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quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Opinião - O povo não é nem de direita nem de esquerda


Atividade no BB em 2012. Foto: Lazarri.


Refeição Cultural

Opinião


O povo não é nem de direita nem de esquerda

Há um processo de politização do povo pela direita, mas podemos politizar as pessoas também se lutarmos contra o sistema de dominação atual


1. INTRODUÇÃO

Escrevo esta reflexão no momento seguinte ao resultado das eleições municipais do Brasil. O articulista é pessoa com experiência na política: fui dirigente sindical e representei com mandatos eletivos a classe trabalhadora por quase duas décadas. Já fui também líder estudantil, síndico de condomínio, membro de conselhos e gestor eleito de autogestão em saúde.

Ao longo de minha vida alternei visões de mundo diametralmente opostas. Sendo hoje uma pessoa materialista e sem nenhum tipo de fé em explicações místicas da vida humana, já fui católico praticante, uma pessoa movida pela fé cristã. Também frequentei e estudei o espiritismo e o candomblé. Já fiz curso completo de gnose, uma escola de autoconhecimento. Diria que sou, hoje, humanista e anticapitalista.

Já tive os preconceitos comuns da cultura brasileira, preconceitos que perduram há séculos nesta ex-colônia sul-americana. O principal preconceito que tive pela minha ambientação dos anos oitenta adiante, quando me tornei jovem adulto no Brasil, foi o preconceito relativo às diversas formas de amor, orientação sexual e relacionamentos humanos, ignorância que só superei ao ser politizado e educado pelo movimento sindical brasileiro.

Já senti ódio, muito ódio em minha vida, e desde pequeno. Já enfrentei um lawfare, um processo administrativo inventado pelos meus adversários políticos para destruir minha história e minha vida. Acreditem: muitas pessoas podem sucumbir aos processos de destruição e assédio. Ninguém merece ser acusado injustamente de algo que não fez. O lawfare teve seu uso político pretendido e depois do objetivo alcançado foi arquivado por falta de provas e materialidade. Acho que minha saúde nunca mais foi a mesma.

Fiz essa introdução em minha reflexão para situar as leitoras e leitores do texto que não tenham o hábito de ler meus artigos no blog, que talvez não me conheçam há mais tempo. Minha experiência de vida e militância exigem de mim um esforço para compreender as questões das diversas formas de fé das pessoas, os ritos e vícios da política sindical e partidária e as causas e efeitos das ferramentas ideológicas do preconceito, que incluem as novas ferramentas tecnológicas das big techs.

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2. A IMPORTÂNCIA DA SOLIDARIEDADE DE CLASSE

Antes de escrever alguma coisa a respeito do resultado dos processos eleitorais que se encerraram nesta semana - com a prevalência expressiva das candidaturas de direita nas cidades do país -, quero registrar algum comentário a respeito da absolvição pelo Supremo Tribunal Federal do companheiro José Dirceu: fiquei feliz com a absolvição. Que bom que lutadoras e lutadores de nosso lado da classe receberam nossa solidariedade nos momentos mais difíceis de suas vidas! Nossos inimigos de classe não têm solidariedade alguma conosco.

Eu não teria como enumerar as diversas lideranças de nosso lado da classe trabalhadora que foram vítimas de novos métodos de assédio, tortura e eliminação da vida política e, inclusive, da vida biológica por parte dos detentores do poder econômico e político instalado no Brasil há cinco séculos: a casa-grande, para resumir os opressores do povo brasileiro.

Pelos papéis que tiveram nas lutas de libertação do povo brasileiro nas últimas décadas, cito as seguintes lideranças de esquerda que sofreram perseguição política e uso da máquina estatal contra suas vidas e suas liberdades: Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, José Genoino, José Dirceu, Luiz Gushiken e João Vaccari Neto, com quem militei no Sindicato dos Bancários. Todos foram vítimas de processos de lawfare para destruir suas vidas e de seus familiares e atingir o Partido dos Trabalhadores e, consequentemente, toda a esquerda brasileira.

O presidente Lula foi vítima de mentiras contra si desde os anos setenta, quando se tornou líder sindical. As mentiras foram escalando até que ele fosse preso sem crime e sem provas por 580 dias para que não disputasse as eleições de 2018. A presidenta Dilma Rousseff foi presa e torturada na juventude por lutar contra a ditadura no país. Após ser eleita com 54,5 milhões de votos em 2014, sofreu um impeachment sem crime e sem provas. Sofri muito durante esses processos que acompanhei como dirigente dos bancários! A dor era de adoecer por ver fazerem o que fizeram com nossas lideranças!

O mesmo sofrimento e impotência contra a injustiça sentimos quando a casa-grande condenou e ou prendeu sem crime e sem provas José Genoino, José Dirceu, Luiz Gushiken e João Vaccari Neto. Genoino e Dirceu, lutadores da mesma geração de Dilma e Lula. Gushiken e Vaccari, líderes da categoria bancária do Novo Sindicalismo brasileiro. Acusar lideranças da classe trabalhadora, destruir suas histórias e expô-las à execração pública a partir dos anos dois mil passou a ser a nova ferramenta de tortura e eliminação de lideranças das lutas populares.

Até hoje, temos visto serem inocentadas lideranças populares vítimas de processos de lawfare, como nos casos famosos "Operação Lava Jato" e "Ação Penal 470" (conhecida como "Mensalão" para achincalhar as vítimas). Gushiken foi absolvido por falta de provas pouco antes de falecer em 2013 e a notícia saiu nos rodapés dos jornalões e revistas que o execraram por anos. O mesmo se deu com Vaccari, preso por condenações revistas por falta de provas. Me lembro de ter me posicionado em defesa de Vaccari no auge dos massacres midiáticos que sofríamos em 2015 (ler artigo aqui).

Fico feliz e aliviado pela notícia da absolvição do companheiro José Dirceu neste momento da história brasileira. Sempre suspeitamos das práticas criminosas daquela gente da tal "República de Curitiba". O tempo foi o senhor da razão. Lendo o livro de memórias de Dirceu, temos orgulho das pessoas que ao longo da vida estiveram do lado certo da história, do lado do povo.

