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quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

08/01/25 - O tempo sempre presente




"O tempo

Uma ideia minha, que expresso de maneira nada científica, é que o tempo não é sucessão diacrónica, em que um acontecimento vem atrás do outro. O que acontece projecta-se numa imensa tela e tudo fica ao lado de tudo. Como se o Homem de Cro-Magnon estivesse colocado nessa tela ao lado do David de Miguel Ângelo. (...) não há passado nem futuro. O que vai ser já está a acontecer.

Entrevista de José Saramago ao diário Público, 2 de Novembro de 1991" (da página da Fundação José Saramago em 08/01/25)


DIÁRIO E REFLEXÕES

Mundo, 8 de janeiro de 2025. Quarta-feira.


"Como se o Homem de Cro-Magnon estivesse colocado nessa tela ao lado do David de Miguel Ângelo..."

Hoje faz dois anos que o Brasil sofreu uma nova tentativa de Golpe de Estado por parte de um segmento da sociedade que há séculos considera esta terra como uma colônia de exploração, um lugar odiado por essa gente lesa-pátria e lesa-humanidade. Convivemos lado a lado, nós e eles, no mesmo tempo e espaço. 

O que vai ser já está a acontecer...

Bolsonaro está livre. Todas as crias do Bolsonaro estão eleitas em alguma função pública. O vice de Bolsonaro está eleito em função pública e tira sarro de nossa cara falando que não houve tentativa de golpe. O sujeito é senador. Essa gente odiosa tem mais de 400 votos no parlamento para anistiar toda a canalhada do segmento social ao qual pertence.

O que vai ser já está a acontecer...

Trump foi condenado, é um mentiroso contumaz e vai tomar posse como presidente dos Estados Unidos. Parece querer a Groelândia, o Canadá e o Canal do Panamá. Por causa da emergência climática ele quer novas terras, é o seu "espaço vital". As big techs que dominam as mentes das massas ignaras do mundo estão com Trump.

O que vai ser já está a acontecer...

A do Jesus na goiabeira é senadora. O juiz suspeito é senador. As instituições do Estado brasileiro estão tomadas por gente como essa aí. O dono do orçamento público do país é deputado. O empresário que se vestia de papagaio está livre, leve e solto. O governador que interferiu nas eleições no dia da eleição, um mentiroso, está no mandato.

O que vai ser já está a acontecer...

Por falar em "espaço vital", aquele que os alemães sonhavam desde o século 19, Israel segue invadindo e tomando terras nas quais outros povos e civilizações ocupavam há tempos. Azar dos palestinos e demais povos árabes... o mundo assiste à ocupação com assassinatos pelas imagens ao vivo. Quem ou o que vai parar as bombas e a ocupação dos sionistas?

(Palavras não vão parar os sionistas. Palavras não pararam nem Hitler nem Mussolini. Sei não, palavras não vão parar a extrema-direita atual)

O que vai ser já está a acontecer...

E o Brasil? E o nosso governo Lula? Eu gosto muito do presidente Lula, admiro ele desde sempre. É uma referência para mim há décadas. Lula talvez seja uma das últimas figuras humanas de uma era que está se encerrando no mundo. Lula é um pacifista. Outra era e outras espécies humanoides estão surgindo nesta etapa do planeta Terra. A paz não tem nada a ver com essa nova era.

Não há passado nem futuro. O que vai ser já está a acontecer...

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" - ...............!"

Estou concluindo algumas coisas ao refletir sobre o tempo presente, esse de ontem, hoje e amanhã ("Ano Novo"). Talvez eu seja um romântico. Um romântico.

Eu sonhava consideração, sonhava tolerância, sonhava entendimento através das ideias e da palavra. A minha lista antiga de desejos e objetivos nesta minha única vida terminava com o item "paz". Um romântico...

Terminei o ontem e vivo o presente sem ter conseguido comer uma pizza com os sobrinhos, sem ter passado o Natal com os pais. Os núcleos familiares me parecem diminuir. 

Minha liderança local do PT saiu do partido. Fiz volume nas ruas sem ter protagonismo nos últimos anos. Não sei se farei mais isso. Pouca utilidade e resultado duvidoso pra todo mundo. Ser ou não útil é um incômodo permanente. 

Um amigo dos tempos de sindicalismo disse que me respeita muito, mesmo quando precisou resistir "a algumas situações colocadas". 

Nunca vou saber até onde foram as mentiras que inventaram contra mim para me cancelarem no movimento que ajudei a liderar por décadas. O mundo humano é um lugar duro. E talvez piore.

Não há passado nem futuro. O que vai ser já está a acontecer... a ideologia dos capitalistas segue vencendo a vida. Tudo tem um preço, um valor, uma utilidade. Um mundo utilitarista.

William


Post Scriptum (o dia seguinte): como registrei minha admiração pelo pacifista Lula, precisa registrar também que não concordo com tudo que Lula diz e faz. Não concordo com a afirmação do presidente Lula que disse não ter havido participação da classe trabalhadora nas revoluções de 1917 da Rússia e em 1959 em Cuba. Às vezes, Lula faz essas simplificações históricas que não ajudam em nada nossa luta contra a exploração do ser humano pelo capitalismo. A frase é tão infeliz ao insinuar que só estudantes fizeram as revoluções como seria infeliz se eu dissesse que só metalúrgicos (peões) criaram o PT e a CUT. Vida que segue...

domingo, 30 de junho de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 30 de junho de 2024. Domingo.


Junho

Às vezes, ao refletir sobre os acontecimentos na sociedade humana, me lembro de uma observação que ouvi certa vez de um professor de literatura clássica na faculdade de Letras. Ele disse que não havia muita diferença entre as notícias nos jornais diários e as obras clássicas da literatura universal. Disse, então, que preferia ler os clássicos do que ver aquelas notícias em jornais.

A observação da realidade no mundo onde vivo muito me lembra alguns dos grandes clássicos cujos cenários são mundos com ambientes opressores e pouco promissores às formas diversas de vida. Clássicos de George Orwell, Aldoux Huxley e Ray Bradbury. Os ensaios de Saramago me vêm à lembrança o tempo todo... é um mundo de cegos que mesmo podendo ver, não veem!

Um mundo feio e em processo de destruição, de uma humanidade decadente. O mundo do século atual se tornou um mundo distópico. Feio em todos os sentidos. Um mundo onde não se pauta mais fazer o bem ao próximo e não se tem mais como utopia alimentar a todas as pessoas que têm fome, um mundo onde as pessoas que detêm o poder efetivo atuam diariamente para foder com a vida de milhões de outras pessoas, instituições, comunidades. Um mundo onde poucos caras fdp estão neste momento gastando suas energias para destruir as possibilidades de uma vida melhor para bilhões de seres humanos e sequer pensam nas demais formas de vida no planeta. Um mundo feio, de gente horrorosa!

Aí nos lembramos de "os miseráveis" descritos por Victor Hugo ao romancear os efeitos daquela nova era, a era capitalista, a era da burguesia, uma gente bárbara e violenta, que disfarça sua ferocidade e vulgaridade assim que aprendem a usar talheres e fazer de conta que gostam de arte. Uma gente feia, decadente, que sequer tomava banho, que fedia por estar meio podre por sujeira e cuja presença só se aguentava por causa dos perfumes que pagavam para inventarem. A burguesia que vigorou no país onde moro é uma das mais bárbaras e abjetas do planeta Terra. Uma gente má, inculta, que sente prazer ao manter miseráveis os povos todos do espaço geográfico chamado Brasil.

Ao ver ao meu redor a manipulação da fé de milhões de pessoas por parte de uns canalhas e mercenários da fé alheia, fico pensando no clássico de Juan Rulfo "Pedro Páramo". Imagino as almas infelizes ao descobriram que eram enganadas por um pastor fdp desses que atuam como o padre Rentería de Comala. Ao descobrirem que foram enganadas por esses "pastores" salafrários não encontrarão descanso nem embaixo da terra e seus murmúrios serão ouvidos por todos nós nos dias em que a friagem da chuva umedecer seus cubículos de terra, a terra que coube às almas enganadas por esses bandidos da fé.

Estou ficando velho demais aos cinquenta e poucos anos... começo a achar que tenho centenas de anos de existência. Vou vendo a impunidade e a desfaçatez ao meu redor mil vezes por dia e meu corpo me castiga com as dores das centenas de anos que tenho, de ossos centenários, de músculos e nervos secos e enrijecidos, sistemas centenários e cansados, vista, órgãos da fala, ouvidos... a faringe, o esôfago e o estômago já nem querem mais funcionar direito quando o alimento tenta cumprir o seu papel de manter uma vida centenária. Se entro nas redes sociais, se ligo algum aparelho, se ouço alguma notícia... é só putaria da burguesia, não tem um fdp burguês em posição de poder pensando em melhorar o mundo. É o capitalismo, estúpido!

