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segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Leitura: Memória de minhas putas tristes - G. G. Márquez



Refeição Cultural

"Comecei a ler para ela O pequeno príncipe de Saint-Exupéry, um autor francês que o mundo inteiro admira mais que os franceses. Foi o primeiro que a distraiu sem despertá-la, a ponto de eu precisar ir até lá dois dias seguidos para acabar de lê-lo..."

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"Toda sombra de dúvida desapareceu então da minha alma: eu a preferia adormecida."

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Mais uma vez desacatei a mim mesmo em minha determinação de não ler literatura neste ano enquanto não encaminhar as prioridades que tenho que resolver e não resolvo (me fazendo um perdulário) e li entre ontem e hoje o romance maduro de Gabriel García Márquez Memória de minhas putas tristes (2004). Gabo se aproximava dos oitenta anos quando escreveu esse romance.

Que delícia ler romances latino-americanos! Que delícia ler García Márquez! 

O tema é pesado: um homem de 90 anos e uma jovem menor de idade. A narrativa, no entanto, é leve e nos emociona. Um homem tipicamente latino-americano - com todas as contradições que nos moldam e que carregamos por pertencermos a esses países colonizados, explorados e embrutecidos - um homem que descobre o amor aos 90 anos de idade.

A partir dessa condição de apaixonado, o homem que sempre pagou pelo sexo se vê, pela primeira vez, fazendo coisas de pessoas apaixonadas... andar de bicicleta cantando por aí, comprar caixas de bombons para presentear a amada e ter ciúmes de uma forma que o deixa alucinado.

Ou seja, o escritor é nada mais nada menos que Gabo, que até num enredo tão complicado como esse, com temática que aborda a condição de exploração da mulher - prostituição e abuso de menores -, García Márquez consegue construir uma história que destaca o amor.

A leitura do livro foi sugestão de um jovem conhecido da família. Acho muito legal quando jovens sugerem leituras de livros que eles descobrem interessantes. Outro dia, uma filha de uma prima também me sugeriu a leitura de um romance - A hora da estrela -, de Clarice Lispector, que já havia lido e que acho muito bom. 

Enfim, seguem abaixo algumas passagens que nos fazem pensar:

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AS DORES DAS IDADES

"Aos quarenta e dois anos havia acudido ao médico por causa de uma dor nas costas que me estorvava para respirar. Ele não deu importância. É uma dor natural na sua idade, falou.

- Então - eu disse -, o que não é natural é a minha idade.

(...) E me acostumei a despertar cada dia com uma dor diferente que ia mudando de lugar e forma, à medida que passavam os anos."

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OS AMORES INFELIZES MOVEM O MUNDO

"Virei outro. Tratei de reler os clássicos que me mandaram ler na adolescência, e não aguentei. Mergulhei nas letras românticas que tanto repudiei quando minha mãe quis me forçar a ler e gostar, e através delas tomei consciência de que a força invencível que impulsionou o mundo não foram os amores felizes e sim os contrariados."

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O SEXO COMO CONSOLO DA FALTA DE AMOR

"Atropelei: O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança."

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O ESCREVER APAIXONADO

"Foi como uma beberagem peçonhenta:  cada palavra era ela. Eu sempre havia precisado de silêncio para escrever porque minha mente atendia mais à música que à escrita. E então aconteceu o contrário: só conseguia escrever à sombra dos boleros. Minha vida encheu-se dela. As crônicas que escrevi naquelas duas semanas foram modelos em código para cartas de amor. O chefe da redação, contrariado com a avalanche de respostas, me pediu que moderasse o amor enquanto pensávamos num jeito de consolar tantos leitores apaixonados."

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A GENTE SE VESTE PARA ALGUÉM

"Passei uma semana inteira sem tirar o macacão de mecânico nem de dia nem de noite, sem tomar banho, sem fazer a barba, sem escovar os dentes, porque o amor me mostrou tarde demais que a gente se arruma para alguém, se veste e se perfuma para alguém, e eu nunca tinha tido para quem."

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COMENTÁRIO FINAL

A literatura e a cultura são essenciais na vida das pessoas. Desde os tempos mais imemoriais, as narrativas humanas nos mais diversos gêneros e estilos nos fornecem experiências e possibilidades que nos fazem refletir sobre o viver em sociedade e sobre nós mesmos.

Em dois momentos desse romance pensei sobre essa questão da ficção que nos traz referências de situações do viver e das sociedades humanas. 

Num deles, uma prostituta sugere ao seu velho conhecido de décadas que se ele tivesse oportunidade na vida, que não morresse sem experimentar o sexo feito com amor e com alguém que se ama: "não vá morrer sem experimentar a maravilha de trepar com amor".

Num outro momento, foi inevitável pensar em nosso país após o golpe de Estado e após a ascensão do regime fascista atual, o poder do crime organizado ocupando os espaços de poder do Brasil e as consequências dessa tragédia.

"Em tempos melhores, o governador tinha feito a oferta tentadora de me comprar em bloco os livros dos clássicos gregos, latinos e espanhóis para a Biblioteca Estadual, mas não tive coração para vendê-los. Depois, com as mudanças políticas e a deterioração do mundo, ninguém do governo pensava nas artes nem nas letras...".

É isso! Mais um livro lido, mais um grande romance de um grande autor, Gabriel García Márquez.

William


Bibliografia:

GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Memória de minhas putas tristes. Tradução de Eric Nepomuceno. 34ª edição, Rio de Janeiro: Record, 2022.


segunda-feira, 25 de outubro de 2021

37. Pedro Páramo - Juan Rulfo




Refeição Cultural - Cem clássicos

“... Hacía tantos años que no alzaba la cara, que me olvidé del cielo. Y aunque lo hubiera hecho, ¿qué habría ganado? El cielo está tan alto, y mis ojos tan sin mirada, que vivía contenta con saber donde quedaba la tierra. Además, le perdí todo mi interés desde que el padre Rentería me aseguró que jamás conocería la gloria. Que ni siquiera de lejos la vería... Fue cosa de mis pecados; pero él no debía habérmelo dicho. Ya de por sí la vida se lleva con trabajos. Lo único que la hace a una mover los pies es la esperanza de que al morir la lleven a una de un lugar a otro; pero cuando a una le cierran una puerta y la que queda abierta es nomás la del infierno, más vale no haber nacido... El cielo para mí, Juan Preciado, está aquí donde estoy ahora.”


Conheci as histórias de Pedro Páramo, Susana San Juan, Dolores Preciado, Juan Preciado e outros personagens intrigantes de Comala logo que entrei na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo. 

Me inscrevi numa disciplina optativa cuja temática era a morte e como os autores hispano-americanos lidavam com o tema em suas diversas formas narrativas no século vinte. Foi um dos livros mais impactantes que já li.

A disciplina era ministrada pelo professor Marcos Piason Natali e lemos diversos contos de autores diferentes e este romance do escritor mexicano Juan Rulfo. Entre os hispano-americanos constava um brasileiro, nosso Guimarães Rosa com o conto "Páramo". A matéria foi incrível! Lemos textos de Sigmund Freud e Karl Marx. Demais! A disciplina coroou minha entrada na Letras, após decidir ser aluno da USP após os trinta anos de idade.

Fiz um trabalho para a disciplina do professor Marcos P. Natali a respeito do romance de Juan Rulfo. O que me chamou muita atenção foram os diálogos entre os mortos ao longo do romance, que inova em outras técnicas também. Meu texto elenca um conjunto de recortes dos diálogos dos personagens que nos fazem refletir muito sobre a situação dos povos oprimidos e explorados. 

O texto se chama "Pedro Páramo - Narrativas da vida e da morte" e está disponível aqui no blog (clique aqui para ler). O lançamento da obra de Rulfo se deu em 1955 e o romance hispano-americano vivia o seu Boom.

É um tremendo clássico da literatura das américas! Ao reler o texto que fiz, vi o quanto o cenário e os personagens retratam toda uma história de misérias e explorações de nossos povos sul-americanos, exatamente como estamos vivendo neste momento no Brasil golpeado e destruído após 2016. Abaixo um excerto do trabalho que fiz:

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Pedro Páramo inova, porém, ao deixar que os mortos falem por si mesmos. Mais que isso: deixa-nos ouvir os murmúrios dolorosos de vidas mal-vividas e de mortes “mal-vividas” pois, agora no reino dos mortos, descobrimos que as almas penam por aí e que não há sequer a salvação esperada, e os sofrimentos seguem até nos corpos, inclusive, com as águas das chuvas:

“...Lo que pasa con estos muertos viejos es que en cuanto les llega la humedad comienzan a removerse. Y despiertan.”
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Enfim, é uma obra para reler sempre! Um clássico que nos põe a pensar sobre a condição humana.

William


Bibliografia:

RULFO, Juan. Pedro Páramo. Edición de José Carlos González Boixo. Catedra Letras Hispánicas. Madrid, 1998.

sábado, 9 de janeiro de 2021

Ainda as veias abertas...



Refeição Cultural

"No asistimos en estas tierras a la infancia salvaje del capitalismo, sino a su cruenta decrepitud. El subdesarrollo no es una etapa del desarrollo. Es su consecuencia. El subdesarrollo de América Latina proviene del desarrollo ajeno y continúa alimentándolo." (GALEANO, 2014, p. 363)


Sábado, 9 de janeiro do ano 02 do Covid-19. Osasco, cidade da região metropolitana da grande São Paulo. Brasil, o país transformado em pária do mundo após o suicídio coletivo cometido pelo povo ao colocar no poder um fascista genocida envolvido com milicianos. O único lugar do planeta no qual o governo tem como estratégia de manutenção do poder estimular o avanço da pandemia mundial do novo coronavírus que já matou 1.924.004 pessoas, tendo contaminado até agora 89.516.439 vítimas (dados da Johns Hopkins University).

Meses atrás, terminei a leitura do clássico do escritor Eduardo Galeano, As veias abertas da América Latina, publicado pelo pensador em 1970. Hoje li um anexo ao livro escrito por ele em 1978, "Siete años después". Os acréscimos feitos por Galeano na forma de itens enumerados nos contam, dentre outras coisas, dos golpes de Estado no Chile, na Argentina, no Uruguai, todos eles organizados pelos Estados Unidos da América. Mais ditadores passaram a somar crimes contra os países latino-americanos e seus povos, como já ocorria com o Brasil dos ditadores desde 1964 e diversos outros em Nuestra América.

