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quinta-feira, 12 de março de 2026

Diário e reflexões - Sou natureza e a vida é uma ordem



Refeição Cultural

Osasco, 12 de março de 2026. Quinta-feira.


SOU NATUREZA E A VIDA É UMA ORDEM

Nas últimas duas semanas, vivi dias que me fizeram recordar o que fui um dia. Em Brasília, passei dias nos locais de trabalho do Banco do Brasil conversando com os trabalhadores a respeito das eleições sindicais locais. Na grande São Paulo, revivi meus tempos de diálogo com a categoria bancária que representei por bastante tempo. Dessa vez, a eleição em pauta é a da nossa autogestão em saúde, na qual fui diretor eleito um dia.

Eu dediquei o melhor momento de minha vida adulta à representação da classe trabalhadora. Isso me deu um sentido na vida que eu não havia encontrado até então. A mudança daquele papel social para o seguinte foi difícil, pelo contexto no qual o desligamento se deu. Busquei outros sentidos do viver, assim como fiz da adolescência até aquela novidade de me pegar dirigente sindical de uma hora para outra. A vida é dar sentido ao viver, é o que penso.

Farei uma viagem nos próximos dias. A viagem também será uma oportunidade de dar sentidos ao viver: estarei num lugar especial - Cuba -, com pessoas solidárias e com ideias de mundo melhores que algumas que erram pela Terra. Quando voltar, estarei de novo buscando sentidos para os dias, meses, alvoradas e crepúsculos de um mundo em desfazimento total.

A vida em sociedade estará cada dia mais incerta, e com isso a nossa vida estará cada vez mais incerta também. A morte e a mudança de perspectiva social serão constantes ameaças em um mundo dominado por extremistas fascistas com poder de destruição e morte e com povos com pouca capacidade de reação.

O amanhã não será melhor... isso é desalentador. Mas devemos seguir lutando pela vida, pelas maiorias miseráveis e alienadas, não podemos desistir do mundo e das vidas. 

Ter adquirido o conhecimento que adquiri nas veredas que percorri na vida me torna responsável pelo mundo que está aí. Edward Said nos ensinou o papel ético daqueles que têm conhecimento. É a ética dos intelectuais.

O pessimismo da razão invade minha consciência... mas minha formação humana e de esquerda, fruto da minha trajetória sindicalista, me coloca firme na caminhada da vida e da luta pela mudança. O sol nascerá daqui algumas horas e a vida e a luta seguem.

William

terça-feira, 23 de setembro de 2025

O sentido da vida (10)



Poderia definir como sentido da vida o simples fato de buscar o conhecimento em si?


Ao ouvir uma explicação do jurista Lenio Streck, ficou encantado com o fato novo de algo que achava que já conhecia, mas que na verdade só conhecia parte da coisa e não a sua totalidade, e ouvindo o intelectual explicando o sentido completo daquilo se pegou admirando a beleza da erudição e do saber na vida de um ser humano. Lenio usa sua inteligência em benefício das causas justas e populares.

Outro dia, ele havia visto o documentário "O longo amanhecer" (2004) sobre o grande brasileiro Celso Furtado e se sentiu orgulhoso daquela figura extraordinária, um compatriota seu. O documentário foi lançado quando o economista ainda estava vivo e ao rever aquele filme e perceber a atualidade de seu pensamento e o amor daquele brasileiro por seu povo e pelos povos latino-americanos, ficou mais uma vez pensando sobre a maravilha da erudição e suas possibilidades para a libertação dos povos subjugados.

Ao olhar para trás, percebia facilmente que sempre teve o desejo de saber mais sobre o mundo e a vida, tinha aquela curiosidade filosófica que poderia levar a pessoa a ser uma estudiosa e se tornar alguém que atuasse no mundo em áreas ligadas ao saber. Mas sua vida trilhou outras veredas: queria ser professor, mas não foi; ter talvez uma profissão na área da educação, mas não teve. E os temas que dominou bem, durante sua vida útil, não serviam para mais nada.

Vivendo num mundo em colapso, numa sociedade humana que não demonstrava perspectivas de construir um amanhã melhor que antes, com sinais claros de tempos piores para a vida coletiva no futuro, poderia viver seus dias buscando algum conhecimento novo como forma de dar sentido à vida? As crises e colapsos em andamento apontavam até para a perda de interesse social no conhecimento, na ciência e na cultura.

Dilemas... qual o caminho a seguir? A fazer, se não houver caminhos?

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sábado, 7 de junho de 2025

Instantes (14h56)



Refeição Cultural

Leituras que nos fazem pensar... 

O romance de ficção científica de Miguel Nicolelis me deixou muito pensativo nos últimos dias... até um relâmpago pela janela do banheiro me assustou! Pensei no cataclismo oriundo da tempestade solar, que já ocorreu em 1859 e pode ocorrer a qualquer momento. É por questões como essa que afirmo que a humanidade precisa salvar nosso conhecimento e cultura em meios físicos. Essas nuvens digitais onde armazenam a produção humana das últimas décadas são como as nuvens do céu... se desfazem com qualquer ventinho.

Monteiro Lobato, escritor e intelectual de seu tempo, é uma de minhas lacunas culturais. Meu consolo é saber que não adianta me martirizar por ter tido que gastar meu tempo de vida tentando sobreviver como um cidadão pobre num país miserável dominado por uma elite desgraçada e fdp. Até li alguma coisa em décadas de venda de meu corpo e minhas horas de vida. Lobato não tinha lido ainda. Estou lendo um de seus romances infanto-juvenis, de 1939. Nunca é tarde para adquirir cultura.

Peguei na portaria a excelente revista do Mino Carta e sua equipe e, cansado das desgraças distópicas da política, comecei a leitura pelo fim, pela seção Plural, que aborda temas culturais. 

Estou vendo os episódios da série The Last of Us... pesado o clima. O corpo fica em choque. No entanto, ler as notícias políticas do Brasil dominado por um parlamento como o nosso é o mesmo que assistir à narrativa de fim do mundo da ficção. Aqueles 450 fdp estão lá para acabar com o mundo. Resta saber quem será o último de nós. 

William 

07/06/25

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Instantes (18h12)



Refeição Cultural

Anoiteceu. Quais alimentos culturais tenho degustado?

Estou lendo nesta semana Monteiro Lobato. Também estou lendo o romance do neurocientista Miguel Nicolelis. Ouvi algumas entrevistas e uma aula do professor João Cezar de Castro Rocha, o cara é um intelectual admirável!

São refeições culturais que alimentam nosso espírito, nossa mente humana. 

Pensei várias vezes em escrever sobre política e me posicionar. Me segurei e não escrevi nada. Não alteraria o mundo atual, o que estou nele.

As narrativas ficcionais infanto-juvenis do século passado de Monteiro Lobato e a ficção científica de Miguel Nicolelis pelo menos me fazem pensar o mundo. 

William 

04/06/25

sábado, 29 de março de 2025

Leitores: seres temidos!



Refeição Cultural 

"Mas não são apenas os governos totalitários que temem a leitura. Os leitores são maltratados em pátios de escolas e em vestiários tanto quanto nas repartições do governo e nas prisões. Em quase toda parte, a comunidade dos leitores tem uma reputação ambígua que advém de sua autoridade adquirida e de seu poder percebido. Algo na relação entre um leitor e um livro é reconhecido como sábio e frutífero, mas é também visto como desdenhosamente exclusivo e excludente, talvez porque a imagem de um indivíduo enroscado num canto, aparentemente esquecido dos grunhidos do mundo, sugerisse privacidade impenetrável, olhos egoístas e ação dissimulada singular. ('Saia e vá viver!', dizia minha mãe quando me via lendo, como se minha atividade silenciosa contradissesse seu sentido do que significava estar vivo.) O medo popular do que um leitor possa fazer entre as páginas de um livro é semelhante ao medo intemporal que os homens têm do que as mulheres possam fazer em lugares secretos de seus corpos, e do que as bruxas e os alquimistas possam fazer em segredo, atrás de portas trancadas..." (Uma história da leitura, Alberto Manguel, 1999, p. 35)


Profunda a percepção de Manguel sobre essa coisa quase inominável que há entre grupos humanos quando pessoas que gostam de ler e estudar e conhecer muito começam a ser foco de alguma forma de isolamento dos demais por bullying ou por escanteamento daquele ou daquela que pode a qualquer momento questionar o líder do referido grupo ao qual pertence. 

