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domingo, 31 de março de 2024

Leituras Capitais - Anistia de novo, não!



Refeição Cultural - CartaCapital nº 1303

Osasco, 31 de março de 2024. Domingo.


ANISTIA DE NOVO, NÃO

Depois de semanas sem conseguir ler uma revista inteira, li a edição 1303 de CartaCapital. Reportagens e artigos excelentes, como sempre!

A matéria de capa me faz ter a leitura pessoal que haverá o inverso do que se clama, ou seja, os golpistas maiores - os fdp de sempre - ficarão impunes, serão anistiados... 

Essa história de se escolher uns três ou quatro desgraçados para serem sacrificados para aliviarem a pressão pelas merdas já feitas da casa-grande e esquecer o que centenas de fdp fizeram e fazem e farão sempre em relação a novos golpes e novos processos de ferrarem com o país e o povo já deu pra minha paciência! Já deu!

Na minha opinião, a gente tinha que entender que o tempo de conciliação de classe acabou! Acabou! Agora a fase é outra no mundo, no capitalismo. A fase é do 1% nos eliminar! Caralho, vamos seguir permitindo isso sem reagir? Vamos seguir na base de nossos corpos versus as balas e bombas deles?

DIREITOS DEVEM SER DEFENDIDOS

O artigo do advogado e professor Pedro Serrano mexeu tanto comigo que me deu o mote para um longo artigo sobre a luta por direitos, que não são coisas naturais e sim criação humana e por isso precisam ser defendidos. Meu artigo é também um desabafo, mas paciência! (ler artigo aqui)

MORTE DOS CORAIS NOS OCEANOS

A matéria sobre a emergência climática e a consequente morte dos corais nos oceanos por causa do aquecimento de 1 a 2ºC das águas marinhas (já subiu 1,2ºC) é daquelas de fazer o comportamento humano ou desistir das lutas e ligar o foda-se ou ficar desesperado para fazer alguma coisa para interromper e reverter o processo.

LUTA PELA ÁGUA E COMIDA NO MUNDO

A matéria seguinte "Cuidado compartilhado" (p. 30/31) aborda o tema das reservas e ambientes no mundo que podem ser motivo de disputas violentas entre países e corporações ou podem ser motivo de se criarem e fortalecerem instituições multilaterais para um convívio pacífico entre os povos do mundo...

Pelo andar da carruagem, estamos ferrados... a realidade demonstra que a ONU e as instituições criadas para processos de convivência em paz após a 2ª GM perderam o poder de interceder e agora o que vigora é a força e as armas e a violência dos impérios...

ECONOMIA

As matérias da seção de economia estão excelentes.

O Brasil só não se ferrou mais ainda com os efeitos climáticos porque o governo Lula (PT) está reconstruindo os estoques reguladores de comida, o que ajuda no controle da inflação dos alimentos. Mas não tem muito efeito nos hortifrutis, que precisam ser descentralizados na produção por todo o país.

O artigo de Paulo Nogueira Batista Jr. - "O Brasil e o jardim Europa" - é daqueles que nos assustam porque ele que é alguém que está sempre ao lado do governo Lula se mostra inconformado com a sandice de se manter o desejo de concluir o acordo ruim UE-Mercosul, onde só quem ganha é a Europa com sua visão neoliberal e neocolonial de mundo. Eles são o jardim do mundo e o resto do mundo é a selva, segundo o negociador da União Europeia.

Por fim, excelente estudo - "Para o bolso dos patrões" (p. 38) - que mostra que o país e o povo só se ferraram com as desonerações para os 17 setores de empresários que ficam mais bilionários enquanto a previdência pública empobrece e os empregos diminuem nos setores beneficiados. Que merda!

NOSSO MUNDO

Seção que adoro! Nesta edição, enquanto eu lia sobre a vitória de Putin na Rússia, via pela imprensa o massacre que fizeram lá após a vitória do novo czar. O atentado terrorista deve ter dedo de muita gente da disputa global de hegemonia...

Duas matérias que abordam os EUA - sobre o TikTok e sobre as eleições - relembram o que a gente já sabe a respeito dos Estados Unidos... ai ai ai! Façam o que eu mando e não questionem o que eu faço...

PLURAL

As reportagens da seção de cultura me fizeram pegar Shakespeare pra ler. Estou terminando "Ricardo III" por causa da matéria "Rei morto, rei ressuscitado" à página 50.

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Enfim, é sempre bom ler a revista semanal liderada pelo Mino Carta. É um excelente resumo escolhido pela redação da revista.

William

(agora vamos para a Marcha do Silêncio me somar às pessoas que lutam pela justiça e pela memória brasileira para que a ditadura nunca mais volte e para reforçar nosso clamor contra anistia aos golpistas do passado e do presente)


Post Scriptum: comentários sobre leitura da revista CartaCapital (a nº 1293) podem ser lidos aqui.


segunda-feira, 26 de junho de 2023

53. A megera domada - William Shakespeare



Refeição Cultural - Cem Clássicos

Osasco, 26 de junho de 2023. Segunda-feira.


Entre ontem e hoje li mais uma peça de William Shakespeare - A megera domada (1594), em inglês "The taming of the Shrew". Não gostei da estória. No entanto, li mais um clássico. Novo conhecimento...

Pelo que vi num pequeno texto de apresentação do autor inglês - "Vida e obra" -, texto de uma coleção da Nova Cultural com dezenas de obras-primas da literatura universal:

"A obra de Shakespeare é dividida em quatro períodos: o primeiro, até 1594; o segundo, de 1594 a 1600; o terceiro, de 1600 a 1608; e o quarto, após 1608. Ao longo desse tempo o estilo de Shakespeare evoluiu da retórica barroca ao lirismo despojado." 

Após ler essa segunda peça da coletânea que adquiri com 27 obras, fiquei pensando a respeito da qualidade das obras do autor inglês. As 4 tragédias que já li são fantásticas! Falo de Hamlet, Romeu e Julieta, MacBeth e Otelo, o mouro de Veneza

Talvez as peças dramáticas mais famosas sejam o ápice do dramaturgo, algo normal que se conheça o que de melhor ele tenha produzido. 

Dias atrás, quando li A comédia dos erros (comentário aqui), uma das primeiras de Shakespeare, até gostei da trama, e relevei o forte machismo e preconceito de época.

O texto da Nova Cultural diz ainda sobre essa primeira fase:

"O primeiro período foi caracterizado, até certo ponto, pela construção formal e versos estilizados. Estava em voga na época o gênero de peça histórica, e Shakespeare escreveu os afrescos Henrique VI entre 1589 e 1592 e Ricardo III entre 1592 e 1593. Também se destacam nesse período as comédias ligeiras A comédia dos erros, de 1592, A megera domada, escrita entre 1593 e 1594, e Os dois cavalheiros de Verona, de 1594, além da tragédia Tito Andrônico, de 1593/1594."

Bom, desses citados acima, minha coletânea só não tem Henrique VI. Talvez eu leia essas peças primeiro. Acho interessante ler a obra de escritores de forma cronológica de criação e ou lançamento, pois é possível ver a evolução ou mudança do estilo ou fases do autor ou autora.

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A MEGERA DOMADA

"Tenho meios, Petrucchio, de ensejar-te uma consorte bastante rica, mui formosa e jovem, e educada no jeito de fidalga. Seu único defeito — e que defeito! — é ser intoleravelmente brava, teimosa e cabeçuda sem medida, a tal ponto que, embora meus haveres fossem menores, não a desposara por uma mina de ouro." (from: "Box Grandes Obras de Shakespeare (27 peças: Hamlet, Rei Lear, Romeu e Julieta, Otelo, O Mercador de Veneza, Sonho de uma Noite de Verão...)" by: William Shakespeare)


A peça contém 5 atos e se passa em Pádua.

