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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Instantes (16h20)



Refeição Cultural

LEITURAS


Enquanto tentava ler no vagão do trem, um sujeito falava ao celular com uma garota. Tinha menos de trinta anos. Contou algumas vantagens sobre si a ela, a convidou pra jantar e dormir na casa dele, e para quebrar a resistência dela em aceitar, disse, então, que só jantassem. Disse que da outra vez a culpa foi dela, por ter trocado de roupa na casa dele. O tipo era desses que começou dizendo que foi orar pela manhã. Ao sair do trem, escolheu um senhor idoso perto dele, que também ouviu sua conversa, e lhe disse rindo que "a garota deu porque quis, né?".

Já em casa, concluí que foi inútil levar meu livro na mão, pensando em ler um pouco no transporte público. Li poucas páginas e ainda se estraga um pouco a capa com o suor da mão. Minha edição do romance Yargo, de Jacqueline Susann, é do Círculo do Livro, do início dos anos oitenta: bem velhinha pra um livro. Ganhei a edição de meu primo Jorge Luiz, de Uberlândia. Li o livro antes dos 17 anos. Enfim, multipliquem esse caso do sujeito que estava xavecando uma garota pelo celular por inúmeras conversas do tipo ao mesmo tempo em um vagão e concluam se é possível ler um livro no trem. Já era!

Quando fechei o livro, fiquei observando as pessoas no trem, depois nas ruas da Barra Funda, por onde andei. Depois no trem novamente. Estar entre o povo, observar a realidade ao nosso redor, é uma oportunidade de reflexão e tentativa de compreensão sobre nós mesmos, nossa espécie, nosso ambiente cultural, e também uma forma de pensar sobre o passado, presente e futuro. Somos isso que está aí... todos nós, vocês e eu.

No romance, na parte em que estou, os yargonianos não querem mandar Janet Cooper de volta à Terra por considerarem ela uma pessoa comum de nossa espécie, mediana, medíocre, sem capacidade de transmitir a questão complexa envolvida na trama e por ela não ter representatividade junto às comunidades humanas. A ideia era ter levado a Yargo o Einstein ou outro cientista de renome nos anos cinquenta. O começo do romance, guardadas as devidas diferenças, não deixa de ser um pouco como a cena de costume que vi no trem. Janet estava em seus dias de preparo para o casamento, um dos papéis atribuídos às mulheres naquela sociedade norte-americana àquela época, meados do século passado.

Pensando o povo no trem, nas ruas, nos dias de hoje, a Janet Cooper do romance, eu nos dias de hoje, o leitor e sujeito que fui nos anos oitenta, senti uma espécie de pessimismo (não fatalismo), mas uma consciência clara da dificuldade que temos para superar o projeto das elites econômicas de idiotizar a espécie humana, tornar nossa gente ignorante e, pior ainda, orgulhosa de não saber de quase nada que todos já deveríamos saber no atual estágio de desenvolvimento. 

Os acasos e veredas que me fizeram ter um pouco de consciência política hoje, eventos que moldaram meu caráter e definiram minha vida, em caminho diverso em relação aos meus pares no ambiente de onde vim, estão mais raros hoje. Se eu estivesse começando minha jornada, vindo de onde vim, dificilmente seria essa pessoa que sou: um homem com valores da esquerda. 

William 

03/08/26

domingo, 19 de outubro de 2025

Instantes (15h36)



Refeição Cultural

LEITURAS


A leitura é um ato humano transformador. É uma das formas de transmissão de conhecimento e de educação. Todas as pessoas no mundo deveriam ter acesso a alfabetização e às diversas opções de meios de leitura. Tive o privilégio de ser um leitor desde muito pequeno. Porém, sei que não li quase nada ainda...

Quando garoto, lendo gibis, aprendi sobre as moscas tsé-tsé que causam a doença do sono. Há 50 anos, começava a ler e aprender...

Mais recentemente, ao ler o livro O verdadeiro criador de tudo, do neurocientista Miguel Nicolelis, compreendi melhor a vida e me livrei de vários questionamentos que fiz por décadas. 

Hoje, sei que muitas coisas são como são. Mas sei que somos sujeitos históricos e podemos mudar o mundo e criar novos mundos.

Leituras... aprendizados...

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ISAAC ASIMOV

"(...) O Sr. Daugherty diz que naqueles dias todos aprendiam a fazer os rabiscos quando eram crianças e como decifrar aquilo, também. Fazer rabiscos era chamado 'escrever' e decodificar os rabiscos 'ler'. Ele diz que havia uma espécie diferente de rabisco para cada palavra e eles costumavam escrever livros inteiros em rabiscos..." (ASIMOV, Isaac. "Um dia" in: Os melhores contos, 2018)


De minhas imensas lacunas culturais, infindáveis, Isaac Asimov era uma delas. Havia chegado a mais de meio século de existência sem ter lido um texto sequer do cientista e escritor.

Neste fim de semana li dois contos de Asimov. Ontem li "Um dia" e hoje "Amor verdadeiro". As estórias são incríveis! Gostei muito!

Seus contos nos apresentam personagens e cenários futurísticos meio impensáveis na vida cotidiana de meados do século passado. Uma máquina eletrônica que cria estórias para contar às crianças ou um computador pessoal inteligente que dialoga com o dono e busca para ele no mundo todo uma namorada ideal.

Perceberam o quanto ele antecipou o que qualquer pessoa tem hoje com essas geringonças de IA?

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GRACILIANO RAMOS

"Ninguém veio, meu pai me descobriu acocorado e sem fôlego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil explicar-me: atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os modos brutais, coléricos, atavam-me; os sons duros morriam, desprovidos de significação." (RAMOS, Graciliano. "Um cinturão" in: Infância, 1995)


Graciliano Ramos é um dos mestres da literatura brasileira para mim, junto com Machado de Assis e João Guimarães Rosa. 

Minha edição do livro Infância (1945) me acompanha há décadas (ela é de 1995), já se mudou comido diversas vezes, e repousa na estante atual de casa.

