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sábado, 5 de abril de 2025

Uma história da leitura: Leitura das sombras



Refeição Cultural 

"No momento em que o primeiro escriba arranhou e murmurou as primeiras letras, o corpo humano já era capaz de executar os atos de escrever e ler que ainda estavam no futuro. Ou seja, o corpo era capaz de armazenar, recordar e decifrar todos os tipos de sensação, inclusive os sinais arbitrários da linguagem escrita ainda por ser inventados. Essa noção de que somos capazes de ler antes de ler de fato - na verdade, antes mesmo de vermos uma página aberta diante de nós - leva-nos de volta à ideia platônica do conhecimento preexistente dentro de nós antes de a coisa ser percebida. A própria fala desenvolve-se segundo um padrão semelhante. 'Descobrimos' uma palavra porque o objeto ou ideia que ela representa já está em nossa mente, 'pronto para ser ligado à palavra'. É como se nos fosse oferecido um presente do mundo externo (por nossos antepassados, por aqueles que primeiro falam conosco), mas a capacidade de apreender o presente é nossa. Nesse sentido, as palavras ditas (e, mais tarde, as palavras lidas) não pertencem a nós nem a nossos pais, aos nossos autores: elas ocupam um espaço de significado compartilhado, um limiar comum que está no começo da nossa relação com as artes da conversação e da leitura." (Uma história da leitura, Alberto Manguel, 1999, p. 50)


No capítulo "Leitura das sombras" Manguel nos conta a história dos estudos ao longo dos séculos para tentar entender essa capacidade extraordinária do ser humano de escrever e ler, já que somos seres falantes.

Vamos descobrindo o que a ciência de cada época humana foi apontando sobre a capacidade humana de falar, escrever e ler.

Achei muito legal a imagem final do capítulo: quando estou lendo é como se por trás de mim, lessem também as sombras dos leitores que vieram antes de nós, a ideia clara de que somos fruto de processos coletivos e compartilhados de cultura.

"(...) ao seguir o texto, o leitor pronuncia seu sentido por meio de um método profundamente emaranhado de significações aprendidas, convenções sociais, leituras anteriores, experiências individuais e gosto pessoal. Lendo na academia do Cairo, al-Haytham não estava sozinho; como se lessem por sobre seus ombros pairavam as sombras dos eruditos de Basra que haviam lhe ensinado a sagrada caligrafia do Corão na mesquita de Aristóteles e seus lúcidos comentadores, dos conhecidos casuais com quem al-Haytham teria discutido Aristóteles, dos vários al-Haythams que ao longo dos anos tornaram-se finalmente o cientista que al-Hakin convidou para sua corte." (p. 53)


Apesar de todas as convenções sociais e histórias anteriores de leituras do texto que você está lendo, sua leitura é única, é nova, é sua.

Pensa no poder disso! Pensa!

Por isso, nós leitores somos tão temidos por nazifascistas, manipuladores da fé, ignorantes em geral, governos autoritários, instituições e empresas, porque ler é poder!

William 


sábado, 29 de março de 2025

Leitores: seres temidos!



Refeição Cultural 

"Mas não são apenas os governos totalitários que temem a leitura. Os leitores são maltratados em pátios de escolas e em vestiários tanto quanto nas repartições do governo e nas prisões. Em quase toda parte, a comunidade dos leitores tem uma reputação ambígua que advém de sua autoridade adquirida e de seu poder percebido. Algo na relação entre um leitor e um livro é reconhecido como sábio e frutífero, mas é também visto como desdenhosamente exclusivo e excludente, talvez porque a imagem de um indivíduo enroscado num canto, aparentemente esquecido dos grunhidos do mundo, sugerisse privacidade impenetrável, olhos egoístas e ação dissimulada singular. ('Saia e vá viver!', dizia minha mãe quando me via lendo, como se minha atividade silenciosa contradissesse seu sentido do que significava estar vivo.) O medo popular do que um leitor possa fazer entre as páginas de um livro é semelhante ao medo intemporal que os homens têm do que as mulheres possam fazer em lugares secretos de seus corpos, e do que as bruxas e os alquimistas possam fazer em segredo, atrás de portas trancadas..." (Uma história da leitura, Alberto Manguel, 1999, p. 35)


Profunda a percepção de Manguel sobre essa coisa quase inominável que há entre grupos humanos quando pessoas que gostam de ler e estudar e conhecer muito começam a ser foco de alguma forma de isolamento dos demais por bullying ou por escanteamento daquele ou daquela que pode a qualquer momento questionar o líder do referido grupo ao qual pertence. 

(Também há grupos sociais que valorizam os leitores e os que sabem muito, claro!)

A partir do momento que um leitor passa a dominar um tema - um saber - que a maioria ao seu redor não sabe, ou que o tema é domínio exclusivo de determinado grupo que usa aquele saber para obter qualquer tipo de vantagem, aquele leitor passa a ser um incômodo ou se torna alguém temido ou rejeitado, a depender da própria condição do leitor no status quo de seu grupo humano. 

Isso é claro e notório para os bons leitores e leitoras, aquel@s que leem nas entrelinhas e leem mais que palavras, leem o mundo ao redor.

Se olhasse para trás, conseguiria imaginar momentos no percurso do viver que ilustrariam o excerto acima. Sempre frequentei ambientes nos quais se lia pouco, a começar pelos ambientes da infância e adolescência. E depois na vida adulta. Sou fruto da sociedade humana de onde nasci.

Enfim... se entrei para as estatísticas dos poucos que leem foi por acasos, veredas da vida. Sorte.

---

Vi o filme "Dias perfeitos" (2023), de Wim Wenders. 

Cara, estou até agora bolado com a história. 

Muitas questões colocadas, nenhuma resposta dada... senão seria fácil demais!

E quanto a mim? E meus dias perfeitos? Por que não? Por quê? O que me impede?

...

William  

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (53) - El instante, Jorge Luis Borges



EL INSTANTE - JORGE LUIS BORGES


¿Dónde estarán los siglos, dónde el sueño

de espadas que los tártaros soñaron,

dónde los fuertes muros que allanaron,

dónde el Árbol de Adán y el otro Leño?