O que vem por aí? Gostaria de registrar boas perspectivas, mas não sou de mentir. Tá bom! Esteja como estiver cada uma e cada um dos bilhões de humanos, nas próximas 24 horas haverá um novo dia, com sol aberto ou encoberto. Pessoas vão morrer. Pessoas vão nascer. Projéteis de armas variadas vão trucidar centenas de vidas nas próximas 24 horas. Alguns humanos vão ficar mais ricos. Milhares ou centenas de milhares, milhões talvez, vão perder suas economias roubadas por espertalhões em bolsas de valores, que servem para enganar boas almas e espertalhõeszinhos que acreditam em bolsas de valores. É o capitalismo, estúpido! (meus companheiros petistas, um monte deles, acreditam ser possível "humanizar" o capitalismo... não falo que o mundo tá foda!)

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Enquanto a vida seguiu em junho, corri como pude, andei, fiz um pouco de exercícios físicos, fiz alguns exames médicos, inclusive aquele que o médico enfia o dedo na bunda da gente. Mexi em papéis velhos. Fiz um esforço em ser uma pessoa decente. Poluí o mundo como todo mundo, produzi muito lixo que a natureza não tem como absorver. Estudei alguma coisa quase todos os dias para saber algo novo, mesmo velho.

William


domingo, 24 de março de 2024

Artigo: O último de nós



Refeição Cultural

Osasco, 24 de março de 2024. Domingo.

Opinião


O ÚLTIMO DE NÓS

Duelam dentro de mim, dois sentimentos humanos: a esperança e o pessimismo. Os sentimentos podem nos levar a comportamentos e atitudes humanas irracionais, já que somos animais movidos pelas paixões, apesar de nos classificarmos como animais racionais - de cálculos cerebrais - somos na prática o inverso, estamos o tempo todo agindo por instinto e por paixão e não por razão. Essa é uma das grandes contradições do animal humano.

O episódio três "Long, long time" da série The Last Of Us, série baseada no aclamado jogo de mesmo nome, me deixou mais pensativo do que já ando nesta fase atual de minha existência. Para onde caminha a humanidade? Até que ponto estamos engajados em evitar realmente o fim do mundo?

Neste momento da história humana, já não vivemos mais utopias - idealizações de sociedades justas e com cidadanias plenas a todos -, já fomos todos engolidos pelas agendas que normalizam as distopias - a vida será pior ou inviável para a maioria e foda-se isso.

Como disse o professor Belluzzo em artigo recente, vivemos num "Estado de mal-estar social", inverso do que se almejava após a 2ª Guerra Mundial.

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DETERMINISMO GERA INAÇÃO

Avalio que fui uma pessoa que se baseou nas ideias deterministas de mundo durante décadas, inclusive durante uma parte do período no qual já era dirigente da classe trabalhadora após os trinta anos de idade, pois a formação política e intelectual de um militante de esquerda não se dá da noite para o dia, e ela pode nem ocorrer caso não haja um processo formativo pessoal e coletivo naquela organização onde o militante está atuando. 

Não se politiza pessoas só com desejo ou com retóricas, se politiza pessoas com método, com processos formativos adequados. Se educa e politiza seres humanos com planejamento, com objetivos, estratégias e táticas ao longo do tempo.

Avalio que a ampla maioria das pessoas no mundo está inserida em bolhas de leitura determinista de mundo. E aí é mais fácil apertar o botão do foda-se do que pensar em como mudar a realidade e a tendência de futuro. (já que o mundo vai acabar mesmo, quero mais é aproveitar o tempo que resta com as minhas questões e prazeres pessoais)

Com uma leitura e comportamento deterministas de mundo, de fim de mundo (leitura escatológica), de naturalização da realidade construída por uma parte dos agentes humanos que estão no mundo, a profecia pode tornar-se realidade por absoluta inação das pessoas, aceitação da tendência atual sem realizar ações que mudem a tendência do momento que direciona a sociedade, a natureza, os seres humanos e seres vivos para o esgotamento e fim da condição da vida.

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ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

Talvez o livro de ficção mais representativo da sociedade humana dos últimos séculos seja o livro do escritor português José Saramago, Ensaio sobre a cegueira. É um dos livros que mais se encaixam como uma carta coringa em qualquer cenário que envolva a sociedade humana e seus absurdos não vistos e se vistos ignorados por todos os agentes envolvidos na questão.

A criação por nós animais humanos das atuais tecnologias de comunicação virtuais e instantâneas poderia nos colocar em outro patamar da história humana em termos de ampliação do conhecimento humano, salto evolutivo só alcançado milênios atrás quando inventamos a escrita, os símbolos linguísticos que passaram a permitir a transmissão de saberes individuais para as outras pessoas após a morte daqueles que acumulavam saberes e culturas.

A internet e as redes sociais poderiam dar esse salto ao conhecimento humano... mas foram capturadas por poucos humanos em um mundo dominado pela lógica do capitalismo e do imperialismo, formas de organização da sociedade humana onde as pessoas e as conquistas tecnológicas para a melhoria geral da vida da espécie foram transformadas em mercadorias e não importam mais os valores intrínsecos às coisas. A própria espécie humana virou uma coisa, uma mercadoria. 

E nos tornamos cegos, cegos que vendo não veem mais nada.

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SOLUÇÕES COLETIVAS SEM COLETIVOS?

Durante as etapas formativas em minha convivência com o movimento sindical bancário ouvia com frequência frases de efeito e com grandes conceitos vindas de meus representantes sindicais, pois fui trabalhador sindicalizado desde meus 19 anos e só fui virar dirigente eleito aos 33 anos de idade.

- As soluções são sempre coletivas; 

- A prática como critério da verdade; 

- A saída é sempre pela esquerda; 

- Vamos construir o consenso progressivo, evitando-se votar logo de cara; 

- Construir a unidade na diversidade...

A história deveria ser sempre uma referência para as gerações seguintes saberem as consequências das ideias e ações do passado e pensar novas ideias e ações para as novas realidades da sociedade humana. A história não se repete porque os contextos sempre são outros. É aquela ideia da pessoa no rio, nem a pessoa é a mesma quando volta ao rio, nem o rio é o mesmo... (Heráclito)

Será que vamos construir soluções coletivas no Brasil e no mundo no campo "progressista" como chamamos a esquerda com o fim da possibilidade de divergência de ideias e opiniões nos sindicatos, partidos e movimentos organizados da classe trabalhadora?

Sem a volta de fóruns formativos e politizadores como assembleias presenciais, reuniões com grupos divergentes e unidades de fato na esquerda com plataformas que unifiquem o campo da esquerda seremos insignificantes enquanto grupos contrários ao domínio capitalista que nos conduz para um fim de verdade das possibilidades de vida na terra.

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O MEIO É A MENSAGEM

"A expressão 'o meio é a mensagem' foi criada pelo filósofo canadense Marshall McLuhan. Tal expressão surgiu a partir do momento em que McLuhan se propôs a analisar e explicar os fenômenos dos meios de comunicação e sua relação com a sociedade.

McLuhan, em sua obra Os Meios de Comunicação como Extensão do Homem, preocupou-se em mostrar que o meio é um elemento importante da comunicação e não somente um canal de passagem ou um veículo de transmissão. Este foi o ponto que gerou maior controvérsia em sua obra, pois até então era comum se estudar o efeito do meio quanto ao conteúdo, sem que se atentasse para as diferenças evidenciadas por cada suporte midiático (jornal, rádio, televisão, cinema, etc.). Cada meio de difusão tem as suas características próprias, e por conseguinte, os seus efeitos específicos. Qualquer transformação do meio é mais determinante do que uma alteração no conteúdo. Para McLuhan, portanto, o mais importante não é o conteúdo da mensagem, mas o veículo através do qual a mensagem é transmitida, isto é, o meio, que independente da sua utilidade, afeta a sociedade de algum modo além da finalidade para a qual foi criado. Diante disso, McLuhan ressalta a ideia de que o conteúdo de um meio será sempre outro meio. Paulo Serra em seu livro Manual de Teoria da comunicação, exemplifica que, os que estão preocupados com o conteúdo da mensagem e com os seus “efeitos”, deixando de lado o próprio meio, fazem lembrar um médico que se preocupa com a “doença”, mas esquece do doente.
 (Fonte: Wikipedia. O sublinhado é meu)

As redes sociais e os algoritmos são as ferramentas utilizadas pelos donos dos meios (corporações donas das mídias) para conhecer primeiro bilhões de usuários e depois utilizar esse conhecimento para manipular o comportamento desses bilhões de usuários da internet e das redes sociais. Depois de umas duas décadas de experimentos feitos conosco, agora somos vítimas de um sistema de controle global do comportamento humano, pautando o cotidiano das sociedades de uma forma nunca imaginado pela espécie humana.

