Mostrando postagens com marcador Etimologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Etimologia. Mostrar todas as postagens

sábado, 15 de março de 2025

O trato dos viventes: os brasileiros



Refeição Cultural

O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul, Séculos XVI e XVII - Luiz Felipe de Alencastro


"Entre outros autores seiscentistas, Brito Freyre fala dos 'portugueses brasílicos', elogiando sua atuação na guerra contra os holandeses (...) quando a palavra brasiliense se referia sobretudo aos índios, e brasileiro principalmente aos cortadores de pau-brasil (...). Os 'brasílicos' tornam-se 'brasileiros', no sentido atual da palavra, ao longo do século XVIII, depois que a economia do ouro engendra uma divisão inter-regional do trabalho e um mercado interno na colônia..." (O trato dos viventes, Luiz Felipe de Alencastro)


OS BRASILEIROS

Uma nota de rodapé do capítulo um nos explica a origem da denominação que acabou se estabelecendo para nós que nascemos e vivemos no Brasil. 

"Brasileiros" eram as pessoas que cortavam o pau-brasil, pois "eiro" é sufixo de função ou atividade, tipo padeiro, pedreiro etc. 

Nos primeiros séculos, "brasilienses" eram os indígenas, povos nativos.

Os "brasílicos", os colonos da terra, viriam mais tarde a serem denominados brasileiros, nós.

William 


quinta-feira, 23 de maio de 2024

Os miseráveis - Victor Hugo (12)



Refeição Cultural

Osasco, 23 de maio de 2024. Quinta-feira.


Os miseráveis. Que denominação mais certeira essa do escritor Victor Hugo para descrever a condição das massas humanas reunidas em sociedades organizadas sob a ideologia do dinheiro, do capital, as sociedades capitalistas!

Aglomerações humanas de miseráveis, convivendo com uma pequena parcela de privilegiados. Sociedades capitalistas são sociedades de privilegiados. Desde o início dessa forma de organização das sociedades, o privilégio de poucos é a regra no e do capitalismo.

---

Comecei a leitura do clássico de Victor Hugo no ano de 2023, sabendo que a leitura de uma obra de mil e quinhentas páginas seria uma leitura lenta, como se fosse uma novela ou série com centenas de episódios. Assim será a minha leitura de Os miseráveis. Lenta. Não tenho pressa. Vou sofrer lentamente com o martírio das personagens. Já sofro assim ao perceber o mundo ao meu redor.

---

Durante a leitura da Parte 1 "Fantine", dos livros I (Um justo), II (A queda) e III (No ano de 1817) fiz postagens com alguns dados da narrativa, e com algumas reflexões. As postagens trazem informações essenciais sobre o romance. Pena que as postagens de literatura não são as mais acessadas no blog. As pessoas preferem outros tipos de textos.

Como o objetivo do blog desde o início é compartilhar conhecimento e cultura, vou ler Os miseráveis fazendo postagens a partir das leituras do livro. A primeira postagem, com link para a postagem seguinte, pode ser lida clicando aqui.

---

PRIMEIRA PARTE - FANTINE

LIVRO IV: CONFIAR É, ÀS VEZES, ENTREGAR


I. Uma mãe encontra outra

"Fantine ficara só. O pai de sua filha estava longe - infelizmente esses rompimentos são irrevogáveis -, ela viu-se absolutamente isolada, com o hábito do trabalho a menos e o gosto pelo prazer a mais..." (p. 190)

Hoje dei sequência à leitura do clássico de Victor Hugo. Já havia conhecido o Monsenhor Bienvenu, Jean Valjean e Fantine. Agora conheci a pequena Cosette, ou a Cotovia.


"Teve a ideia de regressar a sua cidade natal, Montreuil-sur-Mer, onde talvez alguém a conhecesse e lhe arranjasse trabalho. Sim, mas precisava ocultar sua falta. E entrevia confusamente a possível necessidade de uma separação mais dolorosa ainda do que a primeira. Ficou com o coração apertado, mas decidiu. Fantine, como veremos, tinha a bravura feroz da vida. Já havia renunciado resolutamente à aparência, vestindo-se de chita e colocando toda a sua seda, os seus enfeites, fitas e rendas sobre a filha, única e santa vaidade que lhe restara (...) Aos vinte e dois anos, em uma bela manhã de primavera, deixava Paris, levando a filhinha. Quem quer que as visse passar, teria compaixão. Aquela mulher só tinha aquela criança no mundo e aquela criança só tinha aquela mulher no mundo. Fantine amamentara a filha, o que havia cansado seu peito, ela tossia um pouco." (p. 191)

A qualidade da crítica de Victor Hugo na forma como ele narra os acontecimentos do romance é impressionante! 

É difícil não sofrermos com os acontecimentos em alguns momentos dos três capítulos nos quais nos são apresentados Cosette, o casal que ficará com ela de forma provisória a pedido de Fantine e a condição miserável na qual é colocada a pequena Cosette.

Ao ver a condição de Fantine e Cosette, vemos milhões de mães colocadas em condição semelhante pelos homens donos do poder nas sociedades capitalistas, cuja base das ideias e dos costumes é a propriedade do dinheiro.


"Cosette, leia-se Euphrasie. A pequena chamava-se Euphrasie, que a mãe fez Cosette por esse doce instinto das mães e do povo, que faz de Josefa, Pepita e de Françoise, Sillette. Este é um gênero de derivados que atrapalha e desconcerta toda a ciência dos etimologistas. Conhecemos uma avó que conseguiu fazer de Théodore, Gnon." (p. 193)

O tempo todo, o narrador faz essas observações inerentes às mais diversas dimensões da vida social francesa daquele momento histórico no qual se passam os acontecimentos no romance.


II. Primeiro esboço de duas figuras suspeitas

"Essas pessoas pertenciam àquela classe bastarda, composta de gente grosseira que subiu na vida e de gente inteligente decaída, que está entre as chamadas classe média e classe inferior, e que combina alguns dos defeitos da segunda com quase todos os vícios da primeira, sem ter o generoso impulso do operário, nem a honesta ordem do burguês." (p. 195)

Viram a intensão de análise antropológica e sociológica de tipos daquela sociedade francesa no ano de 1817?


"De resto, diga-se de passagem, nem tudo é ridículo e superficial nessa curiosa época à qual aqui fazemos alusão, no que poderíamos chamar de anarquia dos nomes de batismo. Ao lado do elemento romanesco, que acabamos de citar, existe o sintoma social. Não é raro hoje em dia que um vaqueiro se chame Arthur, Alfred ou Alphonse, e o visconde, se é que ainda há viscondes, Thomas, Pierre ou Jacques. Este deslocamento, que dá ao plebeu um nome 'elegante', e um nome camponês ao aristocrata, nada mais é que um borbulhar de igualdade. A irresistível penetração do novo sopro está nisso como em tudo o mais. Sob essa aparente discordância, existe uma coisa grande e profunda: a Revolução Francesa." (p. 197)

O narrador aproveitou a crítica que fez aos nomes das filhas do casal Thénardier, Éponine e Azelma (que quase se chamou Gulnare), para tecer um comentário a respeito das mudanças oriundas da recente Revolução Francesa em relação ao tempo histórico da história do romance.


