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quarta-feira, 14 de julho de 2021

Por uma sociedade socialista



Refeição Cultural

A leitura de um pequeno livro sobre a vida e a obra do professor Florestan Fernandes reforçou minhas reflexões sobre a necessidade de lutar pelo fim do sistema capitalista e pela construção de uma sociedade socialista.

A humanidade e as demais formas de vida do planeta Terra correm sério risco de desaparecerem por causa da forma como a natureza vem sendo utilizada pela atual sociedade humana e o capitalismo está diretamente relacionado com a destruição das formas de vida em nosso único lugar de existência.

A espécie humana se desenvolveu de forma extraordinária ao longo do tempo de sua existência. Diferente das demais formas de vida, o homo sapiens criou o mundo que nós conhecemos hoje através da inteligência e da tecnologia. Nosso cérebro se desenvolveu e passou a criar abstrações, imaginou coisas e as criou. Assim sobrevivemos aos desafios da natureza e chegamos até aqui.

Nos últimos 250 anos, em linhas gerais, uma forma de produção de bens passou a dominar as diversas sociedades humanas espalhadas pelo planeta Terra, o modo de produção capitalista e tudo o que isso significa.

Nesse curto espaço de tempo, se considerarmos que nossa espécie já habita a Terra há alguns milhares de anos, nós exaurimos perigosamente o planeta.

A vida é uma oportunidade única para todas as espécies existentes, inclusive para a espécie humana. O conhecimento que produzimos nessa longa caminhada dos seres humanos nos permite estabelecer padrões de vida muito bons para toda a humanidade. Temos inteligência e tecnologia para atravessarmos os próximos séculos se tivermos responsabilidade.

A base do sistema capitalista é inviável à vida. 

Precisamos nos unir para lutar pela vida da espécie humana e pela diversidade de modos de vida na Terra, de forma que possamos ter um futuro. 

Durante décadas atuei nos movimentos organizados da classe trabalhadora. Os movimentos populares são bons espaços para reflexão sobre essa questão que estou trazendo: lutar pelo fim do capitalismo.

Tenho uma impressão que a questão de lutar pelo socialismo e pelo fim do capitalismo saiu das pautas prioritárias dos movimentos organizados. Quando se fala do tema é como se estivéssemos falando de algo absolutamente fora do horizonte, fora das metas pessoais e coletivas das pessoas, dos humanos.

Precisamos retomar a luta pelo socialismo, pelo cooperativismo, pelo associativismo, pela solidariedade, pela vida. O capitalismo é o oposto a tudo isso.

O socialismo deve fazer parte de nossos sonhos, de nossos esforços diários, de nossas metas.

Como indivíduos, somos um instante de vida, mas se pertencermos a uma coletividade com objetivos comuns seremos mais que indivíduos, nossos entes queridos não estarão sós e sem um braço amigo em nossa ausência.

Temos que lutar por uma sociedade socialista.

William

Florestan Fernandes - Vida e obra



Refeição Cultural

"A Constituição instituiu um 'estado de direito', com liberdades políticas, garantias individuais e direitos sociais que só têm vigência se não afetam uma concepção obstinadamente reacionária da ordem legal e da iniciativa privada. O que consagra uma dualidade constitucional: há uma Constituição escrita, que exprime a 'vontade da Nação', mas converte-se em biombo para esconder o arbítrio e a violência; há uma Constituição consuetudinária, produzida pelo ânimo bélico das classes possuidoras e de suas elites dirigentes, consagrada pelo governo e por suas forças de repressão policial-militar e, frequentemente, judiciária. Essa dualidade constitucional é um desafio e um freio para a ação política dos trabalhadores livres e semilivres, os segmentos radicais da pequena burguesia e das classes médias. É preciso exterminá-la, porque ela institui a violência a partir de cima, a 'legitimidade' de um código não escrito que anula o texto constitucional, servindo somente para demonstrar o quanto a "Nova República" é sucessora hipócrita da ditadura militar e como se renova o despotismo da grande burguesia." (Florestan sobre a Constituinte e a Constituição, p. 162. Citação da Revista Teoria e Debate, nº 8, São Paulo, out/nov/dez de 1989)


Entre ontem e hoje, li o livro Florestan Fernandes - Vida e obra (2004), de Laurez Cerqueira. Anos atrás, havia lido quase a metade do livro e, como fazia sempre, não havia terminado. Agora li de uma vez.

A história de vida e militância do professor Florestan Fernandes é de nos fazer chorar. Aliás, por três vezes, chorei ao ler passagens do livro. 

Tenho muito orgulho de ter sido aluno da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH). Florestan foi professor de Sociologia I na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, até ser expulso (aposentado compulsoriamente com rendimentos proporcionais) em 1969 pelo Ato Institucional nº 5 da ditadura civil-militar.

A minha impressão é que Florestan é um excluído da intelectualidade brasileira comemorada pela burguesia. Ouve-se muito mais sobre Caio Prado Jr., Sérgio Buarque, Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre etc. Ele é um socialista, um defensor do socialismo e esse deve ser o motivo pelo qual a burguesia comemore outros pensadores e não ele.

Os capítulos do livro nos dão uma boa noção sobre a vida de nosso querido pensador socialista. Vejam abaixo o sumário do livro:

1 - De "Vicente" a Florestan

2 - Construir a sociologia científica e interpretar o Brasil

3 - 1964: Um golpe no sonho, um corte na produção intelectual acadêmica

4 - O cientista militante e a esperança no socialismo

5 - O professor Florestan Fernandes no Congresso Constituinte

6 - Compromisso e coerência

Foram capítulos de muita emoção na leitura. A infância pobre, com mãe solteira, trabalhando desde muito menino pelas ruas de São Paulo. O garoto franzino que se defendeu de marmanjos muito maiores nas ruas. A falta de condições de estudar até mesmo a educação básica.

Depois o adolescente e adulto que lia até 15 horas por dia para recuperar o tempo perdido com a falta de condições de estudar por questões de sobrevivência. Depois a vida de intelectual, professor e militante das causas sociais.

Ao ler sobre seu período de enfrentamento à truculência da ditadura a gente fica muito comovido. Depois vimos suas lutas como intelectual parlamentar na Constituinte e no mandato seguinte na Câmara Federal. A convivência com Lula e a bancada do PT e as lições ao mesclar a academia com a política: os acordos possíveis. A defesa da Educação; a LDB.

Seu espírito de servidor público. Sua ética e sua prática como critério da verdade, coisa que aprendi ao ser dirigente sindical. A dramaticidade de sua doença - hepatite-C - e a forma trágica de sua morte nos deixam sem palavras.

Que história de vida! Que homem da esquerda brasileira!

Mexeu muito comigo a história de Florestan Fernandes...

Refletindo sobre... que refeição cultural... que lição de vida.

William


Bibliografia:

CERQUEIRA, Laurez. Florestan Fernandes - Vida e obra. São Paulo: Expressão Popular, 2004. 4ª reimpressão, out/2009.