Essas revisões tardias de processos criminais inventados contra pessoas que representam a resistência ao avanço das políticas liberais, privatistas e contrárias aos interesses da classe trabalhadora reforçam uma questão central entre nós de esquerda: a necessidade da solidariedade entre nós nos momentos em que estamos sob ataques de nossos inimigos de classe.

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3. NEM DE DIREITA NEM DE ESQUERDA

Tive a oportunidade de participar de reuniões políticas em bases comunitárias nos últimos dois anos. Naqueles espaços de reflexões populares me lembrei muito dos tempos de representação sindical nos bancários e também dos ambientes familiares de muita pobreza e simplicidade.

Sempre que começam as reuniões nas comunidades, as pessoas que se atrevem a se inscrever para falar vão logo marcando suas posições dizendo que não gostam de política, nem dessa coisa de partido A ou B. Aí sim falam da questão do ônibus, do posto de saúde, das carências em casa, da falta de vaga na escola, segurança no bairro etc.

A questão de se classificar alguém como sendo de esquerda ou de direita e outras classificações comuns na boca da militância orgânica dos movimentos sociais ou de acadêmicos e intelectuais passa longe do dia a dia da ampla maioria das pessoas. O povo em geral não gosta de gente de esquerda "cagando" regras para ele.

Se voltar ao tempo em que fazia a base do sindicato, visitando locais de trabalho da categoria bancária ou participando de reuniões, plenárias e assembleias, poderia dizer a mesma coisa em relação a classificações de trabalhadores como de direita ou de esquerda.

Buscando na memória lembranças dos ambientes onde nasci e cresci, a parentada toda e os amigos e conhecidos na adolescência e na primeira fase de adulto jovem é a mesma coisa. Ninguém que conheci tinha esses papos de ser de direita ou de esquerda. 

É evidente que identificar fenômenos sociológicos e definir as coisas do mundo humano é importante para nós que nos interessamos em compreender e mudar a realidade social não natural. 

A desigualdade social, a injustiça contra as pessoas, o privilégio de poucos em contraposição à miséria da maioria, tudo isso são fenômenos não naturais. E podemos mudar a realidade porque somos seres históricos e fazemos a história diariamente.

As ciências humanas que se debruçam sobre os fenômenos sociológicos são necessárias, repito. O mestre Paulo Freire diz que só se educa gente. Ou seja, é possível educar e politizar as pessoas.

3.1. ALGUMAS LEITURAS INTERESSANTES

Eu, particularmente, gosto dos estudos e das conclusões do professor e sociólogo Jessé Souza a respeito do comportamento das classes dominantes e das classes subalternas. Concordo que as elites são corruptas e manipuladoras do povo. Entendo os motivos para ele definir um segmento do povo como "o pobre de direita".

Por outro lado, também apreciei as definições que ouvi dias atrás do professor e historiador marxista Valério Arcary, em entrevista ao Mauro Lopes, ao dizer que não concorda em se chamar um segmento do povo como "pobres de direita". 

Ele alegou na entrevista que importantes camadas da população estão em condições tão precárias de subsistência diária que elas não podem se dar ao luxo de recusar uma cesta básica, um telhado novo, alguma ajuda de políticos que lhes pedem o voto em troca de algo essencial.

Aí, penso na análise do professor Alysson Mascaro, jurista e filósofo do direito marxista, que em entrevista ao jornalista Leonardo Attuch, após o primeiro turno das eleições, disse que a direita e a extrema-direita politizaram o povo, que agora teria uma consciência de direita. Já a esquerda fica defendendo o sistema capitalista, a ordem estabelecida e fazendo coraçãozinho. 

Por fim, cito a tese "Os sentidos do lulismo" do professor e cientista político André Singer como um estudo que fez muito sentido para mim. De maneira geral, gostei das reflexões dele sobre as características do povo brasileiro e o comportamento dos diversos estamentos sociais ao longo das eleições para presidente entre 1989 e 2010. Fiz uma leitura do livro com postagens comentadas. (ler aqui)

Entendi que o que menos pesou no voto das pessoas foram questões como "esquerda" ou "direita" em relação aos candidatos Collor e Lula, FHC e Lula, Lula e Serra, Lula e Alckmin, Dilma e Serra. Os eleitores decidiram de forma muito prática seus votos em relação ao que era melhor para eles e da forma como viam o mundo, incluindo crenças, medos, cultura, preconceitos etc.

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4. QUAL A MINHA OPINIÃO SOBRE O CENÁRIO E SOBRE O FUTURO?

Vivemos um momento histórico com ferramentas tecnológicas que não existiam em outras fases da história humana. O ser humano é um animal movido à paixões e sentimentos, uma espécie que organizou o mundo a partir das abstrações criadas pela mente humana. 

O livro "O verdadeiro criador de tudo", do professor neurocientista Miguel Nicolelis, nos explica isso. A comunicação virtual e as redes sociais dominadas por algumas corporações, as big techs, sincronizam milhões de seres humanos em frações de segundos. 

Num mundo plataformizado e baseado na economia da atenção, viramos commodities e não mais seres livres. O professor e sociólogo Sérgio Amadeu, da UFABC, fala bem sobre o tema.

Quando as ideias que nos movem são inoculadas em nossa mente de forma sistêmica e intencional para ditar nosso comportamento como se dá hoje, questiono se ainda temos "livre-arbítrio".

O sistema capitalista está por trás da organização e movimentação da sociedade humana global. Não vou discorrer sobre isso. Seria exaustivo neste artigo que precisa terminar. Conto com o conhecimento que as leitoras e leitores desta reflexão já possuem.

Como identificação de fenômeno social, concordo com os professores Jessé Souza e Alysson Mascaro. A direita tem sido exitosa em estabelecer suas ideias no cotidiano das pessoas em todos os segmentos da sociedade, inclusive entre as classes subalternas e exploradas. Eu entendo que ser proprietária dos meios de produção e de criação de ideias tem peso central na prevalência das ideias de direita no mundo.

No entanto, tendo a concordar com as impressões dos professores Valério Arcary e André Singer em relação ao comportamento prático que as classes sociais têm na hora de se posicionarem em eleições ou na sobrevivência diária. As pessoas se movem à direita, centro ou esquerda de acordo com seus interesses imediatos e não por adesão ou militância a tais conceitos teóricos.

