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sábado, 6 de julho de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 6 de julho de 2024. Sábado.


GUERRA CIVIL ESPANHOLA - PRELÚDIO DA TRAGÉDIA

Estou me dedicando a conhecer os materiais de conhecimentos gerais que acumulei ao longo da vida e para os quais nunca pude me dedicar integralmente, ou seja, ler as dezenas de livros, ver as coleções de mídias, ler recortes e materiais impressos sobre temas variados que guardei durante os dias de venda de minha força de trabalho.

A Coleção História Viva com doze DVDs é extraordinária! Hoje assisti ao 4º episódio dessa série "Grandes dias do século XX". Esse documentário sobre a Guerra Civil Espanhola eu já havia visto antes. Revendo ele agora fico mais admirado ainda em relação à primeira vez. 

Uma característica da época contribuiu muito para poder ver os eventos que mudaram o mundo como nós o conhecíamos durante séculos: havia uma estética dos movimentos da primeira metade do século XX e muita coisa foi filmada. Os filmes, as imagens e sons, foram amplamente usados como meios de manipulação de massas.

Repito o que disse nas postagens anteriores: as imagens de época, das batalhas e dos combatentes, são impressionantes.

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Sinopse:

Em fevereiro de 1936, a Frente Popular, uma coalização de esquerda, ganha as eleições na Espanha. A oposição conservadora se organiza em torno da Falange, graças ao ímpeto do jovem Primo de Rivera. Em 18 de julho daquele mesmo ano, o general Francisco Franco lidera um levante militar que lança o país em uma sangrenta guerra civil. A Espanha fica dividida por três anos. As democracias ocidentais permanecem passivas, mas os nazistas alemães e os fascistas italianos apoiam Franco incondicionalmente, em um ensaio do que viria a ser a Segunda Guerra Mundial.

O episódio se divide nos seguintes capítulos: "A destruição da Espanha", "No pasarán!", "A nova Espanha" e "Espanha como exemplo".

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BOMBARDEAR CIDADES E MATAR CIVIS, A NOVA FORMA DE GUERRA

Num determinado momento da guerra civil, após os nacionalistas conquistarem praticamente todo o território espanhol, o general Franco decide que vai bombardear a cidade de Madri, e que se danem os civis que morrerão lá. 

Antes, os aviões alemães nazistas haviam bombardeado a cidade de Guernica. A Espanha serviu de experimento para o novo formato de guerra que passaria a vigorar dali adiante: guerras que fariam mais vítimas civis que militares. É assim até hoje. Vejam o que os sionistas do Estado de Israel estão fazendo com os palestinos na Faixa de Gaza.

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AS NARRATIVAS E INVENÇÕES PARA JUSTIFICAR A ELIMINAÇÃO DO OUTRO

Na Espanha dos anos trinta, tínhamos de um lado os nacionalistas, que eram os monarquistas, os carlistas e os falangistas e o apoio da igreja católica e do outro o governo eleito, os republicanos. Do lado dos republicanos, durante o conflito, tínhamos socialistas, comunistas, anarquistas e os republicanos mesmo, e as brigadas internacionais, já durante a guerra.

A narrativa ideológica do lado dos nacionalistas era um discurso que resgatava as cruzadas da idade média, quando os cristãos expulsaram os mouros infiéis do país. Nos anos trinta, igreja, burguesia e militares se juntaram para combater os infiéis comunistas, rebeldes ateus republicanos.

O ÓDIO era o principal combustível para todos os grupos que se digladiavam, ódio e intolerância, o ódio como catalisador das violências extremadas que levaram o povo espanhol a se matar uns aos outros.

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LIÇÕES QUE NÃO APRENDEMOS COM A HISTÓRIA

Sempre que estudo a Guerra Civil Espanhola fico com os neurônios em choque, com cargas elétricas indo e voltando e o cérebro quase pegando fogo. Não aprendemos nada com a história.

