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sábado, 30 de maio de 2020
Instantes (1h20)
Não foi possível estudar língua japonesa naquele dia. A sexta-feira não foi produtiva em termos de novos conhecimentos. Afazeres diversos o desviaram do desejo de leitura e aprendizado de algo novo. A renovação do seguro do carro teve algum problema e foi preciso tratar do assunto. A bateria do carro arriou por ficar desligado durante a pandemia e foi necessário acionar a assistência para ligar o veículo. Queria correr um pouco no estacionamento do condomínio, mas também não deu certo.
Leu um pouco de Hobsbawm, mas a leitura foi truncada, toda hora tinha que interromper; nem acabou o capítulo em que estava. Leu mais uma novela do Decamerão, de Giovanni Boccaccio; ele se propôs a ler uma por dia durante cem dias. Leu um pouco a respeito dos povos originários das Américas - Guatemala e México. O texto sobre o México foi um texto de Carlos Fuentes, o prefácio do livro Los cinco soles de México, escrito no ano 2.000. Se não estudou japonês, ao menos leu vinte páginas de língua espanhola moderna. Já é alguma coisa. O texto trouxe um pouco de reflexões a ele também. Leu um pouco do Popol-Vuh, sobre os povos maias-quiché.
E assim se foi mais um dia em sua vida. As notícias do mundo lá fora foram as mesmas más notícias do novo cotidiano de pandemias. Muitas mortes e contágios causados pelo vírus e o pior momento político da história daquele pedaço de mundo. Ele havia previsto que o dia seria assim, como o famoso romance de Remarque, Nada de novo no front.
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William Mendes
domingo, 16 de fevereiro de 2020
A humanidade tá foda, mas sós não somos nada
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| Post Scriptum: Flores, por que não incrementar o post com elas? A vida fica mais bela com flores. Não estão sozinhas. |
Por algum motivo, ao ler sobre a história dos povos maias, os quichés, no livro Popol Vuh, fiquei divagando alguns instantes sobre a vida humana. Na história desses povos, os deuses criaram os homens para adorarem e lembrarem os deuses.
Os deuses criaram as terras e animais e plantas para adorarem a eles e se frustraram porque não foram adorados. Depois fizeram homens de barro para serem adorados e também não deu certo. Depois fizeram homens de madeira. Falharam de novo. Por fim, fizeram homens de milho.
Depois vieram os espanhóis e acabaram com tudo da mesma forma impiedosa que os deuses fizeram através dos dilúvios e catástrofes.
Adorar deuses. Sempre o motivo da vida deve ser adorar deuses, adorar homens, adorar coisas, adorar a si mesmos, adorar adorar algo.
Pensei sobre a linguagem humana e as línguas, pensei sobre as histórias das civilizações. Pensei sobre nossas histórias.
Aí olhei o material de anotações que tinha na mão, uma agenda antiga com fotos e com textos incrementando o produto vendido a mim por uma organização de esquerda. Li nela um poema do Ferreira Gullar que me fez divagar mais ainda. O eu lírico falava de solidão e de conhecer muitas coisas, menos a si mesmo.
Fiquei rabiscando nas páginas da agenda palavras que expressavam o que me vinha nas ideias. Algo sobre não sermos nada sozinhos, não sermos nada sozinhos, não sermos nada sozinhos.
Pensei no jovem que deixou a família no final dos anos oitenta e saiu caminhando sozinho por lugares inóspitos dos Estados Unidos como o deserto do Arizona e depois foi parar no Alasca, onde faleceu sozinho após escrever que "happiness only real when shared".
Me lembrei de passagens da vida, aventuras que vivi. Coisas legais que fiz. Momentos que marcaram. Em nenhuma das passagens eu estava sozinho.
Nos momentos em que estava sozinho, em várias fases da vida, pensei merda, pensei escapes, pensei a morte. Não somos nada sozinhos.
Nos rabiscos que fiquei fazendo nas páginas da agenda antiga, comecei vendo a vida dos povos maias, depois lembrei da minha vida e terminei pensando no contexto atual de solidão em relação ao mal que tomou conta do meu mundo, do mundo de todos nós.
Os chacais, as hienas e coiotes tomaram conta da savana-mundo e nós estamos como as reses apartadas para o abate. Estamos sozinhos. Os predadores estão em bando, brigam entre si pela caça; o fato é que estão em bandos e nós, sozinhos ou em cercados, discutindo o sexo dos anjos.
E os carniceiros e predadores ainda nos apartam, nos amedrontam, nos devoram em nome de uma entidade inventada pelos animais humanos, um deus. Tudo em nome de deus. E do filho de deus. E da família (deles).
Que coisa chocante! Contava a lenda que os animais humanos eram seres racionais. A minoria da espécie humana se apoderou da maioria da sua espécie. Não somos nada sozinhos.
Somos todos mortais. Pelo menos isso! Inclusive a minoria opressora.
Diário daquele que só, vê que só não é nada, mas sendo mortal, lembra que os opressores também são mortais.
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William Mendes
sábado, 30 de março de 2019
Leitura: El Popol-Vuh
Refeição Cultural
El Popol-Vuh - Livro dos conselhos ou Livro da comunidade
A leitura desta obra se dá no contexto de estudos da literatura hispano-americana, com o tema das invasões dos europeus a partir do século XV, sobretudo os espanhóis, e nos leva a uma reflexão amarga sobre a destruição dos povos originários que aqui nas Américas viviam. Eram culturas riquíssimas as dos maias, astecas, incas, dentre outros povos e culturas.
E o que mais nos choca é ver no século XXI a repetição das diversas formas de colonização, exploração e destruição de culturas e povos das Américas Central e do Sul, e também do Caribe, por parte dos norte-americanos sobretudo e também por parte dos europeus.
A leitura aqui na postagem é de estudos, é de aprendizagem. Vamos então reproduzir alguns pontos da obra, encontrada em meio virtual, para que a postagem dê um apanhado geral sobre El Popol-Vuh.
O texto está em espanhol.
Sobre a obra:
Traducción de la versión francesa del profesor Georges Raynaud, director de estudios sobre las religiones de la América Precolombina, en la Escuela de Altos Estudios de París, por los alumnos titulares de la misma MIGUEL ÁNGEL ASTURIAS y J. M. GONZÁLEZ DE MENDOZA
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Instituto Cultural Quetzalcoatl de Antropología Psicoanalítica, A.C.
BREVE NOTICIA
El Popol-Vuh, que puede traducirse Popol, comunidad, consejo, y Vuh, libro, Libro del Consejo o Libro de la Comunidad, fue pintado. Lo dice el texto: “Este libro es el primer libro pintado antaño”. ¿El primer libro? ¿Querrá significarse con esto el más importante, algo así como la Biblia? “Pero su faz está oculta”, sigue el texto. ¿Oculta, por qué? ¿Fue destruido? ¿Fue quemado? ¿Se consumió en la ciudad de Utatlán, entregada a las llamas, reducida a cenizas por el Conquistador? “Su faz está oculta al que ve”, añade el texto, lo que mueve a pensar que no está oculta para el que, sin ver, conserva dicha faz en la memoria y la transmite oralmente.
Originalmente, el Popol-Vuh fue pintura, memoria, palabra, y en esta forma de tradición oral se conserva hasta mediados del siglo XVI, época en que vuelve a ser escrito, por un indígena, antiguo sacerdote quizá, en lengua quiché, con caracteres latinos. Este manuscrito, que constituye el verdadero original del Popol-Vuh, llega a manos de Fr. Francisco Ximénez, cura párroco de Santo Tomás Chuilá, población guatemalteca llamada actualmente Chichicastenango, a principios del siglo XVIII. Por eso se conoce el Popol-Vuh con el nombre de “Manuscrito de Chichicastenango”.
