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sábado, 8 de março de 2025

A língua de Eulália - Marcos Bagno (1)



Refeição Cultural

História da norma-padrão


"Na Itália, a variedade que ganhou o título de padrão e que hoje chamamos de italiano é a língua originária de uma região chamada Toscana. Esta região teve uma importância muito grande durante vários séculos, tendo a cidade de Florença como capital política e cultural. Florença foi um dos pólos do Renascimento, o grande movimento cultural europeu que revolucionou todos os gêneros artísticos e literários da época. Lá trabalharam e viveram gênios como Leonardo da Vinci, Michelangelo e Botticelli. E na língua da Toscana foram escritas algumas das obras-primas da literatura mundial: a Divina Comédia de Dante Alighieri, as Poesias de Petrarca, o Decamerão de Bocácio. Além disso, a Toscana contava com uma moeda forte, o florim, que foi uma moeda importante de comércio internacional durante mais de duzentos anos e em torno do qual se havia organizado um sistema bancário muito evoluído para a época. Tamanho prestígio fez com que o toscano se tornasse, pouco a pouco, a língua de cultura de toda a Itália. E isso apesar de existirem naquele país dezenas e dezenas de línguas diferentes, chamadas dialetos, falados por milhões de pessoas e também veículos de importantes manifestações culturais." (p. 25/26)


Enquanto tomava vitamina de abacate e banana, relia o clássico de Marcos Bagno, A língua de Eulália, livro que conheci em 2001, ano que iniciei minha graduação em Letras na Universidade de São Paulo. 

Os ensinamentos do linguista e escritor Marcos Bagno mudaram para sempre aquele adulto jovem, branco e pobre, que vinha sendo conquistado pelas mídias ideológicas da casa-grande: jornalões e canais de TV que eram as referências de todo mundo. Eu era como a maioria e tinha preconceito linguístico, pois a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante. 

A cada capítulo da novela sociolinguística, os leitores vão se surpreendendo com as informações que tia Irene traz nas conversas com as jovens Vera, Sílvia e Emília, que passam uns dias na casa dela. Dona Eulália era empregada de Irene, professora de língua portuguesa e linguística.

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Dias atrás, vi uma entrevista do escritor Alberto Manguel e novamente me veio à lembrança aquele ano de 2001, primeiro ano das Letras na USP.

Ao ler dois textos de Manguel da bibliografia de uma matéria de literatura, saí desesperado atrás do livro dele: Uma história da leitura (1997). É um dos livros mais interessantes que li em minha vida!

Foi tão encantador vê-lo falar de literatura e cultura que dá até vontade de seguir teimando com a vida para poder ler mais um pouco. A leitura salva!

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Enfim, após instantes de prazer na leitura, preciso perseverar em trabalhar na revisão, sistematização e encadernação de meus textos nos blogs. É a minha vida ali e o meu desejo de preservar tudo que compartilhei de conhecimento com as pessoas. 

William 


Bibliografia:

BAGNO, Marcos. A língua de Eulália: novela sociolinguística. 6a ed. São Paulo: Contexto, 2000.

domingo, 5 de janeiro de 2025

Leitura de poesia (35) - Desacordo, Marili Santos



DESACORDO - MARILI SANTOS

 

À revelia

 

dessa nova ortografia

 

para, já disse

 

pára porque eu quero

 

ver o vôo das palavras,

 

com trema e

 

que tremam os gramáticos!

 

Pelo menos largaram

 

o circunflexo da sequência;

 

que faço com as saudades do

 

éi- ói, terrível epopeia;

 

À queima-roupa arrancaram

 

do pé de moleque e do olho da sogra

 

o tal do hífen e a exceção ficou

 

ao deus-dará.


Do blog Valsa Literária (valsaliteraria.blogspot.com)

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COMENTÁRIO:

Completei a leitura das primeiras cem publicações do blog da professora e escritora Marili Santos. Como já comentei em textos anteriores, a autora desenvolve suas criações literárias em diversas formas discursivas.

Gostei bastante dos contos "A espera da personagem" e "A face azul". Os temas foram bem desenvolvidos e a contista consegue manter a curiosidade das leitoras e leitores sobre o que vem no episódio seguinte. Marili publicou na forma de folhetim, capítulo por capítulo.

Lembro aqui aos leitores e leitoras do blog Refeitório Cultural que estou lendo as criações literárias da poeta, cronista e contista Marili Santos desde o início da página dela em 2011.

Me identifiquei com o tema do poema "Desacordo" porque também tive minhas discordâncias com as reformas impostas pelo Novo Acordo Ortográfico. Escrevi sobre isso algumas vezes no blog.

"o tal do hífen e a exceção ficou / ao deus-dará."

Além de muita coisa ter ficado "ao deus-dará" na língua portuguesa, ainda tenho outras teorias sobre a linguagem humana e as consequências das novas tecnologias do século XXI: avalio que a humanidade vai perder parte considerável de sua capacidade de escrever e manter a linguagem escrita.

Enfim, sigamos lendo poesia e outras formas de linguagem literária e de cultura.

William


sábado, 9 de novembro de 2024

Enem 2024: provas eliminatórias não deveriam ter questões com respostas dúbias



Refeição Cultural


Opinião

Fiquei incomodado tanto com o artigo do colunista e escritor Julián Fuks, colunista da página do UOL, quanto com a questão do Enem 2024 mal formulada e com mais de uma alternativa viável para a questão feita.

A Questão 29 do Caderno Verde da Prova de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias e Redação citou um trecho de um livro de Julián Fuks, "A Resistência", e formulou uma pergunta que até o autor alegou em artigo ter tido dificuldade de responder. E o problema não é esse, deixo claro.

Ao ler o artigo do autor comentando a questão, eu esperava que ele apontasse o cerne do problema, que é o fato que uma questão de vestibular, Enem ou concurso público não pode ser dúbia ao ponto de haver mais que uma alternativa correta. Isso acontece quando a questão exagera no quesito interpretativo. Não se faz isso com os participantes de um certame.

No artigo, Julián Fuks explica com toda a sua competência as características essenciais da literatura e dos textos ficcionais, que podem ter interpretações imprecisas e conter incertezas. Até aí, tudo bem. 

Num certo momento do artigo, ele diz:

"O receio se agravou quando enfim bati os olhos naquela questão 29 e me vi perdido entre suas opções de resposta, quase todas razoavelmente exatas, quase todas à sua maneira próximas do que eu desejara dizer naquela passagem."

O problema do artigo, na minha opinião, é quando o escritor começa a dar um jeito de ficar bem com todo mundo, incluindo críticos, examinadores e organizadores da prova etc.

Se fosse necessário discorrer sobre cada uma das 5 alternativas, não seria difícil justificar porque cada uma delas poderia estar correta de acordo com o texto. Estão interpretativas demais!

Pesquisando sobre a questão e a alternativa certa definida pelos produtores da prova, aliás, fiquei sem entender o próprio artigo de Fuks porque ele disse que a resposta não era a que ele achou que era, a "D" e no gabarito do Caderno Verde, Questão 29, a questão com o texto em análise, a resposta do gabarito é "D".

Mas repito, as outras alternativas não estão erradas! Nenhuma das outras.

Ele termina com uma reflexão que seria mais uma justificativa para que questões como essa, de leituras dúbias, não constassem em certames nos quais milhares ou milhões de pessoas estão participando para eliminarem uns aos outros.

"Estávamos apenas diante de mais uma manifestação da literatura em sua complexidade, em sua infinita nuance, em sua natureza insondável. Não se espera da literatura, nem das mensagens dos escritores, nem das interpretações dos críticos, nem das deduções dos examinadores, nenhum tipo de exatidão."

Ué, se fosse verdade essa afirmação, não haveria questões sobre textos literários e interpretativos em provas e concursos. Não é por aí. O problema é que a questão 29 foi mal formulada. 

Já vi questões com menos problemas serem anuladas em certames. Essa está muito ruim, de verdade!

Quando se faz uma questão de vestibular e concurso, é necessário que as alternativas sejam claras: uma tem que estar de acordo com o texto e as outras, não. Se as outras alternativas também têm relação possível com o texto, a questão está mal formulada e deve ser anulada.