O mesmo ódio que foi instrumento daqueles dias que abalaram o mundo é o ódio que serve hoje de ferramenta para unir toda a direita e extrema-direita, conservadores e reacionários, os capitalistas e manipuladores da fé alheia, os donos dos meios de comunicação de massa - essa gente toda - contra nós, os "comunistas", os "infiéis", os lulistas e ou petistas, a esquerda toda dividida (como sempre) e cancelando uns aos outros por divergências de táticas e estratégias e até de objetivos como se digladiaram na Espanha dos anos trinta republicanos, socialistas, comunistas e anarquistas. No final, venceu o autoritarismo nazifascista, que une o capital, o exército e a igreja. Lá, foram 40 anos de franquismo...

É ou não é foda?

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El Alcázar, foto de William Mendes.

EL ALCÁZAR, EM TOLEDO

Estive na Espanha em 2009, fui a trabalho. Por uma semana, conheci pontos turísticos e históricos em Madri. Um dos locais que visitei e que me impressionaram muito foi a cidade de Toledo. 

A fortaleza El Alcázar foi palco de uma luta violenta entre republicanos e nacionalistas. Quando vi aquela maravilha arquitetônica, eu não tinha ideia que ela havia sido cenário de batalha na guerra. Para ler mais a respeito, clique aqui.

Outro momento ímpar em minha vida, foi estar diante do quadro Guernica, de Pablo Picasso, no Museu Reina Sofia. Foi uma catarse.

Sigamos estudando e compartilhando os conhecimentos.

William


sexta-feira, 22 de março de 2024

Artigo: Esquerda e Direita - Por Alexandre Lemos



Refeição Cultural

Apresentação do texto:

Dias atrás, numa série de postagens que venho fazendo em redes sociais por causa da minha frustração pessoal ao ver o veto presidencial à memória dos 60 anos do golpe de Estado de 31 de março de 1964, postei um texto da jornalista Milly Lacombe sobre o tema - "Lula prova que a esquerda está morta (20/3/24)" - e fiz uma brincadeira perguntando quem ou o que seria de esquerda na atualidade. Ainda prometi um picolé de limão para quem me ajudasse a entender o mistério.

Num tempo relativamente curto, a companheira Ana Paula, amiga de longa data - militamos juntos no movimento sindical bancário - postou um texto que me encantou na hora. Adorei a simplicidade e a capacidade de síntese de ideias e conceitos complexos abordados no texto apresentado. Me lembrei na hora dos debates filosóficos que fazíamos aos finais dos dias de trabalho e em eventos nos quais nos reuníamos. Aquele período de militância sindical foi de grande aprendizagem na minha vida.

Ana me disse que o texto era do companheiro dela, Alexandre Lemos, e eu perguntei se poderia publicar aqui no blog. Vale a pena a leitura! É daqueles textos que voltarei a ele quando estiver refletindo sobre essa tão complexa e contraditória temática do que é e não é ser de esquerda.

Quando estava me formando politicamente no período de representação sindical lia muitos textos a respeito, muitos. Sigo lendo, até porque somos seres incompletos como li recentemente no livro Pedagogia da autonomia, do mestre Paulo Freire, e a cada dia vou tentando diminuir minha incompletude.

Vamos ao texto sobre ser de esquerda (e de direita), vocês vão se surpreender com a clareza do autor.

William Mendes

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ESQUERDA E DIREITA

Por: Alexandre Lemos

Perdi a conta do quanto já ouvi que esquerda e direita são conceitos antiquados.

Vou tentar palpitar sobre o tema, ainda que saiba que são grandes as chances de não servir pra muita coisa. Vou deixar pros enxugadores de gelo a perda de tempo em explicar a origem das definições. O que interessa agora é o que elas significam nos tempos em estamos vivendo.

Ser de esquerda significa compreender a história como um processo dialético que se encaminha para a emancipação do ser humano com a retomada do controle do produto de seu trabalho, ou seja, da produção de riqueza. Assim, luta-se para que se chegue logo a esse momento e se reduza a extensão no tempo e no espaço da exploração do trabalho pelas classes dominantes.

A emancipação das massas trabalhadoras só pode se dar pela socialização da posse dos meios de produção. Tudo o que produz riqueza deve ser propriedade de quem trabalha nesta produção. Terras, fábricas, serviços, tudo o que produz riqueza deve ser compartilhado por todos, partindo do princípio em que numa sociedade assim ninguém é patrão, ninguém vive de renda, ninguém expropria o trabalho de ninguém e todos trabalham.

