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terça-feira, 18 de agosto de 2026

Um apólogo - Machado de Assis



Refeição Cultural

Conto publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 1° de março de 1895 (com o título "A agulha e a linha") e depois reunido no livro de contos Várias histórias, em 1895.

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UM APÓLOGO

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu.

Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: — Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde  me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

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COMENTÁRIO DO BLOG

Este conto breve é muito interessante! Na primeira publicação, na Gazeta de Notícias, Machado de Assis o chamou de "A agulha e a linha", segundo o estudioso John Gledson. Quando a narrativa foi reunida em livro, o escritor a denominou "Um apólogo".

Apólogo é uma narrativa moral, um texto com personagens inanimados que ganham voz e ação (prosopopeia) e participam da história contada.

Nesta história que nos mostra a disputa de vaidade entre a agulha e a linha, debatendo entre elas qual seria mais importante, podemos observar que ambas têm seu valor no trabalho de coser as roupas que depois serão usadas pelos humanos em ocasiões diversas. 

No entanto, uma acabou "vencendo" o debate, como acontece hoje nas disputas alimentadas em redes antissociais que dominam o universo humano neste momento da história. 

Uma não realizaria o trabalho sem a outra na história. Linha sem agulha ou agulha sem linha demonstra a importância do trabalho conjunto. 

Poderíamos usar essa narrativa moral em diversos exemplos de nossa vida em sociedade. Precisamos uns dos outros. 

Uma obra pública financiada com recursos do governo federal e do estado ou município só saem do papel pela ação de ambos. Porém, governos locais usam omitir do povo a ação decisiva do governo federal.

Enfim, o conto machadiano, o apólogo, é mais atual que nunca, se pensarmos no cenário das eleições brasileiras de 2026. 

Lula recuperou o país após a tragédia bolsonarista, organizou a economia e está financiando estados e municípios em obras importantes. E os prefeitos e governadores, sem caráter ou ética, omitem essa informação por motivos políticos. 

Sigamos lendo literatura de qualidade e melhorando nossa interpretação do mundo. 

William 

18/08/26

sábado, 15 de agosto de 2026

A cartomante - Machado de Assis



Refeição Cultural

Após o conto, faço um breve comentário a respeito de impressões que tive na leitura.

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A CARTOMANTE 

Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras. 

— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade... 

— Errou! interrompeu Camilo, rindo. 

— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria... 

Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois... 

— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa. 

— Onde é a casa? 

— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca. 

Camilo riu outra vez: 

— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe. 

Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita coisa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranquila e satisfeita. 

Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando. 

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante. 

Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo. 

— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo, falava sempre do senhor. 

Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição. 

Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor. 

Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela, era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as coisas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração, não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as coisas que o cercam. 

Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas. 

Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato. 

Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo. 

Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível. 

— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a... 

Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas. 

No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas coisas com a notícia da véspera. 

— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel. 

Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a ideia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a ideia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto. 

Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a ideia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo. 

"Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim..." 

Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar, a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino. 

Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar à primeira travessa, e ir por outro caminho: ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a ideia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça: 

— Anda! agora! empurra! vá! vá! 

Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras coisas; mas a voz do marido sussurrava-lhe a orelhas as palavras da carta: "Vem, já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas coisas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários: e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais coisas no céu e na terra do que sonha a filosofia..." Que perdia ele, se...? 

Deu por si na calçada, ao pé da porta: disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve ideia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio. 

A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe: 

— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto... 

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo. 

— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não... 

— A mim e a ela, explicou vivamente ele. 

A cartomante não sorriu: disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela curioso e ansioso. 

— As cartas dizem-me... 

Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela: ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta. 

— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante. 

Esta levantou-se, rindo. 

— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato... 

E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço. 

— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar? 

— Pergunte ao seu coração, respondeu ela. 

Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis. 

— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá, tranquilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...

A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo. 

Tudo lhe parecia agora melhor, as outras coisas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo. 

— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro. 

E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer coisa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz. 

A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável. 

Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela. 

— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há? 

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

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COMENTÁRIO DO BLOG

Os contos de Machado de Assis são extraordinários! Fazia tempo que não relia este conto, publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 28 de novembro de 1884, e depois reunido a outros contos no livro Várias histórias, de 1895. As informações são de John Gledson, do livro 50 contos de Machado (2007, 14ª reimpressão).

Após descobrir o desfecho da história de Vilela, Camilo e Rita, e voltar ao texto, é muito interessante identificar as características que o escritor vai apresentando de cada um dos personagens e até os valores de época, daquela sociedade na qual os personagens estão inseridos culturalmente.

A descrição e caracterização de Rita não deixam dúvidas sobre a forma como as mulheres são vistas naquela sociedade. 

Rita: "uma dama formosa e tonta"; "era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa". Ela era mais velha que os amigos de infância, tinha 30 anos, enquanto Vilela tinha 29 e Camilo 26.

Em outro momento, quando o narrador aponta Rita como a responsável pela situação da trama, nos lembra um pouco da "mulher balzaquiana", coincidentemente nossa personagem tem 30 anos: "os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele..."

Vilela tem "porte grave", é formado em advocacia e foi da magistratura.

Já Camilo, que a família queria ver advogado, não se formou. "Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, com os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.".

A MULHER NA ÓTICA PATRIARCAL E MACHISTA

Como disse acima, o narrador dá o tom do que pensa aquela sociedade a respeito das mulheres: são serpentes, a origem do pecado e do mal.

"Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos!".

E para completar o papel das mulheres responsáveis pelos males daquela sociedade patriarcal e machista, de homens e pessoas ludibriadas pelas temíveis mulheres, quase bruxas, tem a figura da cartomante:

"era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos..."

Enfim, a história de Vilela, Camilo e Rita não poderia ter outro desfecho, sob o ponto de vista de uma sociedade que um século depois da história (1869) ainda permitia aos homens matarem mulheres por questões de honra.

Após um curto período de tempo entre o final do século XX e o ano corrente, 2026, chegou-se a mudar o código civil igualando direitos entre homens e mulheres e as leis no país, criou-se a Lei Maria da Penha, e no entanto, pasmem, vivemos uma epidemia de violência contras as mulheres no Brasil. Os índices de assassinato de mulheres crescem assustadoramente no país, principalmente em São Paulo.

