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quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Leitura: Marx até 1843



Refeição Cultural

"Hegel (2010, p. 264) escreve que 'o povo, tomado sem o seu monarca e sem a articulação do todo que se conecta [...], é a massa informe que não é mais nenhum Estado'. Marx exclama: 'Como se o povo não fosse o Estado real!' e argumenta: 'O Estado é um abstractum. Somente o povo é o concretum'. E prossegue: 'A democracia é conteúdo e forma. A monarquia deve ser apenas forma, mas ela falsifica o conteúdo. Na monarquia, o todo, o povo, é subsumido a um de seus modos de existência, a constituição política; na democracia, a constituição mesma aparece somente como uma determinação e, de fato, como autodeterminação do povo. Na monarquia, temos o povo da constituição; na democracia, a constituição do povo'. (NETTO, 2020, p. 544-5, nota 95)


Estou lendo sobre Karl Marx. Conhecendo um pouco a respeito dessa figura humana histórica. Escolhi a obra de José Paulo Netto - Karl Marx: uma biografia (2020) para saber quem foi esse homem marcante para a história recente da humanidade.

Terminei a leitura do 1º capítulo "ADEUS À MISÉRIA ALEMÃ (1818-1843)". Estou lendo seguindo as sugestões do autor, ou seja, lendo os textos dos capítulos e todas as notas ao final do livro. São 200 páginas de notas, acrescentadas às mais de 500 páginas de textos nos capítulos. Sem pressa, como nos alerta Netto, porque o livro não é para gente apressada.

"Bem sei que a leitura de muitas notas ao fim de um livro (no caso deste, em torno de um milhar) não é algo cômodo para o leitor apressado - mas já adverti que este não é um Marx para apressados (...) e lhes peço a pachorra de ler as centenas de notas apostas ao fim desta biografia. Boa parte delas tem um objetivo central: deixar bem claro que as ideias marxianas são objeto de problematização e polêmica, que o seu legado intelectual estimula debates calorosos e que a sua exploração diferenciada demonstra que Marx não foi, como o qualificou certo biógrafo acadêmico, uma 'vida do século XIX': antes, é um autor que atravessou todo o século XX e entra no século XXI mais vivo que nunca." (NETTO, 2020, p. 34)

Na primeira parte do livro, que abrange o período de vida de Marx entre seu nascimento em 1818 até 1843, quando o filósofo sai da Alemanha e vai para Paris, já tomei contato com algumas questões importantes em sua vida presente e futura.

Aos 25 anos de idade, Marx já estuda e comenta a obra de Hegel, de Feuerbach e Bauer, já está casado com Jenny, e produz textos complexos a respeito de tudo que estuda. 

É impressionante como o jovem alemão estuda dezenas de livros e obras para adquirir conteúdo sobre determinado tema que quer criticar ou comentar. É demais essa honestidade intelectual de não sair falando ou escrevendo qualquer coisa de sua cabeça sem ter conhecimento e referência a respeito. 

Pensa, leitor, nos dias de hoje como as coisas se dão... com a mania de todo mundo achar que pode falar e escrever sobre qualquer coisa com seu achismo... todo mundo tem liberdade de opinião, é verdade, mas uma coisa é ser livre pra opinar, outra é se colocar como um falante que sabe sobre o tema sem saber por conhecimento através de estudos.

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CRISTIANISMO, JUDAÍSMO, RELIGIÃO E ESTADO

Um tema que achei interessante nesta parte do livro foi a respeito de religião e Estado, religião e política, religião e direitos das pessoas.

Uma coisa que lembrei na hora foi de nossa lei maior, a Constituição Federal de 1988 e o seu preâmbulo que cita "Deus" no corpo do texto da lei... e depois a gente fica ouvindo de tudo quanto é gente e instituição que o Brasil é um país "laico". Como laico se a CF enfiou determinada visão de mundo, a de um determinado deus no corpo do texto!? Como assim, laico?

Assim como fiquei puto ao ler As aventuras de Robinson Crusoé, de Defoe, um livro de ficção inglesa do início do século XVIII só porque o personagem inglês ficava o tempo todo me lembrando das desgraceiras que os europeus fizeram com os povos do mundo por causa de suas religiões "melhores que a dos outros", sejam elas católicas, protestantes ou outra vertente qualquer, fico danado da vida ao ver a mistura de política e Estado com religiões e fé das pessoas - que devem ser respeitadas, mas em seus espaços pessoais e privados. 

Talvez nunca vamos deixar de queimar e matar em nome das abstrações religiosas criadas pelos homo sapiens.

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"Kreuznach: de maio a outubro-novembro de 1843"

Nessa parte do 1º capítulo, Netto nos põe em contato com algumas temáticas que já aparecem na vida do jovem Marx.

Vemos reflexões interessantes de Marx a respeito de monarquia, república, democracia, cristianismo e judaísmo, história, quem é sujeito e quem é produto/predicado em relação ao rei e ao povo. O que gera o que, as ideias geram as coisas ou as coisas geram as ideias? Marx reflete sobre isso. O Estado gera as famílias ou as famílias geram os estados? Estamos falando aqui de conceitos de materialismo histórico.

"[...] O fato é que o Estado se produz a partir da multidão, tal como ela existe na forma dos membros da família e dos membros da sociedade civil. A especulação [Hegel] enuncia esse fato como um ato da Ideia." (um trecho de citação de Netto sobre texto de Marx, na página 68)

A nota 95 deste capítulo vale a pena (reproduzida acima como epigrama). Ela é muito boa a respeito da diferença entre monarquia e democracia, quem é sujeito e o que é produto.

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JUDAÍSMO E CRISTIANISMO

Marx se contrapõe a Bauer em relação ao tema religioso, ao abordar a questão da emancipação (extensão de direitos cívico-políticos) e a igualdade civil.

"Fiel à concepção hegeliana, Bauer considera o cristianismo uma religião de caráter universal, a que se contrapõe expressamente o caráter particular do judaísmo, colado à lei mosaica; o universalismo cristão seria potencialmente muito mais apto que o judaísmo para acessar a emancipação. Resumindo: em função do seu particularismo religioso, o judeu está menos habilitado à emancipação que o cristão" (NETTO, 2020, p. 71)

Dessas leituras e reflexões foi que lembrei p. da vida do preâmbulo de nossa CF 1988. Já falei aqui no blog sobre isso. Humanos tratarem o cristianismo como religião maior, melhor, universal etc em relação ao judaísmo, paganismo, ateísmo, islamismo etc tende a acabar mal para algum lado minoritário. Achar o cristianismo melhor ou achar uma religião melhor que outra nunca vai acabar bem! É de uma arrogância absurda isso!

Com todo o respeito à fé e à religião de cada brasileira e brasileiro, é um absurdo colocar na lei maior do país essa questão de "Deus" assim como seria colocar "Alá", "Maomé", "Ogum", ou qualquer outra divindade ou referência mística ou mitológica. A lei maior de um Estado laico não pode em hipótese alguma citar ou privilegiar algum tipo de religião e suas divindades!

Estou lendo um romance a respeito de personagens do Afeganistão - O caçador de pipas (2003), de Khaled Hosseini, e o que vemos naquele país é exatamente essa questão da mistura de religião e Estado. Isso nunca acaba bem!

Quando misturadas com política de Estado, as questões de diferenças religiosas entre cristianismo, judaísmo, islamismo e outras religiões diversas tendem a terminar da mesma forma: intolerância à alteridade e consequências drásticas para os segmentos que não compartilham do tipo de crença predominante nos grupos dominantes.

Enfim, sigamos lendo e estudando.

William


Bibliografia:

NETTO, José Paulo. Karl Marx: uma biografia. 1ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2020.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

42. As aventuras de Robinson Crusoé - Daniel Defoe



Refeição Cultural - Cem clássicos

Concluída a leitura de Robinson Crusoé. Mais um clássico da literatura mundial lido e incluído em meus conhecimentos literários.

Encerro este ano de leituras literárias com algumas realizações importantes em meu percurso de leitor. Agora conheço dois clássicos que por muito tempo me incomodou muito o desconhecimento de ambos: Moby Dick e Robinson Crusoé. Dois livrões enormes!

Uma postagem como essa contém algum tipo de spoiler. Então, caso alguém não queira saber sobre a obra porque vá ler o romance, é melhor não ler a postagem.

ROBINSON CRUSOÉ

Li o clássico de Daniel Defoe entre os dias 11 de novembro e hoje, 27 de dezembro. O livro foi publicado em 1719. Achei que a estória não acabaria nunca mais depois da metade do livro. Aquilo que imaginava a respeito do romance - um náufrago perdido numa ilha deserta - foi até a metade da história do personagem. Agora sei o quanto foram longas as aventuras de Crusoé.