A partir daí fica fácil compreender que, basicamente, são de esquerda os comunistas e os anarquistas. E é só. Claro que outros tipos de movimentos sociais já surgiram com o pleito da propriedade coletiva em contraponto à lógica burguesa de produção e consumo. Os hippies foram, ou talvez ainda sejam, um bom exemplo disso. Acontece, porém, que o movimento hippie nunca conseguiu ir além da perspectiva comunitária, não oferecendo, portanto, uma alternativa concreta que solucione a complexidade que uma economia precisa ter para manter vivos e saudáveis 7 bilhões de seres humanos.

Dentro da esquerda, por assim dizer, não há um só modo de pensar ou lutar pela emancipação que se almeja. Numa metáfora que era moda nos meus tempos de movimento estudantil, há nuances e matizes diversos que diferenciam comunistas e anarquistas e, além disso, produzem distinções dentro do comunismo e dentro do anarquismo. Pra exemplificar, cito uma diferença bem conhecida dentro do comunismo: os reformistas, que acreditam na emancipação através de sucessivas modificações do modo de produção até que se chegue ao comunismo, e os revolucionários, que propõe a derrubada violenta do capitalismo.

Do outro lado, a direita também se divide em diversas tendências. Dos fascistas aos progressistas, há muita diferença nas práticas e nos conceitos. O que os une? Todos acreditam que é certo e justo que os meios de produção de riqueza sejam propriedade privada. O que varia entre eles? O que eles chamam de certo e de justo.

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Se você acredita que é possível ser um bom patrão, um patrão justo que pague bem a seus funcionários e lhes dê boas condições de trabalho, se você acredita nisso então você não é de esquerda. A seu favor poderá se dizer, por exemplo, que você está à esquerda dos neoliberais ou dos fascistas, mas estar à esquerda de alguém não significa, necessariamente, ser de esquerda.
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Isso se explica a partir da compreensão de que justiça social não se resume a uma boa casa ou um bom salário. Claro que num país como o nosso, esses direitos são tão raros que se fazem urgentes. Mas é importante entender que o trabalho alienado, ou seja, o trabalho vendido ao dono da terra ou da fábrica, pode até garantir o sustento “digno” de uma pessoa, mas a levará obrigatoriamente a uma vida esvaziada de sentido e perspectiva, cuja única fonte possível de “satisfação” se concentra no consumo e na alienação cotidiana da própria realidade, serviço pra lá de bem-feito pelas redes sociais e pelos veículos de comunicação de massa.

Quem é da classe média, num simples exame da própria vida, percebe de qual vazio estou falando. Não é à toa que vivemos a era das drogas lícitas, criadas e prescritas pra que todos sigam produzindo e consumindo regularmente, sem grandes reclamações. Sob o reinado do Rivotril e seus congêneres, fica evidente que uma boa casa ou bom salário não bastam pra quem vive dominado e controlado pelo capital.

Por isso o Ciro Gomes não é de esquerda, mesmo estando à esquerda do Paulo Guedes. Por isso o FHC não é de esquerda, mesmo que seu neoliberalismo seja muito mais flexível que o do presidente fascista quando se trata de costumes e comportamento. Por isso o desenvolvimentismo é, quase sempre, um projeto de direita, ainda que implementado pelo PT.

A maior parte dos movimentos ambientalistas é de direita, mesmo quando assume posições críticas a certas práticas do capitalismo. Nem todos os militantes de pauta ligada às questões de gênero são de esquerda.

A História segue seu caminho.

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terça-feira, 30 de maio de 2023

Leitura: O governo no futuro - Noam Chomsky



Refeição Cultural

Osasco, 30 de maio de 2023. Terça-feira.


Tive pouco tempo para me dedicar à leitura de livros em abril e maio. Só finalizei três livros: O trono no morro, de José J. Veiga, A impureza da minha mão esquerda, de Henry Bugalho e este do Chomsky. Outros estão em andamento, mas ainda vai um tempo para a conclusão das leituras iniciadas. 