Li nestes dias os primeiros textos do livro, podemos dizer capítulos, mas são textos independentes, poderíamos chamá-los também de contos porque têm início, meio e fim. Cada texto é uma viagem ao passado de todos nós que fomos crianças no Brasil do século passado.

Os textos são de uma riqueza impressionante! Leio um deles e paro. Aquelas cenas ficam comigo até a próxima leitura.

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MEMÓRIAS DE TODOS NÓS

As leituras devem ser feitas, temos que seguir lendo. Enquanto lemos, aprendemos, conhecemos os mundos, criamos novos mundos.

Até meu livro de Memórias, que está aos poucos indo parar em algumas estantes do mundo, já foi lido por algum leitor ou leitora, e eu mesmo fico relendo os capítulos para me certificar, talvez, de que tenha escrito algo que valesse a pena ser compartilhado.

Cada capítulo é um pequeno conto também, com início, meio e fim, uma lembrança de fazeres sindicais dos trabalhadores da categoria bancária. 

Sigamos lendo e nos esforçando para nos mantermos humanos. A leitura é um ato humano, de humanos e para humanos.

William

19/10/25

Domingo

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

O sentido da vida (11)



A boa prosa e o pensar junto


Acordou vendo notícias estapafúrdias sobre o mundo. Uma golpista de merda foi premiada com o Nobel da Paz. São os sintomas do mundo capitalista doentio e em colapso rumo ao fim.

Mesmo assim, abstraiu-se da merda toda ao redor e refletiu sobre o dia anterior, que foi cansativo em termos físicos, mas gratificante em termos psicológicos. 

Enviou pelos Correios suas Memórias editadas em livro para alguns amigos. Tomou um café e proseou gostosamente com um casal de amigos. Proseou depois com outro amigo querido e pensaram o mundo.

Ao final do dia, ainda se colocou à disposição de ajudar como fosse possível um jovem amigo do interior do Estado. Foi ao Terminal Rodoviário do Tietê para aguardá-lo.

Dormiu de madrugada. Mas a prosa daquele dia, recheada de livros, literatura, história, política, economia, reflexões sobre as lutas de classe, a vida e o viver, amizade... toda essa riqueza humana deu sentido ao seu dia.

A vida humana também é isso, um dia de convivências e compartilhamentos com pessoas que dignificam a nossa espécie humana. 

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domingo, 10 de agosto de 2025

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Domingo, 10 de agosto de 2025.


No calendário da cultura brasileira hoje é Dia dos Pais. Ao acordar, fiquei um tempo olhando para o teto do quarto e pensando sobre isso, o Dia dos Pais, ou o fato de ser pai, ou até a respeito de ser filho. Todos somos filhos de pais e mães. Após pensar um tempo, me senti sem palavras neste momento para escrever sobre pais e filhos. Com as palavras vêm os julgamentos, e não sou nada pra julgar ninguém. Aos pais, fica meu desejo sincero que tenham um domingo bom, não adiantaria desejar o lugar-comum, o mundo humano está numa etapa ruim da história da espécie na Terra.

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"Que eu chegue bem ao próximo final de semana. É o pensamento"

Domingo passado escrevi sobre minha ansiedade em relação à semana que se iniciava, seria uma semana diferente no cotidiano. Hoje posso dizer que cheguei bem. Sigo sendo um homem de sorte. Fiz uma cirurgia na boca e sabia que seriam dias de pouca ingestão de alimentos. A sensação de fundura no estômago, roendo o tempo todo, me fez imaginar - o que não é possível -, mas pelo menos tentar imaginar a fome que os donos do poder estão impondo há tempos às maiorias de seres humanos excluídas dos direitos humanos e, em particular, pensei nos palestinos da Faixa de Gaza, um campo de concentração vergonhoso deste momento de fim de mundo. Também me lembrei da tia Alice, que não conseguia mais comer na fase final de sua doença. Sem conseguir mastigar, a gente percebe como é bom ter saúde. No meu caso, por mais que tomasse iogurte, vitamina de frutas, sucos, leite, o corpo não saciava a fome. Foi bom demais poder voltar aos poucos a ingerir coisas com sustância, com sal. Ao mesmo tempo, com a consciência que tenho hoje, fico triste ao ver tanta gente querida detonando sua saúde e a gente não poder fazer nada por alguém que não queira fazer algo por si mesmo. Parece que vou percebendo cada dia mais que as coisas são como são por falta de educação, a tragédia e a miséria humana não são naturais, são escolhas. 

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Por escolha, por tentar fazer algo que seja bom para o particular e o coletivo, faço parte de um grupo de pessoas que estão participando de um curso de extensão universitária com aulas e professores fantásticos, com aulas presenciais aos sábados, com a temática "Como impedir o fim do mundo: colapso ambiental e alternativas", organizado e ministrado pelo IBEC e Unesp. Ter o conhecimento da realidade do mundo é um privilégio, uma responsabilidade, e um desafio de autoconhecimento para saber administrar o sofrimento que o conhecimento nos dá. Enfim, não gostaria de ser um ignorante, um néscio, um idiota manipulável. Prefiro lidar com a dor e o sabor de acessar o conhecimento e as mais diversas formas de cultura.

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Para a semana que se inicia, desejo coisas simples, na dimensão pessoal. Comer arroz com feijão, pão com manteiga e café. Praticar atividades físicas possíveis. Ler. Escrever. Gostaria de poder fazer algo para salvar a natureza de sua destruição total pelos humanos capturados pela invenção deles próprios, o capitalismo. No entanto, ainda não foi possível convencer maiorias nem no campo popular onde me politizei a lutarem contra o modo de produção e organização social do capitalismo. 

Will i am

(10h40)

segunda-feira, 28 de julho de 2025

O sentido da vida (4)



Ser ainda o complemento de outros

Deitado no sofá, tentando cochilar alguns minutos, ficou sentindo o bater compassado de seu coração através de seu ouvido direito encostado na almofada. Tum... tum... tum... o motor da vida.