A releitura do conto "A cartomante" me lembrou a universalidade dos textos de Machado de Assis, até quando ele descreve a questão da religião e a fé ou não em Deus.

AGNÓSTICO OU ATEU?

"Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando."

Me lembrei de uma palestra de Marcelo Gleiser, físico e astrônomo brasileiro, que me fez rever meu conceito sobre ser ateu, quando ele explicou exatamente o que Machado descreve sobre "negar é ainda afirmar" em relação a haver ou não um Deus. 

Gleiser explica que a ciência não pode provar a não existência de Deus, pois a ciência é baseada em afirmações categóricas, e o agnóstico não crê mas não pode afirmar que não exista um Deus de forma categórica. Foi o que entendi do vídeo que vi com ele.

Enfim, tive o prazer de reler um excelente conto de Machado de Assis hoje. Como seus textos são de domínio público, está disponível no blog para leitura.

Sigamos lendo e tentando nos fazer humanos e conhecedores de alguma coisa. Os tempos são de elogia à ignorância.

William

15/08/26

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Leitura: O alienista - Machado de Assis



Refeição Cultural

LITERATURA BRASILEIRA


A obra do escritor Machado de Assis (1839-1908) é uma das mais fascinantes da literatura brasileira. O Bruxo do Cosme Velho é basicamente um autor do século XIX, publicou durante décadas, mas também escreveu textos marcantes nos primeiros anos do século XX, incluindo romances, contos e outros gêneros. Sua obra é de domínio público.

A primeira publicação deste blog de cultura Refeitório Cultural, em dezembro de 2007, foi "O alienista" (1882), do mestre criador da Academia Brasileira de Letras. Ler o conto aqui.

O texto de Machado era classificado por boa parte da crítica como conto, porém vem sendo considerado atualmente como uma novela. O autor o denomina conto e, se tivermos dúvidas, podemos acatar o escritor e criador da narrativa e seguir considerando a história do ilustre Dr. Simão Bacamarte como um conto. 

Reproduzo abaixo o texto de "Advertência" que Machado de Assis colocou no livro que reuniu contos que ele já havia publicado em folhetins. O livro Papéis Avulsos (1882) traz como primeiro conto "O alienista", que havia saído em "A Estação" entre outubro de 1881 e março de 1882.

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ADVERTÊNCIA

     Este título de Papéis Avulsos parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para o fim de os não perder. A verdade é essa, sem ser bem essa. Avulsos são eles, mas não vieram para aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma só família, que a obrigação do pai fez sentar à mesma mesa.

     Quanto ao gênero deles, não sei que diga que não seja inútil. O livro está nas mãos do leitor. Direi somente, que se há aqui páginas que parecem meros contos e outras que o não são, defendo-me das segundas com dizer que os leitores das outras podem achar nelas algum interesse, e das primeiras defendo-me com S. João e Diderot. O evangelista, descrevendo a famosa besta apocalíptica, acrescentava (XVII, 9): "E aqui há sentido, que tem sabedoria". Menos a sabedoria, cubro-me com aquela palavra. Quanto a Diderot, ninguém ignora que ele, não só escrevia contos, e alguns deliciosos, mas até aconselhava a um amigo que os escrevesse também. E eis a razão do enciclopedista: é que quando se faz um conto, o espírito fica alegre, o tempo escoa-se, e o conto da vida acaba, sem a gente dar por isso.

     Deste modo, venha donde vier o reproche, espero que daí mesmo virá a absolvição. 

                                        Machado de Assis

Outubro de 1882.

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COMENTÁRIO SOBRE A LEITURA

A advertência do escritor Machado de Assis ao reunir os contos que compõem Papéis Avulsos me lembrou uma passagem do próprio conto "O alienista", quando o Padre Lopes aponta uma qualidade do Dr. Simão Bacamarte:

"A assembleia insistiu; o alienista resistiu; finalmente o Padre Lopes explicou tudo com este conceito digno de um observador:

- Sabe a razão por que não vê as suas elevadas qualidades, que aliás todos nós admiramos? É porque tem ainda uma qualidade que realça as outras: - a modéstia."

A modéstia...

Na advertência ao Papéis Avulsos, Machado diz aos leitores algo digno da observação e análise do Dr. Simão Bacamarte...

"O evangelista, descrevendo a famosa besta apocalíptica, acrescentava (XVII, 9): 'E aqui há sentido, que tem sabedoria'. Menos a sabedoria, cubro-me com aquela palavra."

O nosso escritor é modesto, cita o evangelista e diz haver sentido em seus textos reunidos, menos a sabedoria... 

Machado com certeza seria recolhido à Casa Verde naquele segundo momento no qual o Dr. Bacamarte libertou 4/5 da cidade e região recolhidos por terem algum desequilíbrio das faculdades mentais e só aqueles com perfeito equilíbrio mental estavam recolhidos ao manicômio.

Não nos esqueçamos que nosso mestre, além de modesto, era um gênio da ironia.

Pelas minhas anotações, li "O alienista" pela oitenta vez desde que conheci a história do ilustre Dr. Simão Bacamarte. É leitura de prazer! De esperança na humanidade ao saber que nossa espécie pode escrever assim. 

A cada leitura, mais admiração tenho por Machado de Assis, por sua genialidade, por sua universalidade.

Todas as vezes que li este conto fiz o exercício de olhar ao meu redor e refletir sobre todas as questões colocadas sob análise na história do Dr. Simão Bacamarte, personagem que estudou a loucura sob o escrutínio da ciência. 

Estou assim, modestamente (rsrs) olhando a loucura e os mentecaptos ao meu redor. Talvez sejam todos normais e eu seja a pessoa com um (d)esequilíbrio das faculdades mentais...

