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sábado, 26 de novembro de 2022

48. Macunaíma - Mário de Andrade



Refeição Cultural - Cem clássicos


"- Eu menti.

Todos os vizinhos ficaram com cara de André e cada um foi saindo na maciota. E André era um vizinho que andava sempre encalistrado. Maanape e Jiguê se olharam, com inveja da inteligência do mano. Maanape inda falou pra ele:

- Mas pra que você mentiu, herói?

- Não foi por querer não... quis contar o que tinha sucedido pra gente e quando reparei estava mentindo..." (Macunaíma, M. Andrade)


Osasco, 26 de novembro de 2022. Sábado ensolarado.


Terminei a releitura de Macunaíma - O herói sem nenhum caráter (1928). Li o clássico pela primeira vez em 1999, já aos 30 anos de idade. Depois reli o texto em 2009, aos 40 anos. Agora releio aos 53 anos. São muitas leituras, poderia dizer que sou trezentos, como dizia Mário de Andrade. De fato, posso dizer que o leitor de 2009 não era o leitor de 1999 e que esses leitores não foram o mesmo leitor de agora.

Me lembro que a leitura de 1999 foi feita no contexto de estudos para o vestibular da Fuvest, que faria no ano seguinte. A leitura de 2009 se deu após estudar literatura e os modernistas.

CONTEXTO DA LEITURA ATUAL

Nesta postagem não vou fazer uma análise da obra de Mário de Andrade. Não é pra isso meu registro. A leitura de Macunaíma me deixou muito incomodado... e isso é bom! Macunaíma nos incomoda até hoje!

Na leitura deste leitor que vos fala, vi o Brasil de 2022 lendo a estória de Macunaíma, o herói mau-caráter e sem nenhuma característica definida, sem ancestralidade definida ("sem nenhum caráter"). A postagem é só de estímulo, é pra dizer aos leitores que vale a pena ler este clássico. É um texto de permanência, ele permanece cutucando a gente. E isso é bom! 

O BRASIL DE MACUNAÍMAS, FABIANOS, PAULO HONÓRIOS, CUBAS, RIOBALDOS

Desde que o Brasil sofreu o último golpe de Estado em 2016 e passou a ser governado novamente pelas representações da casa-grande e da burguesia mais chinfrim* do mundo (*tranqueira eu quis dizer, porque canalha e perversa todas as burguesias são), venho tentando entender por que as coisas são como são em nosso país e a leitura e releitura de textos cânones e referenciais são necessárias para vermos com olhos mais experientes o que nos molda, o que nos acultura e o que nos engaiola. A ideologia está em tudo. A ideologia da classe dominante está em tudo.

A burguesia brasileira ficou nua após as eleições fraudadas em 2018, eleição na qual a casa-grande prendeu e condenou sem crime algum o candidato popular que venceria as eleições, Lula, e normalizou um verme fascista como alguém normal (a escolha difícil entre o professor da USP e o amante de torturador - lembram da "escolha difícil" d'O Estadão?). 

O papel da mídia empresarial somado às mentiras em escala industrial (fake news) construíram a realidade da chegada ao Planalto Central de um representante do crime organizado. E vários de nós que gostamos de história e cultura nos perguntamos desde então como isso aconteceu? Como isso foi possível? Como pode estarmos num inferno desse?

Desde então, já li e reli dezenas de livros, dezenas! E sigo buscando compreender quem somos e por que somos o que somos.

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A MENTIRA...

A citação do trecho acima, de Macunaíma, sobre a mentira e sobre mentir descaradamente, me lembrou o vaticínio de Lula ao falar para o juiz parcial da operação Lava Jato que ao mentir e se basear em mentiras, uma após a outra, ele juiz estaria condenado a seguir mentindo porque as mentiras não teriam fim e não se poderia voltar atrás com as mentiras porque uma mentira gera outra e assim vai se perdendo tudo, tudo em relação à verdade factual. 

E assim sucedeu com o Brasil e o povo brasileiro, nos perdemos num mundo de mentiras. As mentiras viraram políticas de governo, de governos da extrema-direita e de movimentos fascistas e autoritários, tudo isso com os interesses capitalistas por trás, lógico!

Temos que enfrentar e combater um maldito mundo de mentiras.

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13 LIVROS PARA COMPREENDER O BRASIL

Eu sei que a postagem é para registrar minha 3ª leitura do clássico da literatura brasileira Macunaíma... mas a introdução que fiz é uma espécie de contextualização do presente (quase metade do Brasil bolsonarista), do mundo violento e racista do Brasil de todos os séculos de sua história, do locus de referência de onde saíram clássicos com personagens como Brás Cubas, Riobaldo Tatarana, João Miramar, Paulo Honório, Fabiano, Macunaíma e tantos outros e outras figuras que representam ou tentam representar o que somos ou o que poderíamos ser. 

Todo bom livro gera em seus leitores sentimentos intensos, inquietações, reflexões, desejos, frustrações, sentimentos vários e até antagônicos. Macunaíma é um livro provocador ao extremo. O personagem e as peripécias da estória permitem leituras diversas sobre os mais variados temas da nossa gente. 

É uma ficção, é uma obra ficcional, não nos esqueçamos disso. Mas até por ser um livro de literatura é que se pode permitir todas as licenças poéticas necessárias para autor e leitores viajarem no mundo do lúdico e no mundo das ideias. E nesse sentido, Macunaíma segue sendo uma leitura importante, necessária, porque nela vemos a permanência dos temas inseridos na narrativa ficcional. 