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ELEIÇÕES MUNICIPAIS BRASILEIRAS: baseado no que estou argumentando, fica fácil compreender o resultado das eleições em 2024, com o domínio amplo dos partidos de direita disfarçados sob a alcunha de "Centrão" em milhares de cidades do país. O dinheiro das emendas do orçamento público irrigando as candidaturas contra nós da esquerda mais os preconceitos e mentiras prevalentes nos meios digitais das plataformas somados aos tradicionais meios da imprensa de direita são bases efetivas da vitória da direita nas urnas. Reconheço, também, a incapacidade atual da esquerda de compreender e representar as necessidades e anseios da classe trabalhadora. Estamos distantes das bases. 

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É verdade que o domínio totalitário dos meios de produção por parte da classe dominante tem pesado para que o mundo experimente essa ascensão das ideias de direita, inclusive sobre as classes vítimas da crise do capital. Somos seres movidos pelas paixões e sentimentos: uma abstração divulgada de forma massiva em segundos pelas redes sincroniza milhões de pessoas - sentimentos como o ódio -, por exemplo. E o ódio cega as pessoas e impede o império da razão.

Na guerra de conquista das ideias, os donos dos meios estão vencendo, mas entendo que nós podemos enfrentar o avanço da direita e extrema-direita, que representam os privilegiados do mundo, nos posicionando a favor da mudança e a mudança está em questionar o sistema vigente - o capitalismo - e exigir outra forma de organização da sociedade humana.

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Contestar o capitalismo e a captura dos recursos públicos em prejuízo do povo e em privilégio de poucos é algo básico para uma liderança ou organização de esquerda.

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5. PARTIDOS, SINDICATOS E ASSOCIAÇÕES

Não acredito em mudanças substantivas e perenes na sociedade humana sem organizações sociais por trás dessas mudanças. Movimentos populares episódicos - uma ocupação, uma greve, uma mobilização por questão A ou B -, por mais que sejam bonitos de se ver, não têm acúmulos crescentes com capacidade de alterar a realidade geral. Eu pensava isso em relação aos Fóruns Sociais Mundiais quando não aceitavam partidos, sindicatos e governos.

É minha opinião que nós temos que ter partidos políticos, sindicatos e associações que liderem movimentos de massas para questionar e forçar as mudanças necessárias para disputar os rumos de uma comunidade humana. 

Temos que ter atuação constante e não só em períodos eleitorais. Ampliar nossa força nos parlamentos deve ser consequência de trabalhos realizados na base o ano todo e com coordenação local e nacional. Temos que mudar essa lógica personalista de nomes e mandatos prevalecerem sobre projetos e coletivos locais, temáticos e programáticos de esquerda, lutas de classe.

Para isso, as lideranças populares precisam exigir as mudanças necessárias das velhas burocracias encasteladas em partidos, sindicatos e associações que são estratégicos para a classe trabalhadora, mas que têm deixado insatisfeitas as bases sociais por completa ausência nas bases.

Tenho visto surgirem novas lideranças nos partidos de esquerda e nos movimentos organizados. Temos que fortalecer e apoiar essa juventude que está dando as caras. 

Se permitirmos que as ideias da burocracia partidária e sindical prevaleçam - ideias de conciliações improdutivas com adversários e inimigos na atualidade e parcerias ruins com nossos algozes -, não mudaremos a realidade na qual as ideias de direita e extrema-direita estão prevalecendo nas camadas populares que, repito, não são nem de esquerda nem de direita.

Nossos partidos de esquerda, sindicatos e organizações populares podem fazer a diferença, mas para isso é necessário que mudem e ouçam as bases e as novas lideranças que estão chegando para fazer história. Que Brasil e mundo queremos em 2035 e 2050? Para pensar 2026 temos que pensar o que queremos para o mundo.

William Mendes


terça-feira, 23 de julho de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural 

Osasco, 23 de julho de 2024. Terça-feira.


Em 2018, de volta a Osasco, após viver quatro anos em Brasília, moramos por alguns meses entre caixas e sacos de coisas, num apartamento alugado. 

Eu estava com a cabeça num momento ruim, deprimido, sem chão. Havia sofrido um processo destrutivo de lawfare em meu trabalho, e a injustiça que enfrentei quase me abateu.

Me lembro que tentei fazer coisas normais no cotidiano como, por exemplo, ler romances e livros que me chamaram a atenção. Um dos livros que tentei ler foi "Born To Run - Bruce Springsteen" (2016). Li cento e poucas páginas. 

Eu sempre gostei das músicas dele e algumas canções de Bruce Springsteen embalaram momentos marcantes de minha vida.

Anos depois do ano de 2018, ao olhar para trás, percebo o quanto aquele ano foi duro para mim. Pego como exemplo as leituras que fiz... elas se apagaram da minha mente. É como se eu nunca tivesse lido nada naquele ano duro.

Levei a autobiografia do roqueiro para ler um pouco durante a semana que passamos na Praia Grande e reli umas setenta páginas. 

Ao ver alguém contando seus primeiros anos de vida nos anos cinquenta e sessenta, eu percebo bem melhor o mundo hoje com a experiência que adquiri com o meu próprio percurso existencial, seja lendo as memórias de meu pai, seja lendo as do norte-americano Springsteen. 

O QUE É A VIDA?

A vida humana é uma síntese de acontecimentos diários que vão definindo a existência das pessoas, seja a do meu pai, seja a do Bruce, seja a minha existência. Veredas... veredas... e inventamos deuses e demônios, inventamos explicações para casualidades inexplicáveis como se algo tivesse programado aquilo.

Somos seres que imaginam e copiam coisas materiais e abstratas (abstrações), somos seres que vão vivendo, e vivendo vamos fazendo história, boas ou ruins.

É isso! Não tem mágica nenhuma nisso, a não ser a própria magia da vida... que um dia acaba, porque somos natureza.

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Luto - Expresso meus sentimentos pelo falecimento hoje da companheira Daniele Bittencourt, colega do BB de Curitiba, trabalhamos juntos nas lutas sindicais por muito tempo. Dani, presente! 

