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terça-feira, 15 de julho de 2025

Instantes (12h49)



Refeição Cultural

No romance, estou numa parte na qual parece ser o fim para o senhor Barnstaple, ele está numa reentrância na rocha em um penhasco. Abaixo, o desfiladeiro, acima, rochas por onde escorregou até ali, fugindo de seus pares terráqueos. Ele avalia que as opções nessa situação são duas: esperar a morte por inanição ou se jogar para a morte.

Estou com as palavras do professor Domenico de Masi circulando pelas sinapses de meu cérebro criador de tudo. Vi uma aula dele sobre o tema "O ócio criativo" (no ICL). Ele explica sobre o trabalho, seu objeto de análise e estudos por décadas. 

Nas minhas reflexões, me lembrei do sofrimento que o trabalho significou em minha vida. Vejo a trabalhadora limpando a piscina, trabalhando, e me lembro do meu primeiro dia como ajudante de encanador antes dos dezesseis anos... depois me lembro daquelas latas de palmito podres que tinha que abrir pra jogar fora... Temos que trabalhar para sobreviver.

De Masi nos conta que por milênios, o trabalho não tinha essa interpretação recente de "dignificar" o homem (mulher nem era considerada em relação aos direitos nos mundos dos homens). Trabalhar era castigo divino, era para escravizados. Dignificar os homens era através da filosofia, da arte, do belo, dos esportes e da gestão da Pólis

Esse papo de trabalhar dignifica o homem veio dos últimos dois séculos, da era industrial. Locke, Smith e Marx mudaram o olhar sobre o trabalho. Segundo De Masi, desde sempre (milhares de anos de homo sapiens), nosso objetivo foi trabalhar pouco ou não trabalhar. 

Isso me parece ter todo o sentido!

Agora temos máquinas e tecnologias para livrar a espécie humana da maior parte do trabalho ruim, insalubre, de risco e humilhante. E também de trabalhos mais considerados pelas sociedades. Poderíamos viver para o belo, para estudar e criar, para a cultura. Mas 99% estão no "corre" por um trabalho qualquer, até por um prato de comida, e 1% acumula tudo.

Pior: isso é normalizado!

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Confesso que estou tão cansado quanto meu corpo, que cansou de sobreviver dez anos a mil.

Por consciência, busco sentidos. Mas confesso que está difícil encontrar sentidos. 

Me despeço amanhã do paraíso, da singela colônia de férias dos professores na Praia Grande. 

Voltarei para o caos.

Will i am 

15/07/25

domingo, 20 de agosto de 2017

Casa-grande & Senzala (1933) - Gilberto Freire





Refeição Cultural

"A Gilberto Freyre*

                       Carlos Drummond de Andrade


Velhos retratos; receitas

de carurus e guisados;
as tortas Ruas Direitas;
os esplendores passados;

a linha negra do leite
coagulando-se em doçura;
as rezas à luz do azeite;
o sexo na cama escura;

a casa-grande; a senzala;
inda os remorsos mais vivos,
tudo ressurge e me fala,
grande Gilberto, em teus livros."

*Viola de bolso novamente encordoada, Rio de Janeiro, José Olympio, 1955.


Início de jornada

Estamos no ano de 2017, vivendo no maior país da América do Sul, o Brasil, que está sob golpe de Estado desde abril de 2016, um golpe parlamentar-jurídico-midiático, quando a presidenta Dilma Rousseff, eleita com 54,5 milhões de votos em 2014, foi afastada e depois impedida de seguir em seu mandato por um bando de suspeitos de corrupção que tomou conta de parte das instituições da máquina estatal brasileira.

De lá para cá, os golpistas da chamada "Casa Grande" destruíram a economia do País, atacaram fortemente os direitos do povo brasileiro e não param de dilapidar o que ainda resta de patrimônio público e social do Brasil. Sem contar que na construção do golpe foi aberta a Caixa de Pandora, e a máquina de comunicação empresarial, que atua como partido, o Partido da Imprensa Golpista (PIG), envenenou o povo brasileiro criando um ódio antes incomum em solo pátrio, e favorecendo a ascensão de ideais nazifascistas.

