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terça-feira, 16 de junho de 2026

Livro: Uma abelha na chuva - Carlos de Oliveira


Carlos de Oliveira
(10/08/21-01/07/81)


Refeição Cultural

LITERATURA PORTUGUESA 


Relendo um artigo meu dias atrás, vi nele uma citação a um livro de literatura portuguesa de meados do século passado, de Carlos de Oliveira, livro do qual não me lembrava do enredo. As obras literárias são assim, umas nos deixam marcas e lembranças, outras não. Não há um livro de Samarago, por exemplo, do qual tenha me esquecido do enredo. Talvez pelo estilo ou tema tratado pelo autor, vai saber.

Só por curiosidade, procurei e encontrei Uma abelha na chuva, de 1953, em meus guardados da faculdade de Letras e comecei a ler a história de Álvaro Silvestre e D. Maria dos Prazeres, casal principal de protagonistas do enredo do romance de Carlos de Oliveira. 

Li rapidamente a metade do romance numa só sentada e posso afirmar que ele é bem escrito, a história tem questões sociais interessantes apresentadas aos leitores da época, e de hoje também, se considerar o pano de fundo da trama: a vida num vilarejo de Portugal, país dominado pela igreja católica, por uma nobreza falida e pelo ditador António Salazar, país ainda em luta por manter colônias africanas, e em franca decadência econômica. Esse era o cenário no qual foi publicado o livro.

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RELIGIÃO E PODER 

Uma das questões que me levaram a reflexões ao reler este romance é a forma como a religião e seus doutrinadores interferem e definem a vida coletiva numa comunidade humana qualquer. 

Apesar do tema central do romance ser a decadência de Portugal, a religião está ali impregnada em tudo que é decadente, as relações, as instituições, as pessoas... em tudo. E isso é de uma atualidade incrível! 

A religião neste momento da história humana, terceira década do século XXI, é uma das principais ferramentas de manipulação de massas pela extrema-direita e pelos homens do poder mundial, que contam com exércitos e máquinas que definem o comportamento de milhões de vítimas dos algoritmos das big techs, tecnologias inexistentes no passado.

Quando lemos literatura e história e acessamos cotidianos existentes em diferentes lugares e épocas podemos perceber o poder imenso de sentimentos como ódio, medo e fé, principalmente quando são utilizados por canalhas manipuladores em posição de poder.

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UMA ABELHA NA CHUVA 

O casal Álvaro Silvestre e D. Maria dos Prazeres vive numa região rural. O casamento deles é um arranjo entre um filho de comerciante bem-sucedido com uma filha da fidalguia falida. Silvestre é um banana e D. Maria uma frustrada com o marido que seu pai lhe arranjou. 

Outros personagens completam o enredo que demonstra a decadência de uma sociedade. O padre, Abel, é um agregado da casa do casal: vê pecados o dia todo e não diz nada. As más línguas dizem que "sua irmã", D. Violante, seria uma amante. Silvestre, "um homem gordo, baixo, de passo molengão", tem um irmão na África, um aventureiro mulherengo. A propriedade rural tem um cocheiro, Jacinto, o "ruivo", e outros empregados, como o mestre António, que perdeu a visão, e sua filha Clara.

Terminada a releitura, considero o romance muito bom. A história tem humor, tem momentos de tensão e final imprevisível. O autor português utiliza as técnicas modernas do romance, alterna momentos em primeira e terceira pessoa, utiliza fluxo de pensamento, acelera e desacelera o tempo da narrativa com sumários etc.

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DITOS POPULARES E ADÁGIOS 

Gostei dos ditos populares e dos adágios de D. Violante. Minha avó Deolinda era especialista em frases prontas para qualquer tema conversado.

Vejam esses ditos e adágios constantes do capítulo VIII:

"- Quando Deus queria do norte chovia"

"- (...) se as orações dos cães chegassem ao céu choviam ossos"

"- (...) Noiva serôdia, nem miolo nem côdea"

"- (...) boda e mortalha no céu se talha"

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COMENTÁRIO FINAL 

"- Nem rei nem papa à morte escapa" (ainda D. Violante)


A cultura nos leva ao conhecimento, ao autoconhecimento e à transformação. Leitura é uma das formas de acesso à cultura. A leitura de livros é fundamental para o desenvolvimento do cérebro, pois ler textos longos nos exercita a concentração e a reflexão. 

Enquanto li A abelha na chuva, refleti sobre várias coisas do mundo atual, mesmo tendo o livro sido publicado há mais de setenta anos. Os temas abordados no enredo estão aí, ao nosso redor, pautando nossa agenda de vida. Religião, política, relações humanas, propriedade e bens materiais, condição das mulheres, das classes exploradas etc.

É sempre bom ler um livro, amigas e amigos leitores do blog. 

Sigamos lendo. Se nem rei, nem papa, à morte escapa, quem dirá eu, um simples ex-bancário que deu a sorte de chegar até aqui sobrevivendo à juventude, ao ódio e às situações que a vida nos apresenta cotidianamente. Ainda estou por aqui, então sigamos lendo.

William 

16/06/26

domingo, 19 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (49) - Marília de Dirceu, Lira XIII, Parte 2, Tomás Antônio Gonzaga



MARÍLIA DE DIRCEU, LIRA XIII, PARTE 2 - TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA


     Vês, Marília, um cordeiro

     De flores enramado,

     Como alegre caminha

     A ser sacrificado?

O Povo para Templo já concorre;

A Pira sacrossanta já se acende;

O Ministro o fere: ele bala e morre.


     Vês agora o novilho, 

     A quem segura o laço?

     No chão as mãos especa,

     Nem quer mover um passo.

Não conhece que sai de um mau terreno,

Que o forte pulso, que a seguir o arrasta, 

O conduz a viver num campo ameno.


     Ignora o bruto como

     Lhe dispomos a sorte:

     Um vai forçado à vida,

     Vai outro alegre à morte.

Nós temos, minha bela, igual demência:

Não sabemos os fins com que nos move

A Sábia, oculta Mão da Providência. 


     De Jacó ao bom filho

     Os maus matar quiseram;

     De conselho mudaram:

     Como escravo o venderam.

José não corre a ser um servo aflito:

Vai subindo os degraus, por onde chega

A ser um quase Rei no grande Egito.


     Quem sabe se o Destino

     Hoje, ó bela, me prende. 

