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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Dom Quixote de La Mancha - Cervantes (7)


Eu com Cervantes em Toledo, 2009


Refeição Cultural

"Pagan a las veces justos por pecadores" (El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1, Miguel de Cervantes)


Tive o privilégio de ler o clássico de Miguel de Cervantes no início dos anos dois mil, eu havia entrado na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo naquele momento. Li uma edição comemorativa da Alfaguara na ocasião dos 400 anos de lançamento da obra.

Foi uma das maiores aventuras literárias de minha vida. Ri e chorei enquanto lia as aventuras e desventuras de Dom Quixote e de seu fiel escudeiro Sancho Pança.

Pegar e ler qualquer capítulo dos dois volumes é um ato de prazer, de satisfação e de comemoração à capacidade humana para a construção de coisas grandiosas quando os humanos se dedicam a fazer coisas boas. Miguel de Cervantes nos legou Dom Quixote e Sancho Pança. Só temos a agradecer a ele por isso.

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CAPÍTULO 7

"De la segunda salida de nuestro buen caballero don Quijote de la Mancha"


Os "amigos inquisidores" de nosso aficionado leitor, Alonso Quijana, ainda estavam expurgando os livros de sua biblioteca, alimentando a fogueira no quintal com volumes de cavalarias, poesia, novelas e quase tudo que o ancião tinha, quando o acamado cavaleiro começou seus delírios e chamou a atenção do cura e do barbeiro.


Aquella noche quemó y abrasó el ama cuantos libros había en el corral y en toda la casa; y tales debieron de arder, que merecían guardarse en perpetuos archivos; mas no lo permitió su suerte y la pereza del escrutiñador, y así se cumplió el refrán en ellos de que pagan a las veces justos por pecadores.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1 [Spanish Edition]” por “Miguel de Cervantes”)


Nosso cavaleiro andante encontra seu fiel escudeiro Sancho Pança:


En este tiempo solicitó don Quijote a un labrador vecino suyo, hombre de bien (si es que este título se puede dar al que es pobre), pero de muy poca sal en la mollera. En resolución, tanto le dijo, tanto le persuadió y prometió, que el pobre villano se determinó de salirse con él y servirle de escudero.” (ibidem)


Sancho Pança aceita convite do vizinho Alonso Quijana, agora cavaleiro andante:


Con estas promesas y otras tales, Sancho Panza (que así se llamaba el labrador) dejó su mujer e hijos, y asentó por escudero de su vecino.


Poderia um honrado cavaleiro ter ao seu lado um escudeiro montado num burrico?


En lo del asno reparó un poco don Quijote, imaginando si se le acordaba si algún caballero andante había traído escudero caballero asnalmente; pero nunca le vino alguno a la memoria; mas con todo esto determinó que le llevase, con presupuesto de acomodarle de más honrada caballería en habiendo ocasión para ello, quitándole el caballo al primer descortés caballero que topase.


E então, cavaleiro andante e fiel escudeiro tomaram as veredas do Campo de Montiel em busca de aventuras e ilhas a serem conquistadas:


Acertó don Quijote a tomar la misma derrota y camino que él había tomado en su primer viaje, que fue por el Campo de Montiel...


Sancho gostaria de ser rei para que sua companheira, Juana Gutiérrez, fosse rainha e os filhos infantes, mas ele não acreditava que isso pudesse acontecer:


- Yo lo dudo - replicó Sancho Panza-, porque tengo para mí que, aunque lloviese Dios reinos sobre la tierra, ninguno asentaría bien sobre la cabeza de Mari Gutiérrez. Sepa, señor, que no vale dos maravedís para reina; condesa le caerá mejor, y aun Dios y ayuda.


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Os comentários do capítulo anterior podem ser lidos aqui.

Sigamos lendo e nos mantendo humanos.

William

sábado, 17 de maio de 2025

Dom Quixote de La Mancha - Cervantes (6)


Dom Quixote, de Gustave Doré.


Refeição Cultural

"Causó risa al licenciado la simplicidad del ama, y mandó al barbero que le fuese dando de aquellos libros uno a uno, para ver de qué trataban, pues podía ser hallar algunos que no mereciesen castigo de fuego." (El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1. Miguel de Cervantes)


Nosso valoroso e bem-intencionado Alonso Quijana, um aficionado leitor de livros de cavalaria da região castelhana de La Mancha (no ano 1605), está dormindo em sua cama, após sofrer as primeiras desventuras como cavaleiro andante. Ele foi encontrado por um vizinho, Pedro Alonso, após uma surra que levou de mercadores de Toledo (leitura anterior aqui).

Enquanto dorme e se recupera, seus amigos - o sacerdote Pero Pérez (el cura) e o barbeiro maese Nicolás -, e sua ama e sobrinha, decidem queimar os livros do fidalgo leitor. Vão seguir a cartilha da "santa inquisição" e meter no fogo tudo o que cause transtorno à ordem vigente, no caso, os livros que mexeram com as ideias do pacato leitor.

A cena é perturbadora. Enquanto o leitor apaixonado por seus livros dorme e se recupera de suas aventuras com pauladas, socos e pontapés, as pessoas de sua confiança tacam fogo em seu bem mais precioso: sua biblioteca.

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CAPÍTULO 6

"Del donoso y grande escrutinio que el cura y el barbero hicieron en la librería de nuestro ingenioso hidalgo"


O escrutínio dos livros de nosso fidalgo leitor começa por "Los cuatro", de Amadís de Gaula, o primeiro livro do gênero de cavalarias impresso na Espanha. O inquisidor - o cura - o condenou ao fogo... e o salvou da fogueira o auxiliar do "licenciado", o barbeiro, que clamou pela vida do livro de Amadís.

Na inquisição dos livros de Alonso Quijana, tem uma passagem interessante: o cura fala sobre a questão da tradução, ao falar das obras do poeta italiano Ludovico Ariosto (1474-1533), afirmando que só salvará da fogueira os livros dele na língua original, pois a versão para outro idioma como, por exemplo, o castelhano, "tirava muito do valor natural da obra".

“y aquí le perdonáramos al señor capitán que no le hubiera traído a España y hecho castellano, que le quitó mucho de su natural valor; y lo mesmo harán todos aquellos que los libros de verso quisieron volver en otra lengua; que, por mucho cuidado que pongan y habilidad que muestren, jamás llegarán al punto que ellos tienen en su primer nacimiento.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1 [Spanish Edition]” por Miguel de Cervantes)

O que os leitores verão é que poucos livros de cavalaria se salvarão da condenação à fogueira. Os de poesia terão o mesmo destino, tirando um ou outro que os inquisidores vão pegar para si mesmos (roubo, né?), privando o senhor Alonso de sua biblioteca.

