Mostrando postagens com marcador Poemas alheios que gosto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poemas alheios que gosto. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 28 de julho de 2026

Livro: caprichos & relaxos - paulo leminski



Refeição Cultural


"luxo saber


além destas telhas 

um céu de estrelas" (ideolágrimas)


Paulo Leminski foi um artista extraordinário! Os leitores tardios, que não o leram em vida, vão percebendo isso durante a leitura de seus poemas. 

Sou um desses leitores tardios. Leminski faleceu em 7 de junho de 1989. Eu nunca tinha lido nada dele, e já tinha vinte anos de idade. 

Só fui ler poesia depois dos trinta, por ter virado aluno de Letras. Conheci a obra poética dele em 2017, já com 48 anos. Li o livro Toda poesia (comentário aqui).

É muito interessante ver Leminski falando no curta-metragem "Ervilhas da fantasia", de 1985. 

Ele diz que tudo que leu, estantes e mais estantes de livros, as línguas que aprendeu, tudo foi para ter um repertório melhor de palavras para fazer poesia.

Diz que a poesia é também um dom, e faz analogia com o futebol: pode-se treinar alguém com todas as técnicas, mas isso não fará dessa pessoa um Zico ou um Pelé. 

Sendo um lutador de judô, diz que a poesia deve ser como um golpe de arte marcial: infalível, sem erro. 

Leminski foi um grande personagem da cultura brasileira. Um imortal!

---

Golpes certeiros de Leminski:


caprichos & relaxos (saques, piques, toques & baques)


"(...)

quem está por fora

não segura

um olhar que demora" (p. 17)

*

"a árvore é um poema 

não está ali

para que valha a pena 


está lá 

ao vento porque trema

ao sol porque crema

à lua porque diadema


está apenas" (p. 27)

*

---

polonaises


"aqui


nesta pedra


alguém sentou

olhando o mar


o mar

não parou

pra ser olhado 


foi mar

pra tudo quanto é lado" (p. 50)

*

---

não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase 


"poema na página 

mordida de criança 

na fruta madura" (p. 67)

*

"en la lucha de clases

todas las armas son buenas

piedras

noches

poemas" (p. 77)

*

---


ideolágrimas


"   hoje à noite 

até as estrelas 

     cheiram a flor de laranjeira" (p. 100)

*

"verde a árvore caída 

vira amarelo

a última vez na vida" (p. 102)

*

---

sol-te


"eu te fiz

agora 


sou teu deus

poema


ajoelha

e

me

adora" 

(p. 136)


*


*

Comentário final 

Me encantei com Leminski em 2017 ao ler o livro Toda poesia, publicado um pouco antes.

Depois fiquei muito admirado com a profundidade do livro Trótski: a paixão segundo a revolução, de 1986. Ele desenvolve uma interpretação do povo russo a partir dos personagens de Irmãos Karamázov, de Dostoiévski. 

Agora, reli a reedição muito "caprichada e de relaxar qualquer leitor" de seu clássico de 1983, caprichos & relaxos.

Sigamos lendo, e nos fazendo humanos.

William 

28/07/26

terça-feira, 21 de julho de 2026

Leitura: Poemas e maravilhas de Marili Santos (ano 2013)



Refeição Cultural

POESIAS E MARAVILHAS LITERÁRIAS


"TRINDADE

O que faz a vida deixar de parecer feliz
e sê-la de fato, é tão ridiculamente
simples, que às vezes deixamos de olhar e sentir o óbvio."


Após mergulhar na produção cultural da professora, poeta e escritora Marili Santos, lendo suas publicações dos anos de 2011 e 2012, embarquei na viagem através de seus textos publicados em 2013. São 133 obras de artes no referido ano e mais de 500 nos três primeiros anos do blog. 

As variações nas formas poéticas e nas temáticas das composições são muito interessantes. Poemas, haicais, elegias, contos, crônicas, brocardos (que eu nem sabia o que significavam) e textos diversos compõem um verdadeiro refeitório cultural para todos os tipos de gostos e sabores. Um verdadeiro acalanto. E por falar em acalanto:

---

ACALANTO

Era bem cedo quando a velha senhora separava as gemas das claras, uma a uma, jogando na vasilha de ágata as preciosas, amarelos-ouro. Ao todo eram doze somente gemas. Arrastava as chinelas para cá e para lá, em movimentos deslizantes do chão recém-encerado. Pegou o vidro e mediu no prato fundo de sempre, do açúcar mais grosso, quase cristal, ajeitando as bordas com o dorso da colher de pau. Começou a bater as gemas com o açúcar primeiro lentamente, enquanto assoviava baixinho qualquer canção, depois o fremir era intenso; a melodia acompanhava agora os movimentos rápidos que nem a velhice havia ainda levado. Com a mão desocupada apanhava bocados de farinha de trigo que eram salpicados à mistura e assim, a massa ganhava o corpo que a boa e solitária mulher queria. O ponto era o mesmo de quarenta anos, nem um grama a mais nem um a menos de trigo. Chegou. A tábua longa disposta sobre a mesa esperava a mistura pronta para ser esticada, na espessura ideal e em seguida, ser cortada pela carretilha. Untou com manteiga bem gorda. Os sequilhos agora prontos descansariam o tempo certo de ela limpar o pouco que sujou. As pernas doíam demais e a saudade também. Sentada. Vigiava. Há que se vigiar, pois assam muito rápido. O cheiro era doce e terno. Colocou a segunda fornada.

Ouviu o chamado lá de longe, eram os netos, eram os netos.

---

Uma coisa que aprendi nas aulas do curso de Letras, em uma disciplina de leitura de poesias, é a importância de conhecer os significados das palavras; procurar em dicionários os sentidos e possibilidades de sentidos das palavras da língua utilizada na confecção dos textos literários e poéticos.

Para ler os textos da escritora Marili Santos achei necessário deixar de lado a preguiça comum dos leitores e ir atrás do sentido das palavras para navegar melhor por seu mar de poesias, crônicas, haicais e outras maravilhas.

---

PARALAXE

Eu você

Aqui e lá

Nós sem fim

Vento sim

Mudam-se

Olho e vejo

Você não vê

Que se há de fazer?

---

Imaginem se, de supetão, os leitores sabem de brocardos, senescência, criptograma, malsinar, sobre o "Olho de Hórus", paralaxe, arquilexemas e arquifonemas e palavras várias de nossa língua pátria!

---

Senescência

Broto vivo
em mim
nada é velho
vivo sem fim
seiva corre
em si
essência da vida
enfim.

---

Por outro lado, para variar e alternar com os poemas mais exigentes, outros são pérolas com a linguagem mais prosaica e cotidiana possível.

---

QUADRINHA SOLITÁRIA

Na calada da madrugada
A mulher escuta seu amigo
O gotejo da pia principia
Já pode dormir em paz!

---

Enquanto degusto cada maravilha cultural da poeta Marili Santos, aprendo e reaprendo os sentidos da linguagem humana.

---

CONEXOS

dita
dita-me
ditame
dito
dito-cujo
ditador

---

Uma realidade comum na existência das pessoas que dedicam parte de suas vidas para nos presentear com seus textos são os momentos de pouca inspiração e de bloqueios criativos. Eu já enfrentei instantes assim diversas vezes quando precisava escrever sobre algum tema.

---

SEM INSPIRAÇÃO OU... que saco!

Fico pensando
que faz o poeta
o escritor, amante
namorado, professor
cozinheiro, escultor, ator, criador
qualquer ser que depende da inspiração... precisei de sete dias para escrever essa porcaria... Deus também precisou.

Que saco!

---

A simplicidade prosaica de alguns poemas, elegias, haicais e crônicas, conjugada com a perfeição do uso das palavras para dizer algo que muitas vezes nós queríamos dizer e não sabíamos como dizer, é algo que só se encontra nas tecituras dos poetas.

---

APOTEOSE

Adoro ver gente
que passa pelo
abismo, dor e
provação e tudo
tudo de mais
agressivo e
mesmo assim
sabe o que é viver!

---

Não é!? O eu-lírico de "APOTEOSE" disse tudo! É preciso saber viver, já dizia o poeta na música dos Titãs.

---

COMENTÁRIO FINAL

Como disse no início, degustar os textos de Marili Santos em seu blog Valsa Literária é um verdadeiro banquete naquele refeitório cultural.

Aos poucos, vou conhecendo a produção poética e literária da professora e escritora. 

O que nos faz humanos é o que nos diferencia dos demais animais e seres vivos na natureza. Produzir cultura é uma das características dessa espécie única que somos.

Se vocês apreciam poesia e outras formas de manifestações culturais, visitem o blog Valsa Literária, vocês vão gostar muito.

William

O blog: https://valsaliteraria.blogspot.com

domingo, 12 de abril de 2026

Diário e reflexões


"Vas  bien, Fidel!" (Camilo Cienfuegos)*

Refeição Cultural

Osasco, 12 de abril de 2026. Domingo.


"             William

                                       Sérgio Gouveia


Braços e pernas em equilíbrio.

Forte. Firme. Seguro.

Paixão.  Inteligência.


Seus óculos, com lentes sempre limpas,

filtram o que vê.

Sua língua, que também lhe preocupa,

escolhe o que fala.

Aulas. Aulas. Aulas.|


E ele se nos forma."


