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segunda-feira, 7 de abril de 2025

Poema 24: Ao modo Mario Quintana


AO MODO MARIO QUINTANA


A vida foi assim:

Quando vi, era criança feliz no Jardim Ivana.

Quando vi, era criança infeliz no Marta Helena.

Quando vi, era ódio e vontade de morrer.

Me vi mudado, organizando o mundo.

Quando fui ver, estava cancelado, por quê, não sei.

Faria diferente se outra oportunidade tivesse?

Não! Fiz o melhor que pude do meu tempo.


William Mendes

15/01/25 (Diálogo com o poema "Seiscentos e sessenta e seis)


quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (45) - Seiscentos e sessenta e seis, Mario Quintana



SEISCENTOS E SESSENTA E SEIS - MARIO QUINTANA


A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...

Quando se vê, já é 6ª-feira...

Quando se vê, passaram 60 anos...

Agora, é tarde demais para ser reprovado...

E se me dessem — um dia — uma outra oportunidade,

eu nem olhava o relógio

seguia sempre, sempre em frente...


E iria jogando pelo caminho a casca dourada

e inútil das horas. 


(de “Esconderijos do tempo” por Mario Quintana).

---

COMENTÁRIO:

O tempo... 

A contagem do tempo...

Os deveres de casa, muitas vezes impostos, e talvez inúteis... contratos sociais. 

...

O que gosto nessas utopias das possibilidades (e se, e se...) é a própria consciência do eu-lírico que se ele quisesse ou tivesse tido atitude no tempo passado, teria seguido por outro caminho, feito outra coisa de seu único e precioso tempo de vida.

"E se me dessem — um dia — uma outra oportunidade,"

De verdade, de verdade, o que impede qualquer um de nós de seguir "sempre em frente..."?

---

Enfim, o poema de Quintana me chamou a atenção hoje.

Tenho uma coisa com essa questão do tempo, uma invenção humana, a sua percepção e contagem.

--- 

AO MODO MARIO QUINTANA

A vida foi assim:

Quando vi, era criança feliz no Jardim Ivana.

Quando vi, era criança infeliz no Marta Helena.

Quando vi, era ódio e vontade de morrer.

Me vi mudado, organizando o mundo.

Quando fui ver, estava cancelado, por quê, não sei.

Faria diferente se outra oportunidade tivesse?

Não! Fiz o melhor que pude do meu tempo.

William Mendes 


Bibliografia:

QUINTANA, Mario. Esconderijos do tempo [recurso eletrônico]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.


terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Livro: Esconderijos do tempo - Mario Quintana



Refeição Cultural

Dezembro de 2024


"Os poemas


Os poemas são pássaros que chegam

não se sabe de onde e pousam

no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo

como de um alçapão.

Eles não têm pouso nem porto

alimentam-se um instante em cada par de mãos

e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,

no maravilhado espanto de saberes

que o alimento deles já estava em ti..."


Estou encerrando o ano cultural com a diminuição de minhas lacunas culturais. Consegui ler alguma coisa de grandes autores e autoras dos quais nunca havia lido nada. Nossa capacidade de leitura é sempre aquém do que desejamos, mas é bom conhecer culturas novas.

O poeta Mario Quintana é uma de minhas descobertas neste ano de leituras. Ao decidir ler um pouco de poesia diariamente em dezembro, optei por dar preferência a autores e autoras que ainda não havia lido. Não foi possível fazer isso todos os dias, mas deu certo em conhecer gente nova.

O livro de Quintana é maravilhoso, do início ao fim. É um livro da fase madura do poeta. Agora me falta conhecer suas obras das primeiras fases de sua poética.

Sigamos lendo e conhecendo cultura nova.

William


segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (30) - Poema marciano número dois, Mario Quintana


Van Gogh


POEMA MARCIANO NÚMERO DOIS - MARIO QUINTANA


Nós, os marcianos,

não sabemos nada de nada,

por isso descobrimos coisas

que

de tão visíveis

vocês poderiam até sentar em cima delas...

Não brinco! Não minto! um dia um de nós (Van Gogh) pintou

uma cadeira vulgar,

uma dessas cadeiras de palha trançada...

Mas, quando a viram na tela, foi aquela espantação:

“uma cadeira!”, exclamaram.

Uma cadeira? Não, a cadeira.

Tudo é singular.

Até as Autoridades sabem disso...

Se não, me explica

por que iriam fazer tanta questão

das tuas impressões digitais?!

---

COMENTÁRIO:

Tudo é singular! Assim é o olhar do poeta, singular.

Passei o mês de dezembro descobrindo a singularidade de alguns poetas, algumas poéticas singulares.

Ao ler poemas diariamente, talvez tenha passado os dias mais sensível que o costume.

Como um marciano, que nada sabe, vi e percebi coisas neste mês sensível que ou já via e não percebia ou já sabia e fazia de conta que não sabia.