Ou seja, por que vocês acham que a China decidiu criar as suas próprias mídias (meios) para enfrentar a hegemonia das mídias das empresas sediadas nos Estados Unidos? Por que vocês acham que o império do norte quer acabar com o Tiktok em seu território? Os norte-americanos não querem que uma big tech de fora faça em seu mercado (e domínio geográfico) o que as big techs deles fazem com as pessoas do mundo inteiro.

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GOVERNO LULA MELHOROU OU PIOROU A VIDA DO POVO?

Falei dessa questão do meio ser a mensagem para lembrar aos amig@s leitores que sem lidarmos com essa questão de criarmos os nossos próprios meios (mídias) não temos chances de fazer eleitores brasileiros perceberem a melhora da vida no governo Lula... sem chances. 

Caminhamos para um domínio tão grande da mente das pessoas, do sentimento e do comportamento das pessoas, que se o governo Lula entregar uma Suécia para os brasileiros eles vão achar que vivem no Haiti porque é assim que funcionam os seres humanos! A forma como sentimos o mundo é a forma como nossa mente percebe a realidade, ou cria a realidade!

Os dados da realidade econômica e social dos 15 meses de governo Lula demonstram melhoras na vida material do povo brasileiro. No entanto, a cada dia que passa, dominado pelos meios que influenciam comportamentos, pode ser que mais pessoas avaliem que a "vida" piorou. Uma das formas de pós-verdade!

Os meios por onde elas sentem o mundo são pessoais - as informações chegam só para elas em seus aparelhos - e essa informações (desinformações) se somam às desinformações abertas, as da mídia da casa-grande e do capital, que já conhecíamos e que transformam pessoas em monstros também...

"Uma imprensa cínica, mercenária, demagógica vai formar, com o tempo, leitores tão baixos quanto ela própria" (Pulitzer)

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RESPOSTAS DEVEM SER COLETIVAS DE FATO, SEM VETOS AOS DIVERGENTES

Minha reflexão já ficou longa para o domingo, mas venho falando e escrevendo sobre isso com frequência em meus textos.

Para onde caminha a humanidade? Até que ponto estamos engajados em evitar realmente o fim do mundo? O capitalismo e os caras no controle do capitalismo não estão nem um pouco preocupados em evitar o fim do mundo ou alterar a tendência disso.

Eu não tenho respostas para essas questões. Nem o presidente Lula tem. Nem Noam Chomsky tem. Quero dizer que as respostas não serão desenvolvidas da cabeça de uma pessoa. Mas podem fluir da cabeça de diversas pessoas que se preocupem com isso.

Sem ser determinista, basta abrir os olhos e ver, e vendo, perceber que se não alterarmos rapidamente a tendência das coisas na sociedade humana, caminhamos para a destruição das possibilidades de uma vida melhor no único planeta habitável para as mais diversas espécies de vida que conhecemos hoje no mundo, inclusive a da nossa espécie.

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TEMOS QUE CONSTRUIR UM MUNDO QUE FAÇA A VIDA VALER A PENA

Fico pensando naquele mundo do The Last Of Us, um cenário já não propício à vida em paz pelo ser humano e outras espécies, e fico pensando em Bill e Frank do 3º episódio da série, ou mesmo em Joel e Ellie, e não gostaria que a vida só valesse a pena enquanto temos uma ou algumas pessoas de nossa relação para querermos cuidar e viver.

A sociedade humana precisa ser boa o suficiente para que eu queira continuar vivendo mesmo que morram as pessoas de minha relação de amor mais próxima. Entendem isso? 

Está claro que esta ideia de mundo bom não é a sociedade hegemonizada pelo capitalismo, onde tudo é mercadoria e tem preço e na qual nem os seres humanos valem a graça da vida humana.

Se a motivação da vida humana for só uma ou algumas pessoas próximas e não as possibilidades amplas do viver - cultura, arte, beleza, conhecimento, solidariedade, um novo amor e amizade etc -, nossa sociedade estará no fim e realmente o mundo será esse cenário apocalíptico das ficções de terror que inventamos desde os primórdios.

William


quarta-feira, 16 de novembro de 2022

José Saramago - Centenário do grande escritor



Refeição Cultural - #Saramago100

Mundo, 16 de novembro de 2022. Há cem anos nascia José Saramago...


Saramago vive em cada personagem que criou, vive em cada discurso ou reflexão que nos legou, vive em cada um de nós que tivemos o privilégio de ler parte de sua obra, de ouvir suas palavras e pensamentos. Viva José Saramago!


ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

A primeira obra que li de José Saramago foi Ensaio sobre a cegueira (1995). Li o romance em 2003 e depois o reli em 2008, antes de ver o filme de Fernando Meirelles baseado na obra. O Ensaio é algo único na literatura mundial. Imagino as pessoas vendo a nossa cara de leitor durante a leitura das partes mais dramáticas do Ensaio... 

Eu me lembro de um dia no qual lia o Ensaio no trem de volta para casa e estava tão incomodado com a cena da violência contra uma personagem que eu ficava olhando ao redor como se todo mundo soubesse a cena absurda que estava lendo no livro.

Este romance me fez chorar, me fez sentir raiva, me fez pensar muito sobre o que somos. Para ler um comentário sobre a leitura é só clicar aqui.

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ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ

Logo após a releitura do primeiro Ensaio, ainda em 2008, mergulhei no Ensaio sobre a lucidez (2004). Agora era o "corte de energia cívica" com o voto em branco de quase todo mundo criando um cenário distópico para nos colocar a pensar sobre a nossa realidade. Que viagem!

Pouco mais de uma década depois do lançamento desse romance de Saramago, o principal país do capitalismo imperialista, considerado "civilizado" e referência como uma das maiores democracias do mundo, sofre um "corte de energia cívica" e elege Donald Trump presidente... incrível, né! E um pouquinho depois, outro país com mais de 100 milhões de eleitores elege um palhaço miliciano presidente do país... Que dizer?

Leiam o romance de Saramago e vejam se não encontramos ali provocações e reflexões que nos colocam a pensar sobre as chamadas democracias liberais e seus cidadãos...

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TODOS OS NOMES

"Aliás, se persistíssemos em afirmar que as nossas decisões somos nós que as tomamos, então teríamos de principiar por dilucidar, por discernir, por distinguir, quem é, em nós, aquele que tomou a decisão e aquele que depois a irá cumprir, operações impossíveis, onde as houver. Em rigor, não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós."

O terceiro livro de Saramago que li foi Todos os nomes, de 1997. Que livro fantástico! Olhando minha edição, toda rabiscada, relembro que foi um dos livros do escritor no qual mais destaquei conceitos e reflexões do personagem, o Sr. José, que trabalha na Conservatória Geral do Registo Civil.

Vejam essa reflexão que citei acima sobre as decisões humanas... sou eu falando. Concluí de minha vida que nunca fui o condutor de nada e sim o conduzido, pela vida, pela casualidade, pelo destino (rsrs), pelos outros, pelas circunstâncias, pelos acidentes de percurso, enfim, na minha vida "são as decisões que nos tomam a nós".

Este livro de Saramago também me fez chorar e rir diversas vezes. Era ler um pouco e sair pensando na vida. Demais! Para ler um comentário sobre a leitura é só clicar aqui.

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A JANGADA DE PEDRA

Que romance espetacular! A jangada de pedra, de 1986, é mais um livro distópico do grande escritor José Saramago. Depois de ler os dois Ensaios e Todos os nomes, me apaixonei completamente pela leitura de Saramago com este romance. Li esta obra no ano em que morreu nosso querido escritor, em 2010.

Assim como os livros anteriores, esse tem muita reflexão sobre a vida e sobre o sentido das coisas. O romance explora bastante a questão filosófica sobre haver ou não causalidade naquilo que chamamos de coincidências em fatos e eventos no dia a dia das civilizações humanas.

Na estória, após uma sucessão de eventos a partir de um risco no chão feito por Joana Carda, pouco a pouco o fenômeno vai se tornando realidade e a mãe Europa acaba por ver partir sua filha Península Ibérica rumo ao Ocidente. Que estória fantástica!

Foi meu 4º livro de Saramago, foi a 4ª leitura terminando fascinado por ele e por sua obra. Ler aqui comentário que fiz sobre esse romance.