Após ler mais de trinta obras no primeiro semestre deste ano, defini que não terei a mesma possibilidade de leitura neste período seguinte. No entanto, achei que não tinha mais como protelar o estudo da obra de Gilberto Freyre, já que nenhuma referência é mais citada atualmente que este ensaio sobre a conformação do Brasil.

A obra se divide em cinco capítulos, e tentei ler o primeiro inteiro antes de publicar alguma coisa, mas não foi possível porque minha leitura tem sido lenta e com atenção, lendo inclusive todas as citações e referências, que equivalem a páginas e páginas ao final de cada capítulo. Já li quase 90 páginas e depois vou publicar alguns comentários, assim como li ano passado 1984, de George Orwell, fazendo uma série de postagens.

As opiniões de Freyre neste ensaio são polêmicas e ler uma obra desta nos exige o comportamento intelectual de conhecer suas teses e avaliar o que concordo e o que tenho discordância. Já fiz isso em várias obras como, por exemplo, o Ócio Criativo, de Domenico de Masi. Algumas afirmações deste intelectual me incomodaram bastante, mas isso não me impede de ler seus pensamentos.

Enfim, o momento político é dramático e eu entendo que as lideranças da classe trabalhadora precisam reagir. Eu já tenho uma tarefa duríssima na frente de batalha em que estou - defesa dos direitos em saúde dos trabalhadores do BB na autogestão Cassi -, mas conhecimento e formação são sempre necessários para que possamos contribuir com o avanço dos direitos sociais do povo brasileiro.

Abraços,

William
Um leitor

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Diário - 060716 (Férias? A gente não para de pensar)





Refeição Cultural

- Olá mundo! Pra onde tu caminhas? O que será dos seres vivos nos próximos anos e o que vai rolar com os mamíferos humanos nesses próximos tempos de desconstrução social?

Quando li o livro de Domenico de Masi, O ócio criativo, anos atrás, fiquei pensando como seria aquela sociedade descrita como o futuro próximo e que, a bem da verdade, já era real na época, mundo humano onde não se separaria mais o trabalho, o jogo, o lazer e tudo seria junto ao mesmo tempo. Só tem uma questão nisso: não mudou o fato de que os donos do mundo capitalista continuam sendo alguns e que todo o restante são os bilhões que vendem sua força de trabalho para comer, se reproduzir e ter algum consumo mínimo da produção capitalista.

Eu trabalho 24 horas por dia e não queria trabalhar 24 horas por dia. Mas o que é trabalho e o que não é trabalho? Hoje é o primeiro dos dez dias em que estou exercendo um direito previsto no meu contrato de trabalho bancário e no meu termo de cessão para um mandato de representação em entidade dos bancários do banco em que trabalho. Conforme o conceito que se queira utilizar, posso dizer que trabalhei o dia todo!

Meu trabalho é político. Meu trabalho é técnico. Meu trabalho é com gente. Representar gente. Entender de gente. Tentar influenciar gente. Lutar diariamente para melhorar a vida da gente. Ficar pensando até dormindo como fazer para que nossa missão e tarefas tenham sucesso.

E quando olho o mundo de hoje, seis de julho de dois mil e dezesseis, século vinte e um, fico perplexo com o que vejo. Se a existência humana em sociedade é com evolução linear positivista, se ela é em pêndulos com idas e vindas entre tragédias e momentos gloriosos ou se é em ciclos ou espirais, eu não sei... mas eu sei que tá foda e vejo maus momentos nos próximos anos, tanto para a minha geração como para a de nossos filhos e netos...

Quando olho o meu mundo, um universozinho de nada quando pensamos o planeta Terra e o planeta homem, eu vejo só desagregação, cisões, ódios, gente perdida e desanimada, uns meio boquiabertos com as coisas, outros sem entender, outros revoltados, muitos pusilânimes, eu vejo que por mais que um ser humano tente fazer o que deve ser feito, e eu tento, vejo que o momento é duro para nós, mamíferos humanos, ao considerarmos o lado da classe trabalhadora, o lado dos fodidos que não são donos da máquina capitalista mundial. Vamos passar maus bocados porque nosso lado sequer está ciente do que tá rolando.

