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sábado, 23 de maio de 2026

Livro: A era da empatia - Frans de Waal



Refeição Cultural

LITERATURA CIENTÍFICA 


"Se eu fosse Deus, me esforçaria para que os humanos alcançassem a empatia." (p. 288)


O biólogo primatólogo Frans de Waal nos apresentou no livro "A era da empatia", lançado em 2009, reflexões a partir de estudos feitos por ele e suas equipes ao longo de décadas. Ao retomar a leitura, soube que ele faleceu em 2024, acometido por um câncer de estômago. 

Quando vi o livro em 2010, me interessei na hora pelo tema da empatia. Eu era dirigente sindical de uma grande categoria e me esforçava com sinceridade para me colocar no lugar dos outros no diálogo e representação política de milhares de pessoas. 

Do lançamento do livro sobre a empatia aos dias de hoje, a sociedade humana mudou substancialmente em curtíssimo espaço de tempo. O autor disse que se fosse Deus, faria um esforço para que os humanos alcançassem a empatia. Vieram as big techs, os algoritmos e as redes antissociais, e o ódio ao outro, ao diferente, é na atualidade o sentimento que mais engaja pessoas no mundo.

"(...) Hoje, com tantos grupos diferentes se acotovelando num planeta abarrotado, o maior problema é o excesso de lealdade dos indivíduos em relação a seu país, grupo ou religião. Os humanos são capazes de desprezar profundamente todo aquele que pareça diferente ou que pense de outra forma, mesmo quando se trata de grupos vizinhos e com DNA quase idênticos, como é o caso dos israelenses e dos palestinos. As nações julgam-se superiores aos países vizinhos e as religiões acreditam ser donas da verdade." (p. 288/289)

Frans de Waal disse isso em 2009...

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SOMOS NATUREZA, PARTE DA NATUREZA, NÃO SOMOS ALHEIOS A ELA

"(...) Afinal, a psicologia deriva seu nome de Psiquê, a deusa grega da alma. Essas raízes religiosas refletem-se na resistência inabalável à segunda mensagem da teoria da evolução. A primeira é a de que todas as plantas e animais, incluindo a espécie humana, são produto de um único processo. Essa ideia é amplamente aceita hoje em dia, inclusive fora da biologia. Mas a segunda afirma que há uma continuidade entre a nossa espécie e todas as outras formas de vida, não somente do ponto de vista corporal, mas também do ponto de vista mental. Isso permanece difícil de engolir..." (p. 292/293)

Quando se trata de refletir sobre nossa natureza violenta, ao matar, estuprar, fazer guerras, parte da sociedade atribui isso ao DNA, à nossa genética. 

"(...) É somente com relação às características consideradas nobres que a continuidade é colocada em dúvida, e a empatia é um bom exemplo disso." (p. 293)

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O LADO SOMBRIO 

Frans de Waal, no último capítulo, nos apresenta outras possibilidades oriundas da capacidade da espécie humana de se colocar no lugar dos outros e de outras espécies. 

Durante a leitura do livro, o leitor vai compreendendo que a empatia ocorre sob determinadas condições. Identificação é uma das condições. 

"(...) A empatia precisa tanto de um filtro que nos faça selecionar as situações às quais reagimos quanto de um dispositivo que permita ligá-la ou desligá-la. Como toda reação emocional, a empatia tem um 'portal', uma situação que tipicamente a desencadeia ou na qual permitimos que ela se manifeste. O principal portal da empatia é a identificação." (p. 301)

O autor explica que para aquelas pessoas com as quais nos identificamos, o 'portal' está sempre aberto. Fora desse círculo, a empatia é opcional. 

"(...) Por outro lado, há ocasiões em que o portal é fechado deliberadamente, como, por exemplo, quando suprimimos a nossa identificação com as pessoas que fazem parte de um grupo inimigo declarado." (p. 302)

Entra em ação o processo de desumanização, recurso historicamente empregado para justificar atrocidades cometidas contra grupos diferentes, nos explica o biólogo. 

