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domingo, 17 de agosto de 2025

O sentido da vida (6)



Buscar sentidos na leitura

Foram vários dias lendo e diagramando quase trezentos textos. O caderno impresso daquele ano ficou com quinhentas páginas. 

A sistematização das quase duas décadas de produção textual ainda levará muito tempo. São mais de cinco mil postagens. 

O desejo é completar essa tarefa trabalhosa que sintetiza quase a metade de sua existência, textos que resumem ao menos sua fase mais produtiva como adulto em convívio social. 

Cumprida a missão, a ideia é dedicar sua vida à leitura e à reflexão filosófica. O foco principal será a literatura. Escrever também está no horizonte. 

Ler os clássicos que não conhece é um sonho ainda realizável. Que a vida lhe dê olhos e saúde mental para isso.

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sábado, 10 de setembro de 2011

Dom Casmurro - Uma leitura das senhas para o drama ficcional


Dagnan_Bouveret_Une_Noce_chez_le_photographe.
 (ilustração da capa de minha coleção)

Universidade de São Paulo
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Literatura Brasileira IV
Professor: Hansen

Aluno: William Mendes de Oliveira
Matrícula: 3504053 - 2o semestre 2007


CAPÍTULOS I, II, E IX DE DOM CASMURRO DE MACHADO DE ASSIS: UMA LEITURA DAS SENHAS

ou
(Um encaixe perfeito como chave e fechadura ficcional)

Proposta: Fazer uma leitura dos capítulos I ao X, com base e referência nas aulas dadas em classe, de maneira a discutir a função dos capítulos I. Do Título e II. Do Livro, desvendando parte das “obscuridades” que encobre “muita vez o sentido por um modo confuso” através das alegorias sugeridas no capítulo IX. A Ópera.

INTRODUÇÃO

            Dom Casmurro é o romance onde Machado de Assis exercita com maestria o gênero dramático. É uma obra cuja técnica é teatral: o narrador Dom Casmurro põe em cena suas reminiscências ao mesmo tempo em que o leitor a lê.

            Os dois primeiros capítulos são chaves. É uma espécie de contrato feito entre narrador e leitor atento. Algumas frases e palavras serão determinantes. Veremos no capítulo IX o encaixe entre um conjunto de senhas deixadas pelos autores – Machado de Assis e Dom Casmurro.

Esse início fala da mimese, das cópias – casa do Engenho Novo, figuras e medalhões internos etc. Ele mesmo se declara um simulacro, um nome que não é nome, não tem identidade. Não é Santiago quem escreve, é o Dom Casmurro. Nos indica que é uma ficção que escreverá uma ficção. A história de Bentinho e Capitu é um produto do Dom Casmurro. Somos jogados dentro do palco, da encenação teatral que se apresentará. Mas a determinação é do Dom Casmurro - que é a alcunha de Santiago no presente. Ou melhor, é o rescaldo, a ruína, o que sobrou dele. Pior, ele nos dá dicas de que não tem memória. Ora, então só pode ser ficção, como a sugerida pelo velho tenor, aquilo que vai escrever e contar.

O capítulo I. Do Título já começa dizendo que o narrador é uma alcunha, um pseudônimo que falará da vida do homem Santiago, ou seja, da personagem ficcional (da representação social Santiago, por sinal alcunhado Bentinho).
           
Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo.” C.I



            O que ele vai narrar?

            No capítulo II, nos diz a resposta: devido à monotonia, decidiu escrever um livro. Como lhe faltavam “as forças necessárias” para obras mais densas como jurisprudência, filosofia, política e algo de história “real” (dos subúrbios), buscou a inspiração nas suas cópias de medalhões do passado clássico.
           
            Quem é o autor?

... sendo o título seu (poeta do trem), poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.” C.I

            Essa questão da autoria é um traço marcante no Machado de Assis da segunda fase. Quem é o autor de suas narrativas? Quem é o narrador?
            A resposta alegórica está também no capítulo IX, onde se define a “regra da divisão” dos direitos autorais entre poeta e músico:

Deus recebe em ouro, Satanás em papel.” C.II

Autor do livro Dom Casmurro: Joaquim Maria Machado de Assis;
Autor de A história de amor de Bentinho e Capitu: Dom Casmurro.