III. A Cotovia

"Na aldeia a chamavam de Cotovia. Agradou ao povo, que gosta de imagens, denominar assim aquela criaturinha, pouco maior que um passarinho, trêmula, assustada, medrosa, primeira a se levantar toda manhã, não só na casa, mas em toda a aldeia, e sempre na rua ou nos campos antes da aurora. Mas a pobre Cotovia jamais cantava." (p. 199)

É uma dureza saber o que o casal Thénardier faz com a pequena Cosette sem o conhecimento de sua mãe, Fantine, que paga religiosamente valores mensais para que a filha seja criada enquanto ela não pode ir buscá-la.

---

COMENTÁRIO FINAL

Enfim, retomei a leitura do clássico de Victor Hugo, um romance de temática bastante atual no ano de 2024, a considerar os bilhões de miseráveis do mundo hegemonizado pela ideologia capitalista.

A cada página que leio mais me convenço do ensinamento de Italo Calvino sobre os clássicos: é melhor ler que não ler os clássicos!

Seguiremos lendo.

William Mendes


Bibliografia:

HUGO, Victor. Os miseráveis. Tradução de Regina Célia de Oliveira. Edição especial. São Paulo: Martin Claret, 2014.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Rotacização do L nos encontros consonantais


Estou relendo o livro de Marcos Bagno - A língua de Eulália, de 1997. A importância dele para mim é muito grande.

Quando entrei na USP em 2001, foi uma das questões que mais me marcaram o fato dos professores de língua portuguesa insistirem para que os alunos perdessem o preconceito linguístico. É como se dissessem a eles: mudem o programa de seu computador-cérebro.

As pessoas não falam errado, ou "não sabem falar". Elas falam variedades de língua.

A questão da língua única no Brasil também é outra balela, é mito.


ROTACISMO

Marcos Bagno nos explica que existe na língua portuguesa uma tendência natural em transformar em R o L dos encontros consonantais.

Quem diz broco em lugar de bloco não é "burro", não fala "errado" nem é "engraçado", mas está apenas acompanhando a natural inclinação rotacizante da língua.

Vejam abaixo como funciona isso através da etimologia das palavras. O que era L em latim permaneceu L em francês e em espanhol, mas em português se transformou em R.


LATIM..... FRANCÊS...... ESPANHOL.... PORTUGUÊS

ecclesia- ....église .........iglesia ...........igreja
Blasiu- .......Blaise .........Blas ..............Brás
plaga- ........plage ..........playa ............praia
sclavu- ......esclave .......sclavo ...........escravo
fluxu- ........flou .............flojo .............frouxo

O português não-padrão também é coerente às tendências da língua.

"Os falantes do português não-padrão só conhecem encontros consonantais com R. Na variedade deles simplesmente não existem encontros consonantais com L", nos diz Bagno.

Para finalizar o tema, vejamos duas frases com a mesma explicação histórica, onde uma achamos "correta" e a outra "ridícula e engraçada":

- "Cráudia fala ingrês e gosta de chicrete"

- "A igreja de São Brás é perto da praia"


E aí, que tal termos menos preconceito linguístico? Basta entendermos que o objetivo da língua é comunicar e que as pessoas se comunicam de acordo com a variedade vigente no meio onde vivem ou de onde vieram.

William

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Morfologia - A flexão nominal de número




Oposição entre um indivíduo e mais de um indivíduo.


Como diz Saussure (1922) na língua tudo é oposição.

A situação especial fica por conta dos COLETIVOS, em que a forma singular envolve uma significação de plural. Como se trata de uma UNIDADE homogênea, vem no singular.

Mattoso nos diz sobre alguns casos particulares:

Tanto o plural para a indecomposição linguística de uma série de partes componentes (núpcias, exéquias, funerais), como para a expressão da amplitude (trevas, céus, ares) foram reunidos na gramática greco-latina sob a designação de PLURALIA TANTA, ou, menos adequadamente, PLURAL MAJESTÁTICO.


MORFEMA FLEXIONAL DE PLURAL

O morfema flexional de plural, oposto a um zero (0 singular), é fonologicamente o arquifonema /S/ das 4 fricativas não-labiais (sibilantes: /s/-/z/; chiantes: /s'/-/z'/) em oposição pós-vocálica final.

A sua representação fonológica como /S/ corresponde à realização do morfema diante de pausa. Esta posição parece a mais natural, desde que estejamos focalizando o vocábulo formal isolado. Ela está implícita na letra -s como signo de plural na língua escrita.


OU SEJA, o que verificamos é que há dentro de um dialeto regional, três ou pelo menos dois fonemas possíveis para o morfema flexional de plural em português.


O MORFEMA FLEXIONAL DE PLURAL SE REALIZA COM DOIS OU TRÊS ALOMORFES.

ALOMORFIAS:

1- Alomorfe zero (0) para os nomes paroxítonos terminados em /S/.

Ex.:

- flor simples (simples singular), flores simples (simples plural);
- ourives perito (ourives singular), ourives peritos (ourives plural).

2- Nomes terminados por consoantes no singular que seriam formas teóricas com um tema de vogal -e.

Ex.:

- mar(e)s;
- animal(e)> anima(l)es> animais;
- paz(e)s.


3- Caso mais complexo é o dos nomes de singular em -ão, tônico ou átono. O singular neutraliza 3 estruturas radicais distintas, ou antes, uma estrutura de tema em -e e outra, que ora tem o tema em -e, ora tem o tema em -o. Nesta última a forma teórica coincide com a forma concreta singular e o plural se faz regularmente pelo acréscimo de /S/ do plural:

Ex.:

- irmão-irmãos;
- órfão-órfãos.

Já a vogal do tema em -e se combina com uma estrutura terminada em -ã/aN/ e outra terminada em -õ/oN/. A vogal do tema se incorpora como assilábica à sílaba de travamento nasal e este passa a travar o tema:

Ex.:

- pãe/pa'N/ > pães;
- leõe/leo'N/ > leões.

Donde:

1) -ão: -ãos; -ãe: -ães. (só em mãe o tema teórico se realiza no singular: mãe:mães); -õe: -ões.

-ÕE: -ÕES é a estrutura mais frequente, ou antes, a estrutura geral, de sorte que a maioria dos singulares em -ão, sendo teoricamente õe, forma o plural em -ões.