William 

11/08/26

sábado, 26 de abril de 2025

Livro: Papéis Avulsos (I) - Machado de Assis



Refeição Cultural 

"Este título de Papéis Avulsos parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para o fim de os não perder. A verdade é essa, sem ser bem essa. Avulsos são eles, mas não vieram para aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma mesma família, que a obrigação do pai fez sentar à mesma mesa." (Advertência, Machado de Assis, outubro de 1882)


1. O alienista

2. Teoria do medalhão 

3. A chinela turca

4. Na arca


Ao trabalhar na revisão e encadernação de minhas postagens nos blogs, fiquei satisfeito com a constatação de ter começado o Refeitório Cultural com Machado de Assis. 

Os textos do Bruxo do Cosme Velho são de domínio público e comecei o blog de cultura com o conto "O alienista", lá em 2007. Este clássico poderia ser lido de tempo em tempo ao longo da vida das leitoras e dos leitores. Já o li inúmeras vezes nas últimas duas décadas. Ele nos faz entender o Brasil e os seres humanos, por isso seu caráter universal. 

Os primeiros textos do blog têm relação com o mestre Machado de Assis. 

A minha edição de Papéis Avulsos está dividida em dois volumes. Já li todos os contos muitas vezes. 

Ao lermos a "Teoria do medalhão", percebe-se a universalidade da gente vulgar que ocupa as casas-grandes e a tal Faria Lima. Janjão recebe instruções de seu pai como essa gente do "agro pop" e seu universo sertanejo. Pai e filho são os caracteres da "Elite do atraso" descrita pelo sociólogo Jessé Souza. 

Da mesma forma, vemos a atualidade da crítica de Machado ao compor no conto "A arca" os novos capítulos introduzidos no Gênesis. Somos essa coisa humana descrita no conto através dos filhos de Noé, Sem e Jafé. Parece que a gente não tem jeito mesmo...

"O melhor drama está no espectador e não no palco"

A lição do conto "A chinela turca" está aí para qualquer um de nós avaliarmos...

Leiam Machado de Assis, leiam! 

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Post Scriptum:

O ALIENISTA

Ao ler o conto "Darandina", do livro Primeiras Estórias (1962), de João Guimarães Rosa, conheci mais um clássico brasileiro com a temática da reflexão sobre a razão e a "desrazão", sobre a loucura e as tentativas de se compreender ou até de se tratar as diversas formas de loucura, ou suposta loucura, haja vista que a questão é estudada há séculos pela sociedade humana e até hoje poderíamos questionar o que é sanidade e o que é loucura, ou o que seria considerado "normal" ao longo do tempo.

Rezar para pneu e colocar aparelhos celulares na cabeça pedindo intervenções de seres alienígenas é algo considerado normal ou loucura?

Percebem a atualidade do tema? Seres humanos habitantes de um país chamado Brasil, já avançado o século XXI, fizeram isso. É um caso documentado. Esses seres são seguidores de uma seita liderada por um clã de políticos com sobrenome "Bolsonaro".

Eu já li diversas vezes o clássico de Machado de Assis em diversas épocas diferentes da vida política do país e até em momentos pessoais nos quais questionava a mim mesmo sobre a normalidade ou anormalidade das coisas. Quantas vezes me peguei refletindo se eu estava ficando louco ou se o mundo ao meu redor estava louco... aí recorria ao dr. Simão Bacamarte...

Enfim, é isso! Sigamos lendo e refletindo e tentando compreender a vida e o mundo no qual existimos.

William 


sábado, 16 de novembro de 2024

Diários com Machado de Assis (16)



Refeição Cultural 

Conto: D. Paula (1884)

"(...) tudo isso era como as frias crônicas, esqueleto da história, sem a alma da história."


O enredo do conto tem como protagonista uma mulher já madura, viúva, e que se dispõe a ajudar um jovem casal que brigou por uma questão de ciúmes. D. Paula é tia de Venancinha, casada com Conrado, jovem advogado do Rio de Janeiro.

O conto começa com Venancinha aos prantos por ter sido acusada pelo marido de estar enamorada de um fulano novo na cidade: Vasco Maria Portela, filho de um antigo diplomata de mesmo nome, aposentado e vivendo na Europa.

Para tentar reaproximar o casal, D. Paula propõe ao marido Conrado levar a sobrinha consigo para ficar algumas semanas na casa dela na Tijuca. A tia promete ao marido dar uns conselhos à jovem e melhorar o comportamento da esposa.

É aí que veremos como se desenvolve a história através das confidências entre tia e sobrinha.

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Eu não conhecia este conto ainda. Ele foi publicado na Gazeta de Notícias, em 12 de outubro de 1884, e depois saiu na coletânea de contos do livro "Várias histórias", de 1895 ou 1896, segundo fontes diferentes.

"D. Paula, inclinada para ela, ouvia essa narração, que aí fica apenas resumida e coordenada. Tinha toda a vida nos olhos; a boca meio aberta, parecia beber as palavras da sobrinha, ansiosamente, como um cordial. E pedia-lhe fiança. O ar da tia era tão jovem, a exortação tão meiga e cheia de um perdão antecipado, que ela achou ali uma confidente e amiga, não obstante algumas frases severas que lhe ouviu, mescladas às outras, por um motivo de inconsciente hipocrisia. Não digo cálculo; D. Paula enganava-se a si mesma. Podemos compará-la a um general inválido, que forceja por achar um pouco do antigo ardor na audiência de outras campanhas."

Os leitores vão conhecer a "alma da história" ao descobrir os segredos não da sobrinha Venancinha, mas da tia dela, D. Paula, ao ouvir as confissões da jovem. 

Ao lerem o conto, atentem para o comportamento da personagem principal, D. Paula.

"Machado foca o comportamento das mulheres em várias obras, pois elas são controladas, ou seja, elas buscam burlar o controle, como a lei que cria o contraventor." (do blog Refeitório Cultural)

Ver postagem sobre a aula do professor Hansen aqui.

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ESCRAVIDÃO PERSISTE

"(...) A primeira escrava que a viu, quis ir avisar a senhora, mas D. Paula ordenou-lhe que não..."

"(...) e lá dentro as pretas espalhavam o sono contando anedotas, uma ou outra vez, impacientes..."


Sempre necessário comentar a naturalização da condição de pessoas escravizadas no passado ou pouco tempo atrás. 