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LA GALATEA se salvou...

“- La Galatea, de Miguel de Cervantes - dijo el barbero. 

- Muchos años ha que es grande amigo mío ese Cervantes, y sé que es más versado en desdichas que en versos. Su libro tiene algo de buena invención, propone algo, y no concluye nada; es menester esperar la segunda parte, que promete; quizá con la enmienda alcanzará del todo la misericordia que ahora se le niega; y entre tanto que esto se ve, tenedle recluso en vuestra posada.”

Cervantes tinha uma obra publicada ainda no século anterior, o XVI. A novela pastoril "Primera parte de la Galatea", que foi publicada em 1585, em Alcalá de Henares (Wikipedia). 

A professora Maria Augusta da Costa Vieira, da FFLCH, diz que a publicação é de 1581, logo após Cervantes retornar dos 5 anos de cativeiro em Argel. Fui aluno dela na Letras.

O inquisidor, o sacerdote Pero Pérez, disse ser amigo do escritor Cervantes e livrou La Galatea do expurgo e da fogueira por acreditar que a segunda parte da obra, nunca publicada, poderia salvá-la da danação. (A novela pastoril é inacabada)

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COMENTÁRIO FINAL

As aventuras e desventuras do engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha estão entre nós há mais de quatro séculos. Elas nos inspiram há muito tempo.

O livro e os personagens começaram como uma crítica aos livros de cavalaria, os best sellers da época, e foram ganhando outras leituras ao longo de sua história de vida, de leituras e de leitores.

Ao ler qualquer capítulo dos dois volumes de Dom Quixote, e a qualquer tempo, a leitora e o leitor acabam por encontrar acontecimentos, conceitos e reflexões que valem para si e que podem contextualizar o momento da leitura. Essa é a magia de uma obra universal!

Ao longo de quatro séculos, livros foram expurgados e lançados ao fogo. 

Ao longo desses últimos quatro séculos, pessoas idealizaram e saíram por aí para desfazer injustiças e mudar o mundo para honra de si próprias e para o bem de suas comunidades.

O personagem Dom Quixote de La Mancha inspira seres humanos há mais de quatro séculos.

Leiam, leiam, amigas e amigos leitores, se desconectem por algumas horas das redes das big techs e salvemos a humanidade.

William


segunda-feira, 24 de março de 2025

Operação Cavalo de Tróia (18) - J. J. Benítez



Refeição Cultural 

"Quanto a Judas Iscariotes, nunca cheguei a saber com exatidão quais teriam sido seus verdadeiros sentimentos. Em um ou outro momento pareceu-me notar em seu rosto sinais evidentes de desacordo e repulsa. É possível que tudo aquilo lhe parecesse infantil e risível. Como gregos e romanos, considerava grotesco e desprezível todo aquele que consentisse em montar um asno. Creio não me equivocar se deduzo que Judas estivera a ponto de abandonar ali mesmo o grupo. Possivelmente detivera-o o fato de ser ele o 'administrador' dos bens. Isso significava uma possibilidade de dispor de dinheiro, e Judas sentia especial inclinação pelo ouro." (p. 168/169)


Quem descreve e analisa um dos apóstolos de Jesus Cristo na passagem acima é o astronauta do futuro - Jasão -, personagem de nossos tempos (século XX), infiltrado na comitiva do nazareno lá na longínqua Palestina do ano 30.

Esse é o enredo do livro "Operação Cavalo de Tróia" do escritor e jornalista J. J. Benítez, publicado pela primeira vez em 1984.

Quando li a história pela primeira vez, ainda adolescente, fiquei fascinado com a riqueza de detalhes contida no romance. 

O leitor daquela época era um cidadão brasileiro como a maioria em seu ambiente social, era católico e acreditava em toda sorte de abstrações criadas pela mente humana. 

Mesmo lendo hoje, sendo um materialista, acho o livro incrível! Ficção bem-feita é isso!

A postagem anterior pode ser lida aqui.

William 


terça-feira, 4 de março de 2025

Dom Quixote de La Mancha - Cervantes (5)


Don Quijote em Toledo, Espanha.


Refeição Cultural

“-Yo sé quién soy - respondió don Quijote-, y sé que puedo ser no sólo los que he dicho, sino todos los Doce Pares de Francia y aun todos los nueve de la Fama, pues a todas las hazañas que ellos todos juntos y cada uno por sí hicieron, se aventajarán las mías.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1 [Spanish Edition]” por “Miguel de Cervantes”)


Sigo na aventura de acompanhar nosso cavaleiro andante em suas primeiras façanhas. Após os incidentes da primeira saída de Dom Quixote, já é dado a ele a primeira alcunha: "El herido Caballero del Bosque".

Depois de "salvar" o pobre Andrés do açoite (no capítulo anterior: aqui), Dom Quixote quis que um grupo de mercadores de Toledo enaltecesse a beleza sem igual de sua amada Dulcinea del Toboso.

Ele se deu mal no confronto com a turba (os mercadores) porque Rocinante escorregou no caminho. Levou muita pancada e não conseguiu mais se levantar.

Neste capítulo, o senhor Alonso Quijana é encontrado nessa situação por um vizinho, caído e todo moído de levar pauladas de um servo dos mercadores.

O bondoso conhecido - Pedro Alonso - vai levá-lo de volta pra casa.

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CAPÍTULO 5

"Donde se prosigue la narración de la desgracia de nuestro caballero"


Através de alguns trechos do capítulo 5 é possível compreender a criatividade e engenhosidade de Miguel de Cervantes no trato com seus leitores. 

Ele se mantém fiel ao que contratou com os leitores no "Prólogo", mas aos poucos nós leitores já vamos esquecendo o senhor Alonso Quijana e vamos nos envolvendo emocionalmente com Dom Quixote. 

Já vivi a experiência de ler os dois volumes do clássico cervantino. Depois que Dom Quixote sair novamente, a 2ª saída, já acompanhado de seu fiel escudeiro Sancho Pança, não nos lembraremos mais do senhor Quijana.

Seremos todos Dom Quixote.