Vi a falta de consideração, vi a coisa utilitária que sou, vi as coisas como um marciano.

Não quero mais me sentir assim. Mudar é um desejo.

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“uma cadeira!”, exclamaram.
Uma cadeira? Não, a cadeira.
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Vi que sou uma cadeira. E não a cadeira.

Somos todos singulares, por mais que nos julguem cadeiras descartáveis.

É isso! Vou mudar. Quero seguir percebendo o mundo como marciano, mas não posso ser tratado e percebido como os terráqueos autômatos veem tudo.

Não sou uma cadeira.

William

Bibliografia:

QUINTANA, Mario. Esconderijos do tempo [recurso eletrônico]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.


sábado, 21 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (21) - Vida, Mario Quintana



VIDA - MARIO QUINTANA


Não sei 

o que querem de mim essas árvores

essas velhas esquinas

para ficarem tão minhas só de as olhar um momento. 


Ah! se exigirem documentos aí do Outro lado,

extintas as outras memórias,

só poderei mostrar-lhes as folhas soltas de um álbum de imagens:

aqui uma pedra lisa, ali um cavalo parado

ou

uma

nuvem perdida,

perdida...


Meu Deus, que modo estranho de contar uma vida!


Do livro Esconderijos do tempo.

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COMENTÁRIO:

Enquanto tomava meu café da manhã, uma rosquinha deliciosa feita por minha mãe, lia poemas de Mario Quintana. O tema: a vida.

O Eu-lírico me fez pensar nas folhas das árvores do Parque Continental, que me conhecem. Me fez pensar nas minhas velhas esquinas... são 25 anos virando nelas.

Eu que nunca fui uma pessoa dos prazeres da alimentação, por medo de ter uma doença qualquer no trato digestivo, me peguei apreciando o instante único do sabor de mastigar e engolir alguma coisa. 

Nem sabia mais o quanto era formidável comer o arroz com feijão e milho e ovo de minha mãe. 

Comer por 5 dias aquela comidinha saborosa da minha mãe foi VIDA. 

William Mendes 


Bibliografia:

QUINTANA, Mario. Esconderijos do tempo [recurso eletrônico]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.


terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Leitura de poesia (17) - O silêncio, Mario Quintana



O SILÊNCIO - MARIO QUINTANA


Há um grande silêncio que está sempre à escuta...


E a gente se põe a dizer inquietamente qualquer coisa,

qualquer coisa, seja o que for,

desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje 

até a tua dúvida metafísica, Hamleto!


E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala, fala

o silêncio escuta...

e cala.

---

COMENTÁRIO:

Me dispus a ler poesia durante o mês de dezembro, de preferência poetas e obras que ainda não conheço, ou seja, quase tudo, porque não sou um conhecedor de poesia, só comecei a ler poesia depois dos trinta anos de idade. 

De verdade, conheço um pouco de Drummond, minha cachaça. 

Já li Brecht, Leminski, alguns livros de Cecília Meireles, Manuel Bandeira, João Cabral, Mário de Andrade, Oswald de Andrade. Os que cito, já li um ou vários livros.

Comecei dezembro pegando alguns livros que tenho em casa e agora estou escolhendo aleatoriamente a cada dia um(a) poeta e lendo alguns poemas até me identificar mais com um deles.

Hoje pensei em Mario Quintana, que não conheço. Comecei tentando acessar seus poemas, pois não tenho livro algum dele. 

(Um tempo depois) Ufa! Só para conseguir escolher um livro e adquiri-lo na forma digital foi um tempão! 

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Catarse!

Pego o livro Esconderijos do tempo (1980) e começo a leitura...

O primeiro poema "Os poemas" é uma catarse! O segundo poema "O silêncio", me deixa pensativo. O terceiro poema "A canção do mar", o mesmo espanto com a genialidade e a simplicidade do poeta.

Amig@s, eu nunca tinha lido poemas de Mario Quintana e ele tem tudo para virar outra cachaça na vida deste leitor cheio de lacunas culturais.

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Os poemas de Quintana me deixaram impressionado neste começo de contato.

Linguagem simples, mas cheia de conceitos profundos. Impossível ler e não ficar pensando a respeito. 


Vejam esta citação na abertura do livro:

"Um velho relógio de parede 

numa fotografia

- está parado?

(Caderno H)"


Não é de nos deixar pensativos?

Aí vamos para a primeira imagem poética: os poemas como pássaros que pousam no livro... difícil tirar essa imagem da cabeça!

Em seguida, Quintana põe o dedo na antiquíssima questão do silêncio constrangedor, ou que incomoda qualquer pessoa em seu cotidiano. 

O poema é maravilhoso!

Enfim, agora tenho o livro de Quintana. É seguir lendo. 

William Mendes 


Bibliografia:

QUINTANA, Mario. Esconderijos do tempo [recurso eletrônico]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.