Se a vida cessasse naquele instante, uma possibilidade absolutamente real e natural, o mundo mudaria no instante seguinte para as pessoas de sua relação cotidiana. Essas mudanças ocorrem o tempo todo há milhões de anos na vida dos seres vivos.

Ao se perceber que aquela vida já não existia mais, a vida de duas, três, cinco pessoas, ao menos, teria necessariamente que ser reinventada. Algumas ausências afetam uma quantidade enorme de vidas. Outras, talvez não sejam sequer percebidas. Ou ainda, afetam de forma intensa algumas vidas.

Talvez o sentido da vida - para um ser vivo e os outros de sua relação - seja essa condição de complementaridade que sua existência gera, a interdependência com outros seres.

Ele tinha essa consciência e por isso queria viver. Só essa condição já justifica o esforço do viver. Amor, talvez...

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quinta-feira, 24 de julho de 2025

Instantes (11h59)



Refeição Cultural

"O que é, é - e não pode deixar de ser" (Parmênides)

Por saber que sou apenas mais um neste mundo no qual habito, sei que os efeitos da realidade impactam em mim como nas demais pessoas: meu cérebro plástico vem se adaptando ao mundo no qual impera a velocidade de estímulos para não se pensar em mais nada que realmente importe às pessoas de minha classe social. 

O esforço de ler diariamente nem que seja por meia hora vem da consciência de combater o projeto dos donos do poder de emburrecer e idiotizar a massa humana vivente neste instante neste pálido ponto azul no universo, como disse Carl Sagan.

Ao ler na atualidade, os cérebros humanos têm cada vez mais dificuldade de concentração e foco no texto por causa da forma como vêm sendo utilizados por seus donos, os humanos, num mundo de fragmentos de informação e inutilidades rápidas como estímulo no atual mundo da economia da atenção hegemonizado pelas empresas de plataformas digitais. 

Meia hora de leitura de filosofia ou ciência ou literatura é um exercício cerebral desafiador. A cada parágrafo, seu cérebro viciado em bobagens ou desacostumado a reflexões complexas se pega divagando e você precisa voltar ao parágrafo e ler de novo com mais atenção ainda.

Somos o que somos, ou seja, somos seres da atualidade. 

Justamente por isso, temos que nos esforçar mais ainda para salvar nossos cérebros, nossa inteligência e nossa humanidade. 

Leiam bons textos atentamente, amig@s leitores deste blog. É quase um apelo.

William 

24/07/25

domingo, 20 de julho de 2025

O sentido da vida (2)



Talvez o porto

O cidadão passou a noite em claro, foi se deitar lá pelas 7 horas da manhã. Aquele tinha sido um daqueles dias de zelar pela pessoa querida, até que ela dormisse.

Às onze horas se levantou, se trocou, e saiu para andar pelo parque e espairecer as ideias turbulentas. O que fazer, o que não fazer, e entender mais uma vez que a vida é como ela é. 

Ainda no parque, falou com sua mãe, que também estava zelando por alguém. Cuidar talvez seja um sentido de nossa espécie animal. 

Mesmo com o pouco dormir e o pouco ânimo, o cidadão pegou sua garrafinha de água, buscou a disciplina forjada nas lutas, e se dirigiu à academia do seu condomínio. Só é possível zelar pelos outros se cuidar de si mesmo para estar vivo.

Vai saber se o sentido de tudo não seja ser o porto dos náufragos dos mares do mundo.

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sábado, 19 de julho de 2025

O sentido da vida (1)



Uma vida humana

O homem acordou naquele dia, olhou um pouco para o teto, até firmar a consciência sonolenta, e se levantou. Começava mais um dia em sua vida.

Entre o quarto e a sala, olhou para a bagunça ao redor, pensando no que arrumar ou limpar naquela manhã: dois dias antes havia estabelecido o propósito de fazer alguma coisa todo dia, nem que fosse por meia hora.

Tomou um copo d'água e olhou a cozinha. Pensou se mexia ali ou na sala. Foi ao banheiro com o kindle na mão. Leu alguns parágrafos do livro "O trato dos viventes", do Alencastro. 

A Corte portuguesa através de alvarás em 1554 e 1559 lançava incentivos fiscais para se desenvolver engenhos na Terra de Santa Cruz cobrando dos "empreendedores" um terço das taxas na aquisição de 120 africanos por engenho criado. Capturar pessoas e vendê-las era uma atividade de "empresários" e de Estado.

O homem pegou frutas, leite, um pão de dois dias, fez uma vitamina, passou o pão no fogo, tomou seu café naquele sábado, lavou a louça e foi limpar o pó acumulado na estante da sala.

Para o dia, havia ainda o desejo de terminar a leitura de um livro de ficção e ler textos de um blog de uma professora poeta.

O passado descrito por Alencastro pode ser o futuro no tempo daquele homem vivendo mais um dia no lindo planeta azul.

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segunda-feira, 14 de julho de 2025

Instantes (11h05)



Refeição Cultural

"Não me entrego sem lutar

Tenho ainda coração 

Não aprendi a me render

Que caia o inimigo então..."

(Metal contra as nuvens, Legião Urbana)


Tinha o hábito de correr quilômetros na praia nos dias de férias passados na Praia Grande. Já no tempo das dores, cheguei a fazer uma corrida de 10K. Esporte é vida.

Ontem, domingo, o movimento na praia estava como gosto: o povão da classe trabalhadora se divertia do jeito que dá, como canta e conta os Racionais MC's.

Minha formação mental baseada nas utopias da esquerda faz com que meus pensamentos observem o que vejo e façam conexões com possibilidades de acontecimentos futuros: tendências e perspectivas.

Enquanto andava pela praia, vendo o povo e as construções na orla, pensei muitas coisas. Cito uma reflexão: pensei com tristeza no povo e na orla da praia na Faixa de Gaza, na Palestina. Quem garante que nós não seremos eles amanhã? Não há garantias. 