     Só porque nisto de outros

     Mais danos me defende?

Pode ainda raiar um claro dia;

Mas quer raie, quer não, ao Céu adoro

E beijo a santa mão que assim me guia.


Publicado em Lisboa, Portugal, em 1792.

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COMENTÁRIO:

Segui na leitura do clássico Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga. 

Após a leitura da parte 1, com 33 liras, agora estou na leitura da parte 2, com 38 liras. Parei na Lira XV.

Ao mesmo tempo em que não sou determinista, não acredito em mitos e explicações místicas da vida, reconheço o mérito da história humana em buscar sentidos à vida nessas construções mitológicas do mundo.

Essa lira é muito interessante! Eu diria até condizente aos dias atuais. 

O eu-lírico, entre lamentos e declarações de amor ao longo das liras, faz nessa uma interpretação favorável da Sorte (Fortuna, Destino, Deus etc), que poderia estar favorecendo ele enquanto está preso.

É uma senhora leitura de auto-ajuda!

    "Ignora o bruto como

     Lhe dispomos a sorte:

     Um vai forçado à vida,

     Vai outro alegre à morte."

E os versos acima poderiam ilustrar perfeitamente a dominação e manipulação dos "deuses" das big techs e redes sociais, e também dos "pastores" (não os da arcádia, e sim os sofistas modernos) em relação ao destino de milhões de cordeiros e novilhos (gado) dos dias atuais...

É isso. Seguimos lendo poesia e diminuindo um grãozinho de ignorância por dia.

William 

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

José Saramago - Centenário do grande escritor



Refeição Cultural - #Saramago100

Mundo, 16 de novembro de 2022. Há cem anos nascia José Saramago...


Saramago vive em cada personagem que criou, vive em cada discurso ou reflexão que nos legou, vive em cada um de nós que tivemos o privilégio de ler parte de sua obra, de ouvir suas palavras e pensamentos. Viva José Saramago!


ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

A primeira obra que li de José Saramago foi Ensaio sobre a cegueira (1995). Li o romance em 2003 e depois o reli em 2008, antes de ver o filme de Fernando Meirelles baseado na obra. O Ensaio é algo único na literatura mundial. Imagino as pessoas vendo a nossa cara de leitor durante a leitura das partes mais dramáticas do Ensaio... 

Eu me lembro de um dia no qual lia o Ensaio no trem de volta para casa e estava tão incomodado com a cena da violência contra uma personagem que eu ficava olhando ao redor como se todo mundo soubesse a cena absurda que estava lendo no livro.

Este romance me fez chorar, me fez sentir raiva, me fez pensar muito sobre o que somos. Para ler um comentário sobre a leitura é só clicar aqui.

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ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ

Logo após a releitura do primeiro Ensaio, ainda em 2008, mergulhei no Ensaio sobre a lucidez (2004). Agora era o "corte de energia cívica" com o voto em branco de quase todo mundo criando um cenário distópico para nos colocar a pensar sobre a nossa realidade. Que viagem!

Pouco mais de uma década depois do lançamento desse romance de Saramago, o principal país do capitalismo imperialista, considerado "civilizado" e referência como uma das maiores democracias do mundo, sofre um "corte de energia cívica" e elege Donald Trump presidente... incrível, né! E um pouquinho depois, outro país com mais de 100 milhões de eleitores elege um palhaço miliciano presidente do país... Que dizer?

Leiam o romance de Saramago e vejam se não encontramos ali provocações e reflexões que nos colocam a pensar sobre as chamadas democracias liberais e seus cidadãos...

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TODOS OS NOMES

"Aliás, se persistíssemos em afirmar que as nossas decisões somos nós que as tomamos, então teríamos de principiar por dilucidar, por discernir, por distinguir, quem é, em nós, aquele que tomou a decisão e aquele que depois a irá cumprir, operações impossíveis, onde as houver. Em rigor, não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós."

O terceiro livro de Saramago que li foi Todos os nomes, de 1997. Que livro fantástico! Olhando minha edição, toda rabiscada, relembro que foi um dos livros do escritor no qual mais destaquei conceitos e reflexões do personagem, o Sr. José, que trabalha na Conservatória Geral do Registo Civil.

Vejam essa reflexão que citei acima sobre as decisões humanas... sou eu falando. Concluí de minha vida que nunca fui o condutor de nada e sim o conduzido, pela vida, pela casualidade, pelo destino (rsrs), pelos outros, pelas circunstâncias, pelos acidentes de percurso, enfim, na minha vida "são as decisões que nos tomam a nós".

Este livro de Saramago também me fez chorar e rir diversas vezes. Era ler um pouco e sair pensando na vida. Demais! Para ler um comentário sobre a leitura é só clicar aqui.

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A JANGADA DE PEDRA

Que romance espetacular! A jangada de pedra, de 1986, é mais um livro distópico do grande escritor José Saramago. Depois de ler os dois Ensaios e Todos os nomes, me apaixonei completamente pela leitura de Saramago com este romance. Li esta obra no ano em que morreu nosso querido escritor, em 2010.

Assim como os livros anteriores, esse tem muita reflexão sobre a vida e sobre o sentido das coisas. O romance explora bastante a questão filosófica sobre haver ou não causalidade naquilo que chamamos de coincidências em fatos e eventos no dia a dia das civilizações humanas.

Na estória, após uma sucessão de eventos a partir de um risco no chão feito por Joana Carda, pouco a pouco o fenômeno vai se tornando realidade e a mãe Europa acaba por ver partir sua filha Península Ibérica rumo ao Ocidente. Que estória fantástica!

Foi meu 4º livro de Saramago, foi a 4ª leitura terminando fascinado por ele e por sua obra. Ler aqui comentário que fiz sobre esse romance.

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O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA

"(...) Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber, quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa..."

Para relembrar minha experiência com a leitura desse conto maravilhoso de Saramago, O conto da Ilha desconhecida, de 1997, manuseei minha edição belíssima e reli a postagem que fiz em 2015 (ler aqui), quando li a estória pela primeira vez.

Só de reler passagens do conto e minha postagem, minha voz embargou na garganta e os olhos encheram d'água... Que conto metafórico!

Minha postagem registrou um momento importante de minha própria viagem pela vida. A forma como eu estava numa ilha, embarcado numa aventura desconhecida, e a forma como O Conto da Ilha Desconhecida de Saramago veio parar na minha mão naquele dia... 

