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terça-feira, 6 de agosto de 2024

73 de 100 dias


A bomba atômica.

Opinião

73. O dia 6 de agosto é um dia para nunca ser esquecido pela sociedade humana. O dia da infâmia! O dia no qual os Estados Unidos da América lançaram sobre a cidade de Hiroshima, Japão, uma bomba atômica, no ano de 1945, matando imediatamente dezenas de milhares de pessoas e centenas de milhares depois devido às consequências dos efeitos radioativos da bomba. Três dias depois, 9 de agosto, os mesmos EUA lançariam outra bomba atômica sobre Nagasaki. Não podemos esquecer esse ato de lesa-humanidade ao assassinar centenas de milhares de pessoas - crianças, mulheres, idosos, civis, pessoas que não estavam em campos de batalha - para demonstrar o poder de morte de um governo sobre os demais povos em confrontos e guerras.

Terminei recentemente a leitura de um clássico japonês das Histórias em Quadrinhos que me trouxe muitas emoções - Gen Pés Descalços -, de Keiji Nakazawa, um desenhista e criador de mangás (mangaká) cuja história pessoal se confunde com a história do personagem principal, Gen Nakaoka, um garoto de seis anos que sobreviveu à bomba atômica. A leitura das mais de 2000 páginas da obra me proporcionou momentos de muita reflexão, sofrimento e conscientização.


Gen Pés Descalços,
em 10 volumes.

TEREMOS NOVAS BOMBAS E NOVAS GUERRAS DE DESTRUIÇÃO EM MASSA?

O que a humanidade aprendeu com o assassinato de meio milhão de pessoas com os lançamentos das bombas atômicas nos anos quarenta? 

Se pararmos para refletir a partir do cenário mundial neste exato momento, veremos que não aprendemos muita coisa. 

Estamos à beira de uma conflagração de guerras inumeráveis ou de envolvimento de grandes países do mundo em uma guerra polarizando os Estados Unidos e seus vassalos de um lado e seus inimigos escolhidos de outro. Uma espécie de 3ª Guerra Mundial.

A atual guerra na Ucrânia, uma guerra por procuração, provocada segundo muitos analistas de geopolítica internacional pelos movimentos da Otan e pelos Estados Unidos, que desrespeitaram acordos desde os anos noventa e foram convidando e incluindo todos os países vizinhos da Rússia a serem membros da Otan expondo o povo russo a um risco real de ataques a sua soberania.

A guerra de extermínio e expulsão do povo palestino da Faixa de Gaza e da Palestina, promovida pelo governo sionista de Israel, com apoio dos Estados Unidos, guerra que já matou mais de 40 mil palestinos - crianças, mulheres, idosos, civis e pessoas que não estavam em campos de batalha - repete o roteiro das guerras conhecidas pelos historiadores no último século.

A nova tentativa dos Estados Unidos em derrubar o governo da Venezuela, país com as maiores reservas de petróleo do mundo, de forma injustificável, ao declarar que a dupla Edmundo González e Maria Corina Machado são vencedores de uma eleição com números criados da cabeça deles, só na base da narrativa inventada, é um passo perigoso na atual conjuntura global. Será que os países do BRICS e aliados vão aceitar essa provocação e ingerência para tomar os poços de petróleo do povo venezuelano na mão grande?

Poderia ficar aqui citando as provocações dos Estados Unidos a diversos países com o intuito de causar um ambiente de conflito global - Irã, China, Rússia etc.

Esses são os tempos...

Lembrem-se do dia 6 de agosto de 1945!

Lembrem-se do dia 9 de agosto de 1945!

Estamos livres e distantes de novas bombas de destruição em massa?

BLOQUEIOS ECONÔMICOS SÃO COMO BOMBAS ATÔMICAS EM RELAÇÃO AOS SEUS EFEITOS SOBRE AS POPULAÇÕES VÍTIMAS

Estamos livres das bombas de destruição em massa chamadas bloqueios econômicos e comerciais, os tais embargos disparados pelos Estados Unidos a hora que querem e ao país que eles acharem que devem disparar essas bombas de destruição econômica que só causam miséria e mortes às populações civis de seus inimigos? 

(vejam o que o povo cubano sofre há décadas com essa bomba norte-americana chamada "bloqueo". Vejam as consequências para o povo venezuelano...)

Lembrem-se do dia 6 de agosto!

E tenhamos consciência do mal que as guerras e as bombas causam às pessoas.

William Mendes


terça-feira, 30 de julho de 2024

Leitura: Gen Pés Descalços (10) - Keiji Nakazawa



Refeição Cultural

Gen Pés Descalços

Volume 10


A leitura de Gen Pés Descalços, de Keiji Nakazawa, foi uma experiência nova para mim que não tinha o hábito de ler mangás. O clássico japonês das Histórias em Quadrinhos foi um presente que ganhei de meu filho.

O que é?

Nakazawa retrata a história de uma família japonesa moradora de Hiroshima durante a 2ª Guerra Mundial e nos anos posteriores ao fim da guerra, à derrota do Japão e ao lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki.

A família Nakaoka é pacifista e seu comportamento contrário à guerra gerou um ódio violento contra si por parte das pessoas de sua comunidade e das autoridades do governo militar, cujo imperador é considerado um deus e figura que não pode ser questionada.

Quando e onde?

A história de Gen e sua família começa a ser narrada a partir do dia a dia em Hiroshima, Japão, no mês de abril de 1945. A guerra está perdida pelo Eixo - Alemanha, Itália e Japão -, mas o imperador japonês e seus comandantes militares não aceitam a derrota em hipótese alguma e seguem colocando todos os recursos do país numa guerra perdida.

O povo está passando fome e com falta de todos os recursos básicos da vida em sociedade. É neste contexto que passamos a acompanhar o dia a dia da família Nakaoka.

Como e por quê?

Gen e seus irmãos aprendem com seus pais a serem pacifistas e resistentes à toda aquela dificuldade que o povo está enfrentando. A receita é ser como o trigo que no inverno precisa ser pisado ao nascer para criar raízes fortes e dar bons frutos mesmo sob condições duras da natureza.

Chega o dia 6 de agosto de 1945 e os EUA lançam a bomba atômica sobre Hiroshima... (me arrepiei até para escrever aqui no blog)

A partir daquele momento, os sobreviventes enfrentarão o inferno na Terra. A miséria e a fome serão maiores ainda. A brutalidade das pessoas será exponenciada. Será cada um por si para a sobrevivência a cada dia.

A criança que sobreviveu à explosão, Gen, irá aos poucos se forjar a partir da sobrevivência diária e a formação que obteve de seus pais será a referência de seu caráter.

O pequeno Gen fará de tudo para cuidar tanto de sua família quanto dos amigos que vai fazendo e dos estranhos que decide ajudar por causa de seu coração puro e bom.

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UMA OBRA-PRIMA EM DEFESA DA PAZ MUNDIAL

Essa é a história em dez volumes Gen Pés Descalços, publicada pela primeira vez nos anos setenta e traduzida no Brasil décadas depois.

Seu autor, Keiji Nakazawa, acabou produzindo um obra-prima a partir de suas experiências pessoais, pois ele tinha seis anos de idade quando sobreviveu à bomba atômica em Hiroshima. Só ele e a mãe sobreviveram.