            Os direitos autorais e seus rendimentos até hoje são de Joaquim Maria Machado de Assis. Também, até hoje, o famoso romance contado por Dom Casmurro é um dos que mais papel e tinta receberam discutindo se Capitu traiu ou não traiu Bentinho.

            Em Machado, a indeterminação é tudo. Ele brinca com o leitor. Trabalha com a ambiguidade. Desde Memórias Póstumas de Brás Cubas, sua técnica é delegar a narradores o caráter de autores de suas obras.

A história do amor de Bentinho e Capitu é uma indeterminação contínua. Não podemos confiar de jeito nenhum. Tudo o que o narrador produz no presente da enunciação é através do pseudônimo, que não tem identidade, não é um ser real, não é Bentinho.

            A senha está dada ao leitor. Um narrador fictício, ou pior, impossível - um pseudônimo que conta sua história de vida - irá narrar a história daquele que diz ser ele mesmo no passado, com a verossimilhança que o leitor espera. Mas será verdadeira sua versão?

Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro.” C.II

            O tempo usado nessa enunciação diz ao leitor que ele criará sua obra, essa história (ou essa versão da história), no mesmo momento em que está enunciando.

            O dêitico agora também avisa ao leitor sobre esse presente narrativo.

Não alcanço a razão de tais personagens” (cópias das figuras de César, Augusto, Nero e Massinissa) C.II

            Ao mesmo tempo em que nos diz não saber o motivo de tais cópias, há toda uma sugestão que, evidentemente, só seria passível de percepção por leitores bastante cultos e conhecedores de história mundial. São como senhas.

            Essas personagens clássicas são todas marcadas na historiografia por grandes dramas ou pathos. Existem traições e mortes ao redor de todas elas: adultérios, assassinatos em família, traição por melhores amigos etc.

            As cópias dos bustos, quer dizer, essas cópias das cópias da casa antiga, que já eram representações, entraram “a falar-me e a dizer-me, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos”, aliás, impossível, pois esse narrador, que é um pseudo, uma alcunha, apareceu de há pouco “Uma noite destas”.

Eia, comecemos a evocação...” C.II

            No fim do capítulo, o narrador usará um substantivo bastante sugestivo, derivado do verbo evocar, para sinalizar ao leitor o que ele irá produzir a partir de então: uma história baseada na memória e na imaginação.

            Mas, seguindo a ideia, a sugestão das personagens clássicas, o narrador vai contar algumas histórias (pois talvez não existam esses “tempos idos”) com um intuito de ter “ilusão”. Ilusão do que?

Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta... Fausto. Aí vindes outra vez, inquietas sombras?...” C.II

            Após conhecer toda a história narrada, descobrimos que essas “sombras” que perpassam significam os ciúmes que a personagem da fábula (que a alcunha alega ser ele no passado) teve por Capitu.

            Ciúme este que levou às consequências mais graves possíveis em uma relação, pois Bentinho se separou, acusou Capitu de adultério, de que o filho não era dele e sim de traição dela com seu melhor amigo Escobar.

Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, Grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o conselho e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo.” C.II

            Os comentários citados por ele, podem alertar o leitor que ele vai contar a versão dele dos fatos, com a vantagem de que nenhum “envolvido” poderá contestá-la, haja vista que estão todos mortos.



            A vida é uma ópera?

            O narrador nos diz no capítulo X ter aceitado a teoria de seu velho amigo Marcolini, sobretudo pela verossimilhança com a vida dele. Novamente nos vem à tona a palavra evocação, que vem do verbo evocar - tornar (algo) presente pelo exercício da memória e/ou da imaginação; lembrar. (conforme Houaiss).

Eia, comecemos a evocação...” C.II

            Desde a era clássica, os poetas, os autores, clamavam e evocavam as musas para lhes darem inspiração em suas histórias.

O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência.” C.II

            Se com a cópia material das coisas do passado não foi possível, ou seja, reproduzir a casa e os modos da antiga Rua de Mata-cavalos, quem sabe com uma narração criada agora no presente (da enunciação)?

...mais falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.” C.II

            Aqui, o narrador está dizendo o que?

            Ele é o