A leitura como prática diária é um esforço, como costumo dizer em meus textos e comentários em redes sociais. Ler é uma necessidade vital para quem deseja manter o bom funcionamento do cérebro humano.

Noam Chomsky é um dos maiores intelectuais vivos de nosso tempo. Meu primeiro contato com seus conhecimentos foi na área da linguística e da linguagem, pois o linguista é um dos estudiosos que revolucionou a ciência das linguagens com a Teoria da Gramática Gerativa. Foram os meus anos do curso de graduação em Letras na USP que me apresentaram este intelectual linguista.

Neste livro - O governo no futuro - Chomsky responde a uma pergunta feita em uma conferência ministrada em 1970, em Nova York. 

A questão "Qual o papel do Estado em uma sociedade industrial avançada?" permite ao intelectual abordar quatro posições idealizadas de comunidades humanas:

- a liberal clássica

- a socialista libertária

- a socialista de Estado

- a capitalista de Estado

De cara, o autor se posiciona e diz ter preferência pelos conceitos socialistas libertários:

"Penso que os conceitos socialistas libertários - uma esfera do pensamento que abrange do marxismo esquerdista ao anarquismo - são fundamentalmente corretos e extensões naturais e apropriadas do liberalismo clássico na atual era da sociedade industrial avançada." (p. 5 e 6)

LIBERALISMO CLÁSSICO

Chomsky aponta Wilhelm von Humboldt e seu livro Limites da ação do Estado (1792) como uma referência na questão.

"Segundo Humboldt, o Estado tende a 'fazer do homem um instrumento para seus fins arbitrários, deixando de lado os propósitos individuais'... " (p. 7)

Com isso o Estado seria "anti-humano":

"e, uma vez que os homens são por essência seres livres que se aperfeiçoam, que buscam, o que se conclui é que o Estado é uma instituição profundamente anti-humana." (idem)

Interessante o ponto de vista do intelectual.

HUMBOLDT E ROUSSEAU

- O atributo central do homem é a sua liberdade: indagar e criar, estes são o centro em torno do qual giram todas as buscas do homem.

Chomsky nos lembra que Humboldt escreveu antes do século 19, antes do auge da implantação do modo de produção capitalista. Se ele visse o capitalismo em ação, entenderia a importância do Estado para preservar a vida humana e o meio ambiente porque o capitalismo sem controle inviabiliza a vida e a natureza.

O autor aproxima as ideias de Humboldt aos primeiros textos de Marx em relação à alienação do trabalho: 

"Creio que seja bastante revelador e interessante se o compararmos com Marx, com os primeiros manuscritos de Marx, particularmente às considerações deste sobre 'a alienação do trabalho, quando o trabalho é externo ao trabalhador, (...) e não parte de sua natureza, (...) [de forma que] ele não se realiza no trabalho, mas nega a si mesmo (...). [e] se sente fisicamente esgotado e mentalmente enfraquecido', a alienação, que 'lança alguns trabalhadores de volta à barbárie de certo tipo de trabalho e transforma outros em máquinas', com isso privando o homem de seu 'caráter de espécie', da 'atividade de livre consciência' e da 'vida produtiva'." (p. 11)

Humboldt não previu que o capitalismo destruiria os ideais liberais em uma democracia:

Chomsky diz que é claro que ele não tinha ideia, ao escrever em 1790, do modo como viria a ser reinterpretada a noção de pessoa privada na era do capitalismo corporativo. 

Ele não previu - e cita o historiador anarquista Rudolf Rocker - que "a democracia, com seu lema de 'igualdade de todos os cidadãos perante a lei', e o liberalismo, com seu 'direito do homem sobre sua própria pessoa', naufragariam nas realidades do modelo econômico capitalista.

