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segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Livro: Discurso da servidão voluntária (La Boétie) - Pensamentos e frases




Refeição Cultural

La Boétie (1530-1563) foi um pensador francês que faleceu jovem, aos 32 anos de idade. Muitos de seus textos e pensamentos são conhecidos e chegaram até nós por intermédio de Montaigne (1533-1592), outro pensador e intelectual francês do século 16.

Reler os ensinamentos de Étienne de La Boétie, um jovem francês do século 16, e reler principalmente em períodos de processos eleitorais para cargos executivos e parlamentares é algo necessário para dar equilíbrio à razão e centralidade ao cérebro humano para todos que ainda insistem em pensar e não se transformaram em autômatos, robôs humanos, plugados em aparelhos celulares que viraram os donos dos corpos humanos que os transportam por aí.

La Boétie afirma que é possível resistir à opressão sem recorrer à violência e que a tirania se destrói por si mesma se os indivíduos se recusarem a obedecer o poder despótico não cedendo a ele com sua própria servidão voluntária. Essa é uma ideia de desobediência civil que pode ser a estratégia adotada pelo povo brasileiro no enfrentamento às ameaças reais que a casa-grande, a elite do atraso, enfim, a extrema-direita vem impondo desde que o golpe de Estado em 2016 acabou com a democracia que havia no país desde a constituinte e a Carta Magna de 1988.

Observação: entendo que onde o texto diz "homem" para o conceito de "seres humanos" podemos entender que se trata de homens e mulheres.

Observação 2: neste momento de minha vida, após tudo que vi e vivi nestas mais de cinco décadas de vida e de estudos da sociedade humana, preciso ler e ouvir teses pacifistas como essa de La Boétie, preciso me esforçar para acreditar em pacifistas como o nosso querido presidente Lula, e tantas pessoas mais que conheço e que pregam o pacifismo. 

Perdi a crença na solução pacífica das controvérsias... nossos inimigos atuais não compartilham do pacifismo e pregam nossa eliminação física. Quero acreditar no pacifismo, mas não é o que vejo como solução para mudarmos e salvarmos o mundo e o povão que sofre na mão do 1%. 

William 

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FRASES E PENSAMENTOS

Em relação a um só líder ou soberano:

"É difícil acreditar que haja algo público num governo no qual tudo depende de um só"

A referência é a Monarquia, mas ele expande o conceito depois a tiranos em repúblicas. Eu estendo a reflexão para qualquer forma de poder onde um só dita as regras e o restante acata ou obedece, sem a menor crítica ou análise da questão.

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"É incrível ver como o povo, quando é submetido, cai de repente num esquecimento tão profundo de sua liberdade, que não consegue despertar para reconquistá-la. Serve tão bem e de tão bom grado que se diria, ao vê-lo, que não só perdeu a liberdade, mas ganhou a servidão."

Incrível, não? E um pouco mais adiante, La Boétie vai associar essa aptidão à servidão ao maldito do "hábito".

"Mas o hábito, que exerce em todas as coisas um poder irresistível sobre nós, não tem em lugar nenhum força tão grande quanto a de nos ensinar a servir. E como dizem de Mitrídates, que foi se acostumando aos poucos ao veneno, aprendemos a engolir sem achar amargo o veneno da servidão. Não se pode negar que a natureza nos dirige para onde quer, bem-nascidos ou malnascidos, mas é preciso confessar que ela tem menos poder sobre nós que o hábito."

Mais que nunca, é preciso que cada um de nós deixe o hábito da preguiça mental, do receber mastigado algum meme, mentiroso ou não, e sair por aí replicando e reproduzindo aquelas gotas de veneno ou maledicência.

Para ser livre e gozar da liberdade de pensamento e de ações, é necessário não ser um mero servo da manipulação.

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"Chego agora a um ponto que é, a meu ver, a mola mestra e o segredo da dominação, o apoio e o fundamento da tirania. (...) À primeira vista, será difícil acreditar, embora seja a pura verdade: são sempre quatro ou cinco que mantêm o tirano, quatro ou cinco que conservam o país inteiro em servidão."

Se lembrarmos que a obra e o autor são de mais ou menos 1550, século 16, e o tamanho da população da época, estamos falando hoje naquele menos de 1% que detém o poder sobre todos os meios - os de produção e os de comunicação. No Brasil, poucas famílias bilionárias detêm a metade da riqueza nacional e alguns milhares de pessoas privilegiadas têm uma renda que os isolam do restante dos 215 milhões de pessoas com pouco ou quase nada.

