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sábado, 13 de dezembro de 2025

Vendo filmes (XXXIII)


O grito de Crisóstomo.


Refeição Cultural


O DIVERSO É O COMUM

Certa vez, quando era adolescente, cheguei numa madrugada, vindo da rua, e dei um longo grito no quintal de minha avó, onde morávamos, e assustei muita gente. Foi um ato insano. Foi um grito de dor. Não deveria ter feito aquilo, mas fiz. Devia estar numa deprê impossível de suportar.

Ao assistir ao filme "O filho de mil homens" me lembrei na hora desse episódio de minha vida ao ver Crisóstomo gritar em frente ao mar para aliviar sua dor e sua solidão.

Vi por esses dias três filmes que me deixaram pensativo, filmes cuja temática central diria ser as idiossincrasias desse fantástico animal que somos, os seres humanos, únicos na natureza enquanto espécie que cria abstrações que dominam os criadores e únicos no comportamento mesmo sendo bilhões de indivíduos da mesma espécie. 

Os filmes "O filho de mil homens" (2025), "O pior vizinho do mundo" (2022) e "Papai" (2023) se interligaram em minhas reflexões ao me fazerem pensar nas complexidades das relações humanas, nas violências dolorosas dos preconceitos humanos e nas possibilidades de mudança contidas em cada um de nós, enquanto seres incompletos e biologicamente preparados para as adaptações aos ambientes aos quais estamos inseridos como seres vivos e tentando sobreviver. 

Crisóstomo (Rodrigo Santoro), Otto (Tom Hanks), Clark (Sean Penn) e as personagens com as quais interagem e convivem ou por um curto espaço de tempo ou por toda uma vida refletem a questão que me deixou bolado nesses dias: o quanto somos diversos e o quanto a solidão de alguma forma marca a vida de boa parte da sociedade humana, muitas vezes pelo fato de não nos encaixarmos naqueles padrões violentos impostos a nós por outros.

O rapaz que gritou no quintal de casa numa madrugada lá nos anos oitenta sentia uma dor impossível de suportar no peito. Crisóstomo grita quando precisa aliviar a dor que sente no peito. A solidão nesses casos não era solitude, era incompletude. 

Otto encontrou certo dia a cor em sua vida, o motivo de seguir adiante. Depois sua vida ficou cinza, opaca. O rapaz que não se encontrava na vida, que vivia a esmo num mundo cinza, encontrou a cor nas veredas que trilhou, depois encontrou sentidos nas coisas que lhe destacaram para fazer.

Na conversa entre Clark e a jovem Girlie vemos os acasos do destino que definem as vidas de todos nós, fuck esse papo furado de controle da situação... controle o cacete! Ninguém controla nada! Assim foi minha vida também... de vereda em vereda...

Quando vi, estava fora de casa. Quando vi, brigava com todo mundo, queria viver, queria morrer, queria amar. Quando vi era pai, aventureiro, sindicalista, tinha emprego fixo quase sob tortura de um governo desgraçado.

Acho que Crisóstomo nunca foi condutor. Otto nunca foi condutor. Incrível, mas Clark não conduziu sua vida, o acaso a definiu. Nunca conduzi minha vida. Ela foi indo, indo, a esmo. Só fiz foi tentar fazer o correto da jornada.

Concluí muita coisa da existência. Vejo o diverso a cada olhar ao redor... Vejo muita dor e solidão também... Queria poder aliviar a dor de muita gente...

Hoje nem gritar eu posso...

Como nos ensina Rubem Alves em seu texto perfeito "O nome" (ler aqui), vivemos numa gaiola, o nosso nome, e já se esperam tudo de mim, e de Crisóstomo, e de Otto, e de Clark, e de cada um de vocês.

O que nos salva das gaiolas dos nomes são os imponderáveis que a existência nos apresenta a cada amanhecer e anoitecer. 

Enfim, as histórias das personagens desses filmes, suas dores, as violências e preconceitos que viveram, os encontros e as descobertas, as relações humanas pelo simples fato de existirem, me fazem encerrar de forma otimista as reflexões.

Amanhã será outro dia, por muito tempo ainda. Não só para mim, um personagem do mundo, mas para todos nós, viventes desse mundo cheio de diversidade. 

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FILMES


O filho de mil homens (2025) 

Direção: Daniel Rezende. Roteiro: Daniel Rezende, Valter Hugo Mãe, Duda Casoni. Com: Rodrigo Santoro, Miguel Martines, Juliana Caldas, Johnny Massaro, Rebeca Jamir, Grace Passô e elenco.

Sinopse (Netflix):

Em uma pequena vila, um pescador solitário (Crisóstomo) com o sonho de ter um filho se conecta, de forma extraordinária, a um grupo de pessoas e seus segredos.

Comentário: 

O filme retrata de forma surpreendente as questões complexas ligadas às relações humanas, abordando o quanto a violência e as diversas formas de preconceitos podem afetar a vida das pessoas, alterando o curso de suas histórias.

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O pior vizinho do mundo (2022)

Direção: Marc Forster. Roteiro: David Magee Com: Tom Hanks, Mariana Treviño, Rachel Keller, Manuel Garcia-Rulfo, Cameron Britton, Juanita Jeannings, Mack Bayda.

Sinopse (Netflix):

Decepcionado com o mundo e cansado da dor do luto, um aposentado rabugento planeja pôr um fim nesse sofrimento, mas tudo muda quando conhece uma família cheia de vida.

Comentário:

Filme muito bom! Otto é o vizinho ranzinza que gosta das coisas certas e das regras respeitadas em seu condomínio de casas, algo muito difícil de se ver. Ao longo da história, vamos conhecendo as particularidades de Otto e fica mais fácil entender como cada um de nós é diferente e único no tecido social chamado sociedade humana.

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Cena do filme "Daddio"

Papai (Daddio), de 2023. 

Direção: Christy Hall. Com: Sean Penn e Dakota Johnson.

Sinopse (Wikipedia):

Após aterrissar no Aeroporto Internacional John F. Kennedy, uma jovem toma um táxi para regressar ao seu apartamento em Manhattan, Nova York. Durante a corrida, e o trânsito intenso por causa de um acidente, ela e o taxista Clark conversam sobre diversos temas, inclusive os relacionados à vida pessoal deles.

Comentário:

Poderia parecer uma história sem verossimilhança o nível da conversa entre a jovem passageira e o motorista se não tivéssemos o hábito de pegar táxi ou aplicativo e de repente começar a ouvir as histórias mais absurdas ou até mesmo contar a um estranho questões de foro íntimo. Gostei do filme e fiquei pensando também sobre as idiossincrasias de cada ser humano.

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É isso! 

Essa foi mais uma postagem da série sobre filmes.

O texto anterior pode ser lido aqui.

William

terça-feira, 16 de setembro de 2025

O último poema

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O ÚLTIMO POEMA


O primeiro poema foi um balanço dos trinta anos.

A infância feliz e depois infeliz, do amor ao ódio.

Exploração infantil na venda do seu trabalho.

As relações de afeto, sempre regadas com lágrimas.


Aos trinta, já era pai e funcionário de banco público.

Formado, por acaso, em Contábeis. Não se formou

em Educação Física porque o salário não deu.

Passou no vestibular e entrou nas Letras...


A vida andou. Virou sindicalista. Se politizou.

Por duas décadas, outra vida, um novo homem.

Aos cinquenta, virada radical nos papéis sociais.

Saiu do BB. Da representação. Do espaço de atuação.


Aos cinquenta e seis anos, o mundo se desfaz.

Na política e na economia do seu país e do mundo, 

a extrema-direita e o capitalismo em crise estrutural

estão colapsando a sociedade humana e a Terra mãe.


No pessoal, o balanço da vida se parece com o mundo.

A saúde: bomba-relógio: genética e veredas da vida.

As relações: o retrato dos tempos: incomunicabilidades.

Teria contribuições a fazer... sente que não vai rolar.


William Mendes

16/09/25

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 30 de junho de 2025. Segunda-feira.


JUNHO

Desci para colocar o lixo nas lixeiras do condomínio. Hoje é dia de recolhimento pela limpeza urbana. As sacolas de lixo tiveram que ser colocadas na calçadinha da lixeira porque alguns moradores colocaram lixo atrás da porta impedindo a abertura dela, mesmo a lixeira estando mais da metade vazia. Para não ter o trabalho de colocar no fundo da lixeira, os primeiros que chegam põem os sacos próximos à porta e inviabilizam que outras pessoas coloquem o lixo na lixeira.