Felizmente, o mundo da arte e da cultura ganhou um grande desenhista e mangaká que anos depois passou a criar histórias pacifistas a partir de seus traços incríveis e com forte personalidade.

Foi uma experiência impactante conhecer esse novo tipo de cultura, à qual não estava familiarizado.

Aos leitores e leitoras do blog fica a sugestão de conhecerem a cultura dos mangás e Histórias em Quadrinhos, caso ainda não conheçam.

Durante a leitura de Gen Pés Descalços, fui fazendo uma postagem com comentário a cada volume. Caso haja interesse em ler os textos é só clicar aqui e ler a partir do primeiro volume.

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TEREMOS NOVAS HIROSHIMAS E NAGASAKIS?

A leitura dessa obra-prima pacifista se deu num momento trágico da sociedade humana. Estamos à beira de uma ou várias guerras que trarão grande perda de vidas e destruição do planeta. A guerra na Ucrânia e o genocídio na Palestina são exemplos do que estamos vivenciando.

O império decadente dos Estados Unidos sinaliza que não aceitará a volta do mundo multipolar e para tentar se manter como dono do mundo causará as guerras de destruição da vida como nós as conhecemos hoje.

Quem vai parar o desejo de guerras totais dos Estados Unidos?

William


segunda-feira, 29 de julho de 2024

65 de 100 dias



65. O final da história de Gen Pés Descalços foi emocionante, me levou às lágrimas. Foram dez volumes e mais de 2,5 mil páginas acompanhando a saga de uma família japonesa da cidade de Hiroshima. 

A história da família Nakaoka é uma obra autobiográfica de Keiji Nakazawa, que no dia 6 de agosto de 1945 sobreviveu à bomba atômica lançada pelos Estados Unidos. O autor nos transporta para aquele cenário e os anos seguintes ao final da guerra e ao período de miséria e morte pela radiação em centenas de milhares de vítimas.

A coleção de mangás foi presente de meu filho. Um belo presente! O Mário acabou me apresentando uma nova forma de cultura. Me envolvi com a obra ao longo da leitura. Nakazawa me fez chorar e refletir muito com seus traços marcantes e com cenas de forte impacto.

Estou num período de busca de sentidos e por mudanças e cada dia é mais um dia para ler, estudar e escrever, para tentar compreender a vida e a sociedade na qual vivemos.

Hoje fui "acabativo", algo que falei lá no primeiro dia dessa centena de dias. Que venham outras finalizações de coisas iniciadas e nunca terminadas.

William


domingo, 28 de julho de 2024

Leitura: Gen Pés Descalços (9) - Keiji Nakazawa



Refeição Cultural 

Gen Pés Descalços 

Volume 9


Retomei a leitura de Gen Pés Descalços, estou no penúltimo volume da obra de Keiji Nakazawa.

O volume começa com Gen Nakaoka se despedindo de seu irmão mais velho Kouji, que foi viver sua vida com Hiroko.

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INJUSTIÇA 

Logo de cara, no dia seguinte à despedida do irmão, os leitores já sofrem junto com Gen pela luta inglória dele e de Ryuta contra a prefeitura de Hiroshima, que decidiu desapropriar sua casa para fazer uma obra pública. 

É muita injustiça!

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DOR E CICATRIZ PARA LEMBRAR DE LUTAR CONTRA AS INJUSTIÇAS 

Gen acaba se ferindo na mão para marcar para sempre aquele momento de derrota para o Estado, ele vai sempre lutar contra injustiças praticadas por autoridades. (p. 34/35)

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NATSUE CONSEGUE SUA URNA MORTUÁRIA TODA ESTILIZADA COM AS IMAGENS DOS AMIGOS 

Um dos arcos deste volume do mangá que me deixou abalado foi sobre a personagem Natsue, criança vítima da bomba atômica. 

Os acontecimentos, a postura do personagem Gen e o desfecho mexem com os leitores. Fiquei passado com essa parte.

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A ARTE NÃO TEM FRONTEIRAS

E não é que é verdade? Olha eu aqui lendo Gen Pés Descalços!

Gen Nakaoka ouviu esse conceito inspirador de um velho artista - Seiga Amano - ao doar a ele as tintas que tinha consigo. (p. 138/139)

Gen decidiu que também seria artista e pintor depois desse diálogo.

Ele: "Talvez eu me torne pintor também" e completa: "Porque gosto de desenhar".

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GEN APRENDE A DESENHAR E PINTAR 

No arco seguinte, a violência é extremada novamente. Só o que vemos são pessoas maltratando Gen e seus amigos. 

Para resolver um problema, Gen aprende a desenhar e pintar com o senhor Seiga Amano.

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UM POVO EMBRUTECIDO PELO FASCISMO E PELA GUERRA 

O último arco deste volume nos põe a pensar sobre as consequências da cultura do militarismo, da falta de humanismo e da miséria causada por governos plutocratas.

Gen sofre sério risco por causa da inveja de outra pessoa. Ao invés de outro rapaz que trabalha com desenho e pintura tentar melhorar suas habilidades, ele acaba sofrendo por ver a evolução de Gen.

O rapaz é também uma vítima da guerra, os leitores veem isso no arco.

As reflexões estão ali para quem quiser refletir.

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COMENTÁRIO FINAL

Ganhei a coleção Gen Pés Descalços, com dez volumes, de meu filho. Foi uma longa jornada de leitura. Me surpreendi com a história e a cultura contidas neste clássico HQ japonês.

Vamos agora para o desfecho da história da família pacifista Nakaoka, vítima da guerra e da bomba atômica.

Gen é um personagem que também retrata a história de vida do autor e sua família, Keiji Nakazawa, sobrevivente de Hiroshima em 1945.

Grande aprendizado, grandes reflexões. 

William 


Post Scriptum: a leitura da postagem anterior pode ser feita aqui. O comentário do primeiro volume pode ser lido aqui.

64 de 100 dias



64. Após caminhar ontem 31,5 Km, hoje foi dia de descansar. Mesmo assim, ao acordar, fui andar 4 Km até o mercado para comprar algumas coisas. 

Decidi ler durante o dia. Escolhi o mangá Gen Pés Descalços, de Keiji Nakazawa. Infelizmente, enquanto lia um autor japonês, a seleção brasileira de futebol feminino sofria uma virada decepcionante nos acréscimos para as japonesas nas Olimpíadas na França. Competência das japonesas, vacilo nosso.

Terminei agorinha a leitura do 9° volume do clássico japonês que retrata as agruras da família Nakaoka e do povo japonês por causa da 2ª Guerra Mundial e das bombas atômicas lançadas pelos EUA sobre Hiroshima e Nagasaki. O governo militarista japonês pertencia ao Eixo fascista, era aliado de Hitler e Mussolini. 

Por falar em imperialismo e fascismo, estou na expectativa do resultado da eleição presidencial venezuelana. Estou na torcida pela vitória do chavista Nicolás Maduro e pela continuidade da Revolução Bolivariana contra os candidatos de extrema-direita bancados pelos EUA. 

Como disse num texto político anteontem (ler aqui), entre nós da esquerda não pode haver dúvidas em situações como essa da Venezuela: nossos inimigos são os fascistas, a extrema-direita e o imperialismo norte-americano, o capitalismo neoliberal plutocrático. Temos que apoiar a Revolução Bolivariana e Maduro representa isso. Ponto!