Tive a honra de ser presenteado com o poema "William", feito por meu amigo professor e poeta Sérgio Gouveia. Também tive a sorte de ser agraciado por uma dessas veredas da vida que nos colocou numa viagem juntos. A vida é oportunidade, é o que venho refletindo nos últimos anos de existência.

Hoje faz uma semana que nossa caravana solidária chegou de Cuba. Ainda estou digerindo as impressões e as experiências que vivenciamos, que vivenciei, nessa nova visita ao país socialista.

O acolhimento que tivemos por parte do povo cubano foi inesquecível, o afeto e a gratidão demonstrados a nós por estarmos lá num momento tão difícil ficará em meu coração. 

Nós do campo da esquerda também somos gratos ao povo cubano pelo exemplo que eles nos dão diariamente e há décadas, de que é possível sair da lógica capitalista e imperialista.

Quero e não quero escrever sobre Cuba... quero e não quero escrever sobre várias coisas que agitam as sinapses de meu cérebro...

Estou meio esquisito, acredito na ciência e não tenho mais encantos por abstrações (religiosas) que nossa espécie cria há milênios para dar sentidos ao mundo e à vida.

Sou um homem de sorte, tenho leitura clara sobre isso. Chegar até aqui na existência foi algo de muita sorte. Acasos e veredas percorridas fazendo caminhos que não existiam. Pegadas ficaram pelos caminhos em solos moles e duros.

Amanhã faço mais um procedimento chato na boca, descobri no ano passado uma leucoplasia na língua e tenho que acompanhar a reprodução irregular de células na região para o resto da vida... 

A ciência fará sua parte, os profissionais de saúde estão lá na Faculdade de Odontologia da USP para cuidar de nós e eu só tenho que agradecer por ter alguém acompanhando o meu caso.

Falar é importante para nós humanos. E olha que eu sempre pensei na importância de meus pés e meus olhos, porque caminhar, correr e ler são atos centrais na minha vida. Mas falar também é de nossa natureza humana... mesmo quando o melhor seja calar.

Sigamos! Vou caminhar ao sol e comer um pão com manteiga hoje. Amanhã e nos próximos dias não farei isso.

William


*Post Scriptum

Sobre a importância da língua e da fala e da comunicação em si, a frase dita por Camilo Cienfuegos a Fidel Castro "Vas bien, Fidel!" tem um contexto central sobre o comunicar-se bem de acordo com cada público ouvinte. 

O Comandante em Chefe Fidel Castro discursava ao povo cubano, já de noite, após a vitória e a marcha até a capital do país, Havana, quando pergunta ao companheiro Camilo Cienfuegos, um campesino revolucionário, se o discurso que ele estava fazendo ao povo simples estava bom, se ele se fazia entender, e Camilo, uma liderança popular, sem formação acadêmica como o próprio Fidel e o médico Ernesto Che Guevara, respondeu ao Comandante que ele estava no caminho certo da comunicação com o povo.

Comunicar-se bem é muito importante!

sábado, 7 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (7) - Llaneza, Jorge Luis Borges



LLANEZA - JORGE LUIS BORGES

           A Haydée Lange


Se abre la verja del jardín

con la docilidad de la página

que una frecuente devoción interroga

y adentro las miradas

no precisan fijarse en los objetos

que ya están cabalmente en la memoria.

Conozco las costumbres y las almas

y ese dialecto de alusiones

que toda agrupación humana va urdiendo.

No necesito hablar

ni mentir privilegios;

bien me conocen quienes aquí me rodean,

bien saben mis congojas y mi flaqueza.

Eso es alcanzar lo más alto,

lo que tal vez nos dará el Cielo:

no admiraciones ni victorias

sino sencillamente ser admitidos

como parte de una Realidad innegable,

como las piedras y los árboles.

---

COMENTÁRIO:

Fiquei dias pensando neste poema de Borges. Na minha interpretação, o poema fala de pertencimento:

"que toda agrupación humana va urdiendo."

Cada verso, cada imagem, vai nos fazendo sentir o acolhimento que eventualmente o leitor ou leitora sinta ao chegar no ambiente ao qual pertence: 

"bien me conocen quienes aquí me rodean,"

Por outro lado, se sente também o amargor de não se ver mais pertencente a um ambiente que te compõe "cabalmente en la memoria".

Me lembrei de uma cena de cinema, do filme "Highlander" (1986), do banimento de Connor MacLeod de seu clã sem que nada de errado tivesse feito para merecer a proscrição do mundo ao qual pertencia.