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SOBRE COVARDIA

"E quando vemos, não cem, não mil homens, mas cem países, mil cidades, um milhão de homens se absterem de atacar aquele que trata a todos como servos e escravos, que nome poderemos dar a isso? Será covardia?"

e

"Para conseguir o bem que deseja, o homem ousado não teme nenhum perigo, o homem prudente não regateia nenhum esforço. Só os covardes e os preguiçosos não sabem suportar o mal nem recuperar o bem. Limitam-se a desejá-lo e a energia de sua pretensão lhes é tirada por sua própria covardia."

Avalio que esses conceitos valem para todos nós. Como foi que permitimos que os canalhas que se apoderaram de todos os aparelhos de poder estatal brasileiro após o golpe de 2016 acabassem com canetadas diárias com conquistas históricas de todo o povo trabalhador de forma tão rápida e tão intensa em pouquíssimo tempo? Se o risco de extinção da vida é tão grande ao não ter emprego, direitos sociais, atendimento e socorro na falta de saúde etc, como não nos arriscamos a enfrentar tão poucos ladrões de nossa vida como esses canalhas que nos roubam tudo desde abril de 2016? Avalio, pessoalmente, que tem um quê de covardia nisso...

Estou sendo duro na avaliação, sei disso, porque tenho conhecimento de que a falta de organização e estratégia pelo lado da classe trabalhadora pesou nessa falta de reação à destruição de nossos direitos, mas acredito realmente que a covardia foi um componente que pesou para tudo isso também.

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NOSSOS ALGOZES NOS DOMINAM POR NOSSA CONIVÊNCIA

"Entretanto, aquele que vos oprime tem só dois olhos, duas mãos, um corpo, nem mais nem menos que o mais simples dos habitantes do número infinito de vossas cidades. O que ele tem a mais são os meios que lhe destes para destruir-vos."

La Boétie nos esclarece o tempo todo sobre nossa servidão voluntária, nossa permanência no hábito de servir quem nos oprime, abrindo mão de lutar por nossa liberdade.

"De onde tira tantos olhos que vos espiam, se não os colocais à disposição dele? Como tem tantas mãos para vos bater, se não as empresta de vós? Os pés com que pisoteia vossas cidades não são também os vossos? Tem algum poder sobre vós que não seja de vós mesmos? Como se atreveria a atacar-vos, se não tivesse vossa conivência? Que mal poderia fazer-vos, se não fôsseis os receptadores do ladrão que vos pilha, os cúmplices do assassino que vos mata e os traidores de vós mesmos?"

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São tantos os pensamentos e ideias que La Boétie concentra nesse pequeno texto sobre a servidão voluntária que vale a pena as pessoas terem o texto em mãos e lerem trechos aleatoriamente sempre que se pegarem numa condição desconfortável de falta de liberdade e de opressão imensa por parte de alguém ou algo.

É isso!

William


Bibliografia:

LA BOÉTIE, Étienne de. Discurso da servidão voluntária. Coleção a obra-prima de cada autor. Tradução: Casemiro Linarth. Editora Martin Claret. São Paulo, 2009.


sexta-feira, 29 de julho de 2022

O bolsonarismo que existe em nós


Refeição Cultural (indigesta)

Outro dia, a jornalista Dhayane Santos (TV 247) perguntava ao professor Pedro Serrano qual a explicação que ele teria para ainda hoje um terço do povo brasileiro ser apoiador e se ver representado pelo ser mais repugnante que já chegou a um cargo eletivo no Brasil. Dhayane fez referência a um artigo recente de Serrano na revista CartaCapital sobre o circuito afetivo no autoritarismo...

Serrano começa a responder assim: "Política é afeto, afeto não é emoção..." e depois diz que "afeto não é divorciado da razão, razão e afetividade atuam juntas, uma interfere na outra..." 

Na sequência da explicação, Serrano vai abordar a questão da tirania sob a ótica de Étienne de la Boétie, um filósofo do iluminismo que fez uma obra clássica abordando os motivos pelos quais as pessoas se submetiam à tirania. 

Uma das respostas de Boétie e que Serrano faz uma analogia com o Brasil e os apoiadores do tirano daqui é que as pessoas o apoiam para poderem exercer suas pequenas tiranias.