El presente está solo. La memoria

erige el tiempo. Sucesión y engaño

es la rutina del reloj. El año

no es menos vano que la vana historia.

Entre el alba y la noche hay un abismo

de agonías, de luces, de cuidados;

el rostro que se mira en los gastados

espejos de la noche no es el mismo.

El hoy fugaz es tenue y es eterno;

otro Cielo no esperes, ni otro infierno.

---

COMENTÁRIO:

"El presente está solo. La memoria

erige el tiempo. Sucesión y engaño

es la rutina del reloj..."


A poética e temáticas de Borges seguem me cativando muito.

Só há o presente... e só, e sós estamos!

O instante, é o que temos, o instante.

A vã história... já refleti muito sobre isso. Eu sequer tenho passado, ou futuro.

Só o presente e o instante. 

William 


Bibliografia:

BORGES, Jorge Luis. Antología poética 1923-1977. Biblioteca Borges, Alianza Editorial. Madri, 2005.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Livro: El gaucho Martín Fierro - José Hernández



Refeição Cultural 

Janeiro de 2025


"Me he esforzado, sin presumir haberlo conseguido, en presentar un tipo que personificara el carácter de nuestros gauchos, concentrando el modo de ser, de sentir, de pensar y de expresarse, que les es peculiar..." (Prólogo, José Hernández, p. 7)


Uma representação genuína dos gauchos é o que o escritor José Hernández apresenta a seus leitores no ano de 1872.

A poesia de Hernández utiliza uma linguagem poética da época, com uma sonoridade cativante e de fácil compreensão, mesmo tendo palavras diferentes do espanhol moderno.

"(...) dotándolo con todos los juegos de su imaginación llena de imágenes y de colorido, con todos los arranques de su altivez, inmoderados hasta el crimen, y con todos los impulsos y arrebatos, hijos de una naturaleza que la educación no ha pulido y suavizado." (idem)

Adquiri minha edição do clássico Martín Fierro em Buenos Aires, em 2012. Ela contém a 2a parte, "a volta", publicada sete anos depois e vários textos complementares muito bons.

Terminada a releitura da parte um, seguimos a leitura da 2a parte, que é diferente da primeira em relação ao personagem apresentado por Hernández em outro contexto político do autor.

Ler os clássicos é melhor que não ler os clássicos nos ensina Italo Calvino. Concordo com ele.

William 


Bibliografia:

HERNÁNDEZ, José. Martín Fierro. - 1a ed. - La Plata: Terramar, 2007.


Leitura de poesia (40) - Martín Fierro (VIII), José Hernández



EL GAUCHO MARTÍN FIERRO - JOSÉ HERNANDEZ


VIII

(...)

El nada gana en la paz

y es el primero en la guerra;

no le perdonan si yerra,

que no saben perdonar,

porque el gaucho en esta tierra

sólo sirve pa votar.


Para él son los calabozos,

para él las duras prisiones;

en su boca no hay razones

aunque la razón le sobre;

que son campanas de palo

las razones de los pobres.


Si uno aguanta, es gaucho bruto;

si no aguanta, es gaucho malo.

¡Déle azote, déle palo,

porque es lo que él necesita!

De todo el que nació gaucho

ésta es la suerte maldita.


Vamos, suerte, vamos juntos

dende que juntos nacimos,

y ya que juntos vivimos

sin podernos dividir,

yo abriré con mi cuchillo

el camino pa seguir.


Do livro El gaucho Martín Fierro, de 1872

---

COMENTÁRIO:

"que son campanas de palo

las razones de los pobres."


O poema de José Hernández é universal porque los gauchos são todos os pobres e miseráveis explorados do mundo.

Aos pobres lhes tiram a família, os amores, a liberdade, a bondade e em troca lhes dão porrada, bala, prisão e maldade.

A poesia gauchesca é muito representativa do povo de Nuestra América, um povo em busca de sua cultura e sua liberdade como nos ensina José Martí, apóstolo da independência de Cuba.

Sigamos aprendendo com nossas raízes sul-americanas e caribenhas.

William 


Bibliografia:

HERNÁNDEZ, José. Martín Fierro. - 1a ed. - La Plata: Terramar, 2007.


sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (27) - Martín Fierro (VI), José Hernández



EL GAUCHO MARTÍN FIERRO - JOSÉ HERNÁNDEZ


VI

Vamos dentrando recién

a la parte más sentida,

aunque es todita mi vida

de males una cadena:

a cada alma dolorida

le gusta cantar sus penas.


(...)


Dende chiquito gané

la vida con mi trabajo,

y aunque siempre estuve abajo

y no sé lo que es subir,

también el mucho sufrir

suele cansarnos, ¡barajo!


(...)


¡Quién no sentirá lo mesmo

cuando ansí padece tanto!

Puedo asigurar que el llanto

como una mujer largué.

¡Ay mi Dios, si me quedé

más triste que Jueves Santo!


(...)


Los pobrecitos muchachos

entre tantas afliciones

se conchabaron de piones;

¡mas qué iban a trabajar,

si eran como los pichones

sin acabar de emplumar!


(...)


Y la pobre mi mujer

¡Dios sabe cuánto sufrió!

Me dicen que se voló

con no sé qué gavilán,

sin duda a buscar el pan

que no podía darle yo.


(...)


¡Tal vez no te vuelva a ver,

prenda de mi corazón!

Dios te dé su proteción

ya que no me la dió a mí,

y a mis hijos dende aquí

les echo mi bendición.


(...)


Yo he sido manso primero,

y seré gaucho matrero

en mi triste circunstancia,

aunque es mi mal tan projunto;

nací y me he criao en estancia,

pero ya conozco el mundo.


(...)


Aunque muchos cren que el gaucho

tiene un alma de reyuno,

no se encontrará ninguno

que no lo dueblen las penas;

mas no debe aflojar uno

mientras hay sangre en las venas.


Vocabulário:

Reyuno: algo de má qualidade, relés, desprezível; grosseiro.


---

COMENTÁRIO:

A história do gaucho Martín Fierro é universal, sendo sul-americana, sendo de um mundo colonial.

