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segunda-feira, 26 de agosto de 2019
Teoria do romance I - A estilística (Bakhtin)
Excertos
"O romance é um heterodiscurso social artisticamente organizado, às vezes uma diversidade de linguagem e uma dissonância individual. A estratificação interna de uma língua nacional única em dialetos sociais, modos de falar de grupos, jargões profissionais, as linguagens dos gêneros, as linguagens das gerações e das faixas etárias, as linguagens das tendências e dos partidos, as linguagens das autoridades, as linguagens dos círculos e das modas passageiras, as linguagens dos dias sociopolíticos e até das horas (cada dia tem sua palavra de ordem, seu vocabulário, seus acentos), pois bem, a estratificação interna de cada língua em cada momento de sua existência histórica é a premissa indispensável do gênero romanesco: através do heterodiscurso social e da dissonância individual, que medra no solo desse heterodiscurso, o romance orquestra todos os seus temas, todo o seu universo de autor, os discursos dos narradores, os gêneros intercalados e os discursos dos heróis são apenas as unidades basilares de composição através das quais o heterodiscurso se introduz no romance; cada uma delas admite uma diversidade de vozes sociais e uma variedade de nexos e correlações entre si (sempre dialogadas em maior ou menor grau). Tais nexos e correlações especiais entre enunciados e linguagens, esse movimento do tema através das linguagens, sua fragmentação em filetes e gotas de heterodiscurso social e sua dialogização constituem a peculiaridade basilar da estilística romanesca, seu specíficum."
Os destaques em itálico são do próprio livro.
Bibliografia
BAKHTIN, Mikhail. Teoria do romance I - A estilística. Tradução, prefácio, notas e glossário de Paulo Bezerra. Organização da edição russa de Serguei Botcharov e Vadim Kójinov. Editora 34. 1ª edição 2015, 1ª reimpressão 2017.
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domingo, 16 de outubro de 2011
Crônica, segundo Carlos Drummond de Andrade
Encontrei uma revista antiga da Caros Amigos, de agosto de 1999, que, por sinal, reproduziu uma entrevista também mais antiga ainda, de 1984, de Carlos Drummond de Andrade. A entrevista foi feita por Renan Garcia Miranda, professor de história e escritor e por José Eduardo Duó, roteirista e proprietário de restaurante em São Paulo. A matéria na revista é de José Arbex Jr.
Drummond é um de meus poetas preferidos. No trecho que reproduzo abaixo, ele fala sobre Crônica. É uma bela aula com conceitos do poeta e escritor para nos instruir sobre o gênero. Vale a pena ler.
Carlos Drummond de Andrade
- A pergunta seguinte é composta de três partes: "A crônica diária escrita nos jornais envelhece muito rapidamente por estar ligada às situações do cotidiano." Pergunta: "Como fica a relação da poesia com o tempo? O que significa dizer que a poesia é atemporal?" Não estou vendo muito bem a relação.
- Não tem muito nexo. A crônica realmente pela sua natureza é fugídia, ela passa depressa. Agora, não obstante, nós devemos reconhecer que crônicas escritas há quase cem anos por um cidadão chamado Machado de Assis estão hoje vivas como naquele tempo. Os acontecimentos perderam a atualidade, mas a crônica não perdeu, porque ela traduz uma visão tão sutil, tão maliciosa, tão viva de realidade, que o acontecimento fica valendo pela interpretação que Machado de Assis deu. Nesse sentido, a crônica não é assim tão passageira. Por outro lado, eu devo dizer também que já tenho seis ou sete livros constituídos de crônicas, e essas crônicas, não quero me gabar de coisa nenhuma, parece que elas não perderam a atualidade porque nem sempre elas comentam um fato do dia, ou quando comentam elas procuram dar uma extensão maior a esse fato, e generalizar, fazer uma reflexão qualquer sobre a vida, sobre os costumes, sobre a política, sobre os homens, à margem de um acontecimento transitório. E, sendo assim, a crônica tem uma certa chance de permanecer. Agora, por outro lado, eu devo reconhecer que cerca de 80 por cento, senão mais, das crônicas escritas por mim não podem perdurar porque, em primeiro lugar, eu não as achei adequadas a formarem um livro, e depois porque o jornal que é tão vivo no dia é uma sepultura no dia seguinte. Então, essas coisas escritas ao sabor do tempo perdem completamente não só a atualidade como o sabor, o sentido, a significação. Quando se fala de um determinado indivíduo que foi importante no Brasil, isso é tão comum uma pessoa ser importante vinte anos, durante dez anos, depois ficar completamente esquecida na política, na administração, no empresariado, na literatura, então a crônica que aborda um fato ou uma circunstância de vida dessa pessoa perdeu completamente o sentido, porque essa própria pessoa perdeu o sentido. Então não é propriamente a crônica, é o acontecimento que ela reflete que perdeu a significação. Agora, a outra parte da pergunta me parece alheia, em todo caso, vamos a ela...
(Depois Drummond falaria sobre a poesia...)
Fonte:
Revista Caros Amigos, edição 29, de agosto de 1999. Editora Casa Amarela.
domingo, 24 de abril de 2011
Formação da Literatura Brasileira - Antonio Candido
Peguei hoje com certa reverência o grosso tomo de Antonio Candido para matar saudades de leitura específica de crítica literária. Para rever por alguns instantes uma linguagem específica sobre literatura.
Que delícia! Que agradável!
Li poucas páginas, cerca de 30.
Nos três prefácios - 1957, 1962 e 1981 - Candido diz das razões do livro. Explica a sua teoria sobre a literatura como sistema, que gera tradição e que tem uma continuidade no tempo.
Seu livro aborda o que ele chama de "momentos decisivos" para que se possa perceber uma Literatura Brasileira como sistema a partir de 1750. Duas referências: Arcadismo e Romantismo.
Sua tese é muito bem elaborada. Tem sentido. Ele não desconsidera ou diminui a literatura anterior, mas diz que a partir dos árcades e dos românticos se tem uma tradição literária unindo autores, obras e públicos.
Foram alguns momentos de leitura só para lembrar o quanto eu gostaria de ter me dedicado ao tema e ser um erudito na área, por puro prazer.
Mas minha vida caminhou para outro sentido e outras estradas...
Desejo aos amantes da literatura que apreciem o quanto puderem a crítica literária, pois ela lhes dará um horizonte imenso de novas interpretações e noções muitas vezes não percebidas pelo leitor comum.
Que delícia! Que agradável!
Li poucas páginas, cerca de 30.
Nos três prefácios - 1957, 1962 e 1981 - Candido diz das razões do livro. Explica a sua teoria sobre a literatura como sistema, que gera tradição e que tem uma continuidade no tempo.
Seu livro aborda o que ele chama de "momentos decisivos" para que se possa perceber uma Literatura Brasileira como sistema a partir de 1750. Duas referências: Arcadismo e Romantismo.
Sua tese é muito bem elaborada. Tem sentido. Ele não desconsidera ou diminui a literatura anterior, mas diz que a partir dos árcades e dos românticos se tem uma tradição literária unindo autores, obras e públicos.
Foram alguns momentos de leitura só para lembrar o quanto eu gostaria de ter me dedicado ao tema e ser um erudito na área, por puro prazer.
Mas minha vida caminhou para outro sentido e outras estradas...
Desejo aos amantes da literatura que apreciem o quanto puderem a crítica literária, pois ela lhes dará um horizonte imenso de novas interpretações e noções muitas vezes não percebidas pelo leitor comum.
sábado, 19 de março de 2011
Drummond estupefato com o que dizem de um poema seu
"Julho, 25 - Aturdido, leio no jornal o artigo em que se analisa um de meus poemas à luz das novas teorias lítero-estruturalistas. Travo conhecimento com expressões deste gênero: "dinamismo dos eixos paradigmáticos", "núcleo sêmico", "invariante semântica horizontal", "forma de referência parcializante e indireta", "matriz barthesiana"... O poeminha, que me parecia simples, tornou-se sombriamente complicado, e me achei um monstro de trevas e confusão."