"Humboldt não previu que, numa economia capitalista predatória, a intervenção do Estado seria uma necessidade absoluta para preservar a existência humana e evitar a destruição do ambiente físico." (p. 13)

SOCIALISMO LIBERTÁRIO

Chomsky cita sua preferência por Bakunin e Haymarket ao lembrar que "um anarquista coerente deve se opor à propriedade privada dos meios de produção" (p. 19) e que "um anarquista coerente também fará oposição à 'organização da produção pelo governo" (idem): Daí se tem claro um conceito:

"O objetivo da classe trabalhadora é libertar-se da exploração. Este objetivo não é atingido e não pode ser alcançado por uma nova classe dirigente e governante em substituição à burguesia." (p. 19)

Citando um texto de William Paul (1917): "a República do Socialismo será o governo da indústria administrada pelo bem de toda a comunidade (...) representará a liberdade econômica de todos - será, portanto, uma democracia verdadeira." (p. 21)

Chomsky diz: "Proudhon, em 1851, escreveu que o que colocamos no lugar do governo é organização industrial, e podemos citar muitos comentários semelhantes. Esta, em essência, é a ideia fundamental dos revolucionários anarquistas." (idem)

COMUNISMO DE CONSELHOS

Chomsky defende: "Pode-se argumentar, pelo menos eu o faria, que o comunismo de conselhos - no sentido da longa citação que interpreto - é a forma natural de socialismo revolucionário numa sociedade industrial." (p. 12)

Diferenças táticas entre o marxismo de esquerda e o anarquismo, segundo o autor:

"Ora, pode parecer quixotesco agrupar o marxismo de esquerda e o anarquismo sob a mesma rubrica, como fiz, dado o antagonismo em todo o século passado entre marxistas e anarquistas - a começar pelo antagonismo entre Marx e Engels de um lado e, por exemplo, Proudhon e Bakunin de outro. No século XIX, suas diferenças com relação à questão do Estado eram significativas mas, de certa forma, táticas." (p. 24/25)

Chomsky explica que enquanto anarquistas eram a favor de destruir o capitalismo e o Estado juntos, Engels, por exemplo, entendia que o Estado tomado pelos trabalhadores seria "o único organismo por meio do qual o proletariado vitorioso pode afirmar seu poder recém-conquistado, controlar seus adversários capitalistas e realizar essa revolução econômica da sociedade sem a qual toda vitória deve terminar numa nova derrota e numa carnificina em massa dos trabalhadores semelhante à que se seguiu à comuna de Paris." (p. 25)

SOCIALISMO DE ESTADO E CAPITALISMO DE ESTADO

O intelectual dá um resumo geral do que pensa em relação à essas duas formas:

"Em resumo, o sistema democrático, na melhor das hipóteses, funciona dentro de uma faixa estreita em uma democracia capitalista, e mesmo dentro desta faixa estreita seu funcionamento tende enormemente a concentrações de poder privado e aos modos autoritários e passivos de pensamento que são induzidos por instituições autocráticas como as indústrias. É um truísmo, mas um truísmo que deve ser constantemente enfatizado, que capitalismo e democracia sejam basicamente incompatíveis." (p. 38/39)

Logo em seguida, Chomsky nos conta sobre o poder das burocracias não eleitas nas democracias capitalistas. Os diversos escalões da máquina do Estado são indicados e ocupados por representantes dos donos do poder econômico e os eleitos chegam e quase nada podem fazer para alterar profundamente as lógicas da estrutura.

UMA EXPERIÊNCIA PESSOAL - Eu vivi isso numa estrutura nacional burocrática até a medula espinal e como diretor eleito pelos associados numa autogestão em saúde tive que mover rios e mares para cumprir minimamente o projeto apresentado e eleito pelos donos da associação. O presidente Lula enfrentou e enfrenta isso o tempo todo em seus mandatos eletivos.

GUERRA FRIA, SISTEMA DE CONTROLE - Como a conferência de Chomsky é no início dos anos 1970, ele acaba abordando o papel estratégico do conceito de Guerra Fria para as potências - principalmente os EUA capitalista, mas também a URSS:

"(...) Na verdade, acredito que esta provavelmente seja a função da Guerra Fria: ela serve como mecanismo útil para os administradores da sociedade americana e suas contrapartes na União Soviética controlarem o povo em seus respectivos sistemas imperiais." (p. 45)

A economia de guerra dos EUA após a 2ª GM trouxe o maior poder econômico já registrado para um país, o fornecedor de armas para todo o mundo. Guerra é lucro certo para o imperialismo norte-americano. Ontem e hoje! Olha a Guerra na Ucrânia aí para não nos deixar enganar...