Por fim, acreditem, até o nome do autor citado na questão está grafado errado... francamente! Pelo que podemos ver nas colunas do autor, ele se chama FUKS e o Caderno disse que o texto em questão é de um tal FUCKS. E o escritor sequer falou a respeito em seu artigo.

É uma opinião. Eu gosto dos artigos de Julián Fuks, leio sempre. E sou grande defensor de concursos públicos e provas de conhecimentos para o preenchimento de vagas. E defendo políticas afirmativas por entender que as pessoas não estão na mesma condição de igualdade de oportunidades.

William Mendes

09/11/24


sexta-feira, 4 de outubro de 2024

ICL - Estudando Língua Portuguesa e Literatura (1)



Refeição Cultural

TIPOLOGIA TEXTUAL, GÊNEROS TEXTUAIS E TEXTOS JORNALÍSTICOS E MIDIÁTICOS

As aulas que estou assistindo do Instituto Conhecimento Liberta são conteúdos formativos da plataforma de estudos e estão disponíveis a todas as pessoas que passam a integrar o projeto se associando ao instituto. Sou associado desde o primeiro ano, renovei minha 4ª assinatura.

O blog Refeitório Cultural recomenda muito a participação e apoio ao projeto de Eduardo Moreira e Jessé Souza e toda a equipe ICL. O conceito é o que pensamos desde o início do blog em 2007, compartilhar conhecimentos de forma gratuita. O blog atua com o conceito WIKI (What I Know Is) e o ICL tem uma mensalidade simbólica para acesso a quase 300 cursos.

As aulas que estou vendo de Português e Literatura da professora Juliana Giannini são de um dos eixos formativos do ICL. Neste caso, do grupo de cursos preparatórios para o ENEM, aulas ministradas em 2021. As aulas são muito didáticas e com muita qualidade.

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LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURA

Juliana nas três primeiras aulas traz conceitos de Mikhail Bakhtin sobre gêneros textuais. O linguista russo é um clássico para nós que estudamos Letras. Peço licença à profa para citar essa parte da aula dela.

GÊNEROS TEXTUAIS

* São tipos relativamente estáveis de enunciados, caracterizados por três elementos: conteúdo temático, estilo e construção composicional.

* A escolha de um gênero se determina pela esfera (contexto), pelas necessidades do tema, pelo conjunto dos participantes (falante/escritor e ouvintes/leitores) e pela vontade enunciativa ou intenção do locutor.

GÊNEROS JORNALÍSTICOS

A professora descreve uma série de gêneros textuais encontrados no jornalismo como, por exemplo, notícias, reportagens, charges, tirinhas, artigos, editoriais etc.

Achei legal a forma como ela explica as diferenças em dois desses gêneros textuais: 

NOTÍCIAIS E REPORTAGENS, ambas com função social de informar, divulgar e relatar fatos e acontecimentos. No entanto, as reportagens são mais detalhadas, longas e aprofundam mais o tema ou assunto tratado. Elas devem ter um caráter descritivo ou narrativo (e não dissertativo ou argumentativo) e devem estar na 3ª pessoa, evitando-se opinião ou comentários explícitos.

COMENTÁRIO - Percebem como essas características NÃO são respeitadas pela imprensa tradicional brasileira! Nossa imprensa golpista faz exatamente o contrário de tudo que se deveria respeitar em notícias e reportagens.

Depois, Juliana explica os EDITORIAIS e os ARTIGOS DE OPINIÃO. O primeiro expressa a opinião do veículo de comunicação. O segundo expressa a opinião de um articulista. A função social dos dois gêneros textuais é exprimir opinião sobre temas.

Achei interessante a professora Juliana explicar o fenômeno da "pós-verdade", algo muito relevante na atualidade das redes sociais e das mídias digitais. As pessoas precisam estar muito mais atentas hoje e preparadas para saber identificar as fontes de informações e os conteúdos em circulação.

Enfim, mesmo tendo boas noções dos temas Língua Portuguesa e Literatura, gostei muito das aulas, do conteúdo desenvolvido pela professora Juliana Giannini e a didática dela.

Só o conhecimento nos liberta!

William


sábado, 4 de novembro de 2023

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 4 de novembro de 2023. Sábado.


Leio sobre o massacre em Canudos enquanto ouço e leio sobre o massacre de palestinos em Gaza... Ontem e hoje, parece que não aprendemos nunca!

Achei que fosse acabar a leitura do livro de Euclides da Cunha, Os Sertões, e não consegui, mesmo lendo bastante nos últimos dois dias. Ô livro difícil da porra pra ler! 

A começar pela linguagem usada pelo escritor. Em uma frase com dez palavras, muitas são impronunciáveis e de semântica desconhecida para a maioria dos leitores, tanto os de hoje quanto os contemporâneos ao lançamento da obra. Que foda escrever assim!

Querem um exemplo, já da terceira parte "A luta"? Nem estou falando daquelas partes um e dois - "A terra" e "O homem" -, de linguagens pseudotécnicas e indecifráveis.

"Porque a ação se delongava. Delongava-se anormal, sem o intermitir das descargas intervaladas, o tiroteio cerrado e vivo, crepitando num estrepitar estrídulo de tabocas estourando nos taquarais em fogo... " (p. 463, edição Publifolha, 2000)

Aliás, ao falar de linguagem, de escolha de palavras e semântica etc, temos a questão do nome do escritor de Os Sertões: seria Euclydes ou Euclides? A polêmica já se arrasta há décadas entre nós das áreas das Letras. 

Em uma reportagem especial sobre os cem anos de Os Sertões, publicada no caderno Ilustrada da Folha de São Paulo, de 7 de dezembro de 2002, explica-se que a grafia antiga e original era com "y" e que regras da Língua Portuguesa posteriores a 1943 (Reforma Ortográfica) sugerem que palavras com o antigo "y" passem a ser escritas com "i". Na matéria, tem intelectuais que defendem se manter Euclydes e outros que defendem Euclides...

Eu não faço cavalo de batalha nisso não. A vida toda escreveram meu nome do jeito que sempre quiseram, e mesmo com o documento em mãos! Escrevem meu nome errado com a porra do documento em mãos. Com "n" no fim, com "m", mas com um "l" só, com "i" ou com "y", com "w" ou com "u"... Enfim, Euclydes ou Euclides dá na mesma para este blogueiro. Eu tenho edições da obra escritas dos dois jeitos, e aí, qual adoto? Escolhi Euclides de forma aleatória, não foi baseado em nenhum tratado ortográfico.

Enquanto tento acabar a leitura de Os Sertões, leitura que comecei em 2007... juro pra vocês, eu li as duas primeiras partes naquela época, depois me deu uma má vontade do caramba pra acabar o livro, pois eu já sabia do genocídio que a história iria mostrar. 

Francamente, ter lido quase 170 páginas daquela descrição preconceituosa das partes um e dois já foi uma façanha e tanto! Me martirizar lendo quase 300 páginas de genocídio era muito pra mim à época. Parei a leitura. Só fui retomar agora por causa do curso "13 livros para compreender o Brasil", do ICL.

E não é que o livro nos ajuda mesmo a compreender o Brasil! Enquanto leio sobre o genocídio dos favelados em Canudos, leio na imprensa o genocídio do povo palestino na ex-terra deles, a Palestina. Em 1947, os impérios vencedores da 2ª Guerra Mundial decidiram dar a metade da Palestina para os povos judeus e o que era para ser um espaço geográfico com dois povos convivendo juntos se transformou no que vemos hoje. 

Ler sobre o massacre dos miseráveis que viveram no Arraial de Belo Monte em 1896/97 pelo governo brasileiro é entender como governos e donos do poder massacram e eliminam grupos inteiros de pessoas dos espaços geográficos no mundo.

O exército brasileiro usou canhões apelidados de "matadeiras" e um canhão maior, um Withworth 32, para mandar bombas sobre um arraial com mais de 5 mil casebres e com cerca de 20 mil pessoas vivendo de forma comunitária, coletivista, sob a liderança de um beato, Antônio Conselheiro. 

Nestes dias do século 21, um governo despeja bombas em abrigos de refugiados, ambulâncias, hospitais, e demais áreas onde vivem milhões de civis palestinos, na Faixa de Gaza. E hoje, o governo de Israel bombardeou uma universidade... quase 100% dos milhares de mortos na Faixa de Gaza são crianças e mulheres e idosos...