"As pessoas apoiam os tiranos para poderem ser pequenos tiranos em seu cotidiano", diz Pedro Serrano pensando sobre os bolsonaristas. Então, os homens brancos da elite, por exemplo, se sentiriam ressentidos de não poderem mais bater nas mulheres, estuprarem as mulheres, privilégios dos homens que constavam no código de direito civil de 1916...

É uma verdadeira aula que o ouvinte teve com o professor Serrano.

Ou seja, aquele sujeito representa os valores dos homens brancos das casas-grandes e dos colonizadores, essa gente que barbarizou por aqui nos últimos séculos. Os valores dessa gente que via mulheres e filhos como propriedade, escravos como animais de carga e objetos de prazer e sarro, a coisa pública como extensão de suas propriedades privadas, a igreja como sua subalterna no domínio local etc.

Isso tem muito sentido. Esse homem que representa o mal em sua forma mais básica representa também toda essa gente que não gostou de se ver contestada, freada em seus impulsos mais primitivos e repulsivos como o estupro, o assassinato, a violência, a opressão por poder oprimir. 

Talvez esse sujeito na presidência dessa terra opressora chamada Brasil, sujeito que virou uma palavra da língua portuguesa, um qualitativo pejorativo de pessoas e comportamentos, talvez ele represente um pouco do que existe dentro de cada um de nós.

José Saramago, no Ensaio sobre a cegueira, disse num momento duríssimo do romance que "Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos". Não paro de pensar nisso quando olho e vejo o que somos algumas vezes...

Mas por que então parcelas de mulheres, pretos e pobres, gays e oprimidos em geral também apoiam esse ser opressor e demoníaco? Porque todo oprimido também tem o seu espaço de opressor dentro da família, do trabalho etc. Deter a opressão significa também coibir os pequenos opressores nos cotidianos de nossa vida em sociedade.

Eu achei a explicação de uma coerência nunca imaginada por mim. Essa gente que se identifica com o criminoso no poder tem um sentimento afetivo com ele. De certa forma, elas sabem que com ele no poder e dando a linha das normas na sociedade na qual vivemos, elas têm a liberdade de seguirem fazendo as suas pequenas barbaridades diárias, nos seus espaços de opressão.

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E o bolsonarismo que existe em nós?

Após essa aula de Serrano ressoando sem parar em meu cérebro como as badaladas de um sino gigante me peguei nervoso e falando alto em casa... após um momento de decepção e de intolerância com um evento cotidiano, lá estava eu gritando em casa... Que merda! Fiquei tão arrasado, tão decepcionado comigo mesmo que não sabia onde enfiar a cabeça... 

Dessa decepção comigo mesmo, fiquei um tempão relembrando meu passado e minha vida ao longo de décadas. Aquelas palavras de Serrano ressoando na cabeça... os pequenos tiranos...

Fiquei pensando em mim e nos homens de minha família, nos homens intolerantes das gerações de meu pequeno mundo miserável em todos os sentidos, no início miserável por falta de quase tudo, depois miserável pelo que fomos ou somos nos momentos das pequenas tiranias cotidianas...

Qual diferença haveria entre mim e entre nós que nos apresentamos como pessoas contrárias ao que representa o bolsonarismo e os chamados bolsonaristas raízes, que nada mais seriam que pessoas que pertencem a esse circuito de afetos que une o que eles são e o que o sujeito no poder representa?

Como extirpar esse bolsonarismo que talvez exista dentro de cada um de nós, de alguns de nós, nascidos, criados e aculturados nessa terra com o passado bárbaro que tem?

Percebi que não tenho a resposta...

William


quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Artigo: Não só perdeu a liberdade, mas ganhou a servidão



Refeição Cultural

"É incrível ver como o povo, quando é submetido, cai de repente num esquecimento tão profundo de sua liberdade, que não consegue despertar para reconquistá-la. Serve tão bem e de tão bom grado que se diria, ao vê-lo, que não só perdeu a liberdade, mas ganhou a servidão.

É verdade que no início serve-se obrigado e vencido pela força. Mas os que vêm depois servem sem relutância e fazem voluntariamente o que seus antepassados fizeram por imposição. Os homens nascidos sob o jugo, depois alimentados e educados na servidão, sem olhar mais à frente, contentam-se em viverem como nasceram e não pensam que têm outros bens e outros direitos a não ser os que encontraram. Chegam finalmente a persuadir-se de que a condição de seu nascimento é a natural..."

(Discurso da servidão voluntária, de Étienne de La Boétie, século XVI)


Pois é, se a gente não coloca a referência na descrição acima, poderíamos concluir que a afirmação teria sido proferida por algum analista político hoje, no século XXI.