As imagens finais da estória são de arrepiar! O barco, o homem, a mulher, o barco-ilha e as ilhas que somos...

Demais! Viva Saramago!

Obrigado, Saramago!

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A VIAGEM DO ELEFANTE

"A Pilar, que não deixou que eu morresse" (José Saramago)

Li A viagem do elefante num mês de janeiro de 2016, estando de férias do trabalho.  Saramago diz que só pode contar essa narrativa porque Pilar, sua companheira, não o deixou morrer ao estar muito doente. O livro foi publicado em 2008. Ler aqui um comentário que fiz sobre as leituras daquele mês.

No romance, Saramago nos conta a história do elefante Salomão e seu tratador indiano Subhro (cornaca), que atravessam metade da Europa - Portugal, Espanha e Itália - para o elefante ser dado de presente a uma realeza da Áustria. O escritor nos diz que a história é real, o que ele fez na narrativa foi preencher as lacunas da história que não se sabia.

Como os demais livros de Saramago, não teve como não me emocionar muito com a história de Salomão, completada pelo nosso escritor português. Poucos autores conseguem com tanta eficácia nos colocar a pensar durante a leitura, através dos diálogos que os narradores fazem com os leitores de seus livros.

Para vocês terem uma ideia sobre as reflexões e sabedorias do livro, vejam essa a respeito da história de uma vaca perdida por doze dias com sua cria entre lobos... (ler aqui)

Viajei muito nesta viagem que empreendi junto a Salomão.

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AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE

"No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme..."


Para começar o comentário sobre a leitura dessa obra fantástica, emocionante e diferente de tudo que se costuma ler por aí, coloquei para ouvir a opus 1012 para violoncelo de Johann Sebastian Bach, e naturalmente o arrepio toma conta de todo o meu corpo enquanto escrevo...

José Saramago escreveu As intermitências da morte (2005) explorando a mais absurda das situações possíveis, bem ao estilo do autor que construiu boa parte de seus romances mais espetaculares a partir de uma estrutura ficcional assim: 

Imaginem vocês se de repente... as pessoas deixassem de ver e estivessem com uma cegueira branca... as pessoas decidissem votar todas em branco sem combinar nada... a Península Ibérica se soltasse da Europa e fosse embora... a morte fizesse uma greve e decidisse que ninguém mais morreria a partir de 1º de janeiro...

E a morte gosta de Bach... quem diria! (Eu também adoro Bach!)

Amig@s leitores, esse foi o derradeiro (até agora) romance que li de Saramago, leitura feita durante um período de muito trabalho por parte da morte, o primeiro ano da pandemia mundial de Covid-19... que barbaridade! Como trabalhou a dona morte! Eu sobrevivi por algum acaso do destino (ela não me escolheu ainda)

Não consigo falar desse livro sem chorar... Tá dito o mínimo sobre As intermitências da morte... 

Caso queiram ler a postagem que fiz quando li o livro, é só clicar aqui.


Viva José Saramago!

William Mendes


Bibliografia:

As referências e citações que fiz nesta postagem foram extraídas das edições das obras de José Saramago que compõem a foto que ilustra esse texto.


terça-feira, 25 de maio de 2021

José Saramago - O conto da ilha desconhecida



Refeição Cultural

"O homem do leme assistiu à debandada em silêncio, não fez nada para reter os que o abandonavam, ao menos tinham-no deixado com as árvores, os trigos e as flores, com as trepadeiras que se enrolavam nos mastros e pendiam da amurada como festões. Por causa do atropelo da saída haviam-se rompido e derramado os sacos de terra, de modo que a coberta era toda ela como um campo lavrado e semeado, só falta que venha um pouco mais de chuva para que seja um bom ano agrícola. Desde que a viagem à ilha desconhecida começou que não se vê o homem do leme comer, deve ser porque está a sonhar, apenas a sonhar, e se no sonho lhe apetecesse um pedaço de pão ou uma maçã, seria um puro invento, nada mais. As raízes das árvores já estão penetrando no cavername, não tarda que estas velas içadas deixem de ser precisas, bastará que o vento sopre nas copas e vá encaminhando a caravela ao seu destino. É uma floresta que se navega e balanceia sobre as ondas, uma floresta onde, sem saber-se como, começaram a cantar pássaros..." (SARAMAGO, 2015, p. 58)


Ao ler essa breve narrativa de José Saramago, fiquei com os olhos cheios d'água. Que imagem fantástica! Sair por aí pelos mares a navegar uma pequena floresta, como se fosse uma ilha flutuante, por esse mundão afora.

E quando olho para a realidade, estamos numa terra com um povo ignorante e miserável que apoia um regime do mal, com um genocídio em andamento e sem perspectivas de curto prazo para o fim do sofrimento psicológico por ter consciência de tudo ao redor.

Adoro Saramago. Seus textos nos colocam a pensar, nos fazem viajar. A estratégia de suas narrativas é desenvolvida, de maneira geral, a partir de uma ideia apresentada do tipo: "e se acontecesse tal coisa?" ou "e se tal coisa fosse assim?".

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"(...) quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa." (p. 40)

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Enfim, mais um livrinho lido nesses dias de pausas das leituras clássicas em andamento. Livrinho no sentido de livro pequeno, como os que peguei na estante de casa.

William


Bibliografia:

SARAMAGO, José. O conto da ilha desconhecida. Aquarelas Arthur Luiz Piza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 37ª reimpressão, 2015.


sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Livro: As intermitências da morte - Frases selecionadas



Refeição Cultural

Como era de se esperar, As intermitências da morte (2005), de José Saramago, superou minhas expectativas de leitor. Poucos escritores têm a capacidade que ele tem de nos surpreender com suas narrativas e estórias. Poucos escritores me fazem rir e chorar, poucos. Saramago é um deles.

As intermitências da morte é um livro que deve ser lido por nós, que deve ser discutido por nós, quer dizer, deveria, porque os tempos são outros, são tempos distópicos e as discussões filosóficas e os exercícios de pensamento já não encantam nem prendem a atenção de ninguém, talvez estejamos na última fase da hegemonia humana na Terra.

Agora é tempo de lacração, de cancelamento, de memes, de rapidez na mensagem com imagem, de desenhinhos que substituem qualquer pensamento e linguagem mais elaborados e complexos. Um emoji e pronto, tá dito o que o enunciador acha que disse e o recebedor que entenda o que o enunciador acha que foi dito.