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EXCERTOS

Senhor Alonso Quijana é encontrado pelo vizinho Pedro Alonso:

“Y quiso la suerte que, cuando llegó a este verso, acertó a pasar por allí un labrador de su mesmo lugar y vecino suyo que venía de llevar una carga de trigo al molino, el cual, viendo aquel hombre allí tendido, se llegó a él, y le preguntó que quién era, y qué mal sentía, que tan tristemente se quejaba. Don Quijote creyó sin duda que aquél era el marqués de Mantua, su tío, y así, no le respondió otra cosa sino fue proseguir en su romance, donde le daba cuenta de su desgracia y de los amores del hijo del emperante con su esposa, todo de la misma manera que el romance lo canta.”

O engenhoso cavaleiro andante está caído ao solo e segue esperando por um sábio ou sábia com alguma poção que o cure das feridas em batalha...

“-Señor Quijana - que así se debía de llamar cuando él tenía juicio y no había pasado de hidalgo sosegado -a caballero andante-, ¿quién ha puesto a vuestra merced desta suerte?”

Dom Quixote segue com suas lamúrias descrevendo cavaleiros e feiticeiros enquanto rola pelo chão todo moído. Ele entende que seu vizinho é um dos personagens que idealiza em sua cabeça. O vizinho insiste:

“-Mire vuestra merced, señor, ¡pecador de mí!, que yo no soy don Rodrigo de Narváez ni el marqués de Mantua, sino Pedro Alonso, su vecino; ni vuestra merced es Valdovinos, ni Abindarráez, sino el honrado hidalgo del señor Quijana.”

Nosso "Ferido Cavaleiro do Bosque" responde de forma convicta ao seu vizinho:

“-Yo sé quién soy - respondió don Quijote-, y sé que puedo ser no sólo los que he dicho, sino todos los Doce Pares de Francia y aun todos los nueve de la Fama, pues a todas las hazañas que ellos todos juntos y cada uno por sí hicieron, se aventajarán las mías.”

DE VOLTA AO LAR (fim da 1ª saída)

O vizinho chega com o senhor Alonso e encontra reunidos a ama e a sobrinha, o licenciado Pero Pérez - o cura - e o barbeiro senhor maese Nicolás, amigos do antes honrado fidalgo Alonso Quijana, leitor voraz de romances de cavalaria. Comentam que aquele tipo de leitura é coisa do demônio.

“Encomendados sean a Satanás y a Barrabás tales libros, que así han echado a perder el más delicado entendimiento que había en toda la Mancha.”

A sobrinha afirma:

“Mas yo me tengo la culpa de todo, que no avisé a vuestras mercedes de los disparates de mi señor tío, para que lo remediaran antes de llegar a lo que ha llegado, y quemaran todos estos descomulgados libros, que tiene muchos, que bien merecen ser abrasados, como si fuesen de herejes.”

Eles conversavam sobre as consequências da leitura daquelas histórias sem pé nem cabeça contadas nos livros de cavalaria, tão populares à época. 

Cervantes apresenta aqui a questão de se lançar os livros à fogueira, algo comum ao longo dos séculos e séculos, em um mundo dominado pela igreja e pelos monarcas.

O senhor Quijana segue sendo Dom Quixote e intervém na conversa ao redor dele, culpando o pobre pangaré nominado Rocinante:

“-Ténganse todos, que vengo mal ferido por la culpa de mi caballo: llévenme a mi lecho, y llámese, si fuere posible, a la sabia Urganda, que cure y cate de mis feridas.”

E vamos caminhando para o final do capítulo.

“Hiciéronle a don Quijote mil preguntas, y a ninguna quiso responder otra cosa sino que le diesen de comer y le dejasen dormir, que era lo que más le importaba. Hízose así, y el cura se informó muy a la larga del labrador del modo que había hallado a don Quijote. El se lo contó todo, con los disparates que al hallarle y al traerle había dicho, que fue poner más deseo en el licenciado de hacer lo que otro día hizo, que fue llamar a su amigo el barbero maese Nicolás, con el cual se vino a casa de don Quijote.”

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Amigas e amigos leitores, que romance extraordinário! A leitura de Dom Quixote foi uma das maiores aventuras literárias de minha vida.

William

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Dom Quixote de La Mancha - Cervantes (3)


Dom Quixote em Toledo, Espanha.

Refeição Cultural

“Contó el ventero a todos cuantos estaban en la venta la locura de su huésped, la vela de las armas y la armazón de caballería que esperaba.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1 [Spanish Edition]” por “Miguel de Cervantes”)

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CAPÍTULO 3

"Donde se cuenta la graciosa manera que tuvo don Quijote en armarse caballero"


Na sequência da leitura sobre as aventuras do senhor Alonso Quijano, que ficou meio doido de tanto ler livros de cavalarias, lá na longínqua Espanha de 1605, Miguel de Cervantes segue nos contando a história (estória) mantendo-se fiel ao contrato que fez com os leitores no Prólogo da obra.

O livro se trata de uma "invectiva" contra os livros de cavalaria, tão em moda na época. Uma invectiva é uma espécie de repreensão, crítica, insulto.

A essa altura do livro, ainda no início, alguns leitores já vão se apegando ao senhor de uns cinquenta anos que decidiu incorporar o espírito de um cavaleiro andante para sair pelo mundo consertando as coisas tortas e injustas em benefício de sua república e de si mesmo, ganhando com isso fama e o amor da amada Dulcinea del Toboso, outra idealização.

Neste capítulo, Dom Quixote pede ao dono da espelunca (vendeiro) que o abençoe como cavaleiro, realizando a cerimônia tradicional que todo mundo conhece porque está descrita nos livros de cavalaria. O senhor Quijano acha que está em um castelo e o proprietário já percebeu que ele está doido.


“El ventero, que vio a su huésped a sus pies, y oyó semejantes razones, estaba confuso mirándole, sin saber qué hacerse ni decirle, y porfiaba con él que se levantase; y jamás quiso, hasta que le hubo de decir que él le otorgaba el don que le pedía.” 


O capítulo é tão claro nos passos que vão acontecendo, que o dono da espelunca avisa a todos os fregueses que o idoso está doido e pergunta ao senhor Quijano se ele tem dinheiro porque tudo tem custo ali.


“Preguntóle si traía dineros; respondió don Quijote que no traía blanca, porque él nunca había leído en las historias de los caballeros andantes que ninguno los hubiese traído.” 


Nosso ilustre cavaleiro estranha a pergunta porque nunca leu que cavaleiros tinham que pagar as coisas.

O vendedor esperto passa a lábia no velhinho e explica que isso era coisa básica. Poderíamos dizer que a cena clássica de quatro séculos atrás não é diferente do que acontece hoje com os manipuladores e seus manipulados.