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O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA

"(...) Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber, quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa..."

Para relembrar minha experiência com a leitura desse conto maravilhoso de Saramago, O conto da Ilha desconhecida, de 1997, manuseei minha edição belíssima e reli a postagem que fiz em 2015 (ler aqui), quando li a estória pela primeira vez.

Só de reler passagens do conto e minha postagem, minha voz embargou na garganta e os olhos encheram d'água... Que conto metafórico!

Minha postagem registrou um momento importante de minha própria viagem pela vida. A forma como eu estava numa ilha, embarcado numa aventura desconhecida, e a forma como O Conto da Ilha Desconhecida de Saramago veio parar na minha mão naquele dia... 

As imagens finais da estória são de arrepiar! O barco, o homem, a mulher, o barco-ilha e as ilhas que somos...

Demais! Viva Saramago!

Obrigado, Saramago!

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A VIAGEM DO ELEFANTE

"A Pilar, que não deixou que eu morresse" (José Saramago)

Li A viagem do elefante num mês de janeiro de 2016, estando de férias do trabalho.  Saramago diz que só pode contar essa narrativa porque Pilar, sua companheira, não o deixou morrer ao estar muito doente. O livro foi publicado em 2008. Ler aqui um comentário que fiz sobre as leituras daquele mês.

No romance, Saramago nos conta a história do elefante Salomão e seu tratador indiano Subhro (cornaca), que atravessam metade da Europa - Portugal, Espanha e Itália - para o elefante ser dado de presente a uma realeza da Áustria. O escritor nos diz que a história é real, o que ele fez na narrativa foi preencher as lacunas da história que não se sabia.

Como os demais livros de Saramago, não teve como não me emocionar muito com a história de Salomão, completada pelo nosso escritor português. Poucos autores conseguem com tanta eficácia nos colocar a pensar durante a leitura, através dos diálogos que os narradores fazem com os leitores de seus livros.

Para vocês terem uma ideia sobre as reflexões e sabedorias do livro, vejam essa a respeito da história de uma vaca perdida por doze dias com sua cria entre lobos... (ler aqui)

Viajei muito nesta viagem que empreendi junto a Salomão.

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AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE

"No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme..."


Para começar o comentário sobre a leitura dessa obra fantástica, emocionante e diferente de tudo que se costuma ler por aí, coloquei para ouvir a opus 1012 para violoncelo de Johann Sebastian Bach, e naturalmente o arrepio toma conta de todo o meu corpo enquanto escrevo...

José Saramago escreveu As intermitências da morte (2005) explorando a mais absurda das situações possíveis, bem ao estilo do autor que construiu boa parte de seus romances mais espetaculares a partir de uma estrutura ficcional assim: 

Imaginem vocês se de repente... as pessoas deixassem de ver e estivessem com uma cegueira branca... as pessoas decidissem votar todas em branco sem combinar nada... a Península Ibérica se soltasse da Europa e fosse embora... a morte fizesse uma greve e decidisse que ninguém mais morreria a partir de 1º de janeiro...

E a morte gosta de Bach... quem diria! (Eu também adoro Bach!)

Amig@s leitores, esse foi o derradeiro (até agora) romance que li de Saramago, leitura feita durante um período de muito trabalho por parte da morte, o primeiro ano da pandemia mundial de Covid-19... que barbaridade! Como trabalhou a dona morte! Eu sobrevivi por algum acaso do destino (ela não me escolheu ainda)

Não consigo falar desse livro sem chorar... Tá dito o mínimo sobre As intermitências da morte... 

Caso queiram ler a postagem que fiz quando li o livro, é só clicar aqui.


Viva José Saramago!

William Mendes


Bibliografia:

As referências e citações que fiz nesta postagem foram extraídas das edições das obras de José Saramago que compõem a foto que ilustra esse texto.


sexta-feira, 29 de julho de 2022

O bolsonarismo que existe em nós


Refeição Cultural (indigesta)

Outro dia, a jornalista Dhayane Santos (TV 247) perguntava ao professor Pedro Serrano qual a explicação que ele teria para ainda hoje um terço do povo brasileiro ser apoiador e se ver representado pelo ser mais repugnante que já chegou a um cargo eletivo no Brasil. Dhayane fez referência a um artigo recente de Serrano na revista CartaCapital sobre o circuito afetivo no autoritarismo...

Serrano começa a responder assim: "Política é afeto, afeto não é emoção..." e depois diz que "afeto não é divorciado da razão, razão e afetividade atuam juntas, uma interfere na outra..." 

Na sequência da explicação, Serrano vai abordar a questão da tirania sob a ótica de Étienne de la Boétie, um filósofo do iluminismo que fez uma obra clássica abordando os motivos pelos quais as pessoas se submetiam à tirania. 

Uma das respostas de Boétie e que Serrano faz uma analogia com o Brasil e os apoiadores do tirano daqui é que as pessoas o apoiam para poderem exercer suas pequenas tiranias.

"As pessoas apoiam os tiranos para poderem ser pequenos tiranos em seu cotidiano", diz Pedro Serrano pensando sobre os bolsonaristas. Então, os homens brancos da elite, por exemplo, se sentiriam ressentidos de não poderem mais bater nas mulheres, estuprarem as mulheres, privilégios dos homens que constavam no código de direito civil de 1916...

É uma verdadeira aula que o ouvinte teve com o professor Serrano.

Ou seja, aquele sujeito representa os valores dos homens brancos das casas-grandes e dos colonizadores, essa gente que barbarizou por aqui nos últimos séculos. Os valores dessa gente que via mulheres e filhos como propriedade, escravos como animais de carga e objetos de prazer e sarro, a coisa pública como extensão de suas propriedades privadas, a igreja como sua subalterna no domínio local etc.

Isso tem muito sentido. Esse homem que representa o mal em sua forma mais básica representa também toda essa gente que não gostou de se ver contestada, freada em seus impulsos mais primitivos e repulsivos como o estupro, o assassinato, a violência, a opressão por poder oprimir. 

Talvez esse sujeito na presidência dessa terra opressora chamada Brasil, sujeito que virou uma palavra da língua portuguesa, um qualitativo pejorativo de pessoas e comportamentos, talvez ele represente um pouco do que existe dentro de cada um de nós.

José Saramago, no Ensaio sobre a cegueira, disse num momento duríssimo do romance que "Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos". Não paro de pensar nisso quando olho e vejo o que somos algumas vezes...

Mas por que então parcelas de mulheres, pretos e pobres, gays e oprimidos em geral também apoiam esse ser opressor e demoníaco? Porque todo oprimido também tem o seu espaço de opressor dentro da família, do trabalho etc. Deter a opressão significa também coibir os pequenos opressores nos cotidianos de nossa vida em sociedade.

Eu achei a explicação de uma coerência nunca imaginada por mim. Essa gente que se identifica com o criminoso no poder tem um sentimento afetivo com ele. De certa forma, elas sabem que com ele no poder e dando a linha das normas na sociedade na qual vivemos, elas têm a liberdade de seguirem fazendo as suas pequenas barbaridades diárias, nos seus espaços de opressão.

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E o bolsonarismo que existe em nós?

Após essa aula de Serrano ressoando sem parar em meu cérebro como as badaladas de um sino gigante me peguei nervoso e falando alto em casa... após um momento de decepção e de intolerância com um evento cotidiano, lá estava eu gritando em casa... Que merda! Fiquei tão arrasado, tão decepcionado comigo mesmo que não sabia onde enfiar a cabeça... 

Dessa decepção comigo mesmo, fiquei um tempão relembrando meu passado e minha vida ao longo de décadas. Aquelas palavras de Serrano ressoando na cabeça... os pequenos tiranos...

Fiquei pensando em mim e nos homens de minha família, nos homens intolerantes das gerações de meu pequeno mundo miserável em todos os sentidos, no início miserável por falta de quase tudo, depois miserável pelo que fomos ou somos nos momentos das pequenas tiranias cotidianas...

Qual diferença haveria entre mim e entre nós que nos apresentamos como pessoas contrárias ao que representa o bolsonarismo e os chamados bolsonaristas raízes, que nada mais seriam que pessoas que pertencem a esse circuito de afetos que une o que eles são e o que o sujeito no poder representa?

Como extirpar esse bolsonarismo que talvez exista dentro de cada um de nós, de alguns de nós, nascidos, criados e aculturados nessa terra com o passado bárbaro que tem?

Percebi que não tenho a resposta...

William


sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Animal racional e imbecil



Refeição Cultural

Sexta-feira, 24 de setembro do 2º ano da desgraça da pandemia.