As duas outras estruturas são tão reduzidas que se podem esgotar em pequenas listas.

É bom lembrar que existe variação livre de duas ou três estruturas teóricas para vários nomes:

Ex.:

- aldeão = aldeões, aldeãos e aldeães.


Bibliografia:

CÂMARA Jr., J. Mattoso: Estrutura da Língua Portuguesa, 23ª edição, Editora Vozes, Petrópolis 1995.

Regras básicas na descrição do gênero nominal




Um resumo básico de Mattoso Câmara nos ajuda bastante na descrição do gênero nominal:

1) Nomes substantivos de gênero único.

Ex.: (a) rosa, (a) flor, (a) tribo, (a) juriti, (o) amor, (o) livro, (o) colibri, (o) homem, (a) mulher.


2) Nomes de dois gêneros sem flexão.

Ex.: (o,a) artista, (o,a) intérprete, (o,a) mártir.


3) Nomes substantivos de dois gêneros, com uma flexão redundante.

Ex.: (o) lobo, (a) loba, (o) mestre, (a) mestra, (o) autor, (a) autora.


O ARTIGO:

O artigo, que, como partícula pronominal adjetiva, tem uma função significativa bem definida, tem a mais a função de marcar, explícita ou implicitamente, o gênero dos nomes substantivos.


Bibliografia:

CÂMARA Jr., J. Mattoso: Estrutura da Língua Portuguesa, 23ª edição, Editora Vozes, Petrópolis 1995.

A flexão de gênero e seus alomorfes




Relembrando...

A flexão de gênero é uma só, com pouquíssimos alomorfes: o acréscimo, para o feminino, do sufixo flexional -a (/a/ átono final) com a supressão da vogal temática, quando ela existe no singular: lob(o) + a = loba; autor + a = autora.


ALOMORFIAS NA FLEXÃO DO GÊNERO:

1- o par opositivo avô-avó.

2- as formas teóricas em /oN/
Ex.: bom /boN/ = boa; leão /leoN/ = leoa.

3- o sufixo derivacional aumentativo /oN/ vai para a sílaba seguinte como consoante /n/ acrescido da desinência –a: valentão /valeNtoN/ = valentona.

4- os radicais em /aN/ com tema em -o suprimem a vogal do tema no feminino: órfão-órfã; irmão-irmã.

5- o sufixo derivacional -eu suprime a vogal do tema -o /u/ e se ditonga ao acrescentar a desinência -a: europeu-europeia.

6- alternância da tonicidade, além do acréscimo da desinência -a:
Ex.: -oso /ôz/ = -osa /óz/ gostoso-gostosa
grosso /ôs/ = grossa /ós/

Segundo Mattoso Câmara, essas alomorfias se resolvem pelo dicionário, em que basta haver uma entrada para a forma teórica, em vez de se averbar simplesmente a forma de masculino.

Diz ainda: da mesma sorte, é ao dicionário que cabe informar sobre a chamada heteronímia no gênero, que não é mais do que a restrição a um gênero único de determinado membro de um par semanticamente opositivo. Por exemplo: homem, registrado como masculino, com uma remissão a mulher, por sua vez registrada como feminino.


Bibliografia:

CÂMARA Jr., J. Mattoso: Estrutura da Língua Portuguesa, 23ª edição, Editora Vozes, Petrópolis 1995.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Morfologia - O nome e suas flexões




(muitas frases aqui são citações do texto do professor Mattoso Câmara)


Relembrando...

Radical e tema são distintos. O tema vem a ser o radical ampliado por uma vogal determinada, que entra na flexão dos nomes e dos verbos.

Além dos verbos em temas 'a', 'e' e 'i', há nos nomes os temas em -a (rosa, poeta, planeta), os temas em -o /u/ átono final (livro, tribo, cataclismo) e os temas em -e /i/ átono final (dente, ponte, análise).

Assim, não se confunde a desinência de feminino -a, que aparece especialmente nos temas em -o (lobo, loba) e a vogal temática em -a, que não é marca de gênero (cf. poeta, masculino; artista, masculino ou feminino, conforme o contexto).


Os NOMES se dividem em SUBSTANTIVOS e ADJETIVOS. O contexto mostra qual é determinado e qual é determinante.

Ex.:
- marinheiro brasileiro = marinheiro (subst.) de nacionalidade brasileira (adj.);
- brasileiro marinheiro = brasileiro (subst.) de profissão marinheiro (adj.).


ADJETIVOS: a maioria tem temas em -o e -e. Os em -o têm a flexão de feminino em -a e os em -e não têm flexão, são neutros.

Ex.:
- homem corajoso, mulher corajosa;
- homem grande, mulher grande.


SUBSTANTIVOS: podem ter feminino em -a quando são de tema em -e ou quando são atemáticos.

Ex.:
- mestre-mestra; autor-autora; peru-perua.


INCOERÊNCIA NA APRESENTAÇÃO TRADICIONAL DAS GRAMÁTICAS

A flexão de gênero é exposta de uma maneira incoerente e confusa nas gramáticas tradicionais do Português. É ruim a forma de associação ao sexo dos seres para se falar da natureza semântica das palavras.

O gênero abrange todos os nomes no Português e não só os nomes de seres e, mesmo nestes, há problemas, pois para os animais temos os chamados substantivos EPICENOS, como cobra, sempre feminino, e tigre, sempre masculino.

Na realidade, o gênero é uma distribuição em classes mórficas, para os nomes, da mesma sorte que o são as conjugações para os verbos.

O mais que podemos dizer, porém, em referência ao gênero, do ponto de vista semântico, é que o masculino é uma forma geral, não-marcada, e o feminino indica uma especialização qualquer (jarra é uma espécie de jarro, barca um tipo especial de barco, como ursa é a fêmea do animal chamado urso)


NÃO É COERENTE confundir com flexão a RELAÇÃO SEMÂNTICA entre as palavras HOMEM e MULHER. Aqui, não se trata de flexão de gênero como afirmam as gramáticas.

O processo nesse caso é lexical ou sintático e não de flexão.


Na descrição da flexão de gênero em português não há lugar para os chamados 'nomes que variam em gênero por heteronímia'. O que há são substantivos privativamente masculinos, e outros, a eles semanticamente relacionados, privativamente femininos.

Nos casos de imperador-imperatriz, galo-galinha, perdigão-perdiz, o que ocorre não é um processo de flexão de gênero e sim um caso de derivação com os sufixos -TRIZ, -INHA, -ÃO.

IMPORTANTE: 

A flexão de gênero é uma só, com pouquíssimos alomorfes: o acréscimo, para o feminino, do sufixo flexional -a (/a/ átono final) com a supressão da vogal temática, quando ela existe no singular: lob(o) + a = loba; autor + a = autora.