Aff...

Vou me juntar aos povos do mundo que hoje vão se manifestar pelo fim do genocídio, pelo cessar-fogo e por um processo de paz e respeito ao povo palestino. Aqui em São Paulo o ato será na região da Paulista.

Eu estou tão triste, com uma tristeza tão profunda... mas fui triste a vida inteira e isso não me impediu de fazer grandes coisas e coisas importantes coletivamente.

A tristeza não pode ser desculpa para o marasmo e para o conformismo.

William


quinta-feira, 6 de julho de 2023

Diários com Machado de Assis (XIV)



Refeição Cultural

Osasco, 6 de agosto de 2023. Quinta-feira. 

(Um dia triste: perdemos duas pessoas do nosso lado na luta por um mundo melhor. Perdas por acidentes domésticos. Zé Celso, grande dramaturgo brasileiro, faleceu em decorrência de um incêndio; e nosso companheiro de lutas Carlos Cremoso, funcionário do Sindicato, faleceu em decorrência de uma queda. Um dia triste! Meus sentimentos aos familiares e amig@s)


Crônicas são textos de um gênero discursivo que depende muito de um certo nível de conhecimento por parte dos leitores - as referências -, ou seja, quando alguém lê uma crônica a pessoa precisa ter um conhecimento mínimo sobre a temática na qual a crônica faz referência, caso contrário o texto fica meio sem sentido.

Para dar um exemplo atual, o livro A bíblia em crônicas livres (2023), do excelente escritor e cronista Roberto Buzzo, faz referências em seus textos a personagens e eventos citados na bíblia, nos livros reunidos no Antigo e Novo Testamento (comentário aqui). 

A pessoa pode nunca ter lido a bíblia na vida, mas no mínimo a pessoa sabe do que se trata, sabe que a bíblia existe, já ouviu falar de fulano ou ciclano citado na bíblia etc. São as referências.

Em geral, tendo a afirmar que textos de crônicas envelhecem mal, justamente porque as referências vão se perdendo ao longo do tempo cronológico. Até nisso o Buzzo foi esperto, porque as referências das crônicas dele me parecem que ainda vão longe no presente e no futuro (risos).

Aí peguei pra ler, meio sem querer, um dos livros de Machado de Assis na estante. Percebi nas primeiras páginas a dificuldade da leitura, dificuldades como descrevi acima. Me faltam as referências. Parte delas por ignorância intelectual, parte por terem sido referências episódicas, coisas do cotidiano de Machado naquela época.

O livro História de quinze dias traz reunidas crônicas do Mestre do Cosme Velho dos anos de 1876, 1877 e 1878, reunidas neste volume de Obras Completas de Machado de Assis, da Editora Globo. Essa coleção é uma preciosidade que tenho em casa.

Vou tecer um elogio ao Roberto Buzzo e inclusive vou tratar de comprar o livro dele impresso, já que o que li foi digital, algo que não existe pra mim. Ele me fez rir. Rio com as crônicas dele.

Peguei as crônicas de Machado e li, li, li, até que as referências foram clareando e eu comecei a rir. O cara é fenomenal! Se Machado não é o pai da ironia, ele é herdeiro direto do deus da ironia. Cada parágrafo tem alguma ironia no que Machado apresenta ao leitor ou leitora da época.

Por que falo do elogio ao Buzzo? Porque o Buzzo me fazia rir sozinho quando lia suas crônicas sobre os (as) personagens e eventos clássicos da bíblia. O velho Machado me faz rir sozinho quando o leio, o Machado que nem era velho quando escreveu essas crônicas, tinha menos de 40 anos. Eu rio muito pouco, sou rabugento (triste eu diria). Buzzo e Machado me fazem rir...

MACHADO TIRA SARRO ATÉ DE SI MESMO

Nas primeiras páginas do livro, Machado tira sarro dos nomes próprios das pessoas. À época era comum meter um monte de nomes e sobrenomes nas pessoas para dar algum grau de nobreza ou origem, verdadeira ou falsa. 

Ele termina falando o quanto é bom as pessoas terem apenas dois nomes, tipo Luís de Camões ou Antônio vieira, e que os grandes acabam tendo um só, tipo Chateaubriand ou Gladstone.

Aí depois ele fala de um correspondente de jornal de outro Estado, e demais profissionais da área, que usam diversas denominações para uma palavra e termina dizendo que as pessoas poderiam usar só a forma padrão ou correta, que as outras são invenções deles, elas não existem.

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"Será preciso observar a todos os cavalheiros que cometem semelhante descuido, que não há chefança, nem chefado, nem chefação, nem chefatura, mas tão-somente chefia?"

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O escritor, crítico e jornalista Machado de Assis tira barato dele mesmo ao comentar sobre duas apresentações de teatro que ele não chegou a ver e mesmo assim se mete a comentar... é hilário. Ele se justifica, dizendo que uma pessoa não precisa ir ver alguém imitar um rouxinol cantar se ela já viu o próprio rouxinol cantar.

Enfim, coisas que a gente só para pra pensar ou refletir se a gente pegar o texto pra ler.

É isso! Leiam. (se quiserem ler, é claro)

William


Post Scriptum: para ler o texto anterior dessa temática machadiana, clique aqui.


ASSIS, Machado de. História de quinze dias. Obras Completas de Machado de Assis. Editora Globo. São Paulo, 1997.


sexta-feira, 23 de junho de 2023

Diário e reflexões - Linguagem II



Refeição Cultural

Osasco, 23 de junho de 2023. Sexta-feira.


UM MUNDO DE ANALFABETOS

A primeira postagem deste blog de cultura foi o conto "O alienista" de Machado de Assis, postagem feita em 23 de dezembro de 2007 (ler o conto e comentários aqui). Lembro aos leitores que a obra de Machado é de domínio público: pode ser reproduzida e divulgada sem pagar direitos autorais. Fico contente ao olhar para trás e ver o início desta jornada de leituras, escritas e reflexões: começar com Machado de Assis foi um acerto deste blog.

Machado de Assis, em seu tempo, tinha uma percepção perspicaz de que quase não havia leitores no Brasil do século 19. Eram raras as pessoas que iriam ler o que ele escrevesse nos meios da época, jornais e revistas. Livros tinham públicos menores ainda porque eram de pouco acesso às massas populares. E pouca gente tinha dinheiro também, coisa óbvia num país escravocrata e com poucas pessoas detendo todos os meios materiais: a nobreza e a casa-grande e seus apaniguados, agregados e lacaios.

Ao darmos um salto no tempo, saindo do século 19 de Machado de Assis para o século 21 do Brasil pós-golpe de Estado em 2016, após os governos de merda de Temer e Bolsonaro, e pós-pandemia mundial de Covid-19, vemos um cenário dramático no que diz respeito às perspectivas de acesso à educação formal e às oportunidades de formação intelectual da população brasileira, principalmente quando imaginamos a formação política e cultural da classe trabalhadora e das pessoas sem acesso aos direitos básicos da cidadania.

O cenário atual para a formação do ser humano, na minha opinião, é dramático.

Para além da complexidade das dimensões centrais da vida humana no que diz respeito ao acesso aos meios de sobrevivência - emprego, moradia, assistência médica etc -, tenho uma preocupação cada dia maior com o não aproveitamento das potencialidades inatas ao cérebro humano, essa máquina fantástica desenvolvida na espécie animal homo sapiens ao longo de milhões de anos. 

Tenho uma teoria a respeito da alteração rápida que vem ocorrendo em nossa linguagem humana com o uso das atuais ferramentas tecnológicas que criamos - as redes sociais e aparelhos de comunicação -, que facilitaram a comunicação sem a necessidade de escrever as mensagens. 

Outra preocupação é pelo fato de o domínio dessa tecnologia de comunicação estar concentrado nas mãos de poucos seres humanos, falo das big techs, concentradas em poucas e poderosas corporações. Viramos commodities, dados comercializáveis com o objetivo de lucro. E nos tornamos coisas manipuláveis...

