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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Livro: Uma delicada coleção de ausências - Aline Bei



Refeição Cultural

LITERATURA BRASILEIRA 


Sei que devo cumprir meus objetivos de ler os clássicos, sei. Entretanto, o novo sempre vem, clama por nós, leitores e amantes da leitura. 

Sem prever, li o primeiro livro de Aline Bei - O peso do pássaro morto - no ano de 2020 (comentário aqui). Gostei. 

Depois, li seu segundo romance-poesia - Pequena coreografia do adeus -, no final do ano passado (ler aqui). Gostei também. Uma nova poética, e em tempos duros para a cultura!

E então, antes de algum clássico para este momento, de alguma coisa antiga, mergulhei na terceira novidade de Aline: Uma delicada coleção de ausências

Na hora que peguei o livro na mão, já elenquei minha delicada coleção de ausências... Uma forma de memorizar o nome do livro. Foi só me lembrar de algumas ausências delicadas...

Destaco abaixo algumas reflexões poéticas que sintetizam a vida e os seres que aqui habitam. Ideias-força da poeta filósofa mulher Aline Bei.

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Nostalgia 

"Irá sentir um poema ao tempo vivido que é a nostalgia. mas é preciso que aconteça daqui a muitos anos. é preciso primeiro Esquecer, para então verdadeiramente lembrar." (p. 32)

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Nu

"ela procura na bolsa a chave do portão. quando olha para Camilo é por engano, não sabe de onde vem isto, mas nunca se deve olhar um rosto depois que a conversa acaba, senão é provável que o veja nu." (p. 81)

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Sangue "maldito"

"pois que o bom Deus a perdoasse, que lhe desse ao menos um pouco de juízo e que perdoasse também a menina, que carrega no sangue toda essa maldição." (p. 108)

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Aos filhos e netos

"aos filhos e netos, é preciso contar da própria vida conforme a deles desabrocha. é preciso esperar que o passo se alinhe, para que saibam ouvir melhor." (p. 134)

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Os segredos 

"pois há coisas que ao serem ditas perdem ainda mais volume do que quando existiam apenas no silêncio. há coisas que só não morrem (ou matam) quando mantidas longe das palavras, no escuro." (p. 156)

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Envelhecer

"talvez envelhecer seja lidar imensamente com o próprio corpo, com esse estado de presença brutal, à beira do insuportável, um corpo que, de tanto já ter sido visto, agora precisa ser desvisto se os olhos dos outros não quiserem morrer por antecipação." (p. 159/160)

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Sorte sua se tocar o coração de duas ou três pessoas 

"Margarida ainda disse que tocar o coração de todos não é possível, nunca será o mundo quem sentirá a nossa falta. tocar duas ou três pessoas - isso é a vida dos que têm sorte." (p. 204)

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Alegria 

"é preciso cuidar da alegria também." (p. 271)

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Uma delicada coleção de ausências 

O desfecho do romance deixa a leitora e o leitor paralisados, passados... eu fiquei bolado na hora, já nas últimas páginas do enredo. Minha esposa ficou vários dias se sentindo muito incomodada com o romance. A catarse se impõe... não é esse o efeito modificador dos dramas, tragédias e comédias desde a antiguidade?

As histórias de neta, avó, e bisavó, e também a história da mãe e filha ausente se completam, se explicam, tudo se explica no desfecho que é uma metáfora da mais pura realidade em milhares de famílias desse mundão duro e perverso do universo dos homens do mundo.

Laura, Margarida, Filipa e Glória representam em suas singularidades o que enfrentam as mulheres no dia a dia do mundo, ontem, hoje, e infelizmente num longo amanhã, apesar das lutas incessantes pela ocupação de todos os espaços nos quais as mulheres desejem estar no mundo.

Por fim, a poética de Aline Bei, a ocupação de espaços nas páginas de seus livros e a particularidade de sua escrita a fazem poeta, cronista, romancista, dançarina, e de sobra, seus leitores experimentam o novo ao lerem seus livros.