Num mundo cuja lei é a força das bombas e dos "embargos econômicos" e não mais da diplomacia, podemos ser os palestinos amanhã. 

Faz tempo que avalio que o império criminoso do Norte iria fazer com o Brasil e seu povo o que faz com Cuba, Venezuela, Irã, o povo palestino e outros alvos. Me parece que chegou a hora de experimentarmos do veneno aplicado a Cuba. 

Não estamos preparados, não tivemos uma educação cubana, martiana, a esquerda aqui ainda quer "conciliar" com os hitlers da atualidade...

É a minha impressão a partir do que observo ao meu redor em meu mundo. Torço para estar errado.

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Então, ontem, após quilômetros andando pela areia, pensei na música do Legião Urbana, me lembrei do metal que me forjou, e corri 2K na areia da praia, beirando o mar e sentindo o cheiro da maresia.

Danem-se as dores. Não me entrego sem lutar. Tenho ainda coração. Não aprendi a me render. Que caia o inimigo então. 

William 

14/07/25

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Instantes (15h44)


Era uma palmeira linda...

Refeição Cultural 

Foi só o vento aumentar um pouco por causa da frente fria e ficamos sem energia elétrica no condomínio. Mais uma vez, uma folha de palmeira caiu sobre os fios e o transformador explodiu. Os homens, irados, deram o troco na natureza e arrancaram todas as folhas da palmeira. É mais fácil eliminar a árvore que fazer manutenção. 

Enquanto estamos sem luz elétrica, e a vida conectada parada por algumas horas, vejo a dificuldade que as pessoas têm de manter a calma e o controle básico psicológico para lidar com mudanças na rotina de suas vidas digitais. 

O humano, principalmente o urbano, não tem estrutura psicológica para suportar uma interrupção de serviços públicos essenciais (privatizados em benefício do lucro de alguns) como energia, água, internet, transporte etc.

Neste momento desconectado e sem energia elétrica, estou pensando em nossas irmãs e irmãos da Faixa de Gaza, Palestina, sem água, comida, Internet, energia, casa, hospitais... e sob ataques assassinos para roubarem sua terra, seu chão. 

William

Poema 30: Oração como utopia


ORAÇÃO COMO UTOPIA


Enquanto me banhava

meus pensamentos oravam

pedindo ajuda e proteção:

aos palestinos violentados,

aos viciados em drogas, 

aos imigrantes sem chão, 

às mulheres sem liberdade, 

às vítimas da depressão, 

aos odiados e perseguidos,

a quem falta o pão. 


Ateu não fala com deuses,

mas a razão consciente

sabe ser possível a mudança 

pela inteligência humana. 


Falemos de mudança!

Sejamos sonhadores!

Esperancemos!

Utopia, já!

Amém!


William 

28/05/25


sábado, 19 de abril de 2025

Hereges



Umberto Eco ambientou um romance no século XIV, na região de reinos que viria a ser a Itália no século XXI. Falo do livro "O Nome da Rosa", de 1980.

Naquele tempo, se queimavam pessoas em praça pública. Os inquisidores tinham poder de vida ou morte sobre os seres humanos. 

Um dia, no caixa da agência do Banco do Brasil, estava conversando com uma colega de trabalho, quando disse a ela que era ateu (herege). Ela me olhou com os olhos vidrados, estupefata, e depois do choque, me disse que até então eu era uma pessoa muito legal. Era o ano dois mil, fim do século XX.

Da ambiência do romance de Umberto Eco, na idade média, até o século XXI, os seres humanos desenvolveram ciências por quase 700 anos. Criamos tecnologias antes impossíveis sequer de imaginar. 

No entanto, pelas consequências do que fizemos nesses séculos de ciência, e por sermos o que somos, seres dotados de um cérebro altamente desenvolvido, mas crédulos em qualquer abstração inventada por um de nós, vamos desaparecer da Natureza.

As pombas, as galinhas, baratas, quiçá animais mais complexos, que já habitavam a Natureza antes de nós, talvez sigam por aqui, nos destroços que deixarmos.

A Terra voltará a ser habitada somente por hereges. Os deuses já se empapuçaram desses crentes que matam, enganam e destroem em nome deles.

William 


terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Poema 18: Canalhas não merecem viver


CANALHAS NÃO MERECEM VIVER


Canalha, o dicionário ensina

é gente vil, escória social, ralé,

é pessoa infame, um biltre, um patife.

Completo: um ser que não merece viver.


A cena do ciclista morto por nada...

A idosa sendo mordida e chutada...

O fardado matando o jovem na calçada...

Canalhas! Essa gente não merece viver.


Canalha rentista, que manipula a bolsa;

que bate em frentista; de fala racista;

que agride e humilha o entregador.

Essa ralé que usa talher, viver não merece. 


Por culpa desses patifes, tá foda a vida.

Tem canalha fardado, pé de chinelo, 

canalha eleito, canalha padre, pastor,

canalha de Porsche, jatinho, rolex.


Canalha que rouba orçamento público,

que só faz lei que fode o povão,

que corta direitos, que impede o pão.

Canalhas, repito, não merecem viver.


Tem canalha cheio da grana, ladrão!

Que só rouba pobre, seus irmãos.

Que maltrata idoso, mulher e criança.

Que destrói a natureza, nossa mãe.


Tem canalha que mata e mutila

em ritmo de indústria... genocida!

Gente vil, sofistas! Que só fazem sofrer.

Canalhas, concluo, não merecem viver.


(Defendam a democracia! Em regime autoritário prevalece o arbítrio do canalha)


William

18/02/25


domingo, 9 de fevereiro de 2025

Poema 12: Enquanto comia em silêncio


ENQUANTO COMIA EM SILÊNCIO


Pensava no quanto se perde

de pensamentos e reflexões

por não se comer em silêncio

durante nossas refeições. 


Eu mesmo viajei nas ideias 

sobre meu livro, o que fazer,

pra quem enviar, o que dedicar;

pensei nomes, lembrei-me de histórias, 

referências de lutas, modelos que segui.