(Também há grupos sociais que valorizam os leitores e os que sabem muito, claro!)

A partir do momento que um leitor passa a dominar um tema - um saber - que a maioria ao seu redor não sabe, ou que o tema é domínio exclusivo de determinado grupo que usa aquele saber para obter qualquer tipo de vantagem, aquele leitor passa a ser um incômodo ou se torna alguém temido ou rejeitado, a depender da própria condição do leitor no status quo de seu grupo humano. 

Isso é claro e notório para os bons leitores e leitoras, aquel@s que leem nas entrelinhas e leem mais que palavras, leem o mundo ao redor.

Se olhasse para trás, conseguiria imaginar momentos no percurso do viver que ilustrariam o excerto acima. Sempre frequentei ambientes nos quais se lia pouco, a começar pelos ambientes da infância e adolescência. E depois na vida adulta. Sou fruto da sociedade humana de onde nasci.

Enfim... se entrei para as estatísticas dos poucos que leem foi por acasos, veredas da vida. Sorte.

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Vi o filme "Dias perfeitos" (2023), de Wim Wenders. 

Cara, estou até agora bolado com a história. 

Muitas questões colocadas, nenhuma resposta dada... senão seria fácil demais!

E quanto a mim? E meus dias perfeitos? Por que não? Por quê? O que me impede?

...

William  

quarta-feira, 12 de junho de 2024

18 de 100 dias



18. Enquanto caminhava hoje pela manhã, pensei tanta coisa que acho uma pena as ideias se perderem depois que se chega em casa. Refletia sobre a minha busca de sentidos e objetivos para um viver de curto prazo: realizar alguma coisa a cada centena de dias.

O que quero ter feito até dois de setembro, primeira centena de dias de vida desde que pensei nesta forma episódica de viver em ciclos curtos de existência? 

100 dias pode ser muito tempo e pode ser tempo nenhum para determinadas coisas da existência e da natureza.

Uma pessoa pode melhorar sua saúde em 100 dias ou pode ter sua condição de saúde fodida em uma centena de dias... (minhas dores no quadril vão melhorar ou piorar, por exemplo?)

Uma pessoa pode aprender algo que mude sua vida em 100 dias e pode também passar a viver de negacionismo e desinformação numa espiral tão maluca que vire uma merda em forma humana...

Eu olho ao meu redor e o que vejo é horrível! Que merda virou o mundo! Da mesma forma que olho para fora, olho para dentro de minha vida e também percebo que não estou satisfeito. Sou um homem de sorte, por um lado, e sou uma pessoa que não tem encontrado realização pessoal, por outro. Que fazer?

Não defini um ou mais objetivos claros para perseguir em meu primeiro ciclo de 100 dias. Com o passar dos dias de busca de sentidos e de mudanças para a condição de insatisfação permanente, tenho obtido algumas noções de coisas a fazer.

Tenho que melhorar minha condição de saúde integral. Estou mais atento a isso. Sem a realização dessa tarefa, qualquer outra vai pro saco! Sem saúde e energia não sou nem estou no mundo de forma plena.

Tenho grande insatisfação por ter me tornado uma pessoa desorganizada na vida pessoal, sendo alguém que atuou para organizar o mundo lá fora durante minha militância e representação política. Casa de ferreiro, espeto de pau!

Avaliei nestes 18 dias de buscas por mudanças e sentidos que preciso organizar as mídias que tenho de cultura em geral. Fazer uma espécie de centro de documentação (cedoc), que inclua os livros que tenho, filmes, revistas, apostilas, cadernos, os mais de 5 mil textos que fiz em blogs e que estão em nuvens... ou seja, podem se perder a qualquer momento.

NUVENS

Uma das coisas que pensei enquanto caminhava é sobre essa questão das nuvens. É um erro crasso da humanidade confiar em depositar nossos conhecimentos e culturas em nuvens... ou seja, em meios digitais que estão mantidos em máquinas dos grandes donos do mundo, dos capitalistas, um bando de fdp fascistas que estão destruindo a humanidade e a natureza com todas as formas de vida.

É um erro não guardarmos nossos conhecimentos e culturas em meios físicos. As nuvens, os tais meios digitais servem de backup, mas não se pode deixar que toda a nossa produção humana esteja somente nas máquinas dos fdp donos do mundo, uns merdas como os donos das big techs!

Enfim, enquanto vou vivendo, acho que tenho que organizar o meu cedoc e que isso sirva pra alguma coisa (ou não), mas que esteja por aqui em algum lugar disponível. Podem pôr fogo depois, não sabemos o dia de amanhã. 

Que eu deveria organizar a quantidade enorme de conhecimentos e culturas que sei que tenho, isso deveria! Então, mãos à obra, caralho!

Fiz isso nos últimos dias.

William


domingo, 9 de julho de 2023

Leitura: Novos poemas - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural

Osasco, 9 de julho de 2023. Domingo.


O TEMPO, A MATÉRIA E OS HOMENS PRESENTES 


"Que quer a paixão? detê-lo.
Que quer o peito? fechar-se
contra os poderes do mundo
para na treva fundir-se.

Que quer a canção? erguer-se
em arco sobre os abismos.
Que quer o homem? salvar-se,
ao prêmio de uma canção.
" (O arco)


O livro Novos poemas (1948) é o sexto livro de poesias de Drummond que li. Ele está no 1º volume da coletânea Nova Reunião: 23 livros de poesia, da Edições BestBolso. 

Os cinco livros anteriores de Drummond são os que mais conheço, desde que passei a ler poesia, após os 30 anos de idade. Os três primeiros - Alguma poesia, Brejo das almas e Sentimento do mundo - leio há mais de duas décadas. José e A rosa do povo, li inteiros pela primeira vez durante a pandemia de Covid-19. Foi uma experiência marcante.

"O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,/a vida presente" (Mãos dadas)

Drummond é uma figura humana extraordinária! Dessas que passaram pela humanidade e deixaram grandes coisas para os seres humanos. O poeta foi cronista por mais de seis décadas. Como cronista era um observador, um homem cuja matéria era o tempo, os homens e a vida presentes. Um grande homem, Drummond.

Talvez por causa do poeta trabalhar justamente com as palavras e sua matéria ser o tempo, os homens e a vida é que sempre que leio Drummond fico tão pensativo sobre nossas vidas, nosso tempo e os humanos que nos cercam. Foi assim na leitura dos poemas desse pequeno livro Novos poemas. Pensei nessas coisas do tempo presente e da vida presente.

"Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me veem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
" (Canção amiga)  

É evidente que o coração sente o esquecimento, o ser deixado de lado por causa dos tempos de mesmices e bolhas amigas que não toleram a divergência construtiva. Como não sentir? Sinto. É seguir saudando os velhos amigos.

"E resta a espera, que sempre é um dom.
Sim, os extraviados um dia regressam
ou nunca, ou pode ser, ou ontem.
E de pensar realizamos
" (Desaparecimento de Luísa Porto)

Tanto tenho refletido sobre os momentos nos quais nos sentimos impotentes por causa da incapacidade de interferir em eventos da materialidade da vida nossa e dos outros... às vezes, nos resta a torcida e a espera, até como um dom mesmo, como diz o poeta.

"Mas tenho apenas meu canto,
e que vale um canto? O poeta,
imóvel dentro do verso,

cansado de vã pergunta,
farto de contemplação,
quisera fazer do poema
não uma flor: uma bomba
e com essa bomba romper
" (Notícias de Espanha)

Eita, poeta! Às vezes, a gente que agora só tem a palavra, sem mandato sem representação, a vontade é de escrever e falar tudo o que pensa mesmo, sobre o movimento, sobre a Cassi, sobre acertos e erros de nosso governo, as potencialidades efetivadas e as perdidas...

