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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Livro: O pão e a pedra - Sérgio de Carvalho



Refeição Cultural

"Porque a representação é a procura do outro. É a alegria de viver o que não somos. Representar não é forjar estados, mas construir mudança." (p. 44)


Ganhei de presente, dias atrás, de Sérgio de Carvalho e Marili Santos um box com três peças teatrais da Companhia do Latão. Uma edição lindíssima!

O box contém as peças O pão e a pedra, Os que ficam, e Lugar nenhum.

Como leitor, tenho pouca experiência com peças teatrais. Li alguns clássicos de William Shakespeare e mais algumas peças, pouca coisa. Tenho muito que aprender ainda.

A peça O pão e a pedra (2016) traz em seu enredo a greve dos metalúrgicos do ABC em 1979, momento de surgimento do Novo Sindicalismo, com Lula sendo uma das principais lideranças sindicais no enfrentamento à carestia e ao autoritarismo da ditadura mancomunada com as elites patronais.

Gostei muito da peça! Me lembrei um pouco de Eles não usam black-tie, de Gianfranchesco Guarniere (minha referência é o filme de Leon Hirszman). Ver a Companhia do Latão interpretando O pão e a pedra deve ser muito emocionante!

Sérgio de Carvalho faz uma apresentação no início do livro muito esclarecedora. 

Me sensibilizei na hora com as informações e o contexto no qual a pré-estreia se deu, no dia 12 de maio de 2016, dia do afastamento da presidenta Dilma Rousseff pelo Senado brasileiro. Um ato infame como foi toda a ditadura que enfrentamos por duas décadas. 

O parágrafo a seguir exemplifica a pesquisa desenvolvida pelo autor dramaturgo sobre as relações entre os movimentos da época: igreja, sindicatos, estudantes etc.

"A procura de compreensão daquele momento histórico pouco conhecido, em que os religiosos realizaram uma resistência ativa à ditadura civil-militar, me aproximou, entretanto, de outras questões. A mais importante foi a da relação entre esse clero progressista e o chamado 'novo sindicalismo', que se desenvolveu e ganhou projeção nacional com as grandes greves do ABC nos anos de 1978, 1979 e 1980. Essa junção entre a igreja e o movimento de trabalhadores, tensionada pela pressão de setores intelectualizados e o movimento estudantil de esquerda, se tornaria emblemática na luta pela democratização e mudaria as coordenadas da política de esquerda no país." (p. 10)

Depois Sérgio de Carvalho nos explica os motivos da escolha da greve de 1979: 

"(...) Para todos nós, fortalecia-se uma perspectiva da história: a das dificuldades do aprendizado político daqueles trabalhadores que enfrentaram a ditadura e o aparato midiático patronal, num processo que durou sessenta dias. Foram quinze dias de máquinas paradas e 45 dias de 'trégua' com mobilização dentro e fora das fábricas. Ao final das contas, esta seria uma peça sobre aprendizado, o deles e o nosso..." (p. 11)

Momento mágico (e histórico)

A cena de Lula discursando sem sistema de som na assembleia do dia 13 de março de 1979, no Estádio da Vila Euclides, com sessenta mil trabalhadores, é um momento mágico na história da classe trabalhadora brasileira. Ela se dá no Primeiro ato, Cena 8, "Corais da Vila Euclides". 

Destaco, porém, que não há representação do personagem Lula. Há uma ausência consciente do líder, de maneira que vivenciamos no drama as pessoas comuns tomando as decisões e fazendo o que pessoas comuns fazem.

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Comentário final 

A leitura da peça e dos textos excelentes que acompanham a edição - de Mario Sergio Conti e Maria Lívia Goes - dão aos leitores uma experiência enriquecedora sobre a temática desenvolvida pela Companhia do Latão. 

Realmente, a leitura é um momento cultural de muita reflexão e aprendizagem.

Recomendo a experiência às amigas e amigos leitores.

William 

29/07/26


Bibliografia:

CARVALHO, Sérgio de. O pão e a pedra. São Paulo: Editora Temporal, 2019.

segunda-feira, 26 de junho de 2023

53. A megera domada - William Shakespeare



Refeição Cultural - Cem Clássicos

Osasco, 26 de junho de 2023. Segunda-feira.


Entre ontem e hoje li mais uma peça de William Shakespeare - A megera domada (1594), em inglês "The taming of the Shrew". Não gostei da estória. No entanto, li mais um clássico. Novo conhecimento...