“y así, tuviese por cierto y averiguado que todos los caballeros andantes (de que tantos libros están llenos y atestados), llevaban bien herradas las bolsas, por lo que pudiese sucederles; y que asimesmo llevaban camisas y una arqueta pequeña llena de ungüentos para curar las heridas que recebían, porque no todas veces en los campos y desiertos donde se combatían y salían heridos, había quien los curase, si ya no era que tenían algún sabio encantador por amigo, que luego los socorría trayendo por el aire, en alguna nube, alguna doncella o enano con alguna redoma de agua de tal virtud, que, en gustando alguna gota della, luego al punto quedaban sanos de sus llagas y heridas, como si mal alguno hubiesen tenido; mas que, en tanto que esto no hubiese, tuvieron los pasados caballeros por cosa acertada que sus escuderos fuesen proveídos de dineros y de otras cosas necesarias, como eran hilas y ungüentos para curarse; y cuando sucedía que los tales caballeros no tenían escuderos (que eran pocas y raras veces), ellos mesmos lo llevaban todo en unas alforjas muy sutiles, que casi no se parecían, a las ancas del caballo, como que era otra cosa de más importancia; porque, no siendo por ocasión semejante, esto de llevar alforjas no fue muy admitido entre los caballeros andantes; y por esto le daba por consejo (pues aún se lo podía mandar como a su ahijado, que tan presto lo había de ser), que no caminase de allí adelante sin dineros y sin las prevenciones referidas, y que vería cuán bien se hallaba con ellas cuando menos se pensase.”


O interessante é que das explicações que o sacana do vendeiro dá, ele diz que cavaleiros andantes precisam ter um ajudante (um escudeiro) e isso nos dará a oportunidade de conhecer depois Sancho Pança.

Enfim, talvez por isso os leitores vão aos poucos ampliando a empatia com o famoso cavaleiro andante. 


“Hechas, pues, de galope y aprisa las hasta allí nunca vistas ceremonias, no vio la hora don Quijote de verse a caballo y salir buscando las aventuras; y ensillando luego a Rocinante subió en él, y abrazando a su huésped le dijo cosas tan extrañas, agradeciéndole la merced de haberle armado caballero, que no es posible acertar a referirlas. El ventero, por verle ya fuera de la venta, con no menos retóricas, aunque con más breves palabras, respondió a las suyas, y sin pedirle la costa de la posada, le dejó ir a la buen hora.”


Ao final do capítulo, nosso ilustre Dom Quixote está armado cavaleiro e já está apto a enfrentar todos os desafios e agravos que aparecerem diante de si.


“-Dios haga a vuestra merced muy venturoso caballero y le dé ventura en lides.”


Amigas e amigos leitores, se tiverem oportunidade, leiam o clássico de Cervantes.

William

02/02/25


segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Dom Quixote de La Mancha - Cervantes (2)

 

El Quijote de La Habana.

Refeição Cultural

"-¡Dichosa edad, y siglo dichoso aquel donde saldrán a luz las famosas hazañas mías, dignas de entallarse en bronces, esculpirse en mármoles y pintarse en tablas, para memoria en lo futuro! ¡Oh tú, sabio encantador, quienquiera que seas, a quien ha de tocar el ser cronista desta peregrina historia!, ruégote que no te olvides de mí buen Rocinante, compañero eterno mío en todos mis caminos y carreras.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1 [Spanish Edition]” por “Miguel de Cervantes”)

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CAPÍTULO 2

"Que trata de la primera salida que de su tierra hizo el ingenioso don Quijote"


Primeiro, Miguel de Cervantes estabelece no "Prólogo" seu contrato com os leitores, deixando claro que seu livro e seus personagens são uma tiração de sarro dos populares livros de cavalaria da época. (Ler aqui)

Em seguida, Cervantes nos apresenta no "Capítulo 1" o nascimento do personagem e as pessoas de seu entorno, incluindo seu cavalo Rocinante e sua amada Dulcinea del Toboso. (Ler aqui)

Agora, no "Capítulo 2" os leitores acompanham a primeira saída de Dom Quixote em busca de aventuras, ele precisa passar por uma cerimônia que o torne um cavaleiro.

Após andar pela região de La Mancha o dia todo, Dom Quixote e Rocinante vão parar numa espelunca cheia de populares, gente sem apreço pela "ética cavaleiresca".

As cenas descritas por Cervantes são hilárias. 

“Estando en esto, llegó acaso a la venta un castrador de puercos; y así como llegó, sonó su silbato de cañas cuatro o cinco veces, con lo cual acabó de confirmar don Quijote que estaba en algún famoso castillo y que le servían con música, y que el abadejo eran truchas, el pan candeal, y las rameras damas, y el ventero, castellano del castillo; y con esto daba por bien empleada su determinación y salida. Mas lo que más le fatigaba era el no verse armado caballero, por parecerle que no se podría poner legítimamente en aventura alguna sin recebir la orden de caballería.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1 [Spanish Edition]” por “Miguel de Cervantes”)

COMENTÁRIO:

Quando se tem a oportunidade de conhecer a ciência por trás das técnicas narrativas, quando se estuda a crítica e a exegese das obras literárias, a leitura ganha novas perspectivas, antes despercebidas pelos leitores. 

São inumeráveis as observações que podem surgir ao se ler o começo do clássico de Cervantes. 

Uma das questões que marcam os personagens cervantinos é que mesmo sendo alertado de início a que se destina a obra - no Prólogo -, pouco depois de seu lançamento, Dom Quixote e Sancho Pança ganham vida própria e assim seguiu ao longo dos séculos. 

Já na primeira saída, a qualidade da narrativa dá a impressão de que não se trata de uma ficção, e sim de uma descrição realista do que vai ocorrendo com o senhor de seus cinquenta anos que se vestiu de cavaleiro, montou no seu pangaré e saiu por aí para lutar com moinhos de vento e gigantes malvados.

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"¡Oh tú, sabio encantador, quienquiera que seas, a quien ha de tocar el ser cronista desta peregrina historia!, ruégote que no te olvides de mí buen Rocinante, compañero eterno mío en todos mis caminos y carreras.”

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É incrível! O sábio encantador Miguel de Cervantes nos legou para sempre as histórias de Dom Quixote, Sancho Pança e Rocinante!

A leitura do clássico de Cervantes é aventura única na vida de um leitor há mais de 400 anos.