"A dileta circunstância
de um achado não perdido,
visão de graça fortuita
e ciência não ensinada,
achei, achamos. Já volto
e de uma bolsa invisível
vou tirando uma cidade,
uma flor, uma experiência,
um colóquio de guerreiros,
uma relação humana,
uma negação da morte,
vou arrumando esses bens
em preto na face branca.
" (Aliança)

Do poema "Aliança" quase escolhi dele a ideia triste de "Já desisto de lavrar/este país inconcluso,". Aí pensei, pensei, pensei e senti que o melhor é tirar a ideia feliz "e de uma bolsa invisível,/vou tirando uma cidade,/uma flor, uma experiência/um colóquio de guerreiros,/uma relação humana,". 

É isso! Estamos vivos, estamos aqui, a vida é o presente de lutas, a história segue sendo feita por nós, humanos.

O poema "O enigma", último do livro, é fabuloso! As pedras são as personagens da história. Elas caminhavam pela estrada e um dia uma forma obscura lhes interrompe o caminho. Eram inteligentes e raciocinaram enquanto puderam sobre o que fazer. Acabaram por se fixarem no caminho como chão, montanhas ou seixos.

"Ai! de que serve a inteligência - lastimam-se as pedras. Nós éramos inteligentes; contudo, pensar a ameaça não é removê-la; é criá-la.

Ai! de que serve a sensibilidade - choram as pedras. Nós éramos sensíveis, e o dom de misericórdia se volta contra nós, quando contávamos aplicá-lo a espécies menos favorecidas.
" (O enigma)

Fica para nós a mensagem final do poema e do livro, a Coisa "não se compadece nem de si nem daqueles que reduz à congelada expectação", a Coisa "Barra o caminho e medita, obscura."

Esse é nosso poeta Carlos Drummond de Andrade. Esse foi meu 2º livro do semestre e o 20º neste ano. 

Se contar os poemas dos 6 livros que li de meu poeta preferido, agora são 49+26+28+12+55+12=182 poemas conhecidos por mim. Faltam centenas ainda. É seguir lendo e conhecendo Drummond.

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REFLEXÕES

No início deste semestre, a primeira leitura feita por mim foi a argumentação do jovem advogado Fidel Castro em defesa do movimento de libertação de Cuba e do povo cubano, o grupo atacou o Quartel Moncada e por detalhes não obteve sucesso. Fidel nos conta em A história me absolverá as motivações seculares que moveram aqueles jovens corajosos, patriotas e revolucionários. Ler comentário sobre o livro aqui.

De ler a argumentação de Fidel Castro e de ver paralelos entre as causas originárias das lutas de libertação do povo cubano e as causas que moveram por mais de meio século o retirante nordestino e metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva - essas causas comuns são a miséria do povo, a injustiça social e o abuso de elites e grupos de poder instalados nos países da América do Sul e Caribe - peguei na estante alguns livros sobre Lula e os apartei como desejo de leitura para os próximos dias.

E onde entram os desejos de leitura que ocupam os dois lados de minha pequena mesa de trabalho e estudos na sacada de casa, livros sobre Cuba, sobre Machado, de poesias de Cecília Meireles e Drummond e Os miseráveis? Peguei até um livro de Peter Straub dos anos oitenta de terror e suspense que me deu medo quando o li na adolescência... 

Que miscelânea é essa? Talvez tudo isso tenha para mim um sentido de tempo presente, de urgência do presente, de finitude de tudo e falta de tempo para conhecer tudo que gostaria de conhecer no parco tempo de uma vida humana. Eu só tenho o presente...

Sinto que o tempo está passando naturalmente. Sinto que o tempo está escorrendo rápido como se fosse a água descendo por um ralo: tempo psicológico? tempo cronológico?

Já sei que não tenho o tempo que passou, sei que não tenho domínio algum sobre um eventual tempo que possa vir, e às vezes sinto que sequer tenho domínio sobre o tempo presente. 

O tempo presente. A materialidade do tempo presente. Se sou e estou por que sinto que não consigo sequer fruir o tempo como poderia ser e estar? 

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Domingo. Gostaria de ir à plenária de 100 dias do mandato da vereadora Luna Zaratiini (PT-SP), a jovem está fazendo um mandato da forma como aprendi a fazer representação política, ela está sempre presente nas reuniões e eventos do DZ Butantã. 

Trabalho de base: meu primeiro exemplo de trabalho de base foi nosso companheiro Marcos Martins, aqui de Osasco: ele sempre foi uma referência para mim. Um mandato ao lado do povo o tempo todo, ao lado da base social que representa. Fiz assim os nossos mandatos sindicais e o de gestor de saúde na autogestão dos trabalhadores do BB. Fui querido e odiado por isso. É a luta de classes.

Nesta semana já saí de casa na quinta ao ir a um Sarau do Sindicato, saí na sexta ao me encontrar com um colega de banco aposentado, já passei a tarde do sábado em reunião do Partido contribuindo com as visões políticas que temos, e na segunda tenho que sair para ir a uma atividade defender as casas de cultura ameaças de privatização pelo governo de merda da cidade de São Paulo. Acabei decidindo ficar em casa no domingo. Fica aqui o meu registro de admiração e apoio ao mandato de Luna Zarattini.

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"Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
" (Canção amiga)

Tanta coisa pra escrever, mesmo que para poucas pessoas. Faz dias que tenho refletido sobre fazer um artigo abordando a questão do álcool, da bebida alcoólica e seus efeitos deletérios para as pessoas que bebem e para a sociedade como um todo. Sei que não vão gostar do que vou dizer, mas fico pensando nos ensinamentos de Edward Said sobre o papel que um estudioso e intelectual tem perante a sociedade. Temos que apontar o que pensamos sobre as coisas, independentemente de agradar ou não as pessoas.

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É isso! Já escrevi bastante por hoje. Vamos ficar em casa, ler um pouco e talvez fazer algo mais favorável à saúde do corpo e da mente.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.


sexta-feira, 10 de março de 2023

Leitura: Os sentidos do lulismo - Reforma gradual e pacto conservador (2012) - André Singer



Refeição Cultural

Osasco, 10 de março de 2023. Noite de sexta-feira.


"Enquanto os meios de pagamento cresçam, cada fração de classe pode cultivar o seu lulismo de estimação. Responsável, apesar de algo populista, para os bancos. Nacionalista, ma non troppo, para os industriais. Promotor do emprego, embora precário, para o proletariado. Apoiador do crédito para a agricultura familiar, ainda que relutante quanto a enfrentar o latifúndio, para os trabalhadores rurais. Por isso, o presidente pode pronunciar, para cada uma delas, um discurso aceitável, usando conteúdos diferentes em lugares distintos e, sobretudo, tomando cuidado para que os conflitos não impliquem radicalização e mobilização. Porém, o entusiasmo, capaz de sustentá-lo nos momentos difíceis, como foi o 'mensalão', o lulismo só vai encontrar em meio ao subproletariado, o que está relacionado ao fato de que, como toda solução arbitral, tem como prioridade atender à própria base, a que garante a sua continuidade. Daí que, de todas as políticas adotadas, a integração do subproletariado seja a decisiva." (p. 203)


Terminei hoje a leitura desse ensaio fundamental de André Singer sobre Lula e o fenômeno do lulismo na história do Brasil e do povo brasileiro. O livro é espetacular ainda hoje, mais de uma década após a publicação da tese do jornalista e cientista social.

O livro é dividido em quatro capítulos, além da introdução e de um posfácio.

- Introdução: Alguns temas da questão setentrional

1 - Raízes sociais e ideológicas do lulismo

2 - A segunda alma do Partido dos Trabalhadores

3 - O sonho rooseveltiano do segundo mandato

4 - Será o lulismo um reformismo fraco?

- Posfácio: No meio do caminho tinha uma pedra

Ao longo da leitura dos capítulos fiz postagens com alguns comentários e citações. Sobre a Introdução, ver aqui. A leitura do 1º capítulo comentei nesta postagem aqui. Os comentários do 2º capítulo podem ser lidos aqui. E as impressões do 3º capítulo, aqui.