Após a criação e popularização das redes sociais e a ampliação da comunicação social através de vídeos e áudios, a linguagem escrita - uma invenção humana recente e de poucos milhares de anos - vem perdendo relevância e com isso até as pessoas alfabetizadas e de bom grau de instrução formal começam a perder a capacidade de se expressar através da produção de textos escritos. 

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As pessoas ainda são alfabetizadas nas fases escolares, mas depois passam a perder a capacidade de produção de texto escrito por absoluta falta de uso da língua escrita.

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Faz pouco mais de duas décadas, só duas décadas, que as tecnologias de comunicação foram se popularizando rapidamente e cada vez mais pessoas passaram a se comunicar por áudio e vídeo, sem a necessidade de produzir textos escritos. Isso foi fazendo com que as bases da linguagem escrita padrão começassem a se perder: acentos, ortografia, construção sintática, uso de palavras com sentidos semânticos adequados etc. O cérebro humano é muito plástico, se adapta a tudo o tempo todo, se não faz parte de nossa vida ler e escrever, essas habilidades serão deixadas de lado pelo cérebro humano.

Comecei esta postagem falando de nosso grande escritor Machado de Assis e finalizo a reflexão com ele. 

Machado tinha noção da falta de leitores em sua época, e diversos estudos nas últimas décadas abordam a genialidade do Bruxo do Cosme Velho ao criar diversos tipos de leitores e leitoras em seus romances, contos e demais textos e gêneros discursivos. 

Fico pensando o risco que estamos correndo de nos tornarmos uma sociedade mundial ágrafa, sem o registro escrito, após milhares de anos de avanços da sociedade humana justamente por causa dessa invenção revolucionária: a escrita. 

- Ah, William, isso não aconteceria, que exagero!

Entendam a preocupação: se a maioria da população mundial se tornar analfabeta - analfabetismo real, funcional e até político -, se não souber mais o símbolo linguístico, se não tiver boa capacidade de interpretação de textos, ficando o texto escrito restrito a uma pequena porcentagem de pessoas que têm as habilidades de escrever, ler e produzir registros de cultura, teremos um retrocesso incalculável no conhecimento humano produzido ao longo de milênios.

Machado de Assis escreveu como poucos escritores de sua época, e felizmente alcançou no futuro mais leitores que na época da produção de suas obras geniais. Agora corremos o risco de uma população mundial regredir na habilidade inventada por nós de registrar o conhecimento humano através de símbolos linguísticos.

Por incômodo com o tema, talvez volte a ele mais vezes. Aliás, sou só mais um humano na sociedade humana perdendo a capacidade de ler e escrever. Se eu não ler e escrever com regularidade meu cérebro focará em outras coisas para seguir com sua função animal de sobrevivência.

Reflitam sobre isso. Aliás, reflexão leva tempo. Transformar informação em conhecimento leva tempo de reflexão. Vocês conseguem parar com seus cliques e dedinhos subindo telas para refletirem por algum tempo?

William


Post Scriptum: ler aqui postagem anterior sobre Linguagem. A postagem seguinte sobre esta série pode ser lida aqui.


segunda-feira, 5 de junho de 2023

Diário e reflexões - Linguagem


Sancho Panza, La Habana, Cuba.

Refeição Cultural

Osasco, 05 de junho de 2023. Segunda-feira.


UM MUNDO ORAL: O FIM DA LINGUAGEM ESCRITA

"- Aquí encaja bien el refrán - dijo Sancho - de 'dime con quién andas: decirte he quién eres'. Ándase vuestra merced con encantados ayunos y vigilantes: mirad si es mucho que ni coma ni duerma mientras con ellos anduviere..." (Don Quijote de la Mancha, Alfaguara, 2004, p. 730)


Os idiomas com os quais tenho mais contato cotidiano são os idiomas Português, Espanhol, Inglês e Japonês. Português é a minha língua pátria, minha língua mãe. Espanhol estudei na graduação em Letras. Inglês a gente aprende um pouco por ser a língua do imperialismo que domina o mundo, a língua se impõe nos países dos outros. Japonês inventei de estudar e ora estudo ora largo (não sei nada, só umas coisinhas). Não sei com profundidade nenhum desses idiomas, nem a minha língua materna eu sei. Os que sabem línguas estão se tornando exceção e vão desaparecer, sem reposição...

Quando decidi ser aluno na Universidade de São Paulo, no início dos anos dois mil, escolhi prestar o vestibular para o curso de Letras. Entrei na FFLCH e estando na graduação, no ciclo básico do primeiro ano, mudei a intenção de fazer habilitação em Inglês para fazer habilitação em Espanhol. Havia tido contado com disciplinas em Língua Espanhola naquele primeiro ano e fiquei encantado com o idioma.

O mundo andou. O mundo mudou. Mudança é a certeza sempre, tudo muda. Hoje tenho uma teoria, por pura observação, de que a linguagem escrita pode desaparecer ou seu conhecimento voltar a ser um conhecimento de uma pequena parcela dos humanos, como nas eras iniciais dos textos escritos, saber restrito a escribas, "sábios", copiadores etc. Caminhamos para ter um grupo que usa o texto escrito para dominar uma maioria dominada sem dominar a língua. 

Com a predominância da comunicação humana por vídeo, áudio, imagens e memes em redes sociais e meios virtuais quem aprende minimamente a escrever, usar o símbolo linguístico, desaprende em seguida, assim que passa a se comunicar pelas outras formas. O cérebro humano é plástico e se adapta a tudo. Se os humanos não leem e não escrevem, essa habilidade deixa de existir. Lembro aqui que a escrita e os signos linguísticos são uma invenção humana, a escrita não é uma habilidade inata da comunicação como a fala.

Exceção, exceder, excesso, acesso, sucesso, sessão, seção, sucessão, "há" verbo e "a" preposição ou artigo, "afim" e "a fim" etc são palavras da língua portuguesa com sentidos e usos absolutamente diferentes. Se elas não são lidas ou escritas durante um processo de comunicação é evidente que o cérebro perderá a habilidade de usá-las, inclusive no sentido semântico, não só na questão de escrevê-las. Esse exemplo é uma amostra de um problema muito maior.

Comecemos a imaginar a dimensão do problema da perda da capacidade de uso da linguagem escrita. Há um evidente empobrecimento da linguagem humana em andamento. Além da questão central da alfabetização de milhões de crianças e adolescentes, temos o fato de até os alfabetizados estarem perdendo a habilidade que antes tinham, mesmo que minimamente. O treco é complicado, o fenômeno está aí na nossa frente e não me parece que algo possa ser feito para frear essa tendência.

Além dos analfabetos funcionais e analfabetos políticos, há uma tendência a nos tornarmos analfabetos na linguagem como éramos antes de aprender a escrever nas fases iniciais da vida.

Essa é uma leitura só minha ou mais pessoas têm percebido essa tendência de morte da linguagem escrita?

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AS REFERÊNCIAS DE HOJE SÃO "INFLUENCIADORES" ANALFABETOS FUNCIONAIS E POLÍTICOS

A língua de Camões, a língua de Shakespeare, a língua de Cervantes... essas figuras históricas são consideradas referências em suas línguas maternas, pessoas que escreveram muito e cujos textos se tornaram referência de uma linguagem culta, padrão, textos com organização sintática e semântica que poderiam balizar uma comunicação perfeita nas suas respectivas línguas.

O tempo de Camões, Shakespeare e Cervantes passou... E hoje, qual a referência para milhões de pessoas? 

Às vezes, tenho a impressão de que caminhamos para a linguagem predominante ser quase um grunhido, gritos e vociferações. 

As referências não mais de milhares, mas de milhões de seguidores, são pessoas que mal falam a língua básica de seu idioma. A referência na comunicação global tem sido vociferações, grunhidos, repetições de palavrões a cada frase dita por um youtuber ou "influenciador" qualquer de alguma mídia dessas. O mundo está se tornando um mundo dominado por "criadores de conteúdo" como esses aí das redes sociais. Nem estou abordando a questão do "conteúdo" em grande parte sem base na realidade, mentiras, invenções etc.

É essa a reflexão do momento, minha (in)digestão cultural!

William


Post Scriptum: o texto seguinte desta série sobre Linguagem pode ser lido aqui.


quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Baladas para El-Rei (1925) - Cecília Meireles



Refeição Cultural

"Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
a solitude nebulosa e irreal do ambiente...