Ao ler o poema "Llaneza", de Borges, senti uma "nostalgia" no sentido espanhol da palavra: "tristeza o pena que se siente al estar lejos de las personas y de los lugares queridos" (Señas, Martins Fontes, 2001)

As reuniões de família na casa da vó Deolinda, da vó Cornélia, da casa de meus pais; o pertencimento ao movimento sindical. As pessoas conheciam a gente, nossos anseios e fraquezas, mas éramos admitidos como parte daquela realidade...

Hoje não tenho mais pertencimento (me falta alcançar o mais alto...). 

Nostalgia...

William Mendes 


Bibliografia:

BORGES, Jorge Luis. Antología poética 1923-1977. Biblioteca Borges, Alianza Editorial. Madri, 2005.

sexta-feira, 29 de março de 2024

Língua Espanhola I - Ano 2002 (I)



Refeição Cultural

Revisita aos estudos de graduação na FFLCH-USP


Entrei na Universidade de São Paulo no vestibular do ano de 2000 e comecei a cursar a Faculdade de Letras em 2001. Já não era um jovem se comparado com a maioria dos estudantes do curso noturno, que tinham uns dez anos a menos que eu. Fiz o primeiro ano do Ciclo Básico com 32 anos de idade. 

No ano seguinte, comecei a cursar a Língua Espanhola, a habilitação que escolhi durante o Ciclo Básico, juntamente com a habilitação em Português. 

O curso de graduação acabaria por se estender por muitos anos porque eu era sindicalista e todos os segundos semestres eu tinha dificuldades de assistir às aulas porque era o período de data-base da categoria bancária. Com o tempo, até os professores sabiam que eu teria dificuldades em concluir as disciplinas se a campanha dos bancários fosse complicada.

LÍNGUA ESPANHOLA

Estava revendo a primeira apostila de Língua Espanhola e achei interessante o material. Estou falando de um material didático de mais de duas décadas atrás, praticamente não existia a internet como nós a conhecemos hoje. Os estudantes de línguas tinham que ouvir fitas cassete em laboratórios para terem contato com a língua que estavam estudando.

ALFABETO

Na época do curso, o alfabeto espanhol continha 29 letras. Fui consultar agora, no curso de espanhol do ICL e a professora Pilar explicou que o alfabeto contém 27 letras porque o LL e o CH passaram a ser considerados dígrafos desde a Reforma de 2010.

Ou seja, essas mudanças acontecem nas línguas vivas, com o passar do tempo podem ocorrer mudanças nas normas e usos das línguas.

Finalizo esta postagem de revisita aos estudos de Língua Espanhola com um poema de Pablo Neruda, que nós estudamos na aula de idioma para conhecer as diferentes formas de falar LL e Y porque existe o fenômeno do Yeísmo na Argentina e Uruguai, com o som diferente da maioria dos países que falam a língua.

POEMA XV

Me gustas cuando callas

porque estás como ausente

y me oyes desde lejos

y mi voz no te toca.

Parece que los ojos

se te hubieran volado

y parece que un beso

te cerrara la boca.

Me gustas cuando callas

porque estás como ausente,

y estás quejándote,

mariposa en arrullo,

y me oyes desde lejos

y mi voz no te alcanza.

Déjame que me calle

en el silencio tuyo.


(In: XX poemas de amor y una canción desesperada)


A apostila perguntava para os alunos, após ouvirem o poema declamado por uma pessoa da Espanha e outra da Argentina, qual era a diferença que mais chamava a atenção.

O Yeísmo, um som mais de "lh" na Espanha e mais de "ge" ou "dje" na Argentina. O LL e o Y também podem ter um som mais próximo ao "i" em algumas regiões de fala espanhola como no Caribe, por exemplo.

Fiz uma postagem sobre o fenômeno do Yeísmo, para ler é só clicar aqui.

É isso. As minhas lembranças da Universidade de São Paulo são algumas das melhores de minha vida de estudante. Entrei lá pensando em ser professor, mas as veredas da vida me levaram para outros caminhos.

William


quinta-feira, 18 de novembro de 2021

41. Sentimento do Mundo - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural - Cem clássicos

Cada releitura de livros de poesias é uma leitura nova porque a gente descobre poemas que passaram por nós sem ter havido uma identificação pessoal na leitura anterior.

Hoje reli Sentimento do Mundo (1940), livro que considero um clássico de Drummond e das poesias brasileiras. É o 3º livro publicado pelo poeta, depois de Alguma Poesia (1930) e Brejo das Almas (1934). Nesses 3 livros temos 103 poemas de Drummond.

Alguns dos poemas de Sentimento do Mundo são muito conhecidos e cultuados pelos amantes de poesia como, por exemplo, "Sentimento do mundo", "Confidência de itabirano", "Congresso internacional do medo", "Os ombros suportam o mundo", "Elegia de 1938" e "Mãos dadas".