Uma cena que me impactou:

A morte está à espreita, está presente no ambiente, e ela observa encantada o violoncelista executando a Suíte nº 6, opus 1012, em ré maior, de Johann Sebastian Bach...

Enfim, seguem algumas frases e momentos de reflexão n'As intermitências da morte.

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O QUE OS OLHOS NÃO VEEM...

"Deitado no chão, à espera de um sinal que não vinha, o cão olhava-o. Talvez a causa do abatimento do dono fosse a mulher que apareceu no parque, pensou, afinal não era certo aquele provérbio que dizia que o que os olhos não veem, não o sente o coração. Os provérbios estão constantemente a enganar-nos, concluiu o cão" (p. 206)

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ESPERANÇA

"E como as esperanças têm esse fado que cumprir, nascer umas das outras, por isso é que, apesar de tantas decepções, ainda não se acabaram no mundo" (p. 202)

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HIERARQUIA DAS PALAVRAS

"Acabou de comer e voltou à sala de música, ou do piano, as duas maneiras por que a temos designado até agora quando teria sido muito mais lógico chamar-lhe sala do violoncelo, uma vez que é este instrumento o ganha-pão do músico, em todo o caso há que reconhecer que não soaria bem, seria como se o lugar se degradasse, como se perdesse uma parte da sua dignidade, bastará seguir a escala descendente para compreender o nosso raciocínio, sala de música, sala do piano, sala do violoncelo, até aqui ainda seria aceitável, mas imagine-se aonde iríamos parar se começássemos a dizer sala do clarinete, sala do pífaro, sala do bombo, sala dos ferrinhos. As palavras também têm a sua hierarquia, o seu protocolo, os seus títulos de nobreza, os seus estigmas de plebeu." (p. 196)

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A MORTE CONHECE A VIZINHANÇA

"A morte desce a rua até onde os muros terminam e os primeiros prédios se levantam. A partir daí encontra-se em terreno conhecido, não há uma só casa destas e de todas quantas se estendem diante dos seus olhos até os limites da cidade e do país em que não tenha estado alguma vez, e até mesmo naquela obra em construção terá de entrar daqui a duas semanas para empurrar de um andaime um pedreiro distraído que não reparará onde vai pôr o pé." (p. 183)

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OS ENVELOPES DAS CARTAS DA MORTE NÃO LEVAM CUSPE NA COLA

"Escreveu, escreveu, passaram as horas e ela a escrever, e eram as cartas, e eram os sobrescritos, e era dobrá-las, e era fechá-los, perguntar-se-á como o conseguia se não tem língua nem de onde lhe venha a saliva, isso, meus caros senhores, foi nos felizes tempos do artesanato, quando ainda vivíamos nas cavernas de uma modernidade que mal começava a despontar, agora os sobrescritos são dos chamados autocolantes, retira-se-lhes a tirinha de papel, e já está, dos múltiplos empregos que a língua tinha, pode dizer-se que este passou à história." (p. 179)

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Amig@s leitores, seriam necessárias várias postagens para separar as frases e reflexões que me encantaram n'As intermitências da morte. Pode ser que eu registre mais algumas depois aqui no blog.

Fiz essa postagem ouvindo Bach, inclusive a Suíte nº 6, opus 1012, citada no romance de Saramago.

William


Bibliografia:

SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.


quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

13. As intermitências da morte - José Saramago



Refeição Cultural - Cem clássicos

"No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada..." (SARAMAGO, 2005, p. 11)


Terminei neste dia 30 de dezembro de 2020, um ano que poderíamos considerar o ano do protagonismo da morte devido à pandemia mundial de Covid-19, a leitura de mais uma obra de José Saramago, As intermitências da morte, publicado em 2005. Terminei aos prantos. Coração apertado. Que fábula! Que autor clássico! 

Como a definição de clássico é uma definição em aberto, eu defino Saramago como um clássico, o que não quer dizer que toda leitura que fizer dele será considerada leitura de um clássico. Não conto Todos os nomes (1997) como um clássico, mesmo tendo me deliciado com a leitura.

Estou cumprindo um desejo antigo de enumerar as leituras de clássicos que fiz na vida e que estou fazendo, já que estou vivo, mesmo com pandemia, com desgastes corporais e com o mal instalado nos poderes do país no qual nasci e vivo. Estou vivo e sigo lendo.

Quando me coloco a lembrar das leituras que já fiz, poucas são aquelas que me fizeram rir e chorar. Não me lembro de muitos momentos assim ao olhar para trás. 

Fernando Sabino me fez rir muito com O grande mentecapto (1979) e o seu Geraldo Viramundo. Jorge Amado com o personagem Quincas Berro d'Água (1959). Miguel de Cervantes com nosso cavaleiro da triste figura dom Quixote e também com o carismático Sancho Pança (1605/1615). Saramago, com A viagem do elefante (2008), o Ensaio sobre a cegueira (1995) e este com a morte como protagonista de uma estória.

Se a Parca permitir, talvez faça uma postagem específica sobre a leitura desta obra, com algumas frases e momentos interessantes. (ler as frases selecionadas aqui)

Fiz a leitura de As intermitências da morte pelas manhãs desta semana, entre os dias 25 e 30. Estou mantendo o celular desligado desde o fim da noite até o início da tarde, para me afastar um pouco da droga das redes sociais e das desgraças que nos assolam em tempos de regime fascista e pandemia.

Tem sido uma experiência útil. Ao desligar-me da matrix por algumas horas, meu cérebro se colocou a pensar, lembrar, cismar, refletir e buscar alguma coisa, quem sabe, saídas. 

As redes sociais e as máquinas dos donos do mundo destruíram a humanidade, mas a vida segue, já que ainda estamos no mundo. Temos que resgatar os humanos, mas ainda não achamos uma forma de fazer isso. Quem sabe lendo, estudando, pensando, possamos agir de forma mais eficiente no salvamento do mundo.

A leitura vale muito a pena. Rir, chorar e pensar muito sobre a vida e a morte, são essas as consequências básicas ao se experimentar a leitura desse clássico da literatura universal.