O peso do pássaro morto...

Pequena coreografia do adeus...

Uma delicada coleção de ausências...

Seus três romances são obras de arte, literatura da melhor qualidade. E com a catarse para nos deixar bolados, passados, incomodados... e quiçá modificados ao final da experiência de leitura.

Que venham as próximas histórias, as substâncias narrativas com as preposições que relacionam as causas, consequências, origens e posses das coisas, como a própria vida é.

William

10/07/26


Bibliografia:

BEI, Aline. Uma delicada coleção de ausências. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2025.

domingo, 28 de dezembro de 2025

Livro: Pequena coreografia do adeus - Aline Bei



Refeição Cultural

LITERATURA

 

"era um lugar inóspito para você derramar o seu amor

uma terra infértil, não chove

pelo contrário, o sol torra cada pedaço de vida de um jeito

que não sobra nada no horizonte e ainda assim

       eu nasci." (p. 18)


O livro de Aline Bei, "Pequena coreografia do adeus" (2021), é um presente para os amantes da boa leitura. 

Adorei a leitura! Viajei com Júlia!

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"já tentei indicar uns livros pra ele, mas o Vegas me diz que é um homem de ação. respondo que ler é viver muitas vidas além da sua

- e se isso não for ação - termino, depositando a conta em sua mesa -, eu não sei mais o que é.

- ainda vou tentar esse negócio de leitura. por você, hein, Julinha.

- não, Vegas. faça por você. - pisco." (p. 159/160)

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A poética de Aline Bei é única e a escritora está apenas em seu segundo romance com este livro. 

Incrível ela ter um estilo tão seu em tão pouco tempo!

Li o primeiro romance dela, "O peso do pássaro morto" (2017), e também fiquei impressionado com a história e sua linguagem poética (comentário aqui). 

Me peguei várias vezes viajando nas memórias através da personagem Júlia Terra, tão única e tão nós!


"imaginei que 

talvez

o trabalho do Vegas tenha sido tão local que

não era mesmo de se conhecer. 

desde quando sabemos de todas as coisas que acontecem no mundo se mal sabemos o que se passa no fundo do nosso coração?" (p. 213)

Amiga e amigo leitores, o livro da jovem escritora Aline Bei nos enche de esperança...

Esperança na juventude, na literatura, na mudança, na vida.

William 

28/12/25


Bibliografia:

BEI, Aline. Pequena coreografia do adeus. 1a ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Livro: O peso do pássaro morto, de Aline Bei



Refeição Cultural

A leitura do livro de Aline Bei, O peso do pássaro morto (2017), se deu de forma casual. Minha esposa viu uma postagem da Manuela d'Ávila (PCdoB), que comentou nas redes sociais que adorou o livro. Ela o comprou e, como acontece algumas vezes, peguei o livro e li antes dela, assim que chegou em casa.

Como leitor, dou meus parabéns para a autora, uma jovem escritora brasileira. A leitura me fez pensar muito. Me fez chorar. Me fez sentir raiva do que nós homens fazemos com as mulheres no mundo. O mundo é um lugar duro e ao prevalecer os piores instintos do animal humano homem, poucas são as chances do mundo ser um lugar mais justo e solidário, acolhedor e que dê esperanças e oportunidades à continuidade da vida.

A personagem sem nome nos conta em primeira pessoa momentos marcantes em sua vida, momentos de perdas, que vão dos oito aos cinquenta e dois anos. A narrativa é sensível e ao mesmo tempo duríssima. A ficção nos atinge em cheio porque os fatos que se passam com a personagem acontecem o tempo todo na vida real, ao nosso redor, ontem, hoje, sempre. 

O matar passarinho na pura expressão de maldade e violência gratuita. A violência contra as mulheres. A indiferença. Os medos. A complexa relação entre pais e filhos. A morte de pessoas conhecidas. As injustiças.

Existe cura para as perdas? Ou a gente simplesmente segue a vida porque é o que se tem a fazer?

Bom livro, boa estória. Desejo sucesso para Aline Bei.

William