William 


sábado, 11 de maio de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 11 de maio de 2023. Início da madrugada de sábado.


A possibilidade de participar de uma reunião do nosso partido com a presença de José Dirceu me fez pegar na estante o livro de Memórias dessa figura importante de nossa história do partido e do país.

Zé Dirceu lançou o primeiro volume de suas Memórias em agosto de 2018 e dias depois do lançamento eu já estava com o livro em mãos. Li de supetão quase duzentas páginas naquele ano. 

Acabei não terminando a leitura. Aquele ano foi muito difícil para mim. Mesmo assim, garanto a vocês que o conteúdo histórico e biográfico do livro de Zé Dirceu é extraordinário para qualquer pessoa que se disponha a viajar pela história dele e do país, e é mais interessante ainda para um militante de esquerda e do partido, e que goste de história do Brasil.

Ao pegar o livro na estante nesta semana, acabei recomeçando a leitura desde o início. Além de não perder nada com a releitura, e sim o contrário, só ganhar com isso, tenho consciência de como minhas leituras foram complicadas naquele ano de 2018. Avalio que tudo que li naquele ano precisaria ser relido para um aproveitamento melhor.

A primeira anotação minha no livro de Zé Dirceu, ao final do primeiro capítulo, lendo o livro no início do mês de setembro daquele ano, me lembra que mesmo tendo saído de um processo de perseguição e assédio moral na instituição onde havia terminado um mandato eletivo, um processo fraudulento de lawfare, arquivado um tempo depois por falta de provas, tive que sofrer por muitos meses ainda o terror das ameaças que chegavam a mim por parte de meus adversários políticos no patronato já sob o regime de exceção de Temer e Bolsonaro.

O fim de meu mandato e trabalho em Brasília, a volta para Osasco em SP, e as ameaças constantes de um processo inventado com carta anônima para me prejudicar na carreira de décadas no banco público ao qual dediquei minha vida, e ainda a forma como me silenciaram politicamente após mais de duas décadas de representação da classe trabalhadora, fez com que o ano de 2018 fosse um ano dificílimo para mim e, além disso, vivíamos no país a ascensão do mal com a prisão de nosso presidente Lula, vítima daquela operação canalha de lawfare chamada de Lava Jato, e, para terminar o ano de forma trágica, a eleição do clã de milicianos ao poder central. Tudo isso pesou na minha vida naquele ano.

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AULA DE HISTÓRIA DO BRASIL

"Dependíamos do carcereiro que, como alertaria depois o líder negro sul-africano Nelson Mandela, passava a ser o ser humano mais importante em nossas vidas." (p. 89)


Amigas e amigos leitores, nessa releitura desses dias, viajei pela história do Brasil nos sete capítulos que li. As Memórias de Zé Dirceu são aulas de nossa história, contadas com uma fluidez incrível.

Pelos temas dos capítulos, vocês podem ter uma ideia do que vamos conhecer de história: 

1. Se não me falha a memória; 2. Os primeiros passos na política; 3. Coração de estudante; 4. A oposição e suas armas; 5. Às armas, cidadãos!; 6. A batalha da Maria Antônia; 7. Cabras marcados para morrer...


Enfim, conhecer a nossa história é fundamental, inclusive para termos uma melhor perspectiva do momento atual no qual nos encontramos, de uma complexidade ímpar na história política do Partido dos Trabalhadores e do Brasil.

Sigamos estudando, ouvindo as pessoas, lutando por um mundo mais justo e solidário, um mundo livre do capitalismo para que possamos existir, e sigamos compartilhando o conhecimento e as nossas opiniões e ideias de forma honesta e militante.

William Mendes


terça-feira, 25 de julho de 2023

Leitura: A verdade vencerá - Lula



Refeição Cultural

Osasco, 25 de julho de 2023. Terça-feira.


INTRODUÇÃO

A leitura da entrevista de Lula neste livro produzido nos primeiros meses de 2018 - a entrevista e os textos anexos preparados para a edição - foi uma leitura talvez de redundância, porque já conhecia parte das ideias e fatos enunciados por Lula; talvez de descobertas, porque sempre se descobre algo novo sobre essa figura ímpar; talvez de decepção, porque com o passar do tempo vamos ganhando experiência de vida e as coisas passam a ficar meio sem graça, previsíveis, a gente talvez vai ficando chato e desiludido com a política, com as pessoas e com o mundo. Contudo, a leitura foi necessária, é sempre importante ler e estudar e refletir sobre a política, as pessoas e o mundo, sobre a vida.

(dia desses, um amigo e companheiro de longa jornada me disse que eu estava muito chato... eu sempre fui chato... isso não quer dizer que eu não tenha algo a dizer ou contribuir sobre as coisas. Brincamos sobre a minha chatice, demos risada. Sou chato mesmo)

Ivana Jinkings foi a responsável pela ideia da entrevista e organizou a edição, junto com a equipe da Editora Boitempo. O livro foi de uma urgência histórica, pois Lula estava para ser preso injustamente no maior processo de lawfare que o mundo havia conhecido. Assim que o livro foi finalizado e começou a circular, creio eu, pois as datas que aparecem no livro são de janeiro a março de 2018, Lula foi preso, em 5 de abril. 

Lula passaria 580 dias nas masmorras da República de Curitiba. Sofremos juntos todo esse período trágico de nossa história. Eu pelo menos sofri como nunca, sindicalista, dirigente eleito da classe trabalhadora, militante de esquerda há décadas, sofri de um tanto que acho que meu corpo morreu um pouco. Vivo hoje com o resto dele. Não só eu, muitos de nós morreram um pouco. 

Quando olho o que veio após esse processo infame do golpe contra a Dilma, a Lava Jato e a prisão de Lula para não ser eleito presidente em 2018, a chegada à presidência daquele verme miliciano e genocida, a destruição do Brasil nos quatro anos seguintes, a tristeza e a desesperança que se abateu sobre uma parcela da população do campo progressista e democrático, quando penso na parcela que não aderiu ao regime fascista e de morte, penso que todos morremos um pouco, ou adoecemos e as cicatrizes estão em nós, ou as cronicidades que nunca mais serão curadas, só controladas se bem tratadas.