No começo, achei bem interessante ver que a trama teria uma história dentro de outra história, mas no final a moldura não se completou e o dramaturgo não retomou ou finalizou da forma que iniciou o enredo.

Explico: no prólogo, um lorde volta de uma caçada e ao ver um bêbado dormindo ao relento, decide brincar com ele, mandando seus criados recolherem o sujeito e fingirem que ele acordou dum longo pesadelo onde era um ninguém e agora voltava a ser um lorde com posses, esposa e criados. O bêbado se chama Sly.

A peça que o lorde verdadeiro e o bêbado achando que era lorde assistem se chama "A megera domada". E a peça começa com os 5 atos.

A peça: duas irmãs, Catarina e Bianca, filhas de um homem de posses em Pádua - Batista -, são pretendidas em casamento. Bianca é disputada por vários pretendentes. Catarina é considerada uma jovem de difícil trato, brava até falar chega. Entre os pretendentes à mão de Bianca está Lucêncio, filho de um nobre de posses em Pisa, Vicêncio. Aí a trama se desenvolve.

Escravidão - Assim como a peça anterior que li dias atrás, o cotidiano da idade média é muito complicado para nossa consciência do século 21. A escravidão e a compra e venda de pessoas é algo comum. Além da violência nas relações hierárquicas.

Em A comédia dos erros, os irmãos gêmeos Drômio de Éfeso e Drômio de Siracusa, criados dos também gêmeos Antífolo de Éfeso e Antífolo de Siracura, foram comprados para servir aos filhos do casal de posses assim que eles nasceram.

Em A megera domada, vemos a mesma relação de poder com senhores espancando criados a todo momento.

As mulheres são coisas, compradas e negociadas da mesma forma. 

Essas primeiras peças de Shakespeare não trazem questões filosóficas ou críticas sociais como vi nas tragédias que já conheço. Essa é a minha opinião.

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LER OS CLÁSSICOS É MELHOR QUE NÃO LER OS CLÁSSICOS (CALVINO)

É isso! Com essa leitura, conheci mais uma obra de William Shakespeare. 

Sigamos lendo os clássicos. Como nos ensina Italo Calvino é melhor ler que não ler os clássicos.

Esse foi o 18º livro lido no ano.

William


Bibliografia:

SHAKESPEARE. William. As grandes obras. Capa, paginação e tradução: Mimética. Imagem da capa: John Taylor: retrato de Chandos (1610). Copyright: Mimética, 2019.

Vida e Obra: Shakespeare. Fascículo da coleção Obras-Primas da Nova Cultural.

sexta-feira, 9 de junho de 2023

52. A comédia dos erros - William Shakespeare



Refeição Cultural - Cem clássicos

Osasco, 09 de junho de 2023.


Meu conhecimento de Shakespeare se resume à leitura de quatro tragédias dele que já li em algum momento da vida: Romeu e Julieta (1592), Hamlet (1599), Otelo, o mouro de Veneza (1604) e MacBeth (1606). São peças extraordinárias! Nunca li uma comédia ou outra peça do escritor inglês.

Por não ter obras de Shakespeare em casa, acabei adquirindo por R$ 1,99 uma coletânea virtual com 27 peças teatrais do dramaturgo e poeta inglês. Como ando meio parado na leitura de obras clássicas, preciso retomar esse objetivo e, de vez em quando, intercalar um clássico entre os livros que estou lendo neste ano.

Para começar a série de peças de Shakespeare, li hoje a primeira da coletânea: A comédia dos erros (1591). Pelo que pude pesquisar, a peça é uma das primeiras feitas pelo escritor. Gostei da obra! Gostei! Ler Shakespeare é realmente uma leitura diferente do que estamos acostumados a ler.

Esta foi a 14ª obra que li neste ano. Se der, quero ler 18 até o fim do mês para ficar com uma média de 3 livros por mês.

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A COMÉDIA DOS ERROS

A peça tem 5 atos e tem como cenário a cidade de Éfeso. Siracusa é a outra cidade de referência da peça. Os personagens são originários dessas duas cidades inimigas.

O núcleo da peça envolve uma família que tem irmãos gêmeos e que se separam após um naufrágio. O destino vai se encarregar de colocar irmãos e demais personagens de seus entornos no mesmo lugar e época e a partir daí se darão os acontecimentos.

Os irmãos se chamam Antífolo de Éfeso e Antífolo de Siracusa e seus criados, gêmeos também, se chamam Drômio de Éfeso e Drômio de Siracusa.

Por que o velho mercador de Siracusa, Egeu, pai dos meninos separados pelo naufrágio, foi até Éfeso, sabendo que isso poderia lhe condenar à morte por serem inimigos os Estados e seus cidadãos serem proibidos de ir até o país uns dos outros?

"EGEU - Meu caçula, o mais velho nos cuidados, aos dezoito anos revelou desejo de procurar o irmão, tendo insistido junto de mim, para que seu criado - que, como ele, privado também fora de um irmão cujo nome ele levava - nas investigações o acompanhasse. Assim, porque sofria de saudades de meu filho perdido, pus em risco vir a perder o que ainda me restava. Cinco estios passei na extrema Grécia; vasculhei os confins da Ásia distante; e, ao costear, já de volta para a pátria, a Éfeso vim ter, sem esperança nenhuma, é certo, de poder achá-los, mas porque não deixasse inexplorado nenhum lugar capaz de abrigar homens...

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COMENTÁRIOS

A tradução da edição que tenho é boa, na minha opinião. Os textos estão numa linguagem de fácil leitura, temos frases rimadas e com bom ritmo e sonoridade.

Durante a leitura me lembrei do pobre Sancho Pança, que sempre passou maus bocados ao lado de seu cavaleiro e senhor Dom Quixote de La Mancha. Os criados de seus senhores, os irmãos Drômio, são espancados sem dó alguma... que merda isso!

Aliás, eles foram comprados já no nascimento para serem criados das crianças gêmeas nascidas, os irmãos Antífolo.

"Na mesma hora, na mesma hospedaria, uma mulher do povo de igual fardo se livrou, dando à luz dois filhos gêmeos também mui parecidos, que por serem de gente muito pobre eu comprei logo, para que a servir viessem meus dois filhos..."

A MULHER E O MACHISMO: "LUCIANA - A liberdade indócil é domada pela própria desgraça. Não há nada sob a vista do céu que não se mova num limite restrito, assim na terra como no ar e no mar. Todas as fêmeas dos animais, dos pássaros, dos peixes seguem ao macho e em tudo lhe obedecem. O homem, ser mais divino, senhor deles, dono do mundo todo, do mar vasto, que a superioridade do intelecto pôs acima de pássaros e peixes, da esposa é dono e mestre. Assim, alegre, com ele em tudo concordar te cumpre."

A peça seguiu os desfechos que conheço das tragédias que já havia lido de Shakespeare, as tensões vão aumentando e se cruzando até o clímax final. Eu me surpreendi com o final da estória. Gostei! Arrepiei!

É isso. Mais um clássico da literatura mundial.

William


Bibliografia:

SHAKESPEARE. William. As grandes obras. Capa, paginação e tradução: Mimética. Imagem da capa: John Taylor: retrato de Chandos (1610). Copyright: Mimética, 2019.


sábado, 25 de setembro de 2021

Ulysses - Ítaca (A Casa), parte II



Refeição Cultural

"O que continha a primeira gaveta destrancada?