A leitura do livro de Galeano se deu num dos momentos mais trágicos da história do povo brasileiro. Li a primeira metade de As veias abertas durante o processo de golpe de Estado no Brasil em 2016. A outra metade li em 2020, já com o Brasil sendo desfeito pelo criminoso colocado no poder por fraudes diversas e com o patrocínio da burguesia mais abjeta e lesa-pátria do planeta, a brasileira.

Séculos se passam e os povos latino-americanos não conseguem se libertar da exploração e destruição causadas pelos países imperialistas. Décadas se passam desde que Galeano nos mostrou As veias abertas da América Latina e a gente continua sem conseguir se libertar tanto da elite canalha e vil dos países de Nuestra América quanto do jugo dos países do Norte. 

Cinquenta anos se passaram de minha vida, e neste curto tempo de uma vida humana, vi e vivi a miséria e a violência contra o povo durante a ditadura nos anos 70 e 80, a miséria e a violência da destruição econômica e antinacional do neoliberalismo dos anos 90, disfarçada sob a forma de democracia liberal burguesa e tive um gostinho de viver os anos Lula e Dilma (PT), governos cuja prioridade era o povo trabalhador, incluído no orçamento do Estado, com mais oportunidades para todos os povos excluídos por séculos. Depois tudo voltou ao que era antes: novos golpes de Estado patrocinados pelos EUA, golpes no Brasil e outros países, entrega de patrimônio nacional, povo na miséria sem direito a nada etc.

Como vamos mudar essa história de exploração e expropriação dos povos latino-americanos? 

Uma coisa é certa: 1% dos humanos detém praticamente todos os meios de produção através da ideologia e da força. Os outros 99% chafurdam na lama e disputam entre si os restos dos meios na tentativa de sobreviver, e vivem adormecidos e não têm consciência da realidade. Se tivessem e se organizassem eliminavam o 1% capitalista e mudavam a história dos humanos e da vida na Terra, que caminha para o fim sob a destruição irracional do modo de produção capitalista.

Como vamos interromper esse processo rumo ao fim da humanidade e dos seres vivos? O que eu posso fazer neste momento? O que podemos fazer, pergunto a vocês que leem minhas postagens?

William


Post Scriptum:

É tão revoltante e humilhante a impotência que sentimos ao ver as injustiças cotidianas no Brasil. Mortes e mais mortes, miséria e mais miséria e tudo responsabilidade do regime fascista no poder... 202.631 pessoas mortas pelo Covid-19 e 8.075.998 infectadas com risco de morte ou com sequelas causadas pelo vírus. E o genocida no poder com apoio da elite vil e canalha atuando para que não haja vacina, para que as pessoas não usem máscara e não respeitem as orientações de saúde dos órgãos científicos. 


Bibliografia:

GALEANO, Eduardo. Las venas abiertas de América Latina. 1ª ed. 14ª reimpr. Buenos Aires: Siglo Veintiuno editores, 2014.


sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Livro: Las armas secretas - Julio Cortázar



Refeição Cultural - Cem clássicos

Completei a leitura do primeiro de meus livros do escritor argentino Julio Cortázar, Las armas secretas (1959). Algumas narrativas do livro são consideradas verdadeiros clássicos do autor e da literatura hispano-americana do século XX como os contos "Las babas del diablo" e "El perseguidor".

Neste livro temos reunidos os contos: "Cartas de mamá", "Los buenos servicios", "Las babas del diablo", "El perseguidor" e "Las armas secretas". Todos muito bons!

Cortázar é um autor de leitura exigente, pelo menos na minha opinião. O escritor nos coloca a pensar durante a leitura de seus textos. Ele é um dos principais autores do Boom latino-americano dos anos sessenta e setenta.

Ao ouvir um trecho de uma entrevista com Cortázar fiquei encantado com ele. Ao falar sobre o período (Boom), os autores e as obras da época, ele diz ser mentira a tese de que as editoras que teriam sido responsáveis por darem a linha editorial para os contos e romances do Boom

Cortázar explica que o que contribuiu para os argumentos e enredos das narrativas latino-americanas nos anos sessenta foram as consequências da exploração imperialista aos países e povos da região. Alguns bons autores passaram a ser lidos e editados por grandes editores após o público reconhecer suas obras. E não o inverso.

Ele Cortázar disse que produziu suas narrativas na solidão e na miséria e só depois do público leitor reconhecer seu valor foi que as editoras passaram a recepcioná-lo como grande escritor. 

Minha estreia na leitura de Cortázar foi no início do curso de Letras, quando fiz uma disciplina das mais interessantes: vimos como autores latino-americanos abordavam a questão da morte e as diversas crenças no pós-morte em seus textos literários. Dele, lemos "Cartas de mamá", o primeiro conto deste livro.

O conto "Las babas del diablo" foi inspiração para o filme Blow-up (1966), do diretor Michelangelo Antonione. O final da estória é aberto e nos coloca a refletir sobre a narrativa. Os textos de Cortázar trabalham muito com o estranho, com situações que sejam incomuns, que chamem a atenção ou que de alguma forma incomodem o leitor. Este conto não é diferente.

O conto "O perseguidor" é muito bom. Traz como pano de fundo o mundo do jazz e o personagem principal, Johnny Carter, é inspirado em Charlie Parker (1920-1955). Bird, como era conhecido, foi um fenômeno incompreendido em seu tempo, que buscou (ou perseguiu) quase o impossível através de suas improvisações musicais.

O último conto do livro, "Las armas secretas" é bem difícil. Li duas vezes, uma após a outra, para compreender melhor a narrativa. Novamente, a estória trabalha com o estranho. 

Enfim, mais um clássico da literatura mundial.

William


sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Tempo (XIV)



Refeição Cultural

Estou relendo o conto de Julio Cortázar, "O perseguidor", do livro As armas secretas (1959) e o personagem principal, Johnny, fala sobre a questão do tempo. Ele acha incrível o fato de poder pensar em ações e acontecimentos que duram muito mais tempo do que o tempo físico e cronológico. O caso que ele conta é sobre ver em seus pensamentos sua mãe fazer uma oração enorme, pessoas tocarem músicas de vários minutos e tudo isso acontecer num curto espaço de tempo real, do relógio, entre uma estação e outra do metrô, coisa de um minuto e meio. Ele considera o metrô como um relógio e as estações os minutos.

"- Um minuto e meio, nada mais, pela sua conta, pela conta do tempo dessa aí - disse rancorosamente Johnny. - E também pelo do metrô e pelo do meu relógio, malditos. Então, como pode ser que eu tenha pensado durante quinze minutos, hein, Bruno? Como se pode pensar um quarto de hora em um minuto e meio? Juro que naquele dia eu não havia fumado nem um pedacinho, nem uma folhinha - acrescenta, como um menino que pede desculpas. - E depois tornou a me acontecer, agora começa a me acontecer em todos os lugares. Mas - acrescenta astutamente - só no metrô posso perceber porque viajar no metrô é como estar metido num relógio. As estações são os minutos, você entende?, é esse o tempo de vocês, de agora; mas eu sei que existe outro e andei pensando pensando..." (CORTÁZAR, p. 87)

Essa parte do conto de Cortázar me lembrou o conto de Jorge Luis Borges, "O milagre secreto", que também já lemos no programa da disciplina de Literatura Comparada II, com a professora Viviana Bosi. Nele, o personagem no corredor da morte pede a Deus mais tempo para terminar seu romance inacabado. De alguma forma, o personagem recebe esse tempo extra que precisava e consegue terminar sua obra, apesar do tempo físico seguir nos segundos do relógio dos nazistas e do pelotão de fuzilamento. A passagem é muito bonita para nós leitores que soubemos do acontecimento, porque os leitores do mundo ficcional do enredo nunca souberam que Hladik conseguira terminar a obra de sua vida, "Os inimigos". Veja abaixo seu pedido de tempo:

"Pensou que ainda lhe faltavam dois atos e que em breve ia morrer. Falou com Deus na escuridão. 'Se de algum modo existo, se não sou uma de tuas repetições e erratas, existo como autor de Os Inimigos. Para levar a termo esse drama, que pode justificar-me e justificar-te, requeiro mais um ano. Outorga-me esses dias, Tu de Quem são os séculos e o tempo.' Era a última noite, a mais atroz, mas dez minutos depois o sono o inundou como água escura." (BORGES, p. 570)

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A releitura do final do conto de Borges, o drama de Hladik, me comoveu intensamente. Lágrimas! E o ano extra que ele teve para concluir sua obra lhe foi concedido... e tudo durou uma certa quantidade de segundos no tempo do relógio nazista... aff! Que dureza!

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Reflexão após leituras

Todos esses estudos ligados à questão do tempo e das "configurações do tempo em diversas formas de narrativa e poesia" - nome que a professora Viviana Bosi deu à disciplina que estamos fazendo - tem feito com que eu reflita muito e sobre muitas coisas. Sobre a vida, sobre a sociedade, sobre o tempo em tempos de pandemia mundial de Covid-19. Sobre sentidos e busca de sentidos nas coisas. Sobre a história.

Meu curso caminha para seu fim. O fim de um tempo em minha vida. Ao mesmo tempo, o contexto mundial faz com que tenhamos a sensação que muitas coisas caminham para o fim também. O fim de uma época, de uma era. Um ciclo histórico, talvez. E com muitas incertezas sobre o futuro (é claro!); futuro que poderia ser um reflexo distorcido do passado, já que entendo que o passado não se repete, apesar das concepções ideológicas que tentam negar o presente histórico com a tese de buscar no futuro o passado, aliás um passado mítico, inventado, que nunca existiu.

Enfim, vamos seguir lendo e estudando. Tenho que encontrar sentidos mesmo sabendo que não há sentidos a encontrar. A gente cria sentido para as coisas para justificar a existência de algo ou de alguém.

William


Bibliografia:

BORGES, Jorge Luis. Obras completas, Volume 1, 1923-1949. Editora Globo.