Antes de mais nada, é necessário registrar sempre minha admiração por alguém conseguir escrever um romance e publicá-lo séculos atrás. As dificuldades de sobrevivência do próprio escritor, de confecção de textos literários ou filosóficos, de publicação dos textos e ideias do escritor são coisas quase inimagináveis para um cidadão do mundo no século XXI. E não quero dizer com isso que não existam dificuldades hoje para se produzir e publicar um livro.

O livro é dividido em 36 capítulos. A técnica narrativa é no formato de diários e memórias do personagem principal, Robinson Crusoé, um cidadão inglês dos séculos XVII e XVIII. Ao longo das narrativas, Crusoé fala com o leitor, antecipa que vai contar tal coisa mais pra frente e deixa claro que narra de forma cronológica as aventuras.

Entre os capítulos I e XVIII conhecemos as desventuras de Crusoé, que deixa a casa de seus pais de classe média para se aventurar pelos mares do mundo. Crusoé atribui à Providência tudo que lhe ocorre, tanto de bom quanto de ruim. Naufraga algumas vezes, até que se vê sozinho numa ilha na região do Caribe. 

Depois de muitos anos sozinho, passa a conviver com um nativo local, ao qual lhe dá o nome de Sexta-Feira. Aos poucos vão aparecendo mais personagens em "sua" ilha.

Na outra metade do livro, do capítulo XIX ao XXXVI, Crusoé nos conta sobre suas aventuras ao redor do mundo. O inglês foi para Madagascar, para o Oriente e para a Ásia. Visitou a China, a Rússia, Camboja e vários lugares do mundo até os 72 anos de idade.

A obra toda foi marcada por um ponto de vista religioso, o olhar de um protestante. Uma visão cultural de superioridade de determinada crença religiosa, o cristianismo, em relação às demais formas de mitos e crenças de diversos povos do mundo.

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"Imaginava eu durante a viagem que ao passo que nos avizinhássemos da Europa, encontraríamos povos mais civilizados e regiões mais povoadas. Não sucedeu como eu julgava. Passamos ainda pela região dos tártaros tongues, onde vimos os mesmos vestígios de paganismo grosseiro, em algumas partes talvez mais pronunciado do que o outro que nos causou tanta náusea. Diferenciam-se apenas dos mongóis em ser menos insolentes e perigosos; mas em compensação não cedem a nenhum outro povo bárbaro do mundo na grosseria das maneiras, na idolatria e no número das suas divindades, que é prodigioso..." (p. 507)

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LUGAR DE FALA - Uma característica marcante no romance e no personagem é o lugar de fala deles: Crusoé (e eu diria seu autor) é um homem branco inglês, protestante, oriundo de um país colonizador na época das grandes navegações e descobrimentos de novas terras no mundo por parte dos europeus. 

Sim, é uma obra de ficção, mas quem disse que obras ficcionais não têm lugar de fala, ou do autor, ou da personagem, ou da época, do contexto, do lugar de origem etc. Robinson Crusoé é um romance inglês do início do século XVIII.

O leitor vai lendo o romance e conforme sua formação intelectual e política vai tomando birra do personagem, o náufrago inglês. Robinson Crusoé se acha representante do melhor e mais evoluído povo do mundo. São melhores que tudo e que todos, o mundo para além da Inglaterra é lixo pra ele (eles).

Sexta-Feira, o nativo, nunca foi mais que um mero serviçal, escravo de Crusoé. As aventuras vão ocorrendo e o cara se vê na China falando mal dos chineses e falando que as muralhas da China são uma merda. Depois ele vai falar a mesma coisa do povo russo, tudo gente bárbara pra ele. Durante seus acessos de arrogância e intolerância, destrói ídolos religiosos de outros povos, e a justificativa é que a abstração religiosa do povo dele - a fé cristã - é a verdadeira (!?).

Em termos de construção narrativa e de conteúdo histórico gostei bem mais de Moby Dick, do norte-americano Melville. Ele traz mais curiosidades históricas do que o romance de Defoe. 

Os dois romances são enormes, envolvem aventuras pelos mares do mundo e são bem diretos ao demonstrarem como nós humanos lidávamos (e lidamos) com a natureza (nós, os bárbaros): somos uns destruidores de tudo. Nesse sentido, a leitura vale muito a pena.

As aventuras de Robinson Crusoé não foi uma leitura prazerosa. Mesmo assim, valeu a leitura do romance. Vamos adiante lendo e conhecendo os clássicos.

William


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé, 30 capítulos lidos




Refeição Cultural

"Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé.
Comprida história que não acaba mais.
" ("Infância", C.D.A.)


(Contém spoiler)

Ufa! Ô vida longa essa do Robinson Crusoé! O cara passou vinte e oito anos na ilha onde naufragou. Sua história na ilha foi até a metade do livro. Agora sei que As aventuras de Robinson Crusoé vão muito além dos anos que passou na ilha.

O personagem já é um sexagenário e não perdeu seu espírito irrequieto, que não consegue ficar quieto em lugar nenhum e quando acha que vai parar em algum lugar, algo o chama para partir.

Depois de visitar sua ilha por quase um mês, saiu pelos mares do mundo de novo. Lá na ilha, alguns capítulos de seu diário trataram dos arranjos que fez para deixar todo mundo arrebanhado pela religião cristã, parte "papista" (ou seja, católicos) e parte protestante.

Andando a bordo de navio cujo capitão é um sobrinho, viajou para mares distantes e na ilha de Madagascar a tripulação se pôs em guerra com os nativos e a diferença de tecnologia armamentista a favor dos europeus foi responsável por um massacre local.

Crusoé passou um tempão acusando a tripulação de assassina e com isso foi expulso e deixado em terras distantes. As aventuras seguiram e o inglês se tornou grande comerciante naquela região do mundo.

Ufa! O cara é sexagenário e suas aventuras são de alguém no auge do vigor adulto.

Faltam 6 capítulos. 

Daqui um pouquinho terei preenchido mais uma lacuna cultural e saberei da história de Robinson Crusoé, aquela que o Eu-Lírico de Drummond cita no poema "Infância".

Sigo lendo os clássicos. Sempre lembrando de Italo Calvino: é melhor ler que não ler os clássicos.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond. Nova Reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

211221 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Ontem li mais um capítulo do clássico de Daniel Defoe - As aventuras de Robinson Crusoé (1719). Gostaria de terminar a leitura do livro ainda este ano, mas não será fácil. Faltam dez capítulos.

RELIGIÕES

O capítulo XXVI tem uma longa abordagem sobre religião, apontando divergências e convergências entre a religião católica e a religião protestante, a católica dos personagens espanhóis e do padre francês que acompanha Crusoé em uma visita a sua ilha e a protestante dos ingleses.

A convergência de ambas seria a fé cristã, como descreve o padre católico que acompanha Crusoé:

"Embora não professemos a mesma religião, estou todavia seguro de que nós, como cristãos que somos, teríamos o maior prazer em ver as pobres escravas do demônio instruídas nos preceitos do cristianismo, na crença do Redentor, na Ressurreição, na vida eterna e no Juízo final, dogmas estes sobre que não há divergências de doutrina." (p. 373)

A divergência seria a própria estrutura de poder e hierarquia da igreja católica frente ao modelo protestante.

"Na minha qualidade de católico, conheço suficientemente a diferença radical que há entre um protestante e um pagão, entre aquele que invoca o nome de Jesus, embora de uma forma que julgo não ser de acordo com a verdadeira fé, e um bárbaro ou selvagem, que desconhece por completo Deus e o seu Cristo, Redentor da humanidade. Se os protestantes não estão dentro dos umbrais da igreja, pelo menos estão mais perto do que aqueles que nunca ouviram falar dela..." (p. 386)

Enquanto lia, refletia e me lembrava de uma vida longa que tive acreditando nessas abstrações da mente e cultura humanas: o meu ambiente de criação foi o católico apostólico romano. Essas criações dos seres humanos são muito poderosas, tenho plena clareza a respeito disso. E tenho plena compreensão da necessidade humana de encontrar pontos de apoio e suporte para significar a vida e suportar as dificuldades existenciais percebidas pelo animal humano.

Cada pessoa e cada sociedade tem sua cultura e seu momento na busca de consciência e compreensão da vida na Terra.

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KARL MARX

Li mais um pouco do primeiro capítulo do livro de José Paulo Netto sobre a vida de Karl Marx. Muito interessante a forma leve com que Netto nos conta a respeito do grande pensador Marx.

O capítulo I. ADEUS À MISÉRIA ALEMÃ (1818-1843) nos conta o ambiente onde a família de Marx viveu.

Na parte que fala de sua adolescência, crescimento e conclusão de sua educação fundamental - "Os primeiros anos: 1818-1835" - gostei muito de um trecho de um de seus trabalhos de conclusão de curso, um texto com o título "Reflexão de um jovem em face da escolha de uma profissão".