Descubrirlo el Padre Ximénez, varón versadísimo en lenguas indígenas, y entregarse a su estudio y traducción del quiché al castellano, todo es uno. Pero el perilustre dominico no se contenta con traducir el Popol-Vuh. Para dar testimonio incuestionable de la autenticidad del texto y curarse en salud ante las autoridades religiosas, tal similitud hay entre el Génesis indígena y algunos pasajes de la Biblia, hace algo que la posteridad jamás le pagará bastante: al par de su versión castellana, en columna paralela, copia del texto quiché, es decir, que no sólo nos lega su traducción, sino la transcripción del texto indígena.
El Padre Ximénez realiza dos versiones. Una primera literal, que no le satisface, y una segunda, más cuidada, que incluye en el primer tomo de la “Crónica de la Provincia de Chiapa y Guatemala”, obra monumental que del archivo de los dominicos pasa en 1854 —con otros documentos del Padre Ximénez—, a la Biblioteca de la Universidad de San Carlos Borromeo. A partir de ese momento el libro sagrado de los quichés va a ser traducido a otras lenguas. El Dr. Carl Scherzer copia el texto en la Biblioteca de la Universidad de Carolina, y traducido al alemán lo publica en Viena, en 1857, bajo el título de “Las historias del origen de los indios de esta Provincia de Guatemala”. El abate Carlos Esteban Brasseur de Bourbourg llega a Guatemala, desde Francia, atraído por la luz de ese manuscrito prodigioso, se afinca en el país, estudia y profundiza la lengua quiché y traduce el Popol-Vuh al francés, versión que publica en París, en 1891, con el título de “Popol-Vuh, le livre sacre et les mythes de l”antiquité américaine”.
Varias otras traducciones se han hecho desde entonces, y se han publicado algo más de treinta y dos volúmenes, en todas las lenguas, interés que crece de día en día por tratarse de uno de los documentos milenarios de la humanidad.
De estas traducciones, citaremos las últimas. La del licenciado J. Antonio Villacorta y el profesor Flavio Rodas, publicada en Guatemala, en 1927, con el texto quiché fonetizado; la del licenciado Adrián Recinos, el cual encontró en la Biblioteca de Ewberry, de Chicago, el primer texto del Padre Ximénez, la traducción más literal, pero no la mejor, dado que el mismo autor la mejoró enormemente, y fue su segunda versión, ya más dueño del idioma quiché, la que incluyó en su famosa historia. De ésta, el profesor Georges Raynaud, después de más de cuarenta años de estudio, toda una vida, realizó su versión francesa ajustada al texto con rigor científico, sin restarle por ello su primigenia hermosura, su vuelo poético, su frescor vegetal, su hondura misteriosa. Dos de sus alumnos en la Escuela de Altos Estudios de París, el mexicano J. M. González de Mendoza y el guatemalteco Miguel Ángel Asturias, vierten al español, bajo la dirección del propio profesor Raynaud, la traducción del Popol-Vuh, hasta ahora considerada como la mejor, y la publican en París, en 1927, con el título de “Los Dioses, los Héroes y los Hombres de Guatemala Antigua”, de la que después se han hecho varias ediciones, siendo merecedora de citarse, en primer lugar, la de la Biblioteca del Estudiante Universitario [“El Libro del Consejo”], en las publicaciones de la Universidad Nacional Autónoma de México.
Y es la versión del Profesor Georges Raynaud, la de mayor autoridad científica, la que ahora publicamos, en la traducción al español de González de Mendoza y Miguel Ángel Asturias, seguros de que por igual ha de interesar al investigador, al sociólogo, al poeta, al escritor, al artista y al curioso lector que ame los mitos antiguos, y en este caso, el de cómo los dioses formaron el mundo americano y cómo fue creado el hombre de maíz.
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1. Do que vai tratar o livro
"Aquí comenzaremos la antigua historia llamada Quiché. Aquí escribiremos, comenzaremos el antiguo relato del principio, del origen, de todo lo que hicieron en la ciudad Quiché los hombres de las tribus Quiché."
2. O início, a origem
"He aquí el relato de cómo todo estaba en suspenso, todo tranquilo, todo inmóvil, todo apacible, todo silencioso, todo vacío, en el cielo, en la tierra. He aquí la primera historia, la primera descripción."
"Primero nacieron la tierra, los montes, las llanuras; se pusieron en camino las aguas; los arroyos caminaron entre los montes; así tuvo lugar la puesta en marcha de las aguas cuando aparecieron las grandes montañas. Así fue el nacimiento de la tierra cuando nació por [orden] de los Espíritus del Cielo, de los Espíritus de la Tierra, pues así se llaman los que primero fecundaron, estando el cielo en suspenso, estando la tierra en suspenso en el agua; así fue fecundada cuando ellos la fecundaron: entonces su conclusión, su composición, fueron meditadas por ellos."
3. A criação dos animais, que não veneravam aos deuses
"Estando pues todos terminados, venados, pájaros, les fue dicho a los venados, a los pájaros, por los Constructores, los Formadores, los Procreadores, los Engendradores: “Hablad, gritad; podéis gorjear, gritar. Que cada uno haga oír su lenguaje según su clan, según su manera”.
Mas:
"'En adelante decid nuestros nombres, alabadnos, a nosotros vuestras madres, a nosotros vuestros padres. En adelante llamad a Maestro Gigante [Relámpago], Huella del Relámpago, Esplendor del relámpago, Espíritus del Cielo, Espíritus de la Tierra, Constructores. Formadores, Procreadores. Engendradores. Habladnos, invocadnos, adoradnos', se les dijo. Pero no pudieron hablar como hombres: solamente cacarearon, solamente mugieron, solamente graznaron; no se manifestó [ninguna] forma de lenguaje, hablando cada uno diferentemente. Cuando los Constructores, los Formadores, oyeron sus palabras impotentes, se dijeron unos a otros: 'No han podido decir nuestros nombres, de nosotros los Constructores, los Formadores'. 'No está bien...”
(...)
"Nuestra adoración es imperfecta si vosotros no nos invocáis."
4. A criação imperfeita de homens de terra, de barro, que não veneravam os deuses
"De fierra hicieron la carne. Vieron que aquello no estaba bien, sino que se caía, se amontonaba, se ablandaba, se mojaba, se cambiaba en tierra, se fundía; la cabeza no se movía; el rostro [quedábase vuelto] a un solo lado; la vista estaba velada; no podían mirar detrás de ellos; al principio hablaron, pero sin sensatez. En seguida, aquello se licuó, no se sostuvo en pie. Entonces los Constructores, los Formadores, dijeron otra vez: 'Mientras más se trabaja, menos puede él andar y engendrar'. 'Que se celebre, pues, consejo sobre eso', dijeron. Al instante deshicieron, destruyeron una vez más, su construcción, su formación, y después dijeron: '¿Cómo haremos para que nos nazcan adoradores, invocadores?'..."
5. A criação de homens de madeira, que também não veneraram os deuses
"'Que así sean, así, vuestros maniquíes, los [muñecos] construidos de madera, hablando, charlando en la superficie de la tierra'. —'Que así sea', se respondió a sus palabras. Al instante fueron hechos los maniquíes, los [muñecos] construidos de madera; los hombres se produjeron, los hombres hablaron; existió la humanidad en la superficie de la tierra. Vivieron, engendraron, hicieron hijas, hicieron hijos, aquellos maniquíes, aquellos [muñecos] construidos de madera. No tenían ni ingenio ni sabiduría, ningún recuerdo de sus Constructores, de sus Formadores; andaban, caminaban sin objeto. No se acordaban de los Espíritus del Cielo; por eso decayeron."
6. Insatisfeitos, os deuses se livram dos humanos com uma inundação
"En seguida [llegó] el fin, la pérdida, la destrucción, la muerte de aquellos maniquíes, [muñecos] construidos de madera.