Nesta parte da história, Fierro nos conta como viu sua família ser desfeita, no momento em que foi sequestrado pelas autoridades. 

Muitos dos acontecimentos narrados pelo gaucho acontecem diariamente em nosso mundo miserável das periferias do Brasil e dos países ainda com realidades coloniais. 

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"Yo he sido manso primero,

y seré gaucho matrero"

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Quantos de nós não éramos mansos em nossas misérias até nos maltratarem, barbarizarem, nos prenderem e nos transformarem em bichos-feras.

Eu sei disso tudo. Eu sei...

William 


Bibliografia:

HERNÁNDEZ, José. Martín Fierro. - 1a ed. - La Plata: Terramar, 2007.


quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (26) - Arte Poética, Jorge Luis Borges



ARTE POÉTICA - JORGE LUIS BORGES


Mirar el río hecho de tiempo y agua

y recordar que el tiempo es otro río,

saber que nos perdemos como el río

y que los rostros pasan como el agua.


Sentir que la vigilia es otro sueño

que sueña no soñar y que la muerte

que teme nuestra carne es esa muerte

de cada noche, que se llama sueño.


Ver en el día o en el año un símbolo

de los días del hombre y de sus años,

convertir el ultraje de los años

en una música, un rumor y un símbolo,


ver en la muerte el sueño, en el ocaso

un triste oro, tal es la poesía

que es inmortal y pobre. La poesía

vuelve como aurora y el ocaso.


A veces en las tardes una cara

nos mira desde el fondo de un espejo;

el arte debe ser como ese espejo

que nos revela nuestra propia cara.


Cuentan que Ulises, harto de prodigios,

lloró de amor al divisar su Ítaca

verde y humilde. El arte es esa Ítaca

de verde eternidad, no de prodigios.


También es como el río interminable

que pasa y queda y es cristal de un mismo

Heráclito inconstante, que es el mismo

y es otro, como el río interminable.

---

COMENTÁRIO:

Maravilhoso poema!

Fiquei pensando no conceito desenvolvido por Adélia Prado em uma entrevista na qual ela diz que a Arte é como a Filosofia e as Religiões, todas tentam achar respostas para as questões centrais do ser humano: sobre a vida, a morte e o sentido de tudo.

As metáforas do poema constroem imagens que refletem essas questões centrais do ser humano. 

O tempo, o rio, a água que fluem e nunca voltam, nunca são os mesmos. Como nós. 

A vigília, o dormir, o sonho: metáforas para a morte daquele que crê em algo depois da morte.

A aurora e o crepúsculo, e a poesia. A imortalidade daquilo que sempre volta. 

O Eu-lírico através da metáfora do espelho, enaltece a poesia, que pode dar sentidos.

A poesia é a nossa Ítaca, o local que nos acolhe, que nos dá sentido, e mesmo sendo o tempo como um rio, que flue sempre, a vida renasce em oportunidades a cada aurora.

Amig@s leitores, Borges tem sido a poética que mais me cativou até agora dos clássicos que tenho lido nesses dias.

Sigamos lendo poesia e buscando sentidos em cada aurora.

William Mendes


Bibliografia:

BORGES, Jorge Luis. Antología poética 1923-1977. Biblioteca Borges, Alianza Editorial. Madri, 2005.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (13) - La noche que en el Sur lo velaron, J. L. Borges



LA NOCHE QUE EN EL SUR LO VELARON - JORGE LUIS BORGES


                  A Letizia Álvarez de Toledo


Por el deceso de alguien

- misterio cuyo vacante nombre poseo y cuya realidad 

            [no abarcamos -

hay hasta el alba una casa abierta en el Sur,

una ignorada casa que no estoy destinado a rever,

pero que me espera esta noche

con desvelada luz en las altas horas del sueño,

demacrada de malas noches, distinta,

minuciosa de realidad.


A su vigilia gravitada en muerte camino

por las calles elementales como recuerdos,

por el tiempo abundante de la noche,

sin más oíble vida

que los vagos hombres de barrio junto al apagado 

            [almacén

y algún silbido solo en el mundo.


Lento el andar, en la posesión de la espera,

llego a la quadra y a la casa y a la sincera puerta 

             [que busco

y me reciben hombres obligados a la gravedad

que participaron de los años de mis mayores,

y nivelamos destinos en una pieza habilitada 

               [que mira al patio

- patio que está bajo el poder y en la integridad 

                [de la noche -

y decimos, porque la realidad es mayor, 

                [cosas indiferentes

y somos desganados y argentinos en el espejo

y el mate compartido mide horas vanas.


Me conmueven las menudas sabidurías

que en todo fallecimiento se pierden

- hábitos de unos libros, de una llave, de un cuerpo 

                 [entre los otros -.

Yo sé que todo privilegio, aunque oscuro, 

                  [es de linaje de milagro

y mucho lo es el de participar en esta vigilia,

reunida alrededor de lo que no se sabe: del muerto,

reunida para acompañar y guardar su primera noche 

                   [en la muerte.


(El velorio gasta las caras;

los ojos se nos están muriendo en lo alto como Jesús.)


¿Y el muerto, el increíble?

Su realidad está bajo las flores diferentes de él

y su mortal hospitalidad nos dará

un recuerdo más para el tiempo

y sentenciosas calles del Sur para merecerlas despacio

y brisa oscura sobre la frente que vuelve

y la noche que la mayor congoja nos libra:

la prolijidad de lo real.


Vocabulário: 

(de la Real Academia Española)


Abarcar: abrazar, rodear, comprender algo.

Demacrada: adj.: consumida, macilenta, enfermiza.

Mayor/mayores: anciano, viejo, longevo, veterano.

Menuda: adj.: pequeña, chica, insignificante.

Oíble: adj.: que se puede oír.


---

COMENTÁRIO:

Um poema sobre a morte, sobre a antiga tradição do velório na casa do falecido. A cada leitura do poema, mais encantado fiquei com a descrição respeitosa de um momento real da vida de todas as pessoas: o destino nivelado de todos nós: a morte.

"y nivelamos destinos en una pieza habilitada que mira al patio"


Belíssimo poema! E tema tratado com sensibilidade poética ímpar!