Participaram da entrevista Juca Kfouri, Gilberto Maringoni e Maria Inês Nassif, além da Ivana Jinkings. E contribuíram com artigos e análises Luis Fernando Verissimo, Luis Felipe Miguel, Eric Nepomuceno, Rafael Valim e Luiz Felipe de Alencastro. O livro contém fotos preciosíssimas! Tudo em Lula é superlativo! Tudo!

Por que li este livro agora? 

Peguei o livro em minha estante porque ia ler o livro de Fidel Castro - A história me absolverá (1953) - e pensei que seria perfeito ler A verdade vencerá (2018) também. A história mostrou as razões e as certezas de Fidel Castro e Lula. Que homens fantásticos! Que figuras humanas! 

A história mostrou por que aqueles jovens liderados por Fidel tiraram do poder aquele ditador de merda em Cuba através da Revolução Cubana e a libertação de Cuba do jugo imperialista a partir de 1º de janeiro de 1959 (comentários sobre o livro de Fidel aqui) e a verdade venceu ao menos para desmascarar toda a farsa montada pela Lava Jato, operação organizada com apoio da casa-grande e do império norte-americano para interromper os avanços que a classe trabalhadora vinha auferindo com seu maior líder no poder, Lula.

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ALGUNS COMENTÁRIOS

A MALDITDA LEI DA FICHA LIMPA

"O que permitiu chegar a tal situação foi uma espiral punitivista que começou já nos governos do PT e se aprofundou após o golpe. Dois momentos foram especialmente importantes. Em 2010, o Congresso aprovou quase por unanimidade - e o próprio Lula, então na Presidência, sancionou - a Lei da Ficha Limpa, nascida de um projeto de iniciativa popular, cujo efeito líquido é determinar a tutela do Judiciário sobre a soberania do povo. Em meio ao entusiasmo frenético da mídia e de muitas organizações da sociedade civil, pouquíssimas vozes ousaram se erguer contra a lei. Ela determina que os cidadãos que tenham sido condenados por decisões colegiadas do Poder Judiciário não podem concorrer às eleições..." (p. 15)

Eu fui uma das raras vozes a se levantar contra essa porcaria de Ficha Limpa. Era dirigente nacional da Contraf-CUT e publiquei artigo me opondo a essa lei que era claramente uma armadilha para criminalizar a política, principalmente as lideranças do campo popular. Ver uma postagem minha sobre o tema no blog A Categoria Bancária (aqui).

O articulista, Luis Felipe Miguel, analisa o quanto esta lei é equivocada e poderia prejudicar a todos por causa de alguns. "O combate à impunidade de alguns justificaria a retirada de garantias de todos." (p. 16)

Numa singela postagem desta não dá pra fazer um monte de citações. Registro que o prefácio "A democracia a beira do abismo", de Luis Felipe Miguel, é espetacular. Ele cita a tese de André Singer sobre o Lulismo, analisa os mandatos do PT distribuindo renda e dando acesso aos bens da cidadania por parte dos governos do partido, mas sem politizar as pessoas.

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A ENTREVISTA

Ler a entrevista de Lula de fevereiro de 2018 neste momento do país sob os primeiros meses do 3º governo do presidente Lula (julho/2023) é algo muito interessante. Eu recomendaria o livro para muita gente caso eu fosse um "influenciador", recomendaria principalmente a sindicalistas e militantes dos movimentos de esquerda, incluindo o próprio PT.

Quando li o livro de Denise Paraná - Lula, o filho do Brasil (2002) - pude compreender melhor quem eu era e o que eu representava sendo um sindicalista da CUT, da corrente política Articulação Sindical e militante do PT. No blog tem 13 postagens sobre o livro, ver aqui.

Mesmo tendo passado muitos anos estudando e buscando compreender quem éramos, nós do Novo Sindicalismo, foi através das entrevistas de Lula e de seus familiares que pude entender melhor o Partido e a Central. O Lula repete bastante as questões centrais. Veja um exemplo abaixo da entrevista em 2018:

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"Juca Kfouri - Presidente, eu lhe perguntei sobre prisão e exílio. Mas queria voltar a esse assunto, porque é um dos temas mais urgentes do momento, ao lado da sua candidatura. O senhor está cogitando ser preso?

Lula - Estou. O que não estou é preparado para a resistência armada, nem tenho idade. Como sou um democrata, nem aprender a atirar eu aprendi. Então, isso tá fora. O PT não nasceu para ser um partido revolucionário, nasceu para ser um partido democrático e levar a democracia até as últimas consequências..." (p. 124)

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Comentário meu - Engraçado ver essa explicação do Lula ao se submeter a ser preso sem ter cometido crime algum. Eu sempre disse para meus familiares e para os bancários que representava que eu me tornara muito mais radical que o Lula e o PT. Que se eles eram de centro ou contra "comunismo" eles tinham que ser apoiadores do Lula e do PT justamente por causa dessa coisa paz e amor, cristã, sem revolução... Por mim, era revolução e paredão para a casa-grande (risos). Memórias...

Enfim, ao ler a entrevista do Lula em fevereiro de 2018, próximo de ser preso por aquela operação de lawfare para tirá-lo das eleições e tentar criminalizar e destruir o PT, vi um filme de minha vida sindical e política. Foi inevitável rever duas décadas de participação política na história do Brasil e do movimento sindical.

Como disse na introdução acima, às vezes me parece que as coisas da política e da vida passam a ser previsíveis, chatas, repetitivas. Ver o PT e o movimento sindical hoje, ver o andamento do governo Lula, ver como nosso presidente desenvolve suas estratégias e táticas porque sabemos bem quais são seus objetivos centrais é algo muito interessante. A gente sofre e a gente se resigna com algumas coisas. A gente fica puto com outras. A gente compreende e endossa, apoia o que vem sendo possível fazer no contexto atual do mundo.

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A entrevista e os artigos do livro são merecedores de leitura e estudos por parte ao menos da militância e dos interessados em compreender um pouco mais o presidente Lula e até o Partido dos Trabalhadores e o movimento sindical do campo cutista.