TCHAU ÁGUA (II)

"É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade" (Saramago)

Segundo o neurocientista Miguel Nicolelis o ser humano possui cerca de 86 bilhões de neurônios. Isso inclui o Bolsonaro e os bolsonaristas porque estamos falando da espécie humana (é sério!). Por termos esse cérebro portentoso somos chamados de animais racionais, porque temos capacidade de raciocínio.

Os dicionários que consultei na internet dizem que imbecil é a pessoa que tem pouca inteligência, pouco juízo, pessoa tola, idiota. Ou seja, tem seres humanos imbecis, mesmo com 86 bilhões de neurônios. Agora faz sentido o Bolsonaro e o bolsonarismo. Gente imbecil, idiota. Acrescento outros qualitativos a essa gente: gente má, mau-caráter, gente ruim e, sobretudo, hipócrita.

O animal humano é o bicho mais contraditório do reino animal. Nós somos racionais, dotados da capacidade de raciocínio, inteligência, e somos imbecis, capazes das coisas mais tolas, idiotas, burras do reino animal.

Por que parei minha leitura matutina para registrar isso? Por causa do barulho infernal do Vap do prédio vizinho. Estamos vivendo na região Sudeste a maior crise hídrica das últimas décadas, os reservatórios de água estão quase no zero, a previsão é catastrófica para os próximos meses e o Vap do vizinho não para de funcionar. Dias atrás era a lavagem da quadra (ler aqui). Hoje é o telhado da guarita, tudo está um brilho agora. Viva!

Incomodados (minha esposa tentou denunciar para algum lugar), falamos com nosso síndico que contatou o síndico vizinho. A resposta cordial foi a explicação de que eles pagam um valor x de uso de água ao fornecedor (quota mínima), e como eles não chegam a utilizar a quantidade de água que pagam, eles estão tranquilos porque podem gastar mais, até chegar na quota mínima paga pelo condomínio. Também explicou que o condomínio tem sistema de reuso de água para mesclar com a água potável pública de todos nós.

Esses somos nós, animais racionais e imbecis humanos (me lembrei de Saramago falando sobre nós humanos no Ensaio sobre a cegueira - ler aqui). Imaginem quantos condomínios existem na grande São Paulo. Suponhamos que uns 1000 condomínios pensem como pensa o condomínio vizinho. "Tô pagando uma água que não tô usando, então posso gastar mais até ela acabar. Tô pagando!".

De novo repito o que disse na postagem anterior: sei que não vai faltar água para a soja, o milho, pro gado, pro agro-pop (quer dizer, vai, mas lá na frente, no deserto). No momento, não vai faltar água pra cerveja nem pro refrigerante. Sei que quando o que era o Brasil virar um deserto os donos do dinheiro do agro e das bebidas vão pra outro país, aliás já moram em outros lugares esses desgraçados (Miami que o diga!).

É isso! Eu estou tão de saco cheio do ser humano, que não estou conseguindo sequer sentar-me com a cabeça boa para escrever a minha parte sobre encontros de saúde que faremos com uma militância sindical que ainda se esforça diariamente para mudar essa merda toda que tá aí. Estou num azedume infernal.

Tchau água! Tchau! Aqui é Bolsonaro!

William


terça-feira, 25 de maio de 2021

José Saramago - O conto da ilha desconhecida



Refeição Cultural

"O homem do leme assistiu à debandada em silêncio, não fez nada para reter os que o abandonavam, ao menos tinham-no deixado com as árvores, os trigos e as flores, com as trepadeiras que se enrolavam nos mastros e pendiam da amurada como festões. Por causa do atropelo da saída haviam-se rompido e derramado os sacos de terra, de modo que a coberta era toda ela como um campo lavrado e semeado, só falta que venha um pouco mais de chuva para que seja um bom ano agrícola. Desde que a viagem à ilha desconhecida começou que não se vê o homem do leme comer, deve ser porque está a sonhar, apenas a sonhar, e se no sonho lhe apetecesse um pedaço de pão ou uma maçã, seria um puro invento, nada mais. As raízes das árvores já estão penetrando no cavername, não tarda que estas velas içadas deixem de ser precisas, bastará que o vento sopre nas copas e vá encaminhando a caravela ao seu destino. É uma floresta que se navega e balanceia sobre as ondas, uma floresta onde, sem saber-se como, começaram a cantar pássaros..." (SARAMAGO, 2015, p. 58)


Ao ler essa breve narrativa de José Saramago, fiquei com os olhos cheios d'água. Que imagem fantástica! Sair por aí pelos mares a navegar uma pequena floresta, como se fosse uma ilha flutuante, por esse mundão afora.

E quando olho para a realidade, estamos numa terra com um povo ignorante e miserável que apoia um regime do mal, com um genocídio em andamento e sem perspectivas de curto prazo para o fim do sofrimento psicológico por ter consciência de tudo ao redor.

Adoro Saramago. Seus textos nos colocam a pensar, nos fazem viajar. A estratégia de suas narrativas é desenvolvida, de maneira geral, a partir de uma ideia apresentada do tipo: "e se acontecesse tal coisa?" ou "e se tal coisa fosse assim?".

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"(...) quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa." (p. 40)

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Enfim, mais um livrinho lido nesses dias de pausas das leituras clássicas em andamento. Livrinho no sentido de livro pequeno, como os que peguei na estante de casa.

William


Bibliografia:

SARAMAGO, José. O conto da ilha desconhecida. Aquarelas Arthur Luiz Piza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 37ª reimpressão, 2015.


sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Livro: As intermitências da morte - Frases selecionadas



Refeição Cultural

Como era de se esperar, As intermitências da morte (2005), de José Saramago, superou minhas expectativas de leitor. Poucos escritores têm a capacidade que ele tem de nos surpreender com suas narrativas e estórias. Poucos escritores me fazem rir e chorar, poucos. Saramago é um deles.

As intermitências da morte é um livro que deve ser lido por nós, que deve ser discutido por nós, quer dizer, deveria, porque os tempos são outros, são tempos distópicos e as discussões filosóficas e os exercícios de pensamento já não encantam nem prendem a atenção de ninguém, talvez estejamos na última fase da hegemonia humana na Terra.

Agora é tempo de lacração, de cancelamento, de memes, de rapidez na mensagem com imagem, de desenhinhos que substituem qualquer pensamento e linguagem mais elaborados e complexos. Um emoji e pronto, tá dito o que o enunciador acha que disse e o recebedor que entenda o que o enunciador acha que foi dito.

Uma cena que me impactou:

A morte está à espreita, está presente no ambiente, e ela observa encantada o violoncelista executando a Suíte nº 6, opus 1012, em ré maior, de Johann Sebastian Bach...

Enfim, seguem algumas frases e momentos de reflexão n'As intermitências da morte.

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O QUE OS OLHOS NÃO VEEM...

"Deitado no chão, à espera de um sinal que não vinha, o cão olhava-o. Talvez a causa do abatimento do dono fosse a mulher que apareceu no parque, pensou, afinal não era certo aquele provérbio que dizia que o que os olhos não veem, não o sente o coração. Os provérbios estão constantemente a enganar-nos, concluiu o cão" (p. 206)

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ESPERANÇA

"E como as esperanças têm esse fado que cumprir, nascer umas das outras, por isso é que, apesar de tantas decepções, ainda não se acabaram no mundo" (p. 202)

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HIERARQUIA DAS PALAVRAS

"Acabou de comer e voltou à sala de música, ou do piano, as duas maneiras por que a temos designado até agora quando teria sido muito mais lógico chamar-lhe sala do violoncelo, uma vez que é este instrumento o ganha-pão do músico, em todo o caso há que reconhecer que não soaria bem, seria como se o lugar se degradasse, como se perdesse uma parte da sua dignidade, bastará seguir a escala descendente para compreender o nosso raciocínio, sala de música, sala do piano, sala do violoncelo, até aqui ainda seria aceitável, mas imagine-se aonde iríamos parar se começássemos a dizer sala do clarinete, sala do pífaro, sala do bombo, sala dos ferrinhos. As palavras também têm a sua hierarquia, o seu protocolo, os seus títulos de nobreza, os seus estigmas de plebeu." (p. 196)

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A MORTE CONHECE A VIZINHANÇA

"A morte desce a rua até onde os muros terminam e os primeiros prédios se levantam. A partir daí encontra-se em terreno conhecido, não há uma só casa destas e de todas quantas se estendem diante dos seus olhos até os limites da cidade e do país em que não tenha estado alguma vez, e até mesmo naquela obra em construção terá de entrar daqui a duas semanas para empurrar de um andaime um pedreiro distraído que não reparará onde vai pôr o pé." (p. 183)

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OS ENVELOPES DAS CARTAS DA MORTE NÃO LEVAM CUSPE NA COLA

"Escreveu, escreveu, passaram as horas e ela a escrever, e eram as cartas, e eram os sobrescritos, e era dobrá-las, e era fechá-los, perguntar-se-á como o conseguia se não tem língua nem de onde lhe venha a saliva, isso, meus caros senhores, foi nos felizes tempos do artesanato, quando ainda vivíamos nas cavernas de uma modernidade que mal começava a despontar, agora os sobrescritos são dos chamados autocolantes, retira-se-lhes a tirinha de papel, e já está, dos múltiplos empregos que a língua tinha, pode dizer-se que este passou à história." (p. 179)

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Amig@s leitores, seriam necessárias várias postagens para separar as frases e reflexões que me encantaram n'As intermitências da morte. Pode ser que eu registre mais algumas depois aqui no blog.