É difícil não perceber a atualidade da luta por direitos básicos e universais a pessoas que executam serviços nas residências de outras pessoas, comumente chamadas de "empregadas domésticas". 

Por mais de um século, após a lei que aboliu a escravidão em 1888, as mulheres que trabalhavam nas casas da "classe média" e nas casas-grandes (casas dos ricos de verdade) seguem na condição de trabalho análogo à escravidão.

Os governos do Partido dos Trabalhadores mexeram num vespeiro ao propor direitos básicos às empregadas domésticas. A casa-grande e a "classe média" acabaram derrubando o governo pela petulância dele em aumentar o custo da empregada (e por diminuir o spread bancário também, em 2012).

A exploração dos seres humanos na forma de escravidão ou trabalhos análogos à escravidão segue há mais de 500 anos aqui no Brasil.

Até quando?

William


quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Diários com Machado de Assis (15)



Refeição Cultural 

Osasco, 13 de novembro de 2024. Quarta-feira.


Dormi pouco. Tenho dormido mal faz dias. Poucas horas e sem acordar bem-disposto. E olha que ontem caminhei 4 Km, era para ter dormido melhor. Suspeito de vários motivos para o sono pouco reparador. Problemas da família que me afetam, e sempre a política, sendo eu um animal político.

Tendo acordado cedo, me levantei. Me deu vontade de ler alguma coisa do Bruxo do Cosme Velho. Sempre me equivoco nesse apelido de Machado de Assis e escrevo Mestre do Cosme Velho. Tudo bem! Ele é tudo isso e muito mais.

Peguei o livro de contos do Machado organizado por John Gledson. Li o conto "Conto da escola", que está grafado de duas formas no próprio livro do Gledson: está escrito "Conto de escola" no índice e nas referências ao final do livro e "Conto da escola" na página 326. Evidente que essa diferença faz diferença no sentido semântico. Como o autor é estrangeiro, pode ser questão de tradução. 

Fui olhar na internet em uma página onde consulto todos os contos do Machado de Assis: esse conto está lá no livro "Várias histórias", de 1896, e está grafado "Conto de escola".

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CONTO DE ESCOLA (1884)

Vou ficar com a opção "Conto de escola". Ele foi publicado na Gazeta de Notícias em 8 de setembro de 1884 e depois no livro Várias histórias em 1895, segundo o livro de Gledson.

No enredo, um adulto faz referência ao passado, situa o caso que vai contar ao ano de 1840. Com uma memória incrivelmente detalhista, diz que o fato se passou numa segunda-feira do mês de maio. Pelo que pude perceber ao concluir a leitura do conto, o narrador teria motivos para guardar tantas lembranças do dia, pois teria sido um dia de aprendizado para toda a vida.

O garoto do ano de 1840 era peralta e inteligente, mas não ligava para a escola. Faltava às aulas ao sabor das escolhas diárias entre brincar em algum lugar ou ir para a escola. Ele teria menos de onze anos, pois faz referência a um menino bem mais velho de onze anos, o Curvelo.

No dia em questão, ele optou por ir à escola porque lembrou-se da sova que o pai havia lhe dado dias antes por alguma coisa que teria feito. Não fica claro se apanhou com vara de marmeleiro por ter faltado à escola ou não. Mas poderia ter sido esse o motivo da sova.

"(...) Ora, foi a lembrança do último castigo que me levou naquela manhã para o colégio. Não era um menino de virtudes."

Nosso narrador é chamado lá no passado por "Seu Pilar". O menino que dialoga com ele na cena da sala de aula se chama Raimundo e é filho do mestre, Policarpo. O narrador diz que o garoto não é muito inteligente e o seu pai é mais duro com ele do que com o restante dos alunos. Raimundo tem medo dos castigos do pai, o professor.

Seu Pilar nos conta que era um menino inteligente, mesmo sabendo que isso seria arrogante de se dizer. Acaba antes de todos as tarefas da escola (e faltava com frequência pelo que temos de informação no início do caso narrado).

O assunto da história que Seu Pilar está nos contando é sobre uma "troca de serviços", um "toma lá, dá cá" entre alunos. Foi uma proposta inédita para o garoto. Uma cola para uma lição de sintaxe a troco de uma pratinha (doze vinténs ou dois tostões). O garoto, Seu Pilar, se tinha dinheiro, era uns cobres (um cobre feio, grosso, azinhavrado...)

A causa do negócio, a "troca de serviços", era o medo que o Raimundo tinha do pai, o professor. Estamos no cenário do século 19 e a pedagogia do ensino é a violência, a temida palmatória, pendurada ao lado da janela da sala.

A história caminha para o seu desfecho, Seu Pilar pega a moeda, passa a cola e os dois são vistos pelo menino mais velho, o Curvelo.

Eu não gosto de dar spoiler em meus textos sobre romances, contos e filmes... 

Este conto em questão é de domínio público, qualquer pessoa pode lê-lo e ele é bem pequeno, de leitura rápida. 

Na página do blog, na versão para "web" (e não celular), tem um link para os contos do Machado na seção "Links a caminho da cultura". 

O final é bem ao estilo do escritor. O homem adulto que narra o "Conto de Escola" disse que aprendeu a lição naquele dia a respeito das consequências da corrupção e da delação. 

Mas o que realmente dominou seu coração no dia seguinte acabou sendo outra coisa, um encantamento que teve pelo caminho, que mudou seu foco e, quem sabe, até seu destino.

É isso! Eu não conhecia esse conto do Bruxo do Cosme Velho. Foi uma novidade para mim.

William


Post Scriptum: o texto anterior desta série sobre leituras de Machado de Assis pode ser lido aqui.


terça-feira, 28 de setembro de 2021

Diários com Machado de Assis (IX)



Refeição Cultural

Segunda-feira, 27 de setembro.


Li dois contos de Machado de Assis publicados em 1884. São contos da fase mais madura do escritor. 

O conto "Evolução" é muito irônico, crítico, e diria hermético. Fico imaginando como teria sido a recepção da narrativa na "Gazeta de Notícias" na corte do Rio de Janeiro.