O impulso para essa nova leitura do clássico de Mário de Andrade foi acelerado por participar do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) e estar inscrito no curso "13 livros para compreender o Brasil", com os professores Lindener Pareto e Suze Piza. Macunaíma foi uma das obras escolhidas pelos organizadores para o curso. Agradeço a escolha e a oportunidade dada a leitores como eu que já havia lido o livro em outras épocas, sendo eu outra pessoa como todos nós somos, pessoas em constante mudança enquanto o viver prossegue.

A leitura de Macunaíma neste momento de minha história e da história do Brasil foi uma leitura diferente das outras que fiz. O livro segue muito provocativo, e diria que segue sendo um livro difícil de se ler, por causa da linguagem, das metáforas, da ironia refinadíssima, das referências que nós não temos, do uso de uma linguagem fora do padrão etc. 

Vale a pena ler porque toda leitura de livros clássicos e de bons autores e autoras traz o desafio de vencer a leitura e compreendê-la e isso é um processo, um percurso necessário a todo leitor e leitora. Saímos diferentes quando terminamos a leitura das grandes obras da cultura humana. 

Enfim, está dito e registrado neste meu blog de cultura (diário de reflexões e leituras) o que gostaria de apontar neste momento. 

Caso alguém tenha curiosidade de ver anotações que fiz da leitura de 2009 com citações de frases e passagens do livro (após cursar Letras na USP), é só clicar aqui

Seguimos lendo e buscando sentidos e significando a vida.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Mário de. Macunaíma. Coleção vestibular de O Estado de São Paulo/Klick Editora. São Paulo, 1999.


terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

22022022 - Diário e reflexões (CartaCapital)



Refeição Cultural - CartaCapital 1195


ALTA-TENSÃO

Faz tempo que li a última revista CartaCapital inteira. Faz tempo! Foi no final de setembro de 2021, a edição 1173 (comentário aqui). Aliás, preciso fazer uma correção e parar de escrever "Carta Capital", já que o nome da revista é CartaCapital. Às vezes, sou meio birrento ao escrever nos meus espaços de escrita.

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MODERNISMO - As matérias destacadas na capa da revista são muito bem escritas, e nos trazem os fatos, além da opinião qualitativa do escriba, como é o caso da matéria assinada por Mino Carta na seção "Plural": "O que restou de 1922 - Semana de Arte Moderna: Mário de Andrade soube entender a necessária simbiose entre a cultura e a política". Gostei do artigo e dos relatos de Mino.

Durante a semana passada, quando se comemorou cem anos daquela "Semana de Arte Moderna" cheguei a ler nas redes sociais alguns comentários bem negativos a respeito daquele movimento e das pessoas que participaram dele. Alguns comentários esculhambavam os protagonistas do movimento. Opinião é opinião. Eu penso que o movimento foi muito importante e sou admirador de Mário de Andrade. Aliás, Macunaíma e Pauliceia Desvairada são obras fenomenais. Fenomenais!, na minha opinião.

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NEONAZISMO - Outra matéria importante da semana foi a que tratou da ascensão dos extremistas de direita, fascistas, nazistas, neonazistas et caterva no Brasil após a demonização da política do país por parte da casa-grande e seus veículos familiares de comunicação (grande imprensa, PIG, mídia empresarial e outras denominações), que apostaram no caos e na destruição para interromper os governos democráticos e populares do Partido dos Trabalhadores após a eleição de Lula em 2003. As mentiras chamadas fake news foram a pauta do PIG durante todos os anos dos governos do PT neste século.

Tirando a minha opinião no parágrafo anterior, a matéria trata do caso que chamou a atenção durante alguns dias: o do youtuber conhecido como Monark, apresentador do Flow, podcast de maior audiência do país. A matéria da seção "Seu País" à página 16 traz o tema: "O triunfo dos extremistas - Neonazismo: O discurso da 'liberdade de expressão irrestrita' apenas fortalece a atuação de gangues e dos lobos solitários".

A matéria reproduziu uma das frases ditas por Monark no programa: "Acho que o nazista tinha que ter o partido nazista, reconhecido pela lei". E um dos convidados do programa, segundo a revista, teve a seguinte postura: "Presente na bancada, o deputado Kim Kataguiri, do DEM, emendou que a Alemanha errou ao criminalizar o nazismo após o fim da Segunda Guerra Mundial.". 

"O PAVOR DE DILMA ROUSSEFF" - Pois é! Eu e todos os brasileiros vimos um deputado federal dizer no microfone do Congresso Nacional no dia 17/4/16 (sessão de votação do impeachment sem crime) que ele votava em nome do coronel Ustra, o torturador da jovem Dilma Rousseff nos anos da ditadura civil-militar... e não saiu preso, não foi processado e ali se abriram as portas do inferno para o que o Brasil se transformou.

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ELETROBRAS - Que dizer então da privatização da Eletrobras? A entrega do patrimônio nacional de centenas de bilhões de dinheiros para uns chegados da casa-grande é algo que eu não vou dizer o que penso, o que acho que se deveria fazer com essa gente.

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ARTIGOS - A edição traz artigos muito bons. Eu destaco o do Marcos Coimbra (p. 23): "Mão grande na eleição" com um destaque na entrada do texto: "Bolsonaro e sua turma vão fazer todo tipo de bandalheira para se manter no poder. Na verdade, já fazem".

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REVISTA LIDA E COMENTÁRIO FINAL

Enfim, lida a revista. Muito conteúdo! Muita informação. 

Eu registro na postagem uma impressão que mantenho faz tempo. Acho difícil acontecer o que todos nós desejamos: que tudo corra normalmente e que Lula seja eleito presidente da república em eleições normais em outubro deste ano.