Bibliografia:

CÂMARA Jr., J. Mattoso: Estrutura da Língua Portuguesa, 23ª edição, Editora Vozes, Petrópolis 1995.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Aula de Morfologia do prof. Emilio - Derivação




(eventuais equívocos conceituais são de minha responsabilidade)

DERIVAÇÃO - tipos de situação

1) alteram a categoria da palavra
prefixos: não sufixos: sim

2) apresentam as categorias nominais (gênero/número)
prefixos: não sufixos: sim

3) alteram o acento primário
prefixos: não sufixos: sim

SUBCATEGORIZAÇÃO

verbo: crer (em) descrer (de)
verbo: pensar (em) repensar (vazio)

AFIXOS - são eles que selecionam a base e não o inverso (selecionam adjetivos, substantivos e verbos)

base[categ]x = [afixo + base]y


NOMINALIZAÇÃO

bases: adjetiva, substantiva, verbal

adjetiva: -dade [x]n+dade = [[x]n dade]subst.
ex.: bom + dade = bondade

substantiva: -al [x]n+al = [[x]n al]subst.
ex.: banana + al = bananal

verbal: -ção [x]v+ção = [[x]v ção]subst.
ex.: realizar + ção = realização

ADJETIVAÇÃO

bases: adjetiva, substantiva, verbal

adjetiva: -íssimo [x]n+íssimo = [[x]n íssimo]adjetivo
ex.: bonito - bonitíssimo

nome: -oso [x]n+oso = [[x]n oso]adjetivo
ex.: bom + oso = bondoso

verbo: -vel [x]v+vel = [[x]v vel]adjetivo
ex.: lavar + vel = lavável

VERBALIZAÇÃO

bases: adjetiva, substantiva, verbal

adjetiva: -ec(er)
derivação parassintética, duas partes que fazem parte do mesmo processo: em[branqu]ecer

branqu=branc (a mesma raiz, só mudou a grafia)

en[gord]ar / a[vermelh]ar

substantivas:
cola > colar (subst. criou o verbo. o subst. é mais concreto)
data > datar (idem)

OBSERVAÇÕES IMPORTANTES DA AULA:

A CLASSE na derivação quem dá é o SUFIXO. Ex.: tudo que tem -OSO é adjetivo.

Substantivo pode ser usado como adjetivo. Veja os exemplos: navio-escola; sofá-cama; couve-flor

Aqui, o segundo qualifica o primeiro.

TOME uma base de natureza nominal, aplique o afixo -OSO e tem-se então um adjetivo. Esta é uma regra de formação de palavras. Alguns sufixos são produtivos (disponível para formar palavras novas). Outros não (ou menos).

Às vezes, os afixos selecionam também por certas características semânticas (além de categoria)

OU SEJA, o sufixo: qual a categoria seleciona? Tem algo mais semântico? Que categoria gera?

Em situações como:
pular > o pulo
comprar > a compra
perder > a perda

Muitos linguistas defendem que o verbo gerou o substantivo e não o inverso. As palavras derivadas manteriam "o processo" contido na palavra primitiva.



terça-feira, 18 de novembro de 2008

Estudos de Português histórico




Leitura do texto "Breve notícia da ortografia portuguesa", de Antonio Martins de Araújo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil. 

1 - Nos labirintos da 'Scriptologia' Medieval 

A existência de grande número de variantes léxicas é fruto dos dilemas dos 'manuscritores' desde 1200. 

Ou se grafava as palavras cunhadas a partir de matrizes da língua-mãe, ou se grafava a partir da impressão auditiva vinda da emissão dos novos vocábulos. 

Só a palavra IGREJA, por exemplo, já conta nas pesquisas filológicas com mais de 50 variantes morfológicas e/ou meramente gráficas. 

Ex.: ecclesia, egleja, eglesa, eglessa, eglisa (...) eigleja, eygreya, eygreygya, igleja, igrejja, iglisa, igriga. 


2 - O dilema inicial: conservar ou inovar? 

Há posições antagônicas desde os séculos XVI, XVII etc. 

"em guardar a orthographia cõforme à ethymologia & pronunciação dos vocábulos" (Gândavo, Regras que ensinam a maneira de escrever a orthographia da língua portuguesa - 1574

"o escrever como se pronuncia, he com a penna imittar a língua, estampar com letras aquillo, que declaramos com palavras (não acrescentando, nem diminuindo, pois não he necessario, antes fiqua sendo mais perfeito o modo de aquelle, que cõ esta arte imittar a natureza)" (Álvaro Ferreira de Vera, Orthographia ou modo para escrever certo na língua portuguesa - 1631

Outros autores, apesar de irem na linha conservadora e latinista, acabam aceitando mudanças linguísticas como, por exemplo, Bento Pereira em Regras gerais, breves e comprehensivas da melhor orthographia com que se pódem evitar erros no escrever da língua latina, & Portuguesza. Para se ajuntar à Prosodia. Coimbra, Joseph A. da Sylva, 1733. (A 1a ed. é de 1666) 

"Para que guardemos certeza ou verdade em nossa escritura, assim devemos escrever, como pronunciamos, & pronunciar como escrevemos. D'outra maneyra será nosso escrever mentiroso" 

Bibliografia: 

PEREIRA, Cilene da Cunha & PEREIRA, Paulo Roberto Dias. ORG. e COORD. Miscelânea de estudos linguísticos, filológicos e literários in Memoriam Celso Cunha. Ed. Nova Fronteira, 1995, RJ.

domingo, 16 de novembro de 2008

O mecanismo da flexão portuguesa (2)




O QUE DIZEM NOSSAS GRAMÁTICAS PORTUGUESAS... 

Costuma-se chamar de FLEXÃO DE GRAU, ocorrências como: 

fácil - facílimo 
triste - tristíssimo 
negro - nigérrimo 

Faltam no processo, para MATTOSO, entretanto, as condições para tal. 

Não há obrigatoriedade no emprego do adjetivo com esse sufixo de superlativo (é mais uma questão de estilística) e não há uma sistematização coerente para todos os adjetivos (paradigma exaustivo e exclusivo) 

O QUE OCORRE COM OS SUPERLATIVOS É UMA DERIVAÇÃO. 

"Em outros termos. A expressão de grau não é um processo flexional em português, porque não é um mecanismo obrigatório e coerente, e não estabelece paradigmas exaustivos e de termos exclusivos entre si" 

CONFUSÃO COM AS REGRAS DO LATIM: 

No latim havia morfemas gramaticais para graus (complexo flexional). Em português, o processo comparativo é SINTÁTICO e não de morfemas. 