Desta nova leitura, um poema me encantou, mexeu comigo e foi uma descoberta: "A noite dissolve os homens". Das outras vezes que li o livro, não me identifiquei com esse poema.

Recentemente, fiz uma disciplina de Literatura Comparada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, cuja temática desenvolvida abordava a questão do tempo nas narrativas e poéticas e no trabalho final eu escolhi um poema de Drummond para analisar. O poema que trabalhei foi o "Passagem da Noite", do livro A Rosa do Povo, de 1945.

Ao ler a poesia "A noite dissolve os homens" foi instantâneo o sentimento de relação entre esse poema e o poema "Passagem da Noite" do livro seguinte.

Ambos trabalham com as imagens da noite e do dia para expressar sentimentos de dificuldades pessoais e coletivas num eventual contexto dramático de perdas, medos, riscos diversos quando a imagem está associada à noite e de renascimento da esperança ou de pulsação da vida que segue ao associar essas temáticas ao dia, ao sol, à claridade do amanhecer.

Em relação ao poema "Passagem da Noite" ainda não publiquei a minha redação final do trabalho de conclusão de disciplina que fiz. A professora gostou de minhas reflexões a respeito do poema.

Deixo abaixo o poema do livro Sentimento do Mundo. Drummond é um poeta que tem como característica o trabalho permanente com objetos relativos ao tempo, à matéria, às coisas presentes. 

Podemos, por exemplo, ler a 1ª parte do poema "A noite dissolve os homens" como brasileiros vivendo sob a égide do regime bolsonarista, tempos de destruição de tudo, e podemos ler a 2ª parte do poema como a vida se apresenta a nós, e a vida é a chance de mudança a cada amanhecer. Tempos de esperança e renascimento estão ao nosso alcance, isso depende muito de nós e de nosso comportamento diante das coisas da vida.

---

A NOITE DISSOLVE OS HOMENS

                    A Portinari

A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tampouco os rumores
que outrora me perturbavam.
A noite desceu. Nas casas,
nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos,
a noite espalhou o medo
e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda,
sem esperança... Os suspiros
acusam a presença negra
que paralisa os guerreiros.
E o amor não abre caminho
na noite. A noite é mortal,
completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens,
diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias,
apagou os almirantes
cintilantes! nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo...
O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.

Aurora,
entretanto eu te diviso, ainda tímida,
inexperiente das luzes que vais acender
e dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando
                                               [a treva noturna.
O triste mundo fascista se decompõe ao contato
                                               [de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram
mas que avançam na escuridão como um
                                      [sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes
                                                  [se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez,
uma inocência, um perdão simples e macio...
Havemos de amanhecer. O mundo
se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.


---

Demais esse poema! Demais Drummond! Demais ler poesia! Como nos ensina Italo Calvino, é melhor ler do que não ler os clássicos!

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo. 10ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2000.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Leitura: Uma Hora e Mais Outra - Drummond


 

Post Scriptum: rápida leitura analítica

Ao reler o poema, fiquei buscando sentidos... ("pois a hora mais bela/surge da mais triste.")

É um poema bem Drummond. Estrofe única com 127 versos, direto e sem parar, só com os respiros do ritmo da poesia moderna, o ritmo é do poeta, os versos ou as linhas do texto vão mudando na conveniência dos sentidos e não de acordo com formas ou normas preestabelecidas.

O Eu lírico começa assim:

"Há uma hora triste
que tu não conheces."

E então, ele descreve que "Não é a da tarde", "Não é a da noite", "e também não é a/do nascer do sol".

E continua enumerando qual não é a hora triste que ele quer dizer: "não a da comida", "nem a da conversa", "não a do cinema"...

E vai sem limites no que tem que dizer: "nem essa hora flácida/após o desgaste/do corpo entrançado/em outro..."

"nem a pobre hora/da evacuação:"

Até aqui, o poema enumerou momentos no tempo relacionados ao tempo físico, da natureza; e também enumerou tempos de horas cotidianas nas ações humanas. Horas necessárias na natureza humana!

Tarde, noite, manhã; comida, conversa, cinema; sexo e evacuação.

Já estamos com 60 versos... 60 versos. A hora tem 60 minutos, um minuto tem 60 segundos. 60 versos...

O Eu lírico não quis dizer que as horas que já enumerou não são tristes: "Pois hora mais triste/ainda se afigura;" (versos 61 e 62)

E aponta a condição humana mais triste, talvez, a hora em que estamos sós: "te colhe sozinho/na rua ou no catre". 

E sozinho, te resignas e desiste de lutar: "já não te revoltas/e nem te lamentas,"

O Eu lírico reforça a imagem de solidão e resignação quando enumera que estamos sem apoio, material e psicológico: "sem nenhum apoio/no chão ou no espaço,".

