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terça-feira, 24 de outubro de 2023

Leitura: Banzeiro òkótó: uma viagem à Amazônia centro do mundo - Eliane Brum



Refeição Cultural

Osasco, 24 de outubro de 2023. Terça-feira. (as guerras seguem: na Ucrânia, na Palestina, na Amazônia...)


"Aqueles que têm se mostrado tão competentes em imaginar o fim do mundo — do apocalipse bíblico aos filmes de zumbi, dos vírus a ataques alienígenas, do domínio da inteligência artificial ao holocausto nuclear e agora climático — precisam se tornar capazes de imaginar o fim do capitalismo. Temos de nos tornar capazes, principalmente, de imaginar um futuro onde possamos e queiramos viver. Imaginar é ação política. Imaginar é instrumento de resistência. Imaginar o futuro é agir sobre o presente." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

A leitura de Banzeiro òkótó (2021), da escritora, jornalista e documentarista Eliane Brum, foi difícil para mim. Cada capítulo era uma porrada e tinha que parar para recuperar o fôlego e o ânimo. Foi uma leitura deprê. No entanto, foi uma leitura necessária! Terminei a jornada emocionado, com lágrimas nos olhos.

A indicação de leitura do livro foi do curso"13 livros para compreender o Brasil", curso presencial que fiz no Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Agradeço aos professores Suze Piza e Lindener Pareto pela referência de leituras que eu não escolheria por conta própria. Estou lendo cada um dos livros que não havia lido ainda. E a cada leitura, mudo, saio diferente.

O primeiro excerto que citei acima, é central! Ou a gente imagina um mundo livre do capitalismo ou não haverá mais mundo para vivermos, nem nós, nem as formas de vida que habitam o planeta Terra.

Eliane Brum nos mostra tanta coisa, tanta coisa, que a gente fica tonto! 

Durante os anos trágicos do mandato canalha e genocida do clã miliciano do Rio de Janeiro, eu pensava em termos exércitos armados para lutar contra os destruidores da Amazônia e Pantanal e biomas do litoral brasileiro. A guerra sempre foi desproporcional, os defensores dos biomas entram com os corpos e os exploradores entram com as balas. Só morrem pessoas de um lado. Matam indígenas, quilombolas e brancos que defendem a natureza. Depois destroem a natureza para sempre... e fica por isso mesmo!

Durante a leitura do livro-denúncia de Brum, a gente descobre que tem parlamentar petista que homenageia o maior grileiro do Brasil... puta que pariu! A gente descobre a extensão da destruição da usina hidrelétrica de Belo Monte, não feita durante a ditadura e feita por governos de esquerda de Lula e Dilma... puta que pariu!

O mundo é um lugar foda! E nem dá para desistir de lutar ou de viver porque ao desistir o inimigo do mundo, dos povos e da natureza ganha sem a gente lutar, ganha por WO, que foda!

Amig@s leitores, não adiantaria eu ficar falando sobre o livro ou os capítulos do livro de Eliane Brum. O que posso dizer é que a leitura deveria ser obrigatória para gerar algum incômodo e constrangimento em cada pessoa que lesse o que ela nos conta ali.


"É necessário agora redesenhar o movimento feito ao longo deste livro, para que o conceito seja estabelecido. O banzeiro dá mais algumas voltas, mas agora no sentido de “òkòtó”, palavra na língua iorubá que compõe o título deste livro. Ela me foi dada num jogo de búzios com Pai Rodney de Oxóssi, babalorixá, antropólogo e escritor. Ela veio e tomou conta de minha percepção sobre o movimento e também da capa deste livro. Assoprada por Exu, esta foi mais do que uma volta. Òkòtó é um caracol, uma concha cônica que contém uma história ossificada que se move em espiral a partir de uma base de pião. A cada revolução, amplia-se “mais e mais, até converter-se numa circunferência aberta para o infinito”. Amazônia Centro do Mundo é banzeiro em transfiguração para òkòtó." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

É isso! Abaixo cito algumas passagens que marcaram este leitor que vos fala.

Leiam o livro, se revoltem, saiam do conforto que talvez tenham adquirido. Poucos brancos bilionários estão destruindo o mundo de bilhões de pessoas humanas e bilhões de outres seres.

A vontade de mudar o rumo do mundo é enorme depois que lemos Banzeiro òkótó... não é possível se sentir à vontade com essa merda toda que está rolando neste exato momento.

William

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BANZEIRO ÒKÓTÓ

O privilégio e a violência por ser um branco no Brasil


"Por mais éticos que nós, brancos, possamos ser no plano individual, a nossa condição de brancos num país racista nos lança numa experiência cotidiana em que somos violentos apenas por existir. Quando eu nasço no Brasil, em vez de na Itália, porque as elites brasileiras decidiram branquear o país importando homens e mulheres brancos como meus bisavós, já sou violenta ao nascer. Quando ao meu redor os negros têm os piores empregos e os piores salários, a pior saúde, o pior estudo, a pior casa, a pior vida e a pior morte, eu, na condição de branca, existo violentamente mesmo sem ser uma pessoa violenta." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

Ao ler essa afirmação de Brum, fiquei pensando nas pessoas do meu cotidiano, estejam elas nas ruas e nos faróis pedindo uma ajuda, ou nos postos de trabalho que me atendem de alguma forma, peles de tons diversos entre o pardo e o preto. Brasil.