"Chamo-me Inácio; ele, Benedito. Não digo o resto dos nossos nomes por um sentimento de compostura, que toda a gente discreta apreciará. Inácio basta. Contentem-se com Benedito. Não é muito, mas é alguma coisa, e está com a filosofia de Julieta: 'Que valem nomes? Perguntava ela ao namorado. A rosa, como quer que se lhe chame, tem sempre o mesmo cheiro'. Vamos ao cheiro do Benedito." (p. 311)

Ao final da estória, descobrimos que o "cheiro" de Benedito é um fedor só, não à toa Machado mudou "perfume" da rosa para "cheiro", porque o sujeito é um chupim, um parasita que viveu às custas de se apropriar das ideias dos outros. 

A "evolução" é uma ideia pessimista do ser humano, pois a evolução da espécie homo sapiens seria através de tipos como Benedito, coisa da pior espécie, uma fraude, um espertalhão. 

Machado era contemporâneo de Charles Darwin e a Teoria da Evolução das Espécies era um acontecimento naquelas décadas do século XIX. O escritor já havia apresentado seu personagem Quincas Borba e a teoria do "Humanitismo" no Memórias póstumas de Brás Cubas (1880). Quincas ficaria famoso pela frase célebre: Ao vencedor as batatas!

O pior é que a sociedade humana em meu mundo do século XXI, o século de trumps e bolsonaros, está bem próxima disso mesmo...

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O outro conto que li é "O enfermeiro".

"Parece-lhe então que o que se deu comigo em 1860, pode entrar numa página de livro? Vá que seja, com a condição única de que não há de divulgar nada antes da minha morte. Não esperará muito, pode ser que oito dias, se não for menos; estou desenganado." (p. 318)

Nesta narrativa vamos ver a estória de Procópio José Gomes Valongo, narrador em primeira pessoa, que conta como foi que acabou sendo o enfermeiro do coronel Felisberto, no interior do Estado.

Em certo momento, a narrativa vira uma estória meio macabra e, no fim, retoma a toada do início.

De novo, fiquei pensando na leitura do conto pelos leitores contemporâneos de Machado em 1884. O escritor é bastante hermético em seus textos. A estória se desenvolve bem, envolve a gente. No final, eu fiquei sem entender o que ele quis dizer com a paráfrase da sentença de Mateus, uma passagem da Bíblia.

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O livro de Hélio de Seixas - Os leitores de Machado de Assis - é muito instigante, mas será de leitura bem lenta. Vamos considerar que será um livro de provocação para minhas leituras e releituras de Machado no próximo período. Sem pressa com ele!

William


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. 50 contos de Machado de Assis. Seleção, introdução e notas John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 14ª reimpressão, 2015.


domingo, 19 de setembro de 2021

O Diabo, a venalidade e o fim da solidariedade



Refeição Cultural

Domingo, 19 de setembro de 2021. Osasco, São Paulo.


Silêncio relativo na varanda de casa. Sol forte lá fora, calor de quase 30º. Além do som dos carros na avenida lá embaixo, os sabiás da região seguem cantando, cantando, cantando. Nessa época do ano, eles cantam a noite toda. É maravilhoso! No meio da madrugada, o canto dos sabiás predomina sobre qualquer outro som que venha de forma episódica. 

Agora mesmo - onze e meia da manhã -, os joões-de-barro cantam também. Os bem-te-vis idem. As maritaquinhas conversam entre si. Uma sirene de ambulância; os motoboys trabalhando sem direito algum. Um helicóptero que passou no céu: a repressão ou algum magnata passeando. Mas, de fundo, segue o canto dos sabiás...

Reli o conto machadiano "A igreja do Diabo" (1883). Quando lemos obras fantásticas, inteligentes, simbólicas e metafóricas como essa, ficamos perplexos com a existência de seres humanos como Machado de Assis. Ao ler o conto no meu contexto de mundo, de vida, de localização, é como se tivéssemos encomendado ao Machado o texto para publicar neste domingo de sol e canto do sabiá no Brasil pós golpe de 2016.

O Diabo avisa a Deus que vai fundar uma igreja na Terra, com todos os dogmas e liturgias que as igrejas de Deus têm. O Diabo se estabelece e domina o mundo. Ele explica o sucesso de sua estratégia de expansão dos empreendimentos. Ele trabalha fortemente com a venalidade e com o fim da solidariedade humana, essa praga. 

NO CAPITALISMO, TUDO SE VENDE E SE COMPRA

Se os homens podem vender as coisas materiais que dizem ser suas, por que não poderiam vender seu corpo, sua honra, seus desejos, seus princípios...

"Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório..." (p. 187)

A SOLIDARIEDADE, ESSA PRAGA COMUNISTA

"Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença, em alguns casos, ódio ou desprezo..." (p. 188)

MACHADO E SEUS LEITORES

O escritor mulato sabia de duas coisas ao escrever seus romances, contos, crônicas e reflexões: o Brasil era uma terra de analfabetos miseráveis (censo de 1876) e os poucos que sabiam ler eram os da "burguesia", essa gente burra, ignorante, iletrada que não mudou nada em 150 anos. 

Por isso sua leitura não é simples. Sua técnica narrativa tinha que fazer como nossos artistas fizeram na ditadura civil-militar de 1964-1985, eles tinham que escrever com mensagens nas entrelinhas, pra essa gente burra e troglodita não entender a mensagem, a ironia.

BRASIL É GOVERNADO PELO ANTICRISTO

Enfim, dias atrás li o editorial de Mino Carta na revista Carta Capital nº 1172 (ler aqui) e ele citava Celso Amorim e Leonardo Boff, que explicou o que é ser anticristo e deixou claro que o sujeito que ocupa a cadeira da presidência do país é o anticristo.

Ler Machado de Assis com o olhar e a experiência do leitor que teve a oportunidade na vida de se alfabetizar e de se politizar é descobrir que desde sempre nós tivemos pessoas que fizeram a sua parte e o que era possível para criticar a situação miserável em que a ampla maioria dos povos vivem, não por ser natural, mas porque os valores que prevalecem naqueles contextos são os de minorias privilegiadas.