Eu preciso parar um pouco de ler esses livros de política e encarar uns dois ou três romances... sofro demais com essas leituras e me torno cada dia mais ranzinza e chato.

Essa foi a 23ª obra que li neste ano.

William


Bibliografia:

JINKINGS, Ivana. A verdade vencerá - O povo sabe por que me condenam: Luiz Inácio Lula da Silva. Org. de Ivana Jinkings com a colaboração de Gilberto Maringoni, Juca Kfouri e Maria Inês Nassif. 1ª edição. São Paulo: Boitempo, 2018.


quarta-feira, 5 de julho de 2023

Livro: La historia me absolverá - Fidel Castro



Refeição Cultural - Cuba (XXVII)

Osasco, 05 de julho de 2023. Quarta-feira.


"Para mis compañeros muertos no clamo venganza. Como sus vidas no tenían precio, no podrían pagarlas con las suyas todos los criminales juntos. No es con sangre como pueden pagarse las vidas de los jóvenes que mueren por el bien de un pueblo; la felicidad de ese pueblo es el único precio digno que pueda pagarse por ellas." (Fidel Castro)


A primeira leitura deste semestre foi La historia me absolverá (1953), de Fidel Castro Ruz, líder da Revolução Cubana e um dos grandes intelectuais do século 20. 

Que documento histórico! E que argumentações extraordinárias do jovem líder revolucionário Fidel Castro Ruz durante o julgamento de cartas marcadas que ele e seus companheiros enfrentaram em 1953 após a tentativa de tomada do Quartel de Moncada, em 26 de julho daquele ano, em Santiago de Cuba! 

Mesmo sob as piores condições possíveis, Castro construiu uma defesa impecável dos atos que o Movimento 26 de julho empreendeu pela liberdade de Cuba e do povo cubano do jugo do ditador Fulgencio Batista e seus asseclas. Batista havia dado um golpe de Estado em 10 de março de 1952 e a violência contra o povo e o assalto aos cofres públicos eram fatos insuportáveis naquele momento em Cuba.

Em primeiro lugar, agradeço ao companheiro revolucionário senhor Luis Caballero pelo presente tão especial: uma caixa com três textos fundamentais para o povo cubano: La historia me absolverá, de Fidel Castro Ruz, Manifiesto Comunista, de Marx e Engels e Nuestra América, de José Martí.


OS ARGUMENTOS DE FIDEL CASTRO

Fidel nos legou um documento histórico ao pronunciar suas alegações e argumentos durante o julgamento em um tribunal de justiça completamente submetido ao poder do ditador Batista.

As sessões começaram em 21 de setembro de 1953 e terminaram com a condenação de Fidel Castro a mais de 26 anos de prisão. Tudo no julgamento foi irregular, tudo. Não se cumpriram os direitos mínimos garantidos por leis nacionais e internacionais em relação aos acusados.

Fidel organizou sua argumentação contextualizando cada parte do que declarou aos juízes. 

Trouxe o histórico do movimento pela libertação de Cuba, citando lutas anteriores e heróis nacionais como Céspedes, Agramonte, Maceo, Gómez, José Martí. O movimento de jovens revolucionários 26 de Julio foi mais um na luta pela libertação de Cuba do jugo imperialista.

Depois apontou a ilegitimidade do governo golpista de Fulgencio Batista, e cobrou da justiça por que não se aplicou a lei e a constituição a ele e sua turma golpista em 1952.

Fidel descreveu a situação de calamidade na qual se encontrava o povo cubano e a contradição das mordomias do pequeno grupo ao redor de Batista e seus apaniguados. Demonstrou como o país estava em função do império norte-americano.

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"El problema de la tierra, el problema de la industrialización, el problema de la vivienda, el problema del desempleo, el problema de la educación y el problema de la salud del pueblo; he ahí concretados los seis puntos a cuya solución se hubieran encaminado resueltamente nuestros esfuerzos, junto con la conquista de las libertades públicas y la democracia política."

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Depois apresentou os princípios que norteavam o movimento de libertação nacional. Descreveu as 5 leis revolucionárias, que resumo assim: a 1ª devolvia a soberania ao povo, a 2ª fazia reforma agrária e concedia a propriedade ao povo, a 3ª dava aos trabalhadores participação nos resultados das empresas que atuavam em Cuba, a 4ª dava aos colonos 50% dos resultados adquiridos com o plantio de cana de açúcar e a 5ª confiscava imóveis e bens com escrituras e documentações de heranças suspeitas.

Denunciou a barbárie dos assassinatos dos jovens combatentes após torturas e a sangue frio, mesmo quando estes já se encontravam sob a jurisdição do Estado. Com números, demonstrou que a ditadura de Batista assassinou dezenas de prisioneiros indefesos.

E ao final, não pediu sua absolvição, pediu sua condenação, já que haviam condenado seus companheiros de forma ilegal e ilegítima. Queria estar junto deles.

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"En cuanto a mí, sé que la cárcel será dura como no la ha sido nunca para nadie, preñada de amenazas, de ruin y cobarde ensañamiento, pero no la temo, como no temo la furia del tirano miserable que arrancó la vida a setenta hermanos míos. Condenadme, no importa, la historia me absolverá."

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A leitura das mais de 170 páginas de minha edição é uma leitura muito reflexiva, de grande lição e de uma atualidade absoluta perante o momento no qual nos encontramos no mundo.

Me lembrei do depoimento de Aleida March, revolucionária e companheira de Ernesto Che Guevara, ao relembrar que quando leu a alegação de Fidel Castro após 1953, ela com uns 16 anos de idade, percebeu que ali estava a síntese do que ela queria para a sua vida e a vida de seus familiares e do povo cubano. (ler aqui comentários sobre o livro de Aleida March)

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EXCERTOS

Segue abaixo algumas citações do livro. Algumas. Lembro aqui que nada substitui a leitura do texto original. A experiência é muito enriquecedora.