Sobre democracias e ditaduras: minha opinião baseada na experiência que acumulei em décadas de luta política e estudos é que não há na atualidade mais possibilidades de termos democracias no século XXI. O que temos nos EUA faz tempo e no Brasil após o golpe de 2016 são plutocracias (ditaduras do capital). A Venezuela e Cuba se aproximam muito mais de uma democracia do que esses dois que citei. Conheço o sistema cubano e o povo lá está no comando do país.

Aliás, hoje o comandante Hugo Chávez completaria 70 anos. Grande figura de Nuestra América. Hasta la Victoria, Comandante Hugo Chávez!

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É isso! Fechando mais um dia em minha vida.

William (ainda um caminhante. Caminhar faz parte de mim)


Post Scriptum: felizmente, Nicolás Maduro foi reeleito presidente da Venezuela. Viva a Revolução Bolivariana e o povo venezuelano!


domingo, 9 de junho de 2024

Leitura: Gen Pés Descalços (8) - Keiji Nakazawa



Refeição Cultural 

Gen Pés Descalços 

Volume 8


Os acontecimentos neste volume sobre a história da família Nakaoka e dos amigos de Gen se passam alguns anos depois da bomba atômica em Hiroshima (06/08/45) e Nagasaki (09/08/45) e o fim da 2ª Guerra Mundial.

Mas, infelizmente, o enredo começa com informações sobre uma nova guerra no início dos anos cinquenta: a Guerra na Coreia, dividida no Paralelo 38° entre Coreias do Norte e do Sul. Os amigos do inteligente garoto Gen acham que isso não é com eles, só que uma das bases de ataque à Coreia do Norte está no Japão, sob domínio dos EUA. 

Gen explica aos amigos o perigo disso, pois a Coreia do Norte pode atacar a base inimiga no Japão. Gen e seu professor, pacifistas, atuam para que o Japão nunca mais se envolva em guerra alguma.

A história terá alguns arcos também. Veremos as tretas entre Gen e o jovem órfão Aihara, que mesmo sendo vítima da guerra, defende o militarismo e a violência. Os leitores vão conhecer a história do garoto bom de beisebol.

Veremos a lábia de comerciante de Ryuta, vendendo as roupas feitas por Natsue e Katsuko.

Óbvio que os leitores verão muita violência no HQ. Os pacifistas vão enfrentar a fúria das autoridades por se manifestarem. O cenário é de brutalidade, qualquer coisa se resolve com tapa na cara e porrada.

Neste volume teremos contato com drogas por causa das questões sociais: alcoolismo e uma droga injetável chamada Philopon ou Pon (uma metanfetamina).

E sofreremos juntos com Gen e Ryuta por causa dos efeitos da bomba na vida de todos os habitantes de Hiroshima. 

Ao final dos arcos deste volume, Gen terá cerca de 13 anos.

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A LUTA CONTRA AS INJUSTIÇAS 

O volume oito aborda temas políticos bastante atuais. Nakazawa faz os leitores refletirem sobre injustiças cotidianas da sociedade capitalista em qualquer época. 

Nas páginas 150 e 151 Gen fala sobre guerras por procuração. A cena mostra a Guerra da Coreia e os beneficiários por traz dela como, por exemplo, os Estados Unidos e os empresários japoneses que estão lucrando com a venda de armas: quanto mais guerra, mais lucro para os capitalistas japoneses. 

Depois, na página 194, Gen Nakaoka, sua família e diversas famílias pobres e vítimas da bomba atômica se veem envolvidas numa grave situação de risco de perda de suas moradias por causa de decisão tomada pela prefeitura de Hiroshima de desapropriação para construção da "Cidade da Paz".

Gen vê dois homens ao lado de sua casa e ao perguntar o que querem, eles informam da decisão estatal de desapropriação e dão um mês para a família Nakaoka sair dali e se virar.

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DEMOCRACIA DEVE RESPEITAR AS MINORIAS

Informaram que foi decisão de assembleia e Gen pergunta:

"Mas se, de dez pessoas, nove são a favor e uma é contra, o que acontece com a opinião dela? Ouvir os motivos e tentar resolver o problema desse único voto contra não seria a verdadeira democracia?"

E finaliza a argumentação certeira:

"Ficam dizendo que precisam seguir a democracia e decidem tudo na base do voto da maioria." (p. 194)

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Comentário: vejam o que está acontecendo neste exato momento no Brasil: alguns homens decidem privatizar as escolas, alguns homens decidem privatizar a água pública (Sabesp) etc e as maiorias que se danem, representadas pelos poucos votos contrários nas "assembleias", porque os processos eleitorais são corrompidos e comprados (uma plutocracia). É muito atual o enredo do HQ.

Mais um volume lido de Gen Pés Descalços. Vamos para o nono volume. O comentário sobre o primeiro mangá pode ser lido aqui

William


Post Scriptum: o comentário sobre o volume 9 pode ser lido aqui.


segunda-feira, 3 de junho de 2024

Leitura: Gen Pés Descalços (7) - Keiji Nakazawa



Refeição Cultural

Gen Pés Descalços

Volume 7


Dos volumes que já li de Gen Pés Descalços, talvez o sétimo seja o que tenha mais arcos ou pequenas histórias dentro da narrativa sobre a vida da família Nakaoka e do povo japonês no período posterior à derrota na guerra e após as duas bombas atômicas que mataram centenas de milhares de pessoas.

Já no início da história, Gen e Ryuta interrompem a busca de soluções para imprimir o livro "Fim de um verão" de Matsukichi Hirayama, contando ao mundo sobre as consequências da bomba atômica para o povo japonês. Eles precisam ajudar Noro, garoto que fugiu do reformatório com Ryuta e que queria se vingar do tio que roubou toda a herança de sua família, sendo responsável pela morte da irmã de Noro e prisão dele.

Esse arco foi resolvido graças à generosidade de Gen, um pacifista assim como toda a sua família. Da solução da história de Noro, os meninos foram atrás da impressão do livro do senhor Hirayama. Para isso, Gen procurou o senhor Bok, um coreano amigo da família Nakaoka desde antes da guerra.

O senhor Bok ajuda Gen e vemos no mangá a história dos coreanos subjugados pelos japoneses naquele período da guerra.


Neste momento da leitura, tomamos conhecimento de mais algumas informações relevantes para a história. O único que sabe ler no grupo de crianças vítimas da guerra, os amigos e protegidos de Gen, é ele mesmo, que deve estar com uns nove ou dez anos. Começa um arco aí, a leitura da história do senhor Hirayama, no livro "Fim de um verão".

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"O porto de Hiroshima, por exemplo, vivia repleto de soldados que só aguardavam o momento de serem enviados aos campos de batalha do Sul.", Gen leu no livro para os amigos. E continuou:

"Hiroshima era a cidade que sediava as divisões do exército japonês. Um lugar que prosperou como capital militar do país."

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Parte duríssima da história. Revemos toda a história e cenário do volume dois, o lançamento da bomba e as consequências dela. Cenas duras! O desenho de Nakazawa é impressionante!

Da distribuição do livro, começa um novo arco, porque era proibido aos japoneses falarem sobre a guerra e suas consequências. Os leitores vão conhecer agora os norte-americanos atuando no Japão como donos do mundo, os mesmos que ensinarão métodos de tortura aos ditadores sul-americanos nas décadas seguintes.