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O TESTE ELEITORAL DO LULISMO

"A vitória de Dilma Rousseff na eleição de outubro de 2010 mostrou a vigência do realinhamento e garantiu por pelo menos mais quatro anos a extensão do lulismo..." (p. 169)

A eleição de 2010 comprovou o que Singer demonstra ao longo do livro. O perfil dos eleitores de Lula mudou entre 1989 e 2010, inverteu-se, houve um realinhamento. Os muito pobres e subproletários que sempre votaram contra a esquerda até 2002 foram decisivos nas eleições de Lula em 2006 e Dilma, indicada por Lula na eleição seguinte.

LULISMO

É o governo Lula melhorar a vida do povão sem nenhuma arruaça ou revolução.

"A transferência de votos de Lula para Dilma entre os mais pobres e no Norte/Nordeste implica que o projeto político de reduzir a pobreza sem contestar a ordem, particularmente nos bolsões de atraso regional em que a pobreza se fixou ao longo da história brasileira, conquistou corações e mentes, tornando plausível a longa duração para o lulismo que venho supondo desde o início desta exposição." (p. 175)

EXPORTAÇÃO DE COMMODITIES AJUDOU O LULISMO

Singer afirma que a expansão mundial da economia e a valorização das commodities contribuíram para o sucesso dos governos Lula. Mas não foi só isso. As políticas de governo foram mais que centrais.

"Foi a fortuna da conjuntura internacional associada à virtù de apostar na redução da pobreza com ativação do mercado interno que produziu o suporte material do lulismo." (p. 179)

AUMENTO DO EMPREGO E RENDA DO TRABALHO 

"Isso quer dizer que o fator fundamental na redução da desigualdade durante o governo Lula foi o expressivo aumento do emprego e da renda, na qual a valorização do salário mínimo teve rol crucial, e não as políticas compensatórias, fossem elas de corte neoliberal ou não." (p. 184)

ERA PRA SER UM REFORMISMO "FORTE", MAS O POSSÍVEL FOI UM REFORMISMO "FRACO"

Singer explica que o desejo do petismo com "o espírito de Sion", o grupo que criou o PT nos anos 80, era pra termos um reformismo forte, mas a realidade se impôs e após os anos noventa, principalmente a partir de 2002 com a "Carta ao povo brasileiro" - prevaleceu "o espírito do Anhembi" e tivemos um reformismo fraco, sem rupturas e contestação ao capitalismo. 

"As condições para o programa de combate à pobreza viriam da neutralização do capital por meio de concessões, não do confronto. A manutenção da tríade juros altos, superávits primários e câmbio flutuante faria o papel de acalmar o capital. De outro lado, a simpatia passiva dos trabalhadores, para quem a ativação do mercado interno e a recuperação do mercado de trabalho representavam benefícios reais, garantiu a paz necessária para não haver radicalização. Após o 'mensalão' e a emergência do lulismo, sobretudo no segundo mandato, com sustentação social própria formada pelos votos do subproletariado, Lula pôde implantar a fórmula 'ordem e mudança' com maior liberdade e resultados melhores, como vimos no capítulo anterior." (p. 188/189)

Em resumo:

"ao tomar das propostas originais do PT aquilo que não implicava enfrentar o capital como seria o caso da tributação das fortunas, revisão das privatizações, redução da jornada de trabalho, desapropriação de latifúndios ou negociação de preços por meio dos fóruns das cadeias produtivas, o lulismo manteve o rumo geral das reformas previstas, não obstante aplicando-as de forma muito lenta. É a sua lentidão que permite interpretá-lo como tendo um sentido conservador..." (p. 192/193)

REFORMISMO FRACO

"A conversão da segunda alma do PT ao lulismo (o espírito do Anhembi) e seu correspondente ideológico, o desenvolvimento de um capitalismo popular, deixou vazio o lugar do anticapitalismo, hoje disputado por pequenas siglas como o PSOL e o PSTU, já que a esquerda do PT tem impacto dentro do partido, mas pouco fora dele. Essa situação carrega um paradoxo: o de que a esquerda no Brasil ganhou e perdeu, ao mesmo tempo, com a ascensão do lulismo. No momento em que um projeto reformista, mesmo fraco, avança na redução da sobrepopulação trabalhadora superempobrecida permanente, aumentando o contingente proletário, a luta ideológica parece recuar para um estágio anterior ao conflito capital/trabalho." (p. 219)

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COMENTÁRIO

Eu tive acesso à tese de André Singer sobre o lulismo durante o segundo mandato do presidente Lula. Era dirigente sindical dos bancários no Sindicato e na Confederação e achei a tese muito coerente com a realidade que vivíamos no país.

Muitas impressões que tinha a respeito da sociedade brasileira foram confirmadas com os dados que Singer apresentava em relação às eleições presidenciais desde a redemocratização. Os pobres não votavam e não simpatizavam com a esquerda. Exemplo: minha família de pobres e conhecidos pobres. Votaram no Collor, no FHC e na pqp, menos no Lula e no PT.

A eleição de Lula em 2002 teve toda uma conjuntura favorável. O neoliberalismo tinha fodido com o país e com o povão, tinha dizimado a classe média também, parte dela composta por funcionários públicos e ex-públicos - demitidos pelas privatizações -, a classe trabalhadora se ferrou com os tucanos.

Vi, vivi e ajudei a construir os mandatos de Lula e Dilma como dirigente da classe trabalhadora entre 2003 e 2018, tenho em minha pele todas as nossas conquistas do 1º dia do mandato de Lula até o golpe contra Dilma em 2016. Fomos do inferno ao céu com o PT no governo e do céu ao inferno com os bandidos no poder entre 2016 e 2022.

A volta de Lula à presidência do Brasil em 2023 é, na minha opinião, a vitória do lulismo. Não tínhamos outra liderança no país capaz de conquistar os 50,9% dos votos válidos na eleição viciada de 2022 através de uma máquina fraudulenta e corrupta que usou o orçamento público e meios desonestos para tentar manter os milicianos no poder central.

Acho o livro muito atual, mesmo considerando que Singer o escreveu antes das manifestações de junho de 2013, antes da Lava Jato, antes de Aécio e Cunha, antes do golpe e antes da aberração que colocaram no poder em 2018, com Lula preso numa masmorra de forma ilegal e sem poder concorrer.

A leitura já nem teria sentido para mim, recolhido em casa, fora do movimento político por não caber mais nos espaços onde militei por mais de duas décadas. O mundo mudou e as pessoas mudaram, não há mais convívio político se a gente tem personalidade e posição política, e nunca fui de paparicar ninguém.

Após uma conversa com o amigo e companheiro de tantas jornadas, o mestre Carlindo do Dieese, acabei pegando o livro na mão e toquei a leitura até o fim. Foi bom! Clareei mais ainda minha visão do mundo no qual estamos enfiados.

Basta. Registrada a impressão. André Singer é um cientista político que nos legou uma grande interpretação do povo brasileiro e do Brasil. 

Obrigado, Singer!

William


Post Scriptum (12/3/23): No sábado pela manhã, li o posfácio do livro - "No meio do caminho tinha uma pedra". Nele, André Singer nos fala um pouco de seu percurso formativo, de sua experiência como jornalista e professor no Departamento de Ciência Política da USP e a gênese da ideia do lulismo. O texto é dividido em 3 partes: tempos de esperança, tempos de experiência e tempos de reflexão. Gostei muito do texto. Cito abaixo um conceito de Singer que já conhecia dos tempos de leitura de Edward Said (ler aqui) sobre a questão do papel do intelectual.

"Penso que cabe ao intelectual participar da vida pública de modo peculiar. Justamente por não ser representante, a não ser de si mesmo, ele tem a liberdade de falar o que os profissionais não podem dizer. Deve fazer uso dessa franquia para, com a bagagem do conhecimento acumulado, intervir na agenda pública, usando, sem medo, o senso de perspectiva histórica que o treino intelectual propicia. A sociedade necessita de balizas fundamentadas no mar de eventos encapelados que os jornais, revistas, televisões e páginas de internet oferecem dia a dia." (p. 247)


Bibliografia:

SINGER, André. Os sentidos do lulismo - Reforma gradual e pacto conservador. 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Leitura: A guerra contra o Brasil - Jessé Souza



Refeição Cultural

Osasco, 21 de novembro de 2022. Segunda-feira.