Ex.: 

HOMO FELIX - homem feliz 
HOMO FELICIER LUPO - o homem é mais feliz do que o lobo 
HOMO FELICISSIMUS ANIMALIUM - o homem é o mais feliz dos animais 

Ou seja, mecanismos sintáticos no português: 

... mais do que... 
... o mais... dos... 

Varrão, diria aqui "DERIVATIO VOLUNTARIA" 

Bibliografia: 

CÂMARA Jr., J. Mattoso: 

.Estrutura da Língua Portuguesa, 23a. edição, Editora Vozes, Petrópolis 1995.

O mecanismo da flexão portuguesa




O termo FLEXÃO é a tradução do alemão BIEGUNG 'flexão, curvatura', introduzido pelo velho filólogo Schlegel (1772-1829) e serve para indicar que UM DADO VOCÁBULO SE DOBRA A NOVOS EMPREGOS. 

Em Português equivale a segmentos fônicos pospostos ao radical - ou sufixos. São os SUFIXOS FLEXIONAIS, ou DESINÊNCIAS, que não se devem confundir com os sufixos derivacionais, destinados a criar novos vocábulos. 

Para Varrão (116 a.C. - 26 a.C.) se trata de DERIVATIO NATURALIS, para indicar modalidades de uma dada palavra e DERIVATIO VOLUNTARIA, que cria novas palavras. 

No caso das DERIVAÇÕES, os morfemas gramaticais não constituem um quadro regular, coerente e preciso. 

Na FLEXÃO há OBRIGATORIEDADE E SISTEMATIZAÇÃO COERENTE: É naturalis. Os morfemas flexionais estão concatenados em paradigmas coesos e com pequena margem de variação. 

Na língua portuguesa também há a necessidade da CONCORDÂNCIA. 

Na FLEXÃO existe uma RELAÇÃO FECHADA: "a lista de termos é exaustiva, 'cada termo exclui os demais' e não está na nossa vontade introduzir um novo termo no quadro existente" (Halliday). 

AO CONTRÁRIO, para cada vocábulo, há sempre a possibilidade, ou a existência potencial, de uma DERIVAÇÃO. A lista dos seus derivados não é nem exclusiva nem exaustiva. 

Bibliografia: 

CÂMARA Jr., J. Mattoso: 

.Estrutura da Língua Portuguesa, 23a. edição, Editora Vozes, Petrópolis 1995.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Filologia - Edição crítica (César Nardelli Cambraia)




Capítulo 6 

Pode-se dizer que a edição crítica é o objeto por excelência da crítica textual, pois é em sua elaboração que a técnica de estabelecimento do texto exige maior sofisticação. 

Duas etapas fundamentais: o estabelecimento do texto crítico (crítica textual) e sua apresentação (ecdótica). 

ESTABELECIMENTO DO TEXTO CRÍTICO 

Recensão e reconstituição 

RECENSÃO: ESTUDO DAS FONTES (é a sua tradição). Tradição direta, basicamente manuscrita e impressos. A tradição indireta são traduções, paráfrases, citações etc. 

LOCALIZAÇÃO E COLETA DAS FONTES: os principais são os CATÁLOGOS. Em especial os diversos catálogos das bibliotecas nacionais. Também os manuais de história da literatura e os ensaios críticos. 

COLAÇÃO: comparar os testemunhos em busca de LUGARES-CRÍTICOS (ponto do texto em que os testemunhos divergem). Das lições (palavras ou grupos de palavras) temos as VARIANTES. Para apuração dessa fase escolhe-se um TESTEMUNHO DE COLAÇÃO, texto de melhor condição e mais completo. 

ESTEMÁTICA: relação genealógica entre os testemunhos de um texto. Os ESTEMAS são árvores genealógicas que se constroem graficamente para representar a relação entre os testemunhos de um dado texto. 

RECONSTITUIÇÃO DO TEXTO: 

Princípios: 

Reconstituição por testemunhos – a lição do maior número de testemunhos é preferível; 

- a lição mais antiga é preferível; 

- a lição do melhor testemunho é preferível; 

- a lição mais difícil é preferível; 

- a lição mais breve é preferível; 

- a lição que explica a origem de outra é preferível; 

- métrica; 

- estilo; 

- contexto. 

Reconstituição por conjectura: o editor vê-se obrigado a contar com o seu conhecimento e com a sua intuição para restituir o que teria sido a forma genuína da passagem de um texto. 

APRESENTAÇÃO DO TEXTO CRÍTICO 

Depois de cumpridas todas as etapas para a fixação do texto crítico chega-se à fase em que se deve organizar todo o material pesquisado para ser apresentado ao público-leitor: esta fase diz respeito mais propriamente à parte específica da ecdótica. 

Bibliografia: 

CAMBRAIA, César Nardelli. Introdução à crítica textual. SP, 2005, editora Martins Fontes.

Interface Linguística Histórica e Filologia




Texto de Marilza de Oliveira 

INTRODUÇÃO 

A filologia remonta ao período alexandrino e teve como objetivo restaurar os textos deturpados em virtude das sucessivas cópias. 

Linha do tempo: grande interesse nos séculos III e II a.C. para edições críticas de Hesíodo e Homero; desinteresse no período medieval devido à doutrina cristã, que eliminava e refazia arbitrariamente várias passagens das obras clássicas; volta do interesse da investigação filológica no período humanista. No século XIX a Filologia ganha o estatuto de ciência por ter princípios científicos. Surge a Linguística Histórica. 

A FILOLOGIA PORTUGUESA 

Ao longo do tempo, os especialistas se dividiram entre os que entendiam a filologia como um estudo amplo de tudo sobre a língua e literatura, como Carolina Michaëlis, Serafim da Silva Neto e José de Vasconcelos. 

Chaves de Melo passa a diferenciar a Filologia Portuguesa da Linguística Portuguesa, sendo esta o produto histórico-social e aquela a ciência para estabelecer, explicar e comentar textos. 

Modernamente, IVO CASTRO diz que a FILOLOGIA se limita ao exercício de verificar se um texto que vai ser lido e interpretado dá garantias de estar tão próximo quanto possível daquilo que o seu autor escreveu. 

“desempenhar a sua missão, que não é estética nem semântica, mas técnica e, de certo modo, ética: a missão de interrogar os objectos escritos sobre a proveniência e a sua existência antes de os declarar aptos a serem lidos pelos outros” 

Este conceito de Ivo Castro está diretamente relacionado com a LINGUÍSTICA HISTÓRICA. 

TIPOS DE EDIÇÃO DE UM TEXTO: MODERNIZADORA E CONSERVADORA 

Uma edição modernizadora faz intervenções no texto, atualizando ou uniformizando grafias, pontuação e estruturas morfossintáticas, pode facilitar a leitura do texto para historiadores, sociólogos, economistas etc. 