Os leitores e leitoras jovens do Brasil, do século 21, que talvez já tenham ido a algum velório realizado em salas apropriadas nos cemitérios, talvez nem imaginem que até pouco tempo, as pessoas falecidas eram "veladas" em suas casas.

Eu vivenciei velórios desde os anos setenta e o cenário descrito pelo poeta de forma tão sensível, respeitosa e com reflexões para além da morte me fez pensar no quanto a sociedade atual perdeu com os atuais velórios frios e sem capacidade alguma de se refletir sobre a mortalidade dos seres vivos e o quanto o fechamento de um ciclo de vida pode trazer ensinamentos e fortalecimentos de laços humanos e sociais.

Enfim, estou gostando muito de conhecer os poemas de Jorge Luis Borges escolhidos por ele mesmo nesta coletânea.

Estou me sintonizando com sua poética e já percebo o que ele nos alerta no prólogo da coletânea:

"Yo desearía que este volumen fuera leído sub quadam specie aeternitatis*, de un modo hedónico, no en función de teorías, que no profeso, o de mis circunstancias biográficas. Lo he compilado hedónicamente: sólo he recogido lo que me agrada o lo que me agradaba en el instante en que lo elegí."

*sub quadam specie aeternitatis: sob uma certa espécie de eternidade. (Google tradutor)

As leituras dos poemas de Borges estão sendo exatamente assim, leituras hedônicas, que dão prazer ao leitor.

Sigamos lendo poesia neste mês de dezembro.

William Mendes


Bibliografia:

BORGES, Jorge Luis. Antología poética 1923-1977. Biblioteca Borges, Alianza Editorial. Madri, 2005.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (12) - Martín Fierro (II), José Hernández



EL GAUCHO MARTÍN FIERRO - JOSÉ HERNÁNDEZ


II

Ninguno me hable de penas,

porque yo penando vivo,

y naides se muestre altivo

aunque en el estribo esté,

que suele quedarse a pie

el gaucho más alvertido.


(...)


Martín Fierro vai se lembrar nesta parte 2 do tempo em que vivia feliz com sua família. 


Entonces... cuando el lucero

brillaba en el cielo santo,

y los gallos con su canto

nos decían que el día llegaba,

a la cocina rumbiaba

el gaucho... que era un encanto.


(...)


Tudo muda para os gauchos quando chegam as "autoridades" para sequestrá-los para trabalhos forçados nas fazendas e fronteiras.


Pues si usté pisa en su rancho

y si el alcalde lo sabe

lo caza lo mesmo que ave

aunque su mujer aborte...

¡no hay tiempo que no se acabe

ni tiempo que no se corte!


Y al punto dése por muerto

si el alcalde lo bolea,

pues áhi no más se le apea

con una felpa de palos 

Y después dicen que es malo

el gaucho si los pelea.


---

COMENTÁRIO:

O poema de José Hernández, um intelectual e político de seu tempo (1872), retrata bem a forma cruel e impiedosa de tratamento aplicada aos povos originários e ou oriundos de séculos de colonização das classes dominantes vindas da Europa através das navegações a partir da Idade Média. 

Sigamos lendo poesia neste mês de dezembro. 


William Mendes 

12/12/24 (na estrada)


Bibliografia:

HERNÁNDEZ, José. Martín Fierro. - 1a ed. - La Plata: Terramar, 2007.


quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (5) - Martín Fierro (I), José Hernández



EL GAUCHO MARTÍN FIERRO - JOSÉ HERNÁNDEZ

I

Aquí me pongo a cantar...

(...)

Cantando me he de morir,

cantando me han de enterrar,

y cantando he de llegar

al pie del Eterno Padre;

dende el vientre de mi madre

vine a este mundo a cantar.

(...)

Soy gaucho, y entiendanló

como mi lengua me explica:

para mí la tierra es chica

y pudiera ser mayor;

ni la víbora mi pica

ni quema mi frente el sol.

(...)

---

COMENTÁRIO:

Martin Fierro é um clássico! Esse eu conheço. É uma leitura deliciosa! De uma sonoridade cativante, o leitor não consegue parar.

José Hernández publicou a primeira parte do poema em 1872 e a volta sete anos depois. 

A arte e as diversas manifestações culturais das comunidades humanas são provas de nossas possibilidades enquanto seres dotados de inteligência. 

Por que a tendência dos donos do poder é atuar de forma violenta e opressora para emburrecer e tornar as pessoas ignorantes e estúpidas?

Espécie contraditória essa nossa. Poderíamos ser como deuses se todos fossem educados. 

Comprei a edição que tenho em Buenos Aires em 2012.

William Mendes 


Bibliografia:

HERNÁNDEZ, José. Martín Fierro. - 1a ed. - La Plata: Terramar, 2007.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Diário e reflexões - Cuba XIV (23/02/23)



Refeição Cultural - Cuba (XIV)

Osasco, 23 de fevereiro de 2023. Quinta-feira.


"Para Hilda, o livro era uma ideia maravilhosa e ela se dispôs a ajudar Ernesto. Enquanto isso, os dois estabeleceram uma rotina doméstica amigável, inspirada num programa de leituras semelhante ao que Fidel tinha com Naty. Quando não trabalhavam na magnum opus de Ernesto, os dois falavam sobre poesia: Hilda emprestou a ele uma cópia dos poemas de César Vallejo e ele dividiu com ela o grande amor que tinha por Pablo Neruda, José Hernández e Sara de Ibáñez. Juntos, eles também liam obras políticas: Engels, Marx e Sartre, acima de tudo. 'Compartilhávamos a sensação de "náusea da vida"', relembra Hilda." (Fidel e Che. Reid-Henry, p. 120)


Peguei mais algumas fitas antigas em VHS para assistir. Numa delas estava escrito "Martín Fierro". Para melhorar a experiência ao ver o filme, comecei a reler o clássico poema do gaucho argentino, escrito por José Hernández (1834-1886). A caixinha da fita estava vazia... por sorte, encontrei na internet o filme completo (2005), dirigido por Gerardo Vallejo.