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EM BUSCA DA EMPATIA

Entre a aquisição do livro de Frans de Waal e o término da leitura foram dezesseis anos. Nesse período, eu vi muita coisa acontecer no Brasil e no mundo. Vi as vidas seguirem e vi muitas vidas serem interrompidas.

Após a aquisição do livro sobre empatia, um comportamento humano desejado por mim na relação entre as pessoas, vi as "primaveras fabricadas" derrubarem governos mundo afora. Vi homens por trás de big techs inventarem formas de engajar pessoas pelo ódio, pelo oposto da empatia.

Vi as manifestações de junho de 2013 iniciarem uma longa noite de terror no Brasil; o golpe contra Dilma; a prisão injusta de Lula; a armação que colocou Bolsonaro no poder. Vi a pandemia mundial de Covid-19 matar milhões de pessoas, principalmente nos países com governos negacionistas, Trump e Bolsonaro à frente. A guerra na Ucrânia; o genocídio do povo palestino... 

Busquei exercer a empatia nos mandatos que tive à frente de movimentos e instituições importantes. Na formação sindical e política; na coordenação nacional das negociações do Banco do Brasil; na gestão de saúde da maior autogestão do país. Na relação com as pessoas próximas. Não é fácil ser empático sempre. Frans de Waal nos explica isso.

Saí do banco. Saí do movimento político. Rompi muitas relações antigas. O Brasil estava afundado no mal durante um governo fascista. Como precisávamos de empatia...

Li dezenas e dezenas de livros nos últimos anos. Compreendi muita coisa e encontrei muitas respostas para questionamentos que fiz por décadas de vida.

Sigo desejando empatia. Um mundo com a prevalência da empatia entre as pessoas. Tenho muito mais noções hoje que antes.

Sigamos lendo, escrevendo, refletindo, buscando mudar a realidade e tentando ser mais empáticos nas relações com as pessoas e com os seres vivos no mundo.

(Vivi uma espécie de catarse ao escrever essa refeição cultural sobre o livro "A era da empatia" ao som de "Animal Instinct", do Cranberries. O videoclipe me faz viajar com aquela mãe e as crianças. O vídeo tem tudo a ver com empatia. Aliás, Dolores O'Riordan faleceu em 15/01/18, em Londres)

William


Bibliografia:

WAAL, Frans de. A era da empatia: lições da natureza para uma sociedade mais gentil. Com desenhos do autor. Tradução: Rejane Rubino. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

domingo, 25 de setembro de 2016

Diário - 250916



De pouquinho, vou me apropriando da fantástica
obra de José J. Veiga. Estou lendo o livro que ganhei
de nossa equipe de trabalho da Cassi em Rondônia.

Refeição Cultural

Domingo.

Das sensações humanas inevitáveis, alternei momentos de tristeza ao ser lembrado constantemente pelos fatos reais em se viver num mundo em Estado de exceção, com momentos de reflexão mais amenos devido à minha dedicação à leitura de José J. Veiga e em assistir a um magnífico programa documentário sobre as Ilhas Galápagos e a questão da Evolução das Espécies, a partir dos estudos de Charles Darwin.

Tentei que tentei focar minha cabeça em ler ao menos uma das três novelas do livro de Veiga - De jogos e festas (1980), mas não consegui acabar a estória que comecei, pois ela tem quase cem páginas.

Acabei alternando a leitura com a confecção de mais um texto de reflexão e opinião política. Fiz um texto no sábado (ler AQUI) e outro hoje durante o dia (ler AQUI).

Não pratiquei esporte ontem e hoje. Voltei a correr nesta semana e ainda estou com a musculatura da perna sensível. Corri 3,5 k na quarta e na sexta à noite, mas preciso recuperar o condicionamento físico aos poucos e ouvindo meu corpo cansado pelo desgaste físico e emocional do ano.

Me inscrevi na corrida de São Silvestre, que ocorre no último dia do ano em São Paulo. Tenho um longo caminho para estar bem e preparado para correr os 15 k da prova lá no meio do verão paulista.

Eu tenho o desejo de ler tanto, e tanta coisa, que quando olho a pilha de livros do José J. Veiga, que adquiri nestes meses, e vejo que ao menos estou progredindo na leitura e conhecimento da obra com a qual me identifiquei tanto, penso que não posso reclamar.