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A FORÇA UNITÁRIA DAS IDEIAS E DOS IDEAIS

"Es que, cuando los hombres llevan en la mente un mismo ideal, nada puede incomunicarlos, ni las paredes de una cárcel, ni la tierra de los cementerios, porque un mismo recuerdo, una misma alma, una misma idea, una misma conciencia y dignidad los alienta a todos."

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IDEIAS E IDEAIS VENCEM EXÉRCITOS

"(...) añadí a mi escrito aquel pensamiento del Maestro: 'Un principio justo desde el fondo de una cueva puede más que un ejército'."

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ARMA NENHUMA VENCE UM POVO DECIDIDO A LUTAR POR DIREITOS

"Se ha querido establecer el mito de las armas modernas como supuesto de toda imposibilidad de lucha abierta y frontal del pueblo contra la tiranía. Los desfiles militares y las exhibiciones aparatosas de equipos bélicos, tienen por objeto fomentar este mito y crear en la ciudadanía un complejo de absoluta impotencia. Ningún arma, ninguna fuerza es capaz de vencer a un pueblo que se decide a luchar por sus derechos."

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JUSTIÇA INJUSTA COM OS POBRES E HUMILDES DA TERRA

"Cuando vosotros juzgáis a un acusado por robo, señores magistrados, no le preguntáis cuánto tiempo lleva sin trabajo, cuántos hijos tiene, qué días de la semana comió y qué días no comió, no os preocupáis en absoluto por las condiciones sociales del medio donde vive: lo enviáis a la cárcel sin más contemplaciones."

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A ERUDIÇÃO DE FIDEL A CITAR DANTE SOBRE FULGENCIO BATISTA

"Dante dividió su infierno en nueve círculos: puso en el séptimo a los criminales, puso en el octavo a los ladrones y puso en el noveno a los traidores. ¡Duro dilema el que tendrían los demonios para buscar un sitio adecuado al alma de este hombre... si este hombre tuviera alma! Quién alentó los hechos atroces de Santiago de Cuba, no tiene entrañas siquiera."

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SOBRE O EXÉRCITO DA PÁTRIA SOB O COMANDO DO DITADOR BATISTA

"(...) solo siento que hombres valerosos caigan defendiendo una mala causa. Cuando Cuba sea libre, debe respetar, amparar y ayudar también a las mujeres y los hijos de los valientes que cayeron frente a nosotros. Ellos son inocentes de las desgracias de Cuba, ellos son otras tantas víctimas de esta nefasta situación."

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JUÍZES QUE CONSPURCAM A LEI SERÃO ELES JULGADOS NO FUTURO

"Pensad que ahora estáis juzgando a un acusado, pero vosotros, a su vez, seréis juzgados no una vez, sino muchas, cuantas veces el presente sea sometido a la crítica demoledora del futuro..."

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O DIREITO À INSURREIÇÃO FRENTE A TIRANIAS

"El derecho de insurrección frente a la tiranía es uno de esos principios que, esté o no esté incluido dentro de la Constitución Jurídica, tiene siempre plena vigencia en una sociedad democrática."

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COMENTÁRIO FINAL

A leitura desta obra histórica foi uma aula de cidadania e um exemplo a ser seguido por todas as pessoas que não compartilham das injustiças do mundo.

Ao conhecer Cuba este ano foi possível perceber em poucos dias a matriz histórica que embasa a formação cultural do povo cubano, a essência daquilo que se denomina cubanidad e cubanía

A cada leitura e a cada descoberta sobre a história do povo cubano, mais vontade nos dá de estudar e conhecer Cuba.

Sigamos lendo e estudando todos os dias de nossa vida como, aliás, nos ensinaram José Martí, Ernesto Che Guevara e Fidel Castro.

William


Bibliografia:

CASTRO RUZ, Fidel. La historia me absolverá. Editorial de Ciencias Sociales. 13ª edición. La Habana, 2021.


quinta-feira, 22 de junho de 2023

Leitura - Lawfare: uma introdução



Refeição Cultural

Osasco, 22 de junho de 2023. Quinta-feira. 


"Lawfare é o uso estratégico do direito para fins de deslegitimar, prejudicar ou aniquilar um inimigo"


LAWFARE?

Após conversar nos últimos anos com pessoas do meio jurídico, econômico e político e perceber que ao usar a expressão "lawfare" elas não sabiam o que isso queria dizer, algumas sequer tinham ouvido falar sobre isso, achei interessante adquirir algum material que falasse a respeito do tema. Vai que eu estivesse falando alguma bobagem...

O livro Lawfare: uma introdução (2019), de Cristiano Zanin, Valeska Zanin Martins & Rafael Valim traz de forma concisa noções gerais sobre a questão. O conceito é muito novo, ainda mais no Brasil. Cristiano e Valeska usaram o termo "lawfare" pela primeira vez em 10 de outubro de 2016 para explicar o caso Lula.

Uma das motivações para o estudo e desenvolvimento do tema no Brasil por parte dos autores foi efetivamente o processo de perseguição sofrido pelo presidente Lula por parte de agentes do Estado brasileiro, processo político que o levou a uma condenação e prisão por supostos crimes sem materialidade alguma. Felizmente, foram descobertas as farsas por trás das condenações e Lula recuperou seus direitos, apesar de ter ficado 580 dias preso injustamente.

No entanto, neste momento, dezenas ou talvez centenas de casos seguem acontecendo no Brasil e mundo afora. Isso não pode continuar assim, o Direito não pode ser usado de forma tão vil para destruir pessoas, instituições e países.

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LAWFARE EXPLICADO DE FORMA ACESSÍVEL 

"(...) para manifestar a minha preocupação relativamente a uma nova forma de intervenção exógena nas arenas políticas dos países através da utilização abusiva de procedimentos legais e tipificações judiciais. O lawfare, além de colocar em sério risco a democracia dos países, é geralmente usado para minar processos políticos emergentes e tende a violar sistematicamente os direitos sociais. A fim de garantir a qualidade institucional dos Estados, é essencial detectar e neutralizar esse tipo de práticas que resultam de uma atividade judicial imprópria combinada com operações multimidiáticas paralelas." (autores citando fala do Papa Francisco, p. 21/22)


O livro é de leitura possível para pessoas que não sejam do meio jurídico ou acadêmico, usa linguagem cotidiana e exemplos que esclarecem os conceitos jurídicos apresentados.