Ao estudar mais a respeito de Cuba e sua história libertadora e revolucionária, vi que o jovem médico argentino, Ernesto Che Guevara era leitor de José Hernández. Que legal essa ligação entre uma leitura e outra!

Terminei a 1ª parte do livro Fidel e Che - Uma amizade revolucionária (2009), de Simon Reid-Henry. Li o livro em 2010 quando o ganhei de presente. A releitura é quase uma leitura nova.

Terminei a 1ª parte do romance do escritor cubano Leonardo Padura - O homem que amava os cachorros (2009) e já estou no terceiro capítulo da 2ª parte. A impressão que tenho é que o livro é grande demais para a história. Talvez seja porque fazer uma ficção histórica sobre León Trótski seja de fato algo enorme só de pensar, imagina então para completar as lacunas da história do assassinato do líder da Revolução Russa a mando de Josef Stálin?

Em relação ao estudo de línguas e linguagem, ando devagar. Comecei a estudar espanhol na plataforma do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) para relembrar minhas habilidades com a língua, mas ando a passos de tartaruga na sequência das aulas. Estou devagar também com as outras línguas que me esforço no aprendizado, o inglês e o japonês. Estudar pouco é melhor do que não estudar nada. Tenho lido e ouvido muito espanhol, de diversos acentos e isso é bom. Meu ouvido já está bem aguçado para as nuanças dos falares de cada país de língua espanhola.

É isso! Aprender algo diariamente e ser menos ignorante deveria ser o objetivo de toda pessoa que queira melhorar como ser humano e que queira melhorar o mundo no qual estamos também.

William


Post Scriptum: texto anterior dessa série cub.ista pode ser lido aqui.


Bibliografia:

REID-HENRY, Simon. Fidel e Che - Uma amizade revolucionária. Tradução: Beatriz Velloso. 1ª edição. Editora Globo. São Paulo, 2010.


sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Livro: Las armas secretas - Julio Cortázar



Refeição Cultural - Cem clássicos

Completei a leitura do primeiro de meus livros do escritor argentino Julio Cortázar, Las armas secretas (1959). Algumas narrativas do livro são consideradas verdadeiros clássicos do autor e da literatura hispano-americana do século XX como os contos "Las babas del diablo" e "El perseguidor".

Neste livro temos reunidos os contos: "Cartas de mamá", "Los buenos servicios", "Las babas del diablo", "El perseguidor" e "Las armas secretas". Todos muito bons!

Cortázar é um autor de leitura exigente, pelo menos na minha opinião. O escritor nos coloca a pensar durante a leitura de seus textos. Ele é um dos principais autores do Boom latino-americano dos anos sessenta e setenta.

Ao ouvir um trecho de uma entrevista com Cortázar fiquei encantado com ele. Ao falar sobre o período (Boom), os autores e as obras da época, ele diz ser mentira a tese de que as editoras que teriam sido responsáveis por darem a linha editorial para os contos e romances do Boom

Cortázar explica que o que contribuiu para os argumentos e enredos das narrativas latino-americanas nos anos sessenta foram as consequências da exploração imperialista aos países e povos da região. Alguns bons autores passaram a ser lidos e editados por grandes editores após o público reconhecer suas obras. E não o inverso.

Ele Cortázar disse que produziu suas narrativas na solidão e na miséria e só depois do público leitor reconhecer seu valor foi que as editoras passaram a recepcioná-lo como grande escritor. 

Minha estreia na leitura de Cortázar foi no início do curso de Letras, quando fiz uma disciplina das mais interessantes: vimos como autores latino-americanos abordavam a questão da morte e as diversas crenças no pós-morte em seus textos literários. Dele, lemos "Cartas de mamá", o primeiro conto deste livro.

O conto "Las babas del diablo" foi inspiração para o filme Blow-up (1966), do diretor Michelangelo Antonione. O final da estória é aberto e nos coloca a refletir sobre a narrativa. Os textos de Cortázar trabalham muito com o estranho, com situações que sejam incomuns, que chamem a atenção ou que de alguma forma incomodem o leitor. Este conto não é diferente.

O conto "O perseguidor" é muito bom. Traz como pano de fundo o mundo do jazz e o personagem principal, Johnny Carter, é inspirado em Charlie Parker (1920-1955). Bird, como era conhecido, foi um fenômeno incompreendido em seu tempo, que buscou (ou perseguiu) quase o impossível através de suas improvisações musicais.

O último conto do livro, "Las armas secretas" é bem difícil. Li duas vezes, uma após a outra, para compreender melhor a narrativa. Novamente, a estória trabalha com o estranho. 

Enfim, mais um clássico da literatura mundial.

William


terça-feira, 17 de novembro de 2020

Tempo (XIII)



Refeição Cultural

"(Hladik preconizava o verso, porque impede que os espectadores esqueçam a irrealidade, que é condição da arte)" (BORGES, Obras completas, V. 1, Editora Globo, p. 569)


LEITURAS DE BORGES

No texto de Jorge Luis Borges, O milagre secreto, o personagem Jaromir Hladik é um escritor judeu capturado pelos alemães em Praga e é condenado à morte. Ele é preso dia 19 de março de 1939 e será executado em 29 de março. 

O narrador nos conta a situação dramática que vive o personagem durante os dez dias no corredor da morte. Borges trabalha a questão do tempo psicológico e o tempo cronológico, descolando um do outro. 

Hladik tinha um drama em versos inacabado e aquilo o incomodava muito ao saber que iria morrer. Ele pediu a Deus que lhe desse mais um ano para terminar o romance. Na manhã do dia 29, diante do pelotão de fuzilamento (me lembrei do Buendía de G. G. Márquez), Hladik tem seu pedido atendido por Deus e consegue terminar seu romance.

A estória não deixa de ser interessante e nos coloca a pensar muito sobre o tempo em relação à nossa percepção da realidade no mundo físico e cronológico.

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Qual seria a direção do tempo? Borges especula sobre o tema no texto História da eternidade.

Borges começa dizendo que o mais comum é pensarmos que a direção do tempo vai do passado em direção ao futuro, mas cita Unamuno para dizer que o contrário não é ilógico.