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Os capitalistas responsáveis pela destruição do mundo


"Quando a pandemia começou, apenas 2153 pessoas — às vezes esquecemos que bilionários são pessoas, têm nome e sobrenome — concentravam mais riqueza material do que 60% de quase 8 bilhões de seres humanes que habitam o planeta. Bilionários representam uma fração tão insignificante no conjunto da população global que os números falham em torná-los visíveis como porcentagem: menos de 0,00003% — ou 1 bilionário para cada 3,7 milhões de pessoas. A desigualdade racial, social, de gênero e de espécie que provocam, porém, é brutalmente visível." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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Nós somos a maior praga do planeta Terra


"Diz Antonio Nobre: 'A floresta sobreviveu por mais de 50 milhões de anos a vulcanismos, glaciações, meteoros, deriva do continente. Mas em menos de cinquenta anos, encontra-se ameaçada pela ação de humanos.'" (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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O negacionismo ao lidar com a questão da emergência climática


"O que nos causa mais terror, porém, é o fato de que mesmo diante de evidências tão eloquentes, da enormidade da ameaça, a maioria da população siga negando a realidade que também construiu. Mesmo com a água faltando nas torneiras, com a temperatura mais alta a cada ano, com a vida sendo mastigada dia a dia, a alienação é assombrosa. Padecemos de desconexão com o mundo justamente na época mais conectada da história humana, na qual a maioria vive em rede quase todas as horas de vigília." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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Eliane Brum assumiu seu posto na guerra climática e foi para o front de batalha onde se definirá a história da humanidade e do planeta Terra. Que ato nobre da porra!


"Eu escolhi meu lado na guerra climática, o que levou meu corpo a Altamira, uma das múltiplas linhas de frente do planeta. Meu desafio, como branca, é aprender a pensar e me pensar a partir de relações radicalmente diferentes com humanes e mais-que-humanes. Meu desafio é me desbranquear — ou fazer o movimento do desbranqueamento, que nunca serei capaz de completar. É essa travessia que vocês fizeram comigo no lento caminhar deste livro. Busquei compartilhar o processo que me trouxe até o agora, que me lançou no banzeiro e talvez me lance no òkòtó." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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O fim do mundo não é um fim, mas um meio


"Altamira é uma ruína. É, como o Brasil, uma constante construção de ruínas sobre a mais monumental de todas as ruínas, a da floresta que antes havia ali. Como toda fronteira simbólica, Altamira é vanguarda do mundo. Finalmente compreendi ali, com todo o meu corpo, que o fim do mundo não é um fim, mas um meio." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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Gaúchos: gafanhotos da Amazônia: onde pousam, não sobra nada vivo na natureza...


"Na conversa, apresentou-me, e eu disse, toda animada: 'Ah! Eu também sou gaúcha. De onde tu é?'. A conversa foi rápida e, quando seguimos pelas prateleiras, meu companheiro de compras informou: 'É um grileiro'. E eu, ainda ingênua: 'Puxa, um gaúcho, que vergonha'. Ele então esclareceu: 'É importante que você entenda que os gaúchos são conhecidos como os gafanhotos da Amazônia'." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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O planeta Terra não é nem uma fazendona nem uma espaçonave. O único caminho é se florestar


"Suspeito que todo astronauta será caubói um dia, e não o contrário. Minha proposta e de outras pessoas é que viremos todes indígenas, no sentido de nos compreender como parte orgânica de um planeta vivo e compreender a vida como essa relação fascinante de intercâmbios e de dependência mútua entre diferentes formas de ocupar o mesmo corpo. Me parece que o único caminho é se florestar." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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De novo: a Terra não é um pasto para bandeirantes e terraplanistas explorarem


"O economista inglês, naturalizado estadunidense, Kenneth Boulding (1910-93) criou uma distinção entre o que chamou de a economia do caubói e a do astronauta. Os caubóis — e claramente ele fazia referência aos homens que colonizaram o Velho Oeste dos Estados Unidos e foram mitificados por Hollywood — enxergam o planeta como terra plana: vastos espaços abertos com recursos infinitos, à espera de que os mais fortes os dominem, destruindo os povos originários, os não gente, e a natureza. No Brasil, esse conceito poderia ser chamado de economia do bandeirante e apelidado de Borba Gato. Ou então de economia do pioneiro e apelidada de gafanhoto. Podemos pensar que não é um acaso que na época de déspotas eleitos como Bolsonaro o terraplanismo esteja tão em voga." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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Maior grileiro do país homenageado por parlamentar do PT do Paraná é excomungado por padre na Amazônia


"Padre Patrício foi particularmente iluminado naquela festa. Em seu sermão evocou toda a história de resistência da comunidade na Terra do Meio e excomungou o grileiro Cecílio do Rego Almeida sem nenhuma misericórdia. Lá do fundo um beiradeiro gritou para atualizar o piedoso sacerdote: 'Ele já morreu, padre!'. E padre Patrício ecoou em altos brados, com as mãos levantadas para o céu em júbilo divino: 'Graças a Deus!'." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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Os piores destruidores do mundo são os maiores "cidadãos de bem" do mundo...


"A Amazônia é destruída primeiro para especular, depois, ocasionalmente, alguns vão cogitar produzir soja para o gado comer ou gado para os humanes comerem. O roubo, devidamente lavado e legalizado, vira então “agronegócio”, os criminosos se tornam “cidadãos de bem”, alguns se tornam prefeitos, são reconhecidos nas sociedades locais como “pioneiros” e, com algum empenho, quando morrem, viram nome de rua e estátua na praça." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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O que é um desgraçado de um grileiro?