Mudei no passado pelas oportunidades que tive.

Os nomes que por minhas lembranças passaram, 

frearam instintos e o novo homem moldaram. 

As instituições de classe, idem.


De Marcos Martins a Deise Lessa,

de Sérgio Rosa a gente à beça,

fui mudando pela prática e ensinamento

de amigos feito Recoaro e Carlão: bom exemplo!


Até no abraço de despedida,

Alicinha me mudou na vida.


Num almoço em silêncio, 

sem o inferno do zumzum da política,

lembrei-me de muita gente

que ainda hoje considero querida.


William 

09/02/25


domingo, 2 de fevereiro de 2025

Poema 7: Envelhecemos


ENVELHECEMOS


Eu a via andando pela passarela

da estação de trem do Altino,

muito pequenininha que era;

crianças largadas ao destino.


Eu passava por ela indo para o sindicato.

Ela e a família mulambenta

iam e vinham brigando e brincando;

vidas sem oportunidades.

Quede o governo, o Estado?


O tempo foi passando... seguimos pelas ruas;

um quarto de século de encontros e desencontros:

"Tio, paga um lanche pra mim?"


A criança envelheceu rápido, sobreviveu como pode.

Quando a via pelas ruas, já no corpo adolescente,

na lembrança via a carinha da infância, sempre.


Hoje quando a vi, se levantando da calçada,

doeu fundo o coração ao ver aquela senhora.

Ia eu com minhas dores no quadril,

vinha ela toda encolhida e mulambenta.


Envelhecemos pelas ruas.

As oportunidades que tive

não teve aquela criança. 

Dois animais humanos

numa sociedade desumana.


Podemos mudar tudo isso.

A sociedade do amanhã depende

das oportunidades oferecidas 

para as crianças do presente.


William 

02/02/25


quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Leitura - O Nome da Rosa - Umberto Eco (1)



Refeição Cultural 

Quinta-feira, 23 de janeiro de 2025.


"Porque esta é uma história de livros, não de misérias quotidianas, e a sua leitura pode nos inclinar a recitar, com o grande imitador de Kempis: 'In omnibus requiem quaesivi, et nusquam inveni nisi in angulo cum libro' - 5 de janeiro de 1980*." (p. 16)

*Procurei descanso em tudo e não encontrei em lugar nenhum senão num canto com um livro (tradutor do Google)


São tantos os clássicos que não conheço ainda que fico meio perdido quando penso na escolha de um livro para me sentar num canto do mundo e descansar. 

Descansar do ódio da política dos homens. Descansar da falta de consideração. Descansar das mentiras como armas fascistas na guerra de dominação. 

Um livro para descansar a alma, para alimentar a alma e dar algum sentido na aventura humana. 

Das várias lacunas culturais, escolhi desta vez o clássico de Umberto Eco: O Nome da Rosa, de 1980.

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RESENHA DURANTE A LEITURA 

Divisões do tempo: cada dia na abadia ou mosteiro onde se passa a história é dividido em períodos determinados do dia: Matinas (de 2h30 a 3h), Laudes (entre 5 e 6h), Primeira (em torno de 7h30), Terceira (por volta de 9h), Sexta (meio-dia), Nona (14 a 15h), Véspera (16h30 ou perto do pôr do sol) e Completas (em torno das 18h, até umas 19h).

O livro começa com os seguintes textos: "Um manuscrito, naturalmente", "Nota" e o "Prólogo".

Pelos textos iniciais, o leitor fica sabendo que vai ler os relatos de Dom Adson (ou Adso) de Melk, do século XIV, sobre a missão do frade franciscano inglês Guilherme de Baskerville em uma abadia italiana. Adso era seu ajudante.

"(...) Quanto à época em que se desenvolvem os eventos descritos, estamos em fins de novembro de 1327; quando porém tenha escrito o autor é incerto. Calculando que se diz noviço em 1327 e já próximo da morte quando escreve suas memórias, podemos conjecturar que o manuscrito tenha sido elaborado nos últimos dez ou vinte anos do século XIV" (p. 14)

O livro é dividido em partes representadas pelos dias: primeiro dia, segundo dia etc.

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PRIMEIRO DIA

O frei Guilherme de Baskerville e seu ajudante Adso de Melk vão a uma abadia para tratativas políticas, mas acabam por investigar a estranha morte de um monge, Adelmo de Otranto.

Depois, o leitor fica sabendo que frei Guilherme está incumbido de organizar na abadia um encontro "diplomático" entre representações do imperador e do papa. (A partir da p. 172)

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CENA DE LEITURA: Li o começo da obra sob o silêncio da madrugada, na Colônia do Sinpro da Praia Grande, a descrição feita por Adso de Melk sobre a primeira visita dele e do frei Guilherme de Baskerville à igreja da abadia. 

Enquanto Adso descrevia uma cena demoníaca em pinturas e esculturas, eu ouvia vez por outra os medonhos sons da noite... 

O livro me apresentava os personagens Salvatore e o monge Ubertino de Casale. (p. 66)

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Na cena de leitura acima, faltou dizer que, de vez em quando, uma coruja começava a piar sem parar... São os sons da noite.

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Diálogo entre frei Guilherme e Ubertino

Inquisição - Foi um debate interessante. Sobre influências do demônio e inquisições. Guilherme era inquisidor e desistiu da função. Ubertino era a favor de queimar na fogueira algumas pessoas inocentadas por Guilherme. 

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Frei Guilherme e Adso conhecem o bibliotecário Malaquias de Hildeshein e seu ajudante, Berengário de Arundel, no scriptorium. Antes, conversaram com o padre herborista Severino de Sant'Emmerano (p. 85 adiante).

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Já no fim do primeiro dia (Vésperas), frei Guilherme faz uma discussão com o vidreiro Nicola de Morimondo muito interessante sobre a ciência na mão de pessoas não sábias. (A partir da p. 106)

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SEGUNDO DIA

O segundo dia na abadia começou com a descoberta de mais um corpo - o monge Venâncio de Salvamec -, encontrado de cabeça para baixo numa pocilga de sangue de porcos.