"Uma dessas obscuridades, não a mais árdua nem a mais bela, é a que nos impede de precisar a direção do tempo. Que flui do passado para o futuro é a crença comum, mas não mais ilógica é a contrária, aquela que Miguel de Unamuno gravou em verso espanhol:

        Noturno o rio das horas flui

        de seu manancial, que é o amanhã

        eterno..." (BORGES, Obras completas, V. 1, Editora Globo p. 387)

Em seguida, o escritor argentino emenda outras reflexões sobre o tempo que nos coloca a pensar imediatamente. Que não haveria futuro, em Bradley, ou que não haveria presente, conforme uma escola filosófica indiana.

"Ambas são igualmente verossímeis - e igualmente inverificáveis. Bradley nega as duas e adianta uma hipótese pessoal: excluir o futuro, que é uma simples construção de nossa esperança, e reduzir o 'atual' à agonia do momento presente desintegrando-se no passado (...) Bradley nega o futuro; uma das escolas filosóficas da Índia nega o presente, por considerá-lo inapreensível. 'Ou a laranja está prestes a cair do galho, ou já está no chão', afirmam esses simplificadores estranhos. 'Ninguém a vê cair'." (p. 388)

A eternidade

"Nenhuma das várias eternidades que os homens planejaram - a do nominalismo, a de Ireneu, a de Platão - é agregação mecânica do passado, do presente e do futuro. É algo mais simples e mais mágico: é a simultaneidade desses tempos..." (p. 388)

A sequência da leitura do texto é bem exigente. Demanda leitura repetida dos parágrafos. Borges analisa reflexões de Plotino, de Platão e seu mundo das ideias, dentre outros autores. Complexa a coisa...

Após criticar a base do mundo das ideias com alguns exemplos do tipo "Um capítulo de Schopenhauer não é o papel nas gráficas de Leipzig nem a impressão, nem as delicadezas e perfis da escrita gótica (...) nem sequer a opinião que temos dele" (p. 391), Borges diz: 

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"Essas ilustrações ou sofismas podem exortar-nos a tolerar de boa vontade a tese platônica. Vamos formulá-la assim: Os indivíduos e as coisas existem na medida em que participam da espécie que os inclui, que é sua realidade permanente." (p. 391)

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Pausa na leitura, para pôr as ideias no lugar...

William


Bibliografia:

BORGES, Jorge Luis. Obras completas, Volume 1, 1923-1949, Editora Globo.


sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Manifiesto Martín Fierro -15 de mayo de 1924



Primeira página da Revista Martín Fierro, nº 4.

Refeição Cultural

A reprodução deste manifesto da Revista Martín Fierro, nº 4, se dá dentro do contexto de estudos das vanguardas hispano-americanas, que estou cursando na graduação de Letras da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de São Paulo. 

Este blog atua no sentido de compartilhar informações e conhecimentos de forma gratuita e com interesses educativos. 

Os manifestos das vanguardas tinham algumas características bem marcantes. Eles eram de certa forma agressivos, buscavam deixar claro o objetivo de ruptura e de negação da tradição poética ou do movimento ao qual se opunham.

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Manifiesto Martín Fierro*

Oliverio Girondo


FRENTE a la impermeabilidad hipopotámica del honorable público.

Frente a la funeraria solemnidad del historiador y del catedrático que momifica todo cuanto toca.

Frente al recetario que inspira las elucubraciones de nuestros más "bellos" espíritus y a la afición al anacronismo y al mimetismo que demuestran.

Frente a la ridícula necesidad de fundamentar nuestro nacionalismo intelectual hinchando valores falsos que al primer pinchazo se desinflan como chanchitos.

Frente a la incapacidad de contemplar la vida sin escalar las estanterías de las bibliotecas.

Y, sobre todo, frente al pavoroso temor de equivocarse que paraliza el mismo ímpetu de la juventud, más anquilosada que cualquier burócrata jubilado:

Martín Fierro siente la necesidade imprescindible de definirse y de llamar a cuantos son capaces de percibir que nos hallamos en presencia de una NUEVA SENSIBILIDAD y de una NUEVA COMPRENSIÓN, que, al ponernos de acuerdo con nosotros mismos, nos descubre panoramas insospechados y nuevos medios y formas de expresión.

Martín Fierro acepta las consecuencias y las responsabilidades de localizarse, porque sabe que de ello depende su salud. Instruido de sus antecedentes, de su anatomía, del meridiano en que camina, consulta el barómetro, el calendario, antes de salir a la calle a vivirla con sus nervios y con su mentalidad de hoy.

Martín Fierro sabe que "todo es nuevo bajo el sol" si todo se mira con unas pupilas actuales y se expresa con un acento contemporáneo.

Martín Fierro se encuentra, por eso, más a gusto en un transatlántico moderno que en un palacio renacentista, y sostiene que un buen HISPANO-SUIZO** es una obra de arte muchísimo más perfecta que una silla de manos de la época de Luis XV.

Martín Fierro ve una posibilidad arquitectónica en un baúl innovation***, una lección de síntesis en un marconigrama, una organización mental en una rotativa, sin que esto le impida poseer -como las mejores familias- un álbum de retratos que hojea, de vez en cuando, para descubrirse a través de un antepasado... o reírse de su cuello y de su corbata.

Martín Fierro cree en la importancia del aporte intelectual de América, previo tijeretazo a todo cordón umbilical. Acentuar y generalizar, a las demás manifestaciones intelectuales, el movimiento de independencia iniciado, en el idioma, por Rubén Darío, no significa, empero, que habremos de renunciar, ni mucho menos finjamos desconocer que todas las mañanas nos servimos de un dentífrico sueco, de unas toallas de Francia y de un jabón inglés.

Martín Fierro tiene fe en nuestra fonética, en nuestra visión, en nuestros modales, en nuestro oído, en nuestra capacidad digestiva y de asimilación.

Martín Fierro artista, se refriega los ojos a cada instante para arrancar las telarañas que tejen, de continuo, el hábito y la costumbre. ¡Entregar a cada nuevo amor una nueva virgindad, y que los excesos cada día sean distintos a los excesos de ayer y de mañana! ¡Ésta es, para él, la verdadera santidad del creador!... ¡Hay pocos santos!