Um dos elevadores do bloco estava parado no 10º andar. As molas da porta estão com problema e toda vez que alguém desce naquele andar, o elevador fica inutilizado, pois ele não vai atender mais a chamado algum porque a porta não fecha direito e o bloco fica com um elevador a menos. Tem dia que eu vou 3 ou 4 vezes no andar para liberar o elevador para que outras pessoas o utilizem.

O referido andar com problema na mola da porta do elevador tem moradores nos quatro apartamentos, mas nenhum deles se dispõe a apertar o botão do térreo e segurar a porta para que o elevador não fique parado no andar. A pessoa já chegou em sua casa mesmo, então dane-se os outros 71 apartamentos que podem precisar do elevador funcionando.

Os seres humanos deste momento da história da sociedade humana estão assim. Chegamos até aqui na história de nossa espécie por sermos de alguma forma sociáveis e colaborativos, um ser humano não é nada sozinho, não consegue sequer se reproduzir e cuidar de um filhote até a independência dele sem a cooperação de outros de sua espécie. Mas o sistema político hegemônico está nos fazendo essa coisa que viramos.

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Tic-tac, tic-tac, tic-tac, o tempo segue acelerado para nós que temos a percepção da passagem do tempo, uma abstração da nossa espécie animal, o homo sapiens.

Acabou-se o mês de junho, acabou-se o primeiro semestre do ano. Estamos em mais um inverno no Hemisfério Sul.

Tudo está mudando como sempre foi na natureza. Estamos todos mudando o tempo todo. Estamos sendo mudados também por meio de ferramentas inventadas por nós mesmos. Observem ao seu redor. As pessoas que você achava que conhecia não são mais as mesmas. Estamos sendo modificados.

Tenho a impressão que estaremos cada vez mais sozinhos, mesmo em meio à multidão... alone in the crowd...

Para estar por aqui, tenho que fazer meu corpo seguir funcionando. Eu me esforço pra isso porque viver é uma oportunidade diária de novas descobertas. 

Ainda estou por aqui.

William

23h59

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Poema 30: Oração como utopia


ORAÇÃO COMO UTOPIA


Enquanto me banhava

meus pensamentos oravam

pedindo ajuda e proteção:

aos palestinos violentados,

aos viciados em drogas, 

aos imigrantes sem chão, 

às mulheres sem liberdade, 

às vítimas da depressão, 

aos odiados e perseguidos,

a quem falta o pão. 


Ateu não fala com deuses,

mas a razão consciente

sabe ser possível a mudança 

pela inteligência humana. 


Falemos de mudança!

Sejamos sonhadores!

Esperancemos!

Utopia, já!

Amém!


William 

28/05/25


quinta-feira, 22 de maio de 2025

Instantes (11h09)



Refeição Cultural

Uma pessoa de esquerda, costuma-se dizer em nossos espaços de lutas, não pode deixar de acreditar na mudança e não pode perder a esperança de um amanhã melhor. Tendo a concordar com isso, pois muito da ação humana é atitude. Enquanto representei milhares de pessoas fui atento a isso e chacoalhava a desesperança no chuveiro de casa, antes de sair para as lutas.

Estando nos aposentos de casa, aposentado da representação, tenho mais dificuldade de chacoalhar a desesperança ao ver as notícias seja de onde elas vierem, são só notícias que pioram a condição humana em geral e as chances do planeta Terra de sobreviver à espécie animal que somos.

Idiotização humana acelerada... devastação da natureza e esgotamento dos biomas sem freio... acumulação de tudo na mão de poucos humanos fdp e miséria generalizada... genocídio do povo palestino ao vivo e à cores: vermelho e cinza, de sangue e fogo... a autocensura se estabelecendo pela fragilidade real para qualquer pessoa que questione essa merda toda ou pelo risco do cancelamento (uma morte em vida num mundo onde só se existe se houver reconhecimento dos outros)... 

Solidão... não sinto pertencimento a quase nada. Me agarro à minha racionalidade, enquanto a tenho.

William

22/5/25

domingo, 28 de abril de 2024

Livro: Canção para ninar menino grande - Conceição Evaristo



Refeição Cultural

Osasco, 28 de abril de 2024. Domingo.


Um livro que fala de amor. Das vivências e dos amores. Escrevivências... como nos explica Conceição Evaristo ao nos presentear com textos de vivência e criação, vivência e escrita. Vivências pessoais que de certa forma representam a coletividade.

Tem dias que escrevo com dificuldades, dias ou momentos nos quais a vontade era calar, silenciar, não registrar nada. Mas neste momento do viver, minha missão autoimposta é exercer um pouco da escrevivência que a intelectual nos ensina a fazer. Às vezes, o pessoal pode ser da dimensão universal.

A leitura desta obra de Evaristo se deu em contextos difíceis. A primeira metade do livro li na estrada, em um ônibus. Estava levando meu pai de Uberlândia a São Paulo para atender a um desejo dele. Tive uns dias complexos... Meu foco de atenção era ele, a leitura era a distração, a tentativa de abstração do contexto. Não foi uma leitura ideal. Até porque a temática era o amor de outra categoria, não o filial.

A segunda metade da leitura se deu num momento um pouco melhor do que o primeiro tempo de contato com a viagem nos amores de Fio Jasmim e das mulheres que amaram Fio Jasmim. Revi as 75 páginas lidas no início do mês e terminei o romance três semanas depois. 

A história de cada personagem feminina me fazia sentir-me em casa ao me colocar no mundo de cada uma delas, um mundo ao mesmo tempo ficcional e verdadeiro, cenário da realidade concreta de cada cidadezinha desse nosso Brasil de misérias e miseráveis. Vi no personagem Fio Jasmim até o comportamento de pessoa conhecida. Escrevivências.

Um livro de brasileiras e brasileiros, de uma brasileiríssima escritora, com histórias e vivências ao mesmo tempo únicas e coletivas, reais e ficcionais,  universais. 

Livro para ler e ler e reler, assim como todos os livros de Conceição Evaristo.

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MULHERES QUE AMAM

Tina (Juventina), Aurora, Antonieta, Dolores, Dalva, Neide, Pérola Maria, Angelina, Eleonora...

Pérola Maria, de Chegada Feliz...

Neide Paranhos, do Vale dos Laranjais... o príncipe negro e sua princesa.

Aurora Correa Liberto, de Vila Azul... tomava banho sem roupa nas águas do Rio Naipã. Tinha a moleira aberta e por isso era sem juízo.

Antonieta Véritas da Silva, de Remanso Velho... a do corpo maravilha.

Dolores dos Santos, de Ardência Antiga... (que história de família!). Felizmente, as mulheres da família tinham a avó dona Hermengarda...

Dalva Amorato, de Águas Infindas... com dois filhos, Dalva Ruiva deixou marido ausente e ex-patroa tia dele e foi atrás de seus sonhos.

Juventina Maria Perpétua, de 17 anos, foi pra Chegada Feliz... foi ser a "Virgem de Ébano".

E temos ainda Eleonora Distinta de Sá... ela e Fio Jasmim, que serão cúmplices na amizade, nos lamentos e na solidão.

Que vivências! 

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Momentos marcantes...