Entonces fue hinchada la inundación por los Espíritus del Cielo, una gran inundación fue hecha: llegó por encima de las cabezas de aquellos maniquíes, [muñecos] construidos de madera (...) Y su muerte fue esto: fueron sumergidos; vino la inundación, vino del cielo una abundante resina."
No capítulo de destruição dos homens de madeira, há uma descrição forte da vingança dos animais que estavam sob o jugo dos homens, inclusive suas vasilhas se regozijaram sobre a destruição deles. Dizem os antigos que os macacos são os antigos descendentes daqueles homens de madeira.
Havia também um tal Principal Guacamayo (e seus filhos); ele foi derrotado junto aos homens de madeira na inundação. O orgulho era o principal defeito de Principal Guacamayo.
7. Depois nos é contado como Sabio Pez-Tierra, filho de Principal Guacamayo, derrota com estratégia a quatrocentos jovens
"Estando todos ebrios, los cuatrocientos jóvenes no tenían ya Sabiduría; entonces su casa fue derribada sobre sus cabezas por Sabio Pez-Tierra, y acabaron por ser todos destruidos. Ni uno ni dos de aquellos cuatrocientos jóvenes se salvaron; fueron matados por Sabio Pez-Tierra, hijo de Principal Guacamayo. Así murieron los cuatrocientos jóvenes. Se dice también que entraron en la constelación llamada a causa de ellos el Montón, pero esto no es quizás más que una fábula. Aquí contaremos también la derrota de Sabio Pez-Tierra por los dos engendrados Maestro Mago, Brujito."
8. Os capítulos seguintes tratam de histórias de nascimento e morte de personagens da mitologia do povo maia quiché.
A versão que estou estudando tem 91 páginas. A leitura passou a ser cansativa a partir de aqui. São várias aventuras descrevendo personagens que significam origens de alguma coisa, ou que explicam algo.
Estou na primeira terça parte da obra. Vou seguir a leitura depois.
William
Um leitor
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sexta-feira, 1 de março de 2019
Literatura Hispano-Americana: Conquista e Colônia (I)
![]() |
| Popol Vuh - Wikipedia. |
Refeição Cultural
Um dos objetivos do blog Refeitório Cultural é compartilhar os ensinamentos do curso de Letras da Universidade de São Paulo (USP), por se tratar de uma universidade pública e por querer retransmitir para todos os cidadãos interessados aquilo que tive a oportunidade de aprender através dos recursos do povo.
Com o passar dos anos na graduação em Português-Espanhol, e com a participação em cada uma das disciplinas que fiz, foi ficando impossível postar as aulas, inclusive porque escrevê-las demanda um trabalho imenso de revisão das anotações para não postar coisas sem sentido.
Após muitos anos de conclusão da grade obrigatória das duas disciplinas, Português e Espanhol, descobri que havia faltado uma matéria (2 créditos) para completar a grade de Português. Para não colar grau só em Espanhol, fiz o pedido de reingresso à graduação e fui aceito. Estou estudando novamente e terei que fazer mais de 30 créditos para adequar minha pontuação à grade curricular atual.
Esta disciplina é sobre o período pré-hispânico nas Américas e sobre o período colonial e vai até os séculos XVIII e XIX, período em que ocorreram os processos de independência das metrópoles europeias, Espanha e Portugal. Mas o foco não é o Brasil e sim os países de matriz espanhola.
Vou postar o que for possível, e sempre com a minha visão e interpretação das anotações da matéria, isentando os professores de qualquer responsabilidade pelo que escrevo aqui. Esta matéria de literatura estou fazendo com a professora Laura.
A parte relativa aos objetivos, programa resumido e programa é uma reprodução do oferecimento da matéria e é de domínio público.
Lembro aqui que o interesse deste blog é partilhar conhecimento, sem nenhum objetivo econômico-financeiro. Postamos conteúdo aqui com base no conceito de copyleft e wiki (what i Know is).
Abraços aos leitores que se interessarem pelo tema.
William
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Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP)
Literatura Hispano-Americana: Conquista e Colônia
Objetivos:
1. Estudar as manifestações literárias barrocas e suas implicações na construção de uma forma hispano-americana. 2. Desenvolver a capacidade crítica do aluno pela análise dos aspectos estéticos e ideológicos dos textos mais representativos, relacionando-os com a atualidade. 3. Discutir problemas básicos da formação cultural da América hispânica através de abordagens teóricas contemporâneas sobre os discursos mais representativos do período pré-hispânico e as narrativas do período da conquista, até 1600. 4. Oferecer uma visão histórica do período, embora sempre privilegiando as possíveis abordagens literárias, desenvolvendo a capacidade crítica do aluno pela análise de aspectos estéticos e ideológicos.
Programa Resumido:
Esta disciplina estuda problemas básicos da formação cultural da América hispânica através de abordagens teóricas contemporâneas sobre os discursos mais representativos do período pré-hispânico, da conquista e da sociedade colonial, até 1700. Pretende-se oferecer uma visão histórica do período, privilegiando as possíveis abordagens literárias dos discursos das culturas originárias e da conquista e o estudo das manifestações estéticas barrocas e suas implicações na construção de uma forma hispano-americana. A disciplina visa a desenvolver a capacidade crítica do aluno pela análise dos aspectos estéticos e ideológicos dos textos mais representativos desse período de formação da cultura e da literatura hispano-americana, relacionando-os com a atualidade. O curso contempla, dessa forma, instrumentalizar os futuros profissionais da área no sentido de suas práticas de análise literária e ensino da literatura.
Programa:
Programa:
1. Palavra, gesto, memória: a literatura pré-colombiana e critérios de configuração de uma literatura hispano-americana: Códices, Poesia Nahuatl, Popol Vuh e os Chilam Balam. 2. História e imaginação: os discursos da conquista, as crônicas e a construção de um novo universo: Cristóbal Colón; Hernán Cortés, Bernal Díaz del Castillo, Bartolomé de Las Casas, Alvar Núñez Cabeza de Vaca; Alonso de Ercilla. 3. Sujeitos mestiços e sociedades vice-reinais: Inca Garcilaso de la Vega, Huamán Poma de Ayala, Juan Rodríguez Freyle. 4. O Barroco e sociedades vice-reinais: Sor Juana Inés de la Cruz; A poesia de Bernardo de Balbuena, Sigüenza y Góngora, Domínguez Camargo, Caviedes. 5. O teatro de Juan Ruiz de Alarcón. 6. Ficção e história: a conquista e a colônia na literatura do século XX, Juan José Saer, Antonio Di Benedetto, Alejo Carpentier, Carlos Fuentes, Miguel Angel Asturias. 7. Releituras do barroco: neobarroco e neobarroso; Lezama Lima, Virgilio Piñera, Severo Sarduy, Néstor Perlongher.
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(anotações das aulas em língua espanhola e em português. As incorreções no texto são de minha responsabilidade, pois meu espanhol não é de falante fluente)
Literatura hispanoamericana: Conquista y Colonia
FLM0631
Clase 1
27 de febrero de 2019.
Temas debatidos y referenciales para la disciplina:
- encuentro muy violento de culturas y de discursos;
- el término “conquista” tiene la mirada de allá, el punto de vista de los europeos;
- “el continente vacío” es lo que decían los europeos sobre nuestra América;
- hay en los discursos una cuestión de los malos versus los buenos;
- los científicos europeos tenían dudas si los indígenas eran humanos;
- lenguas dominantes acá: Nahuatl (Aztecas), Quiché (Mayas), Quechua (Incas), además de otras;
- lo que existe hoy de la historia de los pueblos prehispánicos fue una traducción de las lenguas e historias orales para el castellano, pero es necesario acordarse de que “traducir es traicionar”;
- sincretismo cultural, cuando hay una mezcla de culturas, pero es común una cultura ser la dominante sobre la otra. El cristianismo fue determinante en las versiones de las historias de los pueblos precolombinos o prehispánicos.