(...) dois preservativos de borracha parcialmente desenrolados com espaço para emissão, adquiridos pelo correio na Caixa 32, C.P., Charing Cross, London, W.C. (...) 2 cartões fotográficos eróticos que mostravam: a) coito bucal entre señorita nua (vista de costas, posição superior) e torero nu (visto de frente, posição inferior): b) violação anal por figura religiosa do sexo masculino (integralmente vestido, olhar abjetado) de figura religiosa do sexo feminino (parcialmente vestida, olhos diretos), adquiridos por correio na Caixa 32, C.P., Charing Cross, Londres, W.C." (p. 1016)


Vencidas as cem páginas do capítulo 17 de Ulysses, de James Joyce. Agora faltam os fluxos de consciência de Molly Bloom, naquela madrugada de 17 de junho de 1904.

Imaginem como foi para os leitores e comunidades a recepção de Ulysses na Irlanda, na Inglaterra e nas demais partes do mundo no ano de 1922 ao lermos acima essa pequena amostra do conteúdo da obra. Interessante, não é?

Após o fim da leitura do capítulo "Ítaca" nesta manhã de sábado, vi na internet uma entrevista muito esclarecedora do professor Caetano W. Galindo, tradutor desta versão que estou lendo. Ele fala sobre James Joyce e William Shakespeare e as explicações de Galindo são imperdíveis para os amantes de literatura e dos dois autores comentados.

Apesar do cansaço que me deu neste momento de proximidade do fim da leitura, uma obra como essa vale a pena ler, vale sim. Também acho interessante e válido buscar informações a respeito da repercussão da obra ao longo do tempo. As grandes obras literárias se incorporam às culturas das sociedades humanas.

Ulysses tem uma história de leitura com a comunidade internacional após 1922 assim como O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha a tem após 1605. Idem para Moby Dick após 1851, assim como Decameron após 1353. Para mim, leitor, é um privilégio ter tido a oportunidade na vida de ler tais clássicos.

Joyce concentrou em Ulysses muitas informações do mundo, da Irlanda, da literatura de Shakespeare e da literatura clássica; e mais: religião, política, imperialismo, capitalismo, linguagem, psicologia e comportamento humano, sociedade.

UM DIA NA VIDA DE UM TRABALHADOR


A contabilidade de Bloom nos mostra um pouco a respeito do personagem e do próprio cotidiano dos cidadãos dublinenses. O que comem, como se comportam, como funciona a sociedade em que vivem.

O dia do publicitário Bloom teve contato com a morte no enterro do Dignam, e teve contato com a vida, quando passou pela maternidade do hospital; conhecemos as preferências alimentares dele; vimos que ele se banha em locais públicos; e percebe-se que o dinheiro que tem é contado, os trabalhadores vivem no limite do ter e não ter dinheiro. Vimos isso no começo da obra, quando Stephen Dedalus e amigos contaram as moedas no bolso para saber como passariam o dia.

Outro momento interessante do capítulo foi quando vimos a descrição dos livros constantes na estante de Bloom, entre eles livros de Shakespeare, Spinosa e A. Conan Doyle (p. 998). Bloom poderia ser considerado um "homem cultivado" como diz Eliade, pois tem livros de Astronomia, Geometria, Geografia, História, Psicologia, Filosofia etc.

O capítulo tem de tudo. Do nobre e sagrado ao profano e tosco. Por exemplo: Enquanto mijam na grama, Bloom e Dedalus observam uma estrela cadente (p. 992).

Enfim, agora vamos para o fechamento com Molly Bloom.

William


Post Scriptum: a postagem anterior pode ser vista aqui.


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


segunda-feira, 21 de junho de 2021

32. Hamleto - William Shakespeare



Refeição Cultural - Cem clássicos

"HAMLETO: Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer... dormir... dormir... Talvez sonhar... É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonho poderá trazer o sono da morte, quando alfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa ideia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte - terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou - que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados? De todos faz covardes a consciência. Desta arte o natural frescor de nossa resolução definha sob a máscara do pensamento, e empresas momentosas se desviam da meta diante dessas reflexões, e até o nome de ação perdem. Mas, silêncio! Aí vem vindo a bela Ofélia. Em tuas orações, ninfa, recorda-te de meus pecados." (SHAKESPEARE, Hamleto, p. 74)


Reli o clássico Hamleto, de Shakespeare, entre ontem e hoje. Foi minha terceira incursão na tragédia, escrita por volta do ano de 1600. Minha primeira leitura foi ainda na juventude, antes dos 20 anos. Depois, a li em 2005, já adulto e com maior experiência de vida. Agora a releio aos 52 anos. Que tragédia! É um grande clássico da literatura mundial.

Desta vez, a leitura foi motivada por outra leitura em andamento: Ulysses, de James Joyce. Dias atrás, li o capítulo 9 da epopeia irlandesa e parte da temática abordada no capítulo se trata de Hamlet e Shakespeare. Assim que terminei a leitura, pensei em reler o clássico shakespeareano. Ler aqui a postagem sobre a leitura de Joyce.

Essa tragédia deu origem a algumas expressões que se tornaram populares na cultura mundial. O drama do jovem príncipe Hamlet nos põe a pensar sobre a vida e a morte.

A edição que tenho foi presente de meu primo mineiro Jorge Luiz, na tradução de Carlos Alberto Nunes e com ilustrações feitas no século XIX, por John Gilbert.

Ilustração de John Gilbert. Hamleto segura
nas mãos o crânio do bobo do rei, Yorick.

Alguns textos que li sobre Shakespeare me trouxeram conhecimento novo a respeito do dramaturgo e poeta. As leituras de curiosidades se deram após ver o debate sobre o personagem Hamlet através de Stephen Dedalus, personagem de Joyce. 

Shakespeare teve três filhos, e o único filho homem - Hamnet - morreu aos 11 anos de idade. Alguns críticos dizem que as tragédias do dramaturgo ficaram muito mais intensas após isso. No Ulysses, de Joyce, o personagem principal, Leopold Bloom, também padeceu dessa dor indescritível, perder o único filho homem - Rudy -, que no dia em que se passa a estória, teria também 11 anos de idade.

Muitos estudiosos e críticos associam a semelhança entre o nome do filho morto de Shakespeare (Hamnet) ao nome do personagem principal da tragédia (Hamlet).

Algumas passagens de Hamleto são por demais fantásticas, a do "ser ou não ser", a do crânio do bobo da corte durante a passagem de Hamleto pelo cemitério, dentre outras. Veja alguns excertos abaixo:

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"HAMLETO: Recebamo-lo, então, como a estrangeiro. Há muita coisa mais no céu e na terra, Horácio, do que sonha a nossa pobre filosofia." (p. 46)

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"POLÔNIO: (...) Vou falar-lhe outra vez. Que é que o meu príncipe está lendo?

HAMLETO: Palavras, palavras, palavras..." (p. 58)

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"HAMLETO: Pode-se pescar com um verme que haja comido de um rei, e comer o peixe que se alimentou desse verme.

O REI: Que queres dizer com isso?

HAMLETO: Nada; apenas mostrar-vos como um rei pode fazer um passeio pelos intestinos de um mendigo." (p. 107)

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"HAMLETO: Deixa-me vê-lo. (toma o crânio.) Pobre Yorick! Conheci-o, Horácio. Um sujeito de chistes inesgotáveis e de uma fantasia soberba. Carregou-me inúmeras vezes às costas. E agora, como me atemoriza a imaginação! Sinto engulhos. Era aqui que se encontravam os lábios que eu beijei não sei quantas vezes. Onde estão agora os chistes, as cabriolas, as canções, os rasgos de alegria que faziam explodir a mesa em gargalhadas? Não sobrou uma ao menos, para rir de tua própria careta? Tudo descarnado! Vai agora aos aposentos da senhora e dize-lhe que embora se retoque com uma camada de um dedo de espessura, algum dia ficará deste jeito. Faze-a rir com semelhante pilhéria. Dize-me uma coisa, Horácio, por obséquio.