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NONSENSE que funciona bem com Nakazawa

Nakazawa tem uma forma muito peculiar de contar a história de seu povo, ele mescla na História em Quadrinhos violência extrema com humor, e a gente acaba entendendo o motivo de sua técnica. Neste volume, no arco dos agentes norte-americanos, os garotos em cativeiro "treinam" em si mesmos resistência às torturas que imaginaram que sofreriam em seguida. É algo nonsense, mas que dá todo o sentido naquela parte da história.

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Desse arco do cativeiro, surge outro bem legal. É a revanche! Os garotos descobrem como destruir as máquinas do inimigo com docinhos de açúcar.

O último arco do volume é muito emotivo. A mãe de Gen volta para casa, pois estava internada com a doença da bomba. O irmão mais velho dele, Kouji, também volta depois de um bom tempo sem notícias. A família está reunida novamente. 

Conhecemos a história do casamento dos pais de Gen e os duros tempos de guerra, quando o governo japonês torturava o próprio povo, quando alguém discordava da guerra e do imperador.

A mãe de Gen quer ir com a família a Kyoto e novamente vemos a humildade e determinação do garoto para conseguir os recursos para a viagem. Gen vai recolher fezes humanas para atingir seus objetivos.

Apesar do volume terminar de forma triste, vemos a determinação de Gen Nakaoka em querer falar com o chefão dos invasores norte-americanos e com o imperador do Japão sobre os efeitos da guerra e da bomba atômica.

Vamos para o oitavo volume. Como vocês perceberam, procurei falar das temáticas dos arcos sem dar spoiler sobre o que de fato aconteceu. Só lendo o mangá para conhecer os detalhes. O comentário do primeiro volume pode ser lido aqui. Os seguintes estão ao final de cada texto.

O volume seguinte, o oitavo, pode ser lido aqui.

William


quinta-feira, 30 de maio de 2024

5 de 100 dias



5. O que fazer numa centena de dias quando se está percebendo o mundo em processo progressivo de desfazimento? Hoje, entendo Drummond quando seus eu-líricos diziam que viver é uma ordem, viver apenas, sem mistificação. Compreendo o poeta. Viver para mim é uma necessidade (e não por mim)!

Eu posso parar as guerras em andamento? Posso interromper o extermínio do povo palestino executado pelos sionistas de Israel? Posso ajudar meus irmãos e irmãs cubanos vivendo carências materiais essenciais sob um bloqueio criminoso por parte do país mais terrorista do mundo, os Estados Unidos? 

Eu posso interromper as humilhações que os inimigos do povo e da classe trabalhadora brasileira e do país estão impondo ao presidente Lula através daquele parlamento com 400 bárbaros comprados com o dinheiro das poucas famílias bilionárias, o 1%, e comprados com o orçamento (inclusive o secreto) do país capturado por aqueles canalhas?

O que está ao meu alcance fazer para frear as injustiças e violências e ignorâncias do mundo no qual estou inserido como um dos participantes da sociedade humana? O que fazer?

Eu não sei.

Nos últimos dias, o que fiz foi me sentar com pessoas com as quais trabalhei e convivi por muito tempo e que considero como amigas para comermos uma pizza e conversarmos. 

Também estou passando uns dias com a família e com amigos na colônia dos professores do Sinpro SP na Praia Grande. Estou conversando com pessoas com as quais se pode conversar ainda. Isso é bom.

Em relação às leituras e textos em andamento, sobre a ideia de ser mais "acabativo", terminei mais um dos volumes do Gen Pés Descalços, História em Quadrinhos de Keiji Nakazawa, um mangá extraordinário que conta ao mundo a tragédia vivida pelo povo de Hiroshima, comunidade humana vítima da bomba atômica lançada pelos Estados Unidos, o país mais terrorista do mundo. Li o volume sete, agora faltam três. (comentário aqui)

Enfim, não estou numa função social atualmente que me permita ou que me facilite a condição para mudar a realidade injusta e perversa da sociedade humana. Isso não é uma desculpa para não fazer nada para mudar a realidade ruim, não é. Mas ainda não me vejo pertencente a um movimento desses muda-mundo.

Se for avaliar criticamente e honestamente, diria até mesmo que os movimentos aos quais participei por um bom tempo em minha vida profissional, movimento sindical e partidário, que já tiveram força para mudar realidades da classe trabalhadora, hoje têm dificuldade para apontar um horizonte e utopias para o povo trabalhador e sem posses.

Se o Partido dos Trabalhadores não for enfático em alguma bandeira que o diferencie dos demais partidos tradicionais, dizendo aos seus filiados, militância e simpatizantes qual sua posição em relação ao capitalismo, por exemplo, terá cada dia mais dificuldade de mudar a realidade do povo trabalhador e sem posses.

É a minha opinião.

Muitas lideranças do PT querem "humanizar" o capitalismo, ao invés de deixar claro que temos que superar esse sistema destrutivo do mundo e do ser humano.

Acho isso foda! Francamente!

Bom, como a vida de todos nós está muito instável, não sabemos se as guerras tomarão conta de tudo e nosso cotidiano será invadido por uma delas, talvez seja bom estar com mais pessoas queridas nessa centena de dias que estou por aí, vivendo, sem mistificações. Conversar com amigas e amigos é bom.

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Ah, sobre a "condenação" do bárbaro Trump, que tomou conta das notícias das mídias no dia de hoje... para mim é nuvem. Nuvem. Não muda nada nos Estados Unidos e não muda nada para os palestinos, para os cubanos, para os venezuelanos, para os chineses, não muda nada em relação ao que a extrema-direita e o 1% estão organizando para inviabilizar qualquer desejo de Lula de desfazer alguns dos crimes de lesa-pátria e lesa-humanidade praticados pelos bárbaros no poder político até 2022: bolsonaristas et caterva da laia deles. Não muda nada. O que vão fazer com Lula e conosco já está traçado pelos 400 bárbaros do Parlamento. O problema é o nosso lado da classe, as nossas lideranças sindicais e partidárias. Nosso lado não está sendo organizado para reagir, resistir e lutar pela nossa ideia de mundo. Nada a ver com o merda do Trump ou o merda do Biden. Nada!

William


segunda-feira, 27 de maio de 2024

2 de 100 dias



2. Abrição de boca, bocejando sem parar. Não é nem meia-noite ainda. Cansado. Voltamos do cinema agora à noite. Terceira semana seguida que conseguimos ir ao cinema. Bom isso! Alimento cultural.

Ontem, enquanto refletia sobre minha vida, o que incluiu pensar minhas relações com o mundo e algum tipo de busca de satisfação ou entendimento pessoal, vi que me encontro num momento da vida parecido com o que vivia nas primeiras etapas da vida adulta. 

Parecido, mas diferente. Naquela época, vivia tempos de fúria, de incertezas sobre o futuro nas questões mais comezinhas do viver de um membro das classes subalternas de um dos países mais injustos e desiguais do mundo. Num determinado momento de crise, inventei um jeito de ir vivendo dia a dia. Não tinha nem trinta anos de idade. E fui vivendo.

Hoje, reflito sobre incertezas a respeito do futuro em condições diferentes das condições daquela época. Tenho certa segurança e regularidade em relação à vida social e econômica, tenho perspectivas de pagar em dia as despesas do viver. Essa condição veio após quase quarenta anos de venda de minha força de trabalho como uma pessoa que nasceu no seio das classes inferiores socialmente.