Eu recorro à Edward Said quando preciso reforçar minhas
posições contra-hegemônicas, que sei que vão me trazer
chateações por não ir na onda e nas facilidades
em estar com as maiorias.

Eu quis também terminar um livro que é uma referência em minha vida nos momentos de grandes tribulações políticas e ideológicas, o livro que tenho de Edward Said, que reúne conferências dadas por ele abordando o papel dos intelectuais. Peguei pra reler na semana passada e só falta um capítulo, mas priorizei Veiga para não deixar de iniciar a leitura do 7º livro dele.

No momento de debates sobre a Cassi ano passado, já havia pego o livro para reler uma das conferências que abordava a necessidade do intelectual dizer a sua opinião aos representantes do poder. Logo após o BB fazer a proposta para a Cassi em maio de 2015 reli o capítulo "Falar a verdade ao poder".

Como estou preparando minha opinião e contribuições sobre a nova proposta feita pelo patrocinador BB para a nossa entidade de saúde (feita em 5/9/16), senti uma necessidade de reler o livro inteiro. É sempre bom revisitar suas referências éticas, seus princípios e valores, ainda mais em tempos de degeneração dos valores em nossa sociedade.

É isso, queria mais um tempinho de descanso e só pra mim, mas não tenho.

William

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Paradoxos do darwinismo social - Lendo Frans de Waal


Frans de Waal. Fonte: Wikipedia.

Hoje li mais um capítulo do excelente livro A Era da Empatia de Frans de Waal. A leitura nos faz pensar muito sobre a vida em sociedade.

O autor nos fala do filósofo Herbert Spencer (século XIX) que levou para os negócios suas teorias biológicas.


PARADOXOS DA SOCIEDADE AMERICANA (E OCIDENTAL)

O primeiro grande paradoxo do cenário político americano é sua relação de amor e ódio com a biologia. Apesar da teoria evolucionista ser bastante popular entre eles, em debates políticos parte importante dos candidatos diz não acreditar na evolução.

"O darwinismo social é bem aquilo que Gordon Gekko chamou de 'espírito evolucionário'. Ele descreve a vida como uma luta em que os mais fortes não devem se permitir atrapalhar pelos mais fracos. Essa ideologia foi introduzida pelo filósofo inglês Herbert Spencer, que, no século XIX, traduziu as leis da natureza para a linguagem dos negócios, cunhando a expressão 'sobrevivência dos mais bem adaptados', muitas vezes atribuída, indevidamente, a Darwin. Spencer condenou as tentativas de nivelamento do terreno onde se desenrola a vida em sociedade. Segundo ele, seria contraproducente que os 'adaptados' sentissem algum tipo de obrigação para com os 'inadaptados'. Em densos volumes que venderam centenas de milhares de cópias, Spencer afirmou a respeito dos pobres que 'todo o esforço da natureza é para se desfazer deles, limpando o mundo de sua presença e deixando espaço para os melhores."

O segundo paradoxo é a pregação da religiosidade cristã ao mesmo tempo que não aceitam nenhum tipo de compaixão e solidariedade com aqueles que não venceram na vida.

"Esse ponto de vista religioso - visível até hoje na chamada Direita Cristã - constitui o segundo grande paradoxo. Enquanto o livro encontrado na maioria dos lares americanos e em todo quarto de hotel recomenda a compaixão pelo semelhante, o darwinismo social ridiculariza esse sentimento, que apenas impede a natureza de seguir seu próprio curso. A pobreza é desdenhada como uma demonstração de preguiça, a justiça social, como uma fraqueza. Por que não deixar simplesmente que os pobres pereçam? Acho difícil entender como os cristãos conseguem abraçar uma ideologia tão implacável na ausência de um estado colossal de dissonância cognitiva, mas muitos parecem capazes de fazê-lo."

O terceiro paradoxo é a liberdade econômica despertar o melhor e o pior nas pessoas.