POPOL VUH
- el “libro de los consejos” o “libro de la comunidad”;
- a pesar de traer trazos del cristianismo, Popol Vuh trae una idea de lo que era acá la cultura anterior. Los frailes, siglos después, introducen trazos de los textos bíblicos, mezclas con pasajes de la biblia (las culturas poderosas son poderosas de verdad…);
- él fue descubierto en el siglo XIX y producido a mediados del siglo XVI. La confección de él es posterior a la llegada de los españoles;
- perpetuación de la cultura oral del pueblo maya en una lengua extranjera. Alguien le puso en una lengua que iba a seguir adelante;
- cultura transmitida por dibujos, jeroglíficos y otros materiales
- los mayas eran pueblos nómades;
- el sincretismo va a ocurrir en todos los textos traducidos de los pueblos precolombinos al español, el cristianismo va a impregnar los textos de las culturas anteriores a la conquista;
- sugestión de lectura: "Serpentes e caveiras" in “Palomar”, de Ítalo Calvino. Para reflexionar sobre la cuestión de como es posible otras posibilidades de lectura y traducción cuando la temática es culturas distintas; (*o texto está nesta postagem, ao final)
- fíjense: no se olviden de que estamos conversando con sujetos de otros tiempos. Muy importante se acordar de eso.
- cuidado con todas las idealizaciones y con todas las demonizaciones que se hacen;
- hay distintas traducciones del Popol Vuh, es decir, versiones del original encontrado en el siglo XIX.
- para reflexionar: “descubrir” es peor que “conquistar”. Descubrir sería para algo que ni siquiera existe. Es una cuestión ideológica;
- versiones del Popol Vuh: años treinta, de Asturias, Guatemala. Años cincuenta, de Emílio Abreu Gomes; y hay otras más;
- los hombres hechos de maíz (Asturias);
- la cultura de los mayas - de los pueblos de América -, no es como la nuestra occidental, ella no es linear, entonces hay otra propuesta del “génesis”, otra cosmogonía; son formas condensadas y no lineares de lectura e interpretación;
CÓDICES
- los primeros “libros” de acá, hechos en cáscaras de árboles. No se olvide de la "contaminación" del sincretismo con los occidentales, sobre todo con los cristianos;
- la traducción para el castellano fue una forma de resistencia, de sobrevivencia de la cultura de ellos porque si no hubieran hecho versiones escritas, su cultura no habría llegado hasta nuestros días;
- por muchos años, siglos, la visión dominante era preconcebida como siendo la cultura de acá inferior, menor que la europea, hasta que empieza a cambiar con Garcilaso, en el siglo XVII.
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* 3.1.2 Serpentes e caveiras, do livro Palomar, de Ítalo Calvino. Tradução de João Reis.
Excerto da nota explicativa no livro: "(...) último livro publicado em vida por Calvino. É uma obra feita de momentos, fragmentos, deslumbramentos, interrogações intermináveis, e que leva à criação de uma personagem, Palomar, que é ao mesmo tempo a ingenuidade em estado puro e a paixão do pensamento ilimitado."
Serpentes e Caveiras
Em viagem pelo México, o senhor Palomar visita as ruínas de Tula, antiga capital dos Toltecas. É acompanhado por um amigo mexicano, conhecedor apaixonado e eloquente das civilizações pré-colombianas, que lhe vai contando as belíssimas lendas de Quetzalcoatl.
Antes de se tornar um deus, Quetzalcoatl foi um rei que teve em Tula a sua corte; dela restam ainda uma série de colunas truncadas, em torno de um implúvio, um pouco à moda dos palácios da Roma antiga.
O templo da Estrela da Manhã é uma pirâmide em degraus. No alto elevam-se quatro cariátides cilíndricas, ditas "atlantes", que representam o deus Quetzalcoatl como Estrela da Manhã (por causa de uma borboleta que trazem nas costas, símbolo da estrela) e quatro colunas esculpidas, que representam a Serpente Emplumada, ou seja, sempre o mesmo deus, sob a forma de animal.
Tudo isto deve ser tido por verdadeiro sem quaisquer provas; por outro lado, seria difícil demonstrar o contrário. Na arqueologia mexicana, cada estátua, cada objecto, cada baixo-relevo, significam alguma coisa que significa alguma coisa que por sua vez significa alguma coisa. Um animal ou, um deus que significa uma estrela que significa um elemento ou uma qualidade humana e assim sucessivamente. Estamos no mundo da escrita pictográfica, os antigos Mexicanos, para escreverem, desenhavam figuras e, mesmo quando desenhavam, era como se escrevessem: cada figura apresenta-se como um enigma a decifrar. Até mesmo os frisos mais abstratos e geométricos que se encontrem na parede de um templo podem ser interpretados como setas se neles se puder ver um motivo de linhas partidas, ou como uma sucessão numérica, de acordo com a maneira como esses mesmos frisos se sucedem. Aqui em Tula os baixos-relevos repetem figuras animais estilizadas: jaguares, coiotes. O amigo mexicano detém-se em cada pedra, transformando-a em relato cósmico, em alegoria, em reflexo moral.
Uma turma de estudantes desfila entre as ruínas: rapazotes com feições de índio, provavelmente descendentes dos construtores daqueles templos, vestidos com uma simples farda branca tipo boy-scout, com lenços azuis. Os rapazes são guiados por um professor que não é muito mais alto do que eles e pouco mais adulto, que apresenta a mesma cara morena, redonda e imóvel. Sobem os altos degraus da pirâmide, detêm-se sob as colunas, o professor diz a que civilização pertencem, a que século, em que pedra estão esculpidas e em seguida conclui: "Não se sabe o que querem dizer" e o grupo de alunos desce atrás dele. Ao pé de cada estátua, ao pé de cada figura esculpida sobre um baixo-relevo ou sobre uma coluna, o professor fornece alguns dados factuais e acrescenta invariavelmente: "Não se sabe o que querem dizer."
Encontram agora um chac-mool, tipo de estátua bastante comum: uma figura humana semiprostrada segura um tabuleiro; era sobre aquele tabuleiro, dizem unânimes os peritos, que eram apresentados os corações ensanguentados das vítimas dos sacrifícios humanos. Estas estátuas, por si só, poderiam igualmente ser vistas como bonacheirões e atarracados bonecos; mas o senhor Palomar, cada vez que vê uma delas, não consegue deixar de sentir calafrios.
Passa a fila dos estudantes. E o professor: Esto es un chac-mool. No se sabe lo que quiere decir. E passa à frente.
O senhor Palomar, apesar de seguir as explicações do amigo que o guia, acaba sempre por se cruzar com os estudantes e ouvir as palavras do professor. Fica fascinado pela riqueza das referências mitológicas do amigo: o jogo do interpretar, a leitura alegórica, sempre lhe pareceu um soberano exercício da mente. Mas sente-se igualmente atraído pela atitude oposta do mestre-escola: aquilo que lhe parecera no início uma expedita falta de interesse vai-se revelando aos seus olhos como uma postura científica e pedagógica, uma opção metodológica deste jovem grave e consciencioso, uma regra a que não quer renunciar. Uma pedra, uma figura, um sinal, uma palavra, que nos chegam isolados do seu contexto, são apenas aquela pedra, aquela figura, aquele sinal ou palavra: podemos tentar defini-los, descrevê-los enquanto tais, e basta; se, para além da face que nos apresentam, têm também uma face escondida, não nos é dado sabê-lo. A recusa de conceber mais do que aquilo que estas pedras nos mostram é talvez o único modo possível de demonstrar respeito pelo seu segredo; tentar adivinhar é presunção, uma traição àquele autêntico significado perdido.