(...)

E silenciosos, como alguém que se acostuma
a caminhar sobre penumbras, mansamente,
meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma..." ("Suavíssima", p. 121/122)


E aos poucos vou conhecendo Cecília Meireles. Nesta manhã, li seu 3º livro - Baladas para El-Rei - publicado em 1925. Agora conheço 80 poemas das primeiras 3 obras da autora.

É interessante como os ensinamentos do professor Ariovaldo Vital (FFLCH-USP) não falham quando se trata de leitura de poesia. Ler o poema a primeira vez, depois ler uma segunda vez. Buscar no dicionário as palavras que não se conhece. Ver se há alguma referência externa ao poema que possa ajudar na análise e interpretação de sentidos - vida da autora, questões de época etc. Sugestões básicas para uma boa leitura de poema.

Na leitura de hoje, pesquisei a palavra "solitude" e eu não tinha uma noção boa sobre o sentido. Solitude é um isolamento voluntário e com um sentido mais positivo, enquanto solidão é um isolamento que pode causar algum tipo de dor ou tristeza, algo mais negativo no sentido.

E para fazer esta postagem revi a questão do uso da palavra "poetisa" ou "poeta" para o gênero feminino. Em termos de dicionário e Língua Portuguesa padrão, ambas estão corretas. No entanto, ideologicamente, fico com o termo "poeta" para dizer a poeta Cecília Meireles. É o termo preferido em relação às lutas de gênero.

Outra pesquisa que influenciou no entendimento de um dos poemas foi saber que a personagem "Pedrina" do poema "Para a minha morta" foi a babá de Cecília Meireles, criada com a avó materna desde os 3 anos de idade.

"PARA A MINHA MORTA

(...)

Pedrina minha, és a mais doce das memórias
para a minha alma, a vida inteira alma de criança,
amando sempre o encantamento das histórias

de Barba Azul, de Ali Babá, de um rei de França...
Pedrina minha, és a mais doce das memórias...
" (p. 124/125)

---

A leitura dos poemas de Cecília Meireles, até o momento, me trouxe uma identificação grande com o Eu-lírico. Os poemas e a autora me lembram de uma fase da vida na qual eu cria em todas as formas de misticismo.

Além disso, a poeta cria imagens magníficas em seus versos. Seus poemas encantam pela beleza das construções. Veja abaixo um exemplo de imagem poética, do poema "Oração da noite", ainda de um livro anterior dela - Nunca mais (1923):

"Acendi luzes, desdobrando espaços," (p. 54/55)

É lindo demais!

No poema "Dos pobrezinhos" (p. 117) o Eu-lírico fala para as nossas vítimas da pandemia de Covid-19 e para seus entes queridos.

"DOS POBREZINHOS

Nas tardes mornas e sombrias,
de céus pesados, mares ermos,
e horas monótonas e iguais,

eu penso logo nos enfermos,
na escuridão de enfermarias
tristes e mudas de hospitais...
" (p. 117)

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Finalizo a postagem citando um excerto do poema que mais gostei de Baladas para El-Rei. Pensa nessa imagem contida em um dos versos do poema: "Anda em choro a folhagem..." ao falar sobre o outono.

"DO MEU OUTONO

O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
Perdem-se astros sem luz... Anda em choro a
                                     [folhagem...
Há desesperos silenciosos de abandono...

O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
E eu sofro a angústia irremediável da paisagem...
" (p. 114/115)


É isso!

Tem valido a pena conhecer a poeta Cecília Meireles.

William



Bibliografia:

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Coordenação André Seffrin. Apresentação: Alberto da Costa e Silva. 1ª edição - São Paulo: Global, 2017.

sábado, 19 de outubro de 2019

191019 - Diário e reflexões (Fluxo de pensamento)




E então soube agora pela manhã que o óleopetróleolixotóxico chegou à praia de corais de Porto de Galinhas onde busco refúgio por alguns dias há anos. Soube que a "justiça" esperou por anos a prescrição de prazo dos processos criminais do bandido mór dos bispos do brasil. Soube que o Lula se engraçou com a desgraçada da Marta sugerindo que a traidora seria bem-vinda ao partido e ao projeto que traiu. Soube de mais um país sul-americano onde a população se revolta e vai pra rua e enfrenta o governo anti-popular e honra a cor do sangue que tem nas veias e essa população não é a brasileira (que mistura de ódio e melancolia de pertencer a essa raça vagabunda frouxa pusilânime e com sanguedeáguasalobra!). Já sabia que a Lava Jato era um projeto de destruição das lideranças populares do Brasil, do Partido dos Trabalhadores; de destruição da economia do país e dos avanços que o povo miserável tinha recebido (e não conquistado, pois que povo que não luta não conquista...); de destruição da maior empresa brasileira, a Petrobras, e a recém descoberta do pré-sal (mina de ouro em país subdesenvolvido e com povo chinfrim sem autoestima sem caráter e com sanguedeáguasalobra que não luta por nada). Já sabia do golpe de Estado; já sabia da chegada do novo regime baseado em fraudes; já sabia do papel dos endinheirados na chegada do novo regime; já sabia das milícias; já sabia já sabia... a gente acaba que o coração arrebenta, senão o fígado, senão as veias e artérias, senão estômago e intestinos de tanto sofrer por saber como as coisas são. Nossa! E em meio a tanto saber que adoece, eu não sabia das figuras de linguagem que andei lendo pela manhã; eu não sabia de alguns poemas que li do Drummond; eu não sabia da história da Língua Portuguesa que li na gramática do Bechara. A gente não sabe de quase nada que poderia nos dar sentido em acreditar nas produções boas do ser humano. Que merda, só coisa desgraçada dos seres humanos nos chegam a todo instante, destruição e destruição e destruição de tudo. Sinceramente, pra ver o ser humano destruir tudo, preferiria que um cataclismo acabasse com todos nós humanos, e rápido! Chega!

William
Que sabe que não sabe de nada...

domingo, 22 de setembro de 2019

Leitura: Nunca mais... e Poema dos poemas (1923) - Cecília Meireles




Refeição Cultural

Em tempos tão sombrios, nada como ler poesia para nos lembrarmos que somos humanos, e que os humanos devem ser algo mais que animais mamíferos, dóceis ou feras, bestas-feras como querem nos fazer os fascistas de nossa época. Não, não podemos ser apenas as bestas, as bestas-feras!

Estou como quase todos os animais humanos, no limiar de desistir de minha humanidade, mas tenho que perseverar e não só em bestialidades pensar. Entre assassinatos de crianças a mando de governantes, assassinatos de florestas a mando de dementes no poder, busco alguma forma de manter minha sanidade e humanidade. A literatura e a poesia: um escape; pois ser humano é arte.

Há duas semana, li o primeiro livro da poetisa Cecília Meireles, Espectros (1919) - ver postagem aqui. Ao ler no domingo passado a primeira parte do segundo livro dela, lançado em 1923, e hoje completar a leitura com a segunda parte, compreendi perfeitamente o que o professor Ariovaldo nos diz nas aulas de Teoria Literária II, que um poema dialoga com os demais poemas do livro de poesia, e que também um livro de poesia dialoga com os outros livros de poesia daquele autor ou autora.

O livro Nunca mais... e Poema dos Poemas (1923) contém 21 poemas na primeira parte e mais 21 poemas na segunda parte, esta segunda dividida em 3 partes de 7 poemas. Veja abaixo o poema que abre o livro:


"À hora em que os cisnes cantam...

Nem palavras de adeus, nem gestos de abandono.
Nenhuma explicação. Silêncio. Morte. Ausência.
O ópio do luar banhando os meus olhos de sono...
Benevolência. Inconsequência. Inexistência.

Paz dos que não têm fé, nem carinho, nem dono...
Todo o perdão divino e a divina clemência!
Oiro que cai dos céus pelos frios do outono...
Esmola que faz bem... - nem gestos, nem violência...

Nem palavras. Nem choro. A mudez. Pensativas
abstrações. Vão temor de saber. Lento, lento
volver de olhos, em torno, augurais e espectrais...

Todas as negações. Todas as negativas.
Ódio? Amor? Ele? Tu? Sim? Não? Risos? Lamento?
- Nenhum mais. Ninguém mais. Nada mais. Nunca
                                                        [mais..."