GENTE SEM JUÍZO

"(...) Aurora pensou que podia ter sido um engano tátil, de uma sensibilidade excessiva das mãos. Sorrindo, então, ela pegou a mão do moço bonito e lhe pediu que ele tocasse o alto da cabeça dela. Ele assim o fez. E, ao sentir o quase imperceptível e macio afundamento da cabeça dela, Jasmim riu e riu. Ela também! Descobriram-se. Tinham a moleira aberta, eram ambos sem juízo." (p. 47)

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SOLIDÃO

"Com a morte da mãe, Dolores experimentou não só a certeza de estar só no mundo, pois não tinha mais nenhum parente sanguíneo, como teve certeza de sua solidão. Com quem repartir a amargura que estava sentindo naquele momento? Com quem falar? A quem chamar para dividir a dor? Seria a dor algo que se pode dividir, assim como se reparte a alegria? Dolores se lembrou das alegrias vividas às escondidas entre ela, a mãe e a avó, sem que o velho Belizário soubesse. Recordou-se das lágrimas vertidas juntas, a mãe e ela, quando a avó Hermengarda se foi. E também do desejo vivido das duas, brigando com a morte, pois ela deveria ter levado o avô e não a avó. E agora com quem dividir essa dor? Por entre lágrimas viu a pessoa de Sô Damião, empregado antigo da casa, soluçando feito criança, ao perceber que sua patroa, mulher tão sofrida pelo desprezo do pai, tinha ido. Dolores teve desejo de abraçar sua dor à dor de Sô Damião, mas se conteve. E viveu a sua angústia, sozinha." (p. 63)

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A VINGANÇA QUE VIROU PRUDÊNCIA (CONSCIÊNCIA E SOLIDARIEDADE NO UNIVERSO FEMININO)

"E de repente seu ódio contra Fio Jasmim se transformou em prudência, em juízo, em consciência. Buscou no fundo de sua bolsa de viagem a foto e pela primeira vez viu os detalhes. Pérola Maria, cercada das crianças, tinha uma expressão serena. Contemplou profundamente a foto e, no lugar de Pérola, outras mulheres apareciam: vó Hermengarda; mãe Maria da Cruz; a velha Clementina, tia do Sô Damião; Santina, a mulher que morava lá na entrada de Nova Ardência; Cleide do Vicente, uma antiga colega de escola; Joana, a mãe que cuidava das quatro meninas sozinha; Laurinda, a que noivara aos dezoito anos de Ovídio, o noivo que nunca marcava a data do casamento; e outras e outras. Cada uma aparecia ora com um rosto pleno de alegria, ora não só com o rosto, mas com o corpo debulhado em lágrimas. Ora independentes de seus homens, ora puxadas pela mão por eles, ora brutalmente empurradas. Ora deitadas, ora em pé. Ora alisando as crias, ora as enforcando. Uma gama de mulheres, um universo feminino em ebulição, mesmo quando aparentemente estático." (p. 75)

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PERSPECTIVAS: NA LUTA PELOS SONHOS, CADA UM TRABALHA VENDENDO O PREDICADO QUE TEM

"Novamente organizou uma planilha de gasto: aluguel da casa, pagamento de escola e de acompanhante para as crianças, despesas alimentares, etc. E ainda, ou principalmente, custear seus estudos, os preliminares e depois o curso de Farmácia. A solução veio rápida, sem dúvida, sem constrangimento algum. Ia trabalhar vendendo o seu corpo. Sexo. Se fosse cantora, venderia a voz; se fosse bailarina, venderia o corpo no movimento da arte de dançar; se fosse professora, venderia a sua capacidade, a sua didática, o conteúdo aprendido, para ensinar; se fosse médica, a sua capacidade de cuidar, de curar, de orientar na procura e na conservação da saúde; se fosse cozinheira, o seu dom de cozinhar. Não tinha nenhum desses predicados e talvez esses tomassem mais tempo para aprender. E para Dalva Ruiva se tratava de correr contra o tempo, ou melhor, agarrar um tempo que ficou vazio, sem movimento algum para a realização de seus sonhos. E sem qualquer acanhamento ou dúvida, Dalva Ruiva tomou informações de como agir..." (p. 84)

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PERSPECTIVAS E ACULTURAMENTOS: APRENDEU QUE SER HOMEM ERA TER VÁRIAS MULHERES

"(...) fora concebido em uma menina de quinze anos, quando o homem já beirava os seus quase sessenta. Fio cresceu ouvindo as proezas do pai. Aprendera com ele que ser homem era ter várias mulheres..." (p. 93)

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"O pai de Jasmim, homem já maduro, cuja flor já não gozava de haste tão rija, sorria feliz ouvindo as histórias do filho. Na escuta dos jactados encontros de Jasmim com as mulheres, o pai, saudoso das façanhas do passado, se reconhecia na virilidade do filho. Ficava imaginando mulheres oferecidas diante dele a brincar desejantes e carinhosas com seu ereto lírio negro. Bem se vê que a lição que Fio Jasmim tivera em casa estava sendo muito bem aproveitada." (p. 94)

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MULHERES FILHAS DE MULHERES, SÓ

"(...) Com a mãe dela havia sido assim. O pai de sua irmã mais velha agira dessa forma. Ela, a segunda filha, sabia somente que um outro homem, seu pai, também não ficara, tinha partido antes mesmo de ela nascer. Do pai, Tina mal sabia o apelido. As suas duas outras irmãs, as mais novas, os pais eram homens também desconhecidos para elas. A mãe de Tina, Alda Jovelina, parecia querer devolver com a mesma intensidade o desprezo a ela e às suas filhas. O nome do pai nunca era dito. Só o da mãe. Pai era uma imagem vazia. Durante muito tempo, época ainda da infância de Tina, só a mãe e as tias lhe bastavam para a sua vida-menina..." (p. 100)

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HOMENS NÃO CHORAM?

"(...) E, como proprietário de uma extensa gleba, o homem ali tinha o dever de dominar as mulheres, de alguma forma. E mais, tinha ainda de desafiar e causar inveja a outros machos. Não sendo de bom tom o derramamento das dores do macho - assim pensava Fio Jasmim -, por isso ele calou qualquer sintoma de mortificação em sua vida. Pouco importava a dolorida lembrança de ter sido preterido pelo coleguinha branco para representar um príncipe. Era preciso esquecer essa lembrança, negá-la sempre. Só as fêmeas podem dar vazão às suas agonias, às suas aflições, das menores às maiores. E, por isso, sempre os olhos secos de Fio Jasmim diante da morte e da vida..." (p. 129)

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CONVITE À LEITURA

E o final das histórias, eu deixo a descoberta para vocês leitoras e leitores...

Obrigado por compartilhar conosco essa maravilha, querida Conceição Evaristo!

Até hoje me recordo de nossas horas conversando no voo entre Panamá e Havana, Cuba, em 15 de fevereiro deste ano. Foi muito legal conhecê-la, e um orgulho porque sou seu admirador e fã.

William


Bibliografia:

EVARISTO, Conceição. Canção para ninar menino grande. 2. ed. - Rio de Janeiro: Pallas, 2022.


sábado, 23 de dezembro de 2023

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Uberlândia, 23 de dezembro de 2023. Dia frágil. Intolerâncias no ar...


O Parque do Sabiá é um refúgio. Pássaros tentam a sorte por lá. Peixes também. Ontem, vi um casal de seriemas perambulando pela grama. Seriemas nunca tinha visto por lá... deslumbramento! Teiús tentam a sorte. Também vi ontem três curicacas, falei oi pra elas. Estava de passagem correndo. Os pássaros-preto cantavam seus cantos de natureza. 

O Sabiá é um refúgio. A vontade é de passar horas por lá. Andar, quedar, andar, quedar, ouvir a natureza, sentir a solidão que habita o meu coração. O mundo está se transformando num lugar inóspito à vida, pelo menos à vida social. Onde há duas unidades da mesma espécie animal, a homo sapiens, há chances de rupturas, rusgas, intolerâncias. Nos tornamos seres intolerantes e intoleráveis.

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Os pais que vivem juntos há mais de meio século não se toleram mais. Pais e filhos não têm mais paciência uns com os outros. Amigos, colegas, companheiros, conhecidos, familiares... ninguém resiste a uma desavença. Tudo se resolve no grito, na expressão rude, na ruptura (cancela, bloqueia). O perdão é uma palavra que se não morta, está à beira da morte, sozinha numa cama de hospital entre lençóis brancos... até o perdão é uma palavra morrendo sozinha.

Um mundo de surdos, mesmo quando os ouvidos funcionam anatomicamente. Um mundo de cegos mesmo quando enxergam o que lhes convêm. Um mundo mudo porque todo mundo fala fala fala e ninguém se entende. A Babel da narrativa bíblica se realizou! Onde há dois, há desentendimento... uma incomunicabilidade nauseante na espécie humana. Que solidão dolorosa, que aperta o peito, que faz cachoeira nos olhos.

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É Natal no mundo ocidental. Natal... que Natal é esse no mundo humano? Natal das bombas matando os filhos de Deus na Palestina? Natal da miséria e abandono dos miseráveis na Argentina do governo eleito pelos miseráveis para trazer miséria com uma verve que convence até miseráveis que a melhor coisa é mais miséria, com muita encenação e grito e pose e retórica e algoritmo conspirando pela ampliação da mentira e da ignorância geral nas nações... Natal! Nasceu o menino Jesus numa favela e dessa vez vai ser foda sobreviver até a fase adulta.