Se alguns tiverem interesse, vejam um pouco nos espaços progressistas e de esquerda o que é a disputa global pela hegemonia do petróleo para estas décadas do século 21. Tem gente que não tem a menor noção do que é o poder das empresas americanas de petróleo, e a indústria armamentista do Tio Sam, e da indústria farmacêutica do Tio Sam... Eles estão destruindo toda a soberania dos países que têm em seu solo petróleo, gás e minerais. Operação Lava Jato... que merda é essa, além de um plano para destruir a economia do país, entregar o pré-sal aos americanos. Já avançou bem depois de seu início, quebrou a indústria brasileira no setor, quebrou a indústria de construção civil no país, talvez não tenha volta. Enfim, eu sou só um bobo dando minha opinião...

O mundo todo tá rachado! Hoje li sobre racha no PSTU. Li sobre racha em diretoria de sindicato de bancários de grande importância. Tem rachas internos em tudo quanto é lugar, principalmente no campo dos movimentos sociais, sindicais e dos partidos de esquerda (sei que também tem nos de direita, mas eles têm os meios, o poder, não é a mesma coisa de racha no campo dos trabalhadores). 

E os rachas nas famílias e nos grupos de amigos ou conhecidos? Eu praticamente não tenho mais relacionamento com familiares que apoiam a direita, o golpe e os golpistas, as posições fascistas que querem foder a classe trabalhadora que represento e à qual pertenço, aliás eu, minha esposa, meu filho e a maior parte das pessoas de meu convívio ou ex-convívio, mas entendi que é difícil fazê-las verem isso.

As coisas viraram uma merda depois da crise capitalista de 2008 com a quebra de alguns bancos picaretas americanos e o tal do subprime. E nós que dizíamos em coro que não queríamos que o povo trabalhador pagasse a conta... nos fodemos de novo... como sempre na história da disputa de classes.

Leio nosso amigo e grande lutador Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania, nos pedindo para que o nosso lado não desanime. Eu também falo isso todo dia. Acordemos e saiamos para a luta e para fazer nossas tarefas revolucionárias... (não venham me dizer que lutar por saúde pública e autogestão em saúde de trabalhadores não seja algo revolucionário!!!). Faço meu trabalho revolucionário todos os dias. Muitos de nós fazemos. Mas é pouco se pensarmos que não há unidade mínima entre nós. Eu vejo meus amig@s e companheir@s se destruindo uns aos outros após os rachas recentes e choro por dentro todos os dias.

Quando vejo a que ponto chegou neste momento, dia seis de julho de dois mil e dezesseis, a canalhice, podridão e descaramento dos corruptos que tomaram conta do país com o Golpe de Estado, quando vejo a impunidade dos desgraçados do Grande Irmão Globo e demais mídias cartelizadas, dos políticos do PSDB, PMDB e tranqueiras do tipo e seus asseclas enfiados nos órgãos públicos e máquina do Estado nacional, fico meio que catártico. Acho que um monte de militantes de esquerda como eu Brasil afora deve estar assim.

O que vou responder para minha esposa, para alguns amigos, quando me falam que não vale a pena eu pagar pra trabalhar várias vezes como faço desde que cheguei ao meu mandato porque me impõem burocracias para impedir que eu trabalhe. Vocês acham que é simples alguém da família saber que você não dorme para trabalhar, gasta do bolso para trabalhar e ainda tem gente o tempo todo atuando em vários espaços para te frear, te prejudicar e ainda se dão bem... Mas a gente explica que no nosso campo de formação política, nossa ética nos ensinou que vamos dar toda a nossa capacidade para fazer o que tem que ser feito para aqueles e aquilo que representamos.

Chega de desabafar. Eu me sinto um idiota por saber o que está acontecendo no mundo. Me sinto mais idiota quando vejo a Rede Globo em cada bar, casa, hall de hotel, TV de táxi, em cada canto do país, onde até pra mijar e fazer cocô a gente escuta a transmissão dos meios midiáticos deles ou tem uma "revista" ou "jornal" dos transmissores das ordens (deles) a serem seguidas pelas massas de meu povo.

E fiquei pensando estes dias: como posso ficar bravo com pessoas queridas e próximas a mim por gostarem de ver novelas nos canais desses desgraçados que fodem o mundo? Eu sou um amante da literatura e a literatura moderna surgiu a partir de romances e novelas de ficção que têm um caráter interessante na constituição do conhecimento humano. Que merda! O capitalismo se apropria de tudo em benefício dele, é assim que funciona. E o povo é envolvido de forma quase impossível de escapar.