Não diria que este livro seja um livro para um ou outro segmento de pessoas conforme suas visões ideológicas de mundo. A agressão ao Direito e aos direitos por causa do uso indevido das leis para fins políticos, geopolíticos, comerciais e outros fins (lawfare) é ruim para todos porque afasta a crença das pessoas na importância do sistema jurídico e de justiça dos países.

No final do livro, os autores citam 3 casos de lawfare: um comercial, envolvendo a Siemens; outro vitimando um senador republicano do Alasca (EUA); e o caso brasileiro contra o presidente Lula, através da operação Lava Jato.

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SURPRESAS E APRENDIZADOS JÁ NO INÍCIO DA LEITURA

No início do livro já fiquei bastante impressionado com o histórico do conceito de lawfare apresentado aos leitores. Ao longo do tempo, o termo foi mudando de sentido de um extremo ao outro. 

Antes, nos EUA diziam que o lawfare era ferramenta usada pelo pessoal dos direitos humanos para obstruir suas ações geopolíticas imperialistas:

"é uma arma dos fracos que usam processos judiciais internacionais e o terrorismo para minar a América." (citando texto do Pentágono na p. 18)

Depois, os EUA passaram a fazer lawfare como arma de guerra, eu diria até guerra neocolonial:

"Assim, lawfare se converte em uma 'estratégia de usar - ou abusar - da lei como um substituto aos meios militares tradicionais para alcançar um objetivo operacional." (citando Dunlap Jr. na p. 19)

COMENTÁRIO - Em linhas gerais, usando as minhas palavras e de forma coloquial, o termo tem um histórico mais ou menos assim: 

1. Os poderosos criaram o termo para criticar a estratégia de grupos vulneráveis e frágeis para barrar ou postergar na justiça local ou internacional imposições de vontades dos poderosos sobre os vulneráveis.

2. Após essa fase, os poderosos viram no lawfare uma forma de impor seus desejos imperiais sobre os mais frágeis ou vulneráveis através do direito e da lei como arma de guerra, forma mais barata que as guerras convencionais.

Nas observações e comentários que fiz nas páginas do livro usei algumas vezes a palavra "neocolonialismo" para sintetizar o uso do lawfare por parte do império norte-americano e seus governos e empresas.

Rabisquei o livro inteiro, não daria pra citar muita coisa numa postagem. 

MEU CASO - Durante a leitura do livro, tive, inclusive, a certeza de que o que enfrentei em meu último mandato eletivo em nome dos trabalhadores foi um processo de lawfare.

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ENQUADRAMENTO TEÓRICO: A PERSPECTIVA ESTRATÉGICA

"Com efeito, o vocábulo 'estratégia' deriva etimologicamente da palavra grega estrategos, cujo significado é general, comandante, condutor de tropas..."

"(...) o seu original e autêntico objeto é a guerra, a qual, por sua vez, no entendimento clássico de Clausewitz, traduz-se em 'um ato de violência destinado a forçar o adversário a submeter-se à nossa vontade'."

"Como diz Clausewitz, o objetivo imediato da guerra é 'abater o adversário a fim de torna-lo incapaz de toda e qualquer resistência'."

Citações das páginas 23 e 24.

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ESTRATÉGIA E TÁTICA

"a estratégia é a arte de conceber; a tática é a ciência da execução." (citando Raul François na p. 24)


Outra coisa que já me surpreendeu no início da leitura foi o velho e bom conceito de estratégia e tática, palavras tão utilizadas no movimento social e nos embates políticos e sindicais.

Por mais que eu tenha lidado com objetivos, estratégias e táticas ao longo de décadas de organização e luta política em nome da classe trabalhadora, foi interessante ver a forma como os autores abordam o conceito para seguir na explicação do lawfare.

Os autores afirmam:

"Já podemos concluir, pois, que a política ou a economia subordinam a estratégia e esta, por sua vez, subordina a tática (se referindo a um conceito de Luigi Bonanate em nota). Tal articulação é central na compreensão do lawfare." (p. 25)

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UTILIDADE DE DEFINIÇÕES E CLASSIFICAÇÕES

"Como é de geral conhecimento, as definições e as classificações não são verdadeiras ou falsas, senão que úteis ou inúteis. O critério, portanto, que as preside é o da utilidade, é dizer, sua fecundidade para apresentar um campo de conhecimento de maneira compreensível ou rica de consequências práticas." (Carrió, citado na p. 25)


Sempre disse para dirigentes e trabalhadores em geral que as pessoas deveriam ter pelo menos noções das coisas. O mundo seria um lugar bem melhor se as pessoas não fossem tão sem noção e tivessem uma noção mínima das coisas. 

Sendo assim, agora tenho uma noção sobre a questão do lawfare. Isso é bom, todo dia é um bom dia para aprender algo novo.

Amig@s leitores, como já disse na postagem, o livro sobre lawfare é conciso e direto na apresentação do tema: histórico, conceito, dimensões que o lawfare vem tomando no mundo e as graves consequências oriundas dele em prejuízo de pessoas, instituições e países.

Eu recomendo a leitura para todas as pessoas que lidam com política, com direito e com movimentos sociais em geral para que elas tenham ao menos noção do que seja lawfare.

No momento em que lia o livro - li em 3 dias - um de seus autores - Cristiano Zanin - era sabatinado pelo Senado Federal e ao final da sabatina foi aprovada a sua indicação como ministro do Supremo Tribunal Federal do Brasil. Desejo que Zanin faça um bom trabalho na Corte Suprema do país.

Tenho diversificado minhas leituras, estou lendo de tudo. Este foi o 17º livro que li neste ano. Sigo buscando ter noções sobre as coisas do mundo. 

Estudar e buscar novos conhecimentos é fundamental, ler é uma necessidade. Sigamos lendo e estudando e nos esforçando para melhorarmos como seres humanos, homo sapiens.

William


Bibliografia:

ZANIN MARTINS, Cristiano; ZANIN MARTINS, Valeska Teixeira; VALIM, Rafael. Lawfare: uma introdução. São Paulo: Editora Contracorrente, 2019.