Pelo que vi num pequeno texto de apresentação do autor inglês - "Vida e obra" -, texto de uma coleção da Nova Cultural com dezenas de obras-primas da literatura universal:

"A obra de Shakespeare é dividida em quatro períodos: o primeiro, até 1594; o segundo, de 1594 a 1600; o terceiro, de 1600 a 1608; e o quarto, após 1608. Ao longo desse tempo o estilo de Shakespeare evoluiu da retórica barroca ao lirismo despojado." 

Após ler essa segunda peça da coletânea que adquiri com 27 obras, fiquei pensando a respeito da qualidade das obras do autor inglês. As 4 tragédias que já li são fantásticas! Falo de Hamlet, Romeu e Julieta, MacBeth e Otelo, o mouro de Veneza

Talvez as peças dramáticas mais famosas sejam o ápice do dramaturgo, algo normal que se conheça o que de melhor ele tenha produzido. 

Dias atrás, quando li A comédia dos erros (comentário aqui), uma das primeiras de Shakespeare, até gostei da trama, e relevei o forte machismo e preconceito de época.

O texto da Nova Cultural diz ainda sobre essa primeira fase:

"O primeiro período foi caracterizado, até certo ponto, pela construção formal e versos estilizados. Estava em voga na época o gênero de peça histórica, e Shakespeare escreveu os afrescos Henrique VI entre 1589 e 1592 e Ricardo III entre 1592 e 1593. Também se destacam nesse período as comédias ligeiras A comédia dos erros, de 1592, A megera domada, escrita entre 1593 e 1594, e Os dois cavalheiros de Verona, de 1594, além da tragédia Tito Andrônico, de 1593/1594."

Bom, desses citados acima, minha coletânea só não tem Henrique VI. Talvez eu leia essas peças primeiro. Acho interessante ler a obra de escritores de forma cronológica de criação e ou lançamento, pois é possível ver a evolução ou mudança do estilo ou fases do autor ou autora.

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A MEGERA DOMADA

"Tenho meios, Petrucchio, de ensejar-te uma consorte bastante rica, mui formosa e jovem, e educada no jeito de fidalga. Seu único defeito — e que defeito! — é ser intoleravelmente brava, teimosa e cabeçuda sem medida, a tal ponto que, embora meus haveres fossem menores, não a desposara por uma mina de ouro." (from: "Box Grandes Obras de Shakespeare (27 peças: Hamlet, Rei Lear, Romeu e Julieta, Otelo, O Mercador de Veneza, Sonho de uma Noite de Verão...)" by: William Shakespeare)


A peça contém 5 atos e se passa em Pádua.

No começo, achei bem interessante ver que a trama teria uma história dentro de outra história, mas no final a moldura não se completou e o dramaturgo não retomou ou finalizou da forma que iniciou o enredo.

Explico: no prólogo, um lorde volta de uma caçada e ao ver um bêbado dormindo ao relento, decide brincar com ele, mandando seus criados recolherem o sujeito e fingirem que ele acordou dum longo pesadelo onde era um ninguém e agora voltava a ser um lorde com posses, esposa e criados. O bêbado se chama Sly.

A peça que o lorde verdadeiro e o bêbado achando que era lorde assistem se chama "A megera domada". E a peça começa com os 5 atos.

A peça: duas irmãs, Catarina e Bianca, filhas de um homem de posses em Pádua - Batista -, são pretendidas em casamento. Bianca é disputada por vários pretendentes. Catarina é considerada uma jovem de difícil trato, brava até falar chega. Entre os pretendentes à mão de Bianca está Lucêncio, filho de um nobre de posses em Pisa, Vicêncio. Aí a trama se desenvolve.

Escravidão - Assim como a peça anterior que li dias atrás, o cotidiano da idade média é muito complicado para nossa consciência do século 21. A escravidão e a compra e venda de pessoas é algo comum. Além da violência nas relações hierárquicas.

Em A comédia dos erros, os irmãos gêmeos Drômio de Éfeso e Drômio de Siracusa, criados dos também gêmeos Antífolo de Éfeso e Antífolo de Siracura, foram comprados para servir aos filhos do casal de posses assim que eles nasceram.

Em A megera domada, vemos a mesma relação de poder com senhores espancando criados a todo momento.

As mulheres são coisas, compradas e negociadas da mesma forma. 

Essas primeiras peças de Shakespeare não trazem questões filosóficas ou críticas sociais como vi nas tragédias que já conheço. Essa é a minha opinião.

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LER OS CLÁSSICOS É MELHOR QUE NÃO LER OS CLÁSSICOS (CALVINO)

É isso! Com essa leitura, conheci mais uma obra de William Shakespeare. 