William Mendes 

13/01/25


Post Scriptum: a leitura do próximo capítulo e comentário seguinte pode ser lida aqui.


sábado, 7 de dezembro de 2024

Operação Cavalo de Tróia (17) - J. J. Benítez



Refeição Cultural 

"Vi ali moedas gregas (tetradracmas de prata, didracmas áticas, dracmas, óbolos, calcos e leptons de bronze), romanas (denários de prata, sestércios de latão, dispondios ou assarius, semis e quadrantes) e, naturalmente, todas as divisões da moeda judaica (denários, maas e pondios, todas de prata, e asses, musmis, kutruns e perutás de bronze, entre outras)." (p. 161)


O cenário é Jerusalém no ano 30, dia 2 de abril. Jesus de Nazaré está com seus discípulos nos arredores do santuário dos judeus. 

O narrador, Jasão, está acompanhando presencialmente, como pode, os acontecimentos descritos nos livros sagrados. Ele viajou no tempo numa operação chamada "Cavalo de Tróia".

Logo veremos, como leitores dos relatos, a treta que rolou entre Jesus e os cambistas no templo. Jasão disse que a passagem histórica será no dia seguinte, dia 3.

É isso. Seguimos na releitura desta narrativa incrível. Li o livro na adolescência e décadas depois ainda me surpreendo com a verossimilhança com que Benítez nos conta a história de Jesus. 

William Mendes 


sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Operação Cavalo de Tróia (16) - J. J. Benítez



Refeição Cultural 

"Mas, que classe de sentimentos podia provocar no povo um homem de semelhante estatura no lombo de um burrico? Indubitavelmente, uma das razões para entrar assim na Cidade Santa tinha de ser buscada em uma intencional ideia de ridicularizar o poder puramente temporal. E Jesus ia consegui-lo..." (p. 154)


Seguindo na leitura do Diário da Operação Cavalo de Tróia, realizada no início dos anos setenta, segundo o escritor J. J. Benítez. 

O astronauta infiltrado na comitiva de Jesus de Nazaré, com o nome de Jasão, descreve para nós os acontecimentos do dia 2 de abril do ano 30, um domingo. 

Jesus sai de Betânia e vai entrar em Jerusalém montado em um burrico para se cumprirem as profecias (p. 152). O Nazareno disse isso ao próprio Jasão. 

Benítez cita até nosso Leonardo Boff na nota de rodapé na página 154, tudo para dar veracidade à sua narrativa. 

Enfim, repito o que já disse sobre este livro: ele é incrível, me impressionou na juventude e ainda me impressiona hoje. É muito bem escrito.

O autor diz que não é ficção... que seria um relato jornalístico. Tudo bem. O escritor é soberano em suas opiniões. 

Por outro lado, a obra dele é pública e eu acho que ela é ficção. Enfim, para mim é uma boa narrativa.

Sigamos na leitura.

William 


quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Dom Quixote de La Mancha - Cervantes (1)



Refeição Cultural

"En efecto, llevad la mira puesta a derribar la máquina mal fundada destos caballerescos libros, aborrecidos de tantos y alabados de muchos más; que si esto alcanzáredes, no habriades alcanzado poco." (Prólogo)


De novo cito o "contrato" entre autor do livro e leitores da obra: "El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha", publicado em 1605, é uma narrativa criada por Miguel de Cervantes para denunciar "a máquina infundada dos livros de cavalarias" da época, que eram muito populares.

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CAPÍTULO 1

"Que trata de la condición y ejercicio del famoso hidalgo don Quijote de la Mancha"

A abertura da história e apresentação do fidalgo senhor Quijana que conheceremos como o famoso cavaleiro Dom Quixote é uma delícia!

"En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivia un hidalgo..."

Em seguida há uma descrição da condição econômica do fidalgo. 

Depois os leitores conhecem a ama e a sobrinha do fidalgo:

"Tenía en su casa un ama que pasaba de los cuarenta, y una sobrina que no llegaba a los veinte, y un mozo de campo y plaza, que así ensillaba el rocín como tomaba la podadera..."

Após os leitores conhecerem a condição econômica bem mediana do fidalgo e as pessoas que viviam com ele, o narrador vai descrever o fidalgo:

"Frisaba la edad de nuestro hidalgo con los cincuenta años; era de complexión recia, seco de carnes, enjuto de rostro, gran madrugador y amigo de la caza..."

E então o narrador diz aos leitores que a história é baseada em fatos reais, que o importante é que a narrativa não vai se desviar da verdade. Vejam a técnica narrativa do romance ficcional de Cervantes, é muito inovadora.

"Quieren decir que tenía el sobrenombre de Quijada o Quesaba (que en esto hay alguna diferencia en los autores que deste caso escriben), aunque por conjeturas verosímiles se deja entender que se llamaba Quijana. Pero esto importa poco a nuestro cuento; basta que en la narración dél no se salga un punto de la verdad."

Outro personagem que conhecemos no início da história é o cura, com quem o senhor Quijana debatia as aventuras dos heróis dos livros de cavalarias:

"Tuvo muchas veces competencia con el cura de su lugar (que era hombre docto, graduado en Sigüenza)... (uma ironia de Cervantes)

E também conhecemos o barbeiro local:

"(...) mas maese Nicolás, barbero del mesmo pueblo, decía que ninguno llegaba al Caballero del Febo..."

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LEU TANTO SEM DORMIR QUE SEU CÉREBRO SECOU

O senhor Quijana lia tantos livros de cavalaria, de dia e de noite, que deixou de cuidar de seus afazeres e acabou ficando meio doido, o narrador diz que seu cérebro secou.

“En resolución, él se enfrascó tanto en su lectura, que se le pasaban las noches leyendo de claro en claro, y los días de turbio en turbio; y así, del poco dormir y del mucho leer se le secó el celebro, de manera que vino a perder el juicio.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1", Spanish Edition, Miguel de Cervantes)

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CORRER O MUNDO EM BUSCA DE AVENTURAS PARA SUA HONRA E PARA DESFAZER SITUAÇÕES AGRAVADAS

O fidalgo, já ancião para a época, se prepara para sair pelo mundo em busca de aventuras para honrar a si mesmo e para desfazer todo gênero de agravo que encontre.

“En efecto, rematado ya su juicio, vino a dar en el más extraño pensamiento que jamás dio loco en el mundo, y fue que le pareció convenible y necesario, así para el aumento de su honra, como para el servicio de su república, hacerse caballero andante, e irse por todo el mundo con sus armas y caballo a buscar las aventuras, y a ejercitarse en todo aquello que él había leído que los caballeros andantes se ejercitaban, deshaciendo todo género de agravio, y poniéndose en ocasiones y peligros, donde acabándolos, cobrase eterno nombre y fama.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1", Spanish Edition, Miguel de Cervantes)

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O CAVALO ROCÍN VIROU O FAMOSO ROCINANTE

Depois de quatro dias pensando que nome poderia dar ao seu cavalo, o fidalgo encontrou o nome ideal.