CENTENÁRIO DE PAULO FREIRE - Que posso dizer sobre nosso educador maior? Paulo Freire vive! Eu esperancei e vivenciei a experiência do método de Freire ao atuar na formação sindical por muitos anos. Viva Paulo Freire! 

NOMADLAND - Assisti ontem ao filme Nomadland (2020), ganhador do Oscar 2021 e fiquei pensativo, fiquei triste, constatei o que já sabia. Mas as reflexões ficam para outra hora, se é que escrevo algo a respeito. No filme, vemos tudo que o Diabo introduziu em sua igreja, a venalidade, a questão da solidariedade, tudo. 

Aliás, no filme vemos as franjas, questão central do conto de Machado. Nem tudo está perdido, nem tudo. Caso queiram ler o conto, é só clicar aqui.

Bom domingo!

William


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. 50 contos de Machado de Assis. Seleção, introdução e notas John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 14ª reimpressão, 2015.

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Diários com Machado de Assis (VII)



Refeição Cultural


A SENHORA DO GALVÃO

Leitura do conto "A senhora do Galvão", publicado primeiro na Gazeta de Notícias, em 10 de fevereiro de 1884, e depois no livro Histórias sem data, do mesmo ano.

Esse conto me fez pensar na condição das mulheres, ontem e hoje. Sempre? Quem saberia dizer...

A estória é relativamente simples e comum. O narrador onisciente nos conta a vida conjugal de Maria Olímpia e Eduardo Galvão. Ela com 26 anos de idade, casada com um jovem advogado em início de carreira. 

O narrador nos situa no tempo, o ano em que se dão os acontecimentos é o de 1853. Machado usa datas históricas do Brasil para referenciar fatos. O pai de Maria Olímpia era "deputado do tempo da Regência". A viúva amiga do casal teria uns 35 anos, mas depois nos diz que tinha 31 porque "nasceu em 1822, na véspera da independência".

Dois exercícios que tento fazer ao ler textos publicados em outras épocas e lugares é imaginar o mundo da época da enunciação da estória e o que o autor quis dizer e transmitir aos leitores. E sei que romance é ficção. Não esqueçamos disso! Quando Bentinho ou Brás Cubas escrevem suas histórias, elas são ficção, ok?

Então, 1884, Rio de Janeiro, Brasil. A lei do Império que vigora é a da escravidão das pessoas trazidas do continente africano ou seus descendentes. Já há algumas leis de exceção, mas a escravidão de gente é lei. Alguns humanos são propriedade de outros assim como vacas e cavalos - semoventes na hacienda. Machado de Assis é descendente de avós paternos escravos alforriados.

Imaginem as ruas do Rio de Janeiro. Andem por elas em 1884. Imaginem a condição das mulheres também, para além da questão da escravidão. As mulheres eram praticamente propriedades dos homens também. Os pais mandavam nas filhas, negociavam elas. Dureza!

Machado situa o enredo da estória umas décadas antes, em 1853.

Enfim, fiquei pensando nessas questões acima porque é difícil se colocar no lugar de Maria Olímpia. O que eu faria no lugar dela? Eu não sou mulher. Mesmo hoje, século e meio depois da condição em que está Maria Olímpia, o que fariam as mulheres no lugar dela?

Após séculos de ciência e descobertas, a espécie humana contém indivíduos que agem de acordo com os conhecimentos acumulados ao longo da história e contém indivíduos que agem como aqueles que viviam milhares de anos atrás, assustados com raios, trovões, sombras e eclipses, ignorantes em tudo, primitivos e que levam a vida baseada em mitos. 

Séculos depois de descobertas e ciência, temos o bolsonarismo no Brasil, os talebans no Afeganistão, os negacionistas trumpistas.

Pra finalizar mesmo, fico imaginando o que sentia Machado de Assis, um sujeito não branco, apadrinhado de uma pessoa ilustre, o senhor José de Alencar, defensor da manutenção da escravidão no Brasil nos debates públicos (ler aqui). Como se sentiria Machado em relação ao amigo e protetor Alencar? Que situação!

William


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. 50 contos de Machado de Assis. Seleção, introdução e notas John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 14ª reimpressão, 2015.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Diários com Machado de Assis (VI)



Refeição Cultural

Genoveva, uma mulher livre

No diário anterior (ler aqui), falei de meu contato com a personagem Marcela, a espanhola amante de Brás Cubas - a dos "15 meses e onze contos de réis" -, seu primeiro amor de rapaz de 17 anos. A personagem é muito interessante, é uma mulher que enfrentou do seu jeito as dificuldades de seu gênero naquela sociedade de sua época - patriarcal, patrimonialista, do poder branco, sob os dogmas católicos, misógina e conservadora -, o Brasil de milhares de Brás Cubas em cada casa-grande da ex-colônia portuguesa.

Hoje pela manhã, queria ler algo novo do Bruxo do Cosme Velho, algum texto que eu não conheço ainda. Peguei o livro 50 contos de Machado de Assis, organizado por John Gledson. Li o conto "Noite de almirante", publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 10 de fevereiro de 1884, e depois no livro Histórias sem data.

O conto narra a estória de amor de Deolindo Venta-Grande e Genoveva. Se considerarmos a maneira como se tratam as mulheres no Brasil de 1884 e o Brasil de 2021, podemos dizer que o desenvolvimento da ficção e o final nos surpreende, tanto para a época como para o presente.

Deolindo é marinheiro. Volta do mar depois de dez meses de viagens. Está ansioso para encontrar a moça por quem jurou amores e fidelidade antes de zarpar.

"- Ah! Venta-Grande! Que noite de almirante vai você passar! ceia, viola e os braços de Genoveva. Colozinho de Genoveva..." (p. 289)

Ela, a personagem, uma moça que se enamorou do rapaz, queria fugir com ele para o interior, mas teve que aceitar ele zarpar e retornar um dia para ficarem juntos. Jurou amores e fidelidade também.

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Uma observação: é difícil fazer um comentário sobre um romance ou narrativa sem dar algum tipo de spoiler. O ideal era o leitor(a) já conhecer o conto. Então, faço o seguinte, vou demarcar abaixo a partir de onde tem spoiler e assim a pessoa para de ler, se quiser.