"O bolsonarismo utiliza as contradições sociais para manter o clima de guerra social constante – precisamente o modus operandi miliciano: ameaçar e chantagear o tempo todo para extorquir o máximo possível. Ele coloniza a opressão e o ressentimento popular contra as classes “superiores” em sua luta contra tudo que represente o “espírito”: artes, ciência, universidades, cultura, livre pensamento. Como o conhecimento e a cultura foram utilizados muitas vezes como uma “carteirada” contra os mais pobres, a memória dessa humilhação sobrevive no apoio a esse tipo de destruição do patrimônio simbólico do país empreendido por Bolsonaro." (de: "A guerra contra o Brasil - Como os EUA se uniram a uma organização criminosa para destruir o sonho brasileiro" por Jessé Souza)


Enfim, consegui ler o primeiro livro do sociólogo Jessé Souza, grande estudioso do Brasil e do povo brasileiro. Tenho vários livros do autor, mas ainda não havia conseguido ler uma obra dele do início ao fim. Aliás, A guerra contra o Brasil (2020) é um dos primeiros livros que li através do Kindle. Temos ele impresso, minha preferência, mas eu o li na ferramenta virtual.

O que poderia comentar a respeito do livro de Jessé Souza? O subtítulo é autoexplicativo e diz tudo o que significa esta denúncia do sociólogo para nós brasileiros: "Como os EUA se uniram a uma organização criminosa para destruir o sonho brasileiro". O estudioso esclarece aos leitores e leitoras como os ricos dos EUA procederam para dominar a ampla maioria do povo norte-americano e como eles fizeram para estender seu domínio imperialista ao restante do mundo, e lá estamos nós, a ex-colônia Brasil.

VALE A PENA LER ESTE LIVRO DE JESSÉ SOUZA?

Ao fazer uma postagem no blog, preciso sempre pensar um motivo para tal coisa. Por que falar a respeito do livro de Jessé Souza que acabei de ler? O livro acrescentou alguma coisa para mim? Eu recomendaria a leitura do livro para as pessoas que por acaso leiam esta postagem aqui neste blog de cultura? Tenho um compromisso com os milhares de leitores e leitoras do blog e me esforço para ser honesto em tudo o que escrevo aqui.

De cara, diria que recomendo muito a leitura do livro para as pessoas jovens que têm carência de conhecimentos de história, para a militância de movimentos sociais que já têm um sangue borbulhante nas veias (sangue vermelho!) ao lutarem diariamente contra as injustiças e abusos das elites contra a grande maioria do povo humilhado e sem oportunidades de ascender na vida.

Além dos mais jovens e com pouco acúmulo de experiências de vida, eu diria que esse livro traz muita informação para os adultos que tiveram formações escolares tradicionais porque os currículos escolares seguem o cânone construído pelas elites para nos fazer repetir a história brasileira através do viés deles, da casa-grande. 

Esse cânone inclui a leitura de Brasil e de povo brasileiro de Gilberto Freyre, S. B. Holanda, Raymundo Faoro, FHC e outros intelectuais que criaram leituras de brasis cordiais, mestiços, da bela democracia racial, da igualdade entre todos, da falsa meritocracia, da invenção vira-lata de que somos corruptos por gênese blá blá blá. Leiam Jessé Souza!

E para mim, um militante político com mais de cinquenta anos e que passou quase duas décadas na representação da classe trabalhadora e que já se dedicou bastante aos estudos de nossa história do Brasil? Valeu a pena a leitura do livro? A leitura me trouxe informações novas e reflexões novas? Sim!

Valeu muito a leitura! Aprendi muito e relembrei muita coisa importante para entender o que somos, por que as coisas são como são e como poderíamos mudar as coisas, através da educação e da informação ao nosso povo. Valeu muito a leitura.

O RACISMO, BASE DE TODA EXPLORAÇÃO CAPITALISTA

O livro se divide em 3 partes e a primeira delas eu gostei muito por aperfeiçoar meu entendimento a respeito da história norte-americana.

- A construção da ideologia do imperialismo informal americano

- A elite colonizada brasileira e sua estratégia: a transformação do racismo em moralismo

- As metamorfoses do neoliberalismo

Através da leitura dessas 3 partes do livro, fica muito mais fácil entender as pessoas ao nosso redor. Sério mesmo! Consigo ver meus familiares e o comportamento deles através do livro de Jessé Souza. Vejo os bancários da ativa e aposentados que representei por tanto tempo. Olho meus vizinhos e os vejo dentro das descrições do comportamento do povo brasileiro pobre e de classe média baixa em cada um deles. É impressionante!

Jessé Souza nos mostra como se comportou o capitalismo norte-americano ao longo do século XX, os efeitos do New Deal durante algumas décadas e as mudanças a partir dos anos 70 finalizando uma fase de conciliação de classes entre os trabalhadores e os donos do poder. Depois vemos como o domínio sobre a classe trabalhadora dentro do próprio país se expandiu para o domínio do mundo com o poder imperialista sobre dezenas de países das Américas e dos outros continentes. É foda!

Por fim, a 2ª parte deixa muito claro o que somos. A forma como o racismo "racial", como diz Jessé Souza, nos afeta desde a origem do Brasil. Como os donos do poder transformaram o racismo em moralismo, um moralismo canalha, corrupto, de gente picareta. São os nossos conhecidos que roubam o dia inteiro, que são corruptos em tudo o que fazem e pensam, e arrotam um moralismo para julgar os outros. Leiam Jessé Souza e entendam aquele seu familiar e conhecido corrupto e mau caráter que se diz moralista e "pessoa de bem".

É isso!

Livro esclarecedor de um grande estudioso brasileiro que nos dá muito orgulho por nos fazer pensar e por nos fazer rever dogmas pseudocientíficos enfiados goela abaixo nos currículos escolares por décadas e gerações.

William Mendes


Bibliografia:

SOUZA, Jessé. A guerra contra o Brasil - Como os EUA se uniram a uma organização criminosa para destruir o sonho brasileiro. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2000.


quarta-feira, 14 de julho de 2021

Florestan Fernandes - Vida e obra



Refeição Cultural

"A Constituição instituiu um 'estado de direito', com liberdades políticas, garantias individuais e direitos sociais que só têm vigência se não afetam uma concepção obstinadamente reacionária da ordem legal e da iniciativa privada. O que consagra uma dualidade constitucional: há uma Constituição escrita, que exprime a 'vontade da Nação', mas converte-se em biombo para esconder o arbítrio e a violência; há uma Constituição consuetudinária, produzida pelo ânimo bélico das classes possuidoras e de suas elites dirigentes, consagrada pelo governo e por suas forças de repressão policial-militar e, frequentemente, judiciária. Essa dualidade constitucional é um desafio e um freio para a ação política dos trabalhadores livres e semilivres, os segmentos radicais da pequena burguesia e das classes médias. É preciso exterminá-la, porque ela institui a violência a partir de cima, a 'legitimidade' de um código não escrito que anula o texto constitucional, servindo somente para demonstrar o quanto a "Nova República" é sucessora hipócrita da ditadura militar e como se renova o despotismo da grande burguesia." (Florestan sobre a Constituinte e a Constituição, p. 162. Citação da Revista Teoria e Debate, nº 8, São Paulo, out/nov/dez de 1989)


Entre ontem e hoje, li o livro Florestan Fernandes - Vida e obra (2004), de Laurez Cerqueira. Anos atrás, havia lido quase a metade do livro e, como fazia sempre, não havia terminado. Agora li de uma vez.

A história de vida e militância do professor Florestan Fernandes é de nos fazer chorar. Aliás, por três vezes, chorei ao ler passagens do livro. 

Tenho muito orgulho de ter sido aluno da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH). Florestan foi professor de Sociologia I na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, até ser expulso (aposentado compulsoriamente com rendimentos proporcionais) em 1969 pelo Ato Institucional nº 5 da ditadura civil-militar.