“y así, después de muchos nombres que formó, borró y quitó, añadió, deshizo y tornó a hacer en su memoria e imaginación, al fin le vino a llamar Rocinante, nombre, a su parecer, alto, sonoro y significativo de lo que había sido cuando fue rocín, antes de lo que ahora era, que era antes y primero de todos los rocines del mundo.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1", Spanish Edition, Miguel de Cervantes)

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DOM QUIXOTE... DE LA MANCHA

Após colocar nome em seu cavalo, o fidalgo levou mais oito dias pensando em um nome para si mesmo. Até que lhe veio o nome: Dom Quixote.

Para honrar sua linhagem e sua pátria, acrescentou o "de La Mancha" ao nome do cavaleiro andante.

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A DAMA AMADA PELO CAVALEIRO ANDANTE

Faltava ainda a escolha de uma amada a quem dirigir seus pensamentos, atos e bravuras. E lembrando que "el caballero andante sin amores era árbol sin hojas y sin frutos, y cuerpo sin alma".

Finalmente, escolheu sua doce amada entre as mulheres das cercanias. Uma lavradora chamada Aldonza Lorenzo. Ela seria a doce Dulcinea del Toboso.

“halló a quien dar nombre de su dama! Y fue, a lo que se cree, que en un lugar cerca del suyo había una moza labradora de muy buen parecer, de quien él un tiempo anduvo enamorado, aunque, según se entiende, ella jamás lo supo ni se dio cata dello. Llamábase Aldonza Lorenzo, y a ésta le pareció ser bien darle título de señora de sus pensamientos; y buscándole nombre que no desdijese mucho del suyo, y que tirase y se encaminase al de princesa y gran señora, vino a llamarla Dulcinea del Toboso, porque era natural del Toboso, nombre, a su parecer, músico y peregrino y significativo, como todos los demás que a él y a sus cosas había puesto.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1", Spanish Edition, Miguel de Cervantes)

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É isso! Temos aí tudo pronto para as primeiras aventuras de nosso cavaleiro andante Dom Quixote, seu cavalo Rocinante e tudo por honra de si mesmo e pela amada Dulcinea del Toboso.

William Mendes 

14/11/24


Post Scriptum: a sequência da leitura e comentários pode ser lida aqui.


segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Operação Cavalo de Tróia (15) - J. J. Benítez



Refeição Cultural 

Li mais algumas páginas do livro de J. J. Benítez.

O Diário do Major, que estava disfarçado como Jasão entre Jesus e seus discípulos, finalizou a descrição daquele sábado, dia 1° de abril do ano 30.

O astronauta alegou suspeitar por que motivo Judas Iscariotes teria traído Jesus de Nazaré. Ele teria se sentido humilhado ao ser repreendido em público e seria uma forma de vingar-se do Mestre.

"(...) Judas Iscariotes havia caído em um impenetrável silêncio. Seus olhos assustavam-me. Destilavam um ódio surdo e contido. Era visível que havia tomado aquelas palavras de Jesus como reproche pessoal e, sem dúvida, havia se sentido ridicularizado diante de toda aquela gente..." (p. 144)

O reproche foi porque Judas não achou certo Maria, irmã de Simão, gastar um produto fino e caro nos cabelos e pés de Jesus. Achava ele que o produto seria melhor utilizado se fosse vendido para alimentar os pobres.

Jesus deu-lhe um chega pra lá ao dizer que os pobres estarão sempre aí para serem alimentados, enquanto ele próprio, Jesus, logo logo não estaria mais entre eles...

Estamos falando aqui de falso moralismo, né não?

Seguimos na leitura. 

William 


sábado, 9 de novembro de 2024

Dom Quixote de La Mancha - Miguel de Cervantes (Prólogo)



Refeição Cultural

Toda vez que pego um clássico da literatura mundial e o leio fico pensando na produção daquela criação humana, a condição em que ela foi feita, na pessoa que produziu aquela coisa, na época em que aquilo veio a público - ou não, só muito mais tarde -, tento imaginar o lugar do mundo onde aquilo foi produzido. Acreditem: um texto antigo tem muita história consigo, Alberto Manguel conta um pouco sobre essa história no livro "Uma história da leitura".

Quando li a história de Dom Quixote tinha pouco mais de trinta anos de idade. Havia acabado de entrar em uma faculdade de Letras e me atrevi a ler a obra em espanhol. Foi uma aventura marcante em minha vida de leitor. Eu ria, e chorava, e ficava puto, e depois inconformado, e ficava impressionado, surpreso com os ditados e sabedorias que lia, ria de novo, chorava, achava sacanagem alguns acontecimentos, outros achava inacreditáveis. Era como se não estivesse lendo uma obra ficcional. Foi uma aventura marcante a leitura do clássico de Miguel de Cervantes.

PRÓLOGO 

O prólogo da obra já é um acontecimento. A gente tenta imaginar as pessoas que sabiam ler e que tiveram acesso à leitura quatro séculos atrás lendo aquele prólogo "desocupado leitor...". 

O autor anuncia o que os leitores desocupados vão ler:

"y, pues, esta vuestra escritura no mira a más que a deshacer la autoridad y cabida que en el mundo y en el vulgo tienen los libros de caballerías..."

Cervantes faz o contrato com os leitores e avisa que a história é "una invectiva contra los libros de caballerías" e mesmo avisados de que a obra é feita para tirar um sarro daquelas histórias mirabolantes de cavaleiros da época, nós não conseguimos ver de forma fria o personagem Dom Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança. 

São apaixonantes demais essas duas figuras! Nos envolvemos com elas, não tem jeito. Nos apaixonamos por aquele senhor e seu servidor e amigo, mesmo sendo eles criações para se tirar sarro dos cavaleiros ficcionais da época.

"Procurad también que, leyendo vuestra historia, el melancólico se mueva a risa, el risueño la acreciente, el simple no se enfade, el discreto se admire de la invención, el grave no la desprecie, ni el prudente deje de alabarla."

Olha eu aí na descrição de Cervantes. Ou facetas de mim, num momento ou outro da vida. Como falei no início, quando li a obra posso ter sido o melancólico que riu ou o prudente que a louvou, pois era visto pelos conhecidos como pessoa sisuda e que quase não ria.