É Natal no Brasil. Enquanto o cristão Lula se esforça para cumprir os compromissos que assumiu com o povo brasileiro cansado de tanta maldade, perversidade, miséria e destruição na longa noite que durou de 17 de abril de 2016 até 31 de dezembro de 2022, os caras da casa-grande e seus procuradores no parlamento se apropriam do orçamento público deixando claro para o Lula que não haverá recursos públicos suficientes para cumprir o que ele gostaria para saciar a fome do povo, gerar empregos e renda para os pobres e trabalhadores e fazer o país caminhar para o amanhã com um pouco mais de paz. Não haverá paz. Os tempos são de ódio e guerra e miséria. Natal...

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Daqui alguns dias teremos no Brasil mais uma edição da tradicional Corrida de São Silvestre. Queria correr a prova. Não dou conta. A natureza e a realidade são implacáveis com os seres naturais. Fui para o Sabiá conversar com o meu corpo. Corri, andei, senti minhas energias. Para me arriscar numa empreitada que exigisse a quantidade de energia que o percurso da prova exige, teria que ser algo cuja finalidade fosse um feito grandioso, que valesse para a coletividade, ou para um coração apertado; gastaria toda essa energia para salvar uma vida, para lutar contra uma injustiça, para mudar o mundo, para fazer uma pessoa feliz.

Não vale a pena me arriscar a gastar mais energia do que sinto que tenho neste momento só para uma birra pessoal. Por incrível que pareça, tenho consciência a respeito da liberdade e da responsabilidade que é só minha e de mais ninguém. Ainda tenho que me manter vivo porque ainda tenho coisas pra fazer, tenho pessoas que dependem de mim. Por mais que o mundo hoje seja o império da arrogância e da ilusão da autossuficiência, vivo ainda tenho alguma coisa por fazer por alguém.

Não vou correr a São Silvestre.

Natal! Natais...

William


sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Lembranças - Capítulo 10



Refeição Cultural

Osasco, 8 de setembro de 2023. Sexta-feira (19h40)


MEU PAI

Neste momento no qual escrevo, não sei onde meu pai está. Durante o dia, estaria na estrada. Ontem, meu pai saiu de casa e foi parar em Goiás, onde viu dois irmãos. Hoje, seus planos eram ir para o Mato Grosso, para a cidade onde reside um cunhado e família.

Se fosse possível um diálogo com meu pai, eu gostaria de procurar com ele onde ou quando foi que as relações com a família se tornaram tão difíceis. Os tempos são tempos nos quais o diálogo está se tornando algo quase impossível entre as pessoas. Em geral, na maioria dos casos, as pessoas não estão mais abertas ao diálogo. Só se for para o outro dizer amém.

Ao longo da vida, e dos autores que tive a oportunidade de ler, aprendi que não é possível sabermos a dor dos outros. A dor de alguém é algo indescritível e de uma intensidade que só a pessoa que sofre sabe o que está passando. Só essa questão já é suficiente para nos fazer respeitar a dor dos outros. Eu sei que meu pai padece de dores há anos. Dores físicas e sobretudo dores da alma. E isso talvez tenha feito meu pai ir se tornando a pessoa que é hoje.

Ao acordar nesta manhã, e ver uma mensagem no celular para ligar para os meus familiares para saber notícias, talvez notícias de meu pai, acabei inventando algum preparo para receber notícias ruins, preparo que não existe. Fui primeiro enfiar a cabeça embaixo do chuveiro por alguns minutos. Depois liguei e felizmente eram só atualizações sobre o dia de ontem.

Enquanto meu corpo sentia a água morna do chuveiro cair sobre mim, uma das coisas que pensei foi a respeito de algum tipo de morte idealizada, menos sofrida. Ninguém gosta de pensar sobre aquele dia que todos enfrentarão, o dia de nossa morte. No entanto, se houvesse algum tipo de previsão ou planejamento para esse dia de nosso fim, evidente que seria melhor partir sem sofrer, num lugar confortável, com alguém que nos ama por perto, sem dores, frio, sozinho etc. 

E fiquei muito triste ao pensar até como hipótese em alguém que amamos partir sofrendo sozinho. Acho um risco um homem com mais de oitenta anos dirigindo sozinho o dia todo pelas estradas brasileiras. Meu pai é um cara teimoso, não ouve mais ninguém. Isso dificulta muito as relações e a forma de cuidar dele. O sentimento de impotência que tenho sentido em relação a não conseguir dar sequer opiniões talvez racionais às pessoas é algo que aperta o coração da gente.

Quando pensei no dia de nosso fim, da morte que chegará para todos nós, foi por saber que pessoas se colocam em situações desnecessárias de risco, às vezes. E, às vezes, as pessoas morrem por isso. E aprendi que a vida é uma oportunidade.

Não desejo uma má morte nem para meus desafetos nem para os inimigos de nossa classe trabalhadora. Se eu fosse Light Yagami (Kira), do clássico anime Death Note, daria um destino final sem dor e rápido para todas as pessoas marcadas para morrer.

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SOMOS FRUTOS DO MEIO SOCIAL NO QUAL VIVEMOS

Tenho refletido sobre a vida e sobre o nosso mundo, algo que fiz menos do que gostaria ao longo da vida, durante o período de lutas sindicais meu foco era cem por cento a luta de classes, era um soldado das causas que representava e encarava isso como uma guerra, uma batalha de vida ou morte. Sou assim. Quando me entrego a uma causa, me entrego de corpo e alma.

Hoje, compreendo muito melhor diversas etapas de minha vida, atos e fatos ocorridos em meu percurso existencial e ao meu redor. Ao longo dos anos de estudo sobre o Brasil e sobre o povo brasileiro fui vendo como um filme minha gente dentro dos acontecimentos do tempo e da história. Fui compreendendo a minha origem, a de minha família, a do povo brasileiro.

Meus pais, seus pais e irmãos, e depois as dezenas de primos e primas, e nossos filhos, somos todos tipos comuns do povo brasileiro. Brasileiros. Somos frutos desta terra e isso não é qualquer coisa. Somos brancos e mestiços de origem nas classes subalternas do país, gente que se virou como milhões de iguais para sobreviver e conseguir seu lugar ao sol.

Qualquer branco ou mestiço de minha família poderia tranquilamente ser personagem do clássico conto machadiano "Pai contra mãe", todos nós poderíamos ser Candido Neves ou Clara... 

Aliás, minha gente poderia ser qualquer dos tipos construídos por nossos grandes escritores na tentativa de entender o Brasil e o povo brasileiro: digo os personagens que não eram os senhores donos de tudo. Seríamos os agregados, os não proprietários, os que foram sobrevivendo de bico por aí. (hoje, alguns dos que se ajeitaram na vida foram pescados pela balela da meritocracia)

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CEM ANOS DE SOLIDÃO

O que sei é que ao longo de nossas vidas, enfrentamos momentos duros juntos, meus pais e eu, meu pai e minha mãe. As memórias que guardamos são formadas das mais diversas formas, algumas sem a menor explicação ou coerência lógica. A vida vai nos deixando na memória lembranças boas e ruins do nosso viver.

Tenho boas e más lembranças da minha relação com meus pais, com os familiares mais próximos, com pessoas que marcaram a minha vida para sempre. 

Fico tão triste ao ver no que nos transformamos nos últimos anos, pessoas intolerantes, egocêntricas e rápidas em romper relações de toda uma vida por não aceitarmos conviver com a diversidade de ideias e visões de mundo. Vivemos uma solidão do tamanho dos "cem anos de solidão", do García Márquez.

Me lembro de uma imagem de um livro de Inglês na qual uma mulher olhava a esmo, sozinha numa mesinha ao redor de diversas mesas cheias de gente. O título para a imagem era "alone in the crowd". Nunca me esqueci disso. Me parece que aquela imagem e aquele conceito encaixaram-se na minha vida.

Quem não se sente sozinho muitas vezes ou algumas vezes, mesmo cercado de pessoas, que atire a primeira pedra. Ao olhar a vida para trás, vou avaliando algumas vezes nas quais me lembro de ter sentido uma solidão do tamanho do mundo. Felizmente, fui vivendo e cheguei até aqui, superando até os momentos nos quais não queria mais nada. Não tenho receio em dizer sempre que sou um homem de sorte.