CONCLUSÃO DO AUTOR - O SOCIALISMO LIBERTÁRIO É POSSÍVEL

Cito integralmente o parágrafo final com a conclusão de Noam Chomsky sobre a temática abordada neste livro. A palestra foi em 1970, mas guardadas as devidas mudanças do cenário mundial neste meio século, a essência do que ele trata segue a mesma em 2023: modelos de organização econômica, política e social.

"Temos hoje os recursos técnicos materiais para atender às necessidades animais do homem. Não desenvolvemos os recursos culturais e morais - ou as formas democráticas de organização social - que possibilitam o uso humano e racional de nossa riqueza e poder materiais. É concebível que os ideais liberais clássicos, expressos e desenvolvidos em sua forma socialista libertária, sejam realizáveis. Mas se assim forem, o serão apenas por um movimento revolucionário popular, baseado em um amplo estrato da população e comprometido com a eliminação de instituições repressoras e autoritárias, estatais e privadas. Criar esse movimento é um desafio que enfrentamos e que devemos cumprir, se quisermos escapar da barbárie contemporânea." (p. 54)

COMENTÁRIO FINAL

De forma até irônica, quero terminar a postagem sobre a leitura desse livro, fruto de uma conferência de Chomsky sobre o papel do Estado numa sociedade industrial, com a citação que ele faz de Mark Twain, ironizando a democracia nas formas de Socialismo de Estado e Capitalismo de Estado:

"Mark Twain certa vez escreveu que 'é pela bondade de Deus que em nosso país temos aquelas três coisas indescritivelmente preciosas: liberdade de expressão, liberdade de consciência e a prudência de nunca praticar nenhuma delas'." (p. 52)

É isso!

Fim da leitura dessa aula de Chomsky. Foi o 11º livro lido no ano. Neste caso, lido e relido hoje enquanto fiz a postagem.

William


Bibliografia:

CHOMSKY, Noam. O governo no futuro. Tradução de Maira Parula. 2ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2021.


sábado, 28 de janeiro de 2017

Livro: Discurso da Servidão Voluntária (s. XVI) - Étienne de La Boétie



Refeição Cultural

"E quando vemos, não cem, não mil homens, mas cem países, mil cidades, um milhão de homens se absterem de atacar aquele que trata a todos como servos e escravos, que nome poderemos dar a isso? Será covardia? Todos os vícios têm naturalmente um limite, além do qual podem passar..." (La Boétie)


Ganhei de presente do amigo Sandro Sedrez, companheiro de lutas em defesa da Cassi, autogestão baseada na Atenção Primária e Estratégia de Saúde da Família, este pequeno livro de Étienne de La Boétie (1530-63) - Discurso da Servidão Voluntária -, obra marcante e de grande influência no mundo da política desde quando começou a circular de forma não oficial já no século XVI, a partir dos anos 1550.

Eu tenho grandes lacunas culturais e literárias. Nunca neguei isso porque somos o resultado do percurso de nossas vidas, e a minha foi de trabalho braçal na infância e adolescência até virar bancário e tive pouca oportunidade de leitura durante vários anos centrais da formação de um jovem. Mesmo assim, sempre corri atrás das leituras nas poucas horas livres que pude ter ao longo da vida subproletária e proletária.

As leituras que faço na minha vida têm origens variadas. Tenho centenas de livros que sonho ler e estudar. Quando dá, pego eles para ler. Tem as leituras que vão sendo obrigatórias por razões diversas. E tem as leituras que aparecem pela convivência em sociedade. Agora, conheço mais uma obra clássica, que influenciou a forma de pensar das sociedades contemporâneas ocidentais.

Eu comparo esta obra em importância e influência a outras como Utopia (1516), do inglês Thomas More (ler comentário AQUI) e O Príncipe (1513), do italiano Maquiavel (ler comentário AQUI). Li ambas em 2011.