Há um bom resumo da conversa do dia anterior, que contou com a participação do falecido monge Venâncio, na p. 136 da minha edição. É citada, nos debates, a obra "Poética", de Aristóteles.

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O RISO - Debate entre frei Guilherme de Baskerville e o ancião cego Jorge de Burgos sobre o gênero comédia e o riso (p. 158):

Jorge: "(...) O riso sacode o corpo, deforma as linhas do rosto, torna o homem semelhante ao macaco."

Guilherme: "Os macacos não riem, o riso é próprio do homem, é sinal de sua racionalidade."

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GUERRA É GUERRA: Na p. 182, o abade diz não se importar com o assassinato de toda uma comunidade por suspeita de heresia.

"(...) E, quanto aos hereges, também tenho uma regra, e se resume na resposta que deu Arnaldo Amalrico, abade de Citeaux, a quem lhe perguntava o que fazer dos cidadãos de Béziers, cidade suspeita de heresia: matai-os todos, Deus reconhecerá os seus."

Frei Guilherme relembrou, constrangido, que foram mortos quase vinte mil pessoas a fio de navalha incluindo mulheres e crianças... depois a cidade foi saqueada. 

(COMENTÁRIO: Alguma semelhança com um certo massacre atual numa terra chamada Faixa de Gaza, Palestina?)

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NOS LABIRINTOS DA BIBLIOTECA 

"(...) Este lugar de sabedoria proibida é protegido por muitos e sapientíssimos achados. A ciência usada para ocultar, ao invés de iluminar. Não me agrada. Uma mente perversa preside à santa defesa da biblioteca..." (p. 206)


O segundo dia chegou ao fim. Frei Guilherme e Adso visitaram a biblioteca da abadia no meio da noite. 

Quase ficaram perdidos por lá em seus labirintos. 

Ao voltarem do primeiro escrutínio à biblioteca, às escondidas, encontram o abade naquela madrugada (matinas). O abade diz que Berengário, o ajudante do bibliotecário, está desaparecido.

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Frases para reflexão 

A EFEMERIDADE DAS COISAS E DA VIDA

"(...) Nada é mais fugaz que a forma exterior, que perde o viço e muda como as flores do campo com o aparecimento do outono." (p. 25)

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O DIABO PODE TENTAR A TODOS 

"'Mesmo um inquisidor pode ser impelido pelo diabo', disse Guilherme." (p. 44)

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A BIBLIOTECA DA ABADIA 

"Sei que tem mais livros que qualquer outra biblioteca cristã. Sei que diante de vossas estantes as de Bobbio ou de Pomposa, de Cluny ou de Fleury parecem o quarto de um menino que mal se inicia no ábaco. Sei que os seis mil códices de que se vangloriava Novalesa há mais de cem anos são poucos diante dos vossos, e talvez muitos deles agora estejam aqui. Sei que a vossa abadia é a única luz que a cristandade pode opor às trinta e seis bibliotecas de Bagdá, aos dez mil códices do vizir Ibn al-Alkami, que o número de vossas bíblias iguala-se aos dois mil e quatrocentos corões de que dispõe o Cairo, e que a realeza de vossas estantes é luminosa evidência contra a soberba lenda dos infiéis que há anos queriam (íntimos que são do príncipe da mentira) a biblioteca de Trípoli rica em seis milhões de volumes e habitada por oitenta mil comentadores e duzentos escribas." (p. 51)

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AINDA A BIBLIOTECA DA ABADIA 

O abade não quer permitir o acesso de frei Guilherme de Baskerville. A biblioteca é tão protegida que só o bibliotecário a conhece.

"(...) Somente o bibliotecário, além de saber, tem o direito de mover-se no labirinto dos livros, somente ele sabe onde encontrá-los e onde guardá-los, somente ele é responsável pela sua conservação (...) Porque nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais por uma alma piedosa, e os monges, por fim, estão no scriptorium para levar a cabo uma obra precisa, para a qual devem ler alguns e não outros volumes, e não para seguir qualquer insensata curiosidade que porventura os colha, quer por fraqueza da mente, quer por soberba, quer por sugestão diabólica." (p. 54)

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MAGIAS DE DEUS E DO DIABO

"(...) Porém existem duas formas de magia. Há uma magia que é obra do diabo e que visa a ruína do homem através de artifícios de que não é lícito falar. Mas há uma magia que é obra divina, lá onde a ciência de Deus se manifesta através da ciência do homem, que serve para transformar a natureza, e um de cujos fins é prolongar a vida humana..." (p. 109, sobre os óculos)

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A CIÊNCIA E A QUESTÃO DA ÉTICA: DEVE HAVER LIMITE NA CIÊNCIA?

"Porque a ciência não consiste só em saber aquilo que se deve ou se pode fazer, mas também em saber aquilo que se poderia fazer e que talvez não se deva fazer. Eis por que hoje eu dizia ao mestre vidreiro que o sábio deve guardar de todos os modos os segredos que descobre, para que outros não façam mau uso deles, mas é preciso descobri-los, e esta biblioteca me parece mais um lugar onde os segredos permanecem encobertos." (p. 120)

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O POVO É MASSA DE MANOBRA NAS RELIGIÕES

"Estou dizendo que muitas dessas heresias, independentemente das doutrinas que sustentam, encontram sucesso junto aos simples, porque lhes sugerem a possibilidade de uma vida diferente. (...) Os simples são carne de matadouro, de se usar para colocar em crise o poder adverso, e para sacrificar quando não prestam mais." (p. 180/181)

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COMENTÁRIO FINAL

Sigamos na leitura e releitura dessa obra monumental de Umberto Eco. Finalizei os dois primeiros dias da história.

Antes de seguir adiante, acho que vou reler alguns diálogos que ocorreram nas primeiras duzentas páginas.