(Carlos Drummond de Andrade)
COMENTÁRIO:
Quando li esse trecho do diário de Drummond, que está na contracapa do livro "O observador no escritório" da Editora Record, me peguei rindo sozinho.
Ele disse tudo!
Muitas vezes, ao longo de minha vida, me senti um lixo por não entrar em minha mente aqueles nomes horríveis que os "especialistas" inventam para as coisas da gramática.
Cada vez que alguém diz que escrevo bem, fico me perguntando como poderia ser se eu jamais soube aqueles nomes feios de construção sintática ou figuras de linguagem que as gramáticas e gramáticos insistem em dizer que são importantes para alguém que, em tese, lidaria com a confecção dos textos em nossa língua.
Eu escrevo, mas se sei escrever eu não sei. Mas também não tem importância alguma, para mim, o que os "especialistas" pensam das construções gramaticais de meus textos. Se as pessoas gostarem do que leram, já está de bom tamanho.
COMENTÁRIO:
Quando li esse trecho do diário de Drummond, que está na contracapa do livro "O observador no escritório" da Editora Record, me peguei rindo sozinho.
Ele disse tudo!
Muitas vezes, ao longo de minha vida, me senti um lixo por não entrar em minha mente aqueles nomes horríveis que os "especialistas" inventam para as coisas da gramática.
Cada vez que alguém diz que escrevo bem, fico me perguntando como poderia ser se eu jamais soube aqueles nomes feios de construção sintática ou figuras de linguagem que as gramáticas e gramáticos insistem em dizer que são importantes para alguém que, em tese, lidaria com a confecção dos textos em nossa língua.
Eu escrevo, mas se sei escrever eu não sei. Mas também não tem importância alguma, para mim, o que os "especialistas" pensam das construções gramaticais de meus textos. Se as pessoas gostarem do que leram, já está de bom tamanho.
William
domingo, 11 de julho de 2010
Antonio Candido: Humanismo e Socialismo
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| Homenagem a Antonio Candido. Foto: FPA |
Estou fuçando em meus papéis, pilhas de papéis, para dar um jeito de reduzi-los, haja vista que já está difícil transitar em minha casa.
Peguei um texto de 14 páginas para ler sobre o mestre Antonio Candido. Eu o imprimi da internet faz quase um ano. São algumas citações de Candido postas no blog Viva Babel. O blog, por sinal, é muito bom e eu o recomendo aos amantes da cultura.
Cito aqui algumas frases também citadas no Blog sobre o texto de Candido "O direito à literatura", no livro Vários Escritos (São Paulo, Duas Cidades, 1995) e também de seu discurso feito no recebimento do troféu Juca Pato em 2008.
O PODER DOS CLÁSSICOS
O poder universal dos grandes clássicos: "ultrapassam a barreira da estratificação social e de certo modo podem redimir as distâncias impostas pela desigualdade econômica, pois têm a capacidade de interessar a todos e devem ser levados ao maior número".
CONCEITO DE HUMANIZAÇÃO
"O processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso de beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante".
SER ESSENCIALMENTE PROFESSOR
Antonio Candido por si mesmo: "Tenho gosto e vocação para transmitir aos outros o que sei, e como costumava dizer Antônio de Almeida Júnior, o professor não é obrigado a criar saber, mas sim a transmiti-lo. Esta foi a tarefa que sempre me atribuí". (Antonio Candido em entrevista concedida em jun/1993 a Gilberto Velho e Yonne Leite, do Museu Nacional da UFRJ)
UM LEITOR CRÍTICO QUE VIROU PROFESSOR DE LITERATURA
Antonio Candido fala de como passou de "crítico titular" do jornal Folha da Manhã a professor de literatura.
"Foi nessa tarefa, não na Universidade, que me formei como crítico, pois sou licenciado em Ciências Sociais, não Letras, e naquele tempo (anos 40) dava aulas de Sociologia. O meu tirocínio foi portanto adquirido dentro da tradição franco-brasileira do jornalismo, o que me ensinou antes de mais nada a procurar clareza e simplicidade na escrita. Sou, portanto, um crítico de jornal que passou mais tarde ao ensino da literatura, o contrário do que é frequente em nossos dias".
COMENTÁRIO DO BLOG: que tristeza ver o que virou a grande imprensa e os jornalões após a eleição do presidente Lula no Brasi a partir de 2002. A imprensa comercial virou um Partido da Imprensa Golpista (PIG) e deixou de fazer o bom e velho jornalismo que tanto contribuía até para a formação social e da sociabilidade. Foi-se o tempo do jornalismo das grandes empresas...
INTELECTUAL SOCIALISTA CONTRA A DITADURA DO ESTADO NOVO
"Aquele momento era de intensa politização dos intelectuais, segundo o espírito predominante no decênio que sucedeu ao movimento armado de 1930. Eu embarquei nesse rumo, politizando talvez um pouco demais a minha atividade crítica, mas correspondendo assim ao ânimo de militância que era o dos intelectuais contrários à ditadura do Estado Novo. Afinado com as tendências radicais do momento, assumi então posições socialistas que não abandonei mais e continuam a nortear as minhas convicções relativas à necessidade de transformar profundamente a nossa sociedade desigual e mutiladora".
TRADIÇÃO DO HUMANISMO OCIDENTAL PÓS SÉCULO XVIII
"Segundo a qual o homem é um ser capaz de aperfeiçoamento, e que a sociedade pode e deve definir metas para melhorar as condições sociais e econômicas, tendo como horizonte a conquista do máximo possível de igualdade social e econômica e de harmonia nas relações. O tempo presente parece duvidar e mesmo negar essa possibilidade, e há em geral pouca fé nas utopias. Mas o que importa não é que os alvos ideais sejam ou não atingíveis concretamente na sua sonhada integridade. O essencial é que nos disponhamos a agir como se pudéssemos alcançá-los, porque isso pode impedir ou ao menos atenuar o afloramento do que há de pior em nós e em nossa sociedade. E é o que favorece a introdução, mesmo parcial, mesmo insatisfatória, de medidas humanizadoras em meio a recuos e malogros. Do contrário, poderíamos cair nas concepções negativistas, segundo as quais a existência é uma agitação aleatória em meio a trevas sem alvorada".
COMENTÁRIO FINAL
Como disse um dia desses em uma postagem, nos enaltece como seres humanos termos entre nós pessoas como Eric Hobsbawn, Antonio Candido, Nelson Mandela, Maria da Conceição Tavares, Noam Chomski, Luís Inácio Lula da Silva, dentre outros ícones humanistas que nos ajudam a pensar e refletir sobre o "mundo mundo vasto mundo" (Drummond) que habitamos.
E não podemos perder a Utopia, pois acredito que outro mundo é possível!
Post Scriptum (17/1/16):
Relendo esta postagem mais de cinco anos depois, gostei muito dela. Muito atual! Alguns ícones meus morreram neste período como, por exemplo, Hobsbawn, Mandela e Saramago, mas a necessidade de acreditar num mundo mais humanista segue firme e imprescindível.
William
Post Scriptum 2 (18/1/16):
Fui reler horas depois a postagem novamente e acabei indo estudar o incômodo que me causava a palavra "papeis" escrita sem o acento agudo em meu texto de 2010.