Para os linguistas e estudiosos da língua é necessária a edição conservadora. 

A EDIÇÃO AUTORIZADA PARA O ESTUDO LINGUÍSTICO 

Segundo Megale é importante que a edição “ofereça lição autêntica do testemunho, com os ‘erros’ que possa ter (1988:18)” 

Spina (1994:84-88) apresenta 4 tipos de EDIÇÕES CONSERVADORAS: 

a) a reprodução fac-similar – só poderá ser compulsada por especialistas em paleografia. 

b) a reprodução diplomática – reproduz as abreviações e os erros contidos no manuscrito. 

c) a reprodução semidiplomática – desdobra as abreviações, redivide as palavras e propõe uma pontuação, avançando na interpretação do texto. 

d) a edição crítica – busca estabelecer o texto como foi escrito pela primeira vez confrontando manuscritos, anotando variantes, corrigindo os erros tipográficos e interpretando os passos obscuros. 

Michaëlis é uma das que defendem que uma edição SEMI-DIPLOMÁTICA com desdobramentos de abreviações (em itálico) e uma EDIÇÃO CRÍTICA possam ser usadas por um linguista. 

Já Cambraia (1999) sustenta que as intervenções do editor podem trazer problemas ao linguista, pois sinais de pontuação e uso de maiúsculas e minúsculas tem informações sintáticas e semânticas. 

A DATAÇÃO E A PROCEDÊNCIA DO TEXTO 

Além do rigor da reprodução do texto-fonte, a filologia objetiva levantar informações que possam caracterizar o texto-fonte em termos de datação e procedência, informações altamente relevantes para o linguista que está preocupado com a história da língua. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS DE MARILZA DE OLIVEIRA 

Ao selecionar um texto medieval para a constituição de seu corpus, o diacronista deverá estar atento e capacitado para enfrentar os problemas gerados pelo processo de transmissão manuscrita e o problema da escolha da edição, que deverá ser aquela que apresenta os critérios mais rígidos, ou conservadores, de transcrição do texto. Mas não só. O linguista deve estar atento também ao aparato das variantes, fonte inestimável de informações sobre variação linguística. 

Ao buscar a lição autêntica do testemunho, o trabalho filológico pode dar inestimável contribuição para o estudo da história da língua. De fato, o arrolamento de alguns poucos aspectos morfossintáticos feitos (nos textos da Demanda do Santo Graal e no Orto do esposo) fornecem evidências empíricas para a hipótese da deriva do Português Brasileiro. 

Bibliografia: 

LIMA-HERNANDES, Maria Célia & FROMM, Guilherme (ORG). Domínios da linguagem v. SP, Plêiade, 1ª edição, 2005.

Filologia: História concisa da escrita (Charles Higounet)




AULA DE FILOLOGIA SOBRE O TEXTO: 

CAPÍTULO 4 

1) Primeiros momentos: s. VII ao VI a.C. em movimentos 

a) hipótese mais tradicional: o alfabeto latino e o etrusco seriam empréstimos diretos das escritas gregas da Itália. 

b) hipótese com mais crédito: Roma teria recebido indiretamente sua escrita por meio dos etruscos. 

2) Século I a.C.: alfabeto latino com 23 letras 

2.1) século III – variação C e G. ex: Caius ou Gaius 

2.2) Cícero – Y e Z do alfabeto jônico nas transcrições de palavras gregas; Y e W: glides (semivogais). Ex: queijo = K e J = queyjo 

2.3) Não se distinguiam ‘i’ e ‘u’ vogais de ‘i’ e ‘u’ consoantes. No latim clássico não havia ‘j’ e ‘v’. INRI = Iesus Nazarenus Rex Iudiorum 

Uino ueritas 

Os escribas da Idade Média, tanto quanto os latinos, não distinguiram 'i' e 'j', e 'u' e 'v'. As letras 'j' e 'v' são chamadas de RAMISTAS, do nome do humanista francês do século XVI, Petrus Ramus (Pierre de la Ramée). 

“O alfabeto latino é, definitivamente, um alfabeto grego ocidental transformado, por uma forte influência etrusca, em um dos alfabetos itálicos” 

3) O ALFABETO LATINO É UM ALFABETO GREGO (OCIDENTAL) TRANSFORMADO. 

4) Século I: alfabeto latino firma-se. A partir daqui, teremos mudanças gráficas. (já são 23 letras) 

5) A ESCRITA ROMANA ATÉ O SÉCULO II 

A escrita romana da época clássica é conhecida por dois grandes tipos de monumentos, as INSCRIÇÕES e os PAPIROS. 

Havia dois tipos de suporte, SUPORTES DUROS e SUPORTES SUAVES, ou seja, as inscrições eram feitas em pedra, metal, argila, paredes, tabuletas de cera e utilizava-se cinzel, estilete ou pincel. 

Nos SUPORTES DUROS prevaleciam as LETRAS CAPITAIS (de forma, caixa alta). 

Nos SUPORTES SUAVES prevaleciam as LETRAS CURSIVAS (de mão). 

DERRUBA-SE A HIPÓTESE DE ACIOLLI (1996), QUE AS LETRAS CAPITAIS (MAIÚSCULAS) ERAM “ANCESTRAIS” DE TODAS AS LETRAS. 

Século I: 

Escrita comum clássica pequena e cursiva 

Emprego da escrita em caixa alta, com traço pesado, utilizada para edições de luxo. 

“O testemunho dos papiros e das inscrições mostra que os romanos praticavam no século I duas escritas não-especializadas: uma, a ‘escrita comum clássica’, pequena, ágil, cursiva, com diferenças gráficas de um documento para outro, utilizada tanto para livros como para atas; a outra, a ‘maiúscula’, geralmente de módulo maior, pesada, utilizada para as edições de luxo, os editais, as reproduções das atas.” 

ERA O SUPORTE E O MATERIAL QUE DEFINIAM A LETRA MAIS APROPRIADA. 

O TERMO ESCRITA ‘CURSIVA’ NÃO DEVERIA SE OPOR A ESCRITA ‘MAIÚSCULA’, POIS A CURSIVIDADE É UMA QUALIDADE GRÁFICA QUE ESSAS CATEGORIAS BEM DISTINTAS DE ESCRITA PODEM POSSUIR. 

6) Séculos III e IV: (Jean Mallon) 

Nova escrita comum 
Uncial 

7) Séculos V e VI: 

Adotada nos novos reinos ocidentais, “quebrando” a ideia de escritas nacionais como a “lombarda”, a “visigoda” e a “merovíngia”. 

8) As origens da escrita carolíngia, séculos V – VIII, crescem as atividades monacais, influenciando o tipo de letra. 

Scriptoria eclesiásticos são responsáveis pelo surgimento de algumas variedades locais de letras. 