"Se [o homem] trabalha apenas para si mesmo, poderá talvez tornar-se um célebre erudito, um grande sábio ou um excelente poeta, mas nunca será um homem completo, verdadeiramente grande [...]. Se escolhermos uma profissão em que possamos trabalhar ao máximo pela humanidade [...] não fruiremos uma alegria pobre, limitada, egoísta, mas a nossa felicidade pertencerá a milhões [de pessoas]. (NETTO, 2020, p. 42)

Que coisa linda! Um jovem de 17 anos!

Demais!

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Na parte "Dois semestres de boêmia: Bonn, 1835-1836" o leitor fica sabendo das loucuras do jovem estudante Marx, loucuras muito semelhantes às dos jovens estudantes de hoje e de sempre.

O rapaz não faltava a um rolê regado a bebida e tabaco. A faculdade tinha os grupos de afinidades dos filhos dos ricos e os dos não ricos, onde se situava Marx. Ele chegou a duelar com sabre com um rapaz e por pouco não deu merda. Feriu-se apenas acima do olho esquerdo.

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Na parte seguinte - "Os anos de Berlim: de 1836-1837 a meados de 1841) - que estou lendo ainda, já soube da paixão entre Marx e Jenny, mais velha que ele 4 anos. Ao ler sobre o amor e a vida que tiveram juntos, me lembrei de Machado de Assis e sua companheira de toda a vida, Carolina Augusta Xavier de Novais. Marx sentiu muito a morte da esposa em 1882. Machado idem, a morte da esposa em 1904 abalou muito o nosso escritor.

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Enfim, paro por aqui minhas reflexões e registros após meus estudos.

Seguimos em busca de conhecimento, em busca de consciência de classe e na expectativa de contribuir de alguma forma para o fim do regime capitalista e pela construção de um mundo melhor para a humanidade e para o planeta Terra.

William


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

NETTO, José Paulo. Karl Marx: uma biografia. 1ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2020.

domingo, 19 de dezembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé (VIII) - Daniel Defoe



Refeição Cultural

(contém spoiler)

Avancei na leitura de Robinson Crusoé desde a última postagem no blog (ler aqui). Daquele dia até hoje li dos capítulos XIX ao XXV. A história teve mudanças importantes de onde havia parado na semana passada. Quando terminou o capítulo XVIII, Crusoé havia ajudado o capitão de um navio inglês a se livrar de rebeldes que se insubordinaram e lhe tomaram o navio.

A história de Crusoé toma outro rumo. Após 28 anos, 2 meses e 19 dias na ilha, o náufrago inglês vai embora, levando consigo seu escravo e serviçal Sexta-Feira. Como eu não conhecia o clássico, me surpreendi pelo fato de o livro não acabar aí. Imaginem vocês que o livrão enorme está na metade...

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Nos capítulos XIX e XX Crusoé vai para a Inglaterra, descobre que quase todos os seus parentes já faleceram. Vai a Lisboa resolver questões relativas a suas propriedades e bens no Brasil. Volta para a Inglaterra por via terrestre a maior parte do tempo e enfrenta grandes alcateias de lobos nas montanhas geladas. Casa-se e constitui família, tendo três filhos.

A característica inglesa do homem branco de tratar como coisas outros povos e mulheres segue impecável:

"(...) e eu resolvi aumentar a minha criadagem com um marinheiro inglês para me servir de lacaio durante a jornada, atendendo a que Sexta-Feira não era suficiente para o meu serviço, em países de que apenas tinha uma leve ideia." (p. 260)

Com a morte da esposa, decide viajar novamente e visitar sua ilha. Crusoé estava com 62 anos em 1694.

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Nos capítulos XXI e XXII Crusoé volta aos mares. Salva tripulação de navio avariado e aporta em sua ilha.

TÉCNICA NARRATIVA:

"Creio que vale a pena narrar a história da sua chegada e permanência na ilha, tão cortada foi de incidentes de todo gênero, os quais têm ligações com outros fatos já por mim relatados. Por isso vou descrevê-la aqui com as particularidades que julgar mais interessantes, consoante me ocorrerem à memória, e em narração seguida, para não perturbar a cabeça dos leitores com os 'disse eu, replicou ele, perguntei eu, respondeu ele', que servem somente para tornar a dicção fastidiosa." (p. 304)

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Nos capítulos XXIII, XXIV e XXV, soubemos dos eventos ocorridos na ilha durante a ausência de Robinson Crusoé. Conhecemos os desentendimentos entre seus "súditos" espanhóis e ingleses, os confrontos com tribos canibais que invadiram a ilha algumas vezes, o povoamento da "colônia" etc.

Em uma das aventuras na ilha, três dos ingleses que só arrumavam confusão com os demais, foram embora e depois voltaram com nativos escravizados, tendo entre eles 5 índias. Elas foram divididas entre os ingleses. O tratamento delas foi o de sempre: coisas. 

O capítulo XXV termina com a vitória dos colonos após grande batalha com centenas de canibais. O narrador nos conta sobre a colonização que vai se fazendo na ilha por conta das mulheres índias que passaram a conviver com os colonos ingleses.

"A mais velha dessas crianças tinha seis anos de idade, na época da minha visita à ilha; e havia sete anos que os ingleses tinham para lá levado as mulheres. Foram todas fecundas, umas mais que as outras; a que coube ao segundo-cozinheiro estava grávida pela sexta vez. Eram meigas, modestas e laboriosas, sempre prontas a auxiliar as companheiras, e de obediência rara aos seus senhores, aos quais só impropriamente posso chamar maridos. Faltava-lhes apenas a educação no cristianismo e o casamento legítimo; o que afinal obtiveram, por minha intervenção, ou pelo menos como consequência da visita aos meus antigos domínios." (p. 357)

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COMENTÁRIO FINAL

Esse final de capítulo na ficção de Daniel Defoe foi realidade ao longo de séculos de invasão e colonização nas Américas e nas demais terras que foram sendo alcançadas pelos europeus.

É isso. Aos poucos vou avançando para o final da história de Robinson Crusoé, que não conhecia, apesar de seus 300 anos de existência na cultura ocidental.

William


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.


quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

151221 -- Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 15 de dezembro do ano de 2021.


Está acabando mais um ano de acordo com os calendários de referência. Na verdade, eu diria que não vai acabar nada no dia 31 de dezembro e nada novo vai começar no dia seguinte. Vivemos no Brasil o mesmo ano de 2016, desde que mais um golpe de Estado foi efetivado contra o povo brasileiro, o povo pobre, o povo da classe trabalhadora, o povo preto pardo ou descendente de escravos ou povos originários de nossas terras. Seguimos e me parece que seguiremos em 2016 por um longo tempo ainda, maior do que os dias corridos do calendário de 2022. Eu não compartilho do otimismo esperançoso de meus pares da classe que veem mudanças no Brasil porque o homem Lula está disparado nas pesquisas eleitorais neste momento da história. Acho de uma inocência quase infantil acharem que os golpistas nos deixarão retomar por conciliação e sem violência o caminho das lentas mudanças que vínhamos fazendo em favor do povo antes do golpe. Meus pares ainda acreditam em conciliação de classes, entre nós e o 1%. Ou não aprenderam nada com a história recente ou preferem o conforto do autoengano. O tempo é um marco. As pessoas preferem olhar o tempo de suas vidas ao invés do tempo histórico de nossa classe. (Se olharmos qualquer notícia sobre a política sob o governo Bolsonaro, veremos que cada milímetro de espaço das instituições do Estado nacional está sendo ocupado pela canalha toda da mesma forma que fizeram os regimes de Hitler, Mussolini, Stalin, Salazar, Franco etc. Não vamos nos livrar do regime bolsonarista dos golpistas retirando Bolsonaro do poder formal)

Estou lendo um livro clássico que estava nos meus objetivos de leitura: As aventuras de Robinson Crusoé (1719), do inglês Daniel Defoe. Que dureza! Não estou gostando do romance, e não vou deixá-lo pela metade, vou ler até o fim. Mas vai ser foda acabar a leitura. Que personagem símbolo dessa merda toda que o mundo humano está vivendo nesse momento da história! Trezentos anos depois da publicação do romance de Defoe, nada mudou! A mentalidade do homem branco do Norte é a mentalidade que vigora destruindo o mundo todo. Crusoé é a representação do imperialismo, do racismo, da xenofobia, o personagem é a cara dos brancos que dominaram o mundo nos últimos séculos e que neste momento não se importam em acabar com a vida e o planeta. Eu não sei por que tomei tanta birra do personagem arrogante, sendo que conheço outros do mesmo tipo, personagens são personagens, ficção é ficção, eu sei disso. Brás Cubas, por exemplo, nos dá muito nojo porque ele é a representação da burguesia tacanha do país, mas sei que o romance é uma crítica e a técnica machadiana é a ironia feroz. Não acho que esse seja o caso do romance e do personagem do inglês Daniel Defoe. Mas vou até o fim na leitura. Estou me arrastando pelas páginas. Cada página me dá mais cansaço, e ainda faltam 200 páginas... 