Me lembro de ter discutido com meu pai quando fui embora da casa de meus pais aos dezessete anos. Tenho quase certeza de que o responsável por tudo naquela época fui eu, eu era a fúria. 

Me lembro de quando cumprimentei meu pai com um beijo após ter me tornado aluno de uma graduação de Educação Física em Mogi das Cruzes. Assim que vi um jovem servindo o exército cumprimentar o nosso professor na porta da sala de aula achei aquilo impactante. A cena me fez dar um beijo no meu pai. Já tinha uns dez anos que eu havia ido embora de casa.

Me lembro dos perrengues que passamos juntos, meu pai e eu, quando meu pai precisava de assistência médica e não tinha. Uma vez, em São Paulo, fomos atrás de uma internação para meu pai tratar dos rins e tivemos até que ir à imprensa para denunciar que meu pai não conseguia ser atendido com dores insuportáveis nos rins. 

Me lembro que passei anos tendo plano de saúde por ser funcionário de banco público sem querer usar o plano porque eu não achava justo ter atendimento e meus pais não terem. Uma vez, fiquei tão mal em casa que achei que iria morrer e só consegui me levantar da cama uns três dias depois. Nunca soube o que tive. Não usei o plano de saúde.

Me lembro dos meus pais correndo pra cima e pra baixo pra buscar atendimento médico para meus sobrinhos pequenos. Meus pais são humildes e pessoas simples, mas como a maioria dos pais, viram bichos quando estão sendo injustiçados por não conseguirem o que deveriam ter como direito: atendimento médico.

Me lembro de muita coisa. Tenho fuçado muito em minhas memórias...

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Espero que meu pai chegue aonde esteja indo. Espero que ele esteja bem.

Já são quase dez horas da noite e ainda não temos notícias do pai andando por aí pelas estradas brasileiras.

William


Post Scriptum: por volta de meia-noite, consegui a informação de que meu pai chegou ao destino pretendido, à casa de meus tios. Para aumentar a tristeza do dia, soube que meu tio, que tem enfrentado uma doença grave, teve uma piora em sua condição nos últimos dias. Estamos na torcida por sua melhora.

Post Scriptum II: o texto anterior sobre minhas "Lembranças" pode ser lido aqui.


quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Leitura: Operários Sem Patrão - Lorena Holzmann


 

Refeição Cultural 

"Se havia, em tese, a oportunidade democrática de acesso à palavra para todos os participantes da assembleia, eram poucos os que efetivamente dela se apropriaram. Nas representações dos trabalhadores o discurso era prerrogativa dos que sabiam falar bem, dos que tinham 'coisas certas para dizer'. Era o reconhecimento do discurso competente, 'no qual os interlocutores já foram previamente reconhecidos como tendo o direito de falar e ouvir, no qual os lugares e as circunstâncias já foram predeterminadas para que seja permitido falar e ouvir e, enfim, no qual o conteúdo e a forma já foram autorizados segundo os cânones da esfera de sua própria competência' (Chauí, 1982:2)." (p. 129)


A leitura do livro Operários Sem Patrão: gestão cooperativa e dilemas da democracia (2001), de Lorena Holzmann, me trouxe lembranças de minha jornada de sindicalista e me fez refletir sobre as chances de sucesso nos projetos alternativos à hegemonia do capitalismo como forma atual de produção e distribuição material e intelectual das necessidades humanas. 

A edição do livro que li não é minha, é de um amigo de meu filho. Acabei lendo este estudo - que tem por base uma tese de doutorado - por ter surgido a oportunidade nesta semana ao recebermos a visita do jovem Mateus em casa. O livro nos é apresentado pelo saudoso Paul Singer.

Pertencimento - uma das ideias conceituais que pensei ao ler a história dos trabalhadores das antigas Indústrias Wallig - depois "Cooperativas Wallig" - foi a questão do pertencimento, a importância de ter um sentimento de pertencer a algo quando se engaja numa luta qualquer, principalmente uma luta coletiva. 

Trabalhei com essa ideia-força ao longo de minha vida de organização e representação da classe trabalhadora: pertencimento. 

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RESUMO DO CASO ANALISADO NO LIVRO

"Este estudo primoroso de Lorena Holzmann tem por base tese de doutoramento, aprovada na Universidade de São Paulo, em 1992. O seu objeto é a Indústria Wallig, que chegou a se celebrizar como fabricante do fogão a gás mais prestigioso do Brasil, e foi atingida pela grande recessão de 1981-83. Mas, o seu fechamento enquanto empresa capitalista não foi aceito pelos operários, seu sindicato e a própria opinião pública do Rio Grande do Sul. Os trabalhadores formaram duas cooperativas - uma fundição e uma mecânica - e após muita luta conseguiram alugar as instalações da massa falida para prosseguir as operações da antiga empresa." (Paul Singer, na apresentação do livro)

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CAIXAS DE ASSISTÊNCIA DE TRABALHADORES SÃO MODELOS DE COOPERATISMO

Pensei muito na minha experiência como gestor eleito (2014-2018) de uma associação, uma Caixa de Assistência, da qual quase a totalidade da comunidade envolvida com ela não tem noção alguma do que a Cassi é: uma autogestão em saúde. E a parte que tem noção disso faz de tudo para apagar a característica central do que essa associação é: um modelo assistencial baseado no cooperativismo e na solidariedade. 

Ao ser gestor do modelo de saúde da Cassi, pesquisei a história da associação, o trânsito dela na comunidade ao longo de décadas, desde os anos quarenta até o momento no qual era gestor. Por incrível que pareça, o banco patrocinador, que tem acesso integral ao corpo de associados e poderia educar e orientar os participantes a aderirem ao sistema de atenção primária, fez em uma década de implantação do modelo de Estratégia de Saúde da Família (ESF) um vídeo institucional sobre o que era e como funcionava a ESF. Um vídeo. Enquanto isso, o foco da comunicação era a venda de planos de saúde, ao invés de focar na essência da Cassi: o Plano de Associados. Por quatro anos, viajamos pelo Brasil para falar da ESF. O modelo ganhou credibilidade e aderência como essência de nosso modelo cooperativo e solidário de assistência à saúde.

Após nossa saída, o que vejo é uma Cassi que se apresenta como uma empresa capitalista do mercado de saúde, vendendo inúmeros planos ruins de saúde que não têm a menor relação com o que a Cassi deveria fazer - cuidar da saúde de seus associados - e a ESF foi deixada de lado, e a "empresa" aposta no mercado para tudo. É uma lástima. Essa autogestão com um modelo fantástico de cooperativismo na área da saúde dos trabalhadores terá muitas dificuldades de seguir existindo. Um sistema cooperativo se referenciar na indústria capitalista da saúde é arriscar sua existência.

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CONFRONTO ENTRE CAPITAL E TRABALHO (O DINHEIRO SEMPRE DIVIDE AS PESSOAS)

A distribuição das "sobras" no primeiro ano das cooperativas me lembrou as discussões sobre a PLR dos bancários (Participação nos Lucros e Resultados)

"(...) Desse modo, a ideia inicial de que o empreendimento era de todos, foi se diluindo, solapada pela diferença de interesses que se tornaram manifestas no interior das Cooperativas." (p. 90)

No estudo de Lorena Holzmann, ela tomou conhecimento do quanto a unidade inicial dos cooperados se diluiu assim que entrou em pauta a primeira distribuição das sobras (resultados positivos) das cooperativas.

É justo distribuir de forma desigual os lucros ou sobras?

A justiça ou injustiça dos critérios dividiu os associados para sempre. A PLR da categoria bancária enfrentou o mesmo debate de critérios desde a sua instituição em 1995 nos acordos da categoria: distribuição linear ou distribuição desigual de acordo com salários e funções dos trabalhadores na hierarquia do banco (ou da cooperativa)?

É justo dar cotas maiores do resultado para aqueles que já ganham mais na pirâmide salarial da empresa? Afinal de contas, o esforço para conseguir o resultado positivo não foi de todos? A folha de pagamentos já remunera mais ou menos ao longo do ano de acordo com as habilidades e responsabilidades de cada trabalhador.