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Genoveva: "caboclinha de vinte anos, esperta, olho negro e atrevido" (p. 289)

OS OLHOS - Interessante o quanto Machado caracteriza seus personagens pelos olhos. Em tempos de pandemia de vírus com uso de máscaras que tampam boca e nariz e de burcas pelo mundo afora, é uma caracterização ideal essa de descrever atributos dos olhos das pessoas.

Enfim, nessa estória de amor, vai aparecer uma terceira pessoa, o mascate José Diogo, e veremos então como termina o triângulo amoroso.

COMENTÁRIO (com spoiler)

Antes de mais nada, acho bem legal a forma como se apresentam os narradores de Machado de Assis. Eles fazem diálogos francos com os leitores, fazem ironias, prestam contas de suas ações etc. É legal demais!

O narrador defende Genoveva ao relatar o que ela disse a Deolindo ao se explicar por estar com outro, ao dizer que se apaixonou pelo mascate pela insistência dele e que isso não é culpa de ninguém, é a natureza.

Genoveva:

"- Pode crer que pensei muito e muito em você. Sinhá Inácia que lhe diga se não chorei muito... Mas o coração mudou... Mudou... Conto-lhe tudo isso, como se estivesse diante do padre, concluiu sorrindo." (p. 292)

E o narrador a defende (sublinhado meu pela ironia dele):

"Não sorria de escárnio. A expressão das palavras é que era uma mescla de candura e cinismo, de insolência e simplicidade, que desisto de definir melhor. Creio até que insolência e cinismo são mal aplicados. Genoveva não se defendia de um erro ou de um perjúrio; não se defendia de nada; falava-lhe o padrão moral das ações." 

E o narrador explica o que ela disse da forma mais natural possível. Os sentimentos mudam nas pessoas, oras bolas.

"O que dizia, em resumo, é que era melhor não ter mudado, dava-se bem com a afeição do Deolindo, a prova é que quis fugir com ele; mas, uma vez que o mascate venceu o marujo, a razão era do mascate, e cumpria declará-lo." 

Deolindo, quis matá-la com as próprias mãos, depois quis matar o mascate, e a moça continuou firme e seguiu explicando a ele que as coisas são assim. Ela chegou a diminuir o ímpeto de Deolindo só com os olhos:

"Deolindo chegou a ter um ímpeto; ela fê-lo parar só com a ação dos olhos." 

A jovem Genoveva cita acontecimentos na natureza para explicar a Deolindo que as coisas são assim e que não vale a pena matar por coisas tão normais e naturais.

"Vede que estamos aqui muito próximos da natureza. Que mal lhe fez ele? Que mal lhe fez esta pedra que caiu de cima? Qualquer mestre de física lhe explicaria a queda das pedras." (p. 293)

Enfim, a estória se resolve e não tivemos um feminicídio. Gostei muito da postura de Genoveva e de Deolindo.

Na vida real, fora da ficção, o país que vivemos após o golpe de 2016 e a ascensão do mal é um país de retrocessos de séculos. Mata-se por qualquer coisa, até por uma simples ação da natureza humana, uma mudança de sentimentos, uma ira momentânea.

Essa foi minha reflexão após alguns momentos com Machado de Assis.

William


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. 50 contos de Machado de Assis. Seleção, introdução e notas John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 14ª reimpressão, 2015.

domingo, 29 de agosto de 2021

Diários com Machado de Assis (IV)



Refeição Cultural

Teremos que recriar leitores e leitoras

Penso que uma das tarefas que teremos pela frente será recriar os leitores e leitoras, no sentido de recriar o gosto pela leitura de fôlego, a leitura reflexiva, a leitura para além de algumas palavras ou memes, para além das chamadas das notícias, das mensagens rápidas, das formas de comunicação que dominaram o mundo no século XXI. Leitores que se desliguem das redes sociais para ler sem interrupção a cada segundo.

Nos séculos anteriores, escritores como Machado de Assis tomaram para si a responsabilidade de criarem a figura do leitor e da leitora de ficção, leitores de textos literários. Nesse processo também se estabeleceram os acordos tácitos entre escritor e leitor, do tipo: olha, leitor, isso é uma ficção, tá! 

Por fim, não podemos esquecer nunca dos contextos nos quais os escritores produziram suas obras ficcionais ao longo da história da literatura mundial. Machado de Assis e demais escritores brasileiros do século XIX, por exemplo, escreviam para pouquíssima gente alfabetizada. Gente sem hábito de leitura de romance ou poesia se compararmos com outras partes do mundo naquela época.

Agora vivemos algo muito louco. Estamos no século XXI, e a tecnologia que inventamos nos fez chegar ao ponto de ser possível passar 24 horas do dia ligados nas redes sociais, fisgados e capturados em redes virtuais na internet (bolhas). De imagem em imagem, de meme em meme, a cada frase de efeito ou chamadas espalhafatosas, o dia se consome sem a pessoa conseguir se desconectar por uma ou duas horas para ler textos. 

Se o texto for longo, "longo" que digo é com duas páginas, com mais de dois parágrafos, quase ninguém o lê porque ele seria muito grande e tomaria muito tempo... enfim, é nisso que estamos nos transformando, humanos que não leem mais. (sem contar que no mundo das imagens e vídeos ainda temos as séries intermináveis para prender os humanos nelas)

Em meu contato com Machado neste domingo, pensei nisso ao ler o conto "Trina e una", publicado em A Estação, janeiro-fevereiro de 1884. O conto foi um dos 50 contos escolhidos por John Gledson em sua coletânea.

Os grandes escritores demonstram através de suas técnicas e habilidades comunicativas que sempre tiveram a preocupação de criar leitores, de criar o gosto pela leitura de ficção, leitura pelo prazer de ler, pelo gosto da reflexão através da leitura, leitura de passa tempo. Bem como os outros tipos de objetivos que também existem nas literaturas mais engajadas, de cunho social, por exemplo.