HORÁCIO: Que é, príncipe?

HAMLETO: Acreditas que Alexandre, depois de enterrado, tivesse esse mesmo aspecto?

HORÁCIO: Igual, igual, príncipe.

HAMLETO: E este cheiro? Puá!!

                  (joga o crânio.)"

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É isso. Mais um clássico relido.

Eu sei que deveria focar na leitura das dezenas de clássicos que ainda não li (o tempo de minha vida está escorrendo pelas bordas da terra plana na qual me peguei após o golpe de Estado no Brasil e as mortes severinas ficam nos cercando nos dias que correm), mas não tem jeito. Às vezes, temos que reler clássicos que já vimos muito tempo atrás. Até porque somos outra pessoa, o mundo é outro, o contexto idem e até a leitura coletiva da obra é outra.

Abraços aos leitores e leitoras.

William


Bibliografia:

SHAKESPEARE, William. Hamleto. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Coleção Universidade de Bolso. Ediouro/10983.


quinta-feira, 17 de junho de 2021

Ulysses - Cila e Caríbdis (A Biblioteca)



Refeição Cultural

"- Os nossos jovens bardos irlandeses, John Eglinton censurou, ainda têm que criar uma figura que o mundo ponha lado a lado com o Hamlet do saxão Shakespeare embora eu o admire, como o velho Ben admirava, sem chegar à idolatria" (p. 337)

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"- Os mestres primeiro foram aprendizes, Stephen disse ultraeducadamente. Aristóteles foi um dia o aprendiz de Platão." (p. 338)

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"    Hamlet, sou o espírito de teu pai

pedindo que escute. A um filho se dirige, o filho da sua alma, o príncipe, o jovem Hamlet e ao filho do seu corpo, Hamnet Shakespeare, que morreu em Stratford para que seu outro pudesse viver para sempre." (p. 342)

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"Poderá qualquer homem amar a filha se não amou a mãe? (p. 352)

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"- Pode ser também, Stephen disse. Há uma frase de Goethe que o senhor Magee gosta de citar. Cuidado com o que deseja na sua juventude porque você vai obtê-lo quando maduro." (p. 353)

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"Ele Que a Si próprio gerou, por intermediário o Espírito Santo, e Ele mesmo mandou a Si mesmo, Agenbuyer, entre Si próprio e os outros, Que rebaixado por Seus inimigos, desnudado e verberado, foi pregado qual morcego à porta do celeiro, morreu de fome à arvore-cruz, Que deixou-se enterrar, levantou, devastou o inferno, vagou aos céus e lá por estes mil e novecentos anos senta-se à direita de Sua Própria Pessoa mas contudo virá no último dia para danar os vivos e os mortos quando todos os vivos hão já de estar mortos.

        Glo-o-ri-a in ex-cel-sis De-o" (p. 354)

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"(...) Mas sabemos por alta autoridade que os piores inimigos de um homem serão os da sua própria casa e da sua própria família." (p. 366)

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"(...) O que há em um nome? Isso é o que nos perguntamos na infância quando escrevemos o nome que nos dizem ser o nosso." (p. 370)


Este capítulo de Ulysses, o capítulo 9, que se passa na biblioteca, nos apresenta Stephen Dedalus e demais personagens conversando a respeito da vida e obra de William Shakespeare. Eles falam principalmente a respeito de Hamlet.

A obra de James Joyce é toda permeada de intertextualidades e referências a outras obras literárias, principalmente a Odisseia, de Homero.

Shakespeare foi casado com Anne Hathaway e eles tiveram três filhos. A morte de seu filho homem, Hamnet, aos 11 anos de idade, abalou profundamente o poeta e dramaturgo inglês.

Dedalus desenvolve sua tese sobre Shakespeare e Hamlet neste capítulo. Lá no primeiro capítulo, ouvimos a respeito:

"- Qual é a sua ideia sobre o Hamlet? Haines perguntou a Stephen.

(...)

- Bah! Buck Mulligan disse. Nós já deixamos Wilde e os paradoxos pra trás. É bem simples. Ele prova algebricamente que o neto de Hamlet é avô de Shakespeare e que ele mesmo é o fantasma do próprio pai." (p. 116)

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Venci a leitura de mais um capítulo de Ulysses.

Post Scriptum: ainda curioso sobre Hamnet, o filho de Shakespeare, fui ler a história sobre ele. As coisas não são coincidência em uma obra literária. Não são. Aprendi isso desde que estudo literatura. 

Joyce interliga tudo. O filho varão de Leopold Bloom morreu criança e ele teria 11 anos se estivesse vivo em 16 de junho de 1904 (informação na pág. 179). A mesma idade na qual morreu o filho de Shakespeare. Rudy e Hamnet. Filhos varões mortos. Difícil imaginar tamanha dor! A ausência dos filhos falecidos.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


segunda-feira, 14 de junho de 2021

31. Romeu e Julieta - William Shakespeare



Refeição Cultural - Cem clássicos

"Ama - Seu nome é Romeu, e é um Montéquio: filho único de seu grande inimigo.
Julieta - Meu único amor, nascido de meu único ódio! Cedo demais o vi, ignorando-lhe o nome, e tarde demais fiquei sabendo quem é. Monstruoso para mim é o nascedouro desse amor, que me faz amar tão odiado inimigo.
" (p. 43)


Eu havia lido Romeu e Julieta em 2005. Fiquei impactado pela obra na época. Antes dessa tragédia shakespeariana, já tinha lido Hamlet e Otelo, o mouro de Veneza. E depois ainda li Macbeth. Reli a história dos jovens Montéquio e Capuleto neste domingo. Meu sentimento em relação à obra neste momento de leitura foi de tristeza.

Eu poderia dizer que Romeu e Julieta não se trata de uma trama de amor, se trata de uma estória de ódio, de como o ódio domina e destrói tudo ao redor. É uma tragédia triste demais, mas é uma temática por demais atual, haja vista que a base da destruição das relações humanas no Brasil e dos direitos sociais após o golpe de 2016 é a manipulação das pessoas através do estímulo ao ódio e daí se vai às demais consequências após as pessoas terem se transformado em bichos-feras, em zumbis sem capacidade de pensamento e racionalidade.

A tragédia começa e termina com pessoas brigando e se matando porque são da parte dos Montéquio ou dos Capuleto. Até os deuses estão de saco cheio de tanto ódio de parte a parte e decidem dar uma lição nas famílias destacando o "destino" para colocar um ponto final nas desavenças na cidade com perdas terríveis para todos: as duas famílias e até a família do rei.

"Julieta - É só teu nome que é meu inimigo. Mas tu és tu mesmo, não um Montéquio. E o que é um Montéquio? Não é mão, nem pé, nem braço, nem rosto, nem qualquer outra parte de um homem. Ah, se fosses algum outro nome! O que significa um nome? Aquilo a que chamamos rosa, com qualquer outro nome teria o mesmo e doce perfume. E Romeu também, mesmo que não se chamasse Romeu, ainda assim teria a mesma amada perfeição que lhe é própria, sem esse título. Romeu, livra-te de teu nome; em troca dele, que não é parte de ti, toma-me inteira para ti." (p. 48)

Muito boa essa reflexão da personagem Julieta.

Eu me lembrei do magnífico texto de Rubem Alves sobre o nome (ler aqui). Nós usávamos esse texto nos cursos de formação que fazíamos na confederação dos bancários. Os nomes às vezes podem nos aprisionar ou podem servir para gerar falsas expectativas nos outros, ou ainda, podem nos fechar portas e oportunidades, como no caso do ódio entre os Montéquio e os Capuleto.