A minha impressão é que Florestan é um excluído da intelectualidade brasileira comemorada pela burguesia. Ouve-se muito mais sobre Caio Prado Jr., Sérgio Buarque, Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre etc. Ele é um socialista, um defensor do socialismo e esse deve ser o motivo pelo qual a burguesia comemore outros pensadores e não ele.

Os capítulos do livro nos dão uma boa noção sobre a vida de nosso querido pensador socialista. Vejam abaixo o sumário do livro:

1 - De "Vicente" a Florestan

2 - Construir a sociologia científica e interpretar o Brasil

3 - 1964: Um golpe no sonho, um corte na produção intelectual acadêmica

4 - O cientista militante e a esperança no socialismo

5 - O professor Florestan Fernandes no Congresso Constituinte

6 - Compromisso e coerência

Foram capítulos de muita emoção na leitura. A infância pobre, com mãe solteira, trabalhando desde muito menino pelas ruas de São Paulo. O garoto franzino que se defendeu de marmanjos muito maiores nas ruas. A falta de condições de estudar até mesmo a educação básica.

Depois o adolescente e adulto que lia até 15 horas por dia para recuperar o tempo perdido com a falta de condições de estudar por questões de sobrevivência. Depois a vida de intelectual, professor e militante das causas sociais.

Ao ler sobre seu período de enfrentamento à truculência da ditadura a gente fica muito comovido. Depois vimos suas lutas como intelectual parlamentar na Constituinte e no mandato seguinte na Câmara Federal. A convivência com Lula e a bancada do PT e as lições ao mesclar a academia com a política: os acordos possíveis. A defesa da Educação; a LDB.

Seu espírito de servidor público. Sua ética e sua prática como critério da verdade, coisa que aprendi ao ser dirigente sindical. A dramaticidade de sua doença - hepatite-C - e a forma trágica de sua morte nos deixam sem palavras.

Que história de vida! Que homem da esquerda brasileira!

Mexeu muito comigo a história de Florestan Fernandes...

Refletindo sobre... que refeição cultural... que lição de vida.

William


Bibliografia:

CERQUEIRA, Laurez. Florestan Fernandes - Vida e obra. São Paulo: Expressão Popular, 2004. 4ª reimpressão, out/2009.


segunda-feira, 5 de abril de 2021

Leitura: O verdadeiro criador de tudo



Refeição Cultural

"Viver é dissipar energia para poder embutir informação na massa orgânica do organismo" (NICOLELIS, 2020, p. 47)


Segunda-feira, 5 de abril, 14h. Ainda não liguei o celular e não acessei redes sociais nem informações do cotidiano. Sei que ao entrar na Matrix vou saber das mortes e tragédias causadas pelo regime genocida que se apoderou do Brasil após o golpe de Estado de 2016. Ler por algumas horas é uma atividade essencial para a continuidade de minha existência. Enquanto leio procuro sentidos, busco significar as coisas, inclusive a minha vida.

Acabei de ler o 3º capítulo do livro O verdadeiro criador de tudo (2020), do neurocientista Miguel Nicolelis. O livro nos faz pensar muito. Ganhei o livro de presente no dia de meu aniversário, no sábado 3. Estava ansioso para ler as teses do professor Nicolelis desde que vi entrevistas com ele a respeito do livro, ano passado. A ideia é ler um capítulo por dia. O de hoje foi denso pra caramba. Minhas experiências com biologia, áreas médicas e ciências me ajudaram na leitura.

Desde o meu aniversário no sábado, estou dedicando horas para responder a cada pessoa que me enviou alguma mensagem. Dá um trabalho imenso, mas imensa deve ser a nossa gratidão a cada pessoa que se dignou a enviar uma mensagem. Passei quase duas décadas envolvido com movimentos sociais e representando as pessoas, então é importante investir horas no agradecimento e retorno a cada pessoa que me citou numa saudação ou escreveu mensagens a mim.

Voltando ao livro do professor Nicolelis, fico impressionado com o quanto é fantástica a história dos seres vivos no planeta Terra. Ao dissipar energia para agregar informação ao organismo vivo, um conceito do livro, e perceber que a vida é isso, fica pouco espaço para permitir que os mitos criados pelo próprio cérebro humano influenciem o meu ser, meus pensamentos e minhas atitudes, mesmo tendo sido criado no caldo cultural do Brasil, da minha família e dos contextos culturais por onde vivi neste meio século de existência. Sou hoje o acúmulo de informações desses 52 anos de vida.

Bom, vamos entrar na Matrix, vamos sofrer um pouco (e sem o comprimido de Soma), vamos agradecer um pouco, vamos interagir um pouco. Enfim, vamos dissipar energia para agregar informação ao que somos, um organismo vivo.

William


Bibliografia:

NICOLELIS, Miguel. O verdadeiro criador de tudo: Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos. São Paulo: Planeta, 2020.


domingo, 26 de julho de 2020

Estudo de línguas - Língua Japonesa (IV)



Saudades de andar na USP...
essa pandemia mudou tudo.

Estamos em julho do ano em que o mundo mudou após o aparecimento de um vírus que se espalhou rapidamente e até o momento alterou a vida em todo o planeta, o novo coronavírus: Covid-19. Ano de 2020.

Dia desses, ao ouvir pela internet uma garota que fala diversas línguas, Anna Murakawa (além de ótima violinista, ela tem vídeos sobre aprendizagem), ela explicava que uma coisa importante para o aprendiz é ter claro o motivo pelo qual ele decidiu aprender um novo idioma.

Ao olhar para trás e fazer o exercício de definir o motivo pelo qual comecei a aprender a língua japonesa, vejo que o motivo não está muito claro, o que não é bom. 

Pensei em estudar japonês por ser uma língua bem diferente da minha. Pensei nos desenhos dos ideogramas e entendi que aprender essa linguagem poderia melhorar meu cérebro cinquentenário, exercitar meus neurônios e desenvolver minha inteligência.

Mas isso é suficiente para manter o esforço em aprender japonês? Aparentemente, posso substituir o estudo dessa língua por outras atividades e alcançar o mesmo objetivo. Então, pode ser que meu desejo esteja sendo insuficiente para avançar mais rápido, no sentido inclusive de maior dedicação.

Aprender japonês também pode ser interessante para mim porque passei a assistir animes com nosso filho, uma forma de interagir com ele em época tão difícil de manter contatos com as pessoas, inclusive as mais próximas. 

O ser humano está cada vez mais centrado em si mesmo, fisgado pelas coisas virtuais e sem paciência para coisas das épocas mais antigas, quando não havia toda essa tecnologia capturadora de humanos, e os humanos apenas ficavam juntos e conversavam.

Mas o motivo também é insuficiente para manter a energia necessária para esse aprendizado, pois já vemos os animes com legendas. 

Eu sonhei em ser poliglota, por ser poliglota, porque dizer que tinha esse desejo para realizar diversas coisas não seria verdade.

Se comparar com antes, sei alguma coisa hoje. Meses atrás não sabia nada. Agora já conheço os alfabetos e sei fazer as lições do curso online que faço. A matéria que passei a fazer na faculdade complicou um pouco minha condição de aprendiz porque eu estava estudando por conta em curso pela internet e o ritmo era o meu. 

Na faculdade é tudo programado e tem que ser cumprido. Neste momento em que estamos fechando o semestre, já não estou acompanhando bem o conteúdo. O fato de o curso ser à distância (EAD) não é desculpa nenhuma. Agora eu sei o que sofrem as pessoas que não sabem matemática ou outra matéria e sofrem porque falta a elas o básico que perderam em algum momento para trás.

Enfim, nas dificuldades a gente acaba parando para refletir um pouco sobre os porquês das coisas. Estou meio perdido, mas isso é normal em seres humanos que não são autômatos. Se temos dúvidas, talvez seja porque ainda pensamos. Que bom!

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Post Scriptum (28/7/20):

Quando falo que comparado com a etapa anterior eu já estou melhor, é porque já identifico sentenças com as estruturas da língua japonesa como as sentenças abaixo, com kanji, hiragana e katakana, com partículas que atuam na sintaxe e influenciam na semântica das expressões; mas ainda me falta autonomia para conseguir me comunicar e expressar pensamentos inteiros. Mas é melhor estar onde estou neste momento do que estar no ponto onde iniciei a jornada, quando não sabia nada.