Informações auxiliares: 

Escrita bustrofédon – escrita que consistia em linhas alternadas da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, como o sulco que um arado faz numa lavoura. Ocorre frequentemente nas inscrições gregas mais antigas. (Michaelis) 

Papiro – é uma planta (Egito) 
Pergaminho – é de pele de animal (cabra ou carneiro) 
Reunião – é um códice 

Bibliografia: 

HIGOUNET, Charles. História concisa da escrita. SP, Parábola Editorial, 2003.

domingo, 9 de novembro de 2008

Aulas de Filologia do professor Marcelo Módolo




OBJETIVOS DA MATÉRIA: 

Apresentar uma introdução à Filologia Portuguesa, stricto e lato sensu. Mostrar a necessidade de busca do texto fidedigno, como edição de documentos, manuscritos ou impressos. Valorizar o estado de língua em que foi escrito originalmente o documento. 

PROGRAMA: 

1) Conceito e objeto da Filologia, 2) Relações com a Diplomática, com a Codicologia e com a Paleografia, 3) O documento original e a cultura de sua época, 4) A Crítica Textual, 5) O exame de testemunhos, 6) Os tipos de edição, 7) As etapas do trabalho filológico, 8) Critérios de edição do manuscrito medieval, 9) Critérios de edição do manuscrito moderno, 10) Estudos de língua em manuscritos brasileiros editados. 

Sobre os conceitos de filologia a partir dos autores estudados, o professor os separou entre os que usam o conceito amplo e os que usam o conceito de crítica textual. 

Amplo: Carolina Michaëlis e Leite de Vasconcelos. 

Crítica textual: Coseriu (romeno); Herculano de Carvalho (português); Malmberg (sueco). 

A filologia foi perdendo ‘nacos’ e ficou a crítica textual, ou seja, voltada à edição de textos. 

O autor Maximiano de Carvalho acha melhor essa delimitação, pois a linguística já tomou as outras partes para si. 

Filologia = crítica textual = edótica. 

RELAÇÕES COM AS DEMAIS DISCIPLINAS FILOLÓGICAS: 

a) paleografia: não apenas técnica de decifração de escritas antigas, mas história da formação e evolução dos sistemas gráficos de representação verbal e ainda classificação e tipologia dos alfabetos, das práticas e dos materiais escriptórios; 

b) Codicologia: estudo do livro manuscrito como artefato, com relevo para os materiais, processos e arquitetura da sua confecção, para os centros produtores (ex: scriptoria e chancelarias medievais) e para a sua circulação; 

c) Manuscriptologia: disciplina muito recente, analisa autógrafos (manuscritos ou dactiloscritos), com o fim de, nos traçados da escrita, da rasura e da reescrita, reconstituir o percurso visível da gênese do texto. 

NORMAS PARA UMA EDIÇÃO SEMIDIPLOMÁTICA (texto do prof. Megale) 

USOS DE CADA TIPO DE EDIÇÃO: 

FAC-SIMILADA +++ = PALEOGRÁFICOS 

DIPLOMÁTICA ++ = LINGÜÍSTICOS E FILOLÓGICOS 

SEMIDIPLOMÁTICA + = LITERÁRIO 

MODERNIZADA = LEIGOS, DIVULGAÇÃO, HISTORIADORES (conteúdo) 

EDIÇÃO CRÍTICA = QUALIDADE DAS PUBLICAÇÕES e EDIÇÕES DE LIVROS. 

Observações feitas durante a transcrição de manuscritos em aula: 

As palavras proparoxítonas comumente eram escritas e faladas com a redução do número de sílabas. Exemplos: Árvore (arvre); abóbora (abobra) fósforo (fósfro) etc 

Até o século XVI havia alternância i – j e u – v


Filologia - Trapalhadas tipográficas




Texto: terror de revisores e escritores, vacilos de impressão comprometem o entendimento e foram responsáveis por episódios constrangedores ao longo da história 

Por: Luiz Costa Pereira Junior. 

Não deixo esse prefacio, porque a affeição do meu defundo amigo a tal extremo lhe cagára o juizo que não viria a ponto reproduzir aqui aquella saudação inicial. A recordação só teria valor para mim. Baste aos curiosos o encontro casual das datas, a daquelle, 22 de Julho de 1864, e a deste.

Rio, 22 de Julho de 1900. 

Machado de Assis.” 

CAGÁRA?? É POSSÍVEL ISSO NA FALA DE MACHADO? 

A obra de Machado Poesias Completas, em que o verbo CEGAR foi impresso com A no lugar do E: confusão histórica. 

Outro exemplo de erro tipográfico histórico e constrangedor: 

A edição inglesa da Bíblia, em 1631, engoliu o NÃO do 7º mandamento: 

‘não cometerás adultério’ virou ‘COMETERÁS ADULTÉRIO’ (‘thow shalt commit adultery'

LINGUÍSTICA E FILOLOGIA 

Para linguistas, problemas tipográficos são graves apenas se levarem a uma interpretação diversa da pretendida pelo original. 

Para JOSÉ LUIZ FIORIN, da USP, erros como trocar ‘grave’ por ‘grade’ não é tão complicado, pois pode ser perceptível para o leitor. O problema é quando compromete a compreensão. 

Para HEITOR MEGALE, filólogo da USP, a dificuldade básica é distinguir o erro manual da marca dialetal, se errou o sujeito ou se uma grafia era comum em tempos arcaicos. 

O atual ‘registro’, por exemplo, era dito ‘registo’ no século 16 e falado nas ruas do século 18 como ‘resisto’ ou ‘rezisto’ (alternando-se com ‘rezistro’ e resistro’). Se um filólogo encara tais registros, sabe que se trata de uma marca da época.


Filologia - Normas para uma edição semidiplomática




1 - A transcrição será conservadora. 

2 - As abreviaturas, alfabéticas ou não (7brº), serão desenvolvidas, marcando-se, em itálico, as letras omitidas na abreviatura, obedecendo os seguintes critérios: 

a) respeitar, sempre que possível, a grafia do manuscrito, ainda que manifeste idiossincrasias ortográficas do escriba, como no caso da ocorrência ‘mundo’, que leva a abreviatura m.to a ser transcrita ‘munto’; (to pequeno acima da linha) 

Ex: pa = para (a do pa pequeno acima da linha, complemento em itálico) 

b) no caso de variação no próprio manuscrito ou em coetâneos, a opção será para a fora atual ou mais próxima da atual, como no caso de ocorrências ‘Deos’ e ‘Deus’, que levam a abreviatura D.s a ser transcrita ‘Deus’. (s pequeno acima da linha) 

3 - Não será estabelecida fronteira de palavras que venham escritas juntas, nem se introduzirá hífen ou apóstrofo onde não houver. Exemplos: epor ser; aellas; daPiedade; omninino; dosertão; mostrandoselhe; achandose; sesegue. 