Acho que há uma probabilidade importante do Lula não ser o presidente do Brasil em 2023 ou não terminar um eventual mandato caso a casa-grande e o crime organizado que tomou conta do país permitam que ele chegue ao Planalto pelas vias democráticas em outubro deste ano.

Espero estar errado. Acho que desta vez não vai rolar a conciliação que Lula e o PT gostariam de fazer com os capitalistas, como ocorreu em 2002. Os tempos são outros e a história não se repete. A democracia burguesa liberal acabou após as ferramentas tecnológicas da atualidade (redes sociais e algoritmos). Acabou e não sabemos o que pôr no lugar.

William


quinta-feira, 22 de abril de 2021

Leitura: Losango Cáqui (1926) - Mário de Andrade



Refeição Cultural

O dia está nublado, com chuviscos. Meio friozinho na Pauliceia arlequinal. É tudo que se precisa para ler Mário de Andrade. Estou com os modernistas nesses dias. Depois de três livros de Oswald de Andrade, li a Pauliceia Desvairada e agora conheci Losango Cáqui. Sigo na procura, como diz o poeta na "Advertência" contida no início da obra.

"Porém peço que este livro seja tomado como pergunta, não como solução que eu acredite siquer momentânea. A existência admirável que levo consagrei-a toda a procurar. Deus queira que não ache nunca... Porque seria então o descanso em vida, parar mais detestável que a morte. Minhas obras todas na significação verdadeira delas eu as mostro nem mesmo como soluções possíveis e transitórias. São Procuras. Consagram e perpetuam esta inquietação gostosa de procurar. Eis o que é, o que imagino será toda a minha obra: uma curiosidade em via de satisfação." (ANDRADE, 1976, p. 81)

O livro de Mário de Andrade é bem curioso. Achei interessante.

Eu não tive a capacidade de aprender toda aquela física quântica das nominações impronunciáveis que inventaram para os fenômenos da gramática e da linguagem poética. Male male fui aprender a ler poesia depois dos trinta anos de idade. Sigo assim nas últimas duas décadas, um curioso lendo poesia, conhecendo um pouco os poetas mais aclamados, e tendo claro que não sou um entendido em poesia. Sou um ignorante, mas um ignorante consciente e que busca preencher suas lacunas culturais.

Deixo na postagem um dos poemas que mais gostei de Losango Cáqui:


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XXIV

A ESCRIVANINHA

Meu pai com seu nariz judeu...
Eu vivia quási sem ruído.
Dúmas Terrail Zóla escondidos,
Si ele souber... Meu pai? Meu Deus?

Duas pessoas num só terror.
Meus quatorze anos sorrateiros:
Leituras pobres, vícios feios,
Quanto passado sem valor!

Eu não vivi no meu país.
Zóla Terrail Dúmas franceses...
Que gramáticas portuguesas
Pro miserável de Paris!

Depois a Vida me ensinou
A vida. Meu pai morreu. Quando
Órfão me vi, chora-chorando,
Minha miséria se acabou.

Anjo-da-Guarda, Solidão!
Zóla voltou pra escrivaninha
De meu pai. Que grandeza estranha
Pôs esse gesto em minha mão?...
        Não sei.

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Vamos lendo enquanto vivos. As lacunas culturais são cada dia maiores... você lê uma coisa e aparecem as referências que são lacunas a se preencherem em nossas vidas de curiosos, de leitores. Ainda não li um livro sequer de Émile Zola... É f...

Leiam, leiam, raros amig@s leitores. Leiam!

William


Bibliografia:

ANDRADE, Mário de. Poesias Completas. Círculo do Livro S.A. São Paulo, 1976.


terça-feira, 20 de abril de 2021

Livro: Pauliceia Desvairada - Mário de Andrade



Refeição Cultural - Cem clássicos

"A gramática apareceu depois de organizadas as línguas. Acontece que meu inconsciente não sabe da existência de gramáticas, nem de línguas organizadas. E como Dom Lirismo é contrabandista..." ("Prefácio interessantíssimo", Pauliceia Desvairada, 1922)


Estou nuns dias de desconstrução, e quem sabe reconstrução de algo, talvez até de descobertas de sentidos, sabendo que não há sentido nas coisas. A coisa até parece o Modernismo e seus participantes centrais, Oswald de Andrade e Mário de Andrade (além, é claro, de meu predileto, o 3º Andrade, o Drummond).

Interrompi a leitura de Moby Dick por uns dias, para ler uns livros intercalados. Estou bem na leitura do clássico de Melville. Faltam pouco mais de cem páginas para acabar o livrão. 

Nesses dias de desconstrução, li primeiro o Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade. Depois li o livro de poesia Pau-Brasil, dele também. Para finalizar as obras centrais de O. A. que tenho, li o Serafim Ponte Grande. Livros fundantes do Modernismo brasileiro. Já havia lido essas obras duas décadas atrás, quando entrei na USP.

Aí fui pegar para ler os textos críticos de Haroldo de Campos, contidos nos livros do Oswald de Andrade. O texto crítico de Campos contido no João Miramar li no dia da releitura da obra. Faltavam mais dois textos críticos e o contido na edição de Pau-Brasil é enorme, mais de 50 páginas. Enfim, peguei pra ler as críticas. São muito boas!

Ao começar a leitura de Haroldo de Campos falando sobre a poesia Pau-Brasil e Oswald de Andrade, não teve jeito de ficar só nisso. Mário de Andrade era tão citado, juntamente com sua Pauliceia, que tive que parar o texto crítico e reler a Pauliceia Desvairada (1922). Mário de Andrade foi outro modernista que conheci ao estudar nas Letras da USP.