Ao pensar a respeito do pensamento de La Boétie e olhar ao redor de meu mundo, o Brasil e o povo brasileiro em 13 de dezembro de 2018, chego a conclusão que ele estava certo. 

- Que povo miserável!; que povo acostumado à servidão!; que povo que serve à casa-grande a partir de suas senzalas!

Que povo habituado a servir sob chicotes, sob ordens superiores, sob manipulações grotescas que funcionam em gente imbecilizada; que povo habituado a querer pouco, achando que é muito ser alguma coisa ao invés de ser grande, simplesmente porque olha para o lado (para baixo) e vê gente pior que si.

Sobre o hábito, nos diz também La Boétie, que ele é mais forte que a natureza:

"Todavia, não existe herdeiro tão pródigo ou negligente que não examine um dia os registros de seu pai para ver se desfruta de todos os direitos de sua sucessão e se não usurparam os seus ou os de seu antecessor. Mas o hábito, que exerce em todas as coisas um poder irresistível sobre nós, não tem em lugar nenhum força tão grande quanto a de nos ensinar a servir. E como dizem de Mitrídates, que foi se acostumando aos poucos ao veneno, aprendemos a engolir sem achar amargo o veneno. Não se pode negar que a natureza nos dirige para onde quer, bem-nascidos ou malnascidos, mas é preciso confessar que ela tem menos poder sobre nós que o hábito. Um bem natural, por melhor que seja, perde-se quando não é cultivado, e o hábito nos conforma sempre à sua maneira, apesar da natureza."

Enfim, vejo que o hábito dessa massa humana chamada povo brasileiro é o hábito de servir nas senzalas e acatar os mandos e desmandos dos espertalhões da casa-grande e dos impérios (e as subdivisões dos espertalhões aqui seriam fartas: banqueiros, donos de igrejas, donos de meios de comunicação de massa, donos dos cargos nos poderes do Estado etc).

Cheguei a pensar que o povo pobre e trabalhador brasileiro tinha pego gosto (hábito) por uma vida melhor com emprego e direitos durante os mandatos do presidente Lula, após cinco séculos sob jugo miserável da casa-grande. Me enganei. O povo mostrou que prefere a servidão miserável. Nem rebelião houve quando puseram numa masmorra aquele que lhes deu o gosto de provar uma perspectiva de futuro com soberania e liberdade.

Como diz La Boétie, o hábito é mais forte que a natureza e prevaleceu entre o povo brasileiro o hábito de ser miserável, de ser colonizado, de ser manipulado por espertalhões. Miséria de nossa vida!

Vamos parar de escrever porque não é mais hábito das pessoas ler mais que algumas frases ou grupos de palavras com algum significado simples e direto (memes e manchetes), sem essa chatice de ter que pensar e refletir a respeito.

Abraços aos preciosos amig@s leitores do blog. Sigam no esforço de salvar o cérebro humano e o que conquistamos em milhões de anos de evolução para nos diferenciar dos demais animais mamíferos e ou bípedes como, por exemplo, as vacas e as galinhas, hoje criadas em cativeiro para servir aos humanos.

William

sábado, 28 de janeiro de 2017

Livro: Discurso da Servidão Voluntária (s. XVI) - Étienne de La Boétie



Refeição Cultural

"E quando vemos, não cem, não mil homens, mas cem países, mil cidades, um milhão de homens se absterem de atacar aquele que trata a todos como servos e escravos, que nome poderemos dar a isso? Será covardia? Todos os vícios têm naturalmente um limite, além do qual podem passar..." (La Boétie)


Ganhei de presente do amigo Sandro Sedrez, companheiro de lutas em defesa da Cassi, autogestão baseada na Atenção Primária e Estratégia de Saúde da Família, este pequeno livro de Étienne de La Boétie (1530-63) - Discurso da Servidão Voluntária -, obra marcante e de grande influência no mundo da política desde quando começou a circular de forma não oficial já no século XVI, a partir dos anos 1550.

Eu tenho grandes lacunas culturais e literárias. Nunca neguei isso porque somos o resultado do percurso de nossas vidas, e a minha foi de trabalho braçal na infância e adolescência até virar bancário e tive pouca oportunidade de leitura durante vários anos centrais da formação de um jovem. Mesmo assim, sempre corri atrás das leituras nas poucas horas livres que pude ter ao longo da vida subproletária e proletária.