4 - A pontuação original será rigorosamente mantida. No caso de espaço maior intervalar deixado pelo escriba, será marcado: (espaço). Exemplo: que podem perjudicar (espaço) Osdias passaõ eninguem comparece. 

5 - A acentuação original será rigorosamente mantida, não se permitindo qualquer alteração. Exemplos: aRepublica; docommercio; edemarcando tambem lugar; Rey D. Jose; oRio Pirahý; oexercicio; He m.to conveniente. 

6 - Será respeitado o emprego de maiúsculas e minúsculas como se apresentam no original. No caso de alguma variação física dos sinais gráficos resultar de fatores cursivos, não será considerada relevante. Assim, a comparação do traçado da mesma letra deve propiciar a melhor solução. 

7 - Eventuais erros do escriba ou do copista serão remetidos para nota de rodapé, onde se deixará registrada a lição por sua respectiva correção. Exemplo: nota 1. Pirassocunda por Pirassonunga; nota 2. deligoncia por deligencia; nota 3. adverdinto por advertindo. 

8 - Inserções do escriba ou do copista na entrelinha ou nas margens superior, laterais ou inferior entram na edição entre os sinais < > na localização indicada. Exemplo: . 

9 - Supressões feitas pelo escriba ou pelo copista no original serão tachadas. Exemplo: todos ninguem dospresentes assignarom (ninguem riscado no meio); sahiram sahiram aspressas para oadro (sahiram riscado no meio). No caso de repetição que o escriba ou o copista não suprimiu, passa a ser suprimida pelo editor que a coloca entre colchetes duplos. Exemplo: fugi[[gi]]ram correndo [[correndo]] emdireçaõ opaco. 

10 - Intervenções de terceiros no documento original, devem aparecer no final do documento informando-se a localização. 

11 - Intervenções do editor hão de ser raríssimas, permitindo-se apenas em caso de extrema necessidade, desde que elucidativas a ponto de não deixarem margem a dúvida. Quando ocorrerem devem vir entre colchetes. Exemplo: naõ deixe passar neste [registo] de Areas. 

12 - Letra ou palavra não legível por determinação justificam intervenção do editor na forma do item anterior, com a indicação entre colchetes [ilegível] 

13 - Trecho de maior extensão não legível por deterioração receberá a indicação [corroídas + ou – 5 linhas]. Se for o caso de trecho riscado ou inteiramente anulado por borrão ou papel colado em cima, será registrada a informação pertinente entre colchetes e sublinhada. 

14 - A divisão das linhas do documento original será preservada, ao longo do texto, na edição, pela marca de uma barra vertical | entre as linhas. A mudança de fólio receberá a marcação com o respectivo número na sequência de duas barras verticais: ||1v.|| ||2r.|| ||2v.|| ||3r.||. 

1 fólio = folha 
1r. = reto 
1v. = verso 

15 - Na edição, as linhas serão numeradas de cinco em cinco a partir da quinta. Essa numeração será encontrada à margem direita da mancha, à esquerda do leitor. Será feita de maneira contínua por documento. 

16 - As assinaturas simples ou as rubricas do punho de quem assina serão sublinhadas. Os sinais públicos serão indicados entre colchetes. Exemplos: assinatura simples: Bernardo Jose de Lorena; sinal público (documentos cartoriais com selo): [Bernardo Jose de Lorena]. 

Bibliografia: 

MEGALE, Heitor & TOLEDO NETO, Sílvio de Almeida (Orgs). “Normas para transcrição de documentos manuscritos para a História do Português do Brasil”. In: Por minha letra e sinal: documentos do ouro do século XVII. Cotia: Ateliê Editorial.

A palavra filologia e as suas diversas acepções




Conclusões relativas ao artigo em análise, de Maximiano de Carvalho e Silva 

1 - Entre as palavras usadas para a designação da ciência dos textos, FILOLOGIA e ECDÓTICA estão definitivamente marcadas pelos problemas da polissemia. Por este motivo, aos usuários de tais palavras, por imposição da clareza que deve caracterizar a boa linguagem científica, impõe-se o cuidado de só se valerem das mesmas num contexto em que esteja bem especificado o sentido a elas atribuído, como opção de uso legítima e incontestável diante dos fatos comprovados a que fizemos referência. De fato, vimos com clareza que FILOLOGIA no uso moderno tanto corresponde ao sentido amplo das definições de Carolina Michaëlis e de Leite de Vasconcelos como ao sentido restrito de crítica textual; e que a palavra ECDÓTICA, usada por Salomon Reinach e por Dom Henri Quentin para indicar a fase culminante da crítica textual, também é tomada para designar uma ciência de objetivos mais amplos, da qual a crítica textual seria a parte nuclear. 

2 - Não há a menor razão para justificar a substituição da forma ECDÓTICA por EDÓTICA, esta última divulgada por infeliz iniciativa de Silveira Bueno em 1946, e adotada por Segismundo Spina: é uma palavra de cunho erudito, e não é a única que pode causar espécie aos iniciantes em estudos das ciências da linguagem, aos quais não restam outras alternativas senão conformar-se com o uso desta e de numerosas palavras ou expressões de aparência hermética ou então simplesmente rejeitá-las e substituí-las se possível por outras designações mais simples e adequadas. 

3 - A vantagem oferecida pelas designações CRÍTICA TEXTUAL, CRÍTICA DE TEXTOS ou CRÍTICA DOS TEXTOS, de uso já tão generalizado, é que contribuem de imediato para a percepção do seu significado, sem necessidade de explicações etimológicas ou relativas a problemas de polissemia, que não as envolvem. 

4 - A melhor maneira de designar os especialistas em CRÍTICA TEXTUAL sem deixar nenhuma dúvida a esse respeito é no nosso entender usar a expressão CRÍTICO TEXTUAL, como tem feito Ivo Castro nos seus valiosos trabalhos. A palavra filólogo, pela sua polissemia, não se aplica exclusivamente a quem se dedica à crítica textual. 

5 - Quanto à palavra TEXTOLOGIA, na verdade, pondo de lado a restrição de sentido que lhe impôs Laufer, consideramos que poderia merecer a atenção dos estudiosos, como uma das boas soluções para o problema terminológico em pauta, pois o sentido dos radicais que a constituem em nada impede que viesse também a ser aplicada à ciência dos textos de modo geral, tendo em vista a origem dos mesmos, a sua transmissão através dos tempos e reprodução em edições fidedignas e edições críticas, como está nos planos da crítica textual. 

Bibliografia: 

CONFLUÊNCIA. Revista do Instituto de Língua Portuguesa. N.23 – 1º semestre de 2002, Rio de Janeiro.