EXÍLIO

"Romeu - Exílio! Por misericórdia, diga morte, pois o banimento carrega muito mais terror em seu olhar do que a morte. Não diga exílio.
Frei Lourenço - Desde agora está banido de Verona. Sê paciente, pois o mundo é vasto, é amplo.
Romeu - Não há mundo fora dos muros de Verona, mas sim o purgatório, a tortura, o próprio inferno. Ser daqui banido é o mesmo que ser banido do mundo, e exílio do mundo é a morte. Estar exilado é mero eufemismo para estar morto. Quando o senhor chama a morte de exílio, está decapitando-me com machado de ouro, e o senhor carrega um sorriso no rosto quando o seu golpe me assassina.
" (p. 87)


Uma questão muito em voga por causa da tomada do país pela banalidade do mal após o golpe de Estado e a ascensão da máfia e das milícias ao poder e a desilusão que tem pautado a vida e a morte do povo brasileiro é o exílio, o ir-se daqui. Mesmo estando no século XXI das facilidades tecnológicas do mundo virtual, exílio não é qualquer coisa simples.

Eu particularmente acho algo muito complicado essa questão de exílio, de ir embora daqui, sair do Brasil. Além de não me ver morando em outro país, tem a questão de encarar a tristeza da destruição de nosso mundo por parte do bolsonarismo como algo irreversível. Essa gente pestilenta que chegou ao poder e dominou as instituições do país deve ser retirada de lá e jogada no lixo da história. Temos que recuperar o que é nosso e não podemos desistir do Brasil.


NINGUÉM SENTE A DOR DO OUTRO

"Romeu - O senhor não pode falar daquilo que não sente. Fosse jovem como eu, fosse Julieta o seu amor, estivesse o senhor recém-casado e Teobaldo morto, o senhor louco de paixão como eu e como eu banido, então sim, poderia falar, então sim, poderia arrancar os cabelos e deixar-se cair no chão, como faço eu agora, para ter as medidas de uma sepultura que só falta ser cavada." (p. 89)


Muitos intelectuais discutem essa questão da impossibilidade de se colocar no lugar do outro e de descrever a dor do outro. Muitas vezes é melhor dizer que a dor existe, mas não tentar explicar ou descrever o que os outros sentem.


AS MULHERES TRATADAS COMO COISAS

"Capuleto - (...) Sê minha filha, e entrego-te ao meu amigo; caso contrário, enforca-te, pede esmolas, passa fome, morre nas ruas, pois, pela minha alma, não mais te reconhecerei como minha filha, e nada do que é meu passará para teu usufruto. Pensa bem, reflete, que sou homem de palavra e não volto atrás." (p. 102)


Tem uma frase de Julieta, dita em um dos momentos mais dramáticos da tragédia, que achei muito forte, muito dura:

"Se nada funcionar, tenho a capacidade de morrer" (Julieta, p. 104)

Que foda!


O PIOR VENENO

"Romeu - Aqui está o seu ouro, o pior veneno para a alma humana, o que comete mais assassinatos neste mundo detestável - mais que esses pobres compostos que o senhor está impedido de vender. Sou eu quem estou lhe vendendo veneno; o senhor não me vendeu nenhum. Adeus. Compre comida, e acrescente carnes a esse seu esqueleto. - Venha, licor estimulante. Não és veneno. Vamos até à sepultura de Julieta, pois é lá que devo te usar." (p. 126)


O "DESTINO" DECIDIU

O frei mandou um mensageiro levar uma carta a Romeu, em Mântua, mas o mensageiro sequer conseguiu sair de Verona por causa de uma quarentena de uma peste. Com isso, Romeu veio atrás de Julieta, pois recebera a notícia de sua morte e enterro. Mas o amante não sabia das articulações entre o Frei Lourenço e Julieta e os desencontros se mostraram fatais.

"Príncipe - (...) Onde estão os inimigos? - Capuleto! - Montéquio! - Vejam que maldição recaiu sobre o ódio de vocês, que até mesmo os céus encontraram meios de matar, com amor, as vossas alegrias! E eu, por fechar meus olhos às vossas discórdias, também perdi dois de minha família. Fomos todos punidos." (p. 139)

É isso! Mais um clássico relido.

William 


Bibliografia:

SHAKESPEARE, William. Romeu e Julieta. In: Tragédias. Tradução: Beatriz Viégas-Faria. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2003.


domingo, 2 de dezembro de 2018

Livro: Otelo, de Shakespeare - Entendam o poder da manipulação!




Refeição Cultural

"- Continua agindo, minha medicação, continua agindo! Assim mesmo é que os tolos crédulos são apanhados."

(Do personagem Iago: "medicação" seria o ato de manipular e envenenar as pessoas com suas tramas e maledicências, em Otelo, o mouro de Veneza, de Shakespeare)


Acordei neste domingo pela manhã com o desejo de ler algo de fôlego, um romance ou algum conto. Após flertar com alguns livros e textos para escolher qual seria o autor e o tema a dedicar meu tempo e minha energia, escolhi o inglês William Shakespeare.

Amig@s leitores, que escolha perfeita para o momento que vivemos no Brasil e no mundo ao reler o clássico Otelo, o mouro de Veneza, escrito há mais de 4 séculos.

Às vezes nos pegamos sem rumo, sem eira nem beira, sem entender o porquê das coisas na sociedade humana serem como são. Muitas pessoas com algum grau de consciência política e engajamento social se sentem perplexas com o atual quadro de degeneração política e ética que vivemos no Brasil, não é verdade?

Então, abram esta tragédia de Shakespeare e leiam ela! Vocês vão entender por que estamos onde estamos. É por causa de nós mesmos, os humanos e seus comportamentos.

Sei que não posso mais me alongar nos artigos (os leitores não leem se ele for "grande"), mas só para dar um pequeno histórico de minha relação com esta tragédia de Shakespeare, vejam como nos conhecemos:

Em 2005, eu estava lendo a fantástica obra de Dostoiévski - Os irmãos Karamázov - quando no meio da história me aparece a referência ao "ciúme de Otelo".

Amig@s, fiquei p. da vida de não saber o que era o ciúme de Otelo. Eu fechei o livro, fui até a estante e peguei Shakespeare na hora e comecei a ler Otelo. Terminada a leitura, eu sabia sobre o "ciúme de Otelo" e voltei para Dostoiévski.

Em dezembro de 2011, li novamente esta tragédia de Shakespeare. Não me lembro de nenhum despertar excepcional na segunda leitura.

A leitura de clássicos da literatura mundial tem um quê de revelação, de descoberta, que nos faz absorver novos conhecimentos e novas sensações a cada releitura. Isso tem explicações: o leitor é outro a cada releitura, o contexto é outro, o momento tem influência e assim por diante.

Na leitura de hoje, fiquei exaltado, fiquei nervoso, fiquei compreendendo com raiva boa parte dos acontecimentos em relação à manipulação das pessoas ao nosso redor. Gente, o ser humano é o animal da manipulação consciente das pessoas ao seu redor. Tive também outro entendimento sobre o "ciúme de Otelo", pois o que o move a fazer o que faz é outro sentimento humano, não o ciúme.

Minha compreensão da história foi outra, a minha atenção não ficou em Otelo, não ficou em Desdêmona, mas ficou em Iago. Eu fiquei vendo as fake news, os algoritmos das redes sociais, vi meus familiares que não são fascistas, como dizem os estudiosos, mas que foram envenenados por mentiras e manipulações e ninguém consegue fazê-los sair desse ódio engendrado em suas vidas atuais, de forma que as pessoas não conseguem mais ver com racionalidade a realidade.