CORTÁZAR, Julio. As armas secretas. Tradução de Eric Nepumoceno. 2ª edição, José Olympio Editora.


quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Cem anos de solidão: Macondo e a pandemia



Refeição Cultural

Cem anos de solidão... O tempo de cem anos poderíamos contar como um tempo físico ou natural, cósmico, de cem movimentos de translação da Terra sobre o Sol. Mas imaginem um tempo desse na condição que o qualifica: de solidão. É um tempo psicológico duríssimo! É muita solidão!

Ao reler algumas dezenas de páginas do clássico de Gabriel García Márquez, voltei a sentir a emoção que nos abraça a cada página da história dos Buendía. A ficção nos põe a todo instante em contato com situações e contextos que espelham a nossa dura realidade num mundo de pandemia mundial de Covid-19, num mundo de ignorância e misérias impensáveis para uma época posterior a séculos de ciências e avanços nas culturas humanas.

Por mais que José Arcadio Buendía altere momentos de completa loucura e alucinações e momentos nos quais ele é o líder e a referência de toda sua aldeia - Macondo -, gostaríamos de um comportamento minimamente responsável como o dele por parte de nossos governantes no caso da pandemia do novo coronavírus, que virou disputa política e dane-se a população. O personagem teve um comportamento digno ao lidar com a peste da insônia. Infectada toda a família Buendía, e depois toda Macondo, ele tentou evitar que a peste se alastrasse para outras pessoas e outras comunidades.

"Quando José Arcadio Buendía percebeu que a peste tinha invadido a povoação, reuniu os chefes de família para explicar-lhes o que sabia sobre a doença da insônia, e estabeleceram medidas para impedir que o flagelo se alastrasse para as outras povoações do pantanal..." (MÁRQUEZ, Record-Altaya, p. 49)

Após as medidas de isolamento social e quarentena feitas pela comunidade de Macondo, foi possível que os locais tentassem retornar a sua vida cotidiana e desenvolvessem técnicas para conviver com as consequências da peste da insônia. Os forasteiros não podiam comer e beber em Macondo, para não se contaminarem e espalharem a doença para outras localidades... juro pra vocês, esse romance foi escrito e publicado em 1967 e reflete nesta passagem o que estamos enfrentando mundialmente com os piores líderes que poderíamos ter em grandes países.

"(...) Não se lhes permitia comer nem beber nada durante a sua estada, pois não havia dúvidas de que a doença só se transmitia pela boca, e todas as coisas de comer e de beber estavam contaminadas pela insônia. Desta forma, manteve-se a peste circunscrita ao perímetro do povoado. Tão eficaz foi a quarentena, que chegou o dia em que a situação de emergência passou a ser encarada como coisa natural e se organizou a vida de tal maneira que o trabalho retomou o seu ritmo e ninguém voltou a se preocupar com o inútil costume de dormir." (p. 50)

Assim são os clássicos da literatura universal.

William



Bibliografia:

MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solidão. Tradução de Eliane Zagury. Coleção Mestres da Literatura Contemporânea. Editora Record/Altaya.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

7. Las venas abiertas de América Latina - Eduardo Galeano



"Es mucha la podredumbre para arrojar al fondo del mar en el camino de la reconstrucción de América Latina. Los despojados, los humillados, los malditos tienen, ellos sí, en sus manos, la tarea. La causa nacional latinoamericana es, ante todo, una causa social: para que América Latina pueda nacer de nuevo, habrá que empezar por derribar a sus dueños, país por país. Se abren tiempos de rebelión y de cambio. Hay quienes creen que el destino descansa en las rodillas de los dioses, pero la verdad es que trabaja, como un desafío candente, sobre las conciencias de los hombres. Montevideo, fines de 1970." (GALEANO, 2010, p. 337)


Refeição Cultural - Cem clássicos

Terminei hoje a leitura desta obra clássica monumental, Las venas abiertas de América Latina (1970), do escritor e jornalista Eduardo Galeano, que faleceu em abril de 2015. A obra tem a idade de uma vida humana, a minha, por exemplo. A leitura é angustiante, apesar de necessária. 

Se eu tivesse que indicar somente um livro para os jovens latino-americanos, um só, eu indicaria este livro. Sem dúvidas, ele despertaria nos jovens com algum grau de consciência política e patriotismo o desejo de lutar por Nuestra América, como dizia José Martí.

Ganhei esta edição de minha companheira em 2015, quando era dirigente nacional de uma entidade de saúde de autogestão, por sinal uma entidade que representa tudo aquilo que Galeano aborda em seu maior clássico: uma associação de trabalhadores sul-americanos que tenta sobreviver de forma sustentável e solidária em meio a um mercado capitalista de saúde, mercado imperialista, com concorrência desleal por parte do setor que tem ainda o apoio dos governantes de plantão.

Como já descrevi nas postagens que faço, o livro de Galeano era mais um dos diversos livros que leio ao mesmo tempo, que inicio e nunca termino. O meu livro tem uma peculiaridade: ele viajou comigo por aí. Foi comigo à terra natal do autor, Uruguai, a Montevidéu e Colônia de Sacramento. 

A leitura havia se dado em 2016, o ano do golpe de Estado no Brasil. Naquele momento, eu havia lido os capítulos um e dois da primeira parte - "La pobreza del hombre como resultado de la riqueza de la tierra" - e a descrição que ele fazia era como se estivesse descrevendo o que estava ocorrendo no Brasil sob golpe com os mesmos atores de sempre, os Estados Unidos e as burguesias vira-latas de séculos. Foi demais pra mim! Era muito deprê... Acabei parando a leitura.

Ao retomar a obra de Galeano agora, com o Brasil e o continente Sul-Americano destroçados por golpes de Estado e sob domínio do império americano, foi necessário resgatar muita força de vontade interior e seguir lendo e estudando; afinal de contas, só o conhecimento nos liberta do jugo da ignorância e nos faz pessoas melhores e mais conscientes, mesmo que não possamos mudar o mundo e a realidade sob domínio da violência do necrocapitalismo.

O livro de Eduardo Galeano é um livro que congrega diversos gêneros discursivos e literários, é um livro de Economia, de História, de Geografia; é um livro de Antropologia e Geologia. Não deixa de ser um romance histórico e uma autobiografia, sobretudo porque é uma autobiografia dos povos originários, de criollos e de latino-americanos. É um senhor clássico da literatura universal.

Antes, eu fazia postagens demasiadamente trabalhosas, com diversas citações da obra lida. Não vejo mais sentido nisso hoje. Está feito o registro do quanto o livro é fantástico e necessário. Aos que se interessarem, leiam e se libertem do jugo ideológico do capitalismo imperialista que nos escraviza e nos destrói.

William


Bibliografia:

GALEANO, Eduardo. Las venas abiertas de América Latina. Siglo Veintiuno Editores, Buenos Aires, 2010.


domingo, 18 de outubro de 2020

6. Cem anos de solidão - Gabriel García Márquez



"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos..." (MÁRQUEZ, Record-Altaya, p. 7)


Refeição Cultural - Cem clássicos

Uma das lembranças que mais se destacam em minhas memórias quando penso no clássico de Gabriel García Márquez, Cem anos de solidão (1967), é a ressonância que o nome da obra estabelecia dentro de mim desde muito cedo em minha vida. Acho que o nome já me impactava desde que era trabalhador braçal até uns vinte anos de idade. 

A ideia de uma solidão secular martelava dentro de minha cabeça... cem anos de solidão... eu me identificava muito com essa ideia, com esse conceito, mesmo sem saber ao certo o porquê.

Na edição que tenho está registrada a data de novembro de 1999 como data final da leitura do livro. Eu tinha 30 anos de idade. 

Me lembro de uma frase em inglês que de vez em quando vinha em minha mente quando o sentimento de solidão aparecia: "alone in the crowd". A sentença era de um livro de inglês no qual estudei na adolescência e o texto vinha ilustrado com a foto de uma mulher numa mesa de café entre diversas mesas de café em uma calçada dessas de lugares turísticos. Estar sozinho mesmo em meio à multidão...

Cem anos de solidão... o conceito é profundo! Acho que a ideia pode sintetizar o que nós latino-americanos sentimos ao longo de nossas vidas de cidadãos de países subdesenvolvidos e explorados pelos imperialismos seculares. 

Aquele tipo de solidão que significa impotência, desesperança, fundo do poço. Solidão é a coisa que poderia sintetizar aquilo que sentimos neste momento da história, vivendo sob a pandemia mundial de Covid-19 que desgraçou a vida dos mais pobres e da classe trabalhadora e vivendo sob a eterna dominação do imperialismo do Norte, que destrói há séculos a todos nós, como denuncia Eduardo Galeano em As veias abertas da América Latina.

Estamos sós, talvez como nunca antes. Não temos um Estado que nos apoie, não temos um governo que esteja ao nosso lado. As instituições do Estado, do Estado burguês, elas não funcionam mais. Tudo se desfez após o golpe de 2016. As organizações formais que deveriam nos dar alguma esperança ou noção de não estarmos sós, elas também estão burocratizadas, endurecidas, anos-luz de nós, inclusive os partidos, sindicatos e organizações coletivas. Estamos sós... parece uma solidão como o nome da obra de García Márquez.

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"Por fim, numa terça-feira de dezembro, na hora do almoço, soltou de uma vez todo o peso do seu tormento. As crianças haviam de recordar pelo resto da vida a augusta solenidade com que o pai se sentou na cabeceira da mesa, tremendo de febre, devastado pela prolongada vigília e pela pertinácia da sua imaginação, e revelou a eles a sua descoberta:

- A terra é redonda como uma laranja...

Úrsula perdeu a paciência. 'Se você pretende ficar louco, fique sozinho', gritou. 'Não tente incutir nas crianças as suas ideias de cigano'. José Arcadio Buendía, impassível não se deixou amedrontar pelo desespero da mulher que, num impulso de cólera, destroçou o astrolábio contra o solo" (p. 11)

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Como leitor e cidadão do mundo que se acaba no século XXI, só posso concordar com Úrsula ao achar que José Arcadio Buendía era louco mesmo... qualquer um hoje em dia sabe que a Terra é plana como nos ensinam os líderes de direita e as seitas que infestam o mundo físico e virtual que habitamos.

Ironias à parte, a literatura e as ficções são criações tão maravilhosas que muitas vezes autores e estórias superam temporalidades, épocas, estilos, modelos, geografias, e se perpetuam como narrativas a serem lidas para sempre (enquanto durem ou enquanto dure o mundo dos humanos).