Refleti ontem sobre minha saúde. Ou melhor, sobre minha não-saúde, sobre minha condição de perda da condição de saúde. Cada roteiro de vida é único e com ele vem as consequências do percurso. Imagino que o meu percurso foi foda. Agora é hora de fazer os remendos que forem possíveis no meu tecido esgarçado.

Enquanto corria no parque, pensei em viver a cada 100 dias perseguindo algo possível de se alcançar ou realizar nesse curto espaço de tempo. Eu efetivamente não vejo com clareza como será o nosso Natal. Já escrevi sobre isso. Não quero e avalio que não posso deixar de estar com minha mãe nesta data. No entanto, sei que colocar todos juntos no mesmo local e data não será simples. 

Por mais que estejamos chegando ao meio do ano civil, pensar dezembro está meio esquisito para mim. E o mundo então? Minha visão de mundo com a formação que tenho tem me deixado desesperançoso em relação à minha espécie, a única que pode ser educada, como diz Paulo Freire. Quem quer e quem querendo pode ser educado hoje?

Se chegar ao dia dois de setembro, 100 dias a partir de ontem, o que poderia ter feito até lá? No final da reflexão de ontem, avaliei que poderia tentar ser mais "acabativo" porque sempre comecei trocentas coisas e acabei poucas delas. Acabativo...

Foi pensando nisso que peguei para acabar a coleção de dez volumes do clássico Gen Pés Descalços, mangá ou História em Quadrinho (HQ) de Keiji Nakazawa. Uma história porrada sobre a bomba atômica lançada sobre Hiroshima e os efeitos da guerra e da radiação nas vítimas, principalmente civis. Comecei a ler a história da família Nakaoka lá no final de 2022 e até agora só tinha lido cinco volumes. Decidi ler todos os que faltam em sequência e de ontem para hoje já li o volume 6 (comentário aqui).

Quem sabe assim, não tento me tornar mais acabativo nesses 100 dias de vivência neste mundo de instabilidade crescente em meu país e nos países todos deste planeta em destruição acelerada e sob comando de alguns poucos homens fdp. E que nenhum acidente vascular ou infarto ou doença ruim dê cabo de mim, torço por isso!

Não sei se vivi tudo o que poderia viver neste segundo dia de uma centena de dias. Não fiz nada que mudasse o mundo. Mas não sei se é pra tanto a minha vida. Percebi o básico: como santo de casa, não faço milagre algum. 

William


Leitura: Gen Pés Descalços (6) - Keiji Nakazawa



Refeição Cultural

Gen Pés Descalços

Volume 6


Retomei a leitura do clássico japonês Gen Pés Descalços, de Keiji Nakazawa. O mangá foi lançado em 1973 e a tradução brasileira é de Drik Sada, publicado em dez volumes no Brasil a partir de 2011 pela Conrad. Ganhei a coleção de presente de meu filho.

O mangá conta a história da família Nakaoka, residente em Hiroshima, e os fatos se passam a partir de um momento anterior ao lançamento da bomba atômica e segue narrando o drama do povo japonês nos anos seguintes à derrota do Eixo na 2ª Guerra Mundial e após as duas bombas lançadas pelos EUA em Hiroshima e Nagasaki.

A dramaticidade é muito impactante para os leitores, tanto pela qualidade excepcional dos traços de Nakazawa quanto pelo próprio enredo. Vale lembrar que a história é muito real, pois o autor é um sobrevivente da bomba e tinha seis anos quando Hiroshima foi destruída pelos norte-americanos. Só sobreviveram Keiji e sua mãe.

Sejamos fortes como
o trigo pisoteado.

VOLUME 6

Nesta parte da história de Gen vemos a dificuldade do povo japonês em sobreviver em um país ocupado pelo inimigo vencedor e o que impera no cotidiano é a miséria, a fome, a injustiça e a violência nas relações entre as pessoas, tanto a forma rude como são tratadas as pessoas do povo, como a maldade estabelecida no coração de quase todo mundo. O comum é o "cada um por si" e ninguém ajuda ninguém.

A ordem estabelecida é o capitalismo. Dinheiro é o deus e o salvador para tudo. Todas as relações são relações capitalistas, tudo é mercadoria. Um dos momentos mais marcantes neste volume é a decisão do pequeno Ryuta para conseguir dinheiro para salvar a mãe de Gen que precisa de atendimento médico.

Gen é uma exceção à regra, um rapazinho de bom coração e que está sempre tentando cuidar dos seus e ainda ajudar as pessoas com problemas. Os temas que são abordados no mangá são bem pesados: violência, suicídios, exploração humana e maldade gratuita são alguns deles.

Neste volume, vemos a vida cotidiana no Japão após três anos da derrota e do lançamento das bombas atômicas. O garoto Gen faz de tudo para conseguir alguns trocados para alimentar sua mãe, irmão e amigos. E até o dono do ferro velho que compra tudo que Gen consegue nos escombros dá um jeito de explorar e pagar valores irrisórios ao rapaz.

A história é muito dura! Mas é uma narrativa importantíssima em tempos de autoritarismo, de ascensão da extrema-direita no mundo e de guerras de extermínio como temos visto na Palestina, com centenas de milhares de crianças, mulheres e civis árabes palestinos sendo dizimados impiedosamente pelas bombas dos sionistas do governo Netanyahu.

O cenário de destruição, morte, fome e sede que estou lendo em Gen Pés Descalços é o cenário do cotidiano de dois milhões de palestinos na Faixa de Gaza. 

O mundo viu as consequências para o povo japonês das decisões políticas do imperador ao se aliar aos nazistas e fascistas. Viu as consequências por décadas do lançamento da bomba atômica sobre uma população civil e as mortes instantâneas e por câncer décadas seguidas.

Guerra é uma merda! Nazifascismos e autoritarismos antidemocráticos são uma merda!

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Chama muito a nossa atenção na história e cenário de Gen Pés Descalços a condição das vítimas da guerra, em especial a condição das crianças e das mulheres: pessoas mutiladas, desamparadas, adoecidas e maltratadas pelos homens naquele contexto rude do pós-guerra.

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Para as pessoas que estudam, sabemos disso olhando o passado. E a sociedade humana não aprende nada com a história, estamos caminhando para a repetição de tudo que o mundo viveu com as guerras do século passado.

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PEDRAS NO CAMINHO

Simbolismo: além da marca simbólica do sol nos desenhos de Nakazawa, apontando a passagem do tempo, o símbolo do país - terra do sol nascente - e a própria bomba e o calor de mil sóis, vemos algumas vezes neste volume o tropeço ou o chute em uma pedra no caminho de Gen ou de Ryuta. Há que se resistir às pedras no caminho...


Vamos para o próximo volume de Gen Pés Descalços. Caso haja interesse das leitoras e leitores do blog em ler os comentários anteriores sobre essa leitura de Keiji Nakazawa, é só clicar aqui para ler o primeiro texto e os seguintes. 

Para ler sobre o volume 7 é só clicar aqui.

William Mendes


segunda-feira, 31 de julho de 2023

Leitura: Gen Pés Descalços (5) - Keiji Nakazawa



Refeição Cultural

Gen Pés Descalços

Volume 5


A leitura do volume 5 de Gen Pés Descalços, de Keiji Nakazawa, me fez refletir o quanto certos tipos de produções culturais são atemporais e nos trazem reflexões profundas, independente da época na qual temos acesso a elas.