A segunda parte do livro, Poema dos poemas, é muito legal. Começamos a leitura apreciando poemas que falam e clamam a um Eleito, momentos que oscilam entre Fascinação, Ansiedade, Esperança, Dúvida, depois Tristeza, Desengano, Lágrimas, Solidão, Saudade, Dor, Renúncia, Humildade e ao final a surpresa encantadora do descobrimento da Sabedoria.

Ao mergulhar na leitura e na literatura como tenho feito em tempos tão sombrios de destruição do nosso país, do nosso mundo, de nossa sociabilidade e das características que nos diferenciaram dos demais animais e bestas-feras ao longo do caminhar da humanidade, penso estar alimentando o que pode haver de melhor em nós, nosso cérebro e nossa capacidade para o belo, para a solidariedade, para o amor, para o coletivo no viver.

Leiam poesia. É uma experiência diferente! O cérebro da gente sai modificado em cada leitura desafiadora que lhe apresentamos.

William

domingo, 8 de setembro de 2019

Leitura: Espectros (1919) - Cecília Meireles





Refeição Cultural

Ecce homo!

Cingem-lhe a fronte pálida e serena
Espinhos. Tem na face o laivo imundo
De escarros de judeus. No olhar profundo
Bailam trêmulas lágrimas de pena

E dó, pelas misérias deste mundo.
Pilatos, vendo-O assim, à turba acena:
- Ecce homo! - lhe diz. Mas a atra cena
ao povo não comove, furibundo.

Do sangue de Jesus em voraz sede,
Tem-lhe da carne fome, a plebe ignara!
E sobre o homem se lança, - como cães, -

Que de peixes a Pedro enchera a rede,
Nas bodas a água em vinho transformara,
Multiplicara, no deserto, os pães!...


O primeiro livro da poetisa Cecília Meireles é composto por dezessete sonetos. A primeira edição de 1919 contém ainda um prefácio de Alfredo Gomes, texto de linguagem um pouco rebuscada para nossos tempos, mas texto de apresentação muito interessante.

Estou cursando uma disciplina na graduação da Letras na USP - Teoria Literária II - cujo programa do semestre é "Leitura Analítica, Leitura da Lírica", aulas com o professor Ariovaldo Vidal. O curso tem por objetivo central o exercício da leitura detalhada do poema, compreendendo o rigor da forma literária em alguns nomes da poesia brasileira moderna.

Vamos ler poemas de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Cecília Meireles. Já tivemos aulas com o professor analisando conosco o poema "Encomenda" do livro Vaga Música (1942) de Cecília Meireles. As aulas foram muito esclarecedoras e após cada aula lemos poesia com outros olhos.

Minha companheira me deu de presente uma edição das poesias completas de Cecília Meireles, da Editora Global, 2017, com apresentação de Alberto da Costa e Silva e coordenação editorial de André Seffrin. Pretendo degustar desse presente lendo todos os livros da poetisa.

Como um adulto de cinquenta anos que não gostava de poesia até quase os trinta, por pura ignorância e falta de oportunidade e referências, garanto a vocês que ler poesia é algo maravilhoso, é uma experiência modificadora para aquel@ que lê e pode nos tornar pessoas melhores e mais preparadas para a dura existência humana. O que nos diferencia dos demais animais é a arte, a linguagem.

Leiam poesia!

William

domingo, 4 de agosto de 2019

O segredo do Bonzo, de Machado de Assis (1882)



Machado de Assis.

Publicado originalmente em A gazeta de notícias, em 1882. Conto reunido no livro Papéis Avulsos.

(Após a leitura, faço breve comentário sobre o conto. Os sublinhados são destaques do blog para esclarecer vocabulário ao final e para apartar reflexões e conceitos contidos no conto)


CAPÍTULO INÉDITO DE FERNÃO MENDES PINTO

Atrás deixei narrado o que se passou nesta cidade Fuchéu, capital do reino de Bungo, com o Padre-mestre Francisco, e de como el-rei se houve com o Fucarandono e outros bonzos, que tiveram por acertado disputar ao padre as primazias da nossa santa religião. Agora direi de uma doutrina não menos curiosa que saudável ao espírito, e digna de ser divulgada a todas as repúblicas da cristandade.

Um dia, andando a passeio com Diogo Meireles, nesta mesma cidade Fuchéu, naquele ano de 1552, sucedeu deparar-se-nos um ajuntamento de povo, à esquina de uma rua, em torno a um homem da terra, que discorria com grande abundância de gestos e vozes. O povo, segundo o esmo* mais baixo, seria passante de cem pessoas, varões somente, e todos embasbacados. Diogo Meireles, que melhor conhecia a língua da terra, pois ali estivera muitos meses, quando andou com bandeira de veniaga (agora ocupava-se no exercício da medicina, que estudara convenientemente, e em que era exímio) ia-me repetindo pelo nosso idioma o que ouvia ao orador, e que em resumo, era o seguinte: — Que ele não queria outra coisa mais do que afirmar a origem dos grilos, os quais procediam do ar e das folhas de coqueiro, na conjunção da lua nova; que este descobrimento, impossível a quem não fosse, como ele, matemático, físico e filósofo, era fruto de dilatados anos de aplicação, experiência e estudo, trabalhos e até perigos de vida; mas enfim, estava feito, e todo redundava em glória do reino de Bungo, e especialmente da cidade Fuchéu, cujo filho era; e, se por ter aventado tão sublime verdade, fosse necessário aceitar a morte, ele a aceitaria ali mesmo, tão certo era que a ciência valia mais do que a vida e seus deleites.

A multidão, tanto que ele acabou, levantou um tumulto de aclamações, que esteve a ponto de ensurdecer-nos, e alçou nos braços o homem bradando: “Patimau, Patimau, viva Patimau, que descobriu a origem dos grilos!” E todos se foram com ele ao alpendre de um mercador, onde lhe deram refrescos e lhe fizeram muitas saudações e reverências, à maneira deste gentio, que é em extremo obsequioso e cortesão.

Desandando o caminho, vínhamos nós, Diogo Meireles e eu, falando do singular achado da origem dos grilos, quando, a pouca distância daquele alpendre, obra de seis credos, não mais, achamos outra multidão de gente, em outra esquina, escutando a outro homem. Ficamos espantados com a semelhança do caso, e Diogo Meireles, visto que também este falava apressado, repetiu-me da mesma maneira o teor da oração. E dizia este outro, com grande admiração e aplauso da gente que o cercava, que enfim descobrira o princípio da vida futura, quando a terra houvesse de ser inteiramente destruída, e era nada menos que uma certa gota de sangue de vaca; daí provinha a excelência da vaca para habitação das almas humanas, e o ardor com que esse distinto animal era procurado por muitos homens à hora de morrer; descobrimento que ele podia afirmar com fé e verdade, por ser obra de experiências repetidas e profunda cogitação, não desejando nem pedindo outro galardão mais que dar glória ao reino de Bungo e receber dele a estimação que os bons filhos merecem. O povo, que escutara esta fala com muita veneração, fez o mesmo alarido e levou o homem ao dito alpendre, com a diferença que o trepou a uma charola*; ali chegando, foi regalado com obséquios iguais aos que faziam a Patimau, não havendo nenhuma distinção entre eles, nem outra competência nos banqueteadores, que não fosse a de dar graças a ambos os banqueteados.

Ficamos sem saber nada daquilo, porque nem nos parecia casual a semelhança exata dos dois encontros, nem racional ou crível a origem dos grilos, dada por Patimau, ou o princípio da vida futura, descoberto por Languru, que assim se chamava o outro. Sucedeu, porém, costearmos a casa de um certo Titané, alparqueiro, o qual correu a falar a Diogo Meireles, de quem era amigo. E, feitos os cumprimentos, em que o alparqueiro chamou as mais galantes coisas a Diogo Meireles, tais como — ouro da verdade e sol do pensamento, — contou-lhe este o que víramos e ouvíramos pouco antes. Ao que Titané acudiu com grande alvoroço: — Pode ser que eles andem cumprindo uma nova doutrina, dizem que inventada por um bonzo* de muito saber, morador em umas casas pegadas ao monte Coral. E porque ficássemos cobiçosos de ter alguma notícia da doutrina, consentiu Titané em ir conosco no dia seguinte às casas do bonzo, e acrescentou: — Dizem que ele não a confia a nenhuma pessoa, senão às que de coração se quiserem filiar a ela; e, sendo assim, podemos simular que o queremos unicamente com o fim de a ouvir; e se for boa, chegaremos a praticá-la à nossa vontade.