Sigamos lendo os clássicos. Como nos ensina Italo Calvino é melhor ler que não ler os clássicos.

Esse foi o 18º livro lido no ano.

William


Bibliografia:

SHAKESPEARE. William. As grandes obras. Capa, paginação e tradução: Mimética. Imagem da capa: John Taylor: retrato de Chandos (1610). Copyright: Mimética, 2019.

Vida e Obra: Shakespeare. Fascículo da coleção Obras-Primas da Nova Cultural.

sexta-feira, 9 de junho de 2023

52. A comédia dos erros - William Shakespeare



Refeição Cultural - Cem clássicos

Osasco, 09 de junho de 2023.


Meu conhecimento de Shakespeare se resume à leitura de quatro tragédias dele que já li em algum momento da vida: Romeu e Julieta (1592), Hamlet (1599), Otelo, o mouro de Veneza (1604) e MacBeth (1606). São peças extraordinárias! Nunca li uma comédia ou outra peça do escritor inglês.

Por não ter obras de Shakespeare em casa, acabei adquirindo por R$ 1,99 uma coletânea virtual com 27 peças teatrais do dramaturgo e poeta inglês. Como ando meio parado na leitura de obras clássicas, preciso retomar esse objetivo e, de vez em quando, intercalar um clássico entre os livros que estou lendo neste ano.

Para começar a série de peças de Shakespeare, li hoje a primeira da coletânea: A comédia dos erros (1591). Pelo que pude pesquisar, a peça é uma das primeiras feitas pelo escritor. Gostei da obra! Gostei! Ler Shakespeare é realmente uma leitura diferente do que estamos acostumados a ler.

Esta foi a 14ª obra que li neste ano. Se der, quero ler 18 até o fim do mês para ficar com uma média de 3 livros por mês.

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A COMÉDIA DOS ERROS

A peça tem 5 atos e tem como cenário a cidade de Éfeso. Siracusa é a outra cidade de referência da peça. Os personagens são originários dessas duas cidades inimigas.

O núcleo da peça envolve uma família que tem irmãos gêmeos e que se separam após um naufrágio. O destino vai se encarregar de colocar irmãos e demais personagens de seus entornos no mesmo lugar e época e a partir daí se darão os acontecimentos.

Os irmãos se chamam Antífolo de Éfeso e Antífolo de Siracusa e seus criados, gêmeos também, se chamam Drômio de Éfeso e Drômio de Siracusa.

Por que o velho mercador de Siracusa, Egeu, pai dos meninos separados pelo naufrágio, foi até Éfeso, sabendo que isso poderia lhe condenar à morte por serem inimigos os Estados e seus cidadãos serem proibidos de ir até o país uns dos outros?

"EGEU - Meu caçula, o mais velho nos cuidados, aos dezoito anos revelou desejo de procurar o irmão, tendo insistido junto de mim, para que seu criado - que, como ele, privado também fora de um irmão cujo nome ele levava - nas investigações o acompanhasse. Assim, porque sofria de saudades de meu filho perdido, pus em risco vir a perder o que ainda me restava. Cinco estios passei na extrema Grécia; vasculhei os confins da Ásia distante; e, ao costear, já de volta para a pátria, a Éfeso vim ter, sem esperança nenhuma, é certo, de poder achá-los, mas porque não deixasse inexplorado nenhum lugar capaz de abrigar homens...

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COMENTÁRIOS

A tradução da edição que tenho é boa, na minha opinião. Os textos estão numa linguagem de fácil leitura, temos frases rimadas e com bom ritmo e sonoridade.

Durante a leitura me lembrei do pobre Sancho Pança, que sempre passou maus bocados ao lado de seu cavaleiro e senhor Dom Quixote de La Mancha. Os criados de seus senhores, os irmãos Drômio, são espancados sem dó alguma... que merda isso!

Aliás, eles foram comprados já no nascimento para serem criados das crianças gêmeas nascidas, os irmãos Antífolo.

"Na mesma hora, na mesma hospedaria, uma mulher do povo de igual fardo se livrou, dando à luz dois filhos gêmeos também mui parecidos, que por serem de gente muito pobre eu comprei logo, para que a servir viessem meus dois filhos..."

A MULHER E O MACHISMO: "LUCIANA - A liberdade indócil é domada pela própria desgraça. Não há nada sob a vista do céu que não se mova num limite restrito, assim na terra como no ar e no mar. Todas as fêmeas dos animais, dos pássaros, dos peixes seguem ao macho e em tudo lhe obedecem. O homem, ser mais divino, senhor deles, dono do mundo todo, do mar vasto, que a superioridade do intelecto pôs acima de pássaros e peixes, da esposa é dono e mestre. Assim, alegre, com ele em tudo concordar te cumpre."