É isso. O mundo anda o caos com a ascensão do nazifascismo no século XXI. Vamos procurar algum descanso pegando um bom livro e achando um canto para desfrutar dessa maravilhosa invenção do ser humano: os livros.

William


Bibliografia:

ECO, Umberto. O nome da rosa. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Coleção Mestres da Literatura Contemporânea. Editora Record/Altaya. Rio de Janeiro: 1986.


quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Diário e reflexões - Uma semana de paz



Refeição Cultural 

Praia Grande, 16 de janeiro de 2025. Quinta-feira.


Os dois lugares que considero o paraíso na terra são dois lugares simples e de acesso a pessoas comuns da classe trabalhadora: o Parque do Sabiá, em Uberlândia, e a Colônia do Sinpro SP, na Praia Grande. 

Passamos uma semana de paz e tranquilidade na Colônia dos Professores aqui na Praia de Caiçara. Caminhei, dei uns trotinhos no calçadão e nadei um pouco todos os dias.

Comecei a leitura do clássico de Umberto Eco, "O nome da rosa". Repito o que digo sempre que começo a leitura de um livro bem escrito: escritores são pessoas incríveis! É extraordinário o que supera um escritor para nos legar um bom livro!

Até onde li, já vi grandes reflexões sobre os livros, sobre a mentira, sobre os dogmas e opressões das religiões inventadas pelos homens. Sim, pelos homens!

A história se passa no século 14. Era prática queimar pessoas, torturar pessoas, oprimir a maioria através da força e da superstição. Século 14.

E pensar que no século 21 é prática oprimir a maioria das pessoas através da força e da superstição... setecentos anos de ciência e estamos no mesmo ponto na sociedade humana...

Nesta semana, o governo Lula voltou atrás numa medida que visava identificar grandes sonegadores e gente que lava dinheiro sujo (sobre movimentações altas por Pix). Uma mentira disseminada pelos dominadores dos meios de manipulação de massas derrotou o governo, que, humilhado, voltou atrás... vitória dos manipuladores!

Que dizer?

William 


quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (32) - Spleen, Baudelaire



SPLEEN - BAUDELAIRE


Lembro-me mais do que se eu tivesse mil anos.


Um grande contador cheio de antigos planos,

Versos, cartas de amor, autos, literaturas,

Um cacho de cabelo enrolado em facturas,

Não tem segredos como o meu cérebro inquieto.

É uma pirâmide, um jazigo amplo e repleto:

Não há fossa comum que mais mortos possua.


- Eu sou um cemitério odiado pela lua,

Onde, como remorsos maus, vermes compridos

Andam sempre a atacar meus mortos mais queridos.

Sou como um camarim em que há rosas fanadas,

Toda uma confusão de modas já passadas,

Gravuras de Boucher que ainda aspiram decerto

O perfume sutil de um velho frasco aberto. 


Nada é igual ao torpor desses trôpegos dias,

Quando, ao peso das cãs de antigas invernias,

O tédio, a morna falta de curiosidade, 

Assume as proporções da própria eternidade. 

- Doravante hás de ser, matéria viva! o escombro

De um granito que causa em torno um vago assombro

Perdido nos confins de um Saara brumoso!

Velha esfinge que o mundo ignora, descuidoso,

Esquecida no mapa, e de um feroz desgosto,

Que só sabe cantar aos clarões do sol-posto.


Vocabulário: Guilherme de Almeida, nas explicações em notas sobre o poema:

Spleen: "Aí, Baudelaire, como num intencional descaso - a dar mesmo ideia de 'spleen', isto é, de indiferença e desânimo..."

Contador: "o velho e nobre móvel tão nosso"

-

Recriação em português por Guilherme de Almeida 

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COMENTÁRIO:

Me identifiquei com o Eu-lírico do poema, deste spleen de Baudelaire. 

A 2a estrofe, da comparação do móvel velho cheio de coisas em relação ao cérebro com mais coisas ainda, serviu para meu momento atual. 

Meu cérebro, minha pirâmide, meu jazigo. 


"Nada é igual ao torpor desses trôpegos dias,"

E quando penso na falta de consideração dos dias...

"Velha esfinge que o mundo ignora, descuidoso,"


Enfim, terminando o livro de Guilherme de Almeida, já não serei um total ignorante em Baudelaire. 

William 


Bibliografia:

ALMEIDA, Guilherme de. Flores das "Flores do Mal" de Baudelaire. Introdução de Manuel Bandeira. Carvões de Quirino. Ilustrações de Rodin. Clássicos de Bolso, Ediouro/20349.


quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Diário e reflexões - Ushuaia em movimento (ARG)


Docentes na luta pela educação.

Refeição Cultural

Ushuaia (ARG), 28 de novembro de 2024. Quinta-feira


Ushuaia em movimento

No dia que chegamos à cidade, um domingo, almoçamos perto do Hotel Albatros, onde nos hospedamos. Em frente ao hotel, um veículo de city tour chama a atenção por sua caracterização: fotos e maquetes com motivos de presidiários e força policial.

Soubemos que a cidade fundada em 1884 teve sua população aumentada por causa do presídio e dos presos transferidos de diversas regiões do país para cumprirem penas em Ushuaia, por causa das características da cidade de isolamento e lugar desafiador à vida humana. Era a Alcatraz dos argentinos.

No city tour, passado com presidiários.

ALMOÇO E JANTA

Sendo o almoço a nossa primeira refeição local, não tínhamos muita noção dos preços. Os dois pratos de macarrão, suco e cerveja foram caros, pagamos 52.000 pesos no cartão (mais de 300 reais na conversão!). Após essa referência, tivemos mais facilidade em perceber o valor das coisas em Ushuaia e procuramos locais mais em conta para comer.

Povoamento de Ushuaia contou com colônia penal.
Foto no veículo de city tour em frente ao hotel.

Almoçamos no primeiro dia com um casal de brasileiros que conhecemos no avião. Foi um momento de interação com pessoas de nosso país, moradores do Rio de Janeiro.