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CONCEIÇÃO EVARISTO ME DEIXOU PENSATIVO

Enfim, fiquei pensando nas obras literárias e autores e autoras ao ver ontem uma entrevista da querida Conceição Evaristo. 

Imaginem vocês que momento ímpar eu vivi na minha vida ao passar três horas conversando com ela num voo entre o Panamá e Cuba... Foi um acontecimento na minha vida de fã e leitor.

William Mendes

09/11/24


Post Scriptum: a leitura com comentários segue aqui.


domingo, 20 de outubro de 2024

Operação Cavalo de Tróia (14) - J. J. Benítez



Refeição Cultural 

"Jesus havia-se desembaraçado do manto. Sua esplêndida túnica branca aparecia agora, cingida por um cordão. Entre a algaravia dos pequeninos, o Mestre, vez por outra, abria seu riso, limpo e aberto, como aquela luminosa manhã. Em verdade, o que mais me emocionou foi ver como aquele homem feito e perfeito, capaz de desafiar os sumos sacerdotes e de ressuscitar os mortos, saltava, corria ou caía ao solo, entregue incondicionalmente às exigências daquela gente miúda." (p. 135)


O Diário do Major descreve uma cena matinal das cercanias de Jerusalém, no sábado, 1° de abril do ano 30. 

Imaginem vocês a emoção que seria ter a oportunidade de se sentar ao lado de Jesus de Nazaré e conversar com ele. Foi essa cena que li agora no livro de Benítez. 

Jasão, o astronauta da Operação Cavalo de Tróia, dialogou com Jesus, após este brincar com as crianças no pátio da casa onde estava.

Ao final do primeiro diálogo com o "gigante", a forma como Jesus é descrito no Diário, o Nazareno diz a Jasão:

"- O segredo para possuir a Verdade só está em meu Pai. E em verdade te digo que meu Pai sempre tem estado em teu coração. Tens apenas de olhar 'para dentro'... Bem-aventurado o que busca, conquanto morra crendo que jamais encontrou. E ditoso o que, à força de buscar, encontra. Quando encontrar, perturbar-se-á. E, havendo-se perturbado, maravilhar-se-á e reinará sobre tudo." (p. 137)

É ou não é um livro muito bem escrito este de Benítez?

Sigamos sem pressa. 

William 

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Operação Cavalo de Tróia (13) - J. J. Benítez



Refeição Cultural 

"Como estava longe dessa imagem grave, atormentada e longínqua que nos transmitem tantos dos livros do século XX... Jesus de Nazaré era uma mescla de menino e general; de ingênuo pastor e compenetrado analista; de homem que vive plenamente cada dia e de prudente conselheiro. Mas, acima de tudo, notava-se que era feliz. Muito mais alegre e despreocupado do que seus próprios amigos e discípulos, visivelmente agitados pelas ameaças do sumo sacerdote." (p. 130)


Essa história de Jesus de Nazaré retratada por J. J. Benítez é muito instigante. Sempre achei isso.

Estou lendo minha velha edição dos anos oitenta, que já foi até emprestada e devolvida em péssimo estado. 

Vejam essa descrição que o Jasão faz de Judas Iscariotes:

"(...) Permaneci como que hipnotizado, a contemplar aquele tipo fraco e esgrouviado, de algo mais de um metro e setenta de estatura e cabeça pequena. Seu nariz aquilino destacava-se sobre a pele pálida, quase macilenta, dando-lhe o clássico 'perfil de pássaro' que eu havia estudado na classificação tipológica de Ernest Kretschmer..." (p. 130)

E o homem de nosso tempo infiltrado entre os discípulos de Jesus terminaria sua análise sobre Judas dizendo que ele seria um grande tímido. 

"A verdade é que, à medida que fui conhecendo o caráter desse homem, ia me convencendo de que se tratava, na realidade, de um grande tímido, que não havia tido oportunidade de desenvolver seu imenso caudal afetivo." (idem)

Parei a leitura do Diário do Major, ou o relato de Benítez, ao final do dia 31, sexta-feira, do ano 30, em Betânia, Judeia.

Seguimos a leitura. 

William 


quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Operação Cavalo de Tróia (11) - J. J. Benítez



Refeição Cultural 

"Pouco depois, os três irmãos prostraram-se diante do rabi, agradecendo-lhe o que havia feito. Mas Jesus, tomando Lázaro pelas mãos, levantou-o, dizendo: 'Meu filho, o que sucedeu a ti sucederá a todos aqueles que creiam no Evangelho: ressuscitarão sob a forma mais gloriosa. Tu serás o testemunho vivo da verdade que tenho proclamado: eu sou a ressurreição e a vida. Agora vamos tomar o alimento para nossos corpos físicos'." (p. 116)


Benítez conta aos leitores o que está registrado no Diário do Major. São as primeiras horas na Palestina do ano trinta. 

Acabamos de ler o relato da ressurreição de Lázaro, amigo de Jesus.

Ao final do primeiro dia, 30 de março, Jasão (o Major) aceitou a hospitalidade de Lázaro e pernoitou na casa do ressuscitado. 

"As emoções do dia haviam-me despertado o apetite e, ante o olhar comprazido de meus novos amigos, não tardei em dar boa conta do grão tostado, dos figos secos, das tâmaras, do mel e da terrina de leite de cabra que compunham minha ceia." (p. 122)

Seguimos com a leitura. 

William 


quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Operação Cavalo de Tróia (7) - J. J. Benítez



Refeição Cultural 

Benítez está lendo o Diário do Major da aeronáutica dos Estados Unidos. São diversas explicações científicas sobre descobertas que permitiriam a "Operação Cavalo de Tróia" viajar no tempo. 

Cito abaixo as três opções de datas e locais de viagem no tempo que o projeto teria avaliado fazer no início dos anos setenta (10 de março de 1971, segundo o autor).

"Os três objetivos em questão foram os seguintes:

1° - Março-abril do ano de 30 de nossa era. Justamente os últimos dias da paixão e morte de Jesus de Nazaré. 

2° - O ano de 1478. Local: Ilha da Madeira. Objetivo: averiguar se Cristóvão Colombo pôde receber alguma informação confidencial, da parte de algum pré-descobridor da América, sobre a existência de novas terras, assim como sobre a rota a seguir para alcançá-las.

3° - Março de 1861. Local: os Estados Unidos da América do Norte, propriamente. Objetivo: conhecer com exatidão os antecedentes da Guerra de Secessão e o pensamento do recém-eleito presidente Abraham Lincoln." (p. 69)

E aí?

Pensem que legal seria qualquer das três opções de investigação histórica...