Isso aconteceu nas duas cooperativas oriundas das Indústrias Wallig. Uma forma de distribuição se opunha a outra. Cada associado tinha cotas diferentes na cooperativa. Os antigos tinham mais, os novatos quase nada. Aí depois de todo mundo ralar para conseguir o resultado positivo, os caras de cima, da administração, definiram que as sobras seriam distribuídas de acordo com as cotas de cada um... o povo do chão da fábrica viu centavos e os de cima ficaram com todo o resultado... (é foda!)

Participei desses debates por mais de uma década na categoria bancária. Os bancários criaram um critério misto ao longo de quase três décadas. Isso na regra geral, porque os bancos deram um jeito de premiar os de cima ou "mais chegados" com programas individuais não contratados com os sindicatos.

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FÉRIAS ERAM FÉRIAS MESMO

"O sistema de descanso anual implantado era considerado pela direção das Cooperativas como superior ao direito a férias disposto na CLT, pois seu objetivo 'salutar de recuperação e composição de forças' não poderia ser mercantilizado, impedindo o trabalhador de trocar por dinheiro o 'recurso sanitário de restauração de seu desgaste físico e mental', como foi declarado por um entrevistado." (p. 103)

Achei interessante essa questão de forçar que as férias fossem cumpridas em descanso mesmo pelos trabalhadores. (ou seja, que as férias fossem compridas...)

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PARTICIPAÇÃO SOCIAL 

"O 'fim da síndrome de participação' e a autonomização do Conselho fez com que emergisse entre alguns associados a certeza de que tinha havido a apropriação das instâncias decisórias por um pequeno número de associados. Isso teria ocorrido mesmo com a renovação obrigatória de parcelas de cada um dos Conselhos (o de Administração e o Fiscal), já que houvera, no primeiro deles, um processo de cooptação, pelos interesses de associados do setor administrativo..." (p. 135)

Será que essa questão acima não se tornou a realidade em nossas organizações de classe hoje?

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A DIFICULDADE DE SE ATINGIR A SONHADA IGUALDADE 

"As inúmeras linhas de segmentação da coletividade, opondo seus integrantes a partir do tipo de atividade que exerciam (trabalho na produção x trabalho na administração), antiguidade (fundadores x novatos), propriedade do capital (grandes cotistas x pequenos cotistas) determinaram uma complexa teia de interesses divergentes que, mal equacionados, levaram ao aprofundamento da desigualdade." (p. 148)

Interessante: a leitura desse estudo de caso foi como ver um filme a partir de minhas memórias ainda frescas de décadas de organização da classe trabalhadora, as dificuldades reais e materiais de se alcançar a unidade e a solidariedade de classe etc. Vi um filme de memórias através do livro!

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ALGUMAS REFLEXÕES 

Durante a leitura desse estudo de caso de uma indústria que faliu e da luta de seus trabalhadores para mantê-la por causa de seus empregos, pensei um pouco sobre essa nossa caminhada humana em busca de sobrevivência e de realização.

Fiquei me lembrando das experiências humanas em busca de organizações sociais baseadas em cooperativismo e solidariedade, que tendem a ser mais justas e com melhores oportunidades a todas as pessoas.

Me lembrei de exemplos enormes como o caso da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), experiência da classe trabalhadora que durou décadas (1917-1991) e que mudou o cenário político mundial.

Me lembrei de organizações de trabalhadores como as nossas caixas de assistência e previdência dos trabalhadores do Banco do Brasil: a Cassi e a Previ.

Me lembrei de cooperativismo como aquele que fez o apartamento onde moro, que custou aos associados um valor muito menor do que o valor que seria comprá-lo pelos modelos hegemônicos do capital.

E me lembrei de algumas realidades atuais, me lembrei da China e de Cuba, dois casos alternativos ao modelo hegemônico de organização social no mundo do século atual, o modelo de produção e distribuição de riquezas identificado com os conceitos de capitalismo, neoliberalismo e imperialismo.

Não vou desenvolver uma argumentação ou reflexão sobre isso. Isso não é mais meu papel. Já foi.

A China me impressiona. Cuba e os cubanos têm minha solidariedade fraterna. A lembrança sobre a autogestão em saúde dos funcionários do BB me traz uma certa dor porque gosto dela e lamento ela ser uma oportunidade desperdiçada. A Previ é uma segurança que sua comunidade deve estar alerta, pois a cobiça no patrimônio dela enlouquece até seus associados.

É isso. O livro de Lorena Holzmann foi o 24º livro que li neste ano. Todo dia quando percebo que estou aqui no mundo, penso sobre o que posso fazer para aprender algo novo, e tento, só tento, ficar atento para não fazer mal a ninguém. (gostaria de contribuir para tornar o mundo um lugar melhor, mas hoje não estou fazendo isso)

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Ah, sobre o que disse no primeiro parágrafo do texto, sobre chances de projetos alternativos ao modo capitalista de organizar as sociedades humanas, modelo baseado na religião do dinheiro, na ganância, no egoísmo e no cada um por si, confesso meu pessimismo da razão, apesar de me esforçar para crer no otimismo da ação criadora do ser humano. 

A questão é: quantos jovens estão neste momento focados nas mudanças coletivas inclusivas, solidárias e sustentáveis e não só em seus prazeres pessoais? Ou focados em superar suas dores e angústias pessoais, algo muito real num mundo sem perspectivas? Quantos? Tenho a impressão de que poucos, um número insuficiente para mudar a tendência escatológica dos tempos. 

Estamos sós, todos nós, estamos sós, uma solidão do tamanho da ideia de García Márquez no clássico "Cem anos de solidão". E qualquer saída para a humanidade será uma saída coletiva. Coletiva. Mas estamos sós...

São as minhas impressões. Espero estar errado. Quando era político, acertava mais minhas impressões. Agora, atomizado, espero estar errado em minhas impressões.

William

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Bibliografia:

HOLZMANN, Lorena. Operários Sem Patrão: gestão cooperativa e dilemas da democracia. São Carlos: EdUFSCar, 2001.


quinta-feira, 16 de março de 2023

Vendo filmes e documentários mais recentes (IV)


Pôster de divulgação do filme.

Refeição Cultural

Osasco, 16 de março de 2023. 


Pensando um pouco a questão do sentir-se pertencente a alguma coisa ao ver o filme Nomadland, tenho um sentimento um pouco diverso em relação a Fern, porém que me dá uma sensação de banzo... hoje eu não seria de forma alguma um "houseless" como disse a personagem Fern, mas me sinto um "homeless" mesmo rodeado de paredes próprias e bens materiais. 

William

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- Nomadland - (2020) - Filme com direção e roteiro de Chloé Zhao e estrelado por Frances McDormand, que também é produtora do filme. Após a morte do marido Bob e do fechamento da fábrica onde eles viviam e trabalhavam no meio do deserto, Fern (McDormand) acaba por passar a viver em sua van, conseguindo algum recurso financeiro de trabalho intermitente em trabalho intermitente como ocorre nos grandes galpões da Amazon, ou colhendo toneladas de beterrabas, ou limpando privadas de camping, ou em lojas de fast foods etc. O filme aborda a situação de penúria dos trabalhadores norte-americanos após a crise do subprime em 2009.

Comentário: Quando vi Nomadland em 2021, se não me engano, acabei percebendo a profundidade da história somente horas após ver o filme, que levou o Oscar de melhor filme, melhor direção e melhor atriz. Quis ver o filme novamente à época, mas não consegui. Agora vi mais duas vezes nesta semana e, se chorei um pouco na 1ª vez, na 2ª chorei várias vezes. Sobre a crise econômica e social do capitalismo norte-americano, tem uma passagem no filme que a legenda não deu uma tradução adequada. Uma garota que teve aulas de reforço com Fern lhe pergunta se ela é uma "homeless" e ela diz que não, ela é uma "houseless". E ao ver o filme a gente acaba compreendendo um pouco o que Fern quis dizer. São muitas passagens que me tocaram, se postasse aqui tudo que gostei no filme o texto ficaria enorme. 

Ao acompanhar Fern ao longo de sua história, tive a impressão que ela não conseguiu sentir mais pertencimento a nada após a perda da vida que levava com seu marido, naquela vila industrial e naquela casinha no meio do nada. Estou me sentindo assim, e isso me toca muito nas passagens do filme. Não consegui mais sentir pertencimento a nada após a vida que tive e que acabou.