Segundo o Novo Acordo Ortográfico, que entrou em vigor em 2009, a palavra "papéis" continua sendo acentuada, porque só caíram os acentos dos ditongos abertos OI e EI quando estão na posição de paroxítonas; eles continuam na posição de oxítonas.
Desculpem a falha gramatical formal (eu sinceramente não ligo para isso, mas sei que muitos leitores ligam).
William
Post Scriptum 3 (0:33h de sábado 13/5/17):
Faleceu nesta sexta-feira 12 de maio, aos 98 anos de idade, o professor Antonio Candido. Que tristeza perder nossas referências! Professor Candido, presente!
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quinta-feira, 1 de abril de 2010
Literatura e sociedade - Antonio Candido (leituras)
Foto de William Mendes: Noturnas de Brasília em mar/10 - ao fundo, Explanada dos Ministérios.
Apesar de meu parco tempo para o ócio e a refeição cultural neste ano decisivo para o povo brasileiro, peguei por instantes (na estante) o livro do mestre Antonio Candido que analisa a literatura e suas relações com as sociedades.
Os estudos do mestre são antigos e datam de décadas atrás - antes de 1965 - e "procuram focalizar vários níveis da correlação entre literatura e sociedade".
CRÍTICA E SOCIOLOGIA
Já no primeiro texto que li aprendi conceitos claros sobre a diferença que existe entre fazer uma leitura crítica de uma obra e fazer uma leitura sociológica da mesma.
Antonio Candido nos ensina que nenhum dos extremos que existem na crítica literária são satisfatórios. Não é o ideal adotar a tese de que toda obra está condicionada ao seu meio e contexto externo, bem como também não é satisfatório dizer o inverso, que toda obra deve ser analisada sem qualquer consideração ao contexto externo e tempo histórico e considerando somente sua estrutura e economia interna.
"Hoje sabemos que a integridade da obra não permite adotar nenhuma dessas visões dissociadas; e que só a podemos entender fundindo texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra, em que tanto o velho ponto de vista que explicava pelos fatores externos, quanto o outro, norteado pela convicção de que a estrutura é virtualmente independente, se combinam como momentos necessários do processo interpretativo."
Conceitos esclarecedores:
Sociologia da literatura: "É uma disciplina de cunho científico, sem a orientação estética necessariamente assumida pela crítica".
Critica melhorou visão interpretativa: "E nós verificamos que o que a crítica moderna superou não foi a orientação sociológica, sempre possível e legítima, mas o sociologismo crítico, a tendência devoradora de tudo explicar por meio dos fatores sociais".
O autor nos explica que "o perigo, tanto na sociologia quanto na crítica, está em que o pendor pela análise oblitere a verdade básica, isto é, que a precedência lógica e empírica pertence ao todo, embora apreendido por uma referência constante à função das partes".
Bibliografia:
CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. In: Grandes nomes do pensamento brasileiro. Publifolha, 2000.
Os estudos do mestre são antigos e datam de décadas atrás - antes de 1965 - e "procuram focalizar vários níveis da correlação entre literatura e sociedade".
CRÍTICA E SOCIOLOGIA
Já no primeiro texto que li aprendi conceitos claros sobre a diferença que existe entre fazer uma leitura crítica de uma obra e fazer uma leitura sociológica da mesma.
Antonio Candido nos ensina que nenhum dos extremos que existem na crítica literária são satisfatórios. Não é o ideal adotar a tese de que toda obra está condicionada ao seu meio e contexto externo, bem como também não é satisfatório dizer o inverso, que toda obra deve ser analisada sem qualquer consideração ao contexto externo e tempo histórico e considerando somente sua estrutura e economia interna.
"Hoje sabemos que a integridade da obra não permite adotar nenhuma dessas visões dissociadas; e que só a podemos entender fundindo texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra, em que tanto o velho ponto de vista que explicava pelos fatores externos, quanto o outro, norteado pela convicção de que a estrutura é virtualmente independente, se combinam como momentos necessários do processo interpretativo."
Conceitos esclarecedores:
Sociologia da literatura: "É uma disciplina de cunho científico, sem a orientação estética necessariamente assumida pela crítica".
Critica melhorou visão interpretativa: "E nós verificamos que o que a crítica moderna superou não foi a orientação sociológica, sempre possível e legítima, mas o sociologismo crítico, a tendência devoradora de tudo explicar por meio dos fatores sociais".
O autor nos explica que "o perigo, tanto na sociologia quanto na crítica, está em que o pendor pela análise oblitere a verdade básica, isto é, que a precedência lógica e empírica pertence ao todo, embora apreendido por uma referência constante à função das partes".
Bibliografia:
CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. In: Grandes nomes do pensamento brasileiro. Publifolha, 2000.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Antonio Candido - Formação da Literatura Brasileira (2)
Lendo o prefácio à segunda edição, nota-se o reforço feito pelo autor no objetivo principal da obra:
"Ora, o presente livro é sobretudo um estudo de obras; a sua validade deve ser encarada em função do que traz ou deixa de trazer a este respeito."
"Ora, o presente livro é sobretudo um estudo de obras; a sua validade deve ser encarada em função do que traz ou deixa de trazer a este respeito."
E ele completa mais adiante:
"... encarar este livro como uma espécie de vasta teoria da literatura brasileira em dois volumes, à maneira do que fizeram alguns, é passar à margem da contribuição que desejou trazer para o esclarecimento de dois dos seus períodos."
Antonio Candido defende a tese da literatura como sistema:
"Mas há várias maneiras de encarar e de estudar a literatura. Suponhamos que, para se configurar plenamente como sistema articulado, ela dependa da existência do triângulo 'autor-obra-público', em interação dinâmica, e de uma certa continuidade da tradição."
Outra ideia importante defendida por Candido é de que a nossa literatura, bem como as demais latino-americanas, é uma literatura empenhada:
"Quero me referir à definição da nossa literatura como eminentemente interessada. Não quero dizer que seja 'social', nem que deseje tomar partido ideologicamente. Mas apenas que é toda voltada, no intuito dos escritores ou na opinião dos críticos, para a construção duma cultura válida no país... A literatura do Brasil, como a dos outros países latino-americanos, é marcada por esse compromisso com a vida nacional no seu conjunto, circunstância que inexiste nas literaturas dos países de velha cultura."
"... encarar este livro como uma espécie de vasta teoria da literatura brasileira em dois volumes, à maneira do que fizeram alguns, é passar à margem da contribuição que desejou trazer para o esclarecimento de dois dos seus períodos."
Antonio Candido defende a tese da literatura como sistema:
"Mas há várias maneiras de encarar e de estudar a literatura. Suponhamos que, para se configurar plenamente como sistema articulado, ela dependa da existência do triângulo 'autor-obra-público', em interação dinâmica, e de uma certa continuidade da tradição."
Outra ideia importante defendida por Candido é de que a nossa literatura, bem como as demais latino-americanas, é uma literatura empenhada:
"Quero me referir à definição da nossa literatura como eminentemente interessada. Não quero dizer que seja 'social', nem que deseje tomar partido ideologicamente. Mas apenas que é toda voltada, no intuito dos escritores ou na opinião dos críticos, para a construção duma cultura válida no país... A literatura do Brasil, como a dos outros países latino-americanos, é marcada por esse compromisso com a vida nacional no seu conjunto, circunstância que inexiste nas literaturas dos países de velha cultura."
William
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Antonio Candido - Formação da Literatura Brasileira
Lendo algumas palavras do professor Antonio Candido, em seu Formação da Literatura Brasileira, é chocante vê-lo dizer que algumas literaturas são completas, no sentido de desenvolver nos leitores todas as capacidades da sensibilidade, enquanto outras restringiriam irremediavelmente o horizonte do leitor, caso este não adentrasse nas demais literaturas.