Foi assim minha manhã desta terça-feira, 20 de abril. A cada dia, menos vontade de ligar o celular eu tenho. Estamos vivendo um período de guerra, destruição do mundo, mortes nos campos de batalha, perdas de pessoas conhecidas, depressões. Explico: pandemia de Covid-19 no Brasil do regime fascista e genocida de um psicopata apoiado pela casa-grande, que acabou com a parca democracia que tínhamos ao dar um golpe de Estado em 2016. Tem horas que não queremos mais saber do mundo.

Enfim, voltando à Pauliceia Desvairada, a leitura de Mário de Andrade foi muito impactante quando a li pela primeira vez na Letras. Naquela época, eu fiz Modernismo com o professor Wisnik: foi legal demais! 

Fizemos uma greve na faculdade em 2002, a maior greve da história da FFLCH, e eu cheguei a declamar "Ode ao burguês" nas escadarias do prédio da Gazeta na Avenida Paulista. Eu declamava cada verso e um monte de gente repetia em seguida... foi "arlequinal!".

Na sala de aula, o professor fazia leituras em voz alta conosco, gritando poemas da Pauliceia. Era uma loucura! Inesquecível!

É isso. Anotado mais um clássico que tive o privilégio de conhecer nesta vida.

William


Bibliografia:

ANDRADE, Mário de. Poesias completas. Círculo do Livro S.A. São Paulo, 1976


domingo, 25 de dezembro de 2016

Leitura: O peru de Natal - Mário de Andrade


Apresentação do blog


Neste Natal, li em voz alta o conto de Mário de Andrade, O peru de Natal. Ele faz parte dos Contos Novos, publicado em 1947, após sua morte em 1945.

O conto é muito bom. A construção das frases é muito rica. Os críticos literários afirmam que os textos reunidos neste livro de contos de Andrade são muito requintados.

Há um embate entre o mundo patriarcal tradicional e o desejo de libertação das gerações que queriam a modernidade também nos usos e costumes.

Boa leitura!

William Mendes



O PERU DE NATAL - MÁRIO DE ANDRADE

O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a ideia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.

Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a ideia de fazer uma das minhas chamadas "loucuras". Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de "louco". "É doido, coitado!" falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.

Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras":

— Bom, no Natal, quero comer peru.

Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.

— Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania... Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo...

— Meu filho, não fale assim...

— Pois falo, pronto!

E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.

Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus "gostos", já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a... culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:

— É louco mesmo!...

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado: assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.

— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!

Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só-pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus... Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.

— Eu que sirvo!

"É louco, mesmo" pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo de um pedaço admirável da "casca", cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:

— Se lembre de seus manos, Juca!

Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.

— Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!

Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos...Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.

Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.

Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

— Só falta seu pai...

Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:

— É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente... (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.

E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que "vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai", um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.

Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever «felicidade gustativa», mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.

Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!

A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor... Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de "bem-casados". Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.

Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!...

Fim.



quinta-feira, 28 de abril de 2016

Diário - 280416


E essas flores? Após ver o programa
que abordou a vida e obra do escritor
Luis Sepúlveda, ficou em mim a questão
do exílio e lembrei dessas flores de
minha Osasco querida!

Estamos em Maceió, Alagoas. Final de noite.

Estou em um quarto de hotel após um dia de trabalho muito positivo em busca do fortalecimento de nossa Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, onde sou gestor eleito pelos bancários. Estivemos minha equipe da Cassi Alagoas e eu em reunião com as lideranças do Banco aqui no Estado e com as lideranças do Sindicato. Fizemos diversos acordos de parcerias para fortalecer o modelo assistencial e a própria Cassi. Fiquei feliz pela reunião.

Quem disse que eu pude descansar ao chegar ao hotel? Minha natureza me impulsionou a sentar no computador e trabalhar. Fiz liberações de documentos, algumas leituras obrigatórias e escrevi, escrevi e escrevi.

Para distrair um pouco, liguei a TV (calma, pessoal, não foi no P.I.G. e lixos golpistas do gênero). Coloquei em um canal de cultura e vi três programas.

Foi encantador ver um programa sobre Mário de Andrade e a maravilhosa obra Macunaíma, obra que sou apaixonado.

Depois vi e me emocionei com um programa falando do escritor Luis Sepúlveda. Minha nossa! Como pode minha ignorância? Eu não o conhecia e fiquei louco para comprar suas obras e ler tanto elas quanto ler a respeito da vida do homem que esteve com Allende até o último instante naquele 11 de setembro fatídico. Ele próprio no programa falou muito sobre o tema Exílio. Lembrei de uma matéria que fiz na USP sobre exílio e literatura.

Mas hoje não posso nada a respeito de leituras e literaturas... sou todo Cassi.

Enfim, vamos dormir. Mas ao menos escrevi muito hoje.

William Mendes

domingo, 8 de novembro de 2015

Reflexões sobre a vida e nosso papel social





Refeição Cultural

Domingo. Acabou o final de semana. Entrei no casulo sábado para um respiro, mas já acabou. Vamos iniciar mais uma semana num mundo esquisito, duro, indefinido ao extremo, a considerar que o ser humano se organizou em sociedade para conquistar um pouco de segurança e estabilidade. Hoje, no entanto, o sistema capitalista organizou o mundo e as pessoas que nele habitam para o curto prazo.

Não há mais estabilidade em nada. Assim como a própria existência, frágil e à mercê de um instante final, nossas organizações sociais estão todas por um triz.

Como achar sentido na nossa existência tão curta e fugaz, no instante em que passamos por aqui?

Eu me pergunto isso e vivo buscando sentido para as coisas desde muito jovem. Já vivi algumas parcas décadas neste mundo, onde o tempo é infinitamente grande e longo se comparado ao instante que é uma simples vida humana.