No dia seguinte, ao modo concertado, fomos às casas do dito bonzo, por nome Pomada, um ancião de cento e oito anos, muito lido e sabido nas letras divinas e humanas, e grandemente aceito a toda aquela gentilidade, e por isso mesmo mal visto de outros bonzos, que se finavam de puro ciúme. E tendo ouvido o dito bonzo a Titané quem éramos e o que queríamos, iniciou-nos primeiro com várias
cerimônias e bugiarias necessárias à recepção da doutrina, e só depois dela é que alçou a voz para confiá-la e explicá-la.


— Haveis de entender, começou ele, que a virtude e o saber têm duas existências paralelas, uma no sujeito que as possui, outra no espírito dos que o ouvem ou contemplam. Se puserdes as mais sublimes virtudes e os mais profundos conhecimentos em um sujeito solitário, remoto de todo contato com outros homens, é como se eles não existissem. Os frutos de uma laranjeira, se ninguém os gostar, valem tanto como as urzes e plantas bravias, e, se ninguém os vir, não valem nada; ou, por outras palavras mais enérgicas, não há espetáculo sem espectador. Um dia, estando a cuidar nestas coisas, considerei que, para o fim de alumiar um pouco o entendimento, tinha consumido os meus longos anos, e, aliás, nada chegaria a valer sem a existência de outros homens que me vissem e honrassem; então cogitei se não haveria um modo de obter o mesmo efeito, poupando tais trabalhos, e esse dia posso agora dizer que foi o da regeneração dos homens, pois me deu a doutrina salvadora.

Neste ponto, afiamos os ouvidos e ficamos pendurados da boca do bonzo, o qual, como lhe dissesse Diogo Meireles que a língua da terra me não era familiar, ia falando com grande pausa, porque eu nada perdesse. E continuou dizendo: — Mal podeis adivinhar o que me deu ideia da nova doutrina; foi nada menos que a pedra da lua, essa insigne pedra tão luminosa que, posta no cabeço de uma montanha ou no píncaro de uma torre, dá claridade a uma campina inteira, ainda a mais dilatada. Uma tal pedra, com tais quilates de luz, não existiu nunca, e ninguém jamais a viu; mas muita gente crê que existe e mais de um dirá que a viu com os seus próprios olhos. Considerei o caso, e entendi que, se uma coisa pode existir na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existências paralelas a única necessária é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente. Tão depressa fiz este achado especulativo, como dei graças a Deus do favor especial, e determinei-me a verificá-lo por experiências; o que alcancei, em mais de um caso, que não relato, por vos não tomar o tempo. Para compreender a eficácia do meu sistema, basta advertir que os grilos não podem nascer do ar e das folhas de coqueiro, na conjunção da lua nova, e por outro lado, o princípio da vida futura não está em uma certa gota de sangue de vaca; mas Patimau e Languru, varões astutos, com tal arte souberam meter estas duas ideias no ânimo da multidão, que hoje desfrutam a nomeada de grandes físicos e maiores filósofos, e têm consigo pessoas capazes de dar a vida por eles.

Não sabíamos em que maneira déssemos ao bonzo as mostras do nosso vivo contentamento e admiração. Ele interrogou-nos ainda algum tempo, compridamente, acerca da doutrina e dos fundamentos dela, e depois de reconhecer que a entendíamos, incitou-nos a praticá-la, a divulgá-la cautelosamente, não porque houvesse nada contrário às leis divinas ou humanas, mas porque a má compreensão dela podia daná-la e perdê-la em seus primeiros passos; enfim, despediu-se de nós com a certeza (são palavras suas) de que abalávamos dali com a verdadeira alma de pomadistas; denominação esta que, por se derivar do nome dele, lhe era em extremo agradável.

Com efeito, antes de cair a tarde, tínhamos os três combinado em pôr por obra uma ideia tão judiciosa quão lucrativa, pois não é só lucro o que se pode haver em moeda, senão também o que traz consideração e louvor, que é outra e melhor espécie de moeda, conquanto não dê para comprar damascos ou chaparias de ouro. Combinamos, pois, à guisa de experiência, meter cada um de nós, no ânimo da cidade Fuchéu, uma certa convicção, mediante a qual houvéssemos os mesmos benefícios que desfrutavam Patimau e Languru; mas, tão certo é que o homem não olvida o seu interesse, entendeu Titané que lhe cumpria lucrar de duas maneiras, cobrando da experiência ambas as moedas, isto é, vendendo também as suas alparcas: ao que nos não opusemos, por nos parecer que nada tinha isso com o essencial da doutrina.

Consistiu a experiência de Titané em uma coisa que não sei como diga para que a entendam. Usam neste reino de Bungo, e em outros destas remotas partes, um papel feito de casca de canela moída e goma, obra mui prima, que eles talham depois em pedaços de dois palmos de comprimento, e meio de largura, nos quais desenham com vivas e variadas cores, e pela língua do país, as notícias da semana, políticas, religiosas, mercantis e outras, as novas leis do reino, os nomes das fustas, lancharas, balões e toda a casta de barcos que navegam estes mares, ou em guerra, que a há frequente, ou de veniaga. E digo as notícias da semana, porque as ditas folhas são feitas de oito em oito dias, em grande cópia, e distribuídas ao gentio da terra, a troco de uma espórtula*, que cada um dá de bom grado para ter as notícias primeiro que os demais moradores. Ora, o nosso Titané não quis melhor esquina que este papel, chamado pela nossa língua Vida e claridade das coisas mundanas e celestes, título expressivo, ainda que um tanto derramado. E, pois, fez inserir no dito papel que acabavam de chegar notícias frescas de toda a costa de Malabar e da China, conforme as quais não havia outro cuidado que não fossem as famosas alparcas dele Titané; que estas alparcas eram chamadas as primeiras do mundo, por serem mui sólidas e graciosas; que nada menos de vinte e dois mandarins iam requerer ao imperador para que, em vista do esplendor das famosas alparcas de Titané, as primeiras do universo, fosse criado o título honorífico de “alparca do Estado”, para recompensa dos que se distinguissem em qualquer disciplina do entendimento; que eram grossíssimas as encomendas feitas de todas as partes, às quais ele Titané ia acudir, menos por amor ao lucro do que pela glória que dali provinha à nação; não recuando, todavia, do propósito em que estava e ficava de dar de graça aos pobres do reino umas cinquenta corjas das ditas alparcas, conforme já fizera declarar a el-rei e o repetia agora; enfim, que apesar da primazia no fabrico das alparcas assim reconhecida em toda a terra, ele sabia os deveres da moderação, e nunca se julgaria mais do que um obreiro diligente e amigo da glória do reino de Bungo. 

A leitura desta notícia comoveu naturalmente a toda a cidade Fuchéu, não se falando em outra coisa durante toda aquela semana. As alparcas de Titané, apenas estimadas, começaram de ser buscadas com muita curiosidade e ardor, e ainda mais nas semanas seguintes, pois não deixou ele de entreter a cidade, durante algum tempo, com muitas e extraordinárias anedotas acerca da sua mercadoria. E dizia-nos com muita graça: — Vede que obedeço ao principal da nossa doutrina, pois não estou persuadido da superioridade das tais alparcas, antes as tenho por obra vulgar, mas fi-lo crer ao povo, que as vem comprar agora, pelo preço que lhes taxo. — Não me parece, atalhei, que tenhais cumprido a doutrina em seu rigor e substância, pois não nos cabe inculcar aos outros uma opinião que não temos, e sim a opinião de uma qualidade que não possuímos; este é, ao certo, o essencial dela

Dito isto, assentaram os dois que era a minha vez de tentar a experiência, o que imediatamente fiz; mas deixo de a relatar em todas as suas partes, por não demorar a narração da experiência de Diogo Meireles, que foi a mais decisiva das três, e a melhor prova desta deliciosa invenção do bonzo. Direi somente que, por algumas luzes que tinha de música e charamela, em que aliás era mediano, lembrou-me congregar os principais de Fuchéu para que me ouvissem tanger o instrumento; os quais vieram, escutaram e foram-se repetindo que nunca antes tinham ouvido coisa tão extraordinária. E confesso que alcancei um tal resultado com o só recurso dos ademanes, da graça em arquear os braços para tomar a charamela, que me foi trazida em uma bandeja de prata, da rigidez do busto, da unção com que alcei os olhos ao ar, e do desdém e ufania com que os baixei à mesma assembleia, a qual neste ponto rompeu em um tal concerto de vozes e exclamações de entusiasmo, que quase me persuadiu do meu merecimento. 