É chocante, não? Ele cita como completas as literaturas alemã, francesa, italiana, inglesa, até a russa e espanhola.
Já a brasileira, é galho da portuguesa, que é arbusto de segunda ordem no jardim.
Apesar disso, ele diz que devemos tratar com todo carinho a jovem Literatura Brasileira.
Eu que sou todo lacunas em relação à literatura (acho que comecei a ler muito tarde, ou comecei a trabalhar muito cedo, sei lá). Mas é fato que acabei lendo muito pouco a nossa literatura.
Estou por aí, conhecendo uma coisinha aqui, outra ali, todos os dias, em relação a nossos autores antigos e novos.
Ler sempre. Ler e ler.
Ler para saber. Ler para compreender.
É chocante, não? Ele cita como completas as literaturas alemã, francesa, italiana, inglesa, até a russa e espanhola.
Já a brasileira, é galho da portuguesa, que é arbusto de segunda ordem no jardim.
Apesar disso, ele diz que devemos tratar com todo carinho a jovem Literatura Brasileira.
Eu que sou todo lacunas em relação à literatura (acho que comecei a ler muito tarde, ou comecei a trabalhar muito cedo, sei lá). Mas é fato que acabei lendo muito pouco a nossa literatura.
Estou por aí, conhecendo uma coisinha aqui, outra ali, todos os dias, em relação a nossos autores antigos e novos.
Ler sempre. Ler e ler.
Ler para saber. Ler para compreender.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Livro: São Bernardo (1934) - Graciliano Ramos
Leitura do livro de Graciliano Ramos e do ensaio de Lafetá sobre o livro
Análise crítica e discussão do ensaio “O mundo à revelia”, de João Luiz Lafetá (sobre São Bernardo, de Graciliano Ramos)
Introdução
Uma das principais questões a respeito da crítica literária é definirmos qual seria sua principal função. Ao longo de sua história – do século XIX até nossos dias – ela já serviu para discutir qual o papel da literatura, serviu para debater a própria arte literária, serviu para justificar alguns autores e obras e rejeitar outros (sob a ótica do status quo), teve o importante papel de exegese, instigou grandes debates sobre a obra ser fechada em si mesma ou ter relação com o mundo exterior e seu contexto e, nos dias atuais, já é confundida como apresentadora de bons ou maus produtos para o consumidor de livros.
Acredito que um dos papéis da crítica literária seja o de facilitar a leitura de uma obra, de modo a fazer o leitor chegar o mais próximo possível daquilo que o autor procura transmitir. É evidente que a leitura, do ponto de vista de cada leitor, sempre terá algo de subjetivo. Porém, uma boa crítica literária pode ajudar sobremaneira no percurso da leitura de uma obra. Essa ajuda ao leitor pode ocorrer antes, durante ou após a leitura da obra.
Com a mercantilização capitalista da literatura contemporânea, a crítica literária ficou um pouco prejudicada, pois o que mais temos hoje são resenhas e resenhistas ao invés de críticos literários. Passou-se a confundir resenhas e indicação de livros para aquisição nas mega livrarias com análise da obra e técnicas literárias envolvidas em sua confecção.
O ensaio de Lafetá
O texto do autor é dividido em cinco partes.
1. Dois capítulos perdidos
Lafetá se desculpa da paráfrase longa (justificada pela fascinação ao estilo) e destaca a qualidade da técnica narrativa:
“o que ressalta primeiro, naturalmente, é a maneira direta de tratar o assunto. Há algo para ser dito e se vai até lá sem rodeios, há um projeto a ser cumprido e se tenta cumpri-lo de imediato” - e observa adiante: “energia – é o que ressuma destas três primeiras páginas”.
O leitor é jogado “diretamente na ação, no meio dos fatos”.
Lafetá explica que o personagem narrador Paulo Honório surge quase por inteiro no primeiro capítulo, sem dizer explicitamente ao leitor que é “um homem empreendedor, dinâmico, dominador, obstinado, que concebe uma empresa, trata de executá-la, utiliza os outros para isso e não se desanima com os fracassos”.
Ou seja, leitor, esse é o “eu” da história: “à imagem de seu estilo, é direto e sem rodeios, concentrado sobre si mesmo e sobre seu trabalho, decidido, brusco”.
Ao contrário da opinião do narrador da história, o crítico afirma não terem sido os dois capítulos perdidos:
“Sua figura dominadora e ativa está criada. Fomos já introduzidos em seu mundo... um mundo que se curva à sua vontade”.
Conclui a primeira parte do ensaio destacando a coesão da técnica narrativa “totalmente imbricados surgem, à nossa frente personagem e ação. Paulo Honório nasce de cada ato, mas cada ato nasce por sua vez de Paulo Honório... este caráter compacto e dinâmico, esta ligação íntima entre o homem e o ato (espelhada pela linguagem direta, brutal, econômica, pelo ritmo rápido dos dois capítulos), esta interação entre o ser e o fazer vão compor a construção do romance”.
2. A posse de São Bernardo
Explicando a distinção teórica entre “sumário narrativo” e “cena”, os dois modos básicos de narrar, Lafetá relaciona o uso do sumário inicial não para destacar vários eventos em um tempo vasto e sim para marcar a atitude do narrador “sem nenhuma análise psicológica, mas graças à modulação do tom narrativo, ficamos conhecendo o caráter violento e maciço do herói”.
Durante os primeiros capítulos, vemos a história do protagonista ser narrada de seu nascimento até a conquista da fazenda São Bernardo, entre os capítulos três a oito, através de maior uso de sumários, onde a velocidade do tempo narrativo é acelerada. Lafetá explica a perfeição do casamento personagem/ação:
“Daí a coesão da narrativa, que une indissoluvelmente personagem e ação. Pois Paulo Honório, representante da modernidade que entra no sertão brasileiro, é o emblema complexo e contraditório do capitalismo nascente, empreendedor, cruel, que não vacila diante dos meios e se apossa do que tem pela frente, dinâmico e transformador. ‘A construção de um burguês: eis o conteúdo da primeira parte de São Bernardo’. Observou com acerto Carlos Nelson Coutinho”.
Cabe aqui uma informação importante de Antonio Candido quando diz em seu texto “Crítica e sociologia” que é preciso parcimônia para não exagerar na ideia de que a relação obra e ambiente é indispensável, como também não afirmar o contrário, de que não deve haver vínculo algum:
“É o que tem ocorrido com o estudo da relação entre a obra e o seu condicionamento social, que a certa altura do século passado chegou a ser vista como chave para compreendê-la, depois foi rebaixada como falha de visão...”.
Vendo a forma como Graciliano Ramos constrói São Bernardo, é possível perceber o que explica o professor Antonio Candido, pois o contexto externo, social, se transforma em construção interna na obra, o que colabora para a economia da mesma e dá sentido na forma como o personagem-narrador apresenta a sua história:
“Hoje sabemos que a integridade da obra não permite adotar nenhuma dessas visões dissociadas; e que só a podemos entender fundindo texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra, em que tanto o velho ponto de vista que explicava pelos fatores externos, quanto o outro, norteado pela convicção de que a estrutura é virtualmente independente, se combinam como momentos necessários do processo interpretativo. Sabemos, ainda, que o externo (no caso, o social) importa, não como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na constituição da estrutura, tornando-se, portanto, interno”.
Outra técnica narrativa interessante apontada pelo crítico nesta segunda parte são as marcações temporais, como cronômetro, para gerar o efeito de crueldade e frieza com que o personagem alcança seu objetivo de tomar São Bernardo e ser seu novo dono.
Esse momento decisivo no romance é contado em cena com uma forte tensão na hora da negociação entre dívida e preço final da fazenda.