Não poderia ter lido obra mais condizente com a realidade política de nosso País do que esta sobre a servidão voluntária, pois sofremos um golpe de Estado em 2016 e estamos sob um regime de exceção, com o poder na mão de uma camarilha de corruptos que tomaram conta das instituições estatais do Estado, em conluio com empresários da comunicação e parcelas de capitalistas nacionais e imperialistas norte-americanos.

Das teses apresentadas por La Boétie justificando os porquês das pessoas se submeterem à servidão voluntária, acrescento uma de conceito mais recente em relação ao século XVI: a ideologia.

Gostaria que todas as pessoas envolvidas com os movimentos sociais e lideranças populares lessem esse pequeno texto, que é possível ler em um dia, para reavivarem suas naturezas e sentirem o instinto de liberdade que nos baliza e norteia e, assim, começarem a organizar a resistência e reversão da servidão voluntária aos golpistas tiranos, que destroem tudo em nosso País a cada semana que passa, desde maio de 2016.

Apresento abaixo alguns excertos do livro e, logo depois, uma síntese que está na enciclopédia livre (Wikipédia) e está muito boa.

William

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Excertos

- "Eu não lhe pediria tão vivamente para recuperar a liberdade se lhe custasse alguma coisa. Não existe nada mais caro para o homem do que readquirir o seu direito natural e, por assim dizer, de animal voltar a ser homem..."


- "Para conseguir o bem que deseja, o homem ousado não teme nenhum perigo, o homem prudente não regateia nenhum esforço. Só os covardes e os preguiçosos não sabem suportar o mal nem recuperar o bem. Limitam-se a desejá-lo e a energia de sua pretensão lhes é tirada por sua própria covardia..."


- "É incrível ver o povo, quando é submetido, cai de repente num esquecimento tão profundo de sua liberdade, que não consegue despertar para reconquistá-la. Serve tão bem e de tão bom grado que se diria, ao vê-lo, que não só perdeu a liberdade, mas ganhou a servidão..."


- "Se todas as coisas se tornam naturais para o homem quando se acostuma a elas, só permanece em sua natureza aquele que deseja apenas as coisas simples e não alteradas. Assim, a primeira razão da servidão voluntária é o hábito..."


- "Os homens livres, ao contrário, disputam a preferência em lutar pelo bem comum, porque associam a ele seu interesse particular: todos esperam ter sua parte no mal da derrota ou no bem da vitória. Mas os homens submissos, desprovidos de coragem guerreira, perdem também a vivacidade em todas as outras coisas, têm o coração tão fraco e mole que não são capazes de qualquer grande ação. Os tiranos sabem muito bem disso. Por isso, fazem o possível para torná-los ainda mais fracos e covardes."


Bibliografia:

LA BOÉTIE, Étienne de. Discurso da Servidão Voluntária. Texto integral. Edição bilíngue. Tradução: Casemiro Linarth. Martin Claret.


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Wikipédia 

Étienne de La Boétie (Sarlat, 1 de novembro de 1530 - Germignan, 18 de agosto de 1563) foi um humanista e filósofo francês, contemporâneo e amigo de Michel de Montaigne (este que em seu ensaio "Sobre a Amizade" faz uma homenagem a La Boétie). Poucos anos antes de morrer, aos 32 anos, Étienne de La Boétie deixou em testamento seus escritos a Montaigne, o qual, mais tarde, destacou os méritos nos Ensaios e em várias cartas, apontando este autor como um importante homem daquele século.

Traduções de obras clássicas greco-romanas eram comuns entre os studia humanitates, por isso entre os trabalhos de Étienne de La Boétie estão as traduções do grego para o francês de obras de Xenofonte e Plutarco - Étienne escreveu também algumas obras originais, a sua obra mais famosa é seu "Discurso da Servidão voluntária", escrita no século XVI, depois da derrota do povo francês contra o exército e fiscais do rei, que estabeleceram um novo imposto sobre o sal. 


A obra se mostra como uma espécie de hino à liberdade, com questionamentos sobre as causas da dominação de muitos por poucos, da indignação da opressão e das formas como vencê-las. Já no título aparece a contradição do termo servidão voluntária, pois como se pode servir de forma voluntária, isto é, sacrificando a própria liberdade de espontânea vontade? 