Registro feito. Muitas coisas aconteceram e seguem acontecendo na vida pessoal. Mas tenho que parar de escrever a respeito disso. Isso não deveria interessar a ninguém. (seria uma contradição escrever diários sem falar de coisas pessoais? É. Mas o animal humano é contradição pura)

William


sábado, 11 de dezembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé (VII) - Daniel Defoe



Refeição Cultural

Neste sábado resolvi dar uma focada na leitura de Robinson Crusoé (1719), de Daniel Defoe. Completando um mês de leitura, consegui ler vários capítulos e cheguei à metade do livro, capítulo XVIII.

O romance teve um andamento até o capítulo XIII e agora a narrativa deu uma guinada. Acabaram-se os dias de solidão. Foram 24 anos solitários na ilha, Ilha do Desespero, como Crusoé a chamou.

No capítulo XIV, o náufrago inglês sonha acontecimentos que depois ocorreriam na vida real. Lembrando que Crusoé avistou pegadas na praia alguns capítulos antes. Ele nunca mais teve sossego desde que descobriu que canibais aportavam à ilha para rituais de canibalismo. Sonhou um dia que uma das vítimas fugia dos canibais e ele dava guarida a ela. 

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CRUSOÉ, UM IMPERIALISTA, CLARO! 

O capítulo marca a bronca que passei a ter do desgraçado Robinson Crusoé. É verdade! Como leitores, sabemos que as obras literárias carregam as marcas de seu tempo, local, contexto, ideologias etc. O livro é do início do século XVIII, escrito por um inglês, período das navegações e dos impérios colonialistas. Difícil escaparmos das marcas e influências das ideias desses séculos.

O náufrago Robinson Crusoé está na situação que está porque mesmo estando bem estabelecido no Brasil como latifundiário que plantava cana-de-açúcar e tabaco, com mão-de-obra escrava, resolveu ir à Guiné buscar mais escravos e se ferrou na viagem. Então já sabemos que não se trata de um santo.

Mas o personagem carrega de forma excepcional aquele ar arrogante dos homens de seu tempo, brancos, imperialistas, que se acham superiores aos demais povos do mundo que iam descobrindo com as navegações de conquista de novas terras. Defoe é bom em transpor para Crusoé os valores ingleses.

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UM ESCRAVO, NÃO UM AMIGO

Após 24 anos de solidão na ilha, o náufrago inglês não queria uma companhia humana, um amigo, alguém para conviver de igual para igual. O desgraçado queria um escravo, um serviçal, alguém para servir a ele. E é isso que ele faz ao salvar um selvagem de ser comido pelos inimigos. Robinson Crusoé tem a partir daquele momento um serviçal, um escravo, que nomeia de Sexta-Feira.

"Sonhei que uma manhã, saindo do castelo como de costume, vi duas canoas perto da praia, das quais desembarcaram onze selvagens com um prisioneiro destinado a sua refeição canibalesca. No momento em que o iam matar, o mísero fugiu (...) ajudei-o a subir pela escada, trouxe-o para a minha habitação, e ficou sendo meu escravo. Fiquei satisfeitíssimo com este incidente, persuadido de ter adquirido um homem capaz de me servir de piloto na empresa projetada, e de dar-me os conselhos necessários para evitar todo o gênero de perigos." (p. 185)

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O SENHOR E O ESCRAVO

"A cútis não era negra, sim muito trigueira, mas nada parecida com a desagradável cor pardacenta dos habitantes do Brasil e da Virgínia..." (p. 190)

Essa foi a descrição que Crusoé fez em seu diário do homem jovem de cerca de 25 anos que fugiu dos canibais e foi salvo por ele.

"Uma das primeiras coisas que lhe ensinei foi o nome que entendi dever dar-lhe: o de Sexta-Feira, em memória do dia da semana em que o tinha salvo. Aprendeu também a chamar-me meu senhor e a dizer a propósito sim e não." (p. 190)

Sigamos adiante. Se trata de um romance, um livro clássico com trezentos anos de história.

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O DEUS DOS INGLESES É MELHOR QUE OS DEUSES DOS OUTROS

No capítulo seguinte, o XV, Crusoé ensina inglês para o jovem, ensina a sua religião e descobre que os povos locais também têm a religião deles, mas o inglês explica a Sexta-Feira que o Deus dele é melhor que o dos indígenas locais: Benamuckee.

"Aproveitei a oportunidade para o instruir nas noções do verdadeiro Deus." (p. 199)

Conversando com Sexta-Feira, consegue mais informações sobre a localização em que está, perto da desembocadura do rio Orinoco, região do Caribe.

Na página 202, sabemos pelo personagem que se passaram 3 anos amenos de convivência entre ele e Sexta-Feira. São 27 anos na ilha, os últimos 3 na companhia do seu "serviçal". 

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No capítulo XVI mais aventuras acontecessem. Vão chegando canibais e vão aumentando os "vassalos" salvos pelo "monarca" Crusoé. Agora faz parte do grupo o pai de Sexta-Feira e um espanhol naufragado.

"Eis a minha ilha povoada, e eu rico em vassalos! Era caso para ter vaidade, considerando-me um minúsculo monarca, visto que toda ela era domínio meu por títulos incontestáveis. Os súditos eram-me fiéis e submissos; eu arrogava-me como árbitro supremo e legislador despótico. Salvara-lhes a vida, e em compensação estavam prontos a arriscar a sua no meu serviço. O mais singular é que havia nos meus estados três religiões diferentes: Sexta-Feira era protestante, o pai, pagão e canibal, e o espanhol, católico romano. Eu, como príncipe sábio e justo, decretava a liberdade de consciência em todo o meu reino." (p. 219)

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Nos capítulos XVII e XVIII novas aventuras acontecessem. Um navio inglês ancora na ilha, e após diversas peripécias, inclusive tendo como herói e salvador Crusoé novamente, ele passa a ter agora um navio à sua disposição e uma tripulação. 

Agora veremos o que acontecerá a seguir...

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COMENTÁRIO FINAL

Século XVIII. Relações humanas utilitaristas, de interesses. Senhores e serviçais. 

Século XXI. Relações humanas utilitaristas mais que nunca, de interesses... senhores e serviçais.

Não mudou muita coisa em 300 anos.

William


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé (VI) - Daniel Defoe



Refeição Cultural

A leitura do clássico de Daniel Defoe, As aventuras de Robinson Crusoé (1719), tem sido lenta como imaginei. Estou completando um mês do início da leitura e após ler mais quatro capítulos estou chegando perto de 2/5 da obra. Gostaria de terminar a leitura em dezembro, mas não sei se será possível.

A leitura é de fácil andamento, com linguagem prosaica e com a técnica narrativa baseada em um narrador que conta ele mesmo suas aventuras e desventuras na forma de um diário. Até o momento em que estou no romance, o capítulo XIII, Crusoé está na Ilha do Desespero há 24 anos. Ele diz ter chegado à ilha com 36 anos, então estaria com cerca de 60 anos.

"A minha salvação miraculosa na ilha depois do naufrágio foi no dia do aniversário do meu nascimento, 30 de setembro, trinta e seis anos antes..." (p. 136)

Robinson Crusoé passou todo esse período sem uma companhia humana. Sua "família" se resumiu a um cão, um papagaio e gatos. E alguns cabritos amansados. Ele nos disse que o cão morreu de velhice com 16 anos (p. 174).

Às vezes, tenho dúvidas nas contagens de tempo e idade do personagem, mesmo fazendo uma leitura atenta. Calculo que ele está com 60 anos por causa das marcas que vou encontrando no texto. Sei que saiu de casa com 19 anos e daí por diante vou anotando as referências de tempo que ele mesmo nos dá.

"Fui feliz em não tornar a avistá-los até maio do vigésimo quarto ano da minha vida solitária, no qual tive com eles um encontro estupendo que a seu tempo relatarei..." (p. 175)

Terminei a leitura do capítulo XIII com novidades em relação ao cotidiano regular em que ele viveu durante alguns anos na ilha. Um navio naufragou nas costas da ilha, como ocorreu com o dele décadas atrás. Ele visitou os destroços e encontrou mortos. Vivo, só um cachorro.

Crusoé passou os últimos anos com muito medo e precavido porque descobriu que canibais de alguma ilha vizinha aportavam em "sua" ilha para alguns rituais de canibalismo. Há anos ele espera um confronto com os canibais. Após a descoberta da existência deles nunca mais teve paz para fazer sequer os barulhos que fazia como atirar para caçar.