Lafetá cita V. Propp para comparar a primeira parte do romance às técnicas dos contos populares onde temos os heróis com danos a resolver ou carências a suprir. Paulo Honório irá até o capítulo oito para resolver os problemas inerentes a aquisição e estabilização da fazenda São Bernardo.
3. Madalena
Começa outro núcleo do romance. A cena passa a ser dominante. Vem agora a busca de outra posse: Madalena.
A chave do novo núcleo surge de um novo desejo do protagonista: “Amanheci um dia pensando em casar”.
A observação de Lafetá sobre a técnica de trazer o algo a mais, mesmo em uma linguagem precisa e seca, é fantástica: “A comparação entre d. Marcela e Madalena liquida, para Paulo Honório, o valor da primeira... Mas, se d. Marcela foi afastada, é a vez de Madalena penetrar nas suas preocupações; o terceiro olhar (a terceira notação) mostra não apenas a observação fria do primeiro ou a aprovação tácita do segundo, mas um certo grau de envolvimento e de fascinação: ‘A loura tinha a cabecinha inclinada e as mãozinhas cerradas, lindas mãos, linda cabeça.’ O diminutivo (mãozinhas, cabecinha) não descreve apenas, imprime à descrição um certo grau de afetividade que a repetição do adjetivo (lindas, linda) vem reforçar”.
A diferença de interesse do personagem está na linguagem para referir-se às duas raparigas.
Ao final deste objetivo, impera a mesma manipulação para apossar-se das coisas. Tudo se curva às suas vontades. O que seria um ano para o casamento se converte em uma semana.
4. Dínamo emperrado
Lafetá segue explicando a subordinação dos elementos do romance à ação e ao personagem.
Cita Antonio Candido ao lembrar a força do sentimento de propriedade que perpassa pelo enredo do romance: “De fato, o sentimento de propriedade constitui um dos elementos temáticos que unificam o livro. Paulo Honório, afirma Antonio Candido, ‘é modalidade de uma força que o transcende e em função da qual vive: o sentimento de propriedade' ”.
Aqui chegamos onde gostaríamos, que é discutir o que Candido fala a respeito da relação entre texto e contexto em seu “Crítica e Sociologia”. Lafetá observa a analogia inevitável das características internas do romance com as externas contextuais.
“Se alinharmos todas as características examinadas – ação, energia, objetividade, dinamismo, capacidade transformadora e sentimento de propriedade – torna-se inevitável o surgimento de uma analogia entre o herói e a burguesia como classe”.
O crítico afirma “que Paulo Honório simboliza, no interior do romance, a força modernizadora que atualiza de forma devastante o universo de São Bernardo”.
A mesma relação de precificação das coisas, das posses de Paulo Honório – São Bernardo, Margarida, Madalena – é “Uma das mais sérias consequências da produção para o mercado (característica do capitalismo) é o afastamento e a abstração de toda qualidade sensível das coisas, que é substituída na mente humana pela noção de quantidade. O valor-de-uso que toda mercadoria possui é distanciado e tornado implícito pela produção de valores-de-troca”. (Ler AQUI sobre essa questão em Marx)
Veja aqui uma cena onde o proprietário fala da aquisição e remessa de Margarida, aquela que fez a vez de sua mãe e que estava desaparecida: “Ó Gondim, já que tomou a empreitada, peça ao vigário que escreva ao padre Soares sobre a remessa da negra... É conveniente que a mulher seja remetida com cuidado, para não se estragar na viagem”.
Lafetá fala da reificação das coisas do mundo na produção capitalista (contexto) e mostra como isso está relacionado ao modo de ver o mundo do personagem Paulo Honório (interno):
“O homem reificado é este aleijão que ele (protagonista) nos descreve e vemos por toda parte: o coração miúdo e uma boca enorme, dedos enormes. O sentimento de propriedade, que unifica todo o romance do qual o ciúme é apenas uma modalidade, distorce o homem desta maneira radical. A vida agreste, que o fez agreste, é a culpada por Paulo Honório não ser capaz de enxergar Madalena. A vida agreste são as lutas pela propriedade, pelo rebanho, pelas plantações de algodão e mamona, pelo poder e pelo capital. O homem agreste é aquele ser no qual se transformou Paulo Honório”.
À medida em que o protagonista defende seus interesses econômicos, aumentam os conflitos com Madalena. Ela se espanta com as atitudes dele e ele se surpreende do espanto dela.
O crítico destaca bem as três partes da história com forte marcação temporal: a compra de São Bernardo; a conquista de Madalena; o diálogo final na capela antes da morte de Madalena.
5. Narrativa e busca
Análise esplêndida fez Lafetá neste desfecho onde a perda do controle do mundo por Paulo Honório (com a morte de Madalena e a revolução) se mostra até na forma com que narra sua história.
O protagonista, ao final de sua narrativa, não manda em mais nada. Até o rumo de seus passos é decidido por suas pernas e não por ele mesmo:
“E os meus passos me levavam para os quartos como se procurassem alguém”.
Como diz o crítico: “É, enfim, o mundo à revelia, fora de seu controle”.
Lafetá explica a duplicidade temporal que marca o romance: os capítulos um, dois e trinta e seis (e também o dezenove) estão no tempo da enunciação; os demais estão no tempo do enunciado (os eventos que ocorreram).
Fica evidente a diferença de velocidade e a linguagem dos tempos distintos: linguagem seca e tempo rápido no tempo do enunciado; linguagem de lamentação elegíaca e compasso lento no tempo da enunciação.
O que seria a busca? Como diz Lukács sobre o romance “é a história da busca de valores autênticos por um personagem problemático, dentro de um universo vazio e degradado, no qual desapareceu a imanência do sentido à vida”.
Bibliografia
CANDIDO, Antonio. “Crítica e Sociologia”, in: Literatura e Sociedade. Coleção grandes nomes do pensamento brasileiro. Publifolha, 2000.
RAMOS, Graciliano. São Bernardo. 74ª edição. Editora Record, RJ 2002.
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Post Scriptum (14/4/19):
No fim de semana de 13 e 14 de abril, reli esta postagem, que me levou a reler o livro pela terceira vez - li entre a manhã e a noite de sábado 13. Fiz postagem a respeito do livro (ler AQUI) e reli o texto de Lafetá, estudando com atenção; e revisei esta postagem de crítica. O processo me gerou bastante reflexão.
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terça-feira, 13 de maio de 2008
Sobre o conceito de História (1940) - Tese VII [excerto] - Walter Benjamin
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| Walter Benjamin, em 1928. Foto: Wikipedia. |
"Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais.
O materialista histórico os contempla com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Eles devem a sua existência não só aos esforços dos grandes gênios que os produziram, mas também à anônima servidão dos seus contemporâneos.
Não há documento da cultura que não seja ao mesmo tempo um documento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo".
(os sublinhados são destaques meus - William)
(Foram aproveitadas as traduções de Sérgio Paulo Rouanet e de Flávio R. Kothe.)
BENJAMIN, Walter. "Sobre o conceito de história". In: Obras Escolhidas I. Trad. Sérgio P. Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985.
BENJAMIN, Walter. "Teses sobre a filosofia da história". In: Walter Benjamin: Sociologia. Org. Flávio R. Kothe. São Paulo, 1991.
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domingo, 27 de abril de 2008
Ainda o "Instinto de nacionalidade" - Machado de Assis
Aula do prof. Hansen em 20.9.07 (USP)
Esse texto machadiano é escrito em 1873.
Machado escreve para os estrangeiros (norte-americanos) e para falar de literatura contemporânea (1836-1873).