E assim, só, resignado, sem apoio, vives como um zumbi, um robô, "tu vives: cadáver,/malogro, tu vives,/rotina, tu vives".

O Eu lírico, diante de toda essa imagem de desânimo e resignação daquele ao qual ele se dirige (nós), aponta o que gostaria de fazer:

"que pegar quisera
na mão e dizer-te:
Amigo, não sabes
que existe amanhã?"

Aqui temos a chave do poema.

Com a mão amiga, o Eu lírico nos reanimou, nos tirou do marasmo. Nos deu sentido, que não estávamos encontrando sozinhos (entre os versos 97 e 101). E segue a partir do verso 102:

VAMOS JUNTOS!

"Exato, amanhã
será outro dia.
Para ele viajas.
Vamos para ele."

Drummond tem essa característica fantástica. Apesar das imagens que nos remetem a duras realidades, ele abre esperanças e recomeços.

E agora o Eu lírico nos coloca caminhando juntos a outros, já não estamos sós. "Teu passo: outros passos/ao lado do teu."

Nesse momento do poema, nessa hora, já caminhamos por caminhos diversos, "pés no barro, pés/n'água, na folhagem." e o poeta nos lembra "mas tudo é caminho."

E terminamos por encontrar a hora mais bela da união e do caminhar juntos a partir da hora mais triste em que estávamos sós, desanimados e sem reação. 

No momento em que tivemos uma mão amiga para nos apoiar, encontramos a hora mais bela.

"mas tudo é caminho.
Tantos: grossos, brancos,
negros, rubros pés,
tortos ou lanhados,
fracos, retumbantes,
gravam no chão mole
marcas para sempre:
pois a hora mais bela
surge da mais triste."

Obrigado, Drummond! Obrigado!

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo. 19ª edição. Rio de Janeiro: Record, 1998

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Leitura: Anoitecer - Carlos Drummond de Andrade



Este poema de Drummond, do livro A Rosa do Povo, é um dos poemas que tenho apreciado ao refletir sobre as configurações do tempo em narrativas e poesias. O poema é muito significativo. 

A Rosa do Povo traz uma sequência impressionante de poemas que abordam temáticas como as debatidas por Mircea Eliade em Mito do eterno retorno: mudança de um período de tempo para outro, mitos de criação e regeneração, passagem do tempo etc.

Fiz essa leitura durante o início da quarentena e isolamento social devido à pandemia mundial do Covid-19. Na época, li o livro todo em voz alta e gravei a leitura de alguns dos poemas.


domingo, 1 de outubro de 2017

Leitura: Sentimento do Mundo (1940) - Carlos Drummond de Andrade




Refeição Cultural

Amanheci neste domingo de início de outubro com o desejo de ler Drummond, o poeta das coisas, da materialidade, do tempo, da vida.

Na sexta-feira, ao fechar um encontro de trabalho de funcionários de nossa Diretoria de Saúde, precisei de Drummond para expressar melhor o que eu estava sentindo sobre a Cassi, o Brasil e o mundo. Só eles, os poetas e os escritores, conseguem sintetizar os mundos através de suas poéticas de encaixe das palavras.

Eu li para meus colegas de trabalho três poemas de Drummond. Todos eles do livro Sentimento do Mundo, lançado em 1940, com o mundo em guerra mundial, os povos e os países se destruindo uns aos outros e o sentimento que predominava no mundo era o que o poeta expressa em cada um dos poemas do livro.

Apesar do clima pesado e lúgubre dos sentimentos expressos, há também uma força presente na determinação de que não adianta ficar pelos cantos esperando o mundo acabar; pelo contrário, a vida é uma ordem, a luta é a opção, sem essa de suicídios e desistências. Nossa! Nem se parece com o momento que a Cassi, o Brasil e o mundo passam na atualidade...

O primeiro poema do livro e que li para meus colegas é:


SENTIMENTO DO MUNDO

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.

-----------------------------------------------

Eu recordei aos nossos funcionários que chegamos num momento em que havia uma guerra já em andamento. A nossa autogestão estava inserida num contexto dramático de déficits recorrentes motivados por diversas questões, tanto de custeio como de falta de foco no modelo assistencial, cujas perspectivas de sua operacionalização proporcionam melhor uso dos recursos e melhores resultados em saúde de sua população.

Mas se o cenário era extremamente adverso, as perspectivas e possibilidades eram imensas pelo que a própria autogestão em saúde carrega em si. Arregaçamos as mangas e nossas mãos, mãos dadas, teceram a resistência e conquistaram mais confiança e pertencimento à Cassi e ao que ela é. Viajamos o país e agregamos mãos, corações e mentes aos nossos projetos de saúde dos trabalhadores.