Como passamos a noite de sábado acordados, tivemos que dormir um pouco no domingo à tarde, para podermos andar pela cidade de noite.

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Locais imitam presos para pessoas de diversos países.

A cidade é muito visitada por estrangeiros da Europa, pelo que pude perceber, e por asiáticos. Aqui tem muitos orientais, talvez chineses, porque o sistema de tradução do "Trem do fim do mundo" tem versão das explicações em mandarim.

Imagino que para turistas com poder de compras em Dólar ou Euro as coisas aqui devam estar com preços razoáveis, ou baratos; já para um turista brasileiro, com poder de compra em Real e um câmbio no cartão de mais ou menos 165, tudo é muito caro. Para se pagar em real, se consegue até 200 no câmbio (uns 20% melhor). 

Como disse na postagem anterior (ler aqui), cobrar quase 500 reais para um casal visitar um museu é algo surreal, fora de lógica.

Pobreza do povo sob o governo de Milei.

A Argentina está passando por um período difícil, a considerar o povo e a classe trabalhadora, pois o governo atual, de extrema-direita, está impondo pesados custos para os mais pobres no país, e os trabalhadores aqui enfrentam os mesmos problemas que os de outras partes do mundo. As mazelas do capitalismo estão para além das fronteiras nacionais.

Na quarta-feira de manhã, ao ouvir uma manifestação na rua principal, saí do hotel para verificar o que seria e era uma manifestação das professoras e professores das escolas públicas de Ushuaia. Eles estão em luta por recomposição salarial.

Em defesa da
educação pública.

As jornadas de trabalho aqui devem ser excessivas como no caso dos trabalhadores brasileiros. As mesmas pessoas que vemos atendendo na hora do almoço nos estabelecimentos, vemos atendendo de noite. De novo: me parece que essa situação é característica em países "ferozmente" capitalistas. A jornada 6x1 massacra aqui e no Brasil.

Enfim, impressões que fui tendo entre domingo e quarta-feira.

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Em Ushuaia, um esquerdista e uma professora.

NO BRASIL, BOLSONARISMO NO CONGRESSO TENTA DESVIAR ATENÇÃO PARA OS CRIMES SOB INVESTIGAÇÃO

Enquanto isso no Brasil, a maioria parlamentar de extrema-direita, uma maioria de gente desqualificada e odiosa eleita após o auge da operação lesa-pátria chamada Lava Jato, abriu a temporada de pautas bombas para tentar salvar os golpistas liderados pelo clã bolsonario, que planejou um golpe de Estado com assassinato de Lula, seu vice e um ministro do STF. 

O bolsonarismo fascista aprovou na CCJ uma PEC do estupro pior que a anterior que havia pautado antes. Se depender dessa gente, nenhuma criança estuprada faria o aborto. Querem desviar a atenção dos crimes de seus líderes com pautas sensíveis aos direitos humanos e das maiorias excluídas dos direitos sociais, civis e políticos no país.

Mundo em movimento intenso.

William Mendes


terça-feira, 26 de novembro de 2024

Diário e reflexões - Ushuaia (ARG)


Vista aérea.

Refeição Cultural

Ushuaia (ARG), 26 de novembro de 2024. Terça-feira.


Impressões

Escrever sobre um lugar que se está conhecendo enquanto a viagem está em curso não é um trabalho simples para mim. Em geral, prefiro estudar um pouco a respeito da geografia do local, da cultura de seu povo e da história daquela comunidade para me sentir mais confiante em não escrever bobagem.

Extremo Sul da Argentina.

Estamos em Ushuaia, na Argentina, a cidade mais austral do país e do continente americano. Mais "austral" significa mais ao Sul. Pelo que ouvimos por aqui, estamos a cerca de mil quilômetros da Antártida. Como estamos em novembro, não está em período de neve, porém, faz frio diariamente. Nesta semana, a temperatura está entre 4 e 5º e chegando a 13º. Anoitece depois das 22h e amanhece lá pelas 5h da manhã. O vento é muito gelado.

Paisagem da janela.

Saímos de São Paulo no sábado de noite e após dois voos ao longo da noite, chegamos a Ushuaia pouco depois das 10h da manhã. Viemos pela companhia aérea Aerolineas Argentinas. Não houve atrasos e correu tudo bem nos voos. São umas três horas até Buenos Aires e mais três horas e pouco até a "Terra do fim do mundo", um dos simpáticos apelidos da cidade. Os assentos dos voos são muito apertados, alguém maior que nós sofreria muito.

Calle San Martín.

Tudo aqui é muito caro, ao fazer o pacote de viagem já sabíamos disso. Achamos melhor contratar os passeios que faríamos com nossa agente de viagem. Querem exemplos de valores em reais na conversão ao pagar com cartão de crédito? Dois pratos de macarrão com refrigerante num mercadinho local: 162 reais (26.800 pesos). Duas garrafas de 1,5L de água: 30 reais (4.800 pesos). Uma refeição pode custar de 10.000 a 35.000 pesos, ou seja, de 60 a 200 reais, uma refeição! Sabem quanto custam duas entradas no museu local? 36.000 pesos cada (uns 450 reais o casal).

Hotel Albatros.

Apesar de apontar essa primeira impressão sobre os preços das coisas e os perrengues comuns de voos como, por exemplo, assentos apertados, a viagem para conhecer a cidade de Ushuaia está valendo muito a pena. É evidente que há nos preços locais um componente relativo às características da cidade: distante de tudo e foco no turismo. 

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Comendo uma pizza.

Viajar é uma experiência incrível e conhecer lugares e culturas diferentes da nossa é algo que nos marca para sempre.

Se conseguir, vou fazer algumas postagens sobre a experiência cultural ao se visitar o "fim do mundo". 

Na extensão do Blog Refeitório Cultural, dedicada a fotos, farei postagens com imagens que tenha gostado (ver aqui).

William Mendes

26/11/24