Ele nunca escreve de forma vulgar. Ele alude, sugere, mas nunca escreve vulgaridades. (ele até parodia o naturalismo; ele critica muito a vulgaridade de Eça de Queiroz e outros)
Analisemos os termos:
"instinto": termo tirado da biologia. É um termo técnico. A natureza fornece aos animais - no sentido de uma força irracional, incontrolável e natural.
"nacionalidade": não é natural. É política. Os homens estão programados para se agregarem enquanto nação?
De onde viria essa ideia de que uma nação tem um "Ethos", um caráter?
É histórico, muito em voga nos séculos XVIII-XIX, principalmente com os primeiros românticos alemães: o professor citou Friedrich Schlegel "Athenaum". (Explanação da ideia de nacionalidade a seguir):
Poesia: universal progressivo - teoria que ela é progresso. A poesia não admitiria cânone, pois teria que sempre inventar o novo.
Schlegel em 1812-1814 cria uma disciplina chamada "História das literaturas".
Homero - gregos (Ilíada/Odisseia) mitos e regras sociais
Virgílio - romanos - criação de Roma
Dante - língua italiana
Camões - Europa cristã
Descobre os poemas medievais. Descobre a ideia da germanidade - "tradição guerreira do povo alemão". Vai buscar manifestações do Ethos alemão nos momentos em que obras significativas mostraram esse espírito nacional alemão. Esse seria o papel da história da literatura para pregar a ideia do caráter do Estado Nacional.
A literatura alemã seria o item de coesão do povo na guerra, nos costumes, na cultura etc. A literatura é civilização pela própria sistematização da cultura, da língua e da nacionalidade.
(Hansen diz que vários filósofos associam o nazismo, o antissemitismo e seus ideais aos princípios românticos)
É um projeto autoritário. A literatura será um cimento ideológico obrigatório para adultos e crianças. (cita Mme de Staël "De l'Alemagne"). Ela foi lida no Brasil.
Em Paris, "Nicteroy" é publicado em 1836. Magalhães escreve nessa revista: "Discurso sobre a literatura brasileira" - fala em um organismo que tem um Ethos e que está em evolução contínua.
Alegoria de uma montanha: os autores contemporâneos a ele têm uma "missão" e têm que apresentar ao povo a natureza de seu país. A literatura "educa", tem papel de formação. No começo, seria importante a cor local. Representação "Indígena Civilizado".
Quem vai realizar esse projeto é José de Alencar com o idealismo romântico alemão. Fará através da literatura toda uma construção social com o objetivo de formar nossas elites, na nossa cultura local, associada aos ritos da Corte:
XV - Ubirajara, duas tribos...; XVI - Iracema, índio + branco...; XVII - O Guarani, a formação do brasileiro... etc.
Machado diz que esse "Instinto" é que todos querem falar da nação, do Brasil que se constituía.
(O professor diz que ser ingênuo hoje (2007) é ser "cínico". Diz que não dá pra ser romântico idealizador depois de Auschwitz)
No texto de Machado, professor diz que há uma organicidade na nossa literatura. Ideia de progressão evolutiva autêntica brasileira.
"Telos": racionalidade no fim. Após 1822, voltamos ao XVI e professor defende que já éramos brasileiros.
A literatura = projeto canônico. Destaca onde, nos 4 séculos, apareceu o nosso Ethos.
Anchieta/Nobrega > Gregório > Durão > Alencar > Machado > M. Andrade > A. Candido... = A Literatura Brasileira > documentar a realidade brasileira
Antonio Candido segue linha de Mário de Andrade, diz o prof. Hansen, quando fez Formação da Literatura Brasileira.
Atualmente, a globalização acaba com a ideia de nação. Hoje, seria difícil pensar esse projeto romântico de construção nacionalista.
Uma possível conclusão:
LITERATURA = IDEOLOGIA DE CLASSE (sempre foi usada assim).
sexta-feira, 25 de abril de 2008
Instinto de nacionalidade - Machado de Assis
Leitura de textos
Machado avalia de forma positiva o esforço feito pelos autores nacionais para dar um colorido próprio à literatura nacional.
Elogia precursores como Basílio da Gama e Santa Rita Durão e critica Gonzaga que não soube desligar-se das faixas da arcádia nem dos preceitos do tempo.
Acha injusto, todavia, criticar os poetas coloniais, pois crê não ter sido possível para eles lutarem por independência literária se nem a política tínhamos.
Quando elogia Basílio da Gama e Durão, é por darem uma cor local às obras e não independência.
Assim como pensa que a civilização brasileira não está ligada ao elemento indígena e que nem dele recebeu influxo algum, também não acha correto excluí-los da poesia contemporânea (da época) como pensava Varnhagen.
Era 1873, e Machado afirma ainda não existir Literatura Brasileira.
Achava um exagero buscar os títulos da nossa personalidade literária entre as tribos vencidas. Ex: “Timbiras”, “Juca-Pirama” e “Tabira” (Gonçalves Dias).
Uma opinião importante de Machado e que marcaria toda a sua obra é de que a literatura para ser nacional não tem, necessariamente, que falar de assunto local, pois isso limita a literatura:
“... não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região; mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam”.
O autor comenta com pesar que sente muito não ter bons críticos no país.
Romance
O romance e a poesia lírica são as formas mais encontradas, cultivadas e vendidas no Brasil. Diz não termos aqui livros de filosofia, linguística (isso em 1873), de crítica histórica, de alta política etc.
Os costumes do interior são o que melhor dão o colorido da nação. (na capital do país havia grande influência europeia)
O espetáculo da natureza dá páginas animadas e pitorescas, mas pensa que os escritores exageram na descrição e pecam em outras qualidades essenciais.
Também pensa faltar ainda competência aos escritores para tratar de análise de paixões e caracteres.
Com relação às tendências morais do romance brasileiro, acha que são boas. (critica a escola francesa)
Com respeito às tendências políticas e sociais, os escritores brasileiros passam longe do ideal: “... seus principais elementos são, como disse, a pintura dos costumes, luta das paixões, os quadros da natureza, alguma vez o estudo dos sentimentos e dos caracteres; com esses elementos, que são fecundíssimos, possuímos já uma galeria numerosa e a muitos respeitos notável.”.
Nos contos, elogia o Sr. Luís Guimarães Junior – folhetinista elegante e jovial.
A poesia
Elogia Castro Alves, considerando-o eterno e um incentivo às vocações nascentes.
À poesia já não faltavam fogo nem estro. Também não faltava sentimento de harmonia exterior.
Mas pecava na correção e no gosto. Faltava ser intrépida na expressão, pecava pela impropriedade das imagens, na obscuridade do pensamento.
Para construir painéis de cenas majestosas da natureza americana, há de serem expressos com simplicidade.
Cita Bernardo Guimarães, Varela e Álvares de Azevedo:
“Um poeta não é nacional só porque insere nos seus versos muitos nomes de flores ou aves do país, o que pode dar uma nacionalidade de vocabulário e nada mais”. É preciso toques naturais.
O teatro
Não há!
A língua
Machado não gosta do uso dos solecismos da língua comum, mas acha pior a “exageração de princípio” no uso da influência da língua francesa.
Aceita mudanças no tempo a que a língua está sujeita mas acha que “a influência popular tem um limite”.
“Cada tempo tem o seu estilo”.
“Nem tudo tinham os antigos, nem tudo têm os modernos; com os haveres de uns e outros é que se enriquece o pecúlio comum”.
Veja AQUI a sequência do texto na postagem: Ainda o instinto de nacionalidade.
sexta-feira, 11 de abril de 2008
La Invención del Quijote - Francisco Ayala
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| Dom Quixote e Sancho Pança, ilustração de Gustave Doré. |
O texto nos fala um pouco sobre utilizar mitos em produções literárias como, por exemplo, o mito de Dom Juan, Fausto, os heróis de Homero etc e, neste caso de Cervantes, na criação do próprio mito.