O mangá foi publicado pela primeira vez nos anos setenta e seu autor, Nakazawa, foi um sobrevivente da bomba atômica lançada sobre Hiroshima pelos norte-americanos no dia 6 de agosto de 1945. De sua família, sobreviveram sua mãe e ele, com 6 anos de idade. Ela faleceu de câncer nos anos sessenta e ele também faleceu de câncer em 2012.

A edição que ganhei de presente de meu filho é a edição brasileira da Conrad Editora de 2011/2012 em 10 volumes. A coleção é belíssima e ao terminá-la será minha primeira leitura completa de uma série de mangás, pois não tinha o hábito de ler este tipo de História em Quadrinhos (HQ).

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GEN PÉS DESCALÇOS

A história da família Nakaoka se passa no Japão, na cidade de Hiroshima, a partir de meados de 1945. A guerra está perdida para o Eixo - Alemanha, Itália e Japão - e o governo japonês não aceita a derrota, fazendo de tudo para que o povo siga acreditando na vitória. O primeiro volume traz um pouco desse cenário.

A população japonesa está passando muita fome e o regime imperial e militar segue exigindo cada vez mais de seu povo. Os Estados Unidos lançam duas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki nos dias 6 e 9 de agosto daquele ano. O mangá transmite aos leitores um cenário chocante através dos desenhos de Nakazawa.

Nos volumes 2, 3 e 4 acompanhamos os acontecimentos em Hiroshima entre o primeiro e o segundo ano após a explosão da bomba atômica. O cenário no país é de miséria absoluta. A família Nakaoka sofreu perdas terríveis e os sobreviventes têm que encontrar forças para seguirem adiante. 

O jovem Gen é uma criança incrível, traz em si uma postura fora do comum nas crianças de seu meio ambiente. Ele é de bom coração, algo raro naquele cenário. Os ensinamentos de seus pais são bases muito sólidas. Gen é pacifista como seus pais. Os filhos devem ser como o trigo, mesmo pisoteados, devem crescer fortes.

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FRIEZA E CRUELDADE

A população japonesa está embrutecida e nós leitores ficamos chocados com a reação fria e cruel das pessoas em situações cotidianas que nos levariam a sentir solidariedade e compaixão pelas pessoas em condições tão miseráveis e dolorosas.

Medo, ódio e preconceito marcam o dia a dia das pessoas.

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Todos se aproveitando das vítimas da bomba...

VOLUME 5

Neste volume que acabei de ler, a família Nakaoka segue sofrendo as consequências da guerra, há muita fome e desemprego no país e os Estados Unidos ocuparam o Japão.

Os sobreviventes da bomba atômica sofrem as sequelas da radiação e milhares de vítimas seguem morrendo nas regiões da catástrofe. Os japoneses são vistos como cobaias pelos norte-americanos que coletam dados sobre os efeitos da radiação.

Tudo é hostil e inóspito no ambiente da história do mangá. As vítimas da bomba já não conseguiam se manter antes da guerra por causa da fome e agora não conseguem sequer atendimento médico para tratamento das doenças da bomba. Desemprego, falta de recursos e exploração infinita do povo japonês.

A máfia controla o país e os vilarejos. Há maldade para onde se olha, seja nas regiões controladas pelo governo japonês, seja sob controle das máfias, seja ainda sob controle do invasor vencedor da guerra. As pessoas comuns estão por sua conta e risco. Dureza!

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COMENTÁRIO FINAL

Esse cenário que descrevi sobre os 5 primeiros volumes de Gen Pés Descalços me deixa muito pensativo sobre a realidade do mundo no ano de 2023, cinquenta anos após o lançamento do mangá. 

Estamos vivendo num cenário mundial de muita desesperança e com perspectivas duras para o futuro da humanidade e, ao mesmo tempo, um cenário de muito ilusionismo, de muita alienação da população mundial graças às ferramentas de invisibilização dos temas graves e pela criação de pautas de distração que ganham a atenção de todo mundo.

As mudanças climáticas afetaram o cotidiano do planeta de forma permanente, as consequências já estão aí e vão piorar porque não há uma mudança de tendência em relação às causas. A vida na Terra será cada dia mais desafiadora para todos os seres viventes.

Apesar de ser um sistema de crises constantes, o capitalismo como forma predominante de organização da sociedade humana não dá sinais de que será substituído por outra forma de organização social, nem que se tornará obsoleto como se avaliou no passado ao estudar suas consequências maléficas para a humanidade e o planeta.

E as tecnologias criadas por nós homo sapiens estão sendo usadas pelos homens do capital para transformar o próprio animal humano em uma mercadoria cada vez mais descartável à medida que a tecnologia (inclusive IA) torne obsoleta a mercadoria mão de obra. O excesso de humanos pode estar se tornando algo inconveniente para o lucro dos detentores do mesmo capital.

Vemos isso no Gen Pés Descalços. O Japão e os japoneses se tornaram coisas descartáveis após a derrota na guerra. Os vencedores fazem experimentos com os derrotados. Entre os japoneses, alguns se aproveitam do caos e exploram seus pares em benefício próprio. 

O cenário no mangá de Nakazawa e o cenário atual praticamente empurram as pessoas a buscarem a sobrevivência da forma mais bruta possível, individual e sem pensar a coletividade. E as soluções no planeta e na sociedade humana só são viáveis se forem coletivas...

Estamos assim... até quando?

William


Post Scriptum: para ler sobre os volumes anteriores é só clicar aqui (v.1), aqui (v.2), aqui (v.3) e aqui (v.4). O texto da leitura seguinte, o volume 6, pode ser lido aqui.


Bibliografia:

NAKAZAWA, Keiji. Gen Pés Descalços. Vol. 5. Tradução Drik Sada. - São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2012.


quarta-feira, 5 de abril de 2023

Leitura: Gen Pés Descalços (4) - Keiji Nakazawa



Refeição Cultural

Gen Pés Descalços - Cresça firme, trigo verde

Volume 4


Registro impressões sobre a leitura do quarto volume de Gen Pés Descalços influenciado pela tristeza de uma tragédia ocorrida hoje em nosso país. Um homem de 25 anos assassinou crianças em uma creche em Blumenau, Santa Catarina. Nossa sociedade humana falhou miseravelmente! 

O mangá que estou lendo de Keiji Nakazawa é um clássico das Histórias em Quadrinhos. Gen Pés Descalços foi publicado nos anos 70 e o autor é um sobrevivente da bomba atômica lançada em Hiroshima pelos norte-americanos. Ele tinha 6 anos e toda sua família foi morta pela bomba, com exceção de sua mãe.

No primeiro volume vemos a miséria à qual está submetida a população japonesa por causa da guerra. Vemos o clima fascista do império militarista japonês. E vemos a forma de tratamento dura e preconceituosa imposta à família Nakaoka por ela ser contra a guerra. 

Ao longo dos volumes que já vi o leitor toma contato com as consequências da bomba atômica, que matou na hora mais de 100.000 civis e os efeitos da radioatividade seguiu matando dezenas de milhares de pessoas ao longo dos meses e anos seguintes. 