Atrás da pirâmide passa um corredor, uma espécie de trincheira de ligação entre dois muros, um de terra batida, outro de pedra esculpida: o Muro das Serpentes. É talvez a mais bela peça de Tula: no friso em relevo sucedem-se as serpentes, cada uma das quais tem uma caveira nas mandíbulas abertas, como se estivesse para a devorar.
Passam os rapazes. E o professor: "Este é o muro das serpentes. Cada serpente tem na boca uma caveira. Não se sabe o que significam."
O amigo de Palomar não se contém: "Ai isso é que sabe! É a continuidade da vida e da morte, as serpentes são a vida, as caveiras são a morte; a vida que é vida porque traz consigo a morte e a morte é morte porque sem morte não há vida..."
Os rapazotes ouvem de boca aberta, os olhos negros brilham atônitos. O senhor Palomar pensa que toda a tradução requer uma outra tradução e assim sucessivamente. Pergunta a si mesmo: "Que significa morte, vida, continuidade, passagem, para os antigos Toltecas? E que pode querer dizer para estes jovens? E para mim?" E no entanto sabe que nunca poderá sufocar em si a vontade de traduzir, de passar de uma linguagem para outra, de figuras concretas para palavras abstractas, de símbolos abstractos para experiências concretas, de tecer e retecer uma rede de analogias. Não interpretar é impossível, tal como é impossível impedir-se de pensar.
Assim que os estudantes desaparecem atrás de uma esquina, a voz obstinada do pequeno professor faz-se ouvir de novo: "No es verdad, não é verdade aquilo que vos disse aquele señor. Não se sabe o que significam."
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Temas debatidos y referenciales para la disciplina:
- encuentro muy violento de culturas y de discursos;
- el término “conquista” tiene la mirada de allá, el punto de vista de los europeos;
- “el continente vacío” es lo que decían los europeos sobre nuestra América;
- hay en los discursos una cuestión de los malos versus los buenos;
- los científicos europeos tenían dudas si los indígenas eran humanos;
- lenguas dominantes acá: Nahuatl (Aztecas), Quiché (Mayas), Quechua (Incas), además de otras;
- lo que existe hoy de la historia de los pueblos prehispánicos fue una traducción de las lenguas e historias orales para el castellano, pero es necesario acordarse de que “traducir es traicionar”;
- sincretismo cultural, cuando hay una mezcla de culturas, pero es común una cultura ser la dominante sobre la otra. El cristianismo fue determinante en las versiones de las historias de los pueblos precolombinos o prehispánicos.
POPOL VUH
- el “libro de los consejos” o “libro de la comunidad”;
- a pesar de traer trazos del cristianismo, Popol Vuh trae una idea de lo que era acá la cultura anterior. Los frailes, siglos después, introducen trazos de los textos bíblicos, mezclas con pasajes de la biblia (las culturas poderosas son poderosas de verdad…);
- él fue descubierto en el siglo XIX y producido a mediados del siglo XVI. La confección de él es posterior a la llegada de los españoles;
- perpetuación de la cultura oral del pueblo maya en una lengua extranjera. Alguien le puso en una lengua que iba a seguir adelante;
- cultura transmitida por dibujos, jeroglíficos y otros materiales
- los mayas eran pueblos nómades;
- el sincretismo va a ocurrir en todos los textos traducidos de los pueblos precolombinos al español, el cristianismo va a impregnar los textos de las culturas anteriores a la conquista;
- sugestión de lectura: "Serpentes e caveiras" in “Palomar”, de Ítalo Calvino. Para reflexionar sobre la cuestión de como es posible otras posibilidades de lectura y traducción cuando la temática es culturas distintas; (*o texto está nesta postagem, ao final)
- fíjense: no se olviden de que estamos conversando con sujetos de otros tiempos. Muy importante se acordar de eso.
- cuidado con todas las idealizaciones y con todas las demonizaciones que se hacen;
- hay distintas traducciones del Popol Vuh, es decir, versiones del original encontrado en el siglo XIX.
- para reflexionar: “descubrir” es peor que “conquistar”. Descubrir sería para algo que ni siquiera existe. Es una cuestión ideológica;
- versiones del Popol Vuh: años treinta, de Asturias, Guatemala. Años cincuenta, de Emílio Abreu Gomes; y hay otras más;
- los hombres hechos de maíz (Asturias);
- la cultura de los mayas - de los pueblos de América -, no es como la nuestra occidental, ella no es linear, entonces hay otra propuesta del “génesis”, otra cosmogonía; son formas condensadas y no lineares de lectura e interpretación;
CÓDICES
- los primeros “libros” de acá, hechos en cáscaras de árboles. No se olvide de la "contaminación" del sincretismo con los occidentales, sobre todo con los cristianos;
- la traducción para el castellano fue una forma de resistencia, de sobrevivencia de la cultura de ellos porque si no hubieran hecho versiones escritas, su cultura no habría llegado hasta nuestros días;
- por muchos años, siglos, la visión dominante era preconcebida como siendo la cultura de acá inferior, menor que la europea, hasta que empieza a cambiar con Garcilaso, en el siglo XVII.
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* 3.1.2 Serpentes e caveiras, do livro Palomar, de Ítalo Calvino. Tradução de João Reis.
Excerto da nota explicativa no livro: "(...) último livro publicado em vida por Calvino. É uma obra feita de momentos, fragmentos, deslumbramentos, interrogações intermináveis, e que leva à criação de uma personagem, Palomar, que é ao mesmo tempo a ingenuidade em estado puro e a paixão do pensamento ilimitado."
Serpentes e Caveiras
Em viagem pelo México, o senhor Palomar visita as ruínas de Tula, antiga capital dos Toltecas. É acompanhado por um amigo mexicano, conhecedor apaixonado e eloquente das civilizações pré-colombianas, que lhe vai contando as belíssimas lendas de Quetzalcoatl.
Antes de se tornar um deus, Quetzalcoatl foi um rei que teve em Tula a sua corte; dela restam ainda uma série de colunas truncadas, em torno de um implúvio, um pouco à moda dos palácios da Roma antiga.
O templo da Estrela da Manhã é uma pirâmide em degraus. No alto elevam-se quatro cariátides cilíndricas, ditas "atlantes", que representam o deus Quetzalcoatl como Estrela da Manhã (por causa de uma borboleta que trazem nas costas, símbolo da estrela) e quatro colunas esculpidas, que representam a Serpente Emplumada, ou seja, sempre o mesmo deus, sob a forma de animal.
Tudo isto deve ser tido por verdadeiro sem quaisquer provas; por outro lado, seria difícil demonstrar o contrário. Na arqueologia mexicana, cada estátua, cada objecto, cada baixo-relevo, significam alguma coisa que significa alguma coisa que por sua vez significa alguma coisa. Um animal ou, um deus que significa uma estrela que significa um elemento ou uma qualidade humana e assim sucessivamente. Estamos no mundo da escrita pictográfica, os antigos Mexicanos, para escreverem, desenhavam figuras e, mesmo quando desenhavam, era como se escrevessem: cada figura apresenta-se como um enigma a decifrar. Até mesmo os frisos mais abstratos e geométricos que se encontrem na parede de um templo podem ser interpretados como setas se neles se puder ver um motivo de linhas partidas, ou como uma sucessão numérica, de acordo com a maneira como esses mesmos frisos se sucedem. Aqui em Tula os baixos-relevos repetem figuras animais estilizadas: jaguares, coiotes. O amigo mexicano detém-se em cada pedra, transformando-a em relato cósmico, em alegoria, em reflexo moral.