Uma das reflexões que mais gostei é sobre a recepção da obra por parte do público em relação ao próprio contexto histórico. Ler Dom Quixote de La Mancha atualmente não é o mesmo que lê-lo quatro séculos atrás. Aliás, é sobre isso que nos alerta Ayala: ocorre na leitura atual o inverso do que ocorria naquela época.
Em 1605, os nossos protagonistas eram o que havia de novo e estranho para os leitores, enquanto os personagens secundários e o pano de fundo eram o cotidiano normal. Hoje, a história apresenta os protagonistas como seres conhecidos e ao menos já identificados, justamente os estranhos personagens Dom Quixote e Sancho Pança. Ao passo que todo o pano de fundo da história nos é totalmente estranho e, muitas vezes, inimaginável.
"Con esto llegó a invertirse la perspectiva del lector: aquello que para el de 1605 era extraño y estrambótico -a saber, don Quijote mismo, con su complemento, Sancho-, le resulta familiar al de hoy; lo que para éste es ya ajeno -el mundo cervantesco-, era para aquél inmediato y cotidiano."
Outra discussão muito interessante é sobre a história de que Cervantes seria um "gênio leigo", alguém que não tivesse consciência da obra que estava fazendo (um dos importantes críticos literários dessa tese é Miguel de Unamuno). Ayala nos diz que isso é outra teoria que não se sustenta.
"...pero es indudable que él tenía plena consciencia del sentido de su obra; consciencia profunda y entrañada, ya que ese sentido, siendo el de la situación cultural de conjunto, el de la conexión histórica, era también el de su propia vida individual."
Finalizando, há uma separação bem clara em relação a receptividade do primeiro volume em 1605 e o segundo em 1615. Aquele traz o espanto e a inovação e cria um mito, já este circula em meio a um público que conhece os personagens e está familiarizado com eles.
Dom Quixote é uma das obras mais conhecidas no mundo e uma das menos lidas. Isso é um pecado.
- Leiam a obra ao invés de ficarem somente ouvindo falar sobre ela.
Fonte bibliográfica do texto de Ayala:
CERVANTES, Miguel de. Don Quijote de La Mancha. Edición del IV Centenario, Editora Alfaguara, 2004.
terça-feira, 1 de abril de 2008
Leitura: "A arte como procedimento" de Chklovski
O autor é um dos formalistas russos da primeira metade do século XX.
No início ele apresenta a tese de Potebnia sobre "A arte é pensar por imagens", onde este diz não existir arte, e particularmente poesia, sem imagem.
A poesia seria uma maneira particular de pensar, a saber um pensamento por imagens. Isto levaria a uma economia e a uma leveza relativa.
Mais adiante, um dos alunos de Potebnia, Ovsianiko-Kulikovski, se viu obrigado a isolar a poesia lírica, a arquitetura e a música, e a ver aí uma forma singular de arte, arte sem imagens, e a defini-las como artes líricas que se dirigem imediatamente às emoções.
Essa teoria toda levou a seguinte teoria: "A arte é antes de tudo criadora de símbolos"
Chklovski, contrariando essa teoria, entende que o caráter estético de um objeto é o resultado de nossa maneira de percebê-lo.
Existem dois tipos de imagens:
-imagem como meio prático de pensar (prosaico)
-imagem como meio de reforçar a impressão (poético)
A IMAGEM POÉTICA É UM DOS MEIOS DE CRIAR UMA IMPRESSÃO MÁXIMA.
A imagem poética é um dos meios da língua poética. A imagem prosaica é um meio de abstração.
Bibliografia:
CHKLOVSKI, V. A arte como procedimento.
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segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
Pai contra Mãe, análise do conto de Machado de Assis (1906)
O conto está disponível para leitura aqui.
(a interpretação e anotações da aula são de minha responsabilidade)
Aula do professor Hansen sobre Machado de Assis – Leitura do conto Pai Contra Mãe.
Palavras-chave: estilo; autoria; ponto de vista.
A autoria em Machado está presente no texto enquanto composição, ponto de vista, foco, perspectiva.
No ponto de vista do autor está a escolha das matérias sociais.
Matéria social: a escravidão
Conto publicado em 1906. O contexto da história se passa 50 anos antes. O leitor, dezoito anos depois de 1888, já teve a experiência da escravidão. A república era uma realidade. Milhões de negros estavam por sua conta e risco.
O título é autoral. Não é do narrador (que está dentro do texto). O título vai marcar mercadoria e direito autoral. Também posicionar o leitor sobre o que lerá.
“Pai contra Mãe”: a preposição indica oposição, choque, conflito. Aviso: leitor, você vai se chocar.
(Hansen faz uma fala sobre Marxismo e a contemporaneidade. Não há futuro, pois tudo é imediato. Antes, o presente era a negação; o futuro, era a esperança. Faz a marcação temporal dos anos 80, do século XX adiante – ideia moderna do imediatismo nas coisas. Disse que Bush e Lula são o resultado da atualidade: “tudo ralé”, segundo ele)
Hoje, somos desmemoriados. É proposital que as pessoas não se lembrem nem daquilo que fizeram ontem. Veja a rede mundial de computadores – internet: ela iguala tudo sem qualquer hierarquia. Dickens e as pirâmides do Egito e um acidente de trânsito têm o mesmo valor.
Hansen critica também a grande mídia que vive de “produzir realidades”. Ela escolhe o que criar, inventa a pauta.
O resumo disso tudo é que a literatura serviria para aprender “ficção” porque a realidade desmaterializou-se, virou também uma ficção.
O gênero conto
O gênero Conto tem origem nas formas orais de literatura. Mantém, então, a ideia de brevidade. Uma história só. É dialógico. Mimético. Em geral, tem um narrador que conta um enunciado: temos que confiar nele.
Os românticos passaram a usar a estrutura da crônica: curta, fala de algum fato e sem sequência.
No conto, apesar do particular no personagem Cândido, sabemos ou percebemos as informações sociais e de contexto necessários, como diz Lúcia Miguel-Pereira – vemos o ambiente e contexto através do personagem e não o inverso.
Cândido não é negro. Mas não é proprietário também, pois não tem ofício.
A crítica ainda se espanta com a literatura de Machado, pois ele trabalha com todos os sistemas, critica todos e tudo e mantém-nos em suspensão. Não se posiciona como autor. Alguns críticos até o criticam dizendo que isso é devido à sua epilepsia ou origem e/ou talvez por sua gagueira.
Machado faz uma representação dupla. Mostra várias perspectivas, pontos de vista.
Antonio Candido diz ser Machado a síntese do processo anterior até o tempo dele em relação a formação da Literatura Brasileira. E também seria o início de novos tempos.
Quando José de Alencar fala do amor, ideal liberal, isso não encontra base na realidade objetiva, ou seja, “as ideias fora do lugar” como diz Roberto Schwarz. O Brasil não é a Europa.
Hansen critica o fato da teoria do Schwarz sempre citar o mestre Machado só como exemplo de suas leituras machadianas e não o contrário. É uma interpretação, como outras possíveis, afinal, ficção não é ciência.
Não precisamos ficar interpretando este conto. Ele mostra um número de relações materiais vinculadas à realidade.
Como é de costume, percebemos nos nomes das personagens a ironia ácida de Machado:
Cândido – alvo, branco. Neves – de novo, mais alvo que tudo.
Clara – idem. Tem duas falas básicas na história: “Deus nos há de ajudar...” e “Nossa Senhora nos dará de comer...”
“Não cito... senão...”: técnica do autor - duas negações equivalem a uma afirmação. Ele, Machado, relativiza tudo.
