fragilidades da esquerda para resistir ao que vem por aí.

Me parece que não mudaremos o mundo neoliberal e capitalista por vontade política, não tivemos força de vontade suficiente nem inteligência para isso. As mudanças se darão da forma mais distópica possível: pelas consequências do capitalismo neoliberal. Mundos distópicos são lugares de opressões, falta de liberdades e misérias.

Os recursos naturais do planeta Terra e as melhores possibilidades materiais de existência da vida humana e das demais formas de vida estão se esgotando rapidamente pelo simples desejo de meia dúzia de animais humanos que não merecem esse poder todo de foder o mundo. "Meia dúzia" é forma de expressão: uma ínfima parcela da espécie está fodendo toda a espécie e o ambiente.

Um indivíduo de nossa espécie pode hoje destruir milhões de formas de vidas, ecossistemas inteiros e nada acontece a ele. Outro indivíduo pode dominar sistemas globais de comunicação ou de fornecimento de meios produtivos que fazem milhares de comunidades funcionarem, ou NÃO funcionarem, e milhões de humanos acham isso "normal". Um indivíduo pode inviabilizar milhões... e acham isso normal!

Privatização é isso, por exemplo. E até você que me lê, pode ser que ache isso normal.

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56 OUTONOS

Meu abril está terminando. Mais um mês de vida. Essa leitura do tempo é uma abstração humana, invenção da nossa espécie. Estou sobrevivendo na superfície deste planeta há 56 outonos.

Este animal que registra palavras nesta página virtual das plataformas digitais de nossos inimigos da humanidade sabe que os milhares de textos que produzi nas duas últimas décadas nessas páginas chamadas de "blogs" não vão durar para sempre aqui. Se um(a) produtor(a) de cultura do passado tivesse guardado sua produção numa "nuvem" como se faz hoje, jamais conheceríamos a produção dessa pessoa.

Meu caso vale para os milhões de textos e produções da criação humana das últimas três décadas: boa parte de todo o conhecimento de nossa espécie produzido dos anos noventa para cá está nas "nuvens" de meia dúzia de capitalistas. E quem está preocupado com isso? Muitas pessoas e instituições que já produziram conteúdo não guardaram sua produção em outras mídias.

Em um eventual mundo distópico, desses que queimam livros como em "Fahrenheit 451", de Ray Bradbury, os ditadores e seus "bombeiros" não precisarão fazer nada mais que apertar um botão de "delete". Vaporizado!

Primeiro nos tornam usuários e dependentes e depois nos dominam pelo vício e pelo costume, pelas "facilidades", e pela perda da capacidade de viver sem aquela coisa.

Nas próximas etapas de disputas da espécie humana pelo espaço vital - o próprio planeta e seus recursos -, alguns detentores de tudo, absolutamente tudo, irão inviabilizar todas as comunidades-alvo simplesmente através do corte de energia e transmissão de dados. Eu e vocês, reles mortais, ficaremos iguais baratas tontas, sem ter o que fazer... sem energia elétrica, sem as parafernálias funcionarem...

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SISTEMATIZAÇÃO DE MINHA PRODUÇÃO TEXTUAL

E foi assim que percebi nas reflexões dos últimos tempos que não poderia mais priorizar nenhum de meus desejos pessoais como leitura dos clássicos da literatura mundial ou dos livros que gostaria de ler do que dedicar meu tempo livre possível para tratar dos milhares de textos que produzi e que não estão organizados e sistematizados de forma segura e cronológica como acho digno estarem.

Sigo relendo, diagramando, encadernando e sistematizando o que escrevi durante a fase mais produtiva de minha vida. Já encontrei textos que seguem válidos, já encontrei muita história coletiva, porque somos seres sociais, já refleti muito no presente mediante o que escrevi no passado. O que somos é feito do que fomos, como nos explica o professor Antonio Candido. Sei disso, percebo isso.

Os dois cadernos que finalizei nesta semana, que ilustram essa postagem, são exemplos do que estou dizendo. Um caderno é do primeiro mês do blog, de 2007, e nele Machado de Assis é o centro temático do blog. Outro, os primeiros três meses de 2025: um catatau de 300 páginas, com poesias próprias, com comentários sobre filmes, com reflexões diárias sobre livros, política, o mundo e a vida.