Cem anos de solidão é uma das obras clássicas que me marcaram muito antes de ler, durante a leitura e nestes anos todos após a leitura. Gostaria de reler o clássico, inclusive tenho uma bela edição comemorativa de 40 anos da publicação, na língua original, e quem sabe um dia eu não releia essa estória fantástica.

William


Bibliografia:

MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solidão. Tradução de Eliane Zagury.  Coleção Mestres da Literatura Contemporânea. Editora Record/Altaya.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Leitura: Historia de una mujer... Margo Glantz





Refeição Cultural

A leitura dessa obra da escritora mexicana Margo Glantz se dá no contexto de estudos de graduação em Letras da Universidade de São Paulo. 

Meu contato com a obra de Glantz se deu através da disciplina "Poéticas de autor en la Literatura Hispanoamericana", com a Professora Adriana Kanzepolsky, que definiu a temática e a autora para estudos durante o semestre.

O primeiro texto que lemos e discutimos em sala de aula foi "Zapatos: andante con variaciones", contido neste livro "Historia de una mujer que caminó por la vida con zapatos de diseñador" (2005).

Uma experiência interessante em relação a essa narrativa foi ouvir a própria autora lendo o texto, pois o áudio está disponível na internet. 

Glantz está dentro de um espectro de autores contemporâneos classificados como autores de literaturas não-específicas em relação a gêneros literários mais tradicionais. É possível identificar vários tipos de linguagens discursivas em sua obra.

Ao ouvir pela segunda vez o áudio narrado por ela, percebi um pouco da característica de Glantz de sempre reler e refazer seus textos. A edição que ela leu no áudio tem diferenças e fragmentos inteiros incluídos na narrativa em relação ao texto que tenho em mãos - Editorial Anagrama. Barcelona, edição de 2005.

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Apresentação do livro por parte da Anagrama Editorial, na parte de catálogo das obras:


"Historia de una mujer que caminó por la vida con zapatos de diseñador

Glantz, Margo

Todo acto de escritura es un acto de destrucción, y todo escritor se destruye a sí mismo al cortar paño sobre su propio traje en el acto mismo de la autobiografía. Pero ¿se tratará en verdad de una autobiografía? Nora García, la protagonista de esta Historia, es una mujer que experimenta el mundo a través de su cuerpo, es más, se conecta con él desde la punta de los pies, y si éstos van calzados con zapatos de diseñador, el camino por andar se vuelve menos arduo. El lenguaje es, quizá, otra de las vertientes de esta Historia, una exploración de las palabras que se comportan como un cuerpo femenino degradado. El cuerpo de Nora García es un cuerpo azotado, desecado (la narradora ha experimentado desde su cuerpo el mundo entero) al que se puede doblegar, vaciar, aniquilar, dejarlo listo para una cocina del texto, palabras desplumadas o destripadas como si fueran aves o bestias. La memoria se convierte en una farsa, «cae» en la farsa, en la de fragmentación del cuerpo y de la de la experiencia que posibilita destruir no sólo la historia de Nora García, sino los signos de una existencia previamente delineada, donde sólo los zapatos conectan con la realidad."

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A postagem segue depois com anotações de aulas e ou excertos e destaques de algumas das narrativas do livro.

(...)

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Margo Glantz - Reflexões e memórias de uma época através da ironia de um Eu ficcional


Margo Glantz. Foto Wikipedia, de Aline L. Cámara.

Refeição Cultural

Este artigo é meu trabalho de conclusão de semestre na disciplina que fizemos com a professora Adriana Kanzepolsky. Eu gostei muito da matéria e das aulas da professora. Não consegui fazer o trabalho da forma como gostaria. Faltaram mais leituras críticas. Cheguei a pensar em não fazer o trabalho, mas o fiz de forma honesta e do jeito que foi possível. Dessa forma, sugiro a eventual leitor do texto que o leia de forma crítica, mais como curiosidade e para despertar interesse na escritora e no tema.

William

Margo Glantz - Reflexões e memórias de uma época através da ironia de um Eu ficcional

"Me acuerdo que he escrito varios de estos recuerdos en otros libros. pero los he formulado de manera diferente: el orden de los factores en literatura altera definitivamente el producto." (GLANTZ, 2014, p. 91)

INTRODUÇÃO

A oportunidade de conhecer e estudar a poética da escritora e ensaísta mexicana Margo Glantz foi bastante enriquecedora sob vários aspectos. Alguns deles me agradaram bastante.

Sua obra é um excelente leque de opções para se compreender o conceito atual de literaturas inespecíficas. Em muitos de seus livros e narrativas ficcionais, vemos Eu líricos que apontam e registram com textos argumentativos e ensaios profundos grandes dilemas da atualidade. Suas ficções e contos mesclam autobiografia, histórias coletivas e questões de época e suas pitadas de ironia e humor amenizam o tom narrativo, sem deixar de pontuar as graves denúncias sociais.

A poética e a técnica narrativa de Margo Glantz fazem com que sua leitura seja leve e prazerosa, e suas temáticas lidam muito bem com a questão do texto e do mundo fragmentado de nossa realidade, porém seus textos alinhavam fragmentos sobre as coisas de nosso tempo, unificam e dão sentido aos grandes problemas de nossa época.

Dos conteúdos que vimos durante o semestre de aulas, um dos que mais me identifiquei na temática e poética de Glantz foi o das formas de contar a memória própria, a memória familiar e a memória de uma época. Os livros Las genealogias (1998) e Yo también me acuerdo (2014) me agradaram muito e me fizeram pensar bastante sobre a vida e sobre a nossa realidade.

Vivemos numa época dura em que a velocidade dos acontecimentos, a simultaneidade das coisas e a necessidade de estarmos sempre informados de tudo - como se isso fosse possível - causa tensão e sofrimento aos indivíduos, e a cada amontoado de informações e dados que nos chegam, verdadeiros ou falsos, mais perdidos e desinformados nos sentimos.

Margo Glantz é uma escritora que vale a pena ler e acompanhá-la, pois além de viajar o tempo todo, ela é adepta das redes sociais, não pensa duas vezes antes de expor o que pensa, mantém perfil no Twitter e diariamente opina sobre fatos e acontecimentos, além de compartilhar suas ideias e reflexões.

Apresento abaixo, alguns fragmentos de obras de Margo Glantz com reflexões geradas a partir dos registros feitos pela autora ou, como os críticos apontam após o ressurgimento dos autores - mortos desde Barthes em 1968 (SPERANZA, 2008) -, registros feitos através de Eu líricos que se mesclam com sua criadora.

TODOS OS GÊNEROS VALEM A PENA

Se tomarmos como referência os dois livros que disse sobre a autora, que abordam a memória, o instante que se registra e o passado que vem à tona, podemos citar questões apontadas pela escritora, enquanto exercício de memória, que nos levam a refletir sobre a temática e dela gerar nova reflexão.

Vejamos algumas citações de Yo tambiém me acuerdo:

"Me acuerdo que para Poe la novela moderna es objetable por ser demasiado larga." (GLANTZ, 2014, p.)

"Me acuerdo de Poe e su Teoría de la composición: se inclinaba sin vacilar por el texto breve, por el cuento en prosa, escribió que prefería la narración breve, cuya lectura dura entre una hora y dos."
(GLANTZ, 2014, p.)

Lendo as recordações de Glantz a respeito do que pensava Poe sobre a importância da brevidade dos textos e narrativas, fico pensando até que ponto a humanidade deveria repensar a tendência deste início de século XXI em reduzir, reduzir e reduzir o uso da linguagem como temos visto em ferramentas de comunicação como, por exemplo, o Twitter, ou por "memes" e emojis, ou mesmo se comunicar só por imagens.

Em entrevista recente ao jornalista Luis Nassif, o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis aponta dados alarmantes em relação à regressão naquilo que poderíamos chamar de capacidade de comunicação e linguagem humana.

Ao falar sobre a redução da importância da imprensa escrita, Nicolelis comenta que o ser humano está passando por um processo de mutação de sua espécie. O coeficiente de inteligência sofreu redução de 10 pontos nos últimos 20 a 30 anos nas sociedades avançadas; a redução do uso de palavras e do vocabulário dos jovens norte-americanos foi de 30% nos últimos 40 anos; houve redução da compreensão de texto escrito e diminuiu-se a habilidade para escrever e comunicar ideias nos últimos anos.

O cérebro é flexível e realoca energia de áreas que não estão sendo utilizadas para outras áreas do corpo humano. Ou seja, ao se deixar de ler textos complexos, usar o cérebro para criar e resolver problemas, estamos inutilizando o cérebro. É chocante!

Segundo o neurocientista, a longo prazo, poderia estar surgindo uma nova espécie, a homo digital, espécie menos vocal, menos social, menos comunicativa, menos inteligente e menos capaz de desafiar o automatismo e controle que os sistemas políticos poderiam exercer sobre nós.

As informações de Nicolelis só confirmam o que aprendi desde que comecei a estudar, que estudos científicos destacaram a importância da solução de problemas complexos na evolução do cérebro humano, e o uso intensivo do cérebro aumentou nossa inteligência e nossa capacidade de uso da linguagem, nos destacando dos demais animais existentes. A linguagem verbal e escrita teve papel central em nossa evolução.

"Me acuerdo que Poe pensaba que al no poder leerse de un solo impulso la novela se ve privada de la inmensa fuerza que se deriva de la totalidad." (GLANTZ, 2014, p.)

O escritor, contista, poeta e ensaísta norte-americano Edgar Alan Poe, por exemplo, foi um produtor de textos literários do século XIX. Ele nos deixou um patrimônio cultural importante. Acertou em muitas coisas; errou em outras. Ainda bem que outros escritores, de outros gêneros literários, inclusive, também nos deixaram patrimônios culturais com técnicas antagônicas às de Poe.

Se a contradição não fosse possível e se prevalecesse somente a simpatia pelo texto breve por ser aquele que melhor expressaria a totalidade de uma história, não seria no mesmo século XIX em várias partes do mundo que o romance moderno cairia nas graças populares justamente pela técnica de se publicar em capítulos e fragmentos os romances e novelas em jornais e revistas, em folhetins, deixando interrompido o texto num momento importante, para se saber no texto seguinte o que aconteceu na trama.