Uma turma de estudantes desfila entre as ruínas: rapazotes com feições de índio, provavelmente descendentes dos construtores daqueles templos, vestidos com uma simples farda branca tipo boy-scout, com lenços azuis. Os rapazes são guiados por um professor que não é muito mais alto do que eles e pouco mais adulto, que apresenta a mesma cara morena, redonda e imóvel. Sobem os altos degraus da pirâmide, detêm-se sob as colunas, o professor diz a que civilização pertencem, a que século, em que pedra estão esculpidas e em seguida conclui: "Não se sabe o que querem dizer" e o grupo de alunos desce atrás dele. Ao pé de cada estátua, ao pé de cada figura esculpida sobre um baixo-relevo ou sobre uma coluna, o professor fornece alguns dados factuais e acrescenta invariavelmente: "Não se sabe o que querem dizer."
Encontram agora um chac-mool, tipo de estátua bastante comum: uma figura humana semiprostrada segura um tabuleiro; era sobre aquele tabuleiro, dizem unânimes os peritos, que eram apresentados os corações ensanguentados das vítimas dos sacrifícios humanos. Estas estátuas, por si só, poderiam igualmente ser vistas como bonacheirões e atarracados bonecos; mas o senhor Palomar, cada vez que vê uma delas, não consegue deixar de sentir calafrios.
Passa a fila dos estudantes. E o professor: Esto es un chac-mool. No se sabe lo que quiere decir. E passa à frente.
O senhor Palomar, apesar de seguir as explicações do amigo que o guia, acaba sempre por se cruzar com os estudantes e ouvir as palavras do professor. Fica fascinado pela riqueza das referências mitológicas do amigo: o jogo do interpretar, a leitura alegórica, sempre lhe pareceu um soberano exercício da mente. Mas sente-se igualmente atraído pela atitude oposta do mestre-escola: aquilo que lhe parecera no início uma expedita falta de interesse vai-se revelando aos seus olhos como uma postura científica e pedagógica, uma opção metodológica deste jovem grave e consciencioso, uma regra a que não quer renunciar. Uma pedra, uma figura, um sinal, uma palavra, que nos chegam isolados do seu contexto, são apenas aquela pedra, aquela figura, aquele sinal ou palavra: podemos tentar defini-los, descrevê-los enquanto tais, e basta; se, para além da face que nos apresentam, têm também uma face escondida, não nos é dado sabê-lo. A recusa de conceber mais do que aquilo que estas pedras nos mostram é talvez o único modo possível de demonstrar respeito pelo seu segredo; tentar adivinhar é presunção, uma traição àquele autêntico significado perdido.
Atrás da pirâmide passa um corredor, uma espécie de trincheira de ligação entre dois muros, um de terra batida, outro de pedra esculpida: o Muro das Serpentes. É talvez a mais bela peça de Tula: no friso em relevo sucedem-se as serpentes, cada uma das quais tem uma caveira nas mandíbulas abertas, como se estivesse para a devorar.
Passam os rapazes. E o professor: "Este é o muro das serpentes. Cada serpente tem na boca uma caveira. Não se sabe o que significam."
O amigo de Palomar não se contém: "Ai isso é que sabe! É a continuidade da vida e da morte, as serpentes são a vida, as caveiras são a morte; a vida que é vida porque traz consigo a morte e a morte é morte porque sem morte não há vida..."
Os rapazotes ouvem de boca aberta, os olhos negros brilham atônitos. O senhor Palomar pensa que toda a tradução requer uma outra tradução e assim sucessivamente. Pergunta a si mesmo: "Que significa morte, vida, continuidade, passagem, para os antigos Toltecas? E que pode querer dizer para estes jovens? E para mim?" E no entanto sabe que nunca poderá sufocar em si a vontade de traduzir, de passar de uma linguagem para outra, de figuras concretas para palavras abstractas, de símbolos abstractos para experiências concretas, de tecer e retecer uma rede de analogias. Não interpretar é impossível, tal como é impossível impedir-se de pensar.
Assim que os estudantes desaparecem atrás de uma esquina, a voz obstinada do pequeno professor faz-se ouvir de novo: "No es verdad, não é verdade aquilo que vos disse aquele señor. Não se sabe o que significam."
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sábado, 1 de dezembro de 2018
Livro: Week-end na Guatemala (1956) - Miguel Ángel Astúrias
Refeição Cultural
"(...) o segredo está em dar com a palavra que penetrando, graças a uma publicidade intensiva, pelos sentidos de milhões e milhões de seres, não dê tempo a nenhum deles de refletir no que a palavra-chave significa, mas que seja aceita pelo que representa... a palavra-chave neste caso é... e escreveu comunismo."
"(...) Criou-se o perigo pelo signo, pela palavra repetida, martelada, multiplicada, por nossa vasta maquinaria... por isso sustento que a escrita publicitária é ideográfica, o publicitário deve pensar por signos, não com ideias..."
(Os agrários, conto do livro "Week-end na Guatemala", de 1956, de Miguel Ángel Astúrias)
Li este romance político pela primeira vez em 2008. Comentei em suas páginas na época o seguinte: "O perigo para a América Central e do Sul volta a ser muito grande hoje, devido aos norte-americanos".
Explico: O golpe de Estado na Guatemala, em 1954, foi organizado e executado com o apoio do governo dos Estados Unidos (Eisenhower) e da empresa americana La Frutera (United Fruit), dona da metade das terras da Guatemala na época. Montou-se um exército de mercenários com a escória de países vizinhos para devolver o poder à burguesia local. E assim o fizeram, tendo como desculpa a ameaça "comunista".
Que coisa, heim! Os leitores conscientes e politizados deste blog sabem o que aconteceu nestes últimos dez anos na América Latina.
Os golpes de Estado em países com governos eleitos mais democrático-populares e mais próximos aos interesses de seus povos começaram logo em seguida, com a derrubada de Manuel Zelaya, em Honduras, em junho de 2009. Depois foi a vez de Fernando Lugo, no Paraguai, em junho de 2012 e, em 2016, foi a vez do Brasil, de Dilma Rousseff.
Todos os líderes latino-americanos que se posicionam contra os interesses das elites rentistas e bilionárias de seus países vêm sofrendo lawfare por parte dos sistemas de "justiça" de seus países, perseguições políticas que ocorrem a partir de carrascos de togas e policiais treinados nos Estados Unidos sob a desculpa de "combate à corrupção".
Os contos são muito atuais, muito. Mostra a situação das vítimas, os povos mais simples, trabalhadores, indígenas, campesinos, sindicalistas, mulheres, negros. Mostra o papel golpista e antidemocrático da burguesia lesa-pátria, traidora, egoísta, latifundiária, rentista. É muito atual com o que vimos acontecer em nosso país nos últimos anos, chegando ao contexto presente, do Brasil estar se tornando um pária internacional na área da diplomacia, da democracia e dos direitos humanos, e capacho dos Estados Unidos da América.
-----------------------------
Quem diria que as eleições no Brasil em 2018 poderiam ser definidas por mentiras (fake news) e por palavras de ordem inventadas, fora da realidade material, mentiras como a ameaça comunista no século 21, supostas mamadeiras de piroca (com pênis) para crianças em escolas (kit gay), ameaças de candidatos demoníacos da esquerda e absurdos do tipo... quem diria!
-----------------------------
É isso! Ler é preciso. Ler literatura, dedicar algumas horas para a leitura de textos é fundamental para nos dar subsídio intelectual para o que temos pela frente em defesa da soberania nacional, para as lutas dos povos pela democracia e pelos direitos do conjunto do povo explorado e enganado pelas eternas elites vira-latas latino-americanas.
William
"(...) Criou-se o perigo pelo signo, pela palavra repetida, martelada, multiplicada, por nossa vasta maquinaria... por isso sustento que a escrita publicitária é ideográfica, o publicitário deve pensar por signos, não com ideias..."