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- Todos já sabem (2018) - Filme dirigido por Asghar Farhadi e protagonizado por grandes figuras do cinema espanhol e argentino como Penélope Cruz, Javier Bardem e Ricardo Darín. Sinopse: Laura (Penélope Cruz) volta à Espanha com os filhos para o casamento de uma de suas irmãs, seu marido fica na Argentina por compromissos inadiáveis. Chegando ao vilarejo espanhol, Laura reencontra Paco (Javier Bardem), com quem namorou antes de se casar e mudar para a América. Durante o casamento acontece algo inesperado e o marido de Laura, Alejandro (Ricardo Darín), precisa vir com urgência. 

Comentário: filme muito bom! O enredo vai envolvendo todas as pessoas da família no incidente ocorrido no dia do casamento, de maneira que todo mundo desconfia de todo mundo. Magoas passadas e presentes vêm à tona e o telespectador se vê dentro de uma história que poderia estar acontecendo no seio de sua própria família. Muito bom! Para mim, que estou relembrando a língua espanhola, é muito legal ver as diferenças de acento e tratamento entre espanhóis e argentinos.

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- A lavagem cerebral do meu pai (2015) - Documentário produzido e dirigido por Jen Senko demonstra o poder das mídias empresariais em alterar o comportamento das pessoas. Jen Senko percebeu a mudança de comportamento de seu pai, uma pessoa dócil e progressista, e passou a investigar o caso. Ela percebeu a influência da Fox News e de grupos de mídia que atuam com técnicas de manipulação de milhões de pessoas através de ódio, medo e mentiras. 

Comentário: o documentário é excelente e assustador, nós vimos isso acontecer no Brasil e no mundo inteiro. As pessoas são capturadas por essas redes e esses manipuladores profissionais e sofrem uma verdadeira lavagem cerebral. Eu tenho observado isso faz tempo e escrevo no blog a respeito. Eu fico me perguntando se ainda é possível frear e reverter esse processo de manipulação em larga escala em milhões de pessoas por parte de meia dúzia de bilionários e seus sofistas manipuladores. Como vamos salvar a sociedade humana dessa coisa?

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Post Scriptum: clicando aqui é possível ver o comentário anterior sobre filmes.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Leitura: Diário de um bandeirante ligeiramente atrasado e totalmente desarmado - Roberto Buzzo



Refeição Cultural

Osasco, 15 de fevereiro de 2023. Quarta-feira de 30º na Grande São Paulo.


Ao tentar ler para minha esposa um trecho do capítulo "A apoteose" a voz embargou, os olhos encheram-se de lágrimas e não consegui enxergar as palavras... cada emoção é única, mas como caminhante e romeiro de longa data, pude sentir um pouco do que Roberto Buzzo descreveu da emoção daquele momento em seu diário.

Peguei o livro de Buzzo na estante de casa de forma quase aleatória. Estipulei a mim mesmo que pretendo ler ao menos 3 livros por mês neste ano. Como estou com o projeto de ler e estudar a respeito da história de Cuba e do povo cubano, estou lendo livros enormes, de leituras que vão durar um tempão. Uma forma de descansar dos livrões é lendo livros leves e prazerosos durante o percurso.

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"(...) Antes de dormir, avaliara que o chão não seria tão duro como o da noite anterior. De fato, nem tão duro, nem tão seco. Descobri que não se é simples, leve e chinesa impunemente. O 'chinesa' é um preconceito meu: a barraca foi mesmo produzida na China, mas sob as especificaçoes de uma tradicional fábrica brasileira de equipamentos do gênero, como minha mochila e minha lanterna, que em nenhum momento descumpriram seu papel. Gotejava ao lado da cabeça..." (p. 39)

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Como tenho lido crônicas excelentes do Buzzo na rede social onde ele publica seus textos, decidi ler o livro dele que tenho em minha biblioteca. O cara escreve muito bem e a leitura de seu diário de um bandeirante é espetacular! É uma narrativa leve, tem humor, tem ironia da melhor qualidade e eu não esperava compartilhar também a emoção de nosso escritor peregrino e caminhador.

Buzzo percorreu 640 Km da Grande São Paulo até Fernandópolis, terra natal de sua família e de sua infância. A jornada foi feita por ele aos 50 anos de idade. O caminhante passou por 49 cidades e povoados, dormiu a maior parte dos 15 dias acampando em sua barraca em canaviais, laranjais e que tais. Passou uns perrengues típicos de uma aventura como essa e a leitura de seu diário de viagem em julho de 2004 me trouxe muitas reflexões, lembranças de uma época de minha própria vida e adorei a leitura.

Em algumas passagens, eu ia dialogando com Buzzo, do tipo: também acampei em Cabreúva; acampei e fiz rapel em Brotas; em Piracicaba, fiz 14 saltos de paraquedas e ver o rio lá de cima é um feito inesquecível. Sobretudo, faço a romaria de Uberlândia a Água Suja em Minas Gerais desde adolescente e por duas vezes planejei fazer o Caminho de Santiago e precisei adiar o projeto de quase mil quilômetros de caminhada por compromissos políticos de meus mandatos sindicais.

Vejo as mudanças em meu condicionamento físico neste momento da vida e me pergunto quais caminhos ainda vou percorrer andando ou correndo... não sei. Não sei mesmo! Meu quadril estragou meus projetos de correr uma maratona e fazer longas caminhadas... triste isso, mas a vida é assim, é o viver. Somos natureza!

Prezado Buzzo, obrigado pela publicação de seu Diário de um bandeirante ligeiramente atrasado e totalmente desarmado (2006). Tempos depois de sua viagem, viajei contigo! E só quem caminha sabe que no fundo a gente que caminha meio sem saber o motivo sabe muitas vezes que não estava sozinho, mesmo buscando a solidão momentânea, porque pessoas queridas estavam com a gente em pensamentos. Sempre estive acompanhado em minhas caminhadas solitárias.

Post Scriptum: Uma das cenas mais bonitas do filme Forrest Gump é quando ele conta a sua amada Jenny que ela estava lá ao seu lado enquanto corria por belas paisagens cortando o país do Atlântico ao Pacífico.  

Leitura nota mil!

William


Bibliografia:

BUZZO, Roberto. Diário de um bandeirante ligeiramente atrasado e totalmente desarmado. São Paulo: Com-Arte, 2006.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba II (06/01/23)


José Martí.

Refeição Cultural - Cuba (II)

Osasco, 6 de janeiro de 2023.


"Todo lo quiere para su gente Martí: libertad primero, holgura y cultura luego, felicidad finalmente" (In: "La lengua de Martí", Gabriela Mistral)


A leitura do livro de Leonardo Padura - O homem que amava os cachorros - não será fácil, é um livro grande, uma leitura que exige atenção. Além do contato com esse autor cubano moderno, também comecei a leitura sobre José Martí, escritor e político cubano do século XIX. Adquiri uma edição comemorativa de Martí, uma antologia com sua obra poética completa. Até o momento, li dois artigos sobre ele, um do nicaraguense Rubén Darío e outro da chilena Gabriela Mistral.

A passos de tartaruga, estou retomando meu contato com o idioma espanhol. A leitura dos textos em espanhol é uma estratégia importante por causa do vocabulário e da sintaxe. Também estou ouvindo mais o idioma e vendo umas aulas de língua espanhola no ICL para relembrar as formalidades gramaticais do idioma.

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JOSÉ MARTÍ

"La lengua de Martí", por Gabriela Mistral (do livro Martí en su universo. Una antología)

"Guardó a España la verdadera lealtad que le debemos, la de la lengua, y ahora que los ojos españoles peninsulares pueden mirar a un antillano sin tener atravesada la pajuela de la independencia, desde Madrid le dirán leal a este insurrecto, porque conservó una fidelidad más dificil de cumplir que la de la política, y que es esta de la expresión." 

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"Ahora que sabemos que la originalidad de Martí ha sufrido la prueba de los magisterios posibles, veamos de averiguar en qué consiste esta originalidad en sí misma. Parece ser que ella tiene estos trazos: originalidade de tono, originalidad de vocabularios, originalidad de sintaxis."

Tom - Mistral explica que Martí tinha o dom da oratória sem as características do discurso em público, não precisava gritar nem usar de gestos agressivos para dominar o público:

"El secreto de Martí orador consiste tal vez en que, manejando un género de virtudes falsas, él lo sirve con virtudes verdaderas..."