O conto "Trina e una" é um bom exemplo de uso de técnicas de diálogo com os leitores. Machado exercita sua ironia afiadíssima enquanto conversa ora com a leitora, ora com o leitor de seu texto ficcional. Ele inclusive deixa claro que o texto é ficção, ele brinca com leitores dizendo que não inventaria tal personagem se não fosse para tal papel no enredo. É demais!

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TRINA E UNA

Alguns momentos nos quais o narrador do conto conversa com os leitores do texto.

1. "A primeira coisa que há de espantar o leitor é o título, que lhe anuncia (posso dizê-lo desde já) três mulheres e uma só mulher." (p. 279)

2. "Que o leitor se não enfastie com tais minúcias; não há aí uma só palavra que não seja necessária." (p. 280)

3. "Puro efeito de arte; cálculo e combinação de gestos. São assim as obras meditadas; são assim os longos frutos de longa gestação." (p. 281)

4. "A secreta razão era dissimular quaisquer impaciências namoradas, mostrar que não fazia caso dela, e ver se assim... Compreenderam, não? Era a aplicação daquele pensamento, que não sei agora, se é oriental ou ocidental, em que se compara a mulher à sombra: segue-se a sombra, ela foge; foge-se, ela segue." (p. 285)

5. "Não hei de inventar um homem grave e hábil só para evitar uma certa impressão às leitoras. Tal era ele, tal o dou." (p. 285)

COMENTÁRIOS

Muito interessantes os momentos de diálogo entre o narrador e a pessoa que lê, assim como as ironias machadianas nesses diálogos.

No exemplo "2", Machado estabelece conosco a regra básica da poética dos contos e poesias: "não há aí uma só palavra que não seja necessária". 

Esse é um dos ensinamentos básicos para os estudantes de Letras: lembrem-se que cada palavra em cada verso é interligada com o verso seguinte e assim sucessivamente, estrofe por estrofe etc. Inclusive os poemas de determinados livros de poesias dão um sentido ao todo do livro. O mesmo se dá com os contos, que devem ser certeiros nas palavras, nas ideias e ou ações, no tempo entre o início e o fim da estória.

Os outros itens que deixei de exemplo demonstram o que estou dizendo, as ironias e os tratos entre escritor (narrador) e o leitor ou leitora.

É isso! Vamos ter que recriar os públicos leitores para aquilo que escrevemos, inclusive leitores para os escritores de literatura, poesia e outras formas de artes.

Quando fui dirigente eleito de entidade de saúde dos trabalhadores, tive que fazer uma experiência dessas, de criar um público leitor. Comecei a escrever uma espécie de diário de prestação de contas e de formação e informação sobre a temática da saúde. No início do mandato as postagens tinham alguns leitores, depois foram dezenas e quando terminei o mandato as postagens tinham centenas e milhares de leitores.

Acredito ser possível criar e recriar públicos leitores, sejam de textos literários, políticos ou outros quaisquer.

Abraços! E leiam, se puderem e quiserem salvar os fantásticos cérebros humanos que a natureza nos legou.

William


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. 50 contos de Machado de Assis. Seleção, introdução e notas John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 14ª reimpressão, 2015.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Fulano, conto de Machado de Assis (1884)



Refeição Cultural

"Trinta contos para quê? Para servir de começo a uma subscrição pública destinada a erigir uma estátua a Pedro Álvares Cabral. 'Cabral, diz ali o testamento, não pode ser olvidado dos brasileiros, foi o precursor do nosso império.' Recomenda que a estátua seja de bronze, com quatro medalhões no pedestal, a saber..." (p. 270)


Em meu contato diário com Machado de Assis, hoje li o conto "Fulano", um dos 50 contos escolhidos por John Gledson para o livro 50 contos de Machado de Assis (2007).

O conto foi publicado em 1884, na Gazeta de Notícias do dia 4 de janeiro. Depois ele saiu no livro Histórias sem data

A estória se passa no tempo presente da publicação, o personagem Fulano Beltrão faleceu no dia 2 de janeiro de 1884, com pouco mais de 60 anos de idade, e um narrador vai falar a respeito do falecido enquanto aguarda a abertura do testamento pelas autoridades competentes. 

Machado já é um escritor conceituado e muito conhecido no Brasil e já publicou obras de grande sucesso como Memórias póstumas de Brás Cubas, primeiro em folhetins (1880) e depois em livro (1881).

AMOR DA GLÓRIA, DESEJO DE NOMEADA

Machado explora magistralmente no conto a questão da vaidade e do orgulho. Na postagem que fiz anteriormente sobre os primeiros capítulos do Brás Cubas, citei o "desejo de nomeada" por trás da invenção do emplasto milagroso (ler aqui).

Outra questão em destaque são as referências em eventos ou datas históricas do Brasil. Machado cita personagens da política do Segundo Reinado, dos gabinetes liberal e conservador dos anos de 1860. Cita a Guerra do Paraguai. As notas de John Gledson são importantes para nós leitores nos situarmos no contexto da estória, do enredo.

ESTÁTUA DE PEDRO ÁLVARES CABRAL

A coincidência com os dias atuais ficou por conta da estátua em homenagem ao navegador Pedro Álvares Cabral, incendiada nesta semana no Rio de Janeiro. A estátua está no Largo da Glória e foi inaugurada em 13 de maio de 1900, em referência aos quatrocentos anos da chegada dos portugueses ao Brasil.

Por uma coincidência na leitura de Machado no dia de hoje, 26/8/2021, o conto cita um projeto para a confecção de uma estátua em homenagem a Cabral. Essas coincidências na vida dos leitores de livros são coisas pra lá de interessantes!

O projeto da estátua foi um dos desejos do personagem falecido, Fulano Beltrão, que deixou para isso trinta contos de réis.

A estátua queimada no Rio de Janeiro pode não ser a mesma da discussão interna do conto de Machado, mas o Rio inaugurou uma estátua de Cabral 16 anos depois do conto "Fulano".

Ler é isso! Ler Machado de Assis é assim, um novo conhecimento a cada leitura.

Leiam os clássicos, amigas e amigos leitores! É melhor ler do que não ler os clássicos.

William


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. 50 contos de Machado de Assis. Seleção, introdução e notas John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 14ª reimpressão, 2015.