"Grileiros são pessoas que tomam ilegalmente, em geral pela força, milhares, às vezes milhões, de hectares de terra pública. Na Amazônia, para consolidar seu domínio, usam milícias formadas por pistoleiros para expulsar os povos-floresta — indígenas, beiradeiros e quilombolas. Nesse processo, povos-floresta são assassinados, dando ao Brasil, ano após ano, o pódio dos países onde mais morrem defensores do meio ambiente. Os grileiros derrubam as árvores chamadas nobres, por ter valor no mercado nacional e internacional, e queimam o restante da vida, provocando as queimadas que assombraram o mundo em 2019. Depois, colocam bois apenas para garantir a posse. Com frequência, o trabalho ilegal é realizado por homens escravizados. Caso se revoltem, são enterrados ali mesmo, em covas que jamais serão encontradas." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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Por que "grileiros"? Porque colocam grilos para cagarem em papéis para parecerem papéis antigos e velhos


"A especulação com a terra é o principal objetivo de parte dos grileiros, que ganharam esse nome porque no passado a fraude era consumada colocando-se papéis novos com grilos vivos numa caixa. Os excrementos desses insetos tão mimosos nas produções da Disney, mas conhecidos na Amazônia por outros talentos, forjavam a aparência amarelada típica de antigos títulos de terra, tornando-os portanto mais verossímeis." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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Povos indígenas, beiradeiros e quilombolas são povos da resistência


"É preciso subverter esse olhar para enxergar melhor. O que chamamos de Brasil é um monumental exemplo de resistência. Ou, dito pelo avesso para voltar ao lado certo, o Brasil foi jogado contra indígenas — e os negros foram jogados no Brasil. E ainda assim indígenas e negros têm resistido por séculos. Não só têm resistido, como têm desformado o Brasil." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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As resistências possíveis contra o fim do mundo


"Mas não é sobre isso que escrevo — ou é, mas não principalmente. Escrevo sobre resistência. Sobre como tornar a vida possível apesar de todas as formas de morte — ou, no caso dos povos originários no Brasil, apesar de tentarem matá-los de todas as formas há mais de quinhentos anos. Essa jornada pela Amazônia, para muito além da geografia, é também uma investigação sobre as resistências possíveis no momento em que vivemos o impossível da emergência climática e da sexta extinção em massa de espécies." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

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Bibliografia:

BRUM, Eliane. Banzeiro òkótó: uma viagem à Amazônia centro do mundo. Companhia das Letras: 2021.


sábado, 21 de outubro de 2023

Diário e reflexões


Pôr do sol em Uberlândia.

Refeição Cultural

Osasco, 21 de outubro de 2023. Sábado.


Reflexões a respeito da não esperança e a ética de lutar assim mesmo pela vida e por um mundo melhor para a coletividade ao ler Banzeiro òkòtó: uma viagem à Amazônia centro do mundo


"(...) pela primeira vez na trajetória humana, o futuro, em grande medida, está dado. Sabemos que viveremos num planeta muito pior..." (Eliane Brum, em Banzeiro òkòtó)


Essa constatação citada acima, da escritora e jornalista Eliane Brum, de que o amanhã será pior que o presente, por causa do colapso ambiental no planeta, é ousada e chocante, e também responsável. Alguém tem que dizer sem meias palavras algumas verdades factuais para a humanidade. Nós e nossos jovens e crianças de hoje estamos todos fodidos no amanhã por causa do que fizemos ao planeta Terra.

Aliás, os responsáveis diretos por destruírem as condições de vida no planeta podem até ser poucos caras - em geral homens brancos -, os donos do poder real, os capitalistas e endinheirados do mundo e seus lacaios no poder estatal, mas não fazer nada ao termos a consciência da realidade e ficarmos em nosso mundinho pessoal levando a vida nos faz cúmplices da destruição do único mundo possível para se viver.

A leitura desse livro-denúncia de Eliane Brum é uma leitura motivada pela minha busca de conhecimento, pela minha participação no Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Por fazer parte dos coletivos de humanes que não desistiram de estudar e aprender novos saberes e por fazer o curso "13 livros para compreender o Brasil" me peguei lendo livros que eu não escolheria para ler caso estivesse somente por minhas listas de desejos de leitura. 

O livro é denso demais, doloroso demais. Eu particularmente não consigo embalar a leitura em uma centena de páginas porque a cada capítulo fico mal, pensativo, indignado, querendo abrir a porta de casa e sair para fazer alguma coisa pelo mundo. 

Alguém rapidamente pode pensar: mas então pra quê ler um troço tão deprê desses? Porque é nossa obrigação ética de ser humano politizado e educado estudar e pensar a respeito dos problemas que afetam a vida humana e a vida no único lugar no universo onde há formas de vida desenvolvidas como na Terra. (nunca me esqueci das palavras de Carl Sagan falando sobre o pálido ponto azul visto do espaço)

O capítulo "68. a esperança é superestimada" é muito intenso. Os seguintes também, quando Brum aborda a questão do suicídio dos jovens na região de Altamira. Em certo momento, a escritora vai abrindo o coração para os leitores e nos vemos nela, eu me vi nela. Imagino que cada leitora e leitor se verá nela, se verá no espelho do presente ou do passado de sua própria vida. Eu me vi em Eliane Brum ao ler uma sequência de capítulos duríssimos como os que estou neste momento da leitura.