Será que vamos todos terminar como o personagem Winston Smith do "1984"? Será que vou terminar odiando e tendo ojeriza de Política como se trabalha tão bem na direita capitalista, para afastar o povo da política e deixar que eles nos fodam sem nenhuma organização sindical ou política com capacidade de intervir e se opor ao patrimonialismo secular dos donos do capital, fazendo o que querem com a coisa pública assim como fazem com o seu patrimônio privado (que inclui sua mulher, filhos, semoventes, escravos, tudo coisificado)?

Tchau, gente.

William

domingo, 28 de junho de 2009

Corrida domingueira




Hoje caminhei e corri um pouco pela manhã. Foram uns 4 Km andando e 3 Km em 18' em trote leve.

O meu desejo compulsivo por leitura e estudos, ultimamente, tem me levado a optar por deixar meu esporte em segundo plano.

Assisti há pouco ao filme fantástico sobre nosso passado humano: A guerra do fogo, de 1981. O filme dialoga muito com o primeiro capítulo do livro de Domenico De Masi - O ócio criativo.


sábado, 27 de junho de 2009

Releitura: O Ócio Criativo - Domenico de Masi (Ed. 2000)



Refeição Cultural

Li este livro de Domenico De Masi em 2005 e, apesar de lê-lo vacinado pelas referências de que o autor seria de linha mais à direita em termos políticos, gostei do livro e das ideias contidas nele.

Um dos capítulos que já li várias vezes é o primeiro "Como os lírios do campo". Ele descreve e comenta a história do homem desde a sua criação enquanto homem, ou seja, desde 70 milhões de anos atrás até os dias atuais.

Consultei o capítulo novamente após um dos debates deliciosos que fazemos constantemente na Contraf-CUT. Tenho o hábito de fazer pequenas provocações aos meus amigos da imprensa, com os quais trabalhei em meu primeiro mandato nesta secretaria.

O tema era sobre o ser humano ser um bicho que não aprende com o passado e que nós começaríamos sempre do zero. Essa observação me levou ao capítulo em questão, pois ele fala justamente o contrário, quer dizer, o que nos diferencia dos demais animais é justamente o fato de não começarmos do zero a cada geração. Nós somos alimentados desde o nascimento pelo caldo cultural que nos antecedeu.

No fundo, não quer dizer que eu não concorde que a nossa burrice enquanto ser humano está nos levando ao limite da existência, inclusive do próprio planeta. É que não posso confundir meu pessimismo com a natureza destrutiva e imbecil de nós mesmos com conceitos mais antropológicos e sociológicos.

Mas, vamos aos excertos do capítulo e suas ideias:

ATIVIDADES "OCIOSAS" DOS GREGOS

"O ócio é um capítulo importante nisso tudo, mas para nós é um conceito que tem um sentido sobretudo negativo. Em síntese, o ócio pode ser muito bom, mas somente se nos colocamos de acordo com o sentido da palavra. Para os gregos, por exemplo, tinha uma conotação estritamente física: 'trabalho' era tudo aquilo que fazia suar, com exceção do esporte. Quem trabalhava, isto é, suava, ou era um escravo ou era um cidadão de segunda classe. As atividades não-físicas (a política, o estudo, a poesia, a filosofia) eram 'ociosas', ou seja, expressões mentais, dignas somente dos cidadãos de primeira classe" p. 17

Lembrei-me, inclusive, do período anterior ao de hoje no Brasil, livre e democrático. Até bem pouco tempo as pessoas poderiam sofrer abusos das "autoridades" e serem presas por "vadiagem". Ou seja, tem carteira assinada? Não? Então, mermão, tá em cana por vadiagem!

ATIVIDADES DA ERA INDUSTRIAL INUTILIZAVAM O CÉREBRO

"A sociedade industrial não só fez com que, para muitos, se tornasse inútil o cérebro como também fez com que somente algumas partes do corpo fossem utilizadas. Isto era diferente da sociedade rural na qual o camponês, para usar a enxada ou a pá, assim como o pescador para pescar, além de utilizar o corpo inteiro, usava talvez um pouco mais o cérebro" p. 19

"ESTAMOS NUMA FASE DE TRANSIÇÃO. COMO SEMPRE" (Ennio Flaiano)

Apesar de haver mudanças em todas as épocas, nem todas mudam com a mesma intensidade e com a mesma velocidade.