図書館で漢字の辞書を借りる。
Pego emprestado um dicionário de kanjis na biblioteca.


この [ 新しい 家 ] は広い。
(kono atarashii ie wa hiroi)

Esta [casa nova] é espaçosa.


先生と生徒が学校で会う。
(Sensei to seito ga gakkō de au.)

Professor e aluno se encontram na escola.


家の前に大きな木があった。
(Ie no mae ni ōkina ki ga atta.)

Havia uma grande árvore em frente à casa.


十一日 


Ideograma que significa "dia 11 do mês ou 11º dia" じゅういちにち (a leitura)

自動車 = automóvel (gênero)

/Jidōsha/ じどうしゃ (a leitura em romaji e em hiragana)


新聞 = ideograma que significa jornal


しんぶん (a leitura em hiragana)

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Nunca é tarde para aprender e criar coisas novas





Neste instante em que escrevo, uma manhã fria de quinta-feira, me questiono sobre as coisas que faço. Por que levantei cedo, se poderia ficar no quentinho da cama? Não me faltam os recursos básicos para me deixar levar por tal prazer, o prazer da preguiça, o prazer do instante imediato que insiste em predominar sobre o desejo do novo, do incerto, do criar; o prazer imediato é o senhor supremo de nossas rotinas humanas e só será freado e vencido se nos insurgirmos contra ele. Buscar o novo, aprender algo a mais do que já sabemos, do que achamos que sabemos, é um desafio existencial diário. 

Ouço uma jovem que nos ensina como aprender novas línguas. Ela nos dá dicas de como aprender a aprender. Me lembro que décadas atrás já me interessava por técnicas de como aprender melhor as coisas. Na época o interesse eram provas de concursos públicos. Mas aprender a aprender é algo para a vida toda. Se aprendemos técnicas de memorização, de como derrotar a preguiça interna e confortável de nossa mente e de nossos corpos, só teremos a ganhar como seres humanos, seres que são dotados de mais capacidades físicas que outras espécies, principalmente por causa de nossos cérebros.

Os acontecimentos no mundo nos levaram a uma condição quase insustentável de sobrevivência neste instante e no próximo período. Milhões de pessoas estão neste instante com fome, com sede, com frio, com medo, com dor, com dores diversas... e isso não pode ser aceito por um ser humano decente. Costumo dizer a mim mesmo que o imponderável pode mudar tudo de uma hora para outra, penso isso como estratégia mental de enfrentamento ao desânimo que nos dominou. Mas uma coisa é fato: nenhuma mudança em favor de nossa classe social vem sem luta. Nenhuma! 

Se um meteoro cair no local onde se reuniam 500 desgraçados que nos dominavam e nos exploravam e faziam nossas vidas um martírio, e se todos eles deixarem de existir naquele instante da catástrofe natural, e se nós não estivermos organizados para mudar a situação que estava colocada antes, outros desgraçados próximos daqueles que nos dominavam farão com que tudo volte ao "normal". Entenderam? Qual "normal" nós queremos após a pandemia de Covid-19, por exemplo? Aquele normal em que 1% acaba com o planeta e nos faz lixo?

Permitimos que o mal avançasse sobre nossa vida cotidiana de forma intolerável, por preguiça, por prazer imediato, pela rotina, por falta de vontade de aprender e criar, permitimos que se tornasse normal mil pessoas morrerem por dia por uma doença que pode ser enfrentada; permitimos que uma pessoa detenha os recursos que seriam suficientes para manter com direitos básicos milhões de outros seres humanos. Permitimos ser normal a mentira dominar a pauta de nossas vidas e não fazemos nada a respeito.

Por que ter interesse em aprender a aprender neste momento do mundo? Porque é o melhor a se fazer. Temos que aprender a usar nossa inteligência para podermos ser criativos e acharmos soluções para essa tragédia social em que nos encontramos. A educação pública está morrendo. A saúde pública está morrendo. Os direitos de cidadania estão morrendo. Vamos morrer sem os direitos básicos de cidadania. Não podemos aceitar como rotina morrermos sem direitos básicos de cidadania. Então temos que superar a preguiça de pensar, de aprender, de criar. Estudar e aprender algo novo é um ato de resistência e de mudança. Mudando a gente, a gente muda o mundo que está nos matando.

Estudem. Façam algo por vocês mesmos. Aprendam alguma coisa nova hoje.

William

domingo, 10 de maio de 2020

100520 (d.C.) - Diário e reflexões





Domingo de luar, Dia das Mães, Osasco, país jabuticaba, novo dia depois da pandemia do vírus Covid-19.

Vencemos mais um dia. Vamos para mais um amanhã. Tantas coisas que fazer ainda. Tantas coisas possíveis. Tantas coisas que eram possíveis até pouco tempo atrás. Tantas coisas que talvez não sejam mais possíveis para mim. Vai saber como será a semana neste mundo novo.

Neste momento de fim de noite de domingo das mães, o quadro estatístico sobre infectados e mortos pelo novo coronavírus aponta que estão infectados 4,1 milhões de pessoas no mundo e morreram até agora 282,7 mil seres humanos. No país jabuticaba, temos oficialmente 162,7 mil infectados e 11.123 vítimas fatais. Mas aqui é um dos países que menos realizam testes para identificar infectados, e os números podem ser muito maiores. O monstro que meus concidadãos elegeram em 2018 comemorou os números andando de Jet Ski. Aqui é assim...

Eu decidi estudar a Língua Japonesa neste ano porque gosto da cultura japonesa e porque o desafio poderia exercitar meu cérebro e auxiliá-lo a funcionar bem após meio século de vida. Estava indo muito bem através de um curso pago na internet e de uma matéria presencial em minha graduação em Letras na USP. Aí veio a quarentena, a parada do mundo. O isolamento social se somou à tristeza com a destruição do meu mundo pela ascensão do mal ao poder por golpe e por adesão de parte do povo que eu amava. Bateu um desânimo perigoso para o meu viver. O corpo por dentro está morrendo, sinto isso em meu abdômen. É triste e não é porque quero.

Como a vida seguiu nesta semana, e segue a partir de amanhã, a gente segue fazendo coisas que são possíveis. Eu sempre tive sonhos de cultura e conhecimento. Queria ser um erudito, um sábio, um intelectual. Admiro muito pessoas com grande acúmulo de conhecimento. Admiro mais ainda quando essas pessoas usam o conhecimento para o bem coletivo. 

Esse desejo de saber me fez começar projetos de leituras e nunca terminar quase nada, pois começava um livro, pegava outro, começava mais um, pegava outro e assim ia. 

Pensando em parar com isso, dei uma rápida olhada na estante e identifiquei vários livros que poderia retomar e ganhar aquela experiência de leitura. 

Tudo está estranho, sem sentido, sem razão lógica e sem prazer a esta altura de minha vida. É lógico que isso é um processo psicológico, somos humanos. Estou tentando me agarrar numa tese que ouvia de alguns professores que diziam sobre clássicos da literatura mundial que era sempre melhor lê-los que não lê-los. 

E sempre tem os livros novos também, alguns humanos continuam produzindo coisas interessantes de se ler.

Foi assim que li algumas centenas de páginas nesses dias. Terminei um livro de romance ao ler mais de cem páginas de uma vez. Agora estou terminando outro do mesmo jeito, acabo amanhã. 

Tem cada livro referencial que estou no meio... Hobsbawn, Galeano, Dostoiévisk, Hobbes, Jessé Souza, Gorbachev, Marx, Mandela, José Dirceu... (pensa dezenas e dezenas de leituras inacabadas).

Chega de registros por hoje. Vamos ver o que a vida nos reserva para a semana.