Mas, como digo, a mais engenhosa de todas as nossas experiências, foi a de Diogo Meireles. Lavrava então na cidade uma singular doença, que consistia em fazer inchar os narizes, tanto e tanto, que tomavam metade e mais da cara ao paciente, e não só a punham horrenda, senão que era molesto carregar tamanho peso. Conquanto os físicos da terra propusessem extrair os narizes inchados, para alívio e melhoria dos enfermos, nenhum destes consentia em prestar-se ao curativo, preferindo o excesso à lacuna, e tendo por mais aborrecível que nenhuma outra coisa a ausência daquele órgão. Neste apertado lance mais de um recorria à morte voluntária, como um remédio, e a tristeza era muita em toda a cidade Fuchéu. Diogo Meireles, que desde algum tempo praticava a medicina, segundo ficou dito atrás, estudou a moléstia e reconheceu que não havia perigo em desnarigar os doentes, antes era vantajoso por lhes levar o mal, sem trazer fealdade, pois tanto valia um nariz disforme e pesado como nenhum; não alcançou, todavia, persuadir os infelizes ao sacrifício. Então ocorreu-lhe uma graciosa invenção. Assim foi que, reunindo muitos físicos, filósofos, bonzos, autoridades e povo, comunicou-lhes que tinha um segredo para eliminar o órgão; e esse segredo era nada menos que substituir o nariz achacado por um nariz são, mas de pura natureza metafísica, isto é, inacessível aos sentidos humanos, e contudo tão verdadeiro ou ainda mais do que o cortado; cura esta praticada por ele em várias partes, e muito aceita aos físicos de Malabar. O assombro da assembleia foi imenso, e não menor a incredulidade de alguns, não digo de todos, sendo que a maioria não sabia que acreditasse, pois se lhe repugnava a metafísica do nariz, cedia entretanto à energia das palavras de Diogo Meireles, ao tom alto e convencido com que ele expôs e definiu o seu remédio. Foi então que alguns filósofos, ali presentes, um tanto envergonhados do saber de Diogo Meireles, não quiseram ficar-lhe atrás, e declararam que havia bons fundamentos para uma tal invenção, visto não ser o homem todo outra coisa mais do que um produto da idealidade transcendental; donde resultava que podia trazer, com toda a verossimilhança, um nariz metafísico, e juravam ao povo que o efeito era o mesmo.

A assembleia aclamou a Diogo Meireles; e os doentes começaram de buscá-lo, em tanta cópia, que ele não tinha mãos a medir. Diogo Meireles desnarigava-os com muitíssima arte; depois estendia delicadamente os dedos a uma caixa, onde fingia ter os narizes substitutos, colhia um e aplicava-o ao lugar vazio. Os enfermos, assim curados e supridos, olhavam uns para os outros, e não viam nada no lugar do órgão cortado; mas, certos e certíssimos de que ali estava o órgão substituto, e que este era inacessível aos sentidos humanos, não se davam por defraudados, e tornavam aos seus ofícios. Nenhuma outra prova quero da eficácia da doutrina e do fruto dessa experiência, senão o fato de que todos os desnarigados de Diogo Meireles continuaram a prover-se dos mesmos lenços de assoar. O que tudo deixo relatado para glória do bonzo e benefício do mundo.

Fim.


*Vocabulário:

O esmo: cálculo estimado, estimativa.

Charola: padiola, andor.

Bonzo: uma espécie de sacerdote.

Espórtula: gorjeta, esmola.

Alparcas: alpargatas.


COMENTÁRIO:

Machado antecipa há mais de um século a vitória da pós-verdade

Quando dizemos que a literatura de qualidade é atemporal, estamos dizendo que não importa a época em que foi escrita, e que o tema tratado no enredo e a forma como ele foi desenvolvido pode gerar reflexão em qualquer leitor, a qualquer tempo e lugar.

Ao ler esse conto de Machado de Assis, publicado em 1882, vemos antecipada a ideia da pós-verdade, em que uma opinião, uma mentira ou uma calúnia podem valer mais que a realidade factual, contanto que a técnica e ferramenta utilizadas se sobreponham à capacidade da verdade prevalecer.

O que estamos vivendo neste início de século XXI? As fake news e as máquinas de destruição de reputações se tornaram a hegemonia da sociedade atual. 

Governos são eleitos assim, se os grupos eleitos têm mais capacidade de influenciar multidões com ferramentas de distribuição de mentiras em redes sociais. Veículos de comunicação comercial, cujos donos são magnatas, geram fake news e nada os impede de destruírem ou enganarem suas vítimas.

O que seriam as influências no comportamento dos eleitores durante o processo eleitoral dos Estados Unidos (Trump), do Brasil (Bolsonaro) e da Grã-Bretanha (Brexit) se não tivessem a influência desses sistemas baseados em manipulação através de algoritmos como sabido por todos hoje?

O bonzo ou sacerdote do conto pode ser substituído por qualquer pastor desonesto que se utiliza do conceito de Deus e de seu filho Jesus para tomar dinheiro de gente miserável e manipular essa massa de pessoas carentes para tomada de poder estatal e benefício financeiro próprio.

Isso vale para o exemplo de se destruir um país como o Brasil e ainda dizer "O Brasil acima de todos" e pregar ideias do mal, diria até do demônio, como alimentar o ódio ao invés do amor, o preconceito ao invés do respeito ao diferente, destruir a educação, a ciência, a natureza e a cultura, pregar o armamento, a morte e a tortura e dizer "Deus acima de todos".

Machado antecipou tudo isso no enganador bonzo, que ironicamente um século depois poderia ser um espelho de um certo enganador no qual um dos apelidos é "bozo".

Conto fantástico! Recomendo a leitura!

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Reflexões e conceitos contidos no conto

Virtude e saber para si só, não valeriam nada!

"a virtude e o saber têm duas existências paralelas, uma no sujeito que as possui, outra no espírito dos que o ouvem ou contemplam. Se puserdes as mais sublimes virtudes e os mais profundos conhecimentos em um sujeito solitário, remoto de todo contato com outros homens, é como se eles não existissem. Os frutos de uma laranjeira, se ninguém os gostar, valem tanto como as urzes e plantas bravias, e, se ninguém os vir, não valem nada; ou, por outras palavras mais enérgicas, não há espetáculo sem espectador"

Opinião valeria mais que realidade factual (antecessora da pós-verdade)

"se uma coisa pode existir na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existências paralelas a única necessária é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente"

Várias formas de lucro, além do financeiro

"não é só lucro o que se pode haver em moeda, senão também o que traz consideração e louvor, que é outra e melhor espécie de moeda, conquanto não dê para comprar damascos ou chaparias de ouro"

Convencer os outros de uma qualidade que não temos

"não nos cabe inculcar aos outros uma opinião que não temos, e sim a opinião de uma qualidade que não possuímos; este é, ao certo, o essencial dela" (a doutrina do Bonzo)

Nariz metafísico vale mais que nariz real

"um segredo para eliminar o órgão; e esse segredo era nada menos que substituir o nariz achacado por um nariz são, mas de pura natureza metafísica, isto é, inacessível aos sentidos humanos, e contudo tão verdadeiro ou ainda mais do que o cortado"

A perigosa capacidade de manipulação das massas pelos sofistas e retóricos

"a maioria não sabia que acreditasse, pois se lhe repugnava a metafísica do nariz, cedia entretanto à energia das palavras de Diogo Meireles, ao tom alto e convencido com que ele expôs e definiu o seu remédio"