A peça seguiu os desfechos que conheço das tragédias que já havia lido de Shakespeare, as tensões vão aumentando e se cruzando até o clímax final. Eu me surpreendi com o final da estória. Gostei! Arrepiei!

É isso. Mais um clássico da literatura mundial.

William


Bibliografia:

SHAKESPEARE. William. As grandes obras. Capa, paginação e tradução: Mimética. Imagem da capa: John Taylor: retrato de Chandos (1610). Copyright: Mimética, 2019.


sábado, 12 de novembro de 2022

Leitura: Macacos - Clayton Nascimento



Refeição Cultural

Osasco, 12 de novembro de 2022. Sábado.


No refúgio de meu canto no mundo, minha casa, li o livro Macacos - Monólogo em 9 episódios e 1 ato, de Clayton Nascimento. O livro nos apresenta a peça que ele desenvolveu e ainda desenvolve desde 2015: é um texto vivo. 

Seu texto ensina, educa, nos chama a atenção para a realidade ao nosso redor. Clayton aponta conceitos importantes como, por exemplo, dar o nome às coisas como elas são: "escravizados" é o termo a ser dito sobre pessoas que foram capturadas e viveram na condição terrível da escravidão. "Escravos" não explica que todos nascem livres. Na peça, Clayton nos pede que prometamos dizer "escravizados" e não "escravos"...

Além da leitura da dramaturgia-denúncia escrita por Clayton, tive a oportunidade de ver a apresentação da peça-monólogo por ele no auditório Paulo Freire, do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) na última quinta-feira 10. A gravação da peça será disponibilizada pelo ICL no Dia da Consciência Negra, 20 de novembro. Assistam! A potência da apresentação de Macacos por Clayton Nascimento me impacta fortemente até hoje, dois dias depois de vê-lo em cena! Demais!



Provavelmente estou no conforto de minha casa (tenho um canto no mundo) e tenho uma remuneração certa todos os meses e não passo dificuldades de alimentação e aquisição das coisas mais básicas da cidadania neste país de 215 milhões de pessoas com mais da metade na incerteza diária do viver porque minha pele é branca. Aprendi sobre esse fato nas últimas décadas nas quais me politizei e compreendi um pouquinho sobre o que é o Brasil e o que somos há 522 anos. 

O racismo estrutural me favoreceu ao longo de minhas cinco décadas de existência por diversas vezes desde a mais tenra idade. Não tenho dúvidas sobre isso. Mesmo nos trabalhos braçais, levei vantagem sobre algum irmão preto nos caminhos percorridos, vantagem por ser branco. 

As mesmas cinco décadas de existência de minha irmã negra Telma tiveram um roteiro completamente diferente do meu. Éramos dois pobres num mundo racista, mas eu era branco e ela negra. Queiramos ou não esse fato da cor de nossas peles fez diferença nos cotidianos de nossas vidas porque aqui é o Brasil. Aqui é um dos lugares mais racistas do mundo! E de gente mais racista do mundo!

E o percurso da vida de minha irmã é a realidade do viver da maioria do povo brasileiro, preto, pardo, mestiço, um povo nascido de mulheres pretas, indígenas, mestiças, mães do povo brasileiro a partir de colonizadores brancos, depois mães de descendentes de colonizadores brancos. 

Um mundo violento contra as mulheres desde sua origem, esse é o Brasil, é o nosso país. Como diz Saramago no Ensaio sobre a cegueira, essa coisa é o que somos! O risco de morte, risco por qualquer tipo de morte severina, matada ou morrida, sempre foi maior para minha irmã, seus filhos, e o povo preto dessa terra do que para mim de pele branca. Sempre!

Enfim, paro a refeição cultural por aqui. Tenhamos claro o racismo dessa terra na qual vivemos. Racismo é uma merda! Nunca esqueci uma das lições que aprendi no movimento sindical com a companheira Deise Recoaro, uma branca como eu, que explicava nos cursos de formação que fizemos juntos: 

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Racismo gera preconceito, preconceito gera desigualdade de oportunidades, desigualdade de oportunidades gera desigualdade social... e cá estamos em 2022 num dos lugares com maior desigualdade social do planeta Terra. 

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Temos que lutar contra o racismo e mudar essa realidade. Peças teatrais dramáticas como a de Clayton Nascimento, um sobrevivente desse mundo racista, são fundamentais, são necessárias a tod@s nós, povo brasileiro!

William Mendes