A estratégia de se publicar romances e novelas em folhetins, além de fixar de vez na cultura popular a leitura de literatura, criou o que hoje conhecemos como leitores de literatura e também fortaleceu um mercado editorial. Que o diga um contemporâneo de Poe, Balzac na França.

Vale destacar que a literatura pode e deve ser uma fonte de prazer. Compartilho do gosto de Margo Glantz pelos contos de Poe, que também me encantam.

"Me acuerdo que me gusta releer los cuentos de Poe, en especial Berenice, enterrada viva y despojada brutalmente de sus dientes por el protagonista." (GLANTZ, 2014, p.)

O REGISTRO DO INSTANTE COMO MEMÓRIA DE UMA ÉPOCA

"Al leer las noticias ¿cómo decidir qué es lo más importante?"
(GLANTZ, 2018, p. 11)

Dentro do tópico de formas de contar a memória, de registrar o instante e evocar o passado, Y por mirarlo todo, nada veia (2018) é outra obra de Margo Glantz muito peculiar em sua estética do fragmento e que aborda a questão da enorme dificuldade que as pessoas têm na atualidade em lidar com a quantidade absurda de informações simultâneas e ininterruptas, gerando com isso algum tipo de sofrimento e dilemas em se definir o que seria relevante ou não nas notícias.

Vejamos o exemplo abaixo do livro de Glantz e o registro comparativo de uma época, que poderíamos fazer a respeito do momento dramático por que passa o Brasil:

"(...) ¿qué policías de Estados Unidos hayan matado a más de mil personas indefensas durante 2015, (...)"
(GLANTZ, 2018, p. 11)

Cito aqui uma notícia comparativa, um dado de nossa realidade brasileira e um registro de época, talvez mais relevante que o exemplo norte-americano, se compararmos o volume de vítimas assassinadas pela polícia dos Estados Unidos em 2015 com o caso da polícia fluminense; lembrando que naquele país vivem mais de 328 milhões de pessoas.

Segundo o artigo do jornalista Eric Nepumoceno, do Jornalistas pela Democracia, a polícia do Estado do Rio de Janeiro matou nos primeiros 10 meses do ano de 2019, o total de 1.546 pessoas. Foram em média 5 pessoas por dia, num Estado que tem uma população de pouco mais de 17 milhões de pessoas (IBGE, 2018).

E pensar que dos milhares de dados e informações pesquisados pela escritora Margo Glantz, chamou atenção dela e mereceu registro em seu livro o grande volume de pessoas mortas pela polícia norte-americana.

Que fique registrado aqui o quanto as coisas no Brasil são exponenciais quando comparamos nossas misérias com as dos países chamados avançados ou desenvolvidos.

CRÍTICA ÁCIDA E BEM HUMORADA

Um dos traços característicos que apreendemos ao ler a poética de Glantz é a forma de tecer crítica a grandes questões da sociedade e da humanidade.

De repente, em meio a descrições de fatos ou nas narrativas ficcionais, surgem as críticas a temas como discriminação, violência, pobreza, crimes diversos, e a escritora tem uma maneira bem peculiar de fazer as críticas, com uma fina ironia ou com certa dose de humor.

Vejamos o exemplo abaixo, em Yo también me acuerdo:

"Me acuerdo de que los arquitectos famosos son buenos diseñadores, pero se olvidan de los usuarios; en la Cineteca Nacional los baños son exiguos y las salas de exhibición no tienen salida de emergencia." (GLANTZ, 2014, p. 87)

"Me acuerdo que cuando diseñan los baños de los edificios públicos a los arquitectos se les olvida que las mujeres necesitamos más espacio para orinar que los varones." (GLANTZ, 2014, p. 87)

"Me acuerdo que en los baños de mujeres siempre se hace cola y que los baños de hombres casi siempre están vacíos." (GLANTZ, 2014, p. 87)

Seu humor e a forma irônica de fazer denúncias sociais ou críticas sobre algum tema são muito refinados em seus textos. Percebi isso nos contos que lemos da autora e também nas entrevistas que li e ouvi na internet ao longo do semestre letivo.

Vejamos abaixo mais um exemplo da técnica através de uma passagem no livro Las genealogías, em uma frase dela quando o pai conta que levou umas bofetadas quando foi cobrar uma dívida de pães e confeites de um cliente mexicano:

"Así cumplió mi padre con los preceptos bíblicos y gano el pan con el sudor de su frente" (GLANTZ, 1998, p. 105)

POLÍTICA, ECONOMIA E HISTÓRIA

Margo Glantz faz registros de acontecimentos e fatos da época que estamos vivendo. O fechamento de livrarias como consequência do capitalismo e da tecnologia; as lutas de emancipação e igualdade de gênero, sempre aquém do avanço necessário; grandes eventos políticos e sociais que alteram a história. A diferença dos registros dela está na qualidade da escrita: crítica, irônica e reflexiva.

Desaparecimento das livrarias:

"Me acuerdo que hace unos días otra librería desaparecío en París." (GLANTZ, 2014, p. 55)

"Me acuerdo que hace como cuatro años fui a buscar libros y revistas a esa librería: había sido sustituída por una boutique Lévi-Strauss." (GLANTZ, 2014, p. 55)

Direitos das mulheres:

"Me acuerdo de una frase que escribió Simone de Beauvoir en 1980: No olvidar jamás que bastará una crisis política, económica o religiosa para poner en cuestión los derechos de las mujeres." (GLANTZ, 2014, p. 56)

Fim do regime de Stálin:

"Me acuerdo de un titular periodístico mexicano, en marzo de 1953: Alzó los tenis el padrecito Stalin." (GLANTZ, 2014, p. 19)

Questões nacionais do México:

"Me acuerdo que México ya tiene el primer lugar en casos de obesidad, y que, afortunadamente, alcanzamos el tercero en casos de corrupción." (GLANTZ, 2014, p. 62)

"Me acuerdo que las calles de la Ciudad de México se han vuelto intransitables." (GLANTZ, 2014, p. 62)

SOBRE KARL MARX

Um dos maiores filósofos da humanidade é também um homem, nos lembra Margo Glantz, e com isso está sujeito a todas as questões de época, cultura e costumes. Nesta passagem, vemos a questão do machismo e da desigualdade de gênero.

"En un libro recientemente publicado en Francia, las hijas de Karl Marx definen en cartas sucesivas la felicidad desdichada de tener como padre el famoso doctor. Al nacer alguna de ellas, Eleanor, Marx le anuncia a su fiel Engels: 'Desgraciadamente es del sexo por excelencia.' Puede absolverse a Marx quizá si se piensa que uno de sus hijos ya había muerto por entonces y el otro estaba agonizando y que el único vástago de Marx que sobreviviera fue el que tuvo con la sirvienta, hijo que, como amigo entrañable, por no decir otra cosa, Engels adoptó como suyo y que las hijas de Marx ignoraron hasta la muerte del barbudo compañero de su padre..."
(GLANTZ, 1998, p. 76)

RESMUNGANDO UMA LÍNGUA QUE NÃO É SUA

Nas obras de Margo Glantz vemos o tempo todo algumas questões relativas a certas hierarquizações de estratos sociais - pessoas e grupos que se colocam acima dos outros -, e isso se dá como algo cultural.

Falar uma língua que não é sua, por exemplo, pode fazer com que você se sinta excluído, diminuído em certos ambientes que utilizam isso para classificar pessoas e grupos. Não por parte do falante estrangeiro, mas por preconceito do ouvinte nativo.

Ela usa o verbo "mascullar" para apresentar o contexto em que um personagem tenta se comunicar em uma segunda língua, em um mundo que não é o seu mundo de origem.

"El señor Filler le prestó a mi mamá 50 pesos, mismos que sirvieron para pagar la cuenta del hospital. Mientras mi padre estaba enfermo, mi madre salía a vender el pan con Serafín, el muchacho oaxaqueño, bajito y fornido, que se reía todo el tiempo cuando oía a mi papá mascullar el español. Toda la gente veía a mi mamá como si fuera marciana, vestida muy elegante, vendiendo pan de casa en casa."
(GLANTZ, 1998, p. 110)

UN RATO* CON LAS RATAS

Momento em que o pai de Margo foi preso nos anos vinte por ser de esquerda (e ser confundido com anarquistas) e protestar contra as injustiças do governo no México.

"Y no es juego de palabras, pero ese rato se convertía en ratas que de tamaño descomunal se paseaban sobre la cama y sobre el preso..." (GLANTZ, 1998, p. 113)


* Em espanhol "un rato" é um instante, um tempo curto, um momento.

CRISTÓVÃO COLOMBO OU HERNÁN CORTÉS?

"Todo emigrante que viene a América se siente Colón y si viene a México quiere ser Cortés. Mi padre prefirió a Colón y, como Carpentier, escribió un poema épico lírico sobre el navegante genovés..."
(GLANTZ, 1998, p. 136)

O senhor Glantz extraía dentes para sobreviver. Mas não gostava nem um pouco da atividade "sangrenta". Também não gostava de fazer obturações porque era algo chato. Nas horas vagas escrevia poesia, era o que gostava e preferia.

"Sacar muelas era menos aburrido pero más sangriento, lo único que importaba era leer y hacer poesía. Por eso escribió Banderas ensangrentadas, en 1936, poema político en honor de los republicanos españoles, y luego, en 1938, su gran poema dedicado a Colón..." (GLANTZ, 1998, p. 137)

OVELHA NEGRA E FILHA PRÓDIGA

"Kzaid es el pedazo de pan que se arranca de la hogaza antes de bendecir el sábado. Luego escribió otro gran poema, Nizaión (Prueba), dedicado a mí, cuando traicioné al pueblo elegido. Fue traducido por los 50 como Cantares de ausencia y de retorno. Allí, aparezco como oveja negra, y luego, quizá también, como Hija Pródiga." (GLANTZ, 1998, p. 138)

A MEMÓRIA PODE NOS TRAIR (OU PODE SER CONVENIENTE)

"Repetir un acto mil vezes condensa el recuerdo, pero los recuerdos traicionan aunque se recuerden mil veces en la mente. Jacobo niega ciertas minucias que antes recordaba y los calzones con encaje se transforman simplemente en encaje suizo, maravilloso, delicado, pero aún suelto, sin ropa que decorar. Mi padre dice que cada vez recuerda mejor las cosas de su infancia y que casi todo lo demás se borra: a veces resucita y yo lo aprovecho como buitre."
(GLANTZ, 1998, p. 103)

Interessante essa reflexão sobre nossas memórias e suas seletividades. O que antes era calcinha com renda, artefato talvez inapropriado para pessoas de certa religião ou visão conservadora de comportamento individual, se transforma por um misterioso ato da memória em renda suíça, sem ligação com a calcinha que adornava.