Martín Fierro crítico, sabe que una locomotora no es comparable a una manzana y, el hecho de que todo el mundo compare una locomotora con una manzana y algunos opten por la locomotora, otros por la manzana, rectifica para él la sospecha de que hay muchos más negros de lo que se cree. Negro el que exclama ¡colosal! y cree haberlo dicho todo. Negro el que necesita encandilarse con lo coruscante y no está satisfecho si no lo encandila lo coruscante. Negro el que tiene las manos achatadas como platillo de balanza y lo sopesa todo y todo lo juzga por el peso. ¡Hay tantos negros!...

Martín Fierro sólo aprecia a los negros, a los blancos que son realmente negros o blancos y no pretenden en lo más mínimo cambiar de color.

¿Simpatiza usted con Martín Fierro?
¡Colabore usted con Martín Fierro!
¡Suscríbase usted a Martín Fierro!


* Publicado en el cuarto número de la revista Martín Fierro, 15 de mayo de 1924.
** "Hispano-Suizo": marca de un automóvil de la época.
*** "Innovation": negocio en París, que en la época confeccionaba baúles apropriados para los portaequipajes de los coches.

Bibliografia:

SCHWARTZ, Jorge. Las vanguardias latino-americanas - Textos programáticos y críticos. Fondo de Cultura Económica - México.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

090519 - Diário e reflexões - Que aprendi hoje?



Relva florida na USP.
Foto: William Mendes.

Refeição Cultural

Texto e Discurso em Língua Espanhola

Todo dia é dia de aprender algo novo. De reaprender algo, melhorando ou revendo conceitos. De ser menos ignorante que o instante anterior ao aprendizado. E, ao aprender algo novo, sermos mais conscientes e menos manipuláveis. 

Não por acaso, o regime fascista tem na destruição total da educação pública e autônoma um pilar de seu projeto de poder, porque ao eliminar as oportunidades de crescimento intelectual através de uma educação emancipadora, facilita-se a destruição do país e dos direitos do povo pela manipulação e desagregação das classes populares e trabalhadoras: dividir para governar.

Na aula de hoje, lemos um conto argentino para identificarmos as questões de linguagem que estamos estudando neste semestre. A temática desses dias é sobre objetos de discurso, referenciação, correferenciação, categorização e recategorização. 

O tema não é fácil para mim, pois tenho dificuldade em gramática, desde sempre, principalmente sintaxe. Em linhas gerais, nesta questão de rede referencial na linguagem vemos como os objetos de discurso são retomados ao longo do texto a partir de sua primeira aparição, seja por pronomes, por outras palavras, por frases e orações etc.

O conto que lemos é de Rodolfo Walsh - Esa mujer -, publicado pela primeira vez em 1965. O autor foi jornalista e escritor argentino, militante de esquerda, assassinado em 1977 pela ditadura civil-militar em seu país e é dado como desaparecido até hoje (li na Wikipedia sobre ele). Sem citar nome próprio, a personagem de quem se fala nos remete a Eva Perón e, por conseguinte, ao peronismo e ao golpe militar que destituiu Perón em 1955.

Além de aprender um pouco mais sobre o tema das referências textuais e suas retomadas ao longo do texto, o conteúdo da aula aguçou em mim a curiosidade para saber mais sobre o peronismo e Evita. Ademais de gostar muito de história geral e de literatura, tenho bastante afinidade pelas questões do mundo da classe trabalhadora, como o sindicalismo.

Eu não sabia da história do corpo embalsamado de Evita, que estava em exposição na sede da central sindical pela afinidade que ela tinha com a classe operária. O corpo de Evita sumiu após o golpe de Estado, e só se descobriu o paradeiro quase duas décadas depois.

É isso. Todo dia é dia para aprendermos algo novo, mesmo quando já passamos de meio século de existência.

William

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Releitura: O último leitor (2005) - Ricardo Piglia




Refeição Cultural

"Um território devastado no qual alguém reconstrói o mundo perdido a partir da leitura de um livro. Melhor seria dizer: a crença no que está escrito num livro permite manter e reconstruir o real perdido..." (Piglia, na página 145 de O último leitor)


Li este livro do professor e escritor argentino Ricardo Piglia em 2008. É um livro de reflexões sobre leitores e leituras. Sobre atos de leituras. O autor faleceu no início de 2017 aos 75 anos de idade.

Ao reler dias atrás uma postagem minha sobre um conto de Piglia - "A ilha" -, texto contido em seu livro "Cuentos Morales" (1995), acabei pegando em minha estante "O último leitor" (2005), livro muito reflexivo.

Nesta obra, Piglia nos leva a pensar sobre o mundo dos escritores e, consequentemente, nos leva ao mundo dos leitores, que complementam e dão sentido à produção literária, que nada seria sem o leitor.

Piglia aborda os atos de leitura de nada mais nada menos Franz Kafka, Jorge Luis Borges, Ernesto Che Guevara, James Joyce, Liev Tolstói, dentre outros. Cada capítulo é uma viagem de conhecimento para nós leitores.

Não vou falar sobre cada um dos capítulos do livro, pois a intenção da postagem é despertar nos leitores do blog o interesse nas reflexões que Piglia registrou naquele que ele afirma ser seu livro mais pessoal, como leitor, inclusive.

Neste leitor que vos fala, a releitura do livro uma década depois da primeira leitura reacendeu algumas preocupações e sentimentos que trago comigo desde o fim da adolescência: meu tempo está passando e sigo sem ter lido grandes clássicos da literatura mundial. É desesperadora a tomada de consciência disso.

Quando Piglia aborda James Joyce, fico leve e transito bem pelo capítulo, afinal li "Ulisses" (1922) e "Dublinenses" (1914). Por outro lado, quando Piglia fala de Borges e de Raymond Chandler, me sinto mal, porque não conheço suas obras. 

Dois livros centrais nos ensaios de Piglia e de quase toda crítica literária que conhecemos, eu nunca acabei de ler, porque sabemos o final e isso dificulta muito a minha leitura de algum clássico: "Madame Bovary" (1857), de Flaubert, e "Anna Kariênina" (1877), de Tolstói. É um absurdo eu não ter terminado a leitura, mas não terminei.