As leituras que faço na minha vida têm origens variadas. Tenho centenas de livros que sonho ler e estudar. Quando dá, pego eles para ler. Tem as leituras que vão sendo obrigatórias por razões diversas. E tem as leituras que aparecem pela convivência em sociedade. Agora, conheço mais uma obra clássica, que influenciou a forma de pensar das sociedades contemporâneas ocidentais.

Eu comparo esta obra em importância e influência a outras como Utopia (1516), do inglês Thomas More (ler comentário AQUI) e O Príncipe (1513), do italiano Maquiavel (ler comentário AQUI). Li ambas em 2011.

Não poderia ter lido obra mais condizente com a realidade política de nosso País do que esta sobre a servidão voluntária, pois sofremos um golpe de Estado em 2016 e estamos sob um regime de exceção, com o poder na mão de uma camarilha de corruptos que tomaram conta das instituições estatais do Estado, em conluio com empresários da comunicação e parcelas de capitalistas nacionais e imperialistas norte-americanos.

Das teses apresentadas por La Boétie justificando os porquês das pessoas se submeterem à servidão voluntária, acrescento uma de conceito mais recente em relação ao século XVI: a ideologia.

Gostaria que todas as pessoas envolvidas com os movimentos sociais e lideranças populares lessem esse pequeno texto, que é possível ler em um dia, para reavivarem suas naturezas e sentirem o instinto de liberdade que nos baliza e norteia e, assim, começarem a organizar a resistência e reversão da servidão voluntária aos golpistas tiranos, que destroem tudo em nosso País a cada semana que passa, desde maio de 2016.

Apresento abaixo alguns excertos do livro e, logo depois, uma síntese que está na enciclopédia livre (Wikipédia) e está muito boa.

William

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Excertos

- "Eu não lhe pediria tão vivamente para recuperar a liberdade se lhe custasse alguma coisa. Não existe nada mais caro para o homem do que readquirir o seu direito natural e, por assim dizer, de animal voltar a ser homem..."


- "Para conseguir o bem que deseja, o homem ousado não teme nenhum perigo, o homem prudente não regateia nenhum esforço. Só os covardes e os preguiçosos não sabem suportar o mal nem recuperar o bem. Limitam-se a desejá-lo e a energia de sua pretensão lhes é tirada por sua própria covardia..."


- "É incrível ver o povo, quando é submetido, cai de repente num esquecimento tão profundo de sua liberdade, que não consegue despertar para reconquistá-la. Serve tão bem e de tão bom grado que se diria, ao vê-lo, que não só perdeu a liberdade, mas ganhou a servidão..."


- "Se todas as coisas se tornam naturais para o homem quando se acostuma a elas, só permanece em sua natureza aquele que deseja apenas as coisas simples e não alteradas. Assim, a primeira razão da servidão voluntária é o hábito..."


- "Os homens livres, ao contrário, disputam a preferência em lutar pelo bem comum, porque associam a ele seu interesse particular: todos esperam ter sua parte no mal da derrota ou no bem da vitória. Mas os homens submissos, desprovidos de coragem guerreira, perdem também a vivacidade em todas as outras coisas, têm o coração tão fraco e mole que não são capazes de qualquer grande ação. Os tiranos sabem muito bem disso. Por isso, fazem o possível para torná-los ainda mais fracos e covardes."


Bibliografia:

LA BOÉTIE, Étienne de. Discurso da Servidão Voluntária. Texto integral. Edição bilíngue. Tradução: Casemiro Linarth. Martin Claret.


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Wikipédia 

Étienne de La Boétie (Sarlat, 1 de novembro de 1530 - Germignan, 18 de agosto de 1563) foi um humanista e filósofo francês, contemporâneo e amigo de Michel de Montaigne (este que em seu ensaio "Sobre a Amizade" faz uma homenagem a La Boétie). Poucos anos antes de morrer, aos 32 anos, Étienne de La Boétie deixou em testamento seus escritos a Montaigne, o qual, mais tarde, destacou os méritos nos Ensaios e em várias cartas, apontando este autor como um importante homem daquele século.

Traduções de obras clássicas greco-romanas eram comuns entre os studia humanitates, por isso entre os trabalhos de Étienne de La Boétie estão as traduções do grego para o francês de obras de Xenofonte e Plutarco - Étienne escreveu também algumas obras originais, a sua obra mais famosa é seu "Discurso da Servidão voluntária", escrita no século XVI, depois da derrota do povo francês contra o exército e fiscais do rei, que estabeleceram um novo imposto sobre o sal. 