Se pensarmos bem, nossa memória faz isso o tempo todo, quando lhe é conveniente.

Fim

BIBLIOGRAFIA

GLANTZ, Margo. Las genealogías. Alfaguara, México, 1998.

GLANTZ, Margo. Y por mirarlo todo, nada veía.
Editorial Sexto Piso, Espanha, 2018.

GLANTZ, Margo.
Yo también me acuerdo. Editorial Sexto Piso, Espanha, 2014.

SPERANZA, Graciela. ¿Dónde está el autor?, en Otra parte. Revista de letras y artes, nº 14, outono de 2008.

NEPOMUCENO, Eric. Jornalistas pela Democracia, no site Brasil247, em 25 de novembro de 2019: https://www.brasil247.com/blog/o-genocida-wilson-witzel-e-sua-policia-assassina

NICOLELIS, Miguel. Entrevista a Luis Nassif, no site GGN, em 12 de julho de 2019: https://jornalggn.com.br/novademocracia/nova-democracia-tv/uma-entrevista-imperdivel-com-nicolelis-por-luis-nassif/

domingo, 24 de novembro de 2019

Leitura: Nocturno de Chile - Roberto Bolaño


Roberto Bolaño. Foto divulgação.

Refeição Cultural

Neste semestre, tive o prazer do contato com a literatura e a poética do escritor chileno Roberto Bolaño, que faleceu muito jovem aos 50 anos de idade, quando suas obras já se destacavam na literatura de língua espanhola e também já eram traduzidas para diversos países.

Para o trabalho de conclusão da disciplina, a professora Laura Hosiasson nos pediu para pensarmos em algo que nos tenha chamado a atenção nas leituras que fizemos do autor. Eu gostei bastante da poética de Bolaño, sobretudo gostei do livro Nocturno de Chile (2000). 

Esta postagem sobre a leitura da obra foi base para minhas reflexões no trabalho da disciplina que fiz. Foi um período bastante atribulado para mim. Eu gostaria de ter podido ler mais textos críticos a respeito do livro e incluir algumas questões apontadas pelos autores, mas isso não foi possível dentro do prazo que tinha; as leituras ainda serão feitas por mim.

Gostei muito dos contos que lemos também de alguns de seus livros. Um dos textos que mais me marcaram foi o relato "Literatura + enfermedad = enfermedad", do livro El gaucho insufrible (2003). Fiquei muito pensativo após a leitura do texto, muito.

O texto abaixo sobre o romance de Bolaño, contém citações e análises de suas partes - spoiler - de forma que o ideal seria que eventual interessado em ler este livro visse as reflexões contidas aqui depois da leitura.

NOCTURNO DE CHILE – AINDA A TORMENTA

O romance é um convite à reflexão por diversos motivos, a começar por sua estrutura pouco tradicional em relação a romances: a narrativa se dá em apenas dois parágrafos, sendo o primeiro com mais de uma centena de páginas e o segundo e último parágrafo com uma linha de extensão.

A narrativa também é inovadora porque poucas obras ousaram tanto no uso da técnica do fluxo de consciência, em que o narrador em primeira pessoa passa a descrever os acontecimentos, pensamentos ou sentimentos de formas variadas e normalmente ininterruptas.

No século passado, o mundo havia se surpreendido com o lançamento de Ulisses (1922), do escritor irlandês James Joyce, que experimentou várias técnicas narrativas em um romance que marcaria a história da literatura mundial.

No último capítulo de Ulisses, a personagem Molly Bloom inicia um fluxo de pensamento que se estenderá por dezenas de páginas do livro, praticamente sem pontuações e mesclando os assuntos mais variados possíveis.

A técnica narrativa coloca o leitor em contato com uma ideia bastante sugestiva de como funcionam os nossos pensamentos, que alternam diversas coisas ao mesmo tempo: memórias, reflexões, desejos, avaliações, sentimentos, projeções de futuro, criatividade etc.

O romance de Bolaño nos motiva muito a leitura porque além de ser uma obra bem feita nos planos estético, semântico e material, como se observa em bons livros de poesia e literatura, também abre possibilidades de leituras no plano dos sentidos - no caso, leitura política -, pois a interpretação e vinculação com a realidade de eventos ocorridos no Chile durante a ditadura de Pinochet são claras, ampliando assim os sentidos da obra. Da leitura política, podemos dizer o seguinte: Noturno do Chile – ainda a tormenta.

Para citar mais uma motivação sobre os encantos do romance Nocturno de Chile, chama atenção o uso de ferramentas e técnicas utilizadas na linguagem poética; o romance tem passagens belíssimas com uso de anáforas, metáforas, metonímias e outras figuras utilizadas nas estruturas do gênero lírico.


O CONTRATO ENTRE O LEITOR E O NARRADOR

O romance começa estabelecendo os parâmetros da narrativa que irá se desenvolver a partir de ali: quem está falando, sobre o que irá falar, como e por que vai narrar a história.

"Ahora me muero, pero tengo muchas cosas que decir todavía. Estaba en paz conmigo mismo. Mudo y en paz. Pero de improviso surgieron las cosas. Ese joven envejecido es el culpable. Yo estaba en paz. Ahora no estoy en paz. Hay que aclarar algunos puntos. Así que me apoyaré en un codo y levantaré la cabeza, mi noble cabeza temblorosa, y rebuscaré en el rincón de los recuerdos aquellos actos que me justifican y que por lo tanto desdicen las infamias que el joven envejecido ha esparcido en mi descrédito en una sola noche relampagueante..."

Temos um narrador em primeira pessoa, que vai falar sobre sua vida, está acamado e diz estar morrendo, mas vai se apoiar no cotovelo e de cabeça erguida irá buscar recordações que o justifiquem. Afirma também que fará isso por ter sofrido infâmias espalhadas contra ele por um tal jovem envelhecido.

Bom começo. A partir daí, o leitor vai acompanhar a narrativa em fluxo de consciência do personagem central, que se identifica logo em seguida como Sebastián Urrutia Lacroix, um cidadão chileno.

CHAVES PARA DESVENDAR A PERSONALIDADE DO NARRADOR

Com uma leitura atenta, é possível captar algumas características importantes do narrador e que serão de grande auxílio para compreender e interpretar os sentidos da narrativa que ele fará para nós, os leitores.

Ele afirma ser uma pessoa que não busca a confrontação, não quer saber de se envolver em conflitos e diz ser uma pessoa razoável.

"Yo no busco la confrontación, nunca la he buscado, yo busco la paz, la responsabilidad de los actos y de las palabras y de los silencios. Soy un hombre razonable. Siempre he sido un hombre razonable."

Aliás, sobre "os silêncios", ele nos revela que tem uma preocupação ou talvez atenção especial em relação ao silêncio, aos pensamentos e atos não falados (não revelados), e que só a Deus se prestaria contas definitivas sobre certas coisas não ditas, sobre certas cumplicidades na vida nunca ditas a ninguém.

"Uno tiene la obligación moral de ser responsable de sus actos y también de sus palabras e incluso de sus silencios, sí, de sus silencios, porque también los silencios ascienden al cielo y los oye Dios y sólo Dios los comprende y los juzga, así que mucho cuidado con los silencios. Yo soy responsable de todo."

O narrador em primeira pessoa estabelece com o leitor um contrato bastante claro a respeito da narrativa que irá contar. Ele vai buscar nos rincões da memória, atos que o justifiquem e vai escolher quais são eles e a forma como quer que saibamos deles, é a sua versão dos fatos.

E os objetivos são claros, nada que deponha contra ele, e sim que justifique uma vida correta, responsável e "imaculada" como ele diz de si mesmo: "Mis silencios son inmaculados".

LITERATURA E ALTA SOCIEDADE

Podemos dividir o longo fluxo de pensamento do narrador, senhor Urrutia - padre da Opus Dei, poeta fracassado e crítico literário - em alguns episódios e momentos de sua vida.

Na primeira parte das recordações do narrador, ele nos conta sobre sua formação religiosa e a forma como teve acesso aos espaços da alta sociedade, ao conhecer o crítico literário mais famoso do país, o personagem Farewell.

"Y poco antes o poco después, es decir días antes de ser ordenado sacerdote o días después de tomar los santos votos, conocí a Farewell, al famoso Farewell, no recuerdo con exactitud dónde, probablemente en su casa..."

Nestas recordações, ele nos conta da visita a propriedade de Farewell, do assédio sexual que sofreu (e tolerou), do contato com Pablo Neruda e outras personalidades da cultura em um sarau.

A técnica narrativa de Bolaño é excelente. Há passagens que nos lembram clássicos da literatura mundial.

A chegada de Urrutia à vila de Querquén "vacía de todo atisbo de personas" nos lembra tanto a chegada de Juan Preciado a Comala em Pedro Páramo (1955), de Juan Rulfo, como o comportamento dos pássaros gorjeando sons que "parecían decir quién, quién, quién" em meio à solidão da praça principal, descrição que nos lembra O corvo (1845), poema de Edgar Allan Poe, famoso pelo grasnar "nevermore".

Ainda nesta primeira recordação, o narrador nos conta de forma poética e metafórica a imagem que teve da casa de Farewell, uma espécie de porto seguro da literatura nacional.

"Me dije a mí mismo que mi anfitrión era sin duda el estuario en donde se refugiaban, por períodos cortos o largos, todas las embarcaciones literarias de la patria, desde los frágiles yates hasta los grandes cargueros, desde los odoríficos barcos de pesca hasta los extravagantes acorazados. ¡No por casualidad, un rato antes, su casa me había parecido un transatlántico! En realidad, me dije a mí mismo, la casa de Farewell era un puerto."


LITERATURA E VAIDADE

Nesta segunda parte das recordações, o senhor Urrutia narra o período em que passou a trabalhar na Universidade Católica do Chile, começou a publicar seus poemas e fazer críticas literárias.