William


Bibliografia:

SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.


domingo, 15 de novembro de 2020

9. Ensaio sobre a lucidez - José Saramago



Refeição Cultural - Cem clássicos

"(...) ainda ontem um alto funcionário do ministério do interior nos dizia que a censura bem entendida é como o sol, quando nasce é para todos..." (SARAMAGO, 2004, p. 44)


Li esse clássico de José Saramago, Ensaio sobre a lucidez, em 2008, logo após a releitura do outro ensaio, o Ensaio sobre a cegueira. Assim como o da cegueira, o da lucidez é um livro impressionante! Atemporal.

Estamos em 2020, ano pós pandemia de Covid-19. No caso brasileiro, quinto ano pós golpe de Estado em 2016, golpe que está na origem do fim do Brasil como o conhecíamos há tempos. 

Não há mais democracia desde então. Existem eleições faz de conta. Se os candidatos não forem do agrado da casa grande, elites e máfias locais, eles são impedidos de participar do escrutínio e ou interrompe-se o mandato do político eleito pelo voto popular com algum tipo de lawfare. Meia dúzia de humanos tira o mandato dado por milhares e milhões de pessoas.

Hoje é dia de "eleições" para os parlamentos locais e para prefeitos das cidades. Tudo faz de conta. O voto no Brasil é obrigatório. Os cidadãos que não votarem têm que justificar os motivos. Mas se votarem e seus candidatos forem aqueles que citei, como os de esquerda, seus votos não valem nada, porque os donos do poder cassam eles.

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"(...) ficaríamos a saber se este corte de energia cívica é geral, ou se somos os únicos a quem os eleitores não vieram iluminar com os seus votos." (p. 13)

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Que dilema, não? Se não vota, você está cometendo algum ato contrário às regras do seu país. Se vota, seu voto não vale nada e é alterado pelos donos do poder. Que merda!

O Ensaio sobre a lucidez (escrito em 2004) traz no enredo a questão do voto, da política, da democracia. 

Num determinado dia, dia de eleições locais, os cidadãos simplesmente decidem votar em branco, sem combinarem isso. Entre a primeira e segunda votação, os votos brancos chegam a 83% do total de votos. Instala-se a partir daí o estado de exceção e o autoritarismo do Estado para tentar encontrar o motivo de tal fato.

Eu tive o privilégio de ler os Ensaios de Saramago. Acho uma pena que quase todos vocês não tenham lido, ou por falta de oportunidade, algo plenamente justificável porque lemos muito pouco daquilo que gostaríamos por causa da venda de nossos corpos para sobrevivermos num mundo capitalista; ou não leram por não gostarem de ler, por opção mesmo, o que é lamentável.

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"(...) Não somos robôs nem pedras falantes, senhor agente, disse a mulher, em toda a verdade humana há sempre algo de angustioso, de aflito, nós somos, e não estou a referir-me simplesmente à fragilidade da vida, somos uma pequena e trémula chama que a cada instante ameaça apagar-se, e temos medo, acima de tudo temos medo..." (p. 56)

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Pois é. Votar ou não votar nesse processo faz de conta? A personagem fala em medo. Algum tipo de medo todo mundo tem, senão seria loucura. Tenho medo que a situação desgraçada do Brasil demore muito a mudar, de maneira que nunca mais se recupere alguns direitos para o povo e a soberania do país.

Enfim, me parece que devo ir até lá na seção eleitoral e depositar meu voto nos candidatos do Partido dos Trabalhadores, partido que representa a minha classe social. 

É quase zero o valor do meu voto, sei disso. E não vejo ao meu redor movimento algum que insinue qualquer mudança a partir da consciência das pessoas da minha classe social.

William


Bibliografia:

SAMARAGO, José. Ensaio sobre a lucidez. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.


terça-feira, 13 de outubro de 2020

3. Ensaio sobre a cegueira - José Saramago



"Porque os livros do mundo, todos juntos, são como dizem que é o universo, infinitos." (SARAMAGO, 2002, p. 290)


Refeição Cultural - Cem clássicos

José Saramago publicou o Ensaio sobre a cegueira em 1995. Naquele ano, eu e meus colegas de trabalho no Banco do Brasil vivíamos o terror por causa do plano de reestruturação do maior banco público do país, feita pelo governo lesa-pátria do rei dos sociólogos e a tucanagem. Dezenas de milhares de pais e mães de família perderam o emprego, ocorreram dezenas de suicídios, e tentou-se privatizar o banco.

A história da humanidade é feita de incontáveis acontecimentos em todos os lugares ao mesmo tempo e o tempo todo, como agora, quando escrevo. Neste instante, poderia quase caracterizar a realidade como uma ficção distópica, como o Ensaio de Saramago. O Brasil queima, seca, mata milhares de pessoas por dia por vírus, por violência, por fome, por miséria, por desilusão no viver. 

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"Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem." (SARAMAGO, 2002, p. 310)

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Li o Ensaio pela primeira vez em 2003. Não tenho tanta lembrança dessa leitura quanto tenho da segunda vez que o li. Foi em 2008. Eu havia mudado muito como pessoa. Havia me politizado muito ao ser dirigente da classe trabalhadora. Na segunda vez que li, o Ensaio me pegou em cheio. Só de escrever ao lembrar, eu me arrepio.

A obra havia sido adaptada para o cinema, com direção de Fernando Meirelles (aliás, o filme é muito bom!). Então, decidi reler o livro antes de ir ao cinema. Eu me lembro de estar lendo ele no trem ou no ônibus e ficar sem jeito pelo tanto que a leitura me impactava, os olhos enchiam de água, eu sentia raiva da cena que lia, nojo, revolta, dó. Foi difícil! Acho que é uma das leituras mais duras que já fiz.

Tenho muitas obras de José Saramago para ler ainda. Certa vez, disse que os livros dele são do tipo "e se acontecesse tal coisa?". São ficções distópicas, são ensaios de possibilidades do tipo: e se todo mundo ficasse cego? E se todo mundo decidisse não votar em ninguém? E se tal país se soltasse e fosse embora do continente? Ou seja, o escritor português é demais! Nos põe a pensar.

Eu estou refletindo sobre os meus clássicos. Saramago é um clássico! Após a leitura deste clássico, o Ensaio sobre a cegueira, eu pude ler outros livros dele e cada um foi mais fantástico que o outro. Vou contar mais algumas aventuras saramaicas nesta lista que estou fazendo.