Eu já sofria com a impotência de indivíduo atomizado no mundo ao ver a mortandade na região da Ucrânia, numa guerra onde os civis são bucha de canhão da disputa hegemônica pelo poder do mundo, sempre com os Estados Unidos por trás das guerras, e agora estamos assistindo ao genocídio do povo palestino por parte do Estado sionista de Israel. E aí fico pensando no relato de Eliane Brum nos contanto sobre a guerra que os humanes estão travando contra a Amazônia e os demais biomas do mundo...

Registro triste. Registro necessário. A gente fica triste, mas não desiste de lutar e de viver e de se envolver em algo que possa contribuir para mudar essa realidade. Estudar e escrever é uma forma de atuar. Sigamos.

É preciso tolerância e unidade para pararmos as guerras, contra pessoas humanas e contra a natureza.

William


sábado, 30 de setembro de 2023

Diário e reflexões - Setembro



Refeição Cultural - Setembro

Osasco, 30 de setembro de 2023. Sábado.


CENAS COTIDIANAS

Estava neste sábado pela manhã caminhando no parque. Conheço as árvores ali há muito tempo. Aí um senhor de cabelos grisalhos, do alto da sua sabedoria e experiência, explicava ao rapaz de madeixas longas, que aquela vagem com sementes era ingá que não havia "vingado"... o rapaz concordou e a família seguiu andando. O "sábio" explicou para o rapaz que aquela vagem de sementes de ipê amarelo era ingá que não vingou... e quem via o velho explicando poderia jurar que ele sabia o que estava falando!

Outro dia na padaria perto de casa, cheguei e entrei numa pequena fila com umas cinco pessoas na minha frente. Uma das pessoas estava com um carrinho de bebê... Quando a moça foi até o balcão, vi que o carrinho de bebê tinha um cachorro dentro... "filhinha", disse a dona para a cachorra dentro do carrinho de bebê. Eu fico feliz quando vejo que parte da sociedade humana passou a respeitar os demais seres vivos, os animais e plantas etc. Mas a natureza não vai mudar... cachorro é cachorro, cachorro não é ser humano, nunca será.

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SETEMBRO

Comecei o último dia do mês de setembro do jeito que comecei o mês, passando a noite em claro, sem dormir e com as preocupações de quem vive em cidade grande e violenta com filhos pela madrugada bebendo por aí. Pra despertar o cansaço do estresse no corpo, saí com o sol ainda morno para caminhar.

Registro a passagem de mais um mês em minha vida, impressões e sentimentos a respeito da vida, do mundo e de mim, um ser vivo da natureza que lê, pensa e escreve.

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LEITURAS E CULTURA

Ando às voltas com os ensinamentos de Paulo Freire, de Abdias Nascimento e de Eliane Brum. As leituras dos textos desses sábi@s seres humanos nos colocam a pensar, a observar tudo ao redor e dentro de nós, nos colocam a questionar as nossas contradições.

Paulo Freire nos explica sobre sermos pessoas-sujeitos e não objetos. Nos ensina sobre a "Educação como prática da liberdade" e nos alerta que liberdade tem que vir com responsabilidade. Avalio que a nossa geração queria tanto dar liberdade e conforto aos nossos filhos que estamos legando ao mundo uma geração sem responsabilidades. Só liberdade sem a tomada de consciência e a responsabilidade pelo nosso presente e futuro pode representar o fim da humanidade.

Abdias Nascimento escancara os preconceitos e a máquina de matar as pessoas negras e seus descendentes no Brasil, põe o dedo na ferida ao desfazer o mito da democracia racial, cita diversos intelectuais e pessoas influentes de nossa história que a gente nem fazia ideia de que eram pessoas racistas. Ao ler "O genocídio do negro brasileiro" o leitor só seguirá fazendo de conta que existe democracia racial se for muito canalha ou se for analfabeto funcional e político, o que é muito comum no país.

Eliane Brum nos põe em estado de choque a cada página de seu livro "Banzeiro òkòtó - Uma viagem à Amazônia centro do mundo". A leitura me faz refletir o tempo todo sobre o que fazer para impedir a destruição da floresta e, consequentemente, as nossas chances de vida no planeta Terra. 

Os povos-floresta estão lá defendendo a natureza e sendo exterminados e a gente fica aqui no conforto de nossos mundos concretos urbanos arrotando palavras de ordem sobre o meio ambiente... enquanto isso, um ser humano só, com poder econômico e político, destrói tamanhos incalculáveis de floresta e vidas e nós ficamos amortecidos com os blá blá blá das nuvens de imagens e notícias que capturam as nossas atenções... só que a "boiada tá passando" e não vai sobrar nada.

O planeta Terra já está na emergência climática, estamos fritando, estamos vivendo a 6ª extinção em massa e algumas dúzias de fdp seguem curtindo a vida em seus fancy restaurants pagando caro por pratos fru-fru às custas das vidas todas do planeta... (e as pessoas das gerações jovens e adultas seguem cada uma cuidando da sua bolha de interesse pessoal...)

Terminei a leitura de dois livros: Cuba insurgente, da professora Maria Leite (comentário aqui) e Operários sem patrão, de Lorena Holzmann (aqui). Agora são 25 livros lidos neste ano.

Vi alguns filmes interessantes neste mês. Comentários aqui.

Cursos do ICL: também estou pegando firme em alguns cursos do Instituto Conhecimento Liberta.

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LÍNGUAS E LINGUAGEM

Sigo com a ideia de usar a aprendizagem de idiomas como um exercício para meus 86 bilhões de neurônios. À medida que estudo um pouco de línguas, vejo quão fascinante é esta habilidade do homo sapiens.