Na obra, o autor pergunta-se sobre a possibilidade de cidades inteiras submeterem-se a vontade de um só. De onde um só tira o poder para controlar todos? Isso só poderia acontecer mediante uma espécie de servidão voluntária. Ele afirma então que são os próprios homens que se fazem dominar, pois, caso quisessem sua liberdade de volta, precisariam apenas de se rebelar para consegui-la. 

Étienne afirma que é possível resistir à opressão, e ainda por cima sem recorrer à violência - segundo ele a tirania se destrói sozinha quando os indivíduos se recusam a consentir com sua própria escravidão. Como a autoridade constrói seu poder principalmente com a obediência consentida dos oprimidos, uma estratégia de resistência sem violência é possível, organizando coletivamente a recusa de obedecer ou colaborar.

Graças a suas reflexões profundas sobre a condição humana e a liberdade, La Boétie é considerado um filósofo de tradição libertária e um precursor do pensamento anarquista.

Discurso sobre a Servidão Voluntária

O "Discurso da Servidão Voluntária", escrito em 1548 quando Étienne de La Boétie tinha 18 anos, é uma crítica à legitimidade dos governantes, chamados por ele de “tiranos”. La Boétie explica de que maneira os povos podem se submeter voluntariamente ao governo de um só homem: em primeiro lugar, pelo hábito, uma vez que quem está acostumado à servidão tende a não questioná-la; em seguida, pela religião e pela superstição que se cria em torno da figura do líder. 

No entanto, não são apenas esses dois métodos os elementos necessários para criar a servidão voluntária: o segredo da dominação consiste em envolver o dominado na própria estrutura da dominação, a saber, uma pirâmide de poder: o tirano domina meia dúzia, essa meia dúzia domina seiscentos, esses seiscentos dominam seis mil, e abaixo desses seis mil vêm todos os outros. Para dominar a meia dúzia, ou seja, os seus cortesãos, o tirano atira-lhes migalhas, e estes, gratos, aceitam a submissão. Essa estrutura de domínio é repetida, então, nos demais níveis: a meia dúzia em relação aos seiscentos; os seiscentos em relação aos seis mil; os seis mil em relação a todos os outros. 

Para La Boétie, os que estão em volta do tirano são os menos livres de todos, pois, se as outras pessoas estão obrigadas a obedecer, esses, além disso, querem antecipar os desejos do tirano, escolhendo, com essa atitude, livremente a própria servidão. Portanto, os que estão na base da pirâmide, os camponeses e artesãos, são, em certo sentido, mais livres e mais felizes, pois após obedecerem a uma ordem, podem gastar o resto do tempo com o que quiserem; já os cortesãos, por estarem próximos ao tirano, estão afastados dessa liberdade. 

O autor quer levar seus leitores a refletir sobre uma questão que está na base da política: o motivo que leva as pessoas a obedecerem. Concretamente, o que está por trás dessa questão é entender a causa que pode levar uma pessoa a abrir mão de sua própria liberdade, já que, para obtê-la, o homem precisa apenas desejá-la. Assim, a servidão voluntária, em La Boétie, se refere à perda do desejo de liberdade, uma vez que, “os homens, enquanto neles houver algo de humano, só se deixam subjugar se forem forçados ou enganados”. Para ele, é possível que os homens percam a liberdade pela força, mas o que surpreende é o fato de não lutarem para reconquistá-la. 

No livro, são descritos três tipos de tiranos: os que chegam ao poder pela eleição do povo, pela força ou pela sucessão de raça. Mas, independentemente da forma como o tirano tenha chegado ao poder, o que intriga é o fato de as pessoas continuarem a obedecê-lo mesmo quando prejudicadas por ele. O autor defende ainda a igualdade de todos os homens na dimensão política: “Uma coisa é claríssima na natureza, tão clara que a ninguém é permitido ser cego a tal respeito, e é o fato de a natureza, ministra de Deus e governanta dos homens, nos ter feito todos iguais, com igual forma, aparentemente num mesmo molde, de forma a que todos nos reconhecêssemos como companheiros ou mesmo irmãos”.

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