Deixo aqui o link da postagem que fiz com frases selecionas do Ensaio, elas servem para a vida toda.

William


Bibliografia:

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.


domingo, 31 de janeiro de 2016

Diário - 310116



Bons autores, bons livros. Dois brasileiros.
Um norte-americano. Um português.

Refeição Cultural

Domingo. Fim das férias do trabalho. Férias em que trabalhei ou dediquei grande parte do mês ao trabalho por questões óbvias: meu trabalho é político, sou gestor eleito em entidade de saúde dos trabalhadores.

Fiz uma viagem com a família, pelo menos. Fomos a Pernambuco: Porto de Galinhas e Fernando de Noronha. Foi legal. Lugares bonitos. Vi ali o mesmo efeito preocupante da mão insana do homem num mundo capitalista. Perspectivas de destruição da natureza bem ali na esquina da vida. Overdose de consumismo e exploração dos meios extremamente sensíveis e esgotáveis da natureza.

Li três livros. Vários contos. Nove de J. D. Salinger (166 páginas). Doze de José J. Veiga (153 páginas). Sete de Machado de Assis (125 páginas). Contos muito diferentes. Épocas distintas e autores com estilos extremamente diversos. Machado abordando o mundo e seu mundo nos anos setenta e oitenta do século 19. Salinger, um norte-americano escrevendo nos anos quarenta e cinquenta do século 20. E finalmente conheci José J. Veiga, escrevendo no final dos anos cinquenta no Brasil.

Li mais um livro de Saramago. Me emocionei ao final. O livro "A viagem do elefante" (256 páginas) é um livro que Saramago pode escrever porque ele diz ter sido salvo por sua esposa e companheira, Pilar, que não o deixou morrer antes de 2008, quando esteve muito doente. Saiu da morte e escreveu sobre a vida de um elefante e seu cornaca, completando as lacunas da história e nos lembrando que a vida é um contar de histórias, onde vamos preenchendo as lacunas que faltam.

Depois fui ver Machado dizer a mesma coisa num conto. O narrador dizia que só completava as lacunas da história que narrava.

Nossa vida é assim: histórias e narrativas que vamos criando e narrando, e sempre completando as lacunas que faltam.

Bom, pelo menos neste mês de janeiro, pude ler umas setecentas páginas de literatura, além das dezenas de páginas de súmulas e textos da Cassi.

Vamos começar amanhã uma vida dura, difícil. De compromissos com nossas tarefas e pouco espaço para nós mesmos e nossa subjetividade. Somos cientes de nossas responsabilidades e quase que as colocamos acima de nossa existência. Devo ficar atento a isso, porque sou humano e não posso atender a todos os chamados que a militância social me faz, porque minha prioridade é a Cassi.

Eu preciso buscar de maneira obrigatória conciliar um pouco essa minha dedicação às causas que represento em nome dos trabalhadores com a minha saúde, porque sem ela, eu não poderei estar nas batalhas que enfrento, à frente das causas pelas quais milito como a gestão da Caixa de Assistência dos Funcionários do BB e as causas dos trabalhadores que defendemos com os princípios da esquerda de solidariedade, igualdade e liberdade.

Minha existência e meus compromissos são desafios grandes. Sempre foram. Vamos a eles com diligência, ética, transparência, exercício de tolerância e muito foco no que tenho que fazer e cumprir.

William Mendes

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Tendo aprendido a lutar, mesmo o animal pacífico não para mais





Refeição Cultural



“Valente animal, exclamou com falso entusiasmo o comandante, Veio aonde o trouxeram, a força e a resistência nasceram com ele, não são virtude própria, Vejo-te muito severo com o pobre do salomão, Talvez seja por causa da história que um dos ajudas me acabou de contar, Que história é essa, perguntou o comandante, A história de uma vaca...”


A história de uma vaca, As vacas têm história, tornou o comandante a perguntar, sorrindo, Esta, sim, foram doze dias e doze noites nuns montes da galiza, com frio, e chuva, e gelo, e lama, e pedras como navalhas, e mato como unhas, e breves intervalos de descanso, e mais combates e investidas, e uivos, e mugidos, a história de uma vaca que se perdeu nos campos com a sua cria de leite, e se viu rodeada de lobos durante doze dias e doze noites, e foi obrigada a defender-se e a defender o filho, uma longuíssima batalha, a agonia de viver no limiar da morte, um círculo de dentes, de goelas abertas, as arremetidas bruscas, as cornadas que não podiam falhar, de ter de lutar por si mesma e por um animalzinho que ainda não se podia valer, e também aqueles momentos em que o vitelo procurava as tetas da mãe, e sugava lentamente, enquanto os lobos se aproximavam, de espinhaço raso e orelhas aguçadas. Subhro respirou fundo e prosseguiu, Ao fim de doze dias a vaca foi encontrada e salva, mais o vitelo, e foram levados em triunfo para a aldeia, porém o conto não vai acabar aqui, continuou por mais dois dias, ao fim dos quais, porque se tinha tornado brava, porque aprendera a defender-se, porque ninguém podia já dominá-la ou sequer aproximar-se dela, a vaca foi morta, mataram-na, não os lobos que em doze dias vencera, mas os mesmos homens que a haviam salvo, talvez o próprio dono, incapaz de compreender que, tendo aprendido a lutar, aquele antes conformado e pacífico animal não poderia parar nunca mais.” (pág. 114/115)



(A viagem do elefante, José Saramago, 2008)


segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A despeito da Ilha Desconhecida de cada um




Refeição Cultural - Diário 121015

Estou em Florianópolis, Santa Catarina. Uma ilha.

Hoje é feriado de 12 de outubro. Uma segunda-feira. 

Eu sou um amante da leitura. Fiz Faculdade de Letras e sonhei ser professor de literatura e dedicar minha vida a ler e a ensinar e a ter contato com as pessoas para ler, conversar, estudar, debater e compreender o mundo, e compreendendo-o, quem sabe mudá-lo para melhor.

As veredas por onde minha vida adentrou, levaram-me a outro destino. Aos quarenta e seis anos, quase não posso mais ler literatura. Não dá mais.

Aí, neste feriado aqui na ilha, após a aventura que vivi ontem (Meia Maratona), acabei comprando um pequeno livro de José Saramago, do tamanho máximo do que posso ler numa sentada, e embarquei na viagem. Li O Conto da Ilha Desconhecida, de 1997. Fiquei pensativo por horas após a leitura. Ainda estou.