Imaginem vocês, leitores e leitoras, mulheres, crianças e idosos vaporizados na hora e depois morrendo dolorosamente por causa de uma bomba lançada pelos poderosos norte-americanos mesmo após a guerra estar vencida pelos aliados. Imaginem a fome durante anos e a miséria assolando um país... esse é o cenário de Gen Pés Descalços.

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A MISÉRIA E A VIOLÊNCIA COMO RESULTADOS DO FASCISMO

A leitura desse volume foi bem mais difícil que a leitura do anterior (ler comentário aqui). Foram quase 300 páginas e eu tive que parar de ler algumas vezes porque ficava mal durante a leitura. 

O sofrimento da família Nakaoka seguiu nesta parte da história - nos dois anos seguintes ao 6 de agosto de 1945 - da mesma forma que nos volumes anteriores. É muito duro acompanhar tanto infortúnio de uma família como vemos no mangá de Nakazawa.

O autor ficou conhecido por ser um pacifista, no entanto a expressão dos desenhos é marcada por muita violência. É o retrato fiel do que são sociedades cuja essência cultural é a violência e o autoritarismo. Estamos vivendo isso neste momento do mundo de 2023, décadas depois da 2ª GM.

A fome é a marca dos 4 volumes que li até agora. A maldade nas pessoas também. Crianças são más, maltratam e humilham umas às outras; pessoas com um pouquinho a mais são egoístas e se aproveitam dessa condição para explorar miseráveis; raros são aqueles e aquelas que se preocupam com os outros como é o caso do garoto Gen. Dureza, viu!

Neste volume a família Nakaoka voltou a sofrer com perdas e teve que se reinventar para seguir adiante na luta pela sobrevivência na Hiroshima destruída pela bomba atômica dos EUA.

É isso. Seguiremos na leitura dos 10 volumes do mangá Gen Pés Descalços. A mãe de Nakazawa faleceu de câncer em 1966 e ele faleceu de câncer em 2012. Apesar disso, sua obra denunciando a guerra e a violência como cultura é atemporal.

O texto sobre o volume seguinte (nº 5) pode ser lido aqui.

William


Bibliografia:

NAKAZAWA, Keiji. Gen Pés Descalços - Cresça firme, trigo verde. Vol. 4. Tradução Drik Sada. - São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2012.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Leitura: Gen Pés Descalços (3) - Keiji Nakazawa



Refeição Cultural

Gen Pés Descalços - Trigo, é hora de brotar

Volume 3


Aos poucos, vou me familiarizando com a linguagem dos mangás e ampliando meus conhecimentos nas diversas formas de mídias de cultura.

A leitura do volume 3 de Gen Pés Descalços se deu em um único dia. Peguei logo cedo o mangá para ler e consegui terminar o volume no final da noite de ontem. Que dureza a vida dos personagens! Quanto sofrimento suporta a família Nakaoka!

Para escrever esta postagem e minhas impressões, reli o texto de prefácio do volume 1 "Os quadrinhos depois da bomba", de Art Spiegelman. O texto é muito elucidativo sobre os mangás de Keiji Nakazawa, ele próprio sobrevivente da bomba de Hiroshima assim como o personagem Gen.

"O simbolismo evidente é característico dos quadrinhos japoneses. Para Nakazawa, isso toma a forma de um sol que reaparece sem piedade, brilhando implacavelmente ao longo das páginas. É o que marca a passagem do tempo, o que dá a vida, a bandeira do Japão, a lembrança da bomba com o calor de mil sóis, e o instrumento que dá ritmo à história de Gen." (V. 1, Prefácio)

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Gen Pés Descalços conta a história de Gen Nakaoka e sua família, descrevendo o dia a dia do povo japonês desde abril de 1945, meses antes do lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki, e avança para o período posterior à hecatombe nuclear e à derrota na 2ª Guerra Mundial.

O 1º volume foca no período que antecede o lançamento da bomba, de abril até 6 de agosto. O povo estava vivendo sob condição de miséria absoluta, um cotidiano de fome e o clima de intolerância era absurdo contra qualquer questionamento ao imperador e à guerra. A família Nakaoka era contra a guerra e eles eram considerados antipatriotas e sofreram muita violência e humilhação por causa disso.

No 2º volume, o leitor sofre muito com os personagens e as cenas que retratam os efeitos da bomba atômica. Os desenhos são incríveis, duros, chocantes. O incrível é que o jovem Gen segue sendo um garoto bom, que se mete em apuros toda vez que seu coração se sensibiliza com a desgraça dos outros. Ele acaba deixando as urgências de si próprio e família para ajudar alguém. É tocante! E ao seu redor, é só maldade e indiferença. Como o povo está embrutecido!

No 3º volume, Gen conhece o senhor Keiji, outra vítima da bomba atômica, uma pessoa desprezada pela própria família por estar entre a vida e a morte pelos efeitos da bomba. Gen precisa desesperadamente de um emprego para ajudar a família e aceita cuidar do senhor Keiji. São fortes as cenas que Nakazawa nos apresenta nessa parte da história.

A maldade inunda o cotidiano japonês e é exemplificada a todo instante, seja através da velha sogra de Kiyo, amiga de Kimie (mãe de Gen), que humilha e trama coisas terríveis contra os inquilinos, seja através da família do senhor Keiji, que deseja a morte dele o tempo todo, seja ainda a cada cenário novo por onde passa Gen.

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IMPÉRIOS, GUERRAS E CAPITALISMO...

A leitura do clássico Gen Pés Descalços me coloca o tempo todo refletindo sobre o mundo em 2023, a respeito da guerra entre os Estados Unidos e Otan contra a Rússia, usando o povo ucraniano como bucha de canhão através do palhaço presidente da Ucrânia, colocado no poder após um golpe de Estado em 2014, início da desestabilização que gerou a guerra. Quem sofre é sempre o povo... sempre! 

Ainda a guerra na Ucrânia e sua continuidade. É idêntico ao caso do império japonês derrotado na 2ª GM: não importava o povo, o imperador e os militares só pensavam nas consequências políticas da guerra. Os Estados Unidos querem derrotar economicamente o inimigo russo e prejudicar a potência econômica China, obrigando a Rússia a colocar seus recursos na guerra em detrimento das necessidades de seu povo. 

PAZ? Nem o imperador japonês queria em 1945, nem os Estados Unidos querem hoje. Os EUA irão alongar a guerra para ver se o povo russo depõe o governo Putin. E o povo ucraniano? Vocês acham que o império norte-americano liga pra eles? As indústrias de armas estão vendendo como nunca...

O lastro da moeda norte-americana é a bomba, as armas, a ameaça de morte a quem não se submete.

Enfim, vamos para o próximo volume do mangá, serão 10 volumes e mais de duas mil páginas.

William


Post Scriptum: para ler os comentários sobre o 2º volume é só clicar aqui. O texto seguinte, volume 4, pode ser lido aqui.


terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Leitura: Gen Pés Descalços (2) - Keiji Nakazawa



Refeição Cultural

Gen Pés Descalços - O trigo é pisoteado 

Volume 2


A leitura do volume 2 do mangá Gen Pés Descalços - O trigo é pisoteado é uma leitura dura, difícil, que gera muito sofrimento e reflexão no leitor. No entanto, minha leitura foi mais fácil. Diferente do 1º volume, que levei muito tempo pra ler e reler, este li em dois dias.