Na edição que estou lendo, há um resumo do capítulo na entrada do texto. Acho isso terrível. Nunca leio. É um spoiler do que o leitor vai ler. O Decamerão, de Giovanni Boccaccio, que li ano passado, também tinha esses spoiler. Eu só leio os resumos após ler o capítulo, para relembrar alguma coisa.

ATENÇÃO - Aqui nas postagens, local onde reflito para mim mesmo sobre o que estou lendo e para leitoras e leitores que acompanham o blog, parto do princípio que se alguém está lendo esta postagem é porque resolveu seguir a sequência dessas postagens sobre a leitura de Robinson Crusoé, categoria ou tag "Daniel Defoe", e já leu as anteriores, que fui fazendo desde o início da leitura do livro. Então, não considero que estou dando spoiler aqui porque conto o que já li em quase 200 páginas do clássico.

Abaixo, vou deixar um exemplo dos cabeçalhos dos capítulos que dizem o que vai ser o destaque naquele texto. Quem não leu a obra e não quer saber antes mais detalhes, pare por aqui.

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CAPÍTULO X

"Ponho com bom êxito a nova canoa a nado. - Parto para uma viagem costeira no sexto ano do meu reinado ou cativeiro. - Contratempos no mar. - Arribo a uma praia depois de grandes dificuldades. - Adormeço e acordo a uma voz chamando pelo meu nome. - Imagino vários planos para apanhar cabras vivas e sou bem-sucedido." (p. 140)

O capítulo tem uma filosofada interessante:

"É assim a natureza humana: só apreciamos o valor das coisas quando as perdemos ou experimentamos os inconvenientes de outras." (p. 142)

Nesse capítulo Crusoé acelera o tempo e vamos de 6 a 11 anos na ilha. Ele já dominou a técnica para fabricar diversos utensílios de seu cotidiano. Após domesticar cabras, o seu cardápio era farto e diversificado. Melhor do que o dos milhões de seres humanos da atualidade, em completa insegurança alimentar em meio a tanta riqueza produzida pelo homem do século XXI.

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CAPÍTULO XI

"Descrição pitoresca da minha figura. - Descrição da minha morada, dos cercados e das tapadas. - Medonho terror e sobressalto de que sou assaltado por distinguir na areia de uma praia pegadas humanas. - Reflexões. - Tomo medidas de precaução contra prováveis invasores." (p. 150)

Nesse capítulo Crusoé descreve de forma até engraçada sua aparência e situação de conforto na ilha. Reforça sua crença religiosa na Providência de Deus.

Após descobrir as pegadas na praia, sua tranquilidade vai por água abaixo. Reflete muito a respeito. Dilemas entre querer e não querer encontrar um humano após todos os anos de solidão.

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RELIGIÃO E FÉ, ABSTRAÇÕES QUE DÃO CONFORMIDADE AOS DILEMAS DA VIDA HUMANA - Eu fui uma pessoa criada na cultura e ambiência das religiões. Criado na cultura católica por meus pais e família, tive contato também com matrizes diversas de crença religiosa como candomblé, espiritismo etc. 

Essa experiência do viver me permite entender um pouco por onde passa toda essa situação em que nos encontramos no Brasil em 2021, momento no qual alguns segmentos religiosos avançam em seus projetos de dominar o país através da política, dominar o Estado nacional. Parte dos neopentecostais apoiadores do bolsonarismo tem um projeto de poder agressivo e totalitário, na minha opinião. 

Enfim, como fui religioso por décadas consigo compreender minimamente o que sente uma pessoa religiosa. É algo muito forte, a pessoa faz qualquer coisa em função daquilo que crê ou que é levada a crer.

Por que fiz esse comentário? Para citar um trecho do diário do personagem Robinson Crusoé que marquei como uma forma de pensamento que tive por quase 30 anos de minha vida.

"Efetivamente, apenas serenaram um pouco tamanhas apreensões, considerei que a minha situação era o efeito de uma Providência, infinitamente boa e sábia; e que sendo eu incapaz de penetrar as suas vistas a meu respeito, era da minha parte gravíssima audácia tentar subtrair-me à soberania do Ente Supremo, que, como meu criador, tem o direito absoluto de dispor da minha sorte, e como juiz, o de punir-me quando assim o entender, pois que se pelos meus pecados atraí a sua indignação, devia também sujeitar-me aos castigos. Pensei que Deus, sendo onipotente e justo, assim como julgou bom afligir-me, assim também podia livrar-me da infelicidade e da desgraça; e que, se em seus altos desígnios resolvesse continuar a tribular-me, só me restava aguardar com perfeita resignação os seus decretos, continuando a confiar n'Ele e a dirigir-lhe as minhas súplicas." (p. 156)

Pois é! Quantos e quantos amigos e amigas tenho que pensam exatamente assim nesse momento do viver... e cabe a nós respeitarmos a opinião de cada uma e cada um deles. Cada ser humano tem a sua vida, a sua crença, o seu tempo, as suas veredas.

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O MEDO NOS TIRA A RAZÃO

"Pensei nessa insânia toda a noite, quando o meu ridículo terror estava no seu auge; o que mostra que o receio do perigo é mil vezes mais insuportável do que ele próprio, e que a imaginação exagerada de um mal longínquo nos inquieta mais do que quando ele se declara francamente." (p. 158)

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CAPÍTULO XII

"Avisto uma embarcação ao longe no mar. - Descubro na praia os restos de um banquete de antropófagos. - Horror a propósito. - Redobro o meu armamento pessoal. - Terrível susto causado por uma cabra. - Dou com uma caverna ou gruta singular, da qual faço celeiro. - Continua o meu receio e medo de que os selvagens venham desembarcar na ilha." (p. 161)

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CAPÍTULO XIII

"A minha situação no 23º ano de residência na ilha. - Avisto selvagens nus na costa onde ficava a minha habitação, em redor de uma fogueira. - Meu horror quando contemplo o espantoso festim, em que se estão banqueteando. - Resolvo-me de novo a exterminar os bandos a todo o transe. - Navio perdido no mar em frente da ilha. - Vou a bordo da embarcação naufragada, que julgo ser espanhola. - Aproveito grande quantidade de objetos." (p. 172)

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É isso! Sigo lendo os clássicos da literatura mundial da maneira que é possível. Estou também escrevendo memórias em relação ao período central de minha vida adulta, o período no qual fui um representante dos trabalhadores da categoria bancária. Isso está dividindo meu tempo com as leituras clássicas e literárias. Mas sinto que preciso fazer isso, apesar de ter uma lista imensa de clássicos na estante para ler enquanto vivo estou.

William


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé (V) - Daniel Defoe



Refeição Cultural

"Agora, considerava o mundo como terra estranha, onde não existia objeto possível para as minhas esperanças e aspirações. Efetivamente faltava-me o convívio com a humanidade, e, segundo todas as aparências, não tornaria mais a tê-lo. Parecia-me que podia já encarar este mundo, como talvez no outro seja observado, isto é, um lugar onde vivemos outrora, e do qual saímos para sempre; devendo na verdade dizer dele o mesmo que Abraão ao rico orgulhoso na parábola bíblica:
'Separa-nos a nós ambos um abismo.'
" (p. 132)


Li o capítulo IX de As aventuras de Robinson Crusoé (1719), de Daniel Defoe. Como previ, a leitura será longa porque o livro é enorme, apesar de ser um romance de leitura simples, de linguagem prosaica, no formato de diário e narrado pelo próprio personagem.

Crusoé nos conta como passou o 3º e o 4º ano na ilha, chamada por ele Ilha do Desespero, mas enaltecida ao extremo em certos momentos da história. 

Enquanto lia as agruras do personagem para conseguir fabricar ferramentas e utensílios básicos da vida humana (tecnologias como panela, roupa e peneira), fiquei me lembrando o quanto somos dependentes uns dos outros, não somos nada sozinhos. Ontem, hoje e sempre.

É muito interessante uma ficção sobre um náufrago numa ilha deserta tentando produzir coisas simples que encontramos em qualquer feira ou comércio por aí.

VALOR DAS COISAS

"Em suma, as circunstâncias e a experiência convenceram-me que as coisas do mundo só têm valor aos nossos olhos conforme o uso que delas fizermos, e gozo pessoal que nos proporcionam, salvo a reserva do que podemos acumular em tempo e lugar para beneficiar o próximo com liberdade..." (p. 133)

Crusoé reflete que sem as ferramentas humanas ele seria só mais um animal naquele mundo, ou em qualquer lugar. A reflexão vem em sua mente por causa da quantidade de coisas que conseguiu retirar do navio naufragado.

Por falar em coisas especificamente humanas, o personagem nos conta como se transformou em crente, em alguém que acredita que a Providência divina foi responsável por tudo que aconteceu a ele, tanto coisas boas quanto ruins (estas para "puni-lo).