(Os agrários, conto do livro "Week-end na Guatemala", de 1956, de Miguel Ángel Astúrias)
Li este romance político pela primeira vez em 2008. Comentei em suas páginas na época o seguinte: "O perigo para a América Central e do Sul volta a ser muito grande hoje, devido aos norte-americanos".
Explico: O golpe de Estado na Guatemala, em 1954, foi organizado e executado com o apoio do governo dos Estados Unidos (Eisenhower) e da empresa americana La Frutera (United Fruit), dona da metade das terras da Guatemala na época. Montou-se um exército de mercenários com a escória de países vizinhos para devolver o poder à burguesia local. E assim o fizeram, tendo como desculpa a ameaça "comunista".
Que coisa, heim! Os leitores conscientes e politizados deste blog sabem o que aconteceu nestes últimos dez anos na América Latina.
Os golpes de Estado em países com governos eleitos mais democrático-populares e mais próximos aos interesses de seus povos começaram logo em seguida, com a derrubada de Manuel Zelaya, em Honduras, em junho de 2009. Depois foi a vez de Fernando Lugo, no Paraguai, em junho de 2012 e, em 2016, foi a vez do Brasil, de Dilma Rousseff.
Todos os líderes latino-americanos que se posicionam contra os interesses das elites rentistas e bilionárias de seus países vêm sofrendo lawfare por parte dos sistemas de "justiça" de seus países, perseguições políticas que ocorrem a partir de carrascos de togas e policiais treinados nos Estados Unidos sob a desculpa de "combate à corrupção".
Os contos são muito atuais, muito. Mostra a situação das vítimas, os povos mais simples, trabalhadores, indígenas, campesinos, sindicalistas, mulheres, negros. Mostra o papel golpista e antidemocrático da burguesia lesa-pátria, traidora, egoísta, latifundiária, rentista. É muito atual com o que vimos acontecer em nosso país nos últimos anos, chegando ao contexto presente, do Brasil estar se tornando um pária internacional na área da diplomacia, da democracia e dos direitos humanos, e capacho dos Estados Unidos da América.
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Quem diria que as eleições no Brasil em 2018 poderiam ser definidas por mentiras (fake news) e por palavras de ordem inventadas, fora da realidade material, mentiras como a ameaça comunista no século 21, supostas mamadeiras de piroca (com pênis) para crianças em escolas (kit gay), ameaças de candidatos demoníacos da esquerda e absurdos do tipo... quem diria!
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É isso! Ler é preciso. Ler literatura, dedicar algumas horas para a leitura de textos é fundamental para nos dar subsídio intelectual para o que temos pela frente em defesa da soberania nacional, para as lutas dos povos pela democracia e pelos direitos do conjunto do povo explorado e enganado pelas eternas elites vira-latas latino-americanas.
William
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sábado, 24 de novembro de 2018
Da realidade ninguém acorda
"(...) Foi um pesadelo e depois dos pesadelos a gente acorda... - e a seguir disse de si para si, sem saber se engolir ou soltar as lágrimas - a gente acorda dos pesadelos, mas da realidade, não. Da realidade ninguém acorda."
(Ocelotle 33, conto do livro "Week-end na Guatemala", de 1956, de Miguel Ángel Asturias)
Personagem de uma mãe guatemalteca, conversando com os filhos. No conto, eles sobreviveram à invasão dos mercenários e traidores da pátria que derrubaram o governo eleito do presidente Jacobo Árbenz Guzmán, em um golpe de Estado promovido pelos Estados Unidos, através da CIA, em favor dos interesses da empresa La frutera (United Fruit), e baseado na justificativa de "libertar" o país da América Central do "comunismo".
Árbenz (1951-54) realizou uma importante reforma agrária, distribuindo terras aos trabalhadores índios e campesinos e desagradou latifundiários locais e a multinacional americana. Qualquer semelhança com a nova colônia americana brazil 2018 não é mera coincidência.
Ocelote é um felino de tamanho pequeno, da família de leopardos e jaguatiricas, e vive nas Américas.
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terça-feira, 20 de abril de 2010
Refeição Cultural - A importância da Leitura
| Eu e Miguel de Cervantes em Toledo, Espanha (set/2009). Cervantes era leitor voraz, lia tudo... "aunque sean los papeles rotos por la calle". |
(Atualizado em 26/11/16)
Fidel e Che, a importância da leitura
Li com razoável facilidade a primeira parte do livro sobre a amizade de Fidel Castro e Ernesto Che Guevara. (depois terminei o livro com a mesma facilidade)
Comentei com amigos e companheiros que eu pouco conheço a respeito da vida desses dois ícones revolucionários, apesar de me considerar uma pessoa de esquerda.
É tocante o quanto a vida juvenil e adulta de ambos está interligada com a leitura e o estudo. Eles leram e estudaram muito. Cada um à sua maneira, mas foram leitores contumazes. Lembrei-me do amigo Gilmar Carneiro dizendo que devemos ler todos os dias, ao menos 30 minutos.
Na leitura deste livro, lembrei-me o quanto a leitura foi importante na minha infância e adolescência. É uma pena que eu não tenha começado por livros mais profundos sobre sociologia, antropologia, filosofia, história e outros do gênero.
Também não comecei a ler por uma literatura mais "engajada" ou "clássica". Mas foi importante começar a ler qualquer coisa.
Acho que somando a leitura de livros com a educação religiosa de minha mãe, o resultado foi a minha saída das ruas e a minha maior permanência longe dos problemas das gangues que haviam no bairro Marta Helena, em Uberlândia, nos anos oitenta.
Meu primo Jorge Luiz tinha muitos livros, pois a minha tia era funcionária pública e ele assinava o Círculo do Livro. Foi dali que comecei a ler um livro atrás do outro.
Não vou dizer que não li livros clássicos na adolescência, pois posso citar alguns como "Lolita" de Vladimir Nabokov, "O vermelho e o negro" de Stendhal, li Shakespeare, Machado de Assis, Eça de Queirós. Mas é evidente que o que mais li foi Stephen King e outros mais de terror e suspense.
VOLTANDO A FIDEL E CHE
É interessante como as histórias vão se interligando. Che Guevara estava na Guatemala quando a CIA e La Frutera derrubaram o governo democrático e progressista de Árbenz em 1954.
Eu já conheço um pouco esta história porque li faz um tempo "Week-end na Guatemala" de Miguel Ángel Astúrias. Mas nunca imaginei que o jovem Che Guevara (e outros exilados revolucionários) estivesse no país durante o massacre dos guatemaltecos pelos mercenários contratados pela CIA e pelos capitalistas investidores no país.
| Presente dos amigos durante curso de formação da Contraf-CUT. |
Uma frase de Fidel Castro, escrita durante sua permanência na solitária, me emocionou bastante, pois é algo que sempre penso. Aprender algo útil todos os dias para compreender melhor o mundo e para evoluir também como pessoa é uma necessidade.
"Esqueço tudo o que existe no mundo e me concentro mais uma vez no esforço de aprender algo novo e útil, mesmo que seja apenas para entender melhor a humanidade" (Fidel Castro, durante sua prisão)
Que coisa bela!!
Se servir de algo partilhar o que penso com meus amigos e companheiros do movimento sindical e progressista, diria:
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Insisto para que cada dirigente dedique ao menos 30 minutos de leitura diária de algum texto ou obra literária mais engajada e com reflexão. É muito importante para a formação do próprio eu.
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O mundo contemporâneo perdeu muito com a quantidade de coisas inúteis disponíveis que disputam os segundos da nossa existência com uma leitura mais densa e reflexiva, com um bom debate entre amigos, uma boa música com letras que nos põem a pensar etc.
Companheiros, leiam ao menos 30 minutos por dia, assim como vocês se alimentam algumas vezes ao dia. É para a própria formação ética, filosófica e humana.
O que vocês estão lendo atualmente? Teçam comentários a respeito.