No 1º volume do clássico (ler aqui um comentário), conhecemos a família Nakaoka, na qual Gen nasceu, uma família pacifista e contrária à guerra. Essa postura ética e ideológica traz consequências sérias à família porque o governo tem uma máquina de propaganda implacável em defesa da guerra e a família é tratada por todos ao redor como antipatriotas, como traidores, como covardes.

O cenário da história é Hiroshima, cenário no qual conhecemos o dia a dia da família Nakaoka e do povo japonês entre meados de abril e o dia da destruição total através da bomba atômica detonada sobre a cidade no dia 6 de agosto de 1945. O governo japonês faz parte do Eixo e o cenário da história é o final da 2ª Guerra Mundial, já vencida àquela altura pelos Aliados.

O primeiro volume termina com a detonação da bomba e o segundo começa com a consequência da explosão e destruição de Hiroshima.

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Raro momento sem fome, mas isso dura pouco.

AUTOR DESCREVE UM MUNDO RUIM E DE GENTE RUIM

O que se percebe no 1º e no 2º volume de Gen Pés Descalços é a descrição de um mundo ruim, independente do ângulo em que se observa aquele cenário. Talvez a escolha do autor seja pela sua vivência pessoal, haja vista que Keiji Nakazawa é uma vítima real da guerra e da bomba de Hiroshima. Ele tinha 6 anos quando a cidade foi destruída e sobreviveu juntamente com sua mãe.

Neste volume, o foco muda da guerra em andamento para a sobrevivência na cidade de Hiroshima após a explosão da bomba atômica. Os desenhos entre o final do volume 1 e este são muito fortes, pessoas sobreviventes com as peles derretidas, muita sede, cadáveres das mais diversas formas, espalhados por terra e rios. Se já havia fome antes, muita fome, agora temos a fome e as consequências da bomba.

É notória a falta de solidariedade entre as pessoas. Que chocante! A minha geração pelo menos não tratava essa falta de solidariedade de forma tão natural como se vê ali. Ao se pedir uma porção pequena de arroz, a negativa é "te vira" porque a pessoa quer cuidar de si e dane-se os outros. Cresci no Brasil do último meio século sendo aculturado em ambientes pobres nos quais uns ajudam aos outros, principalmente nas comunidades mais carentes, favelas etc. No cenário de Nakazawa isso não existe, cada um por si e tudo pelo imperador e pelo Japão.

Tenho que dar o devido crédito ao autor, afinal de contas ele deve ter seus motivos para retratar um país e um contexto tão duro, autoritário e individualista como vemos no mangá. 

Considerando a metáfora da história, o trigo verde foi pisoteado e agora veremos como Gen irá sobreviver e se comportar no próximo volume da História em Quadrinhos. O sofrimento e humilhação que ele e a mãe passaram são indescritíveis! Aperta o peito da gente!

É isso! Novas culturas, velhos problemas humanos retratados nas diversas formas culturais.

William


Post Scriptum: para ler os comentários sobre a leitura do volume 1, clique aqui. O texto seguinte, do volume 3, pode ser lido aqui.


segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Leitura: Gen Pés Descalços (1) - Keiji Nakazawa



Refeição Cultural

Gen Pés Descalços - O nascimento de Gen, o trigo verde

Volume 1


A leitura do primeiro volume de Gen Pés Descalços foi um desafio prazeroso para mim como leitor acostumado a livros e revistas ocidentais. Ganhei de presente de meu filho a coleção completa desse clássico mangá de keiji Nakazawa e após uma vida inteira quase sem ler HQ, fiz a leitura com calma e cuidado, sem pressa e vivendo intensamente cada detalhe dos traços belíssimos do mangá.

Na infância nos anos setenta eu lia gibi. Não tive contato com essa forma de cultura durante a vida adulta, mas durante os primeiros anos de vida, pude ler muitos gibis antes dos 10 anos de idade. Nunca me esqueço de ter aprendido sobre a mosca tsé-tsé num almanaque do Tio Patinhas. Depois dos 11 anos a vida foi muito diferente da primeira infância e não tive mais tempo e condições de curtir gibis, programas de TV e outras mídias culturais de meu tempo. Comecei a trabalhar no que dava dali em diante.

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O IMPÉRIO JAPONÊS E A 2ª GUERRA MUNDIAL

A história da família Nakaoka se passa num cenário de muita privação e miséria para o povo japonês. Fome. Muita fome! Ataques aéreos o tempo todo... O Japão está lutando ao lado da Alemanha nazista e da Itália fascista contra os aliados, na história simbolizados pelos inimigos Estados Unidos e Inglaterra. A história começa nos momentos finais da guerra, em abril de 1945. O império japonês resiste a qualquer preço e parece lutar até que não sobre um sobrevivente sequer.

A primeira página do mangá traz uma sabedoria ancestral ensinada de uma geração para outra. O pai da família Nakaoka ensina aos filhos sobre a força do trigo, que deve ser pisado quando germina no inverno para que produza raízes fortes e profundas que permitam que a planta cresça forte e resistente para suportar geadas, ventos e neve até que produza espigas grandes e robustas.

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PISOTEADOS E FORTES COMO O TRIGO

"Filho, quero que vocês cresçam como este trigo", diz o pai. E os filhos respondem: "firmes e fortes, mesmo se pisoteados. A gente já sabe, pai. Você já falou um milhão de vezes."

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HIROSHIMA E A BOMBA ATÔMICA

A família Nakaoka vive na cidade de Hiroshima e o autor desde o início da obra vai preparando o leitor para o que vai acontecer no dia 6 de agosto de 1945: a explosão da bomba atômica "Little Boy" sobre a cidade, lançada pelos Estados Unidos através do bombardeiro B-29 "Enola Gay". 

A história todos nós conhecemos. Mas ver o assassinato daquela população japonesa através de uma História em Quadrinhos, um mangá escrito por um sobrevivente daquela tragédia quando tinha 6 anos, ver os traços marcantes do mangá descrevendo essa tragédia é algo muito forte!

Ao longo do primeiro volume, o leitor vivencia todo o clima da guerra, a loucura que toma conta de todas as pessoas dos países envolvidos no conflito bélico. Tem violência o tempo todo. 

A família do senhor Nakaoka é uma família pacifista e ela sofre na pele a consequência de ser contra a guerra, ou seja, contra o imperador e "contra o Japão". São tratados como antipatriotas e humilhados o tempo todo.

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O ÓDIO QUE SE SEMEIA...

Brasil da milícia no poder - Impossível não nos lembrarmos do que é e o que significa o governo fascista do Brasil (Bolsonaro), regime que só foi possível graças à cultura de ódio disseminada pela grande imprensa nas duas últimas décadas. 

Ucrânia - Impossível não nos lembrarmos do que está acontecendo neste momento no conflito bélico na Ucrânia, entre os imperialistas do momento, Estados Unidos e Rússia, e novamente o risco de uma guerra nuclear. 

A leitura do clássico Gen Pés Descalços não poderia se dar em momento mais oportuno.

Vamos para o segundo volume do mangá. Nakazawa publicou o mangá em 1973 e a tradução brasileira é de Drik Sada, publicado no Brasil em 2011 pela Conrad.

Seguimos na leitura!

William


Post Scriptum: ler aqui os comentários sobre a leitura do 2º volume.