Não há animais na natureza que atuam com tanta desenvoltura como os humanos para destruir as vidas dos outros animais, que enganam, manipulam, que constroem ardis em benefício próprio prejudicando uma variedade de vidas ao redor.

Chega, né? Já escrevi muito. A terceira leitura de Otelo foi uma janela de reflexão para minha própria compreensão dos homens e mulheres ao nosso redor nos tempos que correm.

Lembrei-me de uma fala de Fidel Castro que me marcou muito quando li faz uns oito anos. Ele comentava sobre momentos no cárcere em que a leitura era essencial em sua vida para que ele compreendesse melhor o mundo, a vida e os seres humanos. Tenho lido coisa parecida sobre o filósofo Sócrates.

A gente deve voltar a ler todos os dias para evoluirmos como seres humanos e assim, quem sabe, podermos ajudar o mundo a ser um lugar melhor para todos.

Abraços, William

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem...


Com minha mãezinha, com foto da família ao fundo.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem

Reflexão à luz de Drummond e Hamlet

Meu tempo atual tem sido o tempo descrito no verso tão forte do grande poeta Drummond.

A vida tem sido uma ordem, sem mistificação alguma. A minha vida tem sido assim.

Eu relaciono cada verso deste poema ao que tenho enfrentado nas últimas semanas. No passado, cada música marcava algo em minha vida. Hoje, cada verso dos poemas que gosto marca meu viver.

Ontem em uma difícil reunião política, ofereci este poema aos participantes. Era um sinal de que apesar das discussões dentro dos edifícios, a vida prossegue e as mãos seguirão tecendo o rude trabalho.

Sempre em benefício da luta pela libertação da classe trabalhadora do jugo explorador do Capital e da alienação determinada pela classe dominante.


Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


(Carlos Drummond de Andrade, em Sentimento do Mundo, 1940)


Acrescento ao poema de Drummond uma famosa reflexão de Hamlet de 1603 (Shakespeare) sobre o SER OU NÃO SER. O que ficou para a posteridade nesses séculos foi somente esta parte da reflexão.

A expressão abre uma reflexão profunda e angustiante do jovem príncipe da Dinamarca Hamlet sobre seguir vivo ou não, diante de tamanha tragédia vivida por ele. No fundo de sua dor, ele se questiona se não seria melhor o sono da morte, mas o que a morte nos traz? Ninguém de lá voltou para nos dizer. O dilema do jovem é viver... morrer...

Apresento para vocês a reflexão completa sobre o:

SER OU NÃO SER...

Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes?

Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se.

Morrer... dormir... dormir... Talvez sonhar...

É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando ao fim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos.

É essa ideia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa!

Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte – terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou – que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados?

De todos faz covardes a consciência.

Desta arte o natural frescor de nossa resolução definha sob a máscara do pensamento, e empresas momentosas se desviam da meta diante dessas reflexões, e até o nome de ação perdem.

Mas, silêncio! Aí vem vindo a bela Ofélia.

Em tuas orações, ninfa, recorda-te de meus pecados.”


COMENTÁRIO FINAL

Os dois clássicos, Drummond e Shakespeare, cada um a seu modo, põem-me a seguir diariamente acordando e saindo para a luta por meus ideais que são os de lutar por um mundo melhor, mesmo quando o meu mundo está em conflito como aquele vivido pelo jovem Hamlet.

A vida sempre prossegue, e assim deve ser para uma pessoa de ação como devemos ser todos nós, agentes da transformação.

“Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança”

É isso!


Bibliografia:

ANDRADE. Carlos Drummond. Sentimento do Mundo. Editora Record. Rio de janeiro e São Paulo. 10ª edição, 2000.
SHAKESPEARE. William. Hamleto. Coleção Universidade de Bolso. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Ediouro 10983.

domingo, 4 de dezembro de 2011

OTELO, O MOURO DE VEZENA

Tragédias, de Shakespeare
OTELO, O MOURO DE VENEZA - William Shakespeare
“O ciúme de Otelo”
Acordei neste domingo com a intenção de começar a enumerar os clássicos que já li. É por causa da minha lista de coisas a realizar, lista feita faz uns quinze anos.
Naquela época, listei que tinha o objetivo de ler cem clássicos da literatura mundial. Nunca parei para contar quantos já li.
Mas na verdade, o que pretendo fazer é escrever algo a respeito de cada obra. Pode ser uma impressão que tenha ficado na época da leitura, um aprendizado ou lição de vida. Também vale reler e ver qual a nova impressão captada por este novo velho leitor.
Então, acabei de reler “Otelo” de Shakespeare.

HISTÓRIA DE MINHA LEITURA – O ciúme de Otelo
Terminei a primeira leitura de Otelo em 8/2/05. O porquê daquela leitura é para mim inesquecível, pois foi um ato de leitura daqueles que considero ideal: o descobrimento das intertextualidades.
Eu estava lendo “Irmãos Karamázov” de Dostoiévisk quando cheguei a um momento da leitura que citou o “ciúme de Otelo”. Eu fiquei na hora indignado de minha ignorância por não ter lido a obra referida e não saber a intensidade do tal “ciúme de Otelo”.
Na hora, fechei o livro de Dostoiévisk e fui até minha estante pegar e ler a tragédia citada de Shakespeare. Li de uma sentada só e voltei aos Irmãos Karamázov sabendo exatamente - que diabos! - queria dizer “ciúme de Otelo”.

A RELEITURA
Lida a obra quase sete anos depois, digo que ela continua chocante e assustadora. Não é à toa que a peça segue sendo interpretada há quase cinco séculos. De certa forma, a obra também faz intertextualidade com “Medeia” de Eurípides. Pela temática da ira incontrolável gerada pelo ciúme e pela traição.
A tragédia se dá em cinco atos e conta a história do mouro Otelo e de sua bela esposa Desdêmona. A história se passa em Veneza e Chipre.
Pude perceber nela muito dos problemas sociais que enfrentamos na atualidade: preconceitos vários como raça, gênero, condição social.
A questão mais chocante e atemporal é a lembrança de como as pessoas podem ser manipuláveis por outras pessoas a ponto de cometerem barbaridades. Aliás, o ser humano tem a capacidade de orquestrar grandes trapaças e sacanagens para alcançar seus objetivos não se importando em prejudicar a tantos quanto forem necessários.

A TRAMA
“IAGO – E quem se atreverá a dizer que meu papel é o de vilão quando esse conselho dou de graça e de coração, um conselho bastante plausível, e, na verdade, o caminho para reconquistar o Mouro? Pois é muito fácil para a graciosa, obsequiosa Desdêmona empenhar-se em qualquer pedido honesto. Ela é de constituição que frutifica como os elementos da natureza. E assim, para ela obter algo do Mouro, mesmo que fosse ele renunciar ao próprio batismo, às garantias e símbolos de seus pecados redimidos, tem ele sua alma tão agrilhoada ao amor dela que ela pode fazer, desfazer, inventar o que lhe aprouver, mesmo brincando de deus os apetites dela com as enfraquecidas faculdades dele. Como, então, posso eu ser vilão ao aconselhar Cássio nesse caminho paralelo, o mais curto para o seu próprio bem? Divindades do inferno! Quando o desejo dos demônios é vestir os mais negros pecados, eles insinuam-se primeiro com vestimentas angelicais, como eu faço agora. Enquanto esse honesto otário importuna Desdêmona com seus pedidos para que ela conserte seu destino, e, enquanto ela, por ele, implora clemência ao Mouro, eu estarei vertendo esta pestilência nos ouvidos de nosso general: que ela o quer de novo nas boas graças de seu superior para apaziguar a luxúria de seu corpo. E, quanto mais ela se esforçar por ajudá-lo, ela estará perdendo crédito junto ao esposo. Assim, transformarei eu a virtude dela em piche, e, da própria bondade de Desdêmona, tecerei a malha que os enredará a todos”

O CIÚME
“IAGO – Acautele-se, meu senhor, contra o ciúme. É ele o monstro de olhos verdes que zomba da carne com que se alimenta. Vive feliz o corno que, certo de seu destino, não ama a quem o ofende. Mas, ah, que minutos desgraçados passa aquele que adora, porém duvida, suspeita, porém ama com intensidade!”