Ao mesmo tempo que admiro nossa habilidade, quedo impactado pelo processo acelerado de degeneração da capacidade de pensar, criar e usar a linguagem - em especial as línguas - por parte do mesmo homo sapiens deste início de século 21. Minha teoria é que tendemos a perder a habilidade de escrever e registrar nossas línguas. E também percebo que os humanos estão perdendo a grande variedade de palavras que as línguas atuais têm/tinham. Há um claro empobrecimento da língua.

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CASSI, AUTOGESTÃO DOS TRABALHADORES DO BB

E a Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, uma autogestão em saúde, segue numa "boa" (contém ironia), sem enfrentamento nenhum entre patrocinador e associados e seus representantes. Apesar do novo déficit de centenas de milhões de reais, mesmo tendo entrado bilhões de reais em recursos novos nos últimos anos, nossa Cassi parece estar no "caminho certo", o caminho apontado pelas gestões de Temer e Bolsonaro, que apostaram na terceirização de tudo para o mercado privado da saúde e tiraram o foco na Estratégia de Saúde da Família (ESF), com unidades CliniCassi próprias, funcionários próprios ao invés de "parceiros" e programas de saúde próprios. 

Ao apostar no mercado, o foco atual da Cassi me parece seguir sendo a geração de demanda espontânea através do "faz uma chamada telemedicina aí...". O mercado privado vendedor de procedimentos médicos agradece! Haja dinheiro da Caixa para pagar tudo que os participantes quiserem de procedimentos... (a propaganda é a alma do negócio! Faz um procedimento aí...)

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GOSTO DA REGIÃO ONDE MORAMOS

Enquanto caminhava nos arredores de casa, refletia sobre o quanto é bonito o bairro onde moro, arborizado e cheio de pássaros.

Me lembro de quando me mudei para a região, vinte e quatro anos atrás, era tudo bem diferente, o mundo estava surgindo por aqui. Rua de terra, sem árvores, poucas torres de prédios. Sem ligação com o centro de Osasco por avenida etc.

Agora temos vários shopping center ao redor, padaria, mercados e toda estrutura básica do bairro.

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POLÍTICA NO BRASIL

Jamais irei desaprender a política. No entanto, decidi limitar o tempo que dedico a ler e ouvir sobre política nos últimos meses. O tempo economizado com política será utilizado com estudos.

Estamos com 9 meses de governo Lula. O presidente tem o meu apoio. É o nosso governo. Lula fez um discurso histórico na abertura da 78ª Assembleia Geral da ONU. Nossa política externa voltou a ser ativa e altiva com Lula.

Me incomoda muito só ver condenações de "bagrinhos" em relação à tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro. Não tem um fdp financiador julgado e condenado e os caras da família mafiosa sequer estão respondendo a acusações formais. Milhões de dinheiros e imóveis, roubo de joias, e um alfabeto inteiro de suspeitas de crimes e nada de acusações formais.

Na minha leitura, podemos sofrer tentativa de golpe de Estado ainda durante o mandato do governo Lula, que também entendo que pode sofrer ataques parlamentares e ou semelhantes àquela operação farsante da Lava Jato. E também temo por nova investida dos Estados Unidos em patrocinar golpe contra nós brasileiros.

Não confio nem um pouco nos órgãos de justiça do país, tipo STF. Por mais que haja servidores públicos corretos no judiciário, a estrutura favorece uma casta que acaba agindo de maneira corporativa e não com olhar para a coletividade.

Essa é a minha rápida opinião e impressão sobre política no Brasil neste momento do mundo.

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Acho que paro o registro por aqui.

Sigo tentando ganhar novos conhecimentos e procurando ser uma pessoa melhor.

William


Post Scriptum: a postagem de agosto pode ser vista aqui.


terça-feira, 26 de setembro de 2023

Brasil capitalista e racista



Refeição Cultural

Osasco, 26 de setembro de 2023. Terça-feira.


Opinião


"Se os negros vivem nas favelas porque não possuem meios para alugar ou comprar residência nas áreas habitáveis, por sua vez a falta de dinheiro resulta da discriminação no emprego. Se a falta de emprego é por causa de carência de preparo técnico e de instrução adequada, a falta desta aptidão se deve à ausência de recurso financeiro. Nesta teia, o afro-brasileiro se vê tolhido de todos os lados, prisioneiro de um círculo vicioso de discriminação – no emprego, na escola – e trancadas as oportunidades que lhe permitiriam melhorar suas condições de vida, sua moradia, inclusive." (from: "O Genocídio do negro brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado", by: Abdias Nascimento)


O Brasil é um país racista. Nós somos um povo racista. Não existe democracia racial no Brasil. Nós somos um povo violento. Somos um país capitalista. Somos um país misógino. Não somos um país laico. Somos um povo violento até quando achamos que não somos. Essas são as minhas impressões sobre o país onde nasci e vivo há décadas. Essa é a minha opinião após anos de estudos e de vivência entre a classe trabalhadora, que representei e organizei por muito tempo. Essa é a minha opinião dita aqui como garante a lei maior a respeito da liberdade de opinião, a mesma lei maior - a Constituição Federal de 1988 - que usam para dizer que o Brasil é laico e que, no entanto, fala em nome de "Deus" em seu preâmbulo... (laico, sim, sei...)

Somos racistas e violentos não porque queremos ou por destino, como se fosse algo biológico ou do plano místico, somos o que somos por causa da história, por causa da nossa história, por causa da nossa realidade material construída nos últimos séculos. Somos o que somos pelos acontecimentos históricos que impactaram na conformação da vida nacional. Como não existem essas abstrações mentais deterministas de destino ou que algo estava escrito em algum lugar místico, poderíamos no instante seguinte mudar a tendência de seguir sendo o que somos... o problema é que não vislumbro perspectivas de mudança, infelizmente.