Buscando sentidos e observando o mundo em que vivo, neste fim de semana li um pouco de Franz Kafka, O processo, e li um pouco de Mário de Andrade, Macunaíma. Corri e caminhei, pois sei de minha obrigação em ser resistente, como soldados em campos de batalha. Reli textos meus para rever o que já escrevi e o que pensei a respeito de coisas do mundo.

Eu tenho convicção absoluta sobre a importância da leitura de materiais mais densos como livros clássicos e obras que abordem com maior profundidade o conhecimento humano acumulado em milhares de anos. A leitura de obras densas gera a capacidade nos leitores de criarem referências para as coisas do cotidiano da vida - para as decisões a se tomar, porque você pode buscar no conhecimento adquirido com as obras clássicas uma referência sobre o que fazer e as consequências que sua decisão podem gerar.

Quando vejo do que se alimentam meus pares humanos na atualidade, através das redes sociais e ferramentas comunicacionais, produtos de poucas linhas, com imagem e som, as pautas e materiais disponibilizados, os novos "livros" editados, os vídeos, os temas, enfim as coisas que formam ou organizam o pensamento dos humanos situados no mundo em que estamos, fico pensando no que fazer, no meu papel, em como lidar com as pessoas ao meu redor. 

Fico pensando em como trabalhar e representar as pessoas deste mundo novo das coisas curtas, com valores outros em relação ao que eu defendo e luto por implantar no mundo para uma vida melhor das pessoas e do próprio planeta que habitamos.

Eu sinceramente tenho dúvidas do efeito prático da minha forma de agir. Mas eu acredito que tenho que manter minha postura, minha forma de agir, mesmo sendo infinitamente minoria no que penso e defendo. No fundo, desde muito jovem, sempre senti a necessidade de não ser parte das hegemonias ao meu redor.

Acho que isso tem um pouco a ver com ser um militante de esquerda, militar por justiça social, lutar contra injustiças sociais, não ter os valores de sua vida baseados no ter... mas sim em ser algo que valha a pena.

Vou acordar nesta segunda-feira e trabalhar com firmeza pela tarefa que me designaram ao me elegerem para gerir uma entidade de saúde de trabalhadores, em nome deles. 

Vou manter minha postura de não concordar com injustiças e coisas erradas. E vou manter minha franqueza em dizer o que penso e o que defendo, para as batalhas que eu for escolher para enfrentar, porque aprendi com a vida que não posso enfrentar todas as coisas erradas do mundo, mas que devo escolher as batalhas para as quais vou me dedicar.

William Mendes
Uma simples vida humana
(mas importante como todas as vidas humanas)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Ode ao burguês - Mário de Andrade


Mário de Andrade. Pintura de Lasar Segall.

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques
        [zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
"–Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
–Um colar... –Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!...

De: Paulicéia desvairada (1922)

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A poesia em 1930, de Mário de Andrade


Mário de Andrade, pintura de Lasar Segall.

Mário destaca a aparição em 1930 de 4 livros de "poetas feitos", segundo ele, "quatro livros de poetas na força do homem", destacando que já não são moços e sim poetas. Drummond - Alguma poesia. Manuel Bandeira - Libertinagem, Augusto Schmidt - Pássaro Cego e Murilo Mendes - Poemas.

(aqui focarei Manuel Bandeira)



POESIA CONTEMPORÂNEA: O RITMO


"A poesia brasileira muito que tem sofrido destas inconveniências (da aurora), principalmente a contemporânea, em que a licença de não metrificar botou muita gente imaginando que ninguém carece de ter ritmo mais e basta ajuntar frases fantasiosamente enfileiradas pra fazer verso-livre".


Desprovido o poema de metro e rima, fica o... talento. (Mário de Andrade)



Mário faz duras críticas aos que põem em livros poesias juvenis e pueris: "escrevam se quiserem, mas não se envolumem".



FIM DA IMPERSONALIZAÇÃO DAS MÉTRICAS TRADICIONAIS


"Verso livre é justamente aquisição de ritmos pessoais. Está claro que se saímos da impersonalização das métricas tradicionais, não é pra substituir um encanto socializador por um vácuo individual. O verso livre é uma vitória do individualismo... Beneficiemos ao menos dessa vitória".



COMENTÁRIO DO BLOG: Este é um individualismo positivo, pois que trata do subjetivismo do ser humano.



Libertinagem, é um livro de cristalização de Manuel Bandeira, da sua psicologia e não da sua poesia, já madura. Cristaliza seu ideal estético: Mário diz "libertação pessoal".



POÉTICA


"Estou farto de lirismo comedido
Do lirismo bem comportado...
(...)
Não quero mais saber do lirismo que não é libertação."

A aula de teoria literária de Mário de Andrade é tão complexa que fica difícil escolher trechos para destacar.



BANDEIRA E POESIA: AMANTES BEM CASADOS


"Bandeira lembra esses amantes bem casados que, depois de tanta convivência, acabam se parecendo fisicamente um com o outro. Assim a rítmica dele acabou se parecendo com o físico de Manuel Bandeira. Raro uma doçura franca de movimento. Ritmo todo de ângulos, incisivo, em versos espetados, entradas bruscas, sentimento em lascas, gestos quebrados, nenhuma ondulação. A famosa cadência oratória da frase desapareceu. Nesse sentido, Manuel Bandeira é o poeta mais civilizado do Brasil: não só pelo abandono total do enfeite gostoso, como por ser o mais... tipográfico de quantos, bons, possuímos. Quero dizer: se a gente contar na Poesia a maneira dela se realizar, desde o grito inicial à poesia cantada, à manuscrita que se decora, à recitada com acompanhamento, à declamada, à poesia, enfim concebida exclusivamente pra leitura de olhos mudos: Manuel Bandeira é dentre os poetas vivos nossos o que prescinde mais do som. A poesia dele, na infinita maioria atual, é poesia pra leitura...".