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Martí da língua espanhola culta e popular

"Martí, por el contrario, vivirá las edades formadoras, infancia y adolescencia, sumergindo en su lengua hablada por las tres castas, abonándose con el español culto de los cultos y con el gustoso y pimentado del pueblo. Cuando salió al destierro, llevaba, sólida y segura como las entrañas que no nos dejan, una lengua completa y viva, chupada veinte años en la cubana."

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Martí, sobretudo um poeta

"No olvidaremos tampoco que este hombre es sobre todo un poeta; que puesto en el mundo a una hora de necesidades angustiosas, él aceptará ser conductor de hombres, periodista y conferenciante, pero que si hubiese nacido en una Cuba adulta, sin urgencia de problemas, tal vez se hubiese quedado en hombre exclusivo de canto mayor y menor, de canto absoluto."

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As metáforas de Martí vêm do coração

"Al lado de la extraordinaria sintaxis de Martí está, pues, como el otro pilar de su magistralidad, su metáfora. La tiene impensada y no extravagante; la tiene original e no estrambótica; la tiene virgínea..."

e

"el corazón es el proveedor de la metáfora en Martí, así la tiene de espontánea, de fresca y de cándida, aun cuando le sirve a veces para la santa cólera."

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O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS

A incompreensão do suicídio

"Perguntou a si mesmo que angústias podiam atormentar o cérebro de um homem sensível e expansivo como Maiakóvski para que renunciasse voluntariamente ao perfume de um guisado, à magia de um entardecer, à visão do encanto feminino, entregando-se ao mutismo irreversível da morte." (p. 69)

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A solidão do exílio

"Sentiu que, naquele preciso instante, começava o seu exílio: verdadeiro, total, sem ter onde se agarrar. Para além da família e de alguns poucos amigos que lhe tinham reiterado a sua solidariedade, era um homem aflitivamente só. Seus únicos aliados úteis numa luta que devia iniciar (como?, por onde?) continuavam isolados em campos de trabalho ou já tinham claudicado, mas permaneciam todos dentro das fronteiras da União Soviética, e a relação com eles ia se apagando com a distância, a repressão e o medo." (p. 72)

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"sentiu que nem sequer seu otimismo inabalável ou sua fé na causa podiam libertá-lo da sensação invasiva de solidão que o embargava." (p. 79)

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A morte, uma contingência da revolução

"A morte, no entanto, podia ser considerada apenas uma contingência inevitável: Liev Davidovich sempre pensara que as vidas de um, de dez, de cem, de mil homens podem e até devem ser devoradas se o turbilhão social assim o exigir para atingir seus fins transformadores, pois o sacrifício individual é muitas vezes a lenha que se queima na pira da revolução." (p. 73)

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A irracionalidade do terrorismo

"Naquela noite conversaram durante horas sobre poesia russa e francesa (coincidiam na admiração por Baudelaire) e sobre a irracionalidade dos métodos terroristas (se uma bomba resolve tudo, para que servem os partidos, para que serve a luta de classe?)..." (p. 78)

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Ditadura do proletariado

"A teoria marxista, que Lênin e ele utilizavam para validar todas as suas decisões, nunca considerara a circunstância de os comunistas, uma vez no poder, perderem o apoio dos trabalhadores. Pela primeira vez desde o triunfo de Outubro deveriam ter se interrogado (interrogamo-nos alguma vez?, perguntaria a Natália Sedova) se era justo instaurar o socialismo contra ou à margem da vontade majoritária. A ditadura do proletariado devia eliminar as classes exploradoras, mas deveria reprimir também os trabalhadores?" (p. 83)

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COMENTÁRIO FINAL

Ler, estudar, exercitar o cérebro que nos faz ser o que somos é uma obrigação e uma necessidade vital. Estudemos então.

Estou com vários textos começados, mas todos exigem pesquisa, exigem ânimo e exigem reflexão sobre a tecitura dos mesmos. Enquanto os textos não são produzidos, vamos lendo e estudando algumas coisas.

A primeira postagem dessa série de estudos sobre Cuba pode ser lida aqui.

William


Bibliografia:

MARTÍ EN SU UNIVERSO - UNA ANTOLOGÍA. Edición Conmemorativa. Real Academia Española e Asociación de Academias de La Lengua Española. Alfaguara - Lengua Viva, Madrid.

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. Tradução de Helena Pitta. 2ª ed. - São Paulo: Boitempo, 2015.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Diário e reflexões (21/12/22)


Um trabalhador em 2009.

Refeição Cultural

Osasco, 21 de dezembro de 2022. Quarta-feira.


Soledades

Freud e outros estudiosos da psicologia humana dedicaram suas vidas na busca por compreender esse animal tão complexo que somos, os homo sapiens, animais dotados de um cérebro com 86 bilhões de neurônios, o verdadeiro criador de tudo, como nos ensina o neurocientista Miguel Nicolelis. O ser humano é um animal fantástico e contraditório, capaz das melhores e das piores ações e criações dentre todas as espécies que habitam o planeta Terra. Como compreender e lidar com esse ser que somos?

Após acordar mais uma vez e perceber que estava sonhando com o mundo do trabalho ao qual passei a maior parte da minha vida, mundo que me deu um sentido ao viver e que me definiu como aquilo que sou até hoje, fiquei pensando a respeito dos porquês de sempre sonhar com fragmentos de imagens e momentos de minha vida até o dia no qual me despedi do trabalho, do banco e do movimento sindical. Foi um dia solitário.

Foi um dia solitário. Não tive um rito de passagem com despedidas e confraternizações. Acho que isso interferiu de alguma forma na minha psique e até hoje estudo uma maneira de seguir adiante, de me reinventar, de ser alguém com um lugar definido no mundo, ao menos para si mesmo. 

Pra tornar mais complexa minha busca por sentidos, o mundo para o qual eu "voltei", o mundo familiar, é um mundo daqueles mais comuns de tudo, um mundo de relações partidas, difíceis, de incomunicabilidades, bem típico do padrão global. Ninguém ouve ninguém, vemos as pessoas infelizes e cheias de carências e não podemos ajudar, sequer tentar. Ninguém ouve ninguém. É o nosso mundo.

Quando terminei minha última função de representação da classe trabalhadora estava sofrendo um processo destrutivo de lawfare, uma gente canalha ligada ao centro do poder patronal, mais uma traidora do nosso lado da gestão eleita, inventaram um processo administrativo contra mim para que eu passasse os últimos meses de meu mandato eletivo com as energias todas voltadas a me defender de acusações estapafúrdias, ridículas, infundadas, tanto é que depois se provou que tudo que me acusavam era o inverso da verdade. O processo tinha um objetivo claro de me destruir física e psicologicamente, de me impedir de estar 100% na luta em defesa dos direitos dos trabalhadores que representava. Isso foi entre o final de 2017 e o primeiro semestre de 2018.

O processo de destruição psicológica que enfrentei não terminou ao finalizar meu mandato eletivo em 2018. Durante um ano, até que eu completasse tempo e idade mínima para me desligar do trabalho ao qual dediquei o melhor de mim e de minha vida, em abril de 2019, vivi sob ameaças constantes de não ter salário, de sofrer a continuidade dos processos de lawfare, enfim, vivi no limbo enquanto fui vinculado ao meu mundo do trabalho. Terminei uma história de quase três décadas de trabalho no maior banco público do país me desligando através de uma agência na qual nunca me vinculei ao dia a dia de trabalho, um estranho, um nome no prefixo da dependência. Assim terminei meus dias no banco.

Da mesma forma, foi assim que terminou minha relação de quase trinta anos de movimento sindical. Durante uns meses após o desligamento do banco dessa forma incompatível com a vida que tive no mundo do trabalho, no movimento sindical fui sendo cancelado talvez por ser quem sou, por ser um militante da época na qual podíamos ter opiniões próprias, da época do movimento sindical no qual nos trancávamos em salas de reuniões e exercíamos o pleno da democracia até que uma posição fosse tomada com todos dizendo o que pensavam, mesmo sendo opiniões divergentes. Talvez eu tenha sido cancelado por ser dessa época. Isso não faz mais parte do momento político e sindical.

Fim de ano. Fim da longa noite que durou o golpe de Estado de 2016. Desejo tudo de melhor para o nosso querido presidente Lula e para a classe trabalhadora tão sofrida deste país.