Sinopse do livro

O conto narra o caso de um homem que pede ao rei um barco para sair em busca de uma ilha desconhecida. O pedido não é levado a sério por afirmarem que já não existem mais ilhas desconhecidas. O homem é insistente. Sua insistência constrange o rei, que acaba por ceder. O homem consegue o barco. A mulher da limpeza do palácio do rei, decide acompanhar o homem do barco por admirar sua tenacidade e a história se desenvolve a partir daí.



Ponte Hercílio Luz, em reforma. Uma atração turística da
cidade. Passei correndo por baixo dela na meia maratona.

Reflexões

Vivi nesta ilha uma aventura no dia anterior, um domingo, em busca de meus limites desconhecidos. Corri ontem minha primeira prova de meia maratona.

Apesar do planejamento que fiz para o condicionamento físico (ler aqui) e, posteriormente, da conclusão que tomei (ler aqui) de abortar os treinamentos na fase final pelas dificuldades que enfrentei ao longo do caminho, cá cheguei nesta ilha e, apesar dos prognósticos, embarquei na aventura e descobri novos limites.

Meu corpo está todo pedrado ainda, mas após embarcar rumo ao novo, sempre se sai diferente.

Interessante ter vindo parar em minhas mãos o livro de Saramago ao flanarmos por uma livraria. Minha esposa o pegou, me mostrou. Acabamos por levá-lo. Eu o li hoje. A busca por uma ilha desconhecida...

Comecei a ver coincidências. Eu vim a esta ilha de Florianópolis em janeiro deste mesmo ano correr uma prova de 10 km na areia (ler aqui) e foi a experiência mais diferente em corrida que havia experimentado até a meia maratona de ontem. Correr em areia é muito difícil.

As metáforas e simbolismos do pequeno conto de Saramago podem parecer simplórios, mas são instigantes.

Nos instigam e nos põem a pensar em utopias, na superação dos impossíveis já tão comuns e determinísticos que ouvimos em nosso meio social. Ai ai ai, se eu fosse viver de desânimos e pusilanimidades por me dizerem que as coisas são impossíveis... não teria ocorrido quase nada em minha vida.

Estou muito necessitado de um barco para encontrar a minha Ilha Desconhecida.

Aliás, mais um barco, porque as veredas de minha vida me colocaram em barcos com destinos quase impossíveis, ou difíceis de alcançar. E a gente ao menos está navegando com diligência. E com muito esforço e transpiração.

A metáfora do conto de Saramago valeu demais para mim.

Não é hora de parar de navegar. Ao contrário, estamos em um barco rumo a novas descobertas.

William Mendes

domingo, 12 de julho de 2015

Formação Econômica do Brasil - Economia escravista séc. XVI e XVII





Refeição Cultural



Comecemos citando nosso poeta português, que tanto enalteceu os feitos da gente portuguesa com a conquista do mundo pelos mares nunca dantes navegados. De propósito, cito uma estrofe que considero bonita nas palavras, mas incorreta nos atos portugueses - seria verdade o que os versos nos dizem? Que fizeram em terras africanas, asiáticas e americanas?

CANTO SEGUNDO

80

"Não somos roubadores, que, passando
Pelas fracas cidades descuidadas,
A ferro e a fogo as gentes vão matando,
Por roubar-lhes as fazendas cobiçadas;
Mas, da soberba Europa navegando,
Imos buscando as terras apartadas
Da Índia grande e rica, por mandado
De um rei que temos, alto e sublimado."

(Os Lusíadas, Luís de Camões)


SEGUNDA PARTE DO LIVRO

Economia escravista de agricultura tropical (séculos XVI e XVII)

X. Projeção da economia açucareira: a pecuária

Excertos do capítulo e comentários, quando necessários.

Como a economia na colônia era de elevadíssimo coeficiente de importações, a produção de alimentos inclusive para os escravos, em terras de engenhos, tornava-se antieconômica naquele período.

Como a utilização da colônia era para a produção monocultora de açúcar, para exportação, além de não ser interessante ocupar a terra para plantar alimentos, a metrópole não queria concorrência alguma de produção para atrapalhar o comércio do império.

"Pode-se admitir, como ponto pacífico, que a economia açucareira constituía um mercado de dimensões relativamente grandes, podendo, portanto, atuar como fator altamente dinâmico do desenvolvimento de outras regiões do país (...). Em segundo lugar estava a preocupação política de evitar o surgimento na colônia de qualquer atividade que concorresse com a economia metropolitana".

COMENTÁRIO: isso sempre foi uma tragédia econômica para o nosso país.

DIFERENÇAS NA COLONIZAÇÃO EM SÃO VICENTE E NOVA INGLATERRA

"Em São Vicente, onde a escassez de mão-de-obra resultou ser maior do que na Nova Inglaterra - o excedente de população nas Ilhas Britânicas tornou possível importar mão-de-obra europeia em regime de servidão temporária - a primeira atividade comercial a que se dedicaram os colonos foi a caça do índio. Dessa forma, voltaram-se para o interior e se transformaram em sertanistas profissionais."

PECUÁRIA, EXCEÇÃO À MONOCULTURA DA CANA

"O único artigo de consumo de importância que podia ser suprido internamente era a carne, que figura na dieta mesmo dos escravos, como observa Antonil."

"A criação de gado - na forma em que se desenvolveu na região nordestina e posteriormente no sul do Brasil - era uma atividade econômica de características radicalmente distintas das da unidade açucareira. A ocupação da terra era extensiva e até certo ponto itinerante. O regime de águas e distâncias dos mercados exigiam periódicos deslocamentos da população animal, sendo insignificante a fração das terras ocupadas de forma permanente".

A economia de criação de gados se transformou num fator fundamental de penetração e ocupação do interior brasileiro.

Como a atividade de criação de gado tinha mais atrativos que a açucareira, inclusive por causa da relação de investimentos necessários entre uma e outra, "aquele que não dispunha de recursos para iniciar por conta própria a criação tinha possibilidade de efetuar a acumulação inicial trabalhando numa fazenda de gado".

"Tudo indica que essa atividade era muito atrativa para os colonos sem capital, pois não somente da região açucareira, mas também da distante colônia de São Vicente, muita gente emigrou para dedicar-se a ela", conclui Furtado.