No poema O Cacto, o último verso diz bem o ritmo de então de Manuel Bandeira:


"Era belo, áspero, intratável."



DUALISMO CURIOSO: ESSÊNCIA "INTRATÁVEL" x O LÍRICO


"Aliás se dá mesmo uma luta permanente entre essa essência 'intratável' do indivíduo Manuel Bandeira e o lírico que tem nele. Vem disso o dualismo curioso que a gente percebe nas obras dele, passando de jogos com valor absolutamente pessoal, duma detalhação por vezes pueril (no sentido etimológico da palavra), difícil de compreender ou de sentir com intensidade pra quem não privou com o homem, a concepções profundas, duma beleza extremada e interesse geral. Interesse em que não entra mais o conhecimento pessoal do poeta, ou coincidência psicológica com ele. As melhores obras do poeta, Andorinha, O Anjo da Guarda, A Virgem Maria, Evocação do Recife, Teresa, Noturno da Rua da Lapa, pra citar apenas o Libertinagem, são as poesias em que por mais pessoais que sejam assuntos e detalhes, mais o poeta se despersonaliza, mais é toda a gente e menos é caracteristicamente ritmado. A própria Evocação do Recife que atinge o recesso da família chamada nominalmente (Totônio Rodrigues, dona Aninha Viegas), é bem a maneira por que toda a gente ama o lugarinho natal...".


(SEGUE O ESTUDO...)



Bibliografia:


ANDRADE, Mário de. Aspectos da literatura brasileira. Livraria Martins Editora S.A., São Paulo, 1974, 5ª. edição.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Aula - O Modernismo Brasileiro (aulas de 2002)




Refeição Cultural

Aulas do professor José Miguel Wisnik

(a responsabilidade pela interpretação do conteúdo é minha)


Podemos dizer que houve um pré-modernismo brasileiro com o Regionalismo.

Por outro lado, não houve propriamente um movimento pós-modernista brasileiro como o Surrealismo, o Dadaísmo e o Futurismo.

Com os modernistas foram criados movimentos próprios, politizados.

Havia dois grupos nas décadas de 20 e 30, que surgiram depois da Semana de Arte Moderna, que representavam, mais ou menos, as ideias da esquerda e as da direita. Grupo da Anta, desta, e Movimento Antropofágico, daquela.

É importante salientar que o Modernismo Brasileiro não se assentou sobre um só tipo de arte. Assim como no Romantismo, houve impacto sobre todas as artes.

Com a exposição de Anita Malfati, em 1917, surge a presença feminina no mundo da arte.

Depois veio a Semana de Arte Moderna, em 1922, no Teatro Municipal de São Paulo. Foi um movimento que só não deu muito resultado (imediato) no Teatro. Flávio de Carvalho fez duas tentativas, mas ambas não surtiram muito efeito. Três décadas depois, viria a encenação de "O rei da vela", de Oswald de Andrade em 1967.

Havia dois tipos de "enredos" para o Brasil. Um, antes do Modernismo, outro, após. O primeiro ainda era o das instituições portuguesas (a continuação da Casa de Bragança), o outro, depois do Modernismo, que era o País das desgraças sociais - País subdesenvolvido. Vemos isso nas obras literárias.

Um bom exemplo disso, que se repete em diversas obras da época sobre o latifúndio e o coronelismo, é o livro "Vidas Secas" de Graciliano Ramos, que personifica em Fabiano e sua família de retirantes as mazelas do sertanejo e demais povos do Brasil.

Após o Modernismo, o Brasil e os brasileiros passam a ter uma visão mais nacionalista e de nação. Começa-se então a haver trocas culturais, justamente pela literatura. Autores regionalistas nos fazem conhecer o Brasil de norte a sul. Criou-se o conceito de Patrimônio Histórico Cultural. Antes, isso era coisa de europeu.

O curso do semestre em questão vai analisar a prosa e a poesia modernista.

Obras:

Macunaíma - Mário de Andrade
Paulicéia Desvairada - Mário de Andrade
Libertinagem - Manuel Bandeira
Alguma Poesia - Carlos Drummond de Andrade
Pau Brasil - Oswald de Andrade

Na medida do possível, haverá intertextualidades com diversos textos e obras.

Origem do nosso "povo melancólico" (conceito que vigorou até o início do século XX):

- O negro = ex-escravizados
- O índio = exilado em seu País
- O português = expatriado

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sábado, 13 de junho de 2009

Leitura: Libertinagem - Manuel Bandeira, de 1930



Refeição Cultural

Reli hoje o livro de poemas Libertinagem, de Bandeira. Eu o releio vez por outra porque ele é muito bom e é um livro de cabeceira, em se tratando de poesia.

Lembro-me que até entrar na USP, no ano de 2001, eu não lia poesia. Eu não tinha a mínima compreensão a respeito da arte da poesia e achava que perderia tempo com aquilo.

Estou nas leituras modernistas neste feriado. Estou terminando de reler Macunaíma, de Mário de Andrade, escritor-chave da semana de arte moderna de São Paulo.

Dos poemas que mais gosto no livro, posso destacar:


CAMELÔS

Abençoado seja o camelô dos brinquedos de tostão:
O que vende balõezinhos de cor
O macaquinho que trepa no coqueiro
O cachorrinho que bate com o rabo
Os homenzinhos que jogam boxe
A perereca verde que de repente dá um pulo 
           [que engraçado
E as canetinhas-tinteiro que jamais escreverão 
           [coisa alguma.