O grande artista se recusa a representar o horror, tentar sentir ou descrever o que outros sentiram. Nosso mestre faz uma descrição sucinta. Ponto. O leitor que trabalhe com a interpretação e sua própria imaginação.
“Não cuidemos de máscara...”, ou seja, vamos falar da realidade. Vamos ao que interessa.
A leitura comprova o aviso subentendido: de fato, o final da história é chocante!
William
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
Lúcia Miguel-Pereira sobre Machado de Assis
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| Lúcia Miguel-Pereira. |
Excertos
O que distanciou Machado dos demais foi "a direção, o alvo a atingir; o adjetivo brasileiro, limitador, caiu ou passou a segundo plano, permitindo que o substantivo homem se revestisse afinal, pela primeira vez em nossa literatura, de toda a sua significação".
Destaque importante para a mudança de objeto, de perspectiva na literatura de Machado: "A imensa distância que vai no romance, entre fazer ver as pessoas através do ambiente, e deixar perceber o ambiente através das pessoas, Machado de Assis a transpôs serenamente, sem auxílios nem hesitações".
E segue Lúcia dando um bom exemplo: "Será impossível, por exemplo, conceber a Moreninha sem Paquetá, mas Capitu não está em absoluto presa a Matacavalos, nem mesmo ao Rio, embora através dela se sinta a terra carioca".
Fonte: textos de Lúcia Miguel-Pereira (não tenho mais o original)
terça-feira, 25 de dezembro de 2007
O Realismo em Machado de Assis, aula do professor Hansen
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| Machado de Assis, em 1904. Foto: Wikipedia. |
(Atualizado em 26/7/19)
(as interpretações da aula são de responsabilidade do autor do blog)
Machado foi um escritor extremamente culto e conhecedor, mesmo sem ter saído do Rio de Janeiro em toda a sua vida.
Apesar de grato a José de Alencar, ele abominava o Romantismo. Achava que isso era uma bobagem. O Romantismo sempre foi associado ao Nacionalismo e ao Patriotismo e era uma coisa de Estado. Ser brasileiro era ser branco, proprietário, católico e da elite. Machado vai se contrapor a tudo isso.
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Contexto: o Brasil quer ser uma nação capitalista, porém, sem consumidor proletário, pois era um país escravagista.
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Vemos aqui o núcleo da sociedade: família - patriarcalismo. O pai decide tudo quanto à mulher e filhos, escravos e bens, inclusive quanto aos casamentos, para se arranjarem melhor as propriedades.
Machado foca o comportamento das mulheres em várias obras, pois elas são controladas, ou seja, elas buscam burlar o controle, como a lei que cria o contraventor.
O homem, o proprietário, é violento até sem querer – é o seu papel em uma sociedade tal, ele precisa impor a ordem.
Branco proprietário: tem a posse de tudo.
Negro escravo: não tem nem a posse do corpo. É reduzido a uma coisa, não tem representatividade, não se fala a respeito.
Além dos negros escravizados, havia brancos e mestiços pobres. Viviam de expediente. Faziam favores e recebiam “benevolências” dos clãs, dos proprietários. Seriam depois denominados de jagunços, agregados, capangas etc.
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Machado foi um escritor extremamente culto e conhecedor, mesmo sem ter saído do Rio de Janeiro em toda a sua vida.
Apesar de grato a José de Alencar, ele abominava o Romantismo. Achava que isso era uma bobagem. O Romantismo sempre foi associado ao Nacionalismo e ao Patriotismo e era uma coisa de Estado. Ser brasileiro era ser branco, proprietário, católico e da elite. Machado vai se contrapor a tudo isso.
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Contexto: o Brasil quer ser uma nação capitalista, porém, sem consumidor proletário, pois era um país escravagista.
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Vemos aqui o núcleo da sociedade: família - patriarcalismo. O pai decide tudo quanto à mulher e filhos, escravos e bens, inclusive quanto aos casamentos, para se arranjarem melhor as propriedades.
Machado foca o comportamento das mulheres em várias obras, pois elas são controladas, ou seja, elas buscam burlar o controle, como a lei que cria o contraventor.
O homem, o proprietário, é violento até sem querer – é o seu papel em uma sociedade tal, ele precisa impor a ordem.
Branco proprietário: tem a posse de tudo.
Negro escravo: não tem nem a posse do corpo. É reduzido a uma coisa, não tem representatividade, não se fala a respeito.
Além dos negros escravizados, havia brancos e mestiços pobres. Viviam de expediente. Faziam favores e recebiam “benevolências” dos clãs, dos proprietários. Seriam depois denominados de jagunços, agregados, capangas etc.
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Ecletismo do século XIX
Liberalismo - Igreja Católica Conservadora (quase sempre mancomunada com o status quo)
Evolucionismo – marxismo – teoria das raças (esta é fascista, nas palavras do professor Hansen)
Os “intelectuais” brasileiros adotam a linha inglesa, alemã e francesa de que há homens superiores (eles) e o "elo perdido" (os negros).
A linha Celta – portugueses e espanhóis – também é considerada inferior pelos europeus. Imaginem o que se daria (na visão deles) a América com negros, índios e ibéricos? “Uma raça degenerada”.
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Determinismo e Naturalismo
O romance demonstraria o comportamento natural do animal homem:
Século XIX = burguesia cria normas = normal é quem segue as normas = casos e comportamentos habituais = a literatura usada como aparelho de controle ideológico.
A escola – igreja – hospital – hospício – governo – etc controlam a normalidade. São mecanismos de dominação, ou seja, ideológicos. (ideologia = universalizar o particular)
Tese de Araripe Júnior: Obnubilação = obstáculo + nublar
Justificar que o clima e o meio influenciam o homem. No trópico perdemos todo pudor, rigor. Aqui tudo vira moleza, barbárie, coisa de instinto animal.
Neste contexto, surge Machado de Assis
Machado de Assis é um autor moderno. Não subordina a arte a nada, a não ser à própria arte. Critica o sistema e outras coisas: ironiza o clero; põe dúvidas sobre Deus; critica a ciência; inverte ponto de vista entre homem-mulher; etc.
O autor destaca a importância da perspectiva, do ponto de vista de diferentes personagens e representações sociais.
Marcas em Machado:
-Autor da descrença radical.
-Tudo é artifício.
-Nada é natural.
-Tudo tem uma leitura alta e baixa.
-Indeterminação.
-Sabotar a si mesmo.
Fim da aula
O romance demonstraria o comportamento natural do animal homem:
Século XIX = burguesia cria normas = normal é quem segue as normas = casos e comportamentos habituais = a literatura usada como aparelho de controle ideológico.
A escola – igreja – hospital – hospício – governo – etc controlam a normalidade. São mecanismos de dominação, ou seja, ideológicos. (ideologia = universalizar o particular)
Tese de Araripe Júnior: Obnubilação = obstáculo + nublar
Justificar que o clima e o meio influenciam o homem. No trópico perdemos todo pudor, rigor. Aqui tudo vira moleza, barbárie, coisa de instinto animal.
Neste contexto, surge Machado de Assis
Machado de Assis é um autor moderno. Não subordina a arte a nada, a não ser à própria arte. Critica o sistema e outras coisas: ironiza o clero; põe dúvidas sobre Deus; critica a ciência; inverte ponto de vista entre homem-mulher; etc.
O autor destaca a importância da perspectiva, do ponto de vista de diferentes personagens e representações sociais.
Marcas em Machado:
-Autor da descrença radical.
-Tudo é artifício.
-Nada é natural.
-Tudo tem uma leitura alta e baixa.
-Indeterminação.
-Sabotar a si mesmo.
Fim da aula
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