Li outro poema do livro Sentimento do Mundo, poema que me alimenta quando diz que os tempos não nos permitem morrer, e que a vida é uma ordem, sem mistificação. Esse é o sentimento que carrego em mim em qualquer luta que empreendo em nome da classe trabalhadora ou mesmo pessoal.


OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

------------------------------------------------

Vamos de mãos dadas, em defesa da saúde e dos trabalhadores!

O momento pelo qual passa o nosso país, inclusive o mundo, nossos mundos como aquele para o qual milito na atualidade - a Caixa de Assistência - não nos permite sequer morrer. O tempo é de por mãos à massa e tecer os rudes trabalhos que temos pela frente. Nós fizemos isso em nossas tarefas, e o quadro de funcionários da Cassi foi e é fantástico no quesito fazer o que deve ser feito. Insistimos em fazer saúde, fazer promoção de saúde, fazer gestão de saúde mesmo em meio às crises.

O que nós produzimos no cenário mais adverso da história da Cassi foi graças ao quadro de funcionários da nossa autogestão; gente dedicada e apaixonada pelo que faz. Agreguei ao lado esquerdo do peito esse povo trabalhador, se somaram ao povo que já represento, os associados, e por essa gente eu desafio o mundo adversário.

O poema Mãos dadas foi o que citei para encerrar minha pequena participação no encontro de nossos funcionários analistas em gestão de saúde. Foi para lembrar que de mãos dadas, juntos e unidos, vamos longe ainda naquilo que fazemos e por aquilo que defendemos. As coisas podem parecer perdidas, mas estamos aqui e estamos nas lutas.


MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.


Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem

                                      [vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por

                                      [serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente,
                                      [os homens presentes,
a vida presente.


-----------------------------------------------


O livro Sentimento do Mundo (1940) é um livro para leitura agora, em 2017.

Todo ele fala de sentimentos tristes, de situações de morte, destruição, de desfazimento das coisas; porém, o tempo todo, o livro fala das mãos, mãos que trabalham, que produzem, que lutam.

E o tempo é de lutar, de construir, de reverter o quadro adverso que nos impuseram.

Recomendo a leitura de Drummond, ontem, hoje, amanhã.

William


Post Scriptum:

Vou ler os 23 livros de poesia de Drummond reunidos em 3 volumes que tenho. Reli em agosto "Alguma poesia" (1930), li em setembro "Brejo das almas" (1934) e vamos que vamos... conhecer é preciso!

sábado, 19 de agosto de 2017

Leitura: Alguma poesia (1930) - Carlos Drummond de Andrade




Refeição Cultural

"O SOBREVIVENTE

                          A Cyro dos Anjos

Impossível compor um poema a essa altura 
                          [da evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema - uma linha que seja -
                          [de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.
Há máquinas terrivelmente complicadas para as
                             [necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.
                Um sábio declarou a O Jornal que ainda
                falta muito para atingirmos um nível
                razoável de cultura. Mas até lá, felizmente,
                estarei morto.
Os homens não melhoraram
e matam-se como percevejos.
Os percevejos heroicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um
                               [segundo dilúvio.
(Desconfio que escrevi um poema.)"


Ler Drummond é um ato de resistência ao embrutecimento que a realidade nos impõe. No primeiro semestre deste ano, li compulsivamente em minhas parcas horas de folga das lutas pela entidade de saúde que administro em nome dos associados.

Meu coração está empedernido pelo golpe de Estado que vem destruindo meu querido País e os direitos do povo brasileiro. 

Neste ano já li ou terminei a leitura de mais de trinta livros, dentre eles três de Hemingway; li Goethe, li Chico Buarque, li Tolstói, li vários livros de ensaios ou com algum viés político. Também li obras de Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Paulo Leminski.

Apesar de decidir não ler tanta literatura neste semestre por causa do que tenho pela frente, acaba que não damos conta de largar completamente "Alguma poesia" ou algum romance ou ensaio.

Li nesta manhã de sábado, o primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade, Alguma poesia, de 1930. É uma obra fantástica, atemporal. Eu realmente recomendo a leitura aos meus colegas bancários da ativa e aposentados.

Deixo aqui dois poemas do livro, o primeiro - acima - e Explicação, a seguir, que poderiam ter sido escritos ontem. Deixo também um link de uma breve análise que fiz do livro anos atrás (AQUI).

Drummond é o poeta das coisas presentes, da materialidade das coisas em seu tempo, e mesmo assim, é atemporal, porque sua materialidade é sobre as coisas da vida, dos homens e das sociedades.

Abraços aos leitores amig@s,

William


"EXPLICAÇÃO

Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem a 
                              [sua cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de folha
                              [de flandres,
folha de taioba, pouco importa: tudo serve.

Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha 
                              [vida e trabalhos
é que faço meu verso E meu verso me agrada.

Meu verso me agrada sempre...
Ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai
                              [dar uma cambalhota,
mas não é para o público, é para mim mesmo 
                              [essa cambalhota.
Eu bem me entendo.
Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu país,
                              [esta sombra mole, preguiçosa.
Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.
Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
de repente ouço a voz de uma viola...
saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
À beira do São Francisco, do Paraíba ou de
                            [qualquer córrego vagabundo,
é sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.

E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
Aquela casa de nove andares comerciais
é muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era...
No elevador penso na roça,
na roça penso no elevador.

Quem me fez assim foi minha gente e minha terra
e eu gosto bem de ter nascido com essa tara.
Para mim, de todas as burrices, a maior é suspirar 
                                        [pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem 
                                        [caso de dinheiro
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam 
                                        [a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua 
                                       [de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma 
                                       [canalha só,
lê o seu jornal, mete a língua no governo,
queixa-se da vida (a vida está tão cara)
e no fim dá certo.

Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido 
                                      [que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?"

(Carlos Drummond de Andrade)

domingo, 18 de junho de 2017

Livro: Toda poesia (2013) - Paulo Leminski



Refeição Cultural


"depois de muito meditar
  resolvi editar
  tudo o que o coração
  me ditar"


"   leite, leitura
letras, literatura,
     tudo o que passa,
tudo o que dura
     tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
     tudo, tudo, tudo,
não passa de caricatura
     de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura"

(Paulo Leminski)


Ao terminar a leitura das obras poéticas de Paulo Leminski, reunidas no livro Toda poesia, pela Companhia das Letras, fiquei pensando no quanto não conheço nada de nada em relação à literatura e produção literária do mundo, independente dos diversos tipos de gêneros, autores e países. Essa tomada de consciência é sempre dura, e deve-se ter humildade para lidar com o fato, senão ficaríamos deprimidos.

Eu tenho 48 anos de idade. Sou bancário concursado do Banco do Brasil. Já fiz muita coisa na vida desde a adolescência. Vendi minha força de trabalho desde criança, lá nos anos oitenta. Fui lendo o que deu e do jeito que deu. Cursei Ciências Contábeis e Letras. Depois que passei a ter um pouco mais de formação política e experiência de vida foi que percebi o quanto era ignorante em relação às boas obras da literatura mundial.

Desde então, vou descobrindo autores, gêneros, temas, estilos, vidas, poéticas, e definindo minha própria poética, mesmo que em prosa bancária, de trabalhador, amador no escrever.

Olha, que legal!

Paulo Leminski foi um grande conhecedor da palavra, da poesia, do manuseio da língua, da linguagem. O cara foi um gênio naquilo que fez. Estou impressionado com sua obra e foi uma pena não ter conhecido o autor antes de meus quarenta e tantos anos de idade, inclusive porque fiz faculdade de letras nos anos dois mil. Mas como escrevo aqui há tantos anos, sou (somos) lacunas culturais.

------------------------------------------------

"a hora do tigre

um tigre
    quando se entigra
não é flor 
    que se cheire
não é tigre
    que se queira

    ser tigre
dura a vida
               inteira"

--------------------------------------------------

Agora, após leitura de apresentação (e não de exegese), haja vista que só passei pela obra entre a compra do livro em 2013 e a leitura dos poemas ao longo deste período, posso dizer que passei a ter uma leve noção do que é Paulo Leminski. Mas isso não é pouco, porque estamos num mundo onde as pessoas ao nosso redor muitas vezes sequer têm noção de quase nada.

O livro Toda poesia (2013) reuniu em quatrocentas páginas poesias de vários livros de Leminski:

- quarenta clics em curitiba (1976)
- caprichos & relaxos (1983)
- distraídos venceremos (1987)
- la vie en close (1991)
- o ex-estranho (1996)
- winterverno (2001)
- poemas esparsos

---------------------------------------------------

"no campo
em casa
no palácio
está nas últimas
a última flor do lácio

cretino
beócio
palhaço
dê o último adeus
à última flor do lácio

a fogo
a laço
ninguém segura
a queda da última flor do lácio"

-------------------------------------------------------

Uma leve conclusão

O livro passa a ficar disponível e com fácil acesso em minha casa, assim como ficam os livros de Drummond e Bandeira, para aqueles momentos duros dos dias de lutas em que chego desesperado, angustiado, com raiva ou tristeza ou coisa do tipo e necessito abrir algo para ler ou declamar, buscando um conforto ou alívio mental.

Abraços, leitores amig@s.

William
(em busca de noções)