Alegria das calçadas
Uns falam pelos cotovelos:
- "O cavalheiro chega em casa e diz: Meu filho, vai 
           [buscar um pedaço de banana pra eu acender o 
           [charuto. Naturalmente o menino pensará: 
           [Papai está malu..."

Outros, coitados, têm a língua atada.

Todos porém sabem mexer nos cordéis com o tino 
            [ingênuo de dimiurgos de inutilidades.
E ensinam no tumulto das ruas os mitos heróicos 
            [da meninice...
E dão aos homens que passam preocupados 
            [ou tristes uma lição de infância.


Comentário: décadas depois a imagem do poema é a mesma de hoje!

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O CACTO

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados 
            [da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco Nordeste, 
            [carnaubais, caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra 
            [de feracidades excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante 
            [vinte e quatro horas privou a cidade 
            [de iluminação e energia:

- Era belo, áspero, intratável.

(Petrópolis, 1925)


Comentário: esse seria o Bandeira da época em uma autoimagem? Belo, áspero, intratável!

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E agora, o maravilhoso poema Poética!


POÉTICA

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto 
          [expediente protocolo e manifestações 
          [de apreço ao Sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar 
          [no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja 
            [fora de si mesmo

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário 
            [do amante exemplar com cem modelos 
            [de cartas e as diferentes maneiras de agradar 
            [às mulheres, etc

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

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E agora, vamos ao apaixonante Evocação do Recife!!!

EVOCAÇÃO DO RECIFE

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritssatd dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois - 
           Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância

A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado 
     [e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê 
     [na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada 
     [com cadeiras, mexericos, namoros, risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:

              Coelho sai!
              Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:

              Roseira dá-me uma rosa
              Craveiro dá-me um botão
              (Dessas rosas muita rosa
              Terá morrido em botão...)

De repente
                    nos longos da noite
                                                      um sino

Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era São José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia 
       [ir ver o fogo

Rua da União...
Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de Dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
                            ...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
                            ...onde se ia pescar escondido

Capiberibe
- Capibaribe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
                          Foi o meu primeiro alumbramento

Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços 
       [redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro os caboclos 
       [destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
                      Cavalhadas

E eu me deitei no colo da menina e ela começou 
        [a passar a mão nos meus cabelos

Capiberibe
- Capibaribe

Rua da União onde todas as tardes passava 
        [a preta das bananas com o xale vistoso 
        [de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
                     que se chamava midubim e não era 
                     [torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
                       Ovos frescos e baratos
                       Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
                      Ao passo que nós
                      O que fazemos
                      É macaquear
                      A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu 
      [não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam

Recife...
               Rua da União...
                                          A casa de meu avô...

Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade

Recife...
                    Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro 
       [como a casa de meu avô.

Rio, 1925

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(Esse poema pode ser a minha oração)

ORAÇÃO NO SACO DE MANGARATIBA

Nossa Senhora me dê paciência
Para estes mares para esta vida!
Me dê paciência para que eu não caia
Pra que eu não pare nesta existência
Tão mal cumprida tão mais comprida
Do que a restinga de Marambaia!...

1926

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(Esse abaixo ofereço ao meu amigo Sérgio Gouveia, de Prudente)

ANDORINHA

Andorinha lá fora está dizendo:
- "Passei o dia à toa, à toa!"

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...

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(Este poema Profundamente é de uma profundidade...)

PROFUNDAMENTE

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente

*

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

- Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

---

O ÚLTIMO POEMA

Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples 
      [e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem 
      [os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

---

É um livro fabuloso. Quanto mais leio, mais sinto prazer em relê-lo. Sempre há um poema que serve para um tema atual. É completamente atemporal!

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Leitura: Macunaíma - Mário de Andrade, de 1928



Refeição Cultural

Junho/2009

Macunaíma, o herói sem nenhum caráter


Assisti a um programa dias atrás que me deu vontade de passear pela obra de Mário de Andrade. Já li Macunaíma (em 1999) e o livro de poesia Paulicéia Desvairada (em 2001).


Agora pela manhã, peguei pra reler Macunaíma e posso dizer: - Cara, o livro é fantástico! É ímpar!

Nosso herói sem caráter (e põe mau-caratismo nisso!), vem lá do Mucambo dos Tapanhumas, filho da índia tapanhumas, povo preto retinto.

Como sempre, o que mais gosto em certas obras clássicas é o acúmulo de referências sobre crendices populares, ditos e frases, mitos e lendas.

Aliás, Mário de Andrade pensou mesmo em reunir todo o Brasil nesta rapsódia brasileira.

"Espinho que pinica, de pequeno já traz ponta." p.13

"Sofará aguentou a sova sem falar um isto!" p.14 (essa sempre ouvi minhas tias e avós falando: e a referência não é nada legal - violência)

Em 1928, Mário já falava do nosso bem conhecido açaí (na moda hoje em dia): "todas as manhãs passava coquinho de açaí nos beiços que ficavam totalmente roxos (Iriqui)." p.17

"no capoeirão chamado Cafundó do Judas." p.19 (essa já é da minha época)

Como Macunaíma fazia malandragem de gente grande ainda menino, a cotia pegou na gameleira e jogou caldo de aipim envenenado nele. Pegou no corpo inteiro, menos na cabeça. Ficou então com corpo de homem e cabeça "com carinha enjoativa de piá." p.21

"-Mãe, sonhei que caiu meu dente.
-Isso é morte de parente..." p.21 (eita! que essa é famosa!)