SOU O MAIS DESGRAÇADO DOS HOMENS?

"Essas reflexões tornavam-me sensível à bondade da Providência, e ao mesmo tempo grato pela minha condição atual, posto que não isenta de amarguras e misérias. Não posso deixar de recomendar esse trecho da minha história às meditações dos que, no meio das suas desgraças, atroam os ares com exclamações como esta:
'Haverá desventura e aflição comparável à minha?'
" (p. 134)

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Por fim, o capítulo termina com Crusoé dizendo que chegou à ilha com 36 anos e passaram-se 5 anos desde que chegou lá. O náufrago preencheu sua solidão com diálogos com Deus e ocupou seu tempo em ler a bíblia, cuidar da alimentação e no desenvolvimento de utensílios cotidianos sem ter condição ou habilidade adequada para isso.

"Na manufatura e conclusão das diversas obras, artefatos e alfaias que tenho mencionado, passaram-se cinco anos sem que ocorresse nada mais de notável. Nesse período a minha vida deslizou-se da forma que disse; simplesmente, além da cultura do trigo, do arroz e das vinhas, a principal ocupação foi construir uma canoa, que pus a nado, por meio de um canal de seis pés de profundidade e quatro de largura..." (p. 138)

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CRUSOÉ E NÓS: O QUE MUDOU EM 300 ANOS?

Será que existe muita diferença entre o diário do personagem Crusoé - náufrago solitário em uma ilha qualquer - e o diário de nós todos, 300 anos depois? Não sei. 

Ora o personagem se sente prisioneiro do azar e um infeliz, ora um felizardo e agraciado pela Providência. Não é assim que muitos de nós se sentem o tempo todo num mundo em crise e sem perspectivas de futuro?

Crusoé não passa fome na ilha, mesmo sem ter tecnologia adequada para prover o que precisa; por outro lado, milhões passam fome neste exato momento no mundo, mesmo com a maior tecnologia já vista pelos homens.

Crusoé atribui tudo que lhe acontece de bom ou ruim a um deus, à Providência divina; nos dias de hoje, mesmo conhecendo séculos de ciências, parte das pessoas do mundo atribue tudo que lhe acontece a alguma divindade. 

Enquanto isso, milhões de pessoas de boa-fé são manipuladas por canalhas que se passam por mensageiros de deuses.

... pensar na realidade me pesou o olho de maneira impossível de seguir na postagem. Mas tá bom por enquanto.

William


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé (IV) - Daniel Defoe



Refeição Cultural

"- Cumpriram-se agora as palavras de meu pai! A mão de Deus pesa sobre mim; não tenho ninguém para tratar-me e socorrer-me; cerrei os ouvidos à voz da Providência a qual por sua bondade infinita me concedera um estado de vida, em que podia ser feliz, mas cujo valor e gozo desprezei, contra a vontade dos meus pais que enchi de luto, e tudo por causa da minha loucura, sendo uma consequência dela a triste condição a que cheguei agora (...) Meu Deus, vinde em meu amparo, porque é grande a minha miséria!" (p. 95)


Estamos acompanhando as aventuras de Robinson Crusoé, personagem de Daniel Defoe, romance publicado há 300 anos. Sim, o jovem Crusoé deixou uma vida promissora ao lado dos pais na Inglaterra e se lançou ao mar em busca de saciar seus desejos de aventuras pelo mundo. Até agora só encontrou desventuras. Ver aqui postagem anterior.

Ele se encontra numa ilha desconhecida, nomeada por ele como "Ilha do Desespero". No capítulo VI, o náufrago nos conta que caiu doente e passou maus bocados. Nessa condição, se apegou à fé e passou a orar, clamar por Deus e ler a bíblia. Foram longos dias de febre, prostração e medo da morte solitária e sem ninguém. Crusoé nos diz que encontrou a cura através do uso de tabaco: infusões de tabaco.

FILOSOFADA

"   - O que é a terra?... O que é o mar, sobre cujas água andei a tanto tempo?... Quem produziu tudo isso?... O que sou eu mesmo, e o que são as outras criaturas domésticas e silvestres?... Qual é a nossa origem?... Não pode haver dúvida de que devemos a existência a um poder invisível, que criou o mar, a terra, o ar e os céus; mas quem é esse Poder sobrenatural?
     Então, inferi naturalmente:
     - É Deus o autor de todas as coisas...
" (p. 96)

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CAPÍTULO VII

Crusoé sobrevive às febres que teve e decide sair em excursões pela ilha para conhecer o ambiente e ver oportunidades e perspectivas para alcançar sua "liberdade": sair da ilha e da situação em que se encontra.

Descobre víveres para suprir momentos de pouca caça - uvas, cana-de-açúcar silvestre, limões - e descobre regiões muito melhores para viver do que o local onde se instalou, no litoral. Faz uma segunda casa na região melhor e pensa pra si que agora tem uma casa na praia e outra no campo.

"DE 14 A 26 DE ABRIL - (...) Regulei nesse dia as minhas refeições desta forma: para o almoço um cacho de uvas; para o jantar uma porção de cabra ou posta de tartaruga grelhada; não podia prepará-las de outra maneira, porque não tinha panela nem outro utensílio para as cozer ou estufar; para a ceia contentava-me com dois ou três ovos de tartaruga." (p. 107)

Ainda neste capítulo, Crusoé nos conta que passou a conhecer o clima da ilha, as características das quatro estações, o que lhe permitiu seguir com a experiência de produzir trigo com o pouco de sementes que tinha.

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CAPÍTULO VIII

Neste capítulo, Crusoé aumentou a "família". Além do cão (não tem nome) e das gatas, que até procriaram na ilha sem ele entender como, ele adquiriu um papagaio e um cabrito. O papagaio ele deu nome e sobrenome, e lhe ensinou a falar: papagaio loiro.

Ao completar dois anos na ilha, Crusoé vive um momento místico e em paz com a Providência, que agradece sempre por lhe prover tudo que precisa para viver.

Nosso náufrago tenta avançar nas etapas evolutivas e ser um sedentário. Sua plantação de trigos estava bem promissora quando de repente a natureza se mostra nua e crua. Pestes e animais diversos passam a devorar sua lavoura... que martírio viveu Robinson Crusoé!

A Providência o auxiliou de novo. Ele deu carga de tiros em alguns pássaros e usou seus corpos como espantalhos... segundo ele ao estilo dos reinos ingleses, pendurando os corpos dos martirizados para servirem de lição ao povo.

ESPANTALHOS - "Avancei para junto da sebe, atirei sobre eles segundo tiro e matei três, o que era o meu maior desejo, porque fui apanhar os cadáveres para os amarrar ao patíbulo depois da execução, a fim de servir de exemplo aos outros, como se faz na Inglaterra aos ladrões supliciados." (p. 120)

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FILOSOFADA QUE VALE PARA OS TEMPOS QUE ESTAMOS VIVENDO

"O que me valia eram a paciência e a resignação, os dois escudos mais poderosos contra as adversidades da vida." (p. 121)

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O capítulo termina com nosso solitário náufrago pensando formas de fabricar panelas e vasilhas para poder cozinhar e fazer pão com o trigo que está produzindo.

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COMENTÁRIO FINAL

Paciência e resignação, escudos para as adversidades da vida, como nos disse o personagem Crusoé.

Eu acrescentaria no contexto atual, nesse final de novembro de 2021, que temos que persistir em viver e mudar a situação na qual estamos: um bom começo é não se acostumar com a injustiça e com o que não está certo. 

PASSAR FOME NÃO É "NORMAL", NÃO É "NATURAL" - Não é normal passar fome e não ter condição alguma de vida após a tecnologia criada pelos homens nos últimos 10 mil anos! Não é natural, não é normal!

Temos que derrotar os donos do poder, o sistema que está destruindo a vida no planeta e escravizando os seres humanos: capitalismo. Não é justo e não é certo alguns humanos deterem toda a produção e riqueza produzida pelo conjunto da sociedade humana. 

Pensem nisso! Se posicionem! Façam algo para mudar isso! Por vocês e pelo futuro da humanidade.

William


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé (III) - Daniel Defoe



Refeição Cultural

"DIÁRIO: 30 de setembro do ano de 1659...", assim começa o diário do náufrago Robinson Crusoé. 

O capítulo V é o primeiro organizado na forma de um diário, enquanto técnica narrativa do personagem. Nos capítulos anteriores, nós leitores externos à obra conhecemos aquelas questões básicas de uma narrativa: quem, onde, quando, porque, o quê, como etc.

No capítulo V, Crusoé organiza seu diário e acrescenta novidades ao que já sabíamos. Nomeia a ilha onde está - Ilha do Desespero - e tem avanços e regressos em sua condição de náufrago perdido numa ilha. 