A obra se mostra como uma espécie de hino à liberdade, com questionamentos sobre as causas da dominação de muitos por poucos, da indignação da opressão e das formas como vencê-las. Já no título aparece a contradição do termo servidão voluntária, pois como se pode servir de forma voluntária, isto é, sacrificando a própria liberdade de espontânea vontade? 

Na obra, o autor pergunta-se sobre a possibilidade de cidades inteiras submeterem-se a vontade de um só. De onde um só tira o poder para controlar todos? Isso só poderia acontecer mediante uma espécie de servidão voluntária. Ele afirma então que são os próprios homens que se fazem dominar, pois, caso quisessem sua liberdade de volta, precisariam apenas de se rebelar para consegui-la. 

Étienne afirma que é possível resistir à opressão, e ainda por cima sem recorrer à violência - segundo ele a tirania se destrói sozinha quando os indivíduos se recusam a consentir com sua própria escravidão. Como a autoridade constrói seu poder principalmente com a obediência consentida dos oprimidos, uma estratégia de resistência sem violência é possível, organizando coletivamente a recusa de obedecer ou colaborar.

Graças a suas reflexões profundas sobre a condição humana e a liberdade, La Boétie é considerado um filósofo de tradição libertária e um precursor do pensamento anarquista.

Discurso sobre a Servidão Voluntária

O "Discurso da Servidão Voluntária", escrito em 1548 quando Étienne de La Boétie tinha 18 anos, é uma crítica à legitimidade dos governantes, chamados por ele de “tiranos”. La Boétie explica de que maneira os povos podem se submeter voluntariamente ao governo de um só homem: em primeiro lugar, pelo hábito, uma vez que quem está acostumado à servidão tende a não questioná-la; em seguida, pela religião e pela superstição que se cria em torno da figura do líder. 

No entanto, não são apenas esses dois métodos os elementos necessários para criar a servidão voluntária: o segredo da dominação consiste em envolver o dominado na própria estrutura da dominação, a saber, uma pirâmide de poder: o tirano domina meia dúzia, essa meia dúzia domina seiscentos, esses seiscentos dominam seis mil, e abaixo desses seis mil vêm todos os outros. Para dominar a meia dúzia, ou seja, os seus cortesãos, o tirano atira-lhes migalhas, e estes, gratos, aceitam a submissão. Essa estrutura de domínio é repetida, então, nos demais níveis: a meia dúzia em relação aos seiscentos; os seiscentos em relação aos seis mil; os seis mil em relação a todos os outros. 

Para La Boétie, os que estão em volta do tirano são os menos livres de todos, pois, se as outras pessoas estão obrigadas a obedecer, esses, além disso, querem antecipar os desejos do tirano, escolhendo, com essa atitude, livremente a própria servidão. Portanto, os que estão na base da pirâmide, os camponeses e artesãos, são, em certo sentido, mais livres e mais felizes, pois após obedecerem a uma ordem, podem gastar o resto do tempo com o que quiserem; já os cortesãos, por estarem próximos ao tirano, estão afastados dessa liberdade. 

O autor quer levar seus leitores a refletir sobre uma questão que está na base da política: o motivo que leva as pessoas a obedecerem. Concretamente, o que está por trás dessa questão é entender a causa que pode levar uma pessoa a abrir mão de sua própria liberdade, já que, para obtê-la, o homem precisa apenas desejá-la. Assim, a servidão voluntária, em La Boétie, se refere à perda do desejo de liberdade, uma vez que, “os homens, enquanto neles houver algo de humano, só se deixam subjugar se forem forçados ou enganados”. Para ele, é possível que os homens percam a liberdade pela força, mas o que surpreende é o fato de não lutarem para reconquistá-la. 

No livro, são descritos três tipos de tiranos: os que chegam ao poder pela eleição do povo, pela força ou pela sucessão de raça. Mas, independentemente da forma como o tirano tenha chegado ao poder, o que intriga é o fato de as pessoas continuarem a obedecê-lo mesmo quando prejudicadas por ele. O autor defende ainda a igualdade de todos os homens na dimensão política: “Uma coisa é claríssima na natureza, tão clara que a ninguém é permitido ser cego a tal respeito, e é o fato de a natureza, ministra de Deus e governanta dos homens, nos ter feito todos iguais, com igual forma, aparentemente num mesmo molde, de forma a que todos nos reconhecêssemos como companheiros ou mesmo irmãos”.

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