Fiz essa postagem ouvindo Bach, inclusive a Suíte nº 6, opus 1012, citada no romance de Saramago.

William


Bibliografia:

SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.


quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

13. As intermitências da morte - José Saramago



Refeição Cultural - Cem clássicos

"No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada..." (SARAMAGO, 2005, p. 11)


Terminei neste dia 30 de dezembro de 2020, um ano que poderíamos considerar o ano do protagonismo da morte devido à pandemia mundial de Covid-19, a leitura de mais uma obra de José Saramago, As intermitências da morte, publicado em 2005. Terminei aos prantos. Coração apertado. Que fábula! Que autor clássico! 

Como a definição de clássico é uma definição em aberto, eu defino Saramago como um clássico, o que não quer dizer que toda leitura que fizer dele será considerada leitura de um clássico. Não conto Todos os nomes (1997) como um clássico, mesmo tendo me deliciado com a leitura.

Estou cumprindo um desejo antigo de enumerar as leituras de clássicos que fiz na vida e que estou fazendo, já que estou vivo, mesmo com pandemia, com desgastes corporais e com o mal instalado nos poderes do país no qual nasci e vivo. Estou vivo e sigo lendo.

Quando me coloco a lembrar das leituras que já fiz, poucas são aquelas que me fizeram rir e chorar. Não me lembro de muitos momentos assim ao olhar para trás. 

Fernando Sabino me fez rir muito com O grande mentecapto (1979) e o seu Geraldo Viramundo. Jorge Amado com o personagem Quincas Berro d'Água (1959). Miguel de Cervantes com nosso cavaleiro da triste figura dom Quixote e também com o carismático Sancho Pança (1605/1615). Saramago, com A viagem do elefante (2008), o Ensaio sobre a cegueira (1995) e este com a morte como protagonista de uma estória.

Se a Parca permitir, talvez faça uma postagem específica sobre a leitura desta obra, com algumas frases e momentos interessantes. (ler as frases selecionadas aqui)

Fiz a leitura de As intermitências da morte pelas manhãs desta semana, entre os dias 25 e 30. Estou mantendo o celular desligado desde o fim da noite até o início da tarde, para me afastar um pouco da droga das redes sociais e das desgraças que nos assolam em tempos de regime fascista e pandemia.

Tem sido uma experiência útil. Ao desligar-me da matrix por algumas horas, meu cérebro se colocou a pensar, lembrar, cismar, refletir e buscar alguma coisa, quem sabe, saídas. 

As redes sociais e as máquinas dos donos do mundo destruíram a humanidade, mas a vida segue, já que ainda estamos no mundo. Temos que resgatar os humanos, mas ainda não achamos uma forma de fazer isso. Quem sabe lendo, estudando, pensando, possamos agir de forma mais eficiente no salvamento do mundo.

A leitura vale muito a pena. Rir, chorar e pensar muito sobre a vida e a morte, são essas as consequências básicas ao se experimentar a leitura desse clássico da literatura universal.

William


Bibliografia:

SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.


domingo, 27 de dezembro de 2020

271220 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Como se levantaria pela manhã o homem
Sem o deslembrar da noite que desfaz o rastro?
Como se ergueria pela sétima vez
Aquele derrubado seis vezes
Para lavrar o chão pedroso, voar
O céu perigoso?

A fraqueza da memória
Dá força ao homem.
"

("Elogio do esquecimento", Bertolt Brecht)


Domingo, último do fatídico ano da peste, das pestes. Ano de pandemia mundial de Covid-19. Segundo ano da desgraça do regime neofascista do clã miliciano no poder. Estamos em 2016, em 2018, em 2020 e seguiremos nesse mesmo período sem fim do pós golpe de Estado. 

Os políticos canalhas e venais do Congresso sentaram em cima de 54 pedidos de impeachment e o sujeito na presidência segue ampliando seu poder, ocupando todos os espaços locais de poder no país (como fizeram Salazar, Pinochet, Franco etc). Jornalistas progressistas estão morrendo como PHA, sendo perseguidos como Nassif, aniquilados financeiramente como vários e, em breve, talvez ninguém mais fale mal do regime.

Não há mudanças à vista, mudanças daquelas que as pessoas sonham com a passagem de data no calendário: desejos de paz, saúde, fraternidade, solidariedade, prosperidade, amizade, amor, felicidades. Que pena! Nada disso está no cenário dos dias que virão após o dia de passagem de ano para o Ano Novo.

Teremos que encontrar energias positivas em nosso ser para seguir adiante e superar os tempos duros que se avizinham. A miséria será maior para o povo brasileiro com o fim do auxílio emergencial de 600 reais (imposto ao Governo pelo Congresso em 2020, por pressão da esquerda) e sem retomada da economia, pelo menos é o que se desenha com a continuação da crise por causa da pandemia de Covid-19 sem vacinas e insumos para livrar o povo dessa peste. Aqui é Bolsonaro, o vírus é estratégico para o regime.

As mudanças terão que partir de nós mesmos, de cada um de nós. O que podemos fazer para mudarmos algo em nossas vidas pessoais e quiçá na vivência coletiva? Sem sermos vacinados, sem nos vermos livres da ameaça de morte a qualquer momento por Covid-19, sem retomarmos a liberdade de circulação, temos que pensar formas de sermos menos infelizes porque isso também está nos matando, todo dia um pouco, ou muito, mais que a morte normal da passagem do tempo. Que fazer?

Sei que não adianta fugir da realidade, se alienar, não me inteirando sobre as desgraças diárias sob o regime dos golpistas que dominam as pautas, os poderes instituídos, as ruas e os espaços públicos que ainda sobram. O poder está com eles. A grande imprensa é toda bolsonarista, mesmo enganando parte das pessoas que caem na lorota de achar que a mídia bate no governo. E a força de repressão e opressão também está com o regime. Vou me informar, mas não posso deixar que meu dia seja tomado e pautado por essas desgraças que nos matam aceleradamente.

Hoje é o segundo dia que não ligo o celular desde ontem de noite. As notícias são as mesmas, ad nauseam.

Os dois dias sem celular e redes sociais pelas horas da manhã foram dias em que li dois terços de um novo livro de Saramago, As intermitências da morte, que é fantástico! Demais! Já me fez pensar muito! E já dei boas risadas também com a estória da morte como personagem central. E hoje, ainda li um pouco de poemas de Bertolt Brecht, que estou conhecendo. E reli alguns textos meus, dos blogs. Agora vou me conectar um pouco, mas não vou ficar longo tempo nisso não. Alguns minutos de silêncio nesta manhã de domingo foram preciosos.

É isso. Acho que vou pedalar agora. Às vezes, esquecer um pouco as coisas, como nos ensina o poeta, pode nos dar força... e, às vezes, na escuridão pode estar o ponto de luz que nos ilumina, assim como na bonança também está o início das tragédias porque nada é para sempre. Tudo muda o tempo todo. 

William


domingo, 15 de novembro de 2020

9. Ensaio sobre a lucidez - José Saramago



Refeição Cultural - Cem clássicos

"(...) ainda ontem um alto funcionário do ministério do interior nos dizia que a censura bem entendida é como o sol, quando nasce é para todos..." (SARAMAGO, 2004, p. 44)


Li esse clássico de José Saramago, Ensaio sobre a lucidez, em 2008, logo após a releitura do outro ensaio, o Ensaio sobre a cegueira. Assim como o da cegueira, o da lucidez é um livro impressionante! Atemporal.

Estamos em 2020, ano pós pandemia de Covid-19. No caso brasileiro, quinto ano pós golpe de Estado em 2016, golpe que está na origem do fim do Brasil como o conhecíamos há tempos. 