PECUÁRIA TERÁ IMPORTÂNCIA NA REGIÃO NORDESTINA MESMO EM DECADÊNCIA

Celso Furtado finaliza o capítulo, após explicar a dispersão da pecuária para diversas regiões, nos informando que "essa importância relativa do setor de subsistência na pecuária será um fator fundamental das transformações estruturais por que passará a economia nordestina em sua longa etapa de decadência".

COMENTÁRIO: até o século XVII a expansão da cana de açúcar no Nordeste fez a pecuária se estender sertão adentro. No século XVIII, com a mineração na região Sudeste, a expansão da pecuária se dá mais no Sul do país.

XI. Formação do complexo econômico nordestino

Os dois sistemas da economia nordestina - o açucareiro e a pecuária -, vão entrar em decadência a partir da segunda metade do século XVII.

O modelo de crescimento era sem tecnologia: "o crescimento era de caráter puramente extensivo, mediante a incorporação de terra e mão-de-obra, não implicando modificações estruturais que repercutissem nos custos de produção e portanto na produtividade".

No século XVIII a situação econômica dos produtores piora "em razão do aumento nos preços dos escravos e da emigração da mão-de-obra especializada, determinados pela expansão da produção de ouro".

NORDESTE TEM QUEDA DE RENDA PER CAPITA SECULAR

Autor nos diz que desde o século XVII até começos do século XIX (e podemos dizer até o final dos anos noventa do século XX) "a economia nordestina sofreu um lento processo de atrofiamento, no sentido de que a renda real per capita de sua população declinou secularmente".

Com estagnação da produção açucareira no Nordeste: "Não havendo ocupação adequada na região açucareira para todo o incremento de sua população livre, parte desta era atraída pela fronteira móvel do interior criatório. Dessa forma, quanto menos favoráveis fossem as condições da economia açucareira, maior seria a tendência imigratória para o interior. As possibilidades da pecuária para receber novos contingentes de população - quando existe abundância de terras - são sabidamente grandes, pois a oferta de alimentos é, nesse tipo de economia, muito elástica a curto prazo".

Com as mudanças ocorridas com a redução da produção açucareira e com a produção pecuária sendo basicamente para subsistência, "No Nordeste brasileiro, como as condições de alimentação eram melhores na economia de mais baixa produtividade, isto é, na região pecuária (...) explica-se assim que a população do Nordeste haja continuado a crescer - e possivelmente haja intensificado o seu crescimento - em todo o século e meio de estagnação da produção açucareira a que fizemos referência".

ENFIM: menor produção de açúcar, maior produção criadora e de subsistência, aumento da população nordestina no período.

COMENTÁRIO FINAL

Lá no futuro, no século XXI, um determinado povo da região Sudeste, vai alimentar forte discriminação contra o povo nordestino. É de uma estupidez incrível, porque o povo nordestino mostrou ao longo de séculos que é um povo bravo, resistente e sobrevivente, mesmo em situações de crises econômicas causadas pelas diversas formas de capitalismo predatório das classes dominantes.

Bibliografia:

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. In: Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro. Publifolha 2000.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Os 10 mais... livros para toda a vida




Refeição Cultural

Os 10 mais... livros para toda a vida

Em uma brincadeira sobre leitura, daquelas em que as pessoas falam sobre os dez isso ou aquilo que levariam para uma ilha, pedi a minha esposa que listasse quais os dez livros em casa que ela escolheria para me levar, caso eu fosse passar algum tempo em um local isolado e fosse ter tempo para leituras e reflexões a partir delas.

A escolha feita por ela é bem interessante. Ela se baseou em livros e ou autores que sabe que gosto, que eu já li ou que tenho vontade de ler, e ficou muito boa e eclética para a idealizada brincadeira de passar um tempo com tempo para as leituras.

É evidente que é uma sacanagem pedir a um amante de filmes, leituras, músicas ou outras formas de cultura para escolher apenas dez preferidos. Todos nós os temos de montes. Dezenas, centenas...

Segue abaixo a lista dos livros pegos por minha esposa e que seriam levados a mim. Eu estaria muito bem servido!

1-      Don Quijote de La Mancha – Miguel de Cervantes (ESP)

2-      A Montanha Mágica – Thomas Mann (ALE)

3-      Grande Sertão: Veredas – Guimarães Rosa (BRA)

4-      Cien Años de Soledad – Gabriel García Marquez (COL)

5-      Ensaio Sobre a Lucidez – José Saramago (POR)

6-      Guerra e Paz – Leon Tolstoi (RUS)

7-      Vidas Secas – Graciliano Ramos (BRA)

8-      Ulisses – James Joyce (IRL)

9-      A Odisseia – Homero (GRE)

10-   Sentimento do Mundo – Carlos Drummond de Andrade (BRA)

Eu fiz a sacanagem de pedir para alguém que me conhece escolher os livros. A escolha ficou bem legal. O difícil seria agora eu fazer uma lista com apenas dez. Porque eu levaria esses e mais um monte de autores que faltaram... lógico!

Desses dez, só não li o de Tolstoi. Cada livro desses contém ensinamentos sobre a vida, as culturas de seus países, refletem o contexto de seus tempos, bem como são atemporais porque narram situações que valem a todos os humanos, por isso universais.

Dez autores de oito nacionalidades diferentes. A área é literária, porém os temas encontrados nesses livros são multifacetados. Literaturas de qualidade que abordam filosofia, história, psicologia, sociologia, antropologia, amor e ódio, amizade, intolerância, disputa pelo poder, política, filologia e linguagem, e por aí vai...

Dessa lista, temos livros que dialogam um com os outros. O Ulisses com a Odisseia, por exemplo. Todos nos põem em profunda reflexão pela nossa capacidade de fazer guerras, de nos matarmos ao longo dos séculos. Enquanto buscamos a paz, fazemos a guerra.

E a linguagem contida neles, com suas mais variadas formas e técnicas, então? Ali temos o mundo. Ali temos as mais diversas experiências literárias, de linguagem e gênero. Ali perpassamos uns três mil anos de dramas humanos.

Olha, com o respeito aos demais cinquenta ou cem autores que faltaram, esses dez livros aí têm a capacidade de fazer qualquer leitor aberto ao conhecimento, à reflexão e às mudanças, avançar muito enquanto ser humano.

É isso!


Vamos lê-los ou relê-los?