Deu uma "sapituca". Cara, meu tio Léo fala isso o tempo todo! "quando o herói voltou da sapituca (desmaio)." p.22

"O pecurrucho tinha cabeça chata e Macunaíma inda a achatava mais batendo nela todos os dias e falando pro guri:
-Meu filho, cresce depressa pra você ir pra São Paulo ganhar muito dinheiro." p.28

"Macunaíma foi visitar o túmulo do filho viu que nascera do corpo uma plantinha 
(...) Foi o guaraná. Com as frutinhas piladas dessa planta é que a gente cura muita doença e se refresca durante os calorões de Vei, a Sol." p.29

"-Que é isso!
-Chouriço!
" p.32

Macunaíma rezava pro Negrinho do Pastoreio diariamente. p.36

"Lá em São Paulo, a cidade macota lambida pelo igarapé Tietê." p.37

Cresci ouvindo esta da verruga no dedo se apontar pras estrelas: "matutava matutava roendo os dedos agora cobertos de berrugas de tanto apontarem Ci estrela." p.39

NO MATO, A NATUREZA; NA CIDADE, AS MÁQUINAS.

"Eram máquinas e tudo na cidade era só máquina!" p.42

"A Máquina era que matava os homens porém os homens é que mandavam na Máquina..." p.43

"Os homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram homens." p.43

Os irmãos tapanhumas inventaram as 3 pragas brasileiras: o bicho-do-café, a lagarta-rosada e o futebol. (quer saber como? leia o livro: p. 49-50)

Macunaíma estava cheio de bosta de urubu e a estrela disse pra ele: "-Vá tomar banho! ela fez. E foi-se embora. Assim nasceu a expressão 'Vá tomar banho!' que os brasileiros empregam se referindo a certos imigrantes europeus." p.65

"-POUCA SAÚDE E MUITA SAÚVA, OS MALES DO BRASIL SÃO!" p.68

O capítulo IX. "Carta pras icamiabas" é muito especial. Macunaíma descreve para as amazonas o que é a terra São Paulo e os paulistanos. É hilária e muito divertida. Tem que se ler inteiro pra sentir o prazer da leitura. Além disso, é um momento de linguagem escrita, o inverso à da obra, toda de representação da linguagem oral brasileira.

“Macunaíma aproveitava a espera se aperfeiçoando nas duas línguas da terra, o brasileiro falado e o português escrito.” p.83

Aqui, a referência tem tudo a ver com o que defende Marcos Bagno no livro A língua de Eulália, de 1997. O livro desmitifica a ideia errônea de língua única no Brasil e diz haver diversas variedades da língua portuguesa no País, além de dezenas de línguas indígenas, todas brasileiras também.

Depois de pensamentar pensamentar.” p.84

Quem brinca com fogo mija na cama: “Foram pra casa botar pelego por debaixo do lençol porque por terem brincado com fogo aquela noite, na certa que iam mijar na cama.” p.88

As adivinhas:

O que é que é: É comprido roliço e perfurado, entra duro e sai mole, satisfaz o gosto da gente e não é palavra indecente?
- Ah? Isso é indecência sim!
- Bobo! É macarrão!
- Ahn... é mesmo! Engraçado, não?
- Agora o que é que é: Qual o lugar onde as mulheres têm cabelo mais crespinho?
- Oh, que bom! Isso eu sei! É aí!
- Cachorro! É na África, sabe!
- Me mostra, por favor!
- Agora é a última vez. Diga o que é que é:
Mano, vamos fazer
Aquilo que Deus consente:
Ajuntar pêlo com pêlo
Deixar o pelado dentro.
E Macunaíma:
- Ara! Também isso quem não sabe! Mas cá pra nós que ninguém nos ouça, você é bem senvergonha, dona!
- Descobriu. Não é dormir ajuntando os pêlos das pestanas e deixando o olho pelado dentro que você está imaginando?
” p.99

Depois de Macunaíma viajar por toda a geografia do Brasil no capítulo XI, a velha Ceiuci dá três conselhos ao tuiuti que valem ouro:

Neste mundo tem três barras que são a perdição dos homens: barra de rio, barra de ouro e barra de saia, não caia!” p.102

Arranjava um decumê por aí...” p.109

Não me olhe de banda que não sou quitanda, não me olhe de lado que não sou melado!” p.110

De-tarde
De-noite
De-manhã

Carrapato já foi gente que nem nós: é que vendeu fiado e depois quebrou e agora se agarra cobrando as contas. p.121

No capítulo XIV "Muiraquitã", Macunaíma descreve a origem do automóvel: rixa entre onça parda e tigre, e na fuga da onça ela vai virando automóvel.

- Era uma vez uma vaca amarela, quem falar primeiro come a bosta dela!” p.133

O GRANDE AMOR DE MACUNAÍMA

Então pensou muito sério na dona da muiraquitã, na briguenta, na diaba gostosa que batera tanto nele, Ci, Ah! Ci, Mãe do Mato, marvada que tornara-se inesquecível porque fizera ele dormir na rede tecida com os cabelos dela!...” p.133

Oi que Sol de inverno chuva de verão choro de mulher palavra de ladrão, eieiei... ninguém não caia não!” p.140

PAPAGAIO COME E PERIQUITO LEVA FAMA!

Então todos os papagaios foram comer milho na terra dos ingleses. Porém primeiro viraram periquitos porque assim, comiam e os periquitos levavam a fama” p.151

A aventura de nosso herói termina quando ele se enche desta terra e decide ir pro céu. Hoje ele é a Constelação Ursa Maior (não é o saci, não!, que ainda tá por aí). Quem contou a história de nosso herói foi um papagaio - aruaí - que sobrou lá nas terras dos índios tapanhumas, no beira-rio do Uraricoera.

COMO DIZ Manuel Bandeira: "Tão Brasil!"

William