Eu sinto que não tenho um minuto a perder em relação ao trabalho que tenho que fazer com os milhares de textos de minha vida. Meu corpo me avisou que cansou, eu sinto isso ao contatar meu eu interior. Nos textos, estão registrados muitos momentos da minha passagem pelo mundo. Tenho que seguir na tarefa. Se eu completá-la, penso na vida no dia seguinte.

William


quinta-feira, 10 de abril de 2025

Nada mais será como antes - Miguel Nicolelis (13)



Refeição Cultural 

"Sem tempo para respirar ou recalibrar seus pensamentos, Omar e Tosca viam como as hordas de mongóis a as caravanas que cruzavam a Ásia Central trouxeram na pele dos seus cavalos e camelos as pulgas infectadas que espalharam a bactéria que causou a peste bubônica, que ficou conhecida como a morte negra, por toda a Europa. Somente esta pandemia matou, em algumas localidades, por volta de metade da população. E esse efeito devastador desempenhou um papel fundamental em eventos europeus, como a segunda fase da Guerra dos Cem Anos..." (Nada mais será como antes, Miguel Nicolelis, 2024, p. 264)


Enquanto lia o romance do neurocientista e escritor Miguel Nicolelis, imaginava as cenas das grandes batalhas e morticínios provocados por nossa espécie animal ao longo de milhares de anos. Somos isso...

No romance, o capítulo 15 - "O terceiro sonho: o aviso final" - descreve grandes batalhas ocorridas na história humana: egípcios contra hititas, gregos contra persas e outras mais. 

Os personagens centrais - Tosca e seu tio Omar - estão compartilhando o mesmo sonho como se fossem uma brainet, uma rede cerebral interligada.

Estou curioso para saber o desfecho da ficção. Estou na metade do romance. 

Ainda vai demorar para chegar ao fim do livro. Estou lendo aos poucos. 

Sigamos.

William


Post Scriptum: o texto seguinte pode ser lido aqui.


quinta-feira, 6 de março de 2025

Nada mais será como antes - Miguel Nicolelis (12)



Refeição Cultural 

"Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia!" (Citação de frase de Arthur C. Clarke, na p. 207)


Parei de ler com regularidade o romance de Miguel Nicolelis. Na verdade, parei de ler com rotina tudo que estava lendo. Sei de meu desejo e necessidade de ler diariamente. No entanto, defini outra prioridade na urgência e instabilidade do viver. Não farei nada até terminar a tarefa.

Nossos colegas da intelectualidade, da produção de cultura e da esquerda ou qualquer qualificação do tipo ficaram tão encantados com a tecnologia das últimas décadas que perderam a razão quase que por mágica... confiam toda nossa história humana às plataformas digitais de nossos inimigos. Atitude irracional de "homo sapiens".

Sabemos algo do passado porque meios físicos chegaram até nós ao longo de milênios. Argila, pedra, couro, papiro, tabuinhas, papel, pele, osso... no entanto, nada ficou da cultura humana que não estivesse registrada em algum material que durasse no tempo.

E neste momento da história humana, primeiro quarto do século XXI, boa parte do conhecimento humano que vem sendo produzido nas últimas 3 décadas não está salvo e registrado em nenhum meio físico, nenhum! Só no meio digital das big techs, dos "overlords", pra usar a linguagem do neurocientista e romancista Nicolelis. Salvo na máquina dos nossos inimigos... nas nuvens!

Eu mesmo tenho milhares de textos com a história coletiva do meu país, do meu segmento social, da minha vida privada - que não deixa de ser pública, pois somos legião, somos seres humanos - dispersos nas plataformas dos inimigos da humanidade. 

É uma obrigação ética de alguém consciente preservar em meios duráveis a nossa história humana. Por mais que a ideologia da classe dominante se imponha neste momento - a ignorância e o desprezo pela história - tenho (temos) que preservar e sistematizar nossa produção cultural e histórica.

Decidi não priorizar mais nada até terminar minha tarefa de preservar tudo que registrei na vida nas duas décadas que escrevi como dirigente da classe trabalhadora brasileira. 

E digo aqui que está dando muito trabalho fazer isso. Muito! Nem bunda tenho para tantas horas lendo, corrigindo textos, diagramando, salvando e encadernando. 