Não há mais democracia desde então. Existem eleições faz de conta. Se os candidatos não forem do agrado da casa grande, elites e máfias locais, eles são impedidos de participar do escrutínio e ou interrompe-se o mandato do político eleito pelo voto popular com algum tipo de lawfare. Meia dúzia de humanos tira o mandato dado por milhares e milhões de pessoas.

Hoje é dia de "eleições" para os parlamentos locais e para prefeitos das cidades. Tudo faz de conta. O voto no Brasil é obrigatório. Os cidadãos que não votarem têm que justificar os motivos. Mas se votarem e seus candidatos forem aqueles que citei, como os de esquerda, seus votos não valem nada, porque os donos do poder cassam eles.

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"(...) ficaríamos a saber se este corte de energia cívica é geral, ou se somos os únicos a quem os eleitores não vieram iluminar com os seus votos." (p. 13)

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Que dilema, não? Se não vota, você está cometendo algum ato contrário às regras do seu país. Se vota, seu voto não vale nada e é alterado pelos donos do poder. Que merda!

O Ensaio sobre a lucidez (escrito em 2004) traz no enredo a questão do voto, da política, da democracia. 

Num determinado dia, dia de eleições locais, os cidadãos simplesmente decidem votar em branco, sem combinarem isso. Entre a primeira e segunda votação, os votos brancos chegam a 83% do total de votos. Instala-se a partir daí o estado de exceção e o autoritarismo do Estado para tentar encontrar o motivo de tal fato.

Eu tive o privilégio de ler os Ensaios de Saramago. Acho uma pena que quase todos vocês não tenham lido, ou por falta de oportunidade, algo plenamente justificável porque lemos muito pouco daquilo que gostaríamos por causa da venda de nossos corpos para sobrevivermos num mundo capitalista; ou não leram por não gostarem de ler, por opção mesmo, o que é lamentável.

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"(...) Não somos robôs nem pedras falantes, senhor agente, disse a mulher, em toda a verdade humana há sempre algo de angustioso, de aflito, nós somos, e não estou a referir-me simplesmente à fragilidade da vida, somos uma pequena e trémula chama que a cada instante ameaça apagar-se, e temos medo, acima de tudo temos medo..." (p. 56)

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Pois é. Votar ou não votar nesse processo faz de conta? A personagem fala em medo. Algum tipo de medo todo mundo tem, senão seria loucura. Tenho medo que a situação desgraçada do Brasil demore muito a mudar, de maneira que nunca mais se recupere alguns direitos para o povo e a soberania do país.

Enfim, me parece que devo ir até lá na seção eleitoral e depositar meu voto nos candidatos do Partido dos Trabalhadores, partido que representa a minha classe social. 

É quase zero o valor do meu voto, sei disso. E não vejo ao meu redor movimento algum que insinue qualquer mudança a partir da consciência das pessoas da minha classe social.

William


Bibliografia:

SAMARAGO, José. Ensaio sobre a lucidez. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.


terça-feira, 13 de outubro de 2020

3. Ensaio sobre a cegueira - José Saramago



"Porque os livros do mundo, todos juntos, são como dizem que é o universo, infinitos." (SARAMAGO, 2002, p. 290)


Refeição Cultural - Cem clássicos

José Saramago publicou o Ensaio sobre a cegueira em 1995. Naquele ano, eu e meus colegas de trabalho no Banco do Brasil vivíamos o terror por causa do plano de reestruturação do maior banco público do país, feita pelo governo lesa-pátria do rei dos sociólogos e a tucanagem. Dezenas de milhares de pais e mães de família perderam o emprego, ocorreram dezenas de suicídios, e tentou-se privatizar o banco.

A história da humanidade é feita de incontáveis acontecimentos em todos os lugares ao mesmo tempo e o tempo todo, como agora, quando escrevo. Neste instante, poderia quase caracterizar a realidade como uma ficção distópica, como o Ensaio de Saramago. O Brasil queima, seca, mata milhares de pessoas por dia por vírus, por violência, por fome, por miséria, por desilusão no viver. 

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"Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem." (SARAMAGO, 2002, p. 310)

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Li o Ensaio pela primeira vez em 2003. Não tenho tanta lembrança dessa leitura quanto tenho da segunda vez que o li. Foi em 2008. Eu havia mudado muito como pessoa. Havia me politizado muito ao ser dirigente da classe trabalhadora. Na segunda vez que li, o Ensaio me pegou em cheio. Só de escrever ao lembrar, eu me arrepio.

A obra havia sido adaptada para o cinema, com direção de Fernando Meirelles (aliás, o filme é muito bom!). Então, decidi reler o livro antes de ir ao cinema. Eu me lembro de estar lendo ele no trem ou no ônibus e ficar sem jeito pelo tanto que a leitura me impactava, os olhos enchiam de água, eu sentia raiva da cena que lia, nojo, revolta, dó. Foi difícil! Acho que é uma das leituras mais duras que já fiz.

Tenho muitas obras de José Saramago para ler ainda. Certa vez, disse que os livros dele são do tipo "e se acontecesse tal coisa?". São ficções distópicas, são ensaios de possibilidades do tipo: e se todo mundo ficasse cego? E se todo mundo decidisse não votar em ninguém? E se tal país se soltasse e fosse embora do continente? Ou seja, o escritor português é demais! Nos põe a pensar.

Eu estou refletindo sobre os meus clássicos. Saramago é um clássico! Após a leitura deste clássico, o Ensaio sobre a cegueira, eu pude ler outros livros dele e cada um foi mais fantástico que o outro. Vou contar mais algumas aventuras saramaicas nesta lista que estou fazendo.

Deixo aqui o link da postagem que fiz com frases selecionas do Ensaio, elas servem para a vida toda.

William


Bibliografia:

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.


sexta-feira, 27 de março de 2020

Eleições Cassi em tempos de pandemia




Opinião

"Creio que não seria má ideia telefonar ao ministério a pedir informações sobre como está a decorrer o acto eleitoral aqui e no resto do país, ficaríamos a saber se este corte de energia cívica é geral, ou se somos os únicos a quem os eleitores não vieram iluminar com os seus votos..." (SARAMAGO, Ensaio sobre a lucidez, 2004)


A literatura mundial tem muita matéria disponível para ilustrarmos o cenário que vivemos nesses tempos disruptivos ou quase distópicos. Os "Ensaios" de Saramago são obras que poderiam se encaixar como uma luva no caso brasileiro para explicar no que nos transformamos em tão pouco tempo com as consequências da Lava Jato, a negativa do PSDB em reconhecer o resultado das eleições presidenciais de 2014 e o golpe de Estado em 2016. Vejamos um diálogo de personagens de Saramago:

"- Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem." (SARAMAGO, Ensaio sobre a cegueira, 1995)

Uma década antes da visão dantesca de destruição total do país sob a égide de Temer e do clã Bolsonaro e apoiadores babando ódio de tudo e todos, nosso país caminhava para ser a quinta economia do mundo, nossas empresas cresciam e vendiam serviços no mundo todo e o crescimento interno ia muito bem; o país era respeitado pela diplomacia mundial; havia oportunidades para todos e as pessoas eram felizes independente de suas posições pessoais de mundo; o desemprego era baixo e havia ascensão nos direitos em geral; havia liberdade e democracia e melhor distribuição da riqueza produzida no país. Pois é, essa era a realidade há poucos anos.

Mas não vou falar do Brasil agora. Quero falar é sobre o processo eleitoral da nossa querida Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, a Cassi, a mais antiga autogestão do país e que até pouco tempo era e poderia continuar sendo a maior autogestão em saúde dos trabalhadores do Brasil. Uma associação que era inclusiva e solidária em seu modelo de custeio mutualista intergeracional, no qual todo associado principal, a matrícula funcional, pagava a mesma porcentagem de seus rendimentos para participar do sistema de saúde com os mesmos direitos de acesso.

Hoje se encerram as eleições para parte da direção da entidade. É a primeira eleição regida pelas regras do novo estatuto social, que foi levado à consulta do corpo social faz poucos meses. Aliás, o resultado da consulta ao corpo social que gerou o novo estatuto está sendo questionado na justiça por divergências de entendimento por parte de segmentos de associados.

Antes do processo eleitoral, o país já vivia o cenário de destruição política, econômica e social que todos sabemos. A própria autogestão também vinha de processos desgastantes de embates entre capital e trabalho - patrocinador e associados -, desgastes oriundos de divergências normais entre os grupos políticos da comunidade BB por causa dos recorrentes desequilíbrios econômico-financeiros da operadora, e não vamos entrar aqui no mérito dos motivos diversos dos déficits dos planos de saúde da autogestão.