Estou lendo Eliane Brum discorrendo sobre a Amazônia e a emergência climática num calor de fritar ovo no asfalto, cozinhando corpo e mente em nosso apartamento sem ar-condicionado, só com ventiladores soprando o vento quente da realidade material do mundo sendo consumido por nós consumistas das coisas criadas pelas corporações capitalistas do mundo. O livro Banzeiro òkòtó (2021) é uma catarse a cada parágrafo, a cada capítulo, e a gente vai lendo e sofrendo ao entender o quão foda é o que estão(mos) fazendo com a floresta amazônica e com os povos que protegiam a floresta de nós. (aí me lembro que nem as lideranças do PT aceitam mais falarmos em socialismo e lutar contra o capitalismo...)

Enquanto frito no calor da realidade da emergência climática, leio também o livro-denúncia de Abdias Nascimento - O genocídio do negro brasileiro (1978). Que porrada! Já começo a acumular leituras de textos engajados nessas temáticas sobre a condição das negras e negros no Brasil (as pessoas "de cor"). No entanto, Abdias traz novidades ao fazer tantas citações de figuras públicas que eu não sabia que eram racistas que a gente fica de queixo caído... Somos um povo racista, até quando achamos que não somos, essa é a verdade!

Aliás, o desconforto que Eliane Brum descreve por ter plena consciência de sua condição de branca no Brasil racista deveria ser o mesmo desconforto ou consciência que todos nós poderíamos sentir ao nos identificarmos como brancos nessa terra racista. Como percebemos ao ler Abdias Nascimento e Eliane Brum, em algum momento de nossas vidas de brancos neste país racista, tivemos nosso cotidiano marcado por algum privilégio por causa da cor da nossa pele ou origem racial. Qualquer dado estatístico sobre o povo brasileiro demonstra os efeitos do racismo estrutural.

Da leitura de hoje de Abdias, pincei uma frase do escritor e pensador que ilustra bem o que aprendi nas formações políticas do movimento sindical, um conceito que a companheira Deise Recoaro explicava nas suas palestras sobre questões de gênero, raça e orientação sexual. Ela nos explicava que:

- Preconceito gera discriminação, discriminação gera falta de oportunidades e falta de oportunidades gera desigualdade social. Somos nós, o Brasil, o país mais desigual do mundo! Um país capitalista e racista. E misógino! Tudo junto e misturado.

Enfim, somos natureza, tudo está contido na mesma natureza chamada planeta Terra. Nós animais humanos só somos componentes da natureza, como todos os demais componentes da natureza. Assim como a natureza muda o tempo todo, e o animal humano altera a natureza com mais velocidade que os demais seres e elementos, podemos alterar a tendência atual das coisas. A questão é: queremos mudar a tendência escatológica das coisas no mundo atual? Se queremos, estamos atuando para mudar algo ou não em relação a postergar o fim das condições de vida na Terra?

William


sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Lendo "Banzeiro òkòtó", de Eliane Brum




Refeição Cultural

Osasco, 22 de setembro de 2023. Sexta-feira.


"A tessitura deste livro, que é também uma convocação à amazonização do mundo, para muito além do território geográfico da Amazônia, tem uma proposta explícita: é tempo — e talvez a última oportunidade de tempo — de escutar aqueles que foram chamados de bárbaros, aqueles que foram relegados à condição de sub-humanidades no processo colonizador que ao longo dos séculos só mudou de estética, mas não de ética. Escutar não por condescendência nem por compaixão, mas por derradeiro instinto de sobrevivência. E, talvez, se tivermos sorte, aqueles cujas vidas foram tantas vezes destruídas pelos que se autodenominam civilizados aceitem nos ensinar a viver depois do fim do mundo, apesar de tudo o que fizemos contra seus corpos." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)


A catarse ao ler Eliane Brum

Começo esta reflexão com uma definição simples do que seria a palavra catarse, para dizer que vivencio uma catarse ao estar lendo o livro Banzeiro òkòtó, da jornalista e escritora Eliane Brum. Tirei a definição da Wikipedia.

- Catarse (do grego κάθαρσις, kátharsis, "purificação", derivado de καϑαίρω, "purificar") é uma palavra utilizada em diversos contextos, como a tragédia, a medicina ou a psicanálise. Significa "purificação", "evacuação" ou "purgação". Segundo Aristóteles, a catarse refere-se à purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um trauma.

Ou seja, é preciso que o herói trágico passe da "felicidade" para a "infelicidade" para que o espectador possa atingir a catarse. Por exemplo: Édipo Rei começa a história como rei de Tebas e, no fim, se cega e se exila. Ou a tragédia Romeu e Julieta, de Shakespeare, na qual os dois protagonistas fazem parte da elite da cidade e são mortos pelo seu amor proibido.

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A leitura desta obra da jornalista e escritora Eliane Brum foi motivada pela participação no curso "13 livros para compreender o Brasil", do Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Fiz o curso meses atrás e estou no processo de leitura dos livros apresentados e debatidos no curso (comentário aqui).


A cada capítulo que leio, experimento a descarga emocional e o impacto causado pela catarse gerada em mim ao ler o que a autora compartilha conosco. É impressionante! Para entender a questão que ela está tratando, temos que rever nossos conceitos e visões de mundo, reaprender a ver as coisas da realidade.