“EMÍLIA – Reze aos céus para que sejam assuntos de Estado, como a senhora pensa, e não pura fantasia, não um ciúme inventado que lhe diga respeito.
DESDÊMONA – Nesse dia, ai de mim, que nunca lhe dei motivos para ciúme!
EMÍLIA – Mas almas ciumentas não funcionam assim. Elas nunca são ciumentas porque há uma causa, mas sim porque são ciumentas. Este é um monstro gerado em si mesmo e de si mesmo nascido.
DESDÊMONA – Que os céus mantenham esse monstro longe dos pensamentos de Otelo!”

Bibliografia:
SHAKESPEARE, William. Tragédias. Editora Nova Cultural, 2003.

sábado, 18 de setembro de 2010

Lágrimas de Xerxes (1899) - Conto de Machado de Assis




Leitura de contos machadianos

Além do conto postado abaixo, tenho uma postagem analisando o conto em sala de aula com o professor Hansen (FFLCH-USP). A análise é muito legal. Leitura de Lágrimas de Xerxes, M.Assis.


Publicado originalmente em 1899


Lágrimas de Xerxes

Suponhamos (tudo é de supor) que Julieta e Romeu, antes que Frei Lourenço os casasse, travavam com ele este diálogo curioso:

JULIETA. Uma só pessoa?

FREI LOURENÇO. Sim, filha, e, logo que eu houver feito de vós ambos uma só pessoa, nenhum outro poder vos desligará mais. Andai, andai, vamos ao altar, que estão acendendo as velas... (Saem da cela e vão pelo corredor).

ROMEU. Para que velas? Abençoai-nos aqui mesmo. (Pára diante de uma janela). Para que altar e velas? O céu é o altar: não tarda que a mão dos anjos acenda ali as eternas estrelas; mas, ainda sem elas, o altar é este. A igreja está aberta; podem descobrir-nos. Eia, abençoai-nos aqui mesmo.

FREI LOURENÇO. Não, vamos para a igreja; daqui a pouco estará tudo pronto. Curvarás a cabeça, filha minha, para que olhos estranhos, se alguns houver, não cheguem a reconhecer-te...

ROMEU. Vã dissimulação; não há, em toda Verona, um talhe igual ao da minha bela Julieta, nenhuma outra dama chegaria a dar a mesma impressão que esta. Que impede que seja aqui? O altar não é mais que o céu.

FREI LOURENÇO. Mais eficaz que o céu.

ROMEU. Como?

FREI LOURENÇO. Tudo o que ele abençoa perdura. As velas que lá verás arder hão de acabar antes dos noivos e do padre que os vai ligar; tenho-as visto morrer infinitas; mas as estrelas...

ROMEU. Que tem? arderão ainda, nem ali nasceram senão para dar ao céu a mesma graça da terra. Sim, minha divina Julieta, a Via-Láctea é como o pó luminoso dos teus pensamentos, todas as pedrarias e claridades altas e remotas, tudo isso está aqui perto e resumido na tua pessoa, porque a lua plácida imita a tua indulgência, e Vênus, quando cintila, é com os fogos da tua imaginação. Aqui mesmo, padre. Que outra formalidade nos pedes tu? Nenhuma formalidade exterior, nenhum consentimento alheio. Nada mais que amor e vontade. O ódio de outros separa-nos, mas o nosso amor conjuga-nos.

FREI LOURENÇO. Para sempre.

JULIETA. Conjuga-nos, e para sempre. Que mais então? Vai a tua mão fazer com que parem todas as horas de uma vez. Em vão o sol passará de um céu a outro céu, e tornará a vir e tornará a ir, não levará consigo o tempo que fica a nossos pés como um tigre domado. Monge amigo, repete essa palavra amiga.

FREI LOURENÇO. Para sempre.

JULIETA. Para sempre! amor eterno! eterna vida! Juro-vos que não entendo outra língua senão essa. Juro-vos que não entendo a língua de minha mãe.

FREI LOURENÇO. Pode ser que tua mãe não entendesse a língua da mãe dela. A vida é uma Babel, filha; cada um de nós vale por uma nação.

ROMEU. Não aqui, padre; ela e eu somos duas províncias da mesma linguagem, que nos aliamos para dizer as mesmas orações, com o mesmo alfabeto e um só sentido. Nem há outro sentido que tenha algum valor na terra. Agora, quem nos ensinou essa linguagem divina não sei eu nem ela; foi talvez alguma estrela. Olhai, pode ser que fosse aquela primeira que começa a cintilar no espaço.

JULIETA. Que mão celeste a terá acendido? Rafael, talvez, ou tu, amado Romeu. Magnífica estrela, serás a estrela da minha vida, tu, que marcas a hora do meu consórcio. Que nome tem ela, padre?

FREI LOURENÇO. Não sei de astronomias, filha.

JULIETA. Hás de saber por força. Tu conheces as letras divinas e humanas, as próprias ervas do chão, as que matam e as que curam... Dize, dize...

FREI LOURENÇO. Eva eterna!

JULIETA. Dize o nome dessa tocha celeste, que vai alumiar as minhas bodas, e casai-nos aqui mesmo. Os astros valem mais que as tochas da terra.

FREI LOURENÇO. Valem menos. Que nome tem aquele? Não sei. A minha astronomia não é como a dos outros homens. (Depois de alguns instantes de reflexão) Eu sei o que me contaram os ventos, que andam cá e lá, abaixo e acima, de um tempo a outro tempo, e sabem muito, porque são testemunhas de tudo. A dispersão não lhes tira a unidade, nem a inquietação a constância.

ROMEU. E que vos disseram eles?

FREI LOURENÇO. Coisas duras. Heródoto conta que Xerxes um dia chorou; mas não conta mais nada. Os ventos é que me disseram o resto, porque eles lá estavam ao pé do capitão, e recolheram tudo... Escutai; aí começam eles a agitar-se; ouviram-nos falar e murmuram... Uivai, amigos ventos, uivai como nos jovens dias das Termópilas.

ROMEU. Mas que te disseram eles? Contai, contai depressa.

JULIETA. Fala a gosto, nós te esperaremos.

FREI LOURENÇO. Gentil criatura, aprende com ela, filho, aprende a tolerar as demasias de um velho lunático. O que é que me disseram? Melhor fora não repeti-lo; mas, se teimais em que vos case aqui mesmo, ao clarão das estrelas, dir-vos-ei a origem daquela, que parece governar todas as outras... Vamos, ainda é tempo, o altar espera-nos... Não? teimosos que sois... Contar-vos-ei o que me disseram os ventos, que lá estavam em torno de Xerxes, quando este vinha destruir a Hélade com tropas inumeráveis. As tropas marchavam diante dele, a poder de chicote, porque esse homem cru amava particularmente o chicote e empregava-o a miúdo, sem hesitação nem remorso. O próprio mar, quando ousou destruir a ponte que ele mandara construir, recebeu em castigo trezentas chicotadas. Era justo; mas para não ser somente justo, para ser também abominável, Xerxes ordenou que decapitassem a todos os que tinham construído a ponte e não souberam fazê-la imperecível. Chicote e espada; pancada e sangue.