Ele nos conta que ouviu uma voz interior, seu superego, e ela teve grande influência nas decisões e ações tomadas pelo narrador nesta fase. Urrutia criou um pseudônimo - H. Ibacache - para seguir criticando poetas e literatos (e elogiando a si mesmo) e planejou um futuro glorioso como poeta.

"Urrutia Lacroix planeaba una obra poética para el futuro, una obra de ambición canónica que iba a cristalizar únicamente con el paso de los años, en una métrica que ya nadie en Chile practicaba, ¡qué digo!, que nunca nadie jamás había practicado en Chile, mientras Ibacache leía y explicaba en voz alta sus lecturas tal como antes lo había hecho Farewell, en un esfuerzo dilucidador de nuestra literatura, en un esfuerzo razonable, en un esfuerzo civilizador, en un esfuerzo de tono comedido y conciliador, como un humilde faro en la costa de la muerte."

Não poderia faltar o tom poético com que Bolaño descreve o episódio narrado em fluxo de pensamento pelo poeta Urrutia, com anáforas: "en un esfuerzo", "en un esfuerzo"...

A narrativa nos apresenta histórias dentro de histórias. Falando sobre pureza poética, Urrutia nos conta um episódio na casa de um diplomata, Salvador Reyes, que por sua vez vai falar sobre pureza em outro episódio com o escritor alemão Ernst Jünger, ocorrido na Paris ocupada durante a 2ª Guerra Mundial. Dentro desta história, será narrado novo episódio com um pintor guatemalteco e seu quadro "Paisaje de Ciudad de México una hora antes del amanecer".

Ao contar essas histórias dentro de outras histórias, o personagem principal Urrutia confessa aos leitores estar com melancolia, o mal que, segundo ele, ataca pessoas pusilânimes, e com isso nos dá outra chave para compreender a personalidade e o estado mental do narrador.

"melancolía, morbus melancholicus, el mal que ataca a los pusilánimes (...) la bilis negra, esta bilis negra que hoy me corroe y me hace flojo y me pone al borde de las lágrimas al escuchar las palabras del joven envejecido"

Ainda dentro dessas lembranças da visita a casa do diplomata, Urrutia e Farewell saem para comer e nova história é contada por Farewell, a história do sapateiro súdito do imperador austro-húngaro: "la historia de la Colina de los Héroes o Heldenberg". As reflexões em questão abordam a temática da mortalidade e a fugacidade das coisas.

Antes de nos contar sobre sua colaboração com a ditadura de Pinochet, o sacerdote Urrutia narra mais um diálogo que teve com Farewell sobre a igreja e os papas, e nos revela ser da Opus Dei.

De passagem em passagem de uma história a outra, o jovem envelhecido retorna nas citações do narrador. Às vezes, as acusações e cobranças dessa voz são agressivas como neste exemplo:

"Seamos civilizados, susurro. Pero él no me oye. De vez en cuando alguna de sus palabras llega con claridad. Insultos, qué otra cosa. ¿Maricón, dice? ¿Opusdeísta, dice? ¿Opusdeísta maricón, dice?"

Nessa altura da narrativa de Urrutia, sabemos que o jovem envelhecido é a voz de sua consciência, que cobra dele as escolhas que fez, a sua pusilanimidade e os silêncios que manteve durante os piores momentos na vida de seu país. Cobra também a responsabilidade pela literatura ser o que é em seu país - pouco expressiva -, e aqui vemos a crítica de Bolaño também.


LITERATURA E PODER DO ESTADO

Entramos em outra parte da história do senhor Urrutia/Ibacache: sua relação com agentes do Estado ou próximos a setores do Estado, não fica muito claro isso, começa através do contato com dois agentes de uma empresa contratada por setores da igreja, cujos nomes são Medo e Ódio, invertidos.

"Fue por aquellos días cuando conocí al señor Odeim y más tarde al señor Oido."

Ao que parece, a estratégia que os setores mais conservadores do Estado e/ou da igreja desenvolveu para se aproximar do padre Urrutia foi propor a ele um trabalho bem interessante, feito à medida para ele, viajando pelo continente europeu, estudando as técnicas de conservação das igrejas seculares de lá. Ele aceitou.

"La Casa de Estudios del Arzobispado quería que alguien preparara un trabajo sobre conservación de iglesias. En Chile, como no podía ser menos, nadie sabía nada acerca de este tema. En Europa, por el contrario, las investigaciones iban muy avanzadas y en algunos casos se hablaba ya de soluciones definitivas para frenar el deterioro de las casas de Dios. Mi trabajo consistiría en ir, visitar las iglesias punteras en soluciones antidesgaste, cotejar los distintos sistemas, escribir un informe y volver."

Depois da realização do estudo feito pelo padre Urrutia, ele vai voltar ao Chile, encontrando um país em ebulição; período de eleições gerais; Allende chega ao poder; golpe de Estado e início da ditadura de Pinochet. Essa parte nos é narrada após a sua estadia na Europa, que vemos a seguir.

A TÉCNICA DE CONSERVAÇÃO DAS IGREJAS NA EUROPA

Esta parte da obra é uma das mais interessantes em relação à técnica narrativa, com uso de imagens poéticas. A descrição da passagem do padre Urrutia por diversos países conhecendo as igrejas.

Em diversas igrejas, são utilizados falcões para caçar e afastar pombas dos monumentos porque as fezes delas são ameaças à conservação das construções pelo poder corrosivo que têm.

O leitor consegue facilmente perceber a simbologia em relação ao uso de aves predadoras e aves caçadas, entre falcões e pombas/estorninhos como algo relativo a regimes autoritários e democracia, entre o status quo e as camadas menos favorecidas e populares.

SÍNTESE DA PASSAGEM DE URRUTIA PELA EUROPA

- Pistóia, ITA, Igreja Santa Maria da Dor Perpétua, padre Pietro, falcão Turco;

- Turim, ITA, Igreja São Paulo do Socorro, padre Angelo, falcão Otelo;

- Estrasburgo, FRA, não falou nome da igreja, padre Joseph, falcão Xenofonte;

- Avignon, FRA, Igreja Nossa Senhora do Meio-Dia, padre Fabrice, falcão Ta Gueule (o mais sanguinário dos falcões); a descrição das cenas de caças de estorninhos em meio a um céu vermelho é impressionante, de arrepiar;

- Pamplona, ESP. Não utilizam a técnica dos falcões na conservação de igrejas. Urrutia tratou de questões particulares e da igreja, inclusive assinou contrato de publicação de suas obras;

- Burgos, ESP, padre Antonio (um velhinho), falcão Rodrigo (que não caçava pombas, o padre era contra caçar aquelas criaturas de Deus), ambos estavam decrépitos; a história narrada é de arrepiar. O falcão estava em condições precárias, num canto, preso, amuado. Com o estado febril do padre, Urrutia soltou o falcão, que reencontrou seus instintos, matou diversas pombas e desapareceu para sempre nos céus de Burgos. O padre Antonio se libertou também e faleceu naquela noite;

- Madri, ESP, Urrutia tratou de outros temas por lá, porque em Madri eles não ligam para essa questão de conservação de igrejas;

- Namur, BEL, Igreja Nossa Senhora dos Bosques, padre Charles, falcão Ronnie;

- Saint-Quentin, FRA, Igreja de São Pedro e São Paulo, padre Paul, falcão Febre; uma cena chocante aconteceu na cidade. O falcão do padre Paul estraçalhou uma pomba branca que deu início a jogos na cidade;

- O padre Urrutia foi para Paris e depois passou um tempo visitando países europeus até que retornou a América.

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FALCÃO SANGUINÁRIO, UMA METÁFORA DO QUE VIRIA NA HISTÓRIA

Avignon - A descrição que o narrador faz dos céus vermelhos em consequência da ferocidade do falcão Ta Gueule é impressionante:

"y fui a Avignon, a la iglesia de Nuestra Madre del Mediodía, en donde era párroco el padre Fabrice, cuyo halcón se llamaba Ta gueule y era conocido en los alrededores por su voracidad y ferocidad, y con el padre Fabrice tuvimos tardes inolvidables, mientras Ta gueule volaba y  deshacía ya no sólo bandadas de palomas sino de estorninos que por aquellos días lejanos y felices abundaban en las tierras provenzales, las tierras que recorrió Sordel, Sordello, ¿qué Sordello?, y Ta gueule echaba a volar y se perdía entre las nubes bajas, las nubes que bajaban de las mancilladas y al tiempo puras colinas de Avignon, y mientras el padre Fabrice y yo hablábamos, de pronto Ta gueule volvía a aparecer como un rayo o como la abstracción mental de un rayo para caer sobre las enormes bandadas de estorninos que aparecían por el oeste como enjambres de moscas, ennegreciendo el cielo con su revolotear errático, y al cabo de pocos minutos el revolotear de los estorninos se ensangrentaba, se fragmentaba y se ensangrentaba, y entonces el atardecer de las afueras de Avignon se teñía de rojo intenso, como el rojo de los crepúsculos que uno ve desde las ventanillas de un avión, o el rojo de los amaneceres, cuando uno despierta suavemente con el ruido de los motores silbando en los oídos y corre la cortinilla del avión y en el horizonte distingue una línea roja como una vena, la femoral del planeta, la aorta del planeta que poco a poco se va hinchando, esa vena de sangre fue la que vi en los cielos de Avignon, el vuelo ensangrentado de los estorninos, los movimientos como de paleta de pintor expresionista abstracto de Ta gueule, ah, la paz, la armonía de la naturaleza que en ningún lugar es tan evidente ni tan explícita como en Avignon, y luego el padre Fabrice silbaba y esperábamos un tiempo indefinible, mensurado únicamente por los latidos de nuestros corazones, hasta que nuestro tembloroso halcón se posaba en su brazo. Y luego tomé el tren y me marché de Avignon con gran tristeza"


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UM SONHO SIMBÓLICO DE URRUTIA, ANTES DE VOLTAR AO CHILE

Em Roma, antes de voltar para o Chile, o padre Urrutia teve sonhos estranhos durante sua estadia em Roma. Sonhou com falcões que atravessavam o oceano Atlântico rumo a América.