William
Um leitor

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Livro: A importância do ato de ler (para se criar uma disciplina intelectual)




Refeição Cultural

"Parece importante, contudo, para evitar uma compreensão errônea do que estou afirmando, sublinhar que a minha crítica à magicização da palavra não significa, de maneira alguma, uma posição pouco responsável de minha parte com relação à necessidade que temos, educadores e educandos, de ler, sempre e seriamente, os clássicos neste ou naquele campo do saber, de nos adentrarmos nos textos, de criar uma disciplina intelectual, sem a qual inviabilizamos a nossa prática enquanto professores e estudantes" (Paulo Freire, início dos anos 80)


Entre ontem e hoje, sexta-feira, 7 de dezembro, reli ensinamentos do professor e mestre Paulo Freire, em um livro que traz 3 palestras dele no início dos anos oitenta - A importância do ato de ler - em três artigos que se completam. Eu li estes artigos há uma década.

É impressionante o quanto as coisas mudam, o quanto o mundo como o conhecemos pode se alterar radicalmente de tempos em tempos. 

Paulo Freire é uma personalidade reconhecida e respeitada no mundo todo quando o assunto é pedagogia e educação. 

No cataclismo que inunda e chacoalha toda a estrutura brasileira, até Paulo Freire passou a ser caçado e difamado por certos grupos de poder político, que dizem estarem dispostos a eliminá-lo da história. 

Felizmente, lá fora, ele segue sendo uma referência mundial em educação. O "ensaio sobre a cegueira" só atingiu até agora parte da geografia mundial (ufa!)

Um ensinamento de Freire em relação a educação e poder nos dá a compreensão exata dos debates acerca da política partidária da "escola sem partido":

"Do ponto de vista crítico, é tão impossível negar a natureza política do processo educativo quanto negar o caráter educativo do ato político"

Todo grupo social ou segmento político que está no poder instituído vai atuar de forma a estabelecer sua visão no sistema formativo-educativo. No entanto, por mais influência que esse grupo de poder tenha, não será simples essa tarefa porque o sistema é dinâmico, ocorrem reações e as idiossincrasias vão atuar para impedir uma submissão total do sistema ao status quo momentâneo.

Cito mais um trecho de suas reflexões a respeito do que afirmo acima:

"Mas se, do ponto de vista crítico, não é possível pensar a educação sem que se pense a questão do poder; se não é possível compreender a educação como uma prática autônoma ou neutra, isto não significa, de modo algum, que a educação sistemática seja uma pura reprodutora da ideologia dominante. As relações entre a educação enquanto subsistema e o sistema maior são relações dinâmicas, contraditórias e não mecânicas. A educação reproduz a ideologia dominante, é certo, mas não faz apenas isto. Nem mesmo em sociedades altamente modernizadas, com classes dominantes realmente competentes e conscientes do papel da educação, ela é apenas reprodutora da ideologia daquelas classes. As contradições que caracterizam a sociedade como está sendo penetram a intimidade das instituições pedagógicas em que a educação sistemática está se dando e alteram o seu papel ou o seu esforço reprodutor da ideologia dominante"

Amig@s leitores, eu recomendo a leitura desse pequeno livro de Paulo Freire, de cerca de 80 páginas. É muito esclarecedor para os tempos que vivemos e que viveremos no próximo período da vida brasileira.

Tento achar esperanças nas palavras grávidas de mundo de Paulo Freire, ao ver tantas, tamanhas contradições por parte do agrupamento que vai assumir o poder do país a partir de janeiro de 2019. E não importa a visão política de cada um agora. Todos somos brasileiros e as consequências dos atos políticos cairão sobre todos nós.

Esse período pós resultado eleitoral e anterior à posse já se mostrou tão absurdo ao nomear um ministério de gente envolvida com sérios problemas legais ou morais, ao acabar com as relações diplomáticas com o mundo, ao aparecerem indícios fortes de fraudes e evidências de que as eleições foram irregulares que, talvez, nem as fake news das bolhas onde estão os eleitores dos candidatos de direita e toda a mídia empresarial amiga dê conta de manter o povo quieto, na paz dos cemitérios.

Abraços e vamos incentivar a leitura e o estudo dos autores clássicos e dos bons autores contemporâneos para ampliar o saber e a cultura com o intuito de ampliar na sociedade humana o amor, a amizade e a solidariedade para se alcançar a justiça, a igualdade e a liberdade, em um mundo mais sustentável.

William

07/12/18

domingo, 19 de novembro de 2017

Casa-grande & senzala - Será que um dia o povo brasileiro vai superar esse vício de origem?


Podemos não gostar do que Freyre descreve e opina, mas
é só olhar ao nosso redor e vemos todo o lixo autoritário
dominante dos membros da casa-grande prevalecendo...

Refeição Cultural

Estava agora pela manhã de domingo lendo o segundo capítulo do ensaio de 1933 de Gilberto Freyre, Casa-grande & senzala. O capítulo "O indígena na formação da família brasileira" traz muitos aspectos interessantes e curiosidades culturais, se considerarmos que somos bichos urbanos do século 21 num mundo sem conexão com o passado, com o passado coletivo e comum do povo brasileiro.

Esses ensaios e estudos de grandes pensadores brasileiros como Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, Antonio Candido, Celso Furtado, Sérgio Buarque de Holanda, dentre outros, pensando os intelectuais da primeira para a segunda metade do século 20, são para serem lidos lentamente, refletindo, observando ao redor para ver o nosso mundo e comparar se tem sentido ou não o que eles nos apontam como origens, males e benefícios do povo brasileiro.

Eu não tive a oportunidade de ler e estudar como gostaria na adolescência e vida adulta por causa de minha própria origem, no mundo miserável da classe trabalhadora brasileira. Nós povo sem posses e meios de produção trabalhamos desde pequenos por alguns tostões e assim seguimos quase até a morte na idade adulta e madura. 

Tivemos alguma esperança no início do século 21 com governos progressistas no Brasil e América do Sul e com olhares mais voltados ao povo excluído das riquezas do país. Vieram os golpes da casa-grande.

Neste momento de nossas vidas sul-americanas, após as quedas de governos progressistas e mais inclusivos como, por exemplo, os do Partido dos Trabalhadores, nos vemos numa hecatombe de retrocessos seculares nos direitos gerais do povo brasileiro em benefício de uma pequena casta da elite (a casa-grande de sempre).

Será que um dia vamos superar esse domínio dos senhores da casa-grande? O domínio da casa-grande envolve todos, todos, os espaços da sociedade constituída desde a origem, basta ver o exemplo do caso brasileiro, uma terra invadida para ser colônia de exploração em função do império invasor.

Mudaram os impérios que dominam nossa terra de exploração; mudaram os séculos e as formas de exploração dos povos; não mudaram as relações de domínio da casa-grande sobre a massa do povo brasileiro. Nossa pequena elite segue sendo lesa-pátria, canalha e vil. Não mudaram a injustiça e a iniquidade da casa-grande e seus lacaios e capitães do mato em relação ao povo, a nós excluídos daquele 1% detentor de tudo.

Esses lacaios e capitães do mato dos membros da casa-grande estão hoje com roupagem nova: nos executivos e legislativos, nos espaços do judiciário, nos espaços de reprodução da ideologia da casa-grande - os meios de comunicação de massa. E pouca gente tem consciência de classe para enfrentar isso de forma coesa e coletiva.

E eu que tenho plena consciência de classe trabalhadora, que sei de que lado estou, nem posso chorar, me lamentar, sequer desistir ou morrer, porque sei que desistir não é uma opção. Só a luta coletiva e unitária do meu povo é que garante um fio de esperança contra toda essa merda que voltou a dominar o nosso querido país.

É isso!

William


Post Scriptum:

Organizar meus "cadernos" de memórias, tanto do
Categoria Bancária quanto do Refeitório Cultural,
 tem me dado trabalho, mas tem valido a pena
porque me faz refletir sobre meu papel,
os acertos e erros que temos feito.

Desde muito jovem tenho o hábito de escrever minhas opiniões e após o advento da internet criei blogs para partilhar conhecimento e opiniões. Ao reler diários, memórias, reflexões, e revisar meus registros nos blogs que mantenho, vejo lá vários sinais e impressões do que poderia ocorrer no Brasil tempos depois. Vejo também o quanto foi importante registrar meu olhar sobre os acontecimentos porque somos humanos e nosso passado histórico é fundamental para pensar o futuro da humanidade.