JULIETA. Oh! abominável!

FREI LOURENÇO. Abominável, mas forte. Força vale alguma coisa; a prova é que o mar acabou aceitando o jugo do grande persa. Ora, um dia, à margem do Helesponto, curioso de contemplar as tropas que ali ajuntara, no mar e em terra, Xerxes trepou a um alto morro feitiço, de onde espalhou as vistas para todos os lados. Calculai o orgulho que ele sentiu. Viu ali gente infinita, o melhor leite mungido à vaca asiática, centenas de milhares ao pé de centenas de milhares, várias armas, povos diversos, cores e vestiduras diferentes, mescladas, baralhadas, flecha e gládio, tiara e capacete, pelo de cabra, pele de cavalo, pele de pantera, uma algazarra infinita de coisas. Viu e riu; farejava a vitória. Que outro poder viria contrastá-lo? Sentia-se indestrutível. E ficou a rir e a olhar com longos olhos ávidos e felizes, olhos de noivado, como os teus, moço amigo...

ROMEU. Comparação falsa. O maior déspota do universo é um miserável escravo, se não governa os mais belos olhos femininos de Verona. E a prova é que, a despeito do poder, chorou.

FREI LOURENÇO. Chorou, é certo, logo depois, tão depressa acabara de rir. A cara embruscou-se-lhe de repente, e as lágrimas saltaram-lhe grossas e irreprimíveis. Um tio do guerreiro, que ali estava, interrogou-o espantado; ele respondeu melancolicamente que chorava, considerando que de tantos milhares e milhares de homens que ali tinha diante de si, e às suas ordens, não existiria um só ao cabo de um século. Até aqui Heródoto; escutai agora os ventos. Os ventos ficaram atônitos. Estavam justamente perguntando uns aos outros se esse homem feito de ufania e rispidez teria nunca chorado em sua vida, e concluíam que não, que era impossível, que ele não conhecia mais que injustiça e crueldade, não a compaixão. E era a compaixão que ali vinha lacrimosa, era ela que soluçava na garganta do tirano... Então eles rugiram de assombro; depois pegaram das lágrimas de Xerxes... Que farias tu delas?

ROMEU. Secá-las-ia, para que a piedade humana não ficasse desonrada.

FREI LOURENÇO. Não fizeram isso; pegaram das lágrimas todas e deitaram a voar pelo espaço fora, bradando às considerações: Aqui estão! olhai! olhai! aqui estão os primeiros diamantes da alma bárbara! Todo o firmamento ficou alvoroçado; pode crer-se que, por um instante, a marcha das coisas parou. Nenhum astro queria acabar de crer nos ventos. Xerxes! Lágrimas de Xerxes eram impossíveis; tal planta não dava em tal rochedo. Mas ali estavam elas; eles as mostravam, contando a sua curiosa história, o riso que servira de concha a essas pérolas, as palavras dele, e as constelações não tiveram remédio, e creram finalmente que o duro Xerxes houvesse chorado. Os planetas miraram longo tempo essas lágrimas inverossímeis; não havia negar que traziam o amargo da dor e o travo da melancolia. E quando pensaram que o coração que as brotara de si tinha particular amor ao estalido do chicote, deitaram um olhar oblíquo à terra, como perguntando de que contradições era ela feita. Um deles disse aos ventos que devolvessem as lágrimas ao bárbaro, para que as engolisse; mas os ventos responderam que não e detiveram-se para deliberar. Não cuideis que só os homens dissentem uns dos outros.

JULIETA. Também os ventos?

FREI LOURENÇO. Também eles. O Aquilão queria convertê-las em tempestades do mundo, violentas e destruidoras, como o homem que as gerara; mas os outros ventos não aceitaram a ideia. As tempestades passam ligeiras; eles queriam alguma coisa que tivesse perenidade, um rio, por exemplo, ou um mar novo; mas não combinaram nada e foram ter com o sol e a lua. Tu conheces a lua, filha.

ROMEU. A lua é ela mesma; uma e outra são a plácida imagem da indulgência e do carinho; é o que eu te disse há pouco, meu bom confessor.

JULIETA. Não, não creias nada do que ele disser, frei amigo; a lua é a minha rival, é a rival que alumia de longe o belo rosto do galhardo Romeu, que lhe dá um resplendor de opala, à noite, quando ele vem pela rua...

FREI LOURENÇO. Terão ambos razão. A lua e Julieta podem ser a mesma pessoa, e é por isso que querem o mesmo homem. Mas, se a lua és tu, filha, deves saber o que ela disse ao vento.

JULIETA. Nada, não me lembra nada.

FREI LOURENÇO. Os ventos foram ter com ela, perguntaram-lhe o que fariam das lágrimas de Xerxes, e a resposta foi a mais piedosa do mundo. Cristalizemos essas lágrimas, disse a lua, e façamos delas uma estrela que brilhe por todos os séculos, com a claridade da compaixão, e onde vão residir todos aqueles que deixarem a terra, para achar ali a perpetuidade que lhes escapou.

JULIETA. Sim, eu diria a mesma coisa. (Olhando pela janela) Lume eterno, berço de renovação, mundo do amor continuado e infinito, estávamos ouvindo a tua bela história.

FREI LOURENÇO. Não, não, não.

JULIETA. Não?

FREI LOURENÇO. Não, porque os ventos foram também ao sol, e tu que conheces a lua, não conheces o sol, amiga minha. Os ventos levaram-lhe as lágrimas, contaram a origem delas e o conselho do astro da noite, e falaram da beleza que teria essa estrela nova e especial. O sol ouviu-os e redarguiu que sim, que cristalizassem as lágrimas e fizessem delas uma estrela; mas nem tal como o pedia a lua, nem para igual fim. Há de ser eterna e brilhante, disse ele, mas para a compaixão basta a mesma lua com a sua enjoada e dulcíssima poesia. Não; essa estrela feita das lágrimas que a brevidade da vida arrancou um dia ao orgulho humano ficará pendente do céu como o astro da ironia, luzirá cá de cima sobre todas as multidões que passam, cuidando não acabar mais e sobre todas as coisas construídas em desafio dos tempos. Onde as bodas cantarem a eternidade, ela fará descer um dos seus raios, lágrima de Xerxes, para escrever a palavra da extinção, breve, total, irremissível. Toda epifania receberá esta nota de sarcasmo. Não quero melancolias, que são rosas pálidas da lua e suas congêneres; — ironia, sim, uma dura boca, gelada e sardônica...

ROMEU. Como? Esse astro esplêndido...

FREI LOURENÇO. Justamente, filho; e é por isso que o altar é melhor que o céu; no altar a benta vela arde depressa e morre às nossas vistas.

JULIETA. Conto de ventos!

FREI LOURENÇO. Não, não.

JULIETA. Ou ruim sonho de lunático. Velho lunático disseste há pouco; és isso mesmo. Vão sonho ruim, como os teus ventos, e o teu Xerxes, e as tuas lágrimas, e o teu sol, e toda essa dança de figuras imaginárias.

FREI LOURENÇO. Filha minha...

JULIETA. Padre meu, que não sabes que há, quando menos, uma coisa imortal, que é o meu amor, e ainda outra, que é o incomparável Romeu. Olha bem para ele; vê se há aqui um soldado de Xerxes. Não, não, não. Viva o meu amado, que não estava no Helesponto, nem escutou os desvarios dos ventos noturnos, como este frade, que é a um tempo amigo e inimigo. Sê só amigo, e casa-nos. Casa-nos onde quiseres, aqui ou além, diante das velas ou debaixo das estrelas, sejam elas de ironia ou de piedade; mas casa-nos, casa-nos, casa-nos...

FIM

Fonte: UOL