"Fui a Roma. Me arrodillé ante el Santo Padre. Lloré. Tuve sueños inquietantes. Veía mujeres que se rasgaban las vestiduras. Veía al padre Antonio, el cura de Burgos, que antes de morir abría un ojo y me decía: esto está muy malo, amiguito. Veía una bandada de halcones, miles de halcones que volaban a gran altura por encima del océano Atlántico, en dirección a América. A veces el sol se ennegrecía en mis sueños."

Tanto na história dentro do romance veríamos golpe de Estado e a instituição da barbárie contra o povo, como na vida real ocorreria nas Américas, naqueles anos de regimes autoritários, uma certa operação batizada de "Operação Condor", cujos predadores sanguinários aniquilaram milhares de presas, presos políticos.

LITERATURA E PODER DO ESTADO, 2ª PARTE

Urrutia/Ibacache volta ao Chile após sua passagem pela Europa. Seu fluxo de pensamento faz um panorama rápido do processo de eleição de Allende, crise política e golpe de Estado.

Bolaño descreve o narrador repassando toda a literatura clássica da humanidade - a grega, principalmente - durante o período em que o padre se internou em seus aposentos. Enquanto isso, a direita chilena derrubava o governo de Allende. Findo o processo do golpe, Urrutia pensa o seguinte após o bombardeio do palácio La Moneda, morte de Allende e o início da ditadura:

"qué paz. Me levanté y me asomé a la ventana: qué silencio. El cielo estaba azul, un azul profundo y limpio, jalonado aquí y allá por algunas nubes."

A paz do poeta e crítico Urrutia/Ibacache não foi tão completa ao que parece, porque o narrador nos conta que depois do golpe tentou escrever poesia e a coisa saiu meio demoníaca:

"Los días que siguieron fueron bastante plácidos y yo estaba cansado de leer a tantos griegos. Así que volví a frecuentar la literatura chilena. Intenté escribir algún poema. Al principio sólo me salían yambos. Después no sé lo que me pasó. De angélica mi poesía se tornó demoníaca."

Ao longo da narrativa em fluxo de pensamento, o narrador nos deu várias pistas a respeito de sua personalidade. Além de não querer confrontação, de se dizer razoável, e de afirmar no presente da enunciação que está melancólico, nos revela agora também questões bem íntimas sobre si mesmo: os desejos sexuais. Lidar com isso o deixa furioso:

"Escribía sobre mujeres a las que zahería sin piedad, escribía sobre invertidos, sobre niños perdidos en estaciones de trenes abandonadas. Mi poesía siempre había sido, para decirlo en una palabra, apolínea, y lo que ahora me salía más bien era, por llamarlo tentativamente de algún modo, dionisíaco. Pero en realidad no era poesía dionisíaca. Tampoco demoníaca. Era rabiosa. ¿Qué me habían hecho esas pobres mujeres que aparecían en mis versos? ¿Acaso alguna me había engañado? ¿Qué me habían hecho esos pobres invertidos? Nada. Nada. Ni las mujeres ni los maricas. Y mucho menos, por Dios, los niños. ¿Por qué, entonces, aparecían esos desventurados niños enmarcados en esos paisajes corruptos? ¿Acaso alguno de esos niños era yo mismo?"

AULAS DE MARXISMO A PINOCHET

Através dos senhores Odeim e Oido, Urrutia/Ibacache é contratado para dar aulas de marxismo à junta militar que tomou o poder no Chile. Essa parte das memórias é impressionante. O programa das dez aulas sobre marxismo poderia ser seguido à risca por qualquer um de nós para se conhecer um panorama geral sobre Marx e seus ensinamentos.

Ao final do curso, o senhor Urrutia volta a seus aposentos e não consegue dormir. Seus pensamentos são intensos. Chora.

"Me puse a dar vueltas por el cuarto mientras una marea creciente de imágenes y de voces se agolpaban en mi cerebro. Diez clases, me decía a mí mismo. En realidad, sólo nueve. Nueve clases. Nueve lecciones. Poca bibliografía. ¿Lo he hecho bien? ¿Aprendieron algo? ¿Enseñé algo? ¿Hice lo que tenía que hacer? ¿Hice lo que debía hacer? ¿Es el marxismo un humanismo? ¿Es una teoría demoníaca? ¿Si les contara a mis amigos escritores lo que había hecho obtendría su aprobación? ¿Algunos manifestarían un rechazo absoluto por lo que había hecho? ¿Algunos comprenderían y perdonarían? ¿Sabe un hombre, siempre, lo que está bien y lo que está mal? En un momento de mis cavilaciones me eché a llorar desconsoladamente, estirado en la cama, echándoles la culpa de mis desgracias (intelectuales) a los señores Odeim y Oido, que fueron los que me introdujeron en esta empresa. Después, sin darme cuenta, me quedé dormido."

Temos aqui uma reflexão possível por parte do narrador: O medo e o ódio foram responsáveis por suas desgraças intelectuais... talvez por sua pusilanimidade.

Vieram tempos tristes, sem graça, chatos. Por causa do toque de recolher, não podia haver saraus, encontros dos intelectuais e artistas. Essas são as lembranças que Urrutia narra nesse momento de sua história.

LITERATURA E BARBÁRIE

E então, aparece María Canales e, com ela, a oportunidade dos encontros e saraus em sua mansão: artistas e intelectuais voltam a se reunir de duas a três vezes por semana para beber, cantar, declamar poesias e passar as noites reproduzindo a cultura do país.

Falando a si mesmo e ao jovem envelhecido, sua voz da consciência, o narrador nos confessa: "Pero la historia, la verdadera historia, sólo yo la conozco. Y es simple y cruel y verdadera y nos debería hacer reír, nos debería matar de la risa. Pero nosotros sólo sabemos llorar, lo único que hacemos con convicción es llorar."

O final da história é um final duro, a descoberta do porão de tortura, da relação do casal com a CIA e com a ditadura, a convivência da cultura com a barbárie naquele espaço, tudo isso nos coloca a pensar sobre muitas questões, sobre o papel dos artistas, dos intelectuais, da produção artística e cultural em um país, sobre literatura e sociedade.

A personagem María Canales, a quem o padre Urrutia visitou muito tempo depois dos fatos e após o fim da ditadura, faz uma provocação a ele, dizendo que a literatura se faz assim, como se dava naqueles tempos. A questão fica martelando em sua consciência.

"y dijo que así se hacía la literatura en Chile. Yo incliné la cabeza y me marché. Mientras conducía, de vuelta a Santiago, pensé en sus palabras. Así se hace la literatura en Chile, pero no sólo en Chile, también en Argentina y en México, en Guatemala y en Uruguay, y en España y en Francia y en Alemania, y en la verde Inglaterra y en la alegre Italia. Así se hace la literatura. O lo que nosotros, para no caer en el vertedero, llamamos literatura."

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CONVITE A LEITURA DE NOCTURNO DE CHILE EM TEMPOS DE AUTORITARISMO NAS AMÉRICAS DO SÉCULO XXI

Uma obra de ficção literária é boa quando ela é completa em si, como neste caso do romance de Bolaño, a economia da obra dá conta da história, o leitor não precisa saber de nenhum contexto externo a ela para compreendê-la. O professor Antonio Candido nos ensina essa lição no texto “Os elementos de compreensão”. Vejamos o que diz sobre isso:

“Uma obra é uma realidade autônoma, cujo valor está na fórmula que obteve para plasmar elementos não-literários: impressões, paixões, ideias, fatos, acontecimentos, que são a matéria-prima do ato criador (...) o elemento decisivo é o que permite compreendê-la e apreciá-la, mesmo que não soubéssemos onde, quando, por quem foi escrita.”

A emoção estética se dá e se realiza quando lemos este romance de Bolaño. Os elementos internos nos permitem perfeitamente a compreensão do enredo, mesmo para um leitor não-chileno ou sul-americano conhecedor da história das ditaduras dos anos sessenta a oitenta.

Uma obra de ficção é melhor ainda quando ela permite ampliar a interpretação no plano dos sentidos. Neste caso, além do sentido material, presente no texto, podemos ampliar o sentido ao associarmos o texto com fatos e eventos no plano externo da obra.

O texto crítico de Grínor Rojo “2000 El ridículo espantoso (además de chileno) em Nocturno de Chile” nos abre um leque de interpretações incrível. As críticas contidas no romance em relação à política e à literatura, incluindo a relação dos escritores e demais produtores de cultura, amplia bastante os aspectos a serem considerados no plano dos sentidos.

Alguns dos aspectos elencados por Rojo citamos na leitura que fizemos como, por exemplo, a questão do jovem envelhecido como a consciência mais profunda de Urrutia ou o sonho simbólico dos falcões atravessando o Atlântico e as ditaduras que ocorreriam nas Américas naquele período.

Uma questão que fica latente nesse momento, nesse exato momento em que lemos o romance de Bolaño, seria a oportunidade que nos dá a leitura da frase final do livro, o 2º e último parágrafo, que talvez seja a própria voz do escritor e não do personagem, como diz Rojo e Moreno: “Y después se desata la tormenta de mierda.”.

Que expressão mais premonitória seria essa tormenta de merda, se pensarmos o cenário colocado em 2019 na região, Chile, Brasil, Bolívia, Uruguai, Argentina, Equador e demais países em face dos últimos acontecimentos políticos. Poderíamos tranquilamente reler esse clássico de Bolaño com a seguinte sugestão na denominação: Noturno do Chile – ainda a tormenta.

Enfim, a obra literária é muito sugestiva, tanto no plano interno do romance, quanto na ampliação da leitura no plano dos sentidos, a considerarmos neste início de século XXI a ascensão da direita nos países da América do Sul e a volta de pensamentos fascistas e antidemocráticos.

William Mendes


BIBLIOGRAFIA:

BOLAÑO, Roberto. Nocturno de Chile. Espanha: Debolsillo, 1ª edición; 2017.

BOLAÑO, Roberto. Noturno do Chile. São Paulo: Companhia da Letras; 2004. 

CANDIDO, Antonio. “Os elementos de compreensão”. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 5ª ed. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1975, 1º vol., p. 34-36. 

ROJO, Grínor. “2000 El ridículo espantoso (además de chileno) en Nocturno de Chile”. Las novelas de la dictadura y la postdictadura chilena – Quince ensayos críticos. Volumen II. 1ª ed. – Santiago: LOM ediciones, 2016.