Sistematizar e preservar minha produção textual é um compromisso ético para com as pessoas que amo, que me consideram e para a imensidão de gente que está por aí - a humanidade -, capturada sem tempo de pensar, de ser gente humana, que está no "corre", sobrevivendo ao instante.

Seguirei trabalhando para preservar a nossa história humana, enquanto os overlords das plataformas digitais se preparam para dominar o mundo inteiro (reescrevendo e inventando a história).

William


Post Scriptum: para ler o comentário seguinte, clique aqui.


domingo, 29 de dezembro de 2024

Vendo filmes (XXIV)



Refeição Cultural

Já que a ficção virou realidade, talvez tivéssemos que criar blade runners que caçassem e aposentassem os extremistas ditadores que querem destruir o mundo e a vida humana em benefício próprio


Rever o filme Blade Runner e a ideia de um mundo convivendo com robôs idênticos aos seres humanos, só que mais fortes e passíveis de falhas e desobediência aos seus programas é um entretenimento que mescla ficção e realidade. Então, é inevitável refletirmos sobre o mundo atual.

Estamos há duas décadas, mais ou menos, com uma nova realidade no mundo humano por causa da plataformização da sociedade. Meia dúzia de humanos concentra sozinha um poder de manipular o comportamento de bilhões de pessoas independente das fronteiras dos países. Essa ficção virou a realidade. 

As big techs, corporações que juntam bancos, meios de comunicação e empresas que destroem a natureza, controlam o mundo e o comportamento dos seres humanos. Democracias viraram ficção. Liberdade humana é uma ficção.

Poucos homens podem destruir todas as florestas que restam, todas as terras onde há algum tipo de minério, todos os mares e oceanos que quiserem inviabilizar a vida, e pagam políticos e ideólogos para isso. 

A distopia virou a realidade. Um fdp faz o que quer em um país inteiro; num território como São Paulo no Brasil, por exemplo, um fdp faz o que quer e não pega nada contra ele.

Sei lá. Para o bem do planeta Terra, da diversidade da vida no planeta e para o bem da maioria dos seres humanos, talvez fosse o caso de se criar blade runners que aposentassem esses poucos humanos sem alma e sem consideração com a coletividade do único planeta habitável no universo conhecido até o momento.

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FILMES

Blade Runner - O caçador de androides (1982) - Direção: Ridley Scott. Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Daryl Hannah.

SINOPSE (do DVD): O "Cult Movie" da ficção científica, ficou ainda mais fantástico mostrando uma chocante visão do futuro, realizado pelo consagrado diretor Ridley Scott. Por volta do ano 2000, o planeta Terra está em total decadência. Os poucos habitantes vivem aglomerados em gigantescos arranha-céus. A engenharia genética se tornou uma das maiores indústrias criando os replicantes, criaturas dotadas de extraordinária força e inteligência, praticamente indistinguíveis dos humanos. Nessa nova versão (1991), surpreendentes revelações em torno do romance entre Deckard (Harrison Ford) e Rachel (Sean Young). Qual será a verdadeira origem de o "Caçador de Androides"?

COMENTÁRIO: 

"Vi coisas que vocês jamais imaginariam... e agora tudo se perde, como as lágrimas se perdem na chuva. Agora morro..." 

Ver um filme clássico, de décadas atrás, é diferente de ver os filmes de hoje. Toda vez que vejo filmes antigos fico com essa ideia. O clássico de Ridley Scott é encantador, fisga o telespectador, encanta a gente. Desde a cena inicial daquela Los Angeles futurista, de 2019 (quatro décadas no futuro), até a questão central da história, os robôs replicantes, idênticos aos humanos. E ainda temos a trilha sonora de Vangelis.

No filme, uma corporação (Tyrell) cria e comercializa robôs idênticos a nós para serem utilizados nos piores trabalhos humanos e em exploração espacial. São tão perfeitos que só alguns especialistas conseguem através de jogos de perguntas identificar um replicante. São os caçadores de androides, os blade runners

Depois do projeto de produção dos replicantes ter sido interrompido por uma rebelião dessas máquinas, a ordem é aposentá-los (eufemismo para exterminá-los). Um blade runner aposentado, Deckard (Ford), é convocado para eliminar quatro replicantes que estão na cidade em busca de mais tempo de vida.