No capítulo que li hoje pela manhã - "povos-floresta: a aliança de entes e entres" - a escritora nos ensina a rever os conceitos de propriedade, de o que pertence ao que e o que somos quando se trata de pensar a natureza. 

Por causa de meus estudos e buscas pessoais recentes já tenho utilizado em meus textos esta denominação "natureza" para nos lembrar o que somos: natureza. 

No entanto, Brum organiza metodicamente os porquês para entendermos o que somos e por que somos o que somos: natureza.


Na sequência de citações abaixo, podemos entender um pouco do que Eliane Brum nos explica:


"Agora que quilombolas e beiradeiros já foram aqui apresentados e se enfileiram ao lado dos diferentes grupos indígenas na composição humana da floresta, eu paro de chamá-los de “povos da floresta” e passo a me referir a eles como povos-floresta. Considero que, a partir deste momento, já é possível compreender primeiro o mais óbvio, uma das premissas deste livro: o fato de que a floresta não pertence a eles (nem a ninguém), por isso jamais usei “a floresta dos povos”. Inclusive por uma impossibilidade lógica e conceitual que se expressa na linguagem: quando a floresta passa a pertencer às pessoas humanas, no sentido da propriedade, ela já não é mais floresta. A propriedade pressupõe a aniquilação do corpo. Assim, o que pode pertencer a humanes não é mais floresta, mas suas ruínas. O que pode pertencer a humanes é campo de soja, pasto para boi, hidrelétrica, ferrovia e rodovia. A floresta é, por definição, constante intercâmbio. Ela é tanto plantada por pessoas humanas e não humanas quanto também as planta. O conceito de propriedade é tão estranho como incompatível com a floresta. Ao ser submetido a ele, a floresta torna-se um não ser." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)

e também:

"Povos da floresta implica que são os povos que pertencem à floresta, e não a floresta que pertence aos povos. A crase no “a” faz toda a diferença. Para ser considerado e reconhecido como povo da floresta é preciso encarnar duas transgressões ao sistema capitalista. A primeira é que não se trata de propriedade, mas de pertencimento, o que é radicalmente diverso. A segunda é que aqueles que pertencem à terra são as pessoas humanas — e não o contrário." (from "Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo" by Eliane Brum)


Amig@s leitores, repito a vocês: cada capítulo é uma catarse para o leitor atento.


A cada leitura que tenho feito no meu percurso recente de leituras e estudos, mais adquiro uma espécie de consciência do quanto somos partículas, átomos, grãos de algo muito grande. Sinto impotência e ao mesmo tempo necessidade de saber algo a mais, na esperança de ao menos me tornar um ser consciente do que é.


Sigamos lendo, refletindo e sugerindo que as pessoas recuperem a curiosidade que nos trouxe até aqui, curiosidade filosófica que chegamos a ter enquanto espécie animal em nosso caminhar de milhões de anos e que está ameaçada ao nos tornarmos zumbis digitais, baterias da matrix que nos capturou talvez como nunca antes na história humana.


William


Bibliografia:


BRUM, Eliane. Banzeiro òkòtó - Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo. Companhia das Letras, 2021.


quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 20 de setembro de 2023. Quarta-feira.


Ao estudar algo novo percebemos o quanto sabemos pouco de quase tudo. Eu tenho clareza disso há bastante tempo. Essa consciência de saber que quase nada sei já me acompanha desde a adolescência, lá nos anos oitenta do século passado. O não saber me incomodava e ainda incomoda até hoje.

Como tudo muda o tempo todo, o mundo mudou de lá para cá, a sociedade humana mudou, e muito. Atualmente, há quase um incentivo à ignorância. Tenho a impressão de que as gerações que foram sendo aculturadas nas últimas décadas perderam um pouco do interesse ou desejo de estudar e saber cada dia mais sobre tudo. Pode ser só uma impressão minha.

Ao decidir incluir no meu cotidiano uma carga de estudos de algumas coisas, me lembrei dos ensinamentos que lia quando estudava para concursos públicos. Os professores e especialistas diziam que o conhecimento tende a ir aumentando cada vez mais, à medida que vamos estudando com planejamento e estratégias definidas. Vamos ver...

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CURSOS DO ICL

Estou entrando em meu terceiro ano como membro associado do Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Durante os dois primeiros anos, acabei me inscrevendo mais para contribuir com o sucesso do projeto revolucionário do Instituto. Quase não entrava na plataforma nem via aula alguma. Só de pagar uma mensalidade solidária já me sentia satisfeito.

Agora decidi olhar com mais atenção a plataforma e as opções de cursos disponíveis, principalmente por causa de meu objetivo de provocar e estimular meu cérebro a se exercitar e se manter ativo e funcional. 

Quero postergar ao máximo os eventuais problemas que a natureza me reserva com o passar dos anos de existência. Somos natureza, o tempo é implacável em nossos corpos e o futuro não existe, pois não temos poder sobre o amanhã. O máximo que podemos fazer é a nossa parte para estarmos bem. E significar ou dar sentidos ao viver.

Dos poucos cursos que já fiz no ICL, um deles me estimulou a ler diversos livros profundos e que nos fazem pensar o Brasil, o povo brasileiro e a vida (comentário aqui). Tenho ainda uns sete livros pra ler somente pela referência desse curso. Estou lendo agora os livros de Abdias Nascimento e Eliane Brum. Demais demais!

Estou fazendo um curso sobre o nosso mestre Paulo Freire. Cada aula faz a gente pensar tanto e tanta coisa, que a vontade que temos é de lermos todos os livros citados no curso. É muita coisa, é verdade! 