MUDANÇA DE ÉPOCA x INOVAÇÃO

"Em determinados momentos, temos a sensação de que se trata de uma mudança de época. Porém, não é apenas um fator da História que muda, mas é todo o paradigma - com base no qual os homens vivem - que se altera. Isso, acontece quando três inovações diferentes coincidem: novas fontes energéticas, novas divisões do trabalho e novas divisões do poder. Se somente um desses fatores se alterasse, viveríamos uma inovação, mas, se todos eles mudassem simultaneamente, aconteceria um salto de época. Trata-se do mesmo conceito ao qual se refere Braudel, quando fala das ondas da História, que podem ser curtas, breves, médias ou longas" p. 23

1o PERÍODO DA HISTÓRIA HUMANA

"Quais foram, então, os momentos da História nos quais nós, seres humanos, atravessamos encruzilhadas, vimos que o mundo virava de cabeça para baixo, se tornava 'um outro' mundo?

Um primeiro longo período da história humana vai de setenta milhões a setecentos mil anos atrás. Durante este período, quem vivia não percebia nenhuma mudança, se sentia sempre igual. Trata-se da longuíssima fase na qual o homem criou a si mesmo: aprendeu a andar ereto, a falar, a educar a prole" p. 24

O ELOGIA DA IMPERFEIÇÃO

"Se refletirmos bem, estas são mudanças extraordinárias, todas elas decorrentes da compensação dos nossos defeitos. Rita Levi Montalcini explicou isso muito bem no seu livro L'elogio dell'imperfezione (O elogio da imperfeição). Tínhamos um olfato fraco, portanto não podíamos perseguir a caça farejando a terra, como fazem os animais, mas tínhamos que avistá-la: para isto devíamos caminhar de pé, já que a caça frequentemente fugia, desaparecendo na vegetação. Isto fez com que se tenham salvado somente aqueles indivíduos da nossa espécie que se tornaram mais aptos para caminhar eretos.

Como caminhar ereto implicava passar a dispor dos dois membros superiores - que já não eram mais usados para caminhar -, nós liberamos e especializamos as mãos, usando-as para compensar um outro ponto fraco: o da nossa mandíbula. Não tínhamos capacidade para agarrar a presa e esquartejá-la com os dentes e, por isso, usamos as mãos para construir utensílios e instrumentos.

Eis a outra grande novidade deste período: o homem descobre que pode fabricar objetos (...) A televisão ou o míssil não são senão o resultado posterior do hábito inovador adquirido naquele período, sem o qual nós teríamos desaparecido, pois não éramos nem os mais rápidos, nem os mais fortes, nem os mais capazes.

NÓS NÃO COMEÇAMOS DO ZERO

(...) Em resumo, naquela época aumentamos e potencializamos o cérebro, aguçamos a vista e liberamos as mãos. E educamos a prole. Aí está um outro fato extraordinário. Basta lembrar os dinossauros, cuja extinção também está associada ao fato de que, quando os ovos se abriam, a prole gerada já era autônoma e, portanto, não era educada pelos genitores. Cada dinossauro recomeçava do zero." p. 25

Um filme excelente para ilustrar essa longa trajetória do ser humano é A guerra do fogo, de 1981, dirigido por Jean-Jacques Annaud.

"E somos os únicos animais que não recomeçam sempre do início, mas que, além das características hereditárias e do saber instintivo, recebem dos adultos o saber cultural" p. 25

O capítulo segue com ideias fantásticas como o primeiro motor inventado pelo homem: o cachorro (lobos e chacais). Também fala da invenção da arma revolucionária Arco e Flecha; da invenção do ato de enterrar os mortos e da ideia de seguir a vida após a morte. E por aí vai.

É muito interessante para pensarmos um filme de nossa história humana.

William Mendes


Bibliografia:

DE MASI, Domenico. O ócio criativo. Entrevista a Marisa Serena Palieri. Editora Sextante. 4ª edição (2000).