"O terceiro e último paradoxo é que a ênfase na liberdade econômica desperta tanto o melhor quanto o pior nas pessoas. O pior é a já mencionada falta de compaixão, pelo menos no nível governamental. Mas existe também um lado bom, (...) que é o de ser uma sociedade baseada no mérito. Berço de ouro, títulos pomposos, legados de família, tudo isso é reconhecido e respeitado, mas não é nem de longe tão valorizado quanto a iniciativa pessoal, a criatividade e o esforço puro e simples. Os americanos sentem admiração pelas histórias de sucesso e nunca recriminam aqueles que 'chegam lá' de maneira honesta. Isso é verdadeiramente emancipador para os que se sentem dispostos a encarar o desafio."


FALÁCIA NATURALISTA

Da mesma forma que o darwinismo social serviu para lavar a consciência da burguesia exploradora do século XIX adiante, serviu também para estabelecer o regime liberal nos Estados Unidos, o país formado por emigrantes europeus.

"O darwinismo social procurou fornecer o endosso científico almejado por uma nação de imigrantes que havia desenvolvido naturalmente um forte senso de individualismo e de autossuficiência." (pág. 49)

E:

"O problema é que não se pode deduzir os objetivos da sociedade dos objetivos da natureza. A tentativa de fazer isso é conhecida como a falácia naturalista. A falácia naturalista é cometida sempre que se confunde 'o que é' com 'o que deve ser'. Se os animais se matassem uns aos outros em grande escala, isso não significaria que deveríamos fazer o mesmo. Do mesmo modo, caso os animais vivessem em perfeita harmonia, isso também não significaria que temos a obrigação de fazê-lo. A natureza pode nos oferecer informação e inspiração, mas não nos oferece prescrições."


COMENTÁRIO

O pior é que essa falácia naturalista está incrustada no cérebro do povo e da classe trabalhadora, que só reproduz os interesses da elite (ideologia da classe dominante).

William Mendes


Bibliografia:
WAAL, Frans de. A era da empatia. Companhia Das Letras. 2010 SP.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Artigo - Reflexões sobre a vitória de Kassab, direita, darwinismo...



Refeição Cultural

Fiz a seguinte reflexão a respeito da vitória do candidato da direita em São Paulo, Gilberto Kassab:

ENOJADO PELA OPÇÃO À DIREITA DO PAULISTANO

Quando termina uma eleição e o resultado é a favor da direita, dos conservadores e reacionários, aflora em mim uma leitura mais darwiniana da evolução das espécies.

Ao ver a maioria, que é de pobres e remediados, votar na ideologia da classe dominante e nos seus algozes, tendo a achar que o que vale é a lei do mais forte, mais esperto e melhor adaptado. Caberia às massas ficarem como caças e presas da natureza implacável, onde tudo é alimento de tudo.

Em poucas palavras, diria que é a velha teoria de Quincas Borba, o HUMANITISMO.

Concordo que amanheci rancoroso e enojado em ter que sair de minha moradia em Osasco e vir trabalhar na Capital Paulista, que reelegeu o Gilberto Kassab, do partido oriundo da ditadura militar (DEM, ex-PFL, ex-PDS, ex-ARENA), para governar e administrar por mais 4 anos a cidade.

Talvez a razão mais lógica seja aquela dita por meu amigo Plínio Pavão, secretário de saúde da Contraf-CUT, que me deu uma aula de Max Weber achando razões baseadas na obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo e que também fez referência a Marx quando diz que "A ideologia dominante é a ideologia da classe dominante".

Mas gastarei alguns dias para deixar de querer que o povo paulistano se lasque e lutar para organizá-lo e lutar para mudar o status quo que ele próprio alimenta.

LEITURAS, NÃO-LEITURAS E SEGUIR SENDO NADA

Bom, achei em casa o livro do Max Weber. O problema é lê-lo, pois como fiz todas as opções erradas na minha vida (não todas, a maioria) tenho que ler e estudar sobre Morfologia e Filologia em vez de ler o que quero e a hora que quero (e isso já quase chegando aos 40 anos).

O pior é que ao fim de mais essa faculdade de Letras, não serei cousa nenhuma de novo. Assim como não fui contador; assim como não terminei a faculdade de Educação Física; assim como não terminei o curso técnico de eletrônica...