Compartilho com vocês que eventualmente leem o blog um sentimento que sempre tive: estudar e ler é algo muito gostoso, é trabalhoso, mas é muito gratificante saber coisas novas!

ITALIANO - Até agora, assisti a cinco aulas de Língua Italiana na plataforma do ICL. Que curso legal! A professora Linda Riolo é a simpatia em pessoa e sua didática é fantástica! Foram cinco aulas com muito conteúdo, mas me parece que vou aprender Italiano, mesmo o tiozinho aqui estando com mais de 50 anos de idade.

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NÃO ACRESCENTO MAIS NADA FALANDO DE POLÍTICA

Tenho pensado muitas coisas em minhas caminhadas também. O ímpeto de minha natureza e o cacoete de décadas de representação política me cutucam para falar e escrever sobre diversas questões políticas que estão acontecendo neste exato momento.

O presidente Lula na ONU e seus desafios atuais e os passos já dados pelo nosso governo... achei o discurso do Lula na ONU ousado e histórico. Talvez eu até guarde no blog o discurso do nosso estadista porque os temas tratados por Lula são essenciais para o planeta e a humanidade neste momento da história humana.

A Cassi que apresentou um déficit gigante em seus resultados econômico-financeiros... A Cassi é a Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, uma autogestão em saúde. É uma das poucas coisas que posso dizer que conheço muito porque fui gestor e devo ter sido uma das pessoas que mais estudou a Cassi na história da gestão da entidade. Pois é... a vontade de falar o que penso é enorme, mas isso não faz diferença alguma. Tenho que seguir a minha vida.

É isso. Seguimos estudando e buscando evoluir de alguma forma. 

William


segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 18 de setembro de 2023. Segunda-feira.


Tenho feito poucos registros de diários no blog. Não é falta do que observar e registrar: nosso mundo está se desfazendo e poucos ligam pra isso. É vontade de calar, de silêncio. 

No entanto, algo precisa ser escrito, já que estou me definindo como escritor: alguém que tenha como atividade humana escrever sobre qualquer coisa. Escrever com qualidade e honestidade intelectual, é claro!

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LEITURAS

Estou lendo alguns livros e a leitura tem me deixado muito reflexivo, muito. Se fosse enumerar algumas palavras-chave ou expressões de temas presentes nas leituras que ando fazendo, poderia citar Paulo Freire, Amazônia, Racismo, Eliane Brum, Abdias do Nascimento, China, Cuba, Brasil, estudo de línguas e linguagem, Tempo, História, Socialismo.

A partir de um curso que fiz no Instituto Conhecimento Liberta (ICL), acabei pegando para ler dois livros que não conhecia ainda, um de Abdias Nascimento - O genocídio do negro brasileiro - e outro de Eliane Brum - Banzeiro òkòtó

Abdias fala da população negra no Brasil e desfaz o mito da "democracia racial" e Brum fala da destruição da Amazônia e da condição da mulher. 

Cada capítulo que leio dos livros, fico... sei lá, passado, estupefato. Que merda é essa que nós humanos escolhemos ser? Somos animais fantásticos biologicamente falando, temos um cérebro incrível e decidimos nos tornar monstros inconscientes destruidores do mundo e das formas de vida no planeta. Que foda isso!

Ainda sobre livros em andamento, preciso acabar o livro do Peter Straub - Os mortos vivos. Acabei inventando de reler o livro de terror que li na juventude para tentar lembrar alguma coisa da sensação que tive na época, pois o livro me impressionou e tive medo à época, e o livro é enorme, são mais de 500 páginas. Agora que já li quase a metade, tenho que acabar a leitura...

Os miseráveis, de Victor Hugo: de livros enormes, ao terminar a leitura acima, talvez fique meses só na leitura do clássico de Hugo.

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CÉREBRO: EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM

Diminuí o ritmo de leituras de livros porque decidi desafiar meu cérebro, dar atividades de aprendizagem a ele, estudando idiomas e linguagem. 

Estou às voltas com Português (sim, Português), Espanhol, Japonês, Italiano e Inglês. Não sei nenhum deles, mas tenho vontade de saber sobre esses idiomas e as culturas que eles representam. 

Como diz o professor Luiz de japonês, um passo de cada vez, sempre que contato uma lição, uma aula, uma leitura ou áudio em outra língua, avanço na aprendizagem de alguma coisa nova. Aí está a atividade cerebral que estou interessado. Se ao final do dia, souber alguma coisa a mais que antes, já exercitei meu cérebro, a minha alma humana, a minha identidade.

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HISTÓRIA DO BLOG - O WIKIPEDIA DO WILLIAM

Estou fazendo um trabalho de revisão dos milhares de textos que produzi no blog Refeitório Cultural. Estou terminando a leitura do ano de 2008 do blog, ano que já foi revisto e encadernado. A releitura segue sendo interessante. 

Tratei naquele ano de postar diversos textos sobre aulas da Universidade de São Paulo, da Faculdade de Letras. Tem muita informação boa. Postei aulas de Filologia e Morfologia, estão bem legais os textos. Essa temática sempre foi um dos objetivos do blog. 

Após terminar a releitura do ano de 2008 (216 postagens), irei pegar para reler, diagramar e imprimir o ano de 2009, será um trabalho imenso, pois são 348 postagens. 

Não poderia dizer que nunca escrevi um livro, pois tenho vários livros nos blogs, o de cultura e o do movimento sindical.

É isso, enquanto leio e releio textos, estudo e também exercito meu cérebro.

William