Me lembro da birra que tive para terminar a leitura do clássico de Guimarães Rosa - "Grande Sertão: veredas" (1956) - porque quando adolescente tive acesso ao segredo de Reinaldo (Diadorim), segredo que o autor esconde dos leitores até as últimas páginas do relato do jagunço Riobaldo Tatarana.

Vejam abaixo um exemplo das questões abordadas por Piglia num dos capítulos do livro:

ANNA KARIÊNINA E TOLSTÓI

No capítulo "O lampião de Anna Kariênina", Piglia faz uma bela análise e reflexão sobre a leitura de literatura dentro da própria literatura. Grandes personagens da história literária nos são apresentadas como leitoras nos enredos de romances.

A personagem Anna lê romances ingleses no livro de Tolstói, publicado em 1877. Da mesma forma Emma Bovary é leitora de romances no clássico "Madame Bovary", de Flaubert, publicado em 1857. Piglia não faz referência a autores brasileiros, mas quem nunca leu em Machado de Assis ou José de Alencar personagens femininas que são leitoras incansáveis de romances?

Outra característica deste capítulo é pontuar a importância da luz e da forma de iluminação possível para os leitores de romances nos séculos passados - velas, lampiões, lamparinas, luzes fugazes em geral. Legal a ideia de uma luz que ilumina o romance assim como uma história de ficção que pode iluminar a nossa vida.

Neste sentido de busca existencial, Piglia cita Sartre, que diz: "Por que se leem romances? Falta alguma coisa na vida da pessoa que lê, e é isso que ela procura no livro. O sentido, evidentemente, é o sentido de sua vida, dessa vida que para todo mundo é torta, mal vivida, explorada, alienada, enganada, mistificada, mas acerca da qual, ao mesmo tempo, aquele que a vive sabe muito bem que poderia ser outra coisa.".

Não precisamos generalizar a tese de Sartre, pois muitos leitores leem por distração e simples prazer na leitura, mas que parte dos leitores leem com um sentido muito mais profundo, isso é fato.

Outro ponto muito atual sobre leitoras de romances é a questão que Piglia nos traz sobre como eram vistas as mulheres leitoras durante muito tempo e que reflete sobre o papel e o lugar das mulheres na sociedade machista: 

"De alguma maneira, a feminização do leitor de romances confirma os preconceitos dominantes sobre o papel da mulher e da inteligência feminina. Os romances eram considerados adequados para as mulheres, vistas como criaturas de capacidade intelectual limitada, imaginativas, frívolas e emotivas. Os romances, circunscritos ao reino da imaginação, eram o oposto da leitura prática e instrutiva.".

É mole! Que sacanagem a sociedade machista passar séculos tratando as mulheres dessa forma.

POR FIM

O livro "O último leitor" é um livro de leitura para sempre, ou seja, para a vida inteira para aquele ou aquela que o tem na estante.

É inevitável ler um capítulo sobre Kafka e querer ler ou reler tudo que você tem dele e ir atrás do que falta das obras publicadas por ele ou postumamente.

É impossível não ficar martirizado com o peso na consciência de leitor por não ter lido clássicos como "Robinson Crusoé" (1719), de Daniel Defoe, ou "As viagens de Gulliver" (1726), de Jonathan Swift, ou ainda "Moby Dick" (1851), de Herman Melville. Sim, amig@s, eu ainda não li estes três livros!

Percebem como é difícil pegar para ler um livro de economia, história e política, como li recentemente "A desordem mundial" (2016), de Luiz Alberto Moniz Bandeira, um catatau de 600 páginas (ler sobre AQUI), e não ficar com certo remorso caso a maioria dos livros que eu optar por ler não sejam os clássicos que me faltam? Posso morrer sem ter lido grandes feitos literários da humanidade.

Enfim, sigamos adiante com as leituras, com os atos de leitura e como últimos leitores que estão sempre em busca das descobertas e, quem sabe, das respostas para as perguntas que temos ou que não sabemos que temos, apesar de elas estarem em nós.

William


domingo, 14 de setembro de 2014

Diário - 140914 (Dinossauros...)



Eu, Noni e o Tiranossauro Rex.

Refeição Cultural

Acabou o fim de semana.

Já saio de madrugada nesta segunda, para voltar ao trabalho em Brasília - DF. Vou dormir menos que o necessário, de novo.

Estou há uma semana com a garganta inflamada. Como me conheço bem, sei que é devido ao excesso de trabalho e falta de dormir o mínimo necessário para o descanso. Eu preciso me cuidar e rever minha rotina porque o corpo está me dando avisos de que assim não dá.

Neste fim de semana, fui com minha esposa ver a exposição de dinossauros no Shopping Anália Franco, em São Paulo. Foi bem legal e cumpri meu compromisso com ela. Ao final, tomamos um delicioso café.

Tentei fazer coisas que me dão prazer como, por exemplo, ler e andar ou correr. Mas estou sem energia devido à inflamação da garganta e só caminhei hoje (me arrastei).

Li o conto "Liliana llorando", do argentino Julio Cortázar, do livro Octaedro (1974). Preciso ficar atento para não perder meu domínio da língua castelhana. Mas foi só isso.

Limpei meu aquário. Cuidei de meus peixinhos velhinhos. Somos responsáveis por aquilo que cativamos... meus tetras, mato-grossos e acarás não são só tetras, mato-grossos e acarás, são os meus tetras, mato-grossos e acarás.

Falei com meus paizinhos por telefone.

É isso.

É necessário que eu fique atento aos sinais de meu corpo. Tenho que dormir mais, senão vou quebrar.


Post Scriptum (4/01/16):

Pois é, relendo este diário, chateou-me lembrar que meu corpo estava me avisando que eu estava exagerando na agenda e no estresse. Faz dois meses que descobri a alteração em minha pressão arterial, que está alta e isso é bem perigoso para vários órgãos internos como rins, coração, artérias, olhos. Que merda! Eu nunca tive medo de morrer, mas não esperava ficar doente crônico...

Hoje, minha pressão está 12,2 x 9,2.