Já sabemos que escolheram a primeira opção e vamos saber de Jesus Cristo e seus últimos dias na Terra.

Ler é uma das melhores coisas do mundo, na minha opinião de leitor. 

William 


terça-feira, 3 de setembro de 2024

Operação Cavalo de Tróia (6) - J. J. Benitez



Refeição Cultural 

"Por último, e seguindo um processo contrário, situar outro módulo ou laboratório no passado da Terra.

Eu fui designado para esse terceiro projeto - batizado como Cavalo de Tróia - e a ele, e a tudo quanto lhe dizia respeito até que se consumasse, em janeiro de 1973, referir-me-ei nesta primeira parte do diário." (p. 65)


Eu fico admirado com a capacidade do autor ao desenvolver explicações científicas para dar verossimilhança à história, que descreve uma viagem no tempo através de um artefato chamado pelo projeto de "berço".

Benítez descreve através do personagem "Major", autor do Diário, explicações com partículas subatômicas, Física Quântica e diversas outras teorias de Física e de Astronomia de forma tão convincente que os leitores vão se incorporando ao projeto da USAF como se fosse possível ler a respeito num jornal da época. 

É essa a beleza da arte e da cultura, aqui expressa através da literatura. 

William 


sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Operação Cavalo de Tróia (5) - J. J. Benítez



Refeição Cultural 

"No presente trabalho, levei a cabo a transcrição - o mais fiel possível - das primeiras 350 folhas do total de 500 que ambos os cilindros continham. Ainda que eu não vá revelar, por enquanto, o resto do projeto, posso adiantar, isso sim, que ele obedece a um denominador comum: uma 'grande viagem', tal como a define o próprio Major. Uma viagem que faria empalidecer Júlio Verne..." (p. 56)


Esse é o estilo do livro "Operação Cavalo de Tróia" (1984). O jornalista J. J. Benítez constrói a narrativa de maneira que seu leitor acredite estar lendo um documentário, um texto jornalístico. 

É uma técnica muito refinada. Grandes autores fizeram isso no passado, inclusive seu compatriota Miguel de Cervantes, em seu clássico sobre Dom Quixote de La Mancha. 

Eu não tive sono para ler essas primeiras dezenas de páginas, cuja trama descreve até passar a perna no FBI para sair dos EUA com os "diários" do oficial da aeronáutica do país. 

Enfim, agora começa o capítulo "O Diário" sobre a "grande viagem" que o Major vai nos contar...

William 


quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Operação Cavalo de Tróia (4) - J. J. Benítez



Refeição Cultural 

A sequência da narrativa na qual o jornalista e escritor J. J. Benítez descreve sua busca pelo documento deixado a ele por um oficial da aeronáutica dos Estados Unidos é empolgante.

Após o jornalista desvendar as mensagens em códigos deixadas pelo Major, Benítez chega à caixa postal de número 21 dos Correios. E, finalmente, acessa os documentos guardados ali.

"Mais alguns segundos e aparecia diante de mim um maço de papéis, cuidadosamente enrolados. Havia sido introduzido em uma capa de plástico transparente, hermeticamente grampeada na parte superior. Tive de recorrer a um aparador de unhas para fazer saltar os dezessete grampos. Com uma excitação difícil de descrever, deitei um primeiro olhar aos papéis e verifiquei que haviam sido datilografados em espaço pequeno e no que conhecemos como papel-bíblia. Cada folha (29 x 31 cm), até um total de duzentas e cinquenta, havia sido assinada e rubricada no canto inferior esquerdo pelo Major. Era a mesma letra - e eu diria até que a mesma tinta - que figurava ao pé da carta que eu havia encontrado na caixa postal 21 e acabara de abrir." (p. 40)

Parei a leitura no momento em que Benítez recebeu um telefonema da portaria do hotel informando ao jornalista que dois agentes do FBI queriam falar com ele.

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O livro Operação Cavalo de Tróia marcou um momento deste leitor blogueiro. 

O primeiro volume é de meados dos anos oitenta, eu vivia em Uberlândia, MG. 

É isso, por enquanto. 

William 


quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Operação Cavalo de Tróia (3) - J. J. Benítez



Refeição Cultural 

Ao ler mais algumas páginas do começo do livro de J. J. Benítez, fiquei me lembrando do passado.

Na história, o escritor está em busca de desvendar o mistério que se apresentou a ele por casualidade durante uma estadia na Cidade do México, em abril de 1980. 

Ele foi contatado por uma pessoa que se apresentou como oficial da aeronáutica dos EUA. Por mais de um ano, manteve contato com essa pessoa, denominada Major, e após o falecimento dela, Benítez sai em busca de desvendar uma mensagem cifrada em uma folha.

O jornalista foi aos Estados Unidos, no Cemitério Nacional de Arlington, em Washington (DC). Ele tenta decifrar os códigos deixados pelo Major. É o ponto da leitura em que parei.

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Na época da primeira leitura dessa obra, na adolescência, eu era uma pessoa muito diferente da que sou hoje, uma obviedade, em tese.

Mas mudei bastante. Eu era religioso, bastante religioso. Na verdade, eu era propenso a crer em qualquer mística que existisse na época. Eu cria na existência de ETs e OVNIs, por exemplo. E Benítez trabalhava muito com essa temática, quer dizer, trabalha ainda. 

Confesso que a leitura do livro à época com a visão de mundo que tinha foi muito impactante. 

É isso!

William Mendes


Post Scriptum: o comentário seguinte sobre a leitura pode ser lido aqui.


quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Operação Cavalo de Tróia (2) - J. J. Benítez



Refeição Cultural 

O começo da história (vou tratar assim a partir de agora em respeito ao autor) narra a forma como o jornalista e escritor J. J. Benítez teve contato com um oficial da força aérea dos Estados Unidos. 

Ele estava no México, no início dos anos oitenta, e após uma entrevista a um programa de TV falando sobre Jesus Cristo, especificamente sobre o martírio de Jesus em seus últimos dias, foi contatado por esse oficial norte-americano que se identificou como Major.

Benítez nos conta dos contatos que tiveram por meses, através de cartas, ele na Espanha e o Major no México. 

Repito o que disse no primeiro comentário sobre o livro Operação Cavalo de Tróia: a técnica narrativa de Benítez é incrível! Desde o início, parece que o leitor está lendo uma notícia jornalística cheia de suspenses e segredos.

É isso, por enquanto. 

William Mendes 


Post Scriptum: o texto seguinte sobre o livro pode ser lido aqui.