O filme do início dos anos oitenta aponta no enredo diversas consequências do que seria a sociedade globalizada e capitalista do futuro: um mundo destruído pelo excesso de produção e consumismo que acabou com a natureza, uma sociedade humana sem moral e sem valores e com uma ciência de ponta usada nesse contexto. Vejam se não é o mundo de 2024.

TEMPO - O tema central da ficção é o tempo, mais tempo. Os robôs são feitos com um tempo de vida determinado. Os nexus-6 têm 4 anos de vida. A temática do tempo restante - o tempo de vida das coisas - é uma grande temática para se refletir. Cada um de nós, em algum momento, terá que lidar com a questão central que move os replicantes: o tempo.

Eu lido com essa temática no dia a dia. Queria mais tempo com saúde. Não seria jovem demais para ter hoje o problema de desgaste no quadril e não poder mais sonhar projetos de corridas e outras atividades físicas? Será que estarei andando daqui a 4 anos? Como faço para pedir mais tempo ao meu criador como fez Roy Batty (Hauer) ao Dr. Tyrrel (Joe Turkel)?

O filme ainda nos traz a reflexão sobre o tempo de utilidade das coisas numa sociedade gerida pela lógica capitalista. Nada é feito para durar, pois se as coisas durarem os capitalistas e seus CEOs não terão o lucro cada vez maior. Dane-se a natureza sendo esgotada. O amanhã não importa.

Filmão! Poderia refletir sobre diversas dimensões que o filme nos abre. Vale a pena ver e rever.

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Blade Runner 2049 (2017) - Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Hampton Fancher e Michael Green. Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Ana de Armas, Sean Young, Robin Wright, Sylvia Hoeks, Jared Leto.

SINOPSE (NETFLIX): O conteúdo de um túmulo secreto chama a atenção de um poderoso empresário, que envia o caçador de replicantes K em uma missão para encontrar uma lenda perdida.

COMENTÁRIO: 

Nesta sequência de Blade Runner e os replicantes, a questão da memória foi uma das coisas que mais me chamaram a atenção. K recebe a missão de encontrar e eliminar tudo que se relacione a uma provável reprodução de um replicante por parto. Logo suas memórias começam a associá-lo ao caso. O replicante caçador de androides, K, começa a questionar o que é memória implantada e o que é memória real. O que seria real e o que seria memória criada?

"Os replicantes levam vidas difíceis, criados para fazerem o que não queremos (...), mas posso lhes dar boas memórias, para vocês recordarem e sorrirem..."

Memória - Eu ando impactado pela trágica ameaça a qualquer um de nós por doenças degenerativas como Alzheimer e Parkinson. Recentemente, vi o filme "Ainda estou aqui" e a história de Eunice Braga, que terminou seus dias com Alzheimer, me deixou muito pensativo. Ninguém merece ter uma doença dessas, na qual a essência do que somos vai desaparecendo e vai ficando só um corpo vazio sem nós e aquilo que chamamos de nossa identidade, nossa alma, nosso espírito.

O filme é bom, eu gostei. A questão dos robôs replicantes, máquinas quase idênticas a nós, é um tema permanente de preocupações e reflexões. 

Na sequência da primeira estória, que se passa numa Los Angeles do futuro, em 2019, os replicantes que estão no cotidiano da sociedade humana em 2049 não têm prazo determinado de vida, vivem por tempo indeterminado. A humanidade e a sociedade humana estão uma merda, um mundo quase inabitável, o planeta destruído por nós humanos, uma sociedade humana decadente.

O cenário da ficção de 2049 é o cenário atual, não é mais distopia, agora é o mundo verdadeiro, com trumps e bolsonarios lixos se organizando mundialmente para desgraçar a vida dos bilhões de humanos e da infinidade de seres vivos que habitam esse único planeta em condições de abrigar vida.

As ficções distópicas viraram crônicas do dia a dia de um mundo em falência total.

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É isso! Os dois filmes distópicos me fizeram refletir sobre um monte de questões atuais.

Caso haja interesse em ler mais textos criados a partir de filmes é só clicar aqui para ver o anterior.

William