Ao olhar o painel de votação no site da Cassi do dia de ontem, 26 de março, uma certeza podemos ter ao analisarmos os números até às 17h: é uma das piores participações sociais em processos eleitorais na história recente da Cassi.

Será que isso é consequência da falta de "energia cívica" como diz a personagem de um dos "Ensaios" de Saramago?

A Cassi tem desafios difíceis pela frente. Os associados e futuros não associados - mas que seguirão sendo da comunidade BB e que deveriam estar associados à Cassi - têm desafios maiores ainda, caso queiram resgatar seus direitos na Caixa de Assistência. E uma das formas de organizar boas lutas por direitos é termos democracia na associação, termos boa participação social (pertencimento) e, consequentemente, boa representatividade dos dirigentes eleitos (estarem empoderados politicamente).

O processo eleitoral da Cassi deveria ter sido interrompido, suspenso, refeito, ou coisa do gênero, assim que o fator externo "pandemia do coronavírus - Covid-19" começou a alterar a normalidade do cotidiano do povo brasileiro, fato que coincidiu com o início da votação a partir da semana passada, dia 16 de março. Algumas decisões precisam de sensibilidade dos líderes dos processos e nem tudo deve estar alheio aos fatores que afetam a vida dos seres humanos, como se na sociedade humana tudo fosse "uma questão técnica".

Que representatividade terão os vencedores dessa corrida eleitoral na Cassi com os baixíssimos índices de participação de bases sociais importantíssimas da Caixa de Assistência? Estou usando os superlativos de propósito. A pandemia é superlativa e os 90 mil bancários estão com a cabeça em muitas coisas, como suas saúdes, a de suas famílias, seus medos e ansiedades pela exposição ao vírus etc, menos nas eleições da Cassi. O mesmo se dá com os aposentados: muitos estão sozinhos em quarentena, sem o carinho e companhia dos filhos e netos, ansiosos e com medo. Mil coisas passam por suas cabeças, menos a eleição da Cassi.

Até ontem, a participação dos associados do Rio de Janeiro para a eleição da diretoria e conselho deliberativo era de 30,13%, menos de 1/3 do eleitorado. Pior ainda para a eleição do conselho fiscal, 26,4%. Outros colégios eleitorais gigantes como SP, MG, DF e BA tinham índices de participação entre 33% e 40%. É muito baixo! Sem contar que não sabemos quantos eleitores decidiram votar "branco" ou "nulo", como ocorreu no "Ensaio sobre a lucidez" de Saramago.

Dos 166 mil associados com direito a voto, somente 64 mil votaram até ontem para diretoria e CD, cerca de 38%. Que representatividade política terão os eleitos para falar de igual para igual com o patrocinador nestes tempos difíceis que a Cassi enfrentará para sobreviver em um sistema de saúde brasileiro fragilizado por crise nunca vivida no setor? E pergunto isso, independente de vencer a chapa a, b, c, d, e, f. Quando fomos eleitos em 2014, só a nossa chapa obteve 31,5 mil votos (de 84 mil votos válidos). Em 2016, a chapa vencedora obteve 30,5 mil e em 2018 a chapa vencedora obteve 36,9 mil votos num processo com quase 100 mil votos válidos.

Enfim, acho lamentável a decisão tomada pela Cassi em manter o processo eleitoral em meio ao cenário externo que paralisou o país nas últimas duas semanas (e o mundo nos últimos meses). Entendo que seria mais adequado e mais oportuno que o processo se realizasse em outro momento. Seria melhor para todos, todos os envolvidos na gestão e na utilização de nossa Caixa de Assistência. Precisaremos de muita informação correta e unidade para que a Cassi supere o cenário dramático que virá do setor de saúde brasileiro.

William Mendes
Associado Cassi e Previ


Bibliografia:

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
SARAMAGO, José. Ensaio sobre a lucidez. São Paulo, Companhia das Letras, 2004.

Site da Cassi, hotsite eleições 2020.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Diário e reflexões - 150617 (Leituras no entre guerras)



(atualizado à 1h27, de 16/6/17)


Um representante de trabalhadores.

Refeição Cultural

Dia de feriado nacional, Corpus Christi. No meu caso, foi um dia para um respiro.

Para abstrair do meu trabalho-militância na representação dos trabalhadores em uma autogestão em saúde (Cassi), busco fazer o que mais amo na vida: ler e buscar novos conhecimentos.

Estou quase terminando a leitura do grosso volume de Hemingway, Por quem os sinos dobram (1940). Faltam umas setenta páginas. Não quis terminar a leitura nas duas ou três oportunidades que tive nos últimos dias.

Hoje, por exemplo, encarei estudos sobre a Guerra Civil Espanhola em excelente livro de Paul Preston, livro que comprei em Madri, em 2009. Avancei alguns capítulos do livro.

I - Una sociedad dividida: España antes de 1930
II - El desafío de la izquierda, 1931-1933
III - Enfrentamiento y conspiración: 1934-1936

Eu fico analisando o cenário brasileiro, desde a eleição presidencial de 2010, quando o PT ganhou sua terceira eleição seguida, com o Presidente Lula fazendo sua sucessora e o grau de acirramento das elites tupiniquins de lá adiante. Acho o cenário muito semelhante com a Espanha dos anos 20 e 30.



Cenário de ódio e intolerância
pré Guerra é parecido ao brasileiro.

Na minha leitura política, o fim do pacto social entre o PT e a burguesia vira-latas brasileira, iniciado com a carta ao povo brasileiro (2002), terminou quando a Presidenta Dilma Rousseff decidiu mexer em um (unzinho) dos gargalos estruturais e econômicos do País - a maior taxa de juros e spread do mundo (a bolsa-rentistas). Dilma fez isso porque o mundo, liderado pela China, tinha diminuído o consumo de commodities e o Brasil teve que pensar em outras formas de manter a economia interna viva.

Enfim, não é sobre isso que estou escrevendo.

Estava falando da comparação de cenários entre a Espanha pré Guerra Civil e o Brasil pré Golpe de Estado em 2016 e as incertezas do amanhã por aqui. A diferença daquela Espanha é que a esquerda e a direita revezaram o poder democrático em 1931/33/36, ganhando cada segmento uma eleição nacional, e isso acirrou deveras o cenário de ódio e vingança para o estopim da guerra.

No Brasil, o PT ganhou as eleições em 2002, depois em 2006, ambas com Lula, e foi implantando mudanças sociais de forma lenta, mas sem rupturas, e com resultados expressivos no campo das conquistas sociais para o povo situado na base da pirâmide social. Ganhou depois a eleição presidencial em 2010, com Dilma (a terceira eleição) e o cenário econômico mundial havia piorado muito, exigindo mais dos governos do PT. Ao ganhar pela 4ª vez seguida, em 2014, foi avisado pela Casa Grande e seus representantes que o governo e suas políticas sociais não continuariam. Dito e feito.

Mais um detalhe: tinha um tal de Pré-sal que prometia, assim como ocorreu na Noruega, uma determinada soberania nacional no setor e um salto nas décadas seguintes nas áreas da Educação e Saúde... As sete irmãs e o Tio Sam não quiseram mais brincar de amiguinhos neutros com o Brasil.

Na Espanha, o cenário de ódio e revanche entre os segmentos sociais antagônicos - republicanos, socialistas, anarquistas e povo trabalhador de um lado, e monarquistas, igreja católica e latifundiários de outro - ocorreu após a vitória da esquerda nas eleições de 1931 e 1936. Com os militares se posicionando do lado das elites seculares, a guerra se instalou.

Enfim, para onde vamos no Brasil? Eu escrevi tanto em minhas horas de folga em 2016 e fiquei meio esgotado de fazer análises e reflexões sobre nossa vida e momento político. Mas sofro com tudo o que vem ocorrendo em nosso querido Brasil e ao povo brasileiro que amo e represento como eleito em um espaço de representação de trabalhadores.


ENQUANTO O BRASIL SEGUE EM CRISE E SENDO DESTRUÍDO PELOS GOLPISTAS, SEGUIMOS LENDO


Presente do dia dos namorados. Demais!!!

Para terminar minha reflexão, compartilho que ganhei um presente maravilhoso de minha companheira: livros, livros, livros. Ganhei 9 livros do fantástico escritor José Saramago. Obrigado Noni pelo presente! 

O duro é encontrar em minha vida o tempo necessário para ler tudo o que desejo. Já entrei na segunda metade de minha existência, que pode durar um minuto como alguns invernos. É por isso que às vezes leio até em pé para não cochilar pelo cansaço acumulado... (não tenho tempo a perder)

É isso! Dei uma pedalada deliciosa hoje no Eixão aqui em Brasília. Que tarde gostosa!

William