Post Scriptum (26/11/16):
O Comandante Fidel Castro, grande líder revolucionário, faleceu em 25/11/16, aos noventa anos de idade.
Comandante Fidel, você, Che e a Revolução Cubana, seguirão sendo grandes inspirações para nós, que lutamos pelos povos trabalhadores e humildes e contra o imperialismo e o capitalismo, sistema de exploração do homem pelo homem e de destruição do Planeta.
Presente!
William
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sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Golpe: Honduras repete a Guatemala, 55 anos depois
Achei este texto do Azenha, do site Vi o Mundo, uma aula de história e política. Aprendi com ele e peço licença ao autor para manter aqui como texto de cultura.
Honduras repete a Guatemala, 55 anos depois
12 de outubro de 2009
Por: Luiz Carlos Azenha
Se me fosse dada a opção de escolher o currículo de formação de novos jornalistas, eu optaria por colocá-los para estudar História.
Não dá para ver o golpe em Honduras fora de seu contexto econômico e histórico internacional.
Do ponto-de-vista da economia, a crise nos Estados Unidos teve um tremendo impacto em toda a América Central. Nos Estados Unidos os centro-americanos cumprem o papel de derrubar os salários locais. E ajudam a sustentar as economias de seus países de origem com as remessas de dólares.
Com a crise, as elites locais da América Central, atreladas a interesses estrangeiros, não querem fazer qualquer concessão. O principal produto desses países é a mão-de-obra barata: os homens imigram, as mulheres trabalham nas maquilas, empresas que montam produtos exportáveis para os Estados Unidos.
Fazer concessões aos movimentos sociais implica em ameaçar a vantagem competitiva que esses países podem oferecer aos investidores estrangeiros: o trabalho semi-escravo.
De repente, surge na equação um sujeito chamado Hugo Chávez. Com o dinheiro do petróleo, pode equilibrar esse jogo. Todos esses países são dependentes de importação de energia. Além de acesso a petróleo mais barato, através de Chávez os governos podem obter financiamento externo para projetos de infraestrutura e programas sociais.
Ou seja, é uma perspectiva de autonomia numa região que sempre foi quintal político e econômico dos Estados Unidos, o que vale também para o grande vizinho ao Norte, o México.
Portanto, Manuel Zelaya era um exemplo a ser combatido. Embora eleito por um partido de centro-direita, ameaçava romper o pacto das elites hondurenhas, assentado sobre a exploração da mão-de-obra local.
Zelaya, como vocês sabem, deu aumento de 65% no salário mínimo.
Quanto à conjuntura internacional, Honduras desempenha um papel importante como uma espécie de porta-aviões em terra para projetar o poder militar dos Estados Unidos na América Central.
Embora Zelaya não tenha falado em acabar com isso, as ideias dele representavam ameaça de médio prazo, especialmente num quadro em que a Venezuela se contrapõe abertamente aos Estados Unidos na América Central e no Caribe.
Engana-se quem acha que a transição do governo Bush para o governo Obama foi completa. Os neocons não deixaram o poder completamente nos Estados Unidos. Alguns deles são assessores de Hillary Clinton no Departamento de Estado. Outros lutam de dentro da burocracia estatal. E há a câmara de eco neocon nos institutos de estudos internacionais, revistas e jornais, que trava uma luta diária para influenciar a política externa. Eles são fortíssimos no Pentágono e na CIA.
Além de pregar a completa hegemonia política, econômica e militar dos Estados Unidos, os neocons agem em defesa de grandes interesses econômicos, os mesmos que sustentam seus institutos e publicações.
A História da América Central é a história da subordinação local a esses interesses.
Foi para combater a "ameaça comunista" que os Estados Unidos derrubaram o governo de Jacob Arbenz na Guatemala, em 1954, num período em que a United Fruit tinha o monopólio da produção de banana e era dona da maioria das terras; a subsidiária dela, International Railways of Central America (IRCA), controlava o transporte; e a Electric Bond and Share (EBS) controlava a produção e distribuição de energia.
"Vista no contexto da Guerra Fria, a intervenção dos Estados Unidos na Guatemala foi a primeira expressão na América Latina de uma política desenvolvida inicialmente na Grécia. No período depois da Segunda Guerra Mundial, o capital dos Estados Unidos estava se expandindo mundialmente em uma escala sem precedentes. Movimentos de trabalhadores nos Estados Unidos e no estrangeiro (especialmente os abertos às ideias comunistas) eram vistos como ameaça a essa expansão e portanto tinham que ser colocados sob controle. No estrangeiro, a intervenção de 1947 na Grécia foi o precedente. Os Estados Unidos jogaram centenas de milhões de dólares na Grécia para esmagar uma revolta revolucionária militarmente. A Doutrina Truman deu a justificativa, ao dizer que os Estados Unidos precisam 'apoiar povos livres que estão resistindo à subjugação por minorias armadas'. A Guatemala foi a primeira aplicação dessa lógica na América Latina (vista também na derrubada do governo nacionalista de Mossadegh no Irã). Nesse contexto, os Estados Unidos fizeram um teste na Guatemala de um modelo para reverter revoluções sociais na América Latina clandestinamente, sem mandar os fuzileiros navais. Muitos aspectos desse modelo foram aplicados na invasão da baía dos Porcos (Cuba) e em operações clandestinas subsequentes, inclusive na guerra dos contra nos anos 80 contra a Nicarágua". (Do livro The Battle for Guatemala, de Susanne Jones).
Hoje, os grandes interesses econômicos que colocam Barack Obama na parede representam o capital multinacional que prega a "flexibilização" do trabalho, o desmanche do Estado, a criminalização dos movimentos sociais reinvindicatórios, o estado da segurança nacional, a guerra permanente e o acesso desimpedido às matérias primas.
A grande ameaça a esses interesses é o voto popular. A grande arma deles é a mídia. O golpe em Honduras resultou de uma conjuntura política interna, mas dentro de um contexto econômico e político internacional. É o neogolpe. A repetição da História, agora como farsa, na qual o antichavismo faz o papel do anticomunismo, para despistar os verdadeiros objetivos: garantir a completa subordinação da mão-de-obra. É a parte que nos cabe nesse latifúndio.
Fonte: Viomundo
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quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
Miguel Ángel Asturias (1899-1974 - Guatemala)
Refeição Cultural
De maneira verdadeiramente casual, tomei conhecimento sobre o autor e sua obra e vida.
Primeiro, comprei um livro sobre ele por engano na feira do livro da FFLCH na USP. Achei que era uma obra de Lezama Lima e depois percebi que era um tal Asturias.
Também comecei a ler algumas informações sobre ele nesse mesmo livro há poucos dias.
Interessado, comprei depois dois livros dele e comecei a lê-los.
Week-end na Guatemala, que reúne contos sobre a tragédia da invasão de mercenários ao país em 1954, golpe militar financiado pelo imperialismo norte-americano. Tema sempre atual e que serve de alerta para aqueles posicionados mais à direita no espectro político em relação à democracia e aos direitos humanos.
El Señor Presidente, que também aborda o tema da ditadura militar e do massacre de civis em um país dilacerado pelos conflitos internos, conflitos quase sempre favoráveis à etnia de origem estrangeira em detrimento da etnia de origem maia-índia.
Como suporte, já li um pouco a respeito do país e sobre o autor.
Tenho grande interesse em ser um estudioso da América Latina.
Post Scriptum (8/02/16):
Releitura da postagem. Li todos os contos do livro "Week-end na Guatemala". Não li o livro "El Señor Presidente". Atualizei links e classificação das categorias.
No ano seguinte à postagem (2009), conheci uma guatemalteca, representante do movimento sindical daquele país, em um curso internacional feito na OIT em Torino, Itália. Ela nos falou bastante sobre a história do país.
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