Uma série de terremotos colocou sua vida em risco e serviu de alerta para o fato de que poderia morrer soterrado em sua "fortaleza", construída durante meses. A novidade foi descobrir que uns restos de trigo e outros cereais que deixou cair no solo germinaram e isso poderia alterar sua condição de sobrevivência na ilha.

FILOSOFADAS

Anotei duas reflexões do personagem que nos fazem pensar na vida e na natureza.

"o tempo, a necessidade, e a prática habilitaram-me muito bem na mecânica; e eu acredito que qualquer homem nas minhas circunstâncias se aperfeiçoaria como eu, sob a direção daqueles três grandes mestres" (p. 77)

De fato, o tempo, a necessidade e a prática são grandes mestres dos seres humanos que souberem se aproveitar dos ensinamentos que eles nos dão.

"Outra coisa que me faltava com grande incômodo meu eram velas para me alumiar, o que me forçava a me recolher à cama logo que era noite fechada, comumente às sete horas." (p. 82)

Sem tecnologia o homem não domina a natureza, ele tem que se submeter a ela. Isso é fato, para o bem e para o mal, inclusive em relação ao uso que fazemos da tecnologia que inventamos.

RELIGIÕES E MITOS

"Na disposição em que estava de crer que era a Providência quem me mandava esses brindes..." (p. 83)

Somos uns bichos diferentes dos demais bichos que vivem no planeta. Crusoé diz que não ligava muito para religião e todos os dogmas inventados com ela. 

"Até então não pautara o meu viver pela religião, nem, para falar com franqueza, tinha cabida no meu espírito." (p. 82)

A condição de desespero e encantamento com casualidades e fatos ocorridos naquela situação na qual se encontrava fez com que ele desenvolvesse uma certeza de que a Providência teria agido em favor ou desfavor dele. Tá aí o mito, o deus e a certeza de que eles existem e justificam tudo.

"A produção daquelas poucas espigas deu novo curso e fervor às minhas ideias. Trigo sem sementes sãs e numa região que pelo clima não lhe era propícia! Só por milagre de Deus, o qual na sua bondade operou tal prodígio para dar-me subsistência e alimentação nesse horroroso deserto." (p. 83)

Não é!? Vai questionar esses milagres com ele ou com um pentecostal desses manipuladores da fé das pessoas...

FREUD EXPLICA - Me lembrei de um dos textos de Freud que lemos durante uma disciplina do curso de Letras. Freud explica num texto de 1919 "Das unheimlich" (o estranho, o inquietante) de onde vem essa questão das crenças que criamos a partir de acontecimentos "estranhos", coincidências e outras casualidades que nos levam à necessidade de buscar uma explicação para além da compreensão que temos dos fenômenos até aquele momento. 

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DIÁRIO: 26 de novembro de 2021. (Brasil de Temer, Bolsonaro, Mourão, Moro, Dória, Ciro, Mandetta, Merval et caterva)

Além de Freud, outra linha de pensamentos que nos ajuda a compreender por que e como as coisas acontecem nas sociedades humanas é o materialismo científico ou histórico, ciência filosófica que tem em Karl Marx e Friedrich Angels dois pilares importantes.

Estamos sob uma crise sanitária mundial, uma pandemia causada por um tipo de vírus, o coronavírus Sars-Cov-2 (Covid-19), que acentuou de forma exponencial os efeitos da atual crise do sistema capitalista. 

O 1% ficou mais rico e dono de tudo e os 99% ficaram mais miseráveis e sem nada. A escravidão legal voltou com outros nomes - uberização, terceirização, empreendedorismo, pejotização etc. A destruição do planeta e das formas de vidas se acelera, mas os caras do 1% não estão nem aí. Acham que a vida acaba depois da vez deles viverem, então pensam: fodam-se os outros.

Medidas de contenção ao avanço do vírus foram definidas. Certas sociedades e políticas de Estado seguiram as medidas, outras não. Milhões de pessoas morreram (mais onde não se seguiram as medidas). Vacinas foram criadas. A pandemia não acabou. Novas ondas estão pipocando por aí. Novas cepas e variantes vêm aí. A "B.1.1.529" (Ômicron) pode escapar aos efeitos das vacinas... A Delta, mais contagiosa, chegou chegando e dominou o mundo. Agora é a vez da B.1.1.529...

No Brasil de Bolsonaro e do bolsonarismo disfarçado de mercado, morismo, tucanalha, conservadorismo, liberalismo, neopentecostalismo et caterva já está dado que não haverá medidas de contenção da pandemia. O vírus é estratégico para o regime no poder, como já falei aqui zilhões de vezes. Autoridades do regime no poder defendem que não haja nenhum controle na chegada do vírus com cepas novas. Vamos conviver com ele. (provavelmente "vamos conmorrer com ele")

Estamos fodidos. Sobrevivemos até aqui, mas as expectativas de vida de nós todos brasileiros e brasileiras é bem menor que antes do golpe de 2016. É isso. Estamos vivos hoje. Na minha opinião, isso tudo não tem nada que ver com deuses, demônios, Providência, Fortuna, Fatalidade e outras deusas e deuses.

Quando comecei a leitura do Decamerão (1353) - de Boccaccio, no início da pandemia de Covid-19, lá em março de 2020, torcia diariamente para sobreviver até o fim da leitura das 100 narrativas do século XIV. Agora torço para sobreviver para ler a longa narrativa de Robinson Crusoé (1719), feita por Defoe lá no início do século XVIII. A leitura, se lida até o fim, vai durar a próxima onda de Covid-19, se houver.

As condições de vida são aquelas reais que conhecemos, mas vamos brincar de torcer para que a Providência esteja do nosso lado nesta empreitada de leitura.

William


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Diários com Machado de Assis (XI)



Refeição Cultural

Osasco, 23 de novembro de 2021. (6º ano do golpe de Estado, 3º ano de destruição e mortes sob Bolsonaro, 2º ano de Covid-19)


As notícias sobre o Brasil e as condições do povo brasileiro são tão ruins neste momento que seria meio fora de lugar tentar listar um recorte de desgraças num texto no qual vou registrar reflexões que nos vêm a mente a partir da leitura de Machado ou sobre Machado de Assis.

Vou passar um bom tempo lendo lentamente o livro de Hélio de Seixas Guimarães sobre Os leitores de Machado de Assis (2004). É leitura para cutucar e provocar reflexões em pessoas que têm interesse na história da leitura e da literatura em nosso país, inclusive para além de Machado de Assis.

Nossa destruição foi tão grande após o golpe de Estado de 2016, perpetrado pela casa-grande brasileira, que são incalculáveis os níveis de regressão em todas as áreas que se possa imaginar que existam para se avaliar alguma coisa positiva sobre o desenvolvimento humano e social.

No século de Machado, século XIX, praticamente não havia leitores no país, porque o povo do país era analfabeto total ou analfabeto funcional. Éramos uma multidão de escravos, escravos alforriados, mestiços, agregados e jagunços, tinha uma multidão de brancos como eu, inclusive como o personagem Candinho do conto "Pai contra Mãe" (ler aqui), publicado no fim da vida do Bruxo do Cosme Velho. Brancos sem posses, sem renda, sem ter o que comer e na necessidade de fazer algo para a casa-grande para sobreviver.

Vivíamos sob o poder do patriarcado de uma pequena parcela de brancos ou mestiços oriundos de descendência de europeus (criollos como eram chamados na América espanhola). Ou brancos e mestiços que se arranjaram com o poder desse 1% e passaram a ser aquilo que Jessé Souza chama de "A elite do atraso". Essa gente que não faz parte da casa-grande mas que acha que faz, sendo o grupo que prefere a morte e vende até a mãe para não se sentir misturado com o povão, na verdade os 99%.

Após o golpe de 2016 tudo terá que ser refeito, inventado no Brasil, golpe que talvez fique registrado na história do Brasil ou o que sobrar dele como o pior golpe dentre os vários que ocorreram aqui ao longo de dois séculos de rearranjos dessa pequena elite branca sem cultura, sem compaixão, sem ética e corrupta até os ossos, sem apego algum ao que chamamos Brasil.

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PRETOS DE RENDA E ENTREGADOR@S DE APLICATIVOS, ONTEM E HOJE

Será que estamos em XXI pós golpe de 2016 numa condição melhor de leitores e circulação de livros do que estávamos na segunda metade do século XIX?

No início do capítulo 1 do livro de Hélio de Seixas nos é apresentada a condição na qual se dava a produção de livros e literatura no Brasil colonial e imperial. Eram poucos os leitores, eram poucos os editores, eram poucos os distribuidores. Usavam-se escravos para vender livros junto a frutas e bugigangas nas cestas pelas ruas. 

Com o golpe da burguesia e a "república" nada mudou para o povo preto e aquele povo mestiço que citei acima, nós.

E hoje?

Ah, temos a rede mundial e virtual, a internet e tudo é feito de forma facilitada e com entrega por motoboys e motogirls... 

OPINIÃO: na minha opinião, o ser humano que trabalha para os aplicativos de alguns bilionários, sem direito algum, é o atual "preto de balaio no braço a vender romances", que li no texto de Guimarães.

O Brasil tem mais de 100.000.000 de pessoas que não sabem se vão comer hoje, amanhã e nos dias seguintes.

O Brasil tem um genocida miliciano no governo que tem como único objetivo de governo destruir tudo que havia sido construído pelo povo brasileiro ao longo do século. Exemplo: programa Bolsa Família.

Há um incentivo à ignorância, à mentira, incentivo a negar tudo que a cultura humana construiu nos últimos milhares de anos. Viva a ignorância, viva o ódio, viva a violência!

É isso. Cada pessoa avalie se estamos numa condição de produção de literatura e cultura e de leitores melhor ou pior que no passado.

William


Post Scriptum: agora preciso retomar a leitura do clássico da literatura mundial que comecei dia desses: As aventuras de Robinson Crusoé, de Daniel Defoe. Sabiam que o personagem esteve no Brasil no século XVII, era um branco inglês se dando bem como produtor de cana-de-açúcar e tabaco até que resolveu aceitar uma viagem de navio para trazer mais escravos africanos da Guiné? Naufragou e se f...


GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no século 19. São Paulo: Nankin Editorial: Edusp, 2004.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Leitura - Robinson Crusoé (II) - Daniel Defoe



Refeitório Cultural

Estou no início das aventuras de Robinson Crusoé. Li os 3 primeiros capítulos e vou ler agora o 4º. Já sei quem é o personagem. Um jovem filho de classe média, nascido em 1632 em York, interior da Inglaterra. Seus pais queriam que ele tivesse uma vida tranquila dando sequência aos negócios da família. Mas ele tinha um impulso incontrolável de sair pelo mundo através dos mares.

Engraçado... eu tenho um impulso incontrolável de escrever o nome do personagem como "Cruzoé"... vai entender! Talvez seja porque o nome dele de família em seu condado seja Robinson Kreutznaer, como ele mesmo explica no começo "mas por corrupção de vocábulo, muito usual na Inglaterra, chamam-nos Crusoé...".

Ele saiu de casa se aventurando ao mar com 19 anos e desde que se lançou ao mar as coisas só dão errado. Quase morreu na primeira saída, mas conseguiu chegar a Londres após o naufrágio do navio em que estava. De Londres, partiu em outro navio para Guiné. Foi feito escravo por piratas. Ao conseguir fugir, começou a se dar bem no Brasil, sim!, no Brasil colônia do século XVII. Foi ser plantador de cana-de-açúcar e tabaco, com direito a escravos.

Após virar proprietário de terras - já fazia 8 anos que havia saído jovem da Inglaterra - tinha tudo para prosperar no Brasil, agora com 27 anos, mas... se aventura de novo em navio ao aceitar uma proposta de ir buscar escravos na África e... o navio afunda e todos morrem, menos ele, que chega a um lugar ainda desconhecido.

É nesse ponto que retomo a leitura e o 4º capítulo.

Depois completo esta postagem com o que veio de novidade na vida desse personagem cuja Providência só age em desfavor do indivíduo. Segundo ele mesmo, ora a Providência, ora o azar e a casualidade agem contra ele.

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CAPÍTULO IV

Robinson Crusoé dormiu em cima de uma árvore, por medo de ser devorado por alguma fera. Ao acordar, passou a se inteirar do local onde estava. Era uma ilha e pelo que pôde perceber, estava sozinho nela.

O navio naufragado estava lá no monte de areia. Crusoé nadou até a embarcação e passou a resgatar para a ilha tudo que fosse possível e útil pra ele. Alimentos, armas, ferramentas, roupas etc. Após o resgate, uma tempestade seguinte desapareceu com os destroços do navio.

Em terra, a preocupação do náufrago foi construir um abrigo que o protegesse de homens e de feras. Construiu quase uma fortaleza. E tudo isso, sozinho ao longo do tempo.

Tem um momento no qual Crusoé encontra dinheiro na cabine do capitão do navio e ele reflete sobre a inutilidade daquilo ali onde está. Me lembrei de uma camiseta que usava quando era jovem com uns dizeres em defesa da natureza: que o homem só iria perceber a cagada que fez quando visse que não seria possível comer dinheiro, ao não ter mais água, plantas e animais.

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"A vista do dinheiro fez-me sorrir e provocou-me esta apóstrofe:

- Oh! vaidade das vaidades, metal embusteiro, tens atualmente aos meus olhos um preço vil. Para que me serves? Na verdade, nem vale a pena estender o braço para te apanhar! Uma só destas facas é mais apreciável que os tesouros de Creso. Dispenso a tua inútil intervenção; fica por isso onde está, ou melhor, vai para o fundo do mar como indigno que és de ver a luz do dia!" (p. 62)

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(mas se arrependeu a tempo e levou o dinheiro para terra firme rsrs)

Nosso personagem segue alternando momentos nos quais ora culpa a Providência pelas desgraças que lhe acontecem (por desobedecer aos pais, por exemplo), ora o acaso e a sorte, incontroláveis e responsáveis por eventos não previsíveis ou sem motivações causais do tipo "punição" a ações humanas.

"(...) e às vezes deplorava também comigo mesmo que a Providência determinasse assim a ruína de uma sua criatura, negando-lhe qualquer socorro, calcando-o com a sua mão e inutilizando-o tão completamente, que lhe eliminava da alma o sentimento da gratidão." (p. 67)

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O narrador Crusoé se explica ao leitor de suas memórias:

"Agora, visto que devo expor em cena, à face dos leitores, a representação de uma existência triste e melancólica, como não houve outra ainda neste mundo, vou fazer uma espécie de razão de ordem desde o princípio, para a continuar com mais regularidade." (p. 68)

Ele nos conta, então, que colocou um grande poste na praia com o seguinte registro:

"CHEGUEI A ESTA ILHA EM 30 DE SETEMBRO DE 1659"

No inventário das coisas de Crusoé, soubemos também dos seus pertences de cultura:

"De tudo lancei mão a esmo, sem me dar o trabalho de examinar se teriam ou não algum préstimo. Achei mais três esplêndidas Bíblias que tinha recebido no Brasil juntamente com os artigos que me expediram da Inglaterra, e que na ocasião dessa minha viagem meti dentro da minha roupa no baú, além de alguns livros portugueses, entre outros dois ou três de orações segundo o rito católico romano; e muitos ainda que tive o cuidado de conservar." (p. 69)

UM CÃO COMO COMPANHEIRO FIEL

"Havia a bordo três gatas e um cão, cuja história famosa deve ter o seu lugar nesta para lhe dar relevo. As gatas trouxe-as comigo; o cão, esse saltou do navio para o mar, e veio procurar-me em terra no dia seguinte àquele em que transportei a primeira carga. Foi durante muitos anos o meu serviçal zeloso e companheiro fiel; ia buscar todas as coisas de que era capaz; empregou as aptidões e finuras do instinto em fazer-me boa companhia; a única coisa que não pude conseguir dele, apesar de muito a desejar, foi que aprendesse a falar." (p. 69/70)

Para finalizar o capítulo IV, repleto de informações, soubemos que a construção de sua fortaleza levou mais de um ano para ser concluída. 

Ele traçou um quadro comparativo baseado na razão, segundo ele, para que pudesse seguir adiante quando lembrasse seus infortúnios. O quadro se dividia: em uma coluna "O MAL", na outra "O BEM". De um lado a informação negativa, do outro a positiva, do tipo: "Estou numa ilha horrorosa" e do outro "mas estou vivo" etc.

POR FIM, UM DIÁRIO...

"Principiei então a fazer um diário de todas as ocorrências - entretenimento que não pude encetar mais cedo, atormentado como estava, não tanto pelo trabalho, mas pelas canseiras do espírito; se o tivesse feito nessa conjuntura e com as piores disposições, sairia com certeza recheado de conceitos e incidentes sem graça e insípidos, como os que vou referir." P. 74)

A seguir ele cita momentos de desespero vividos por ele no começo de sua estadia na ilha. Gritava estar perdido, chorava e chorava etc.

Faz então seu pacto com o leitor a partir daquele momento:

"O princípio há de parecer fastidioso aos leitores, que até agora têm me acompanhado; mas a exatidão força-me a repetir algumas particularidades, que já ficam relatadas." (p. 74)

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É isso, leitor William. É isso, leitores do blog do William. Agora, vamos seguir com os diários de Robinson Crusoé...

William


(ver aqui a postagem anterior)


Bibliografia:

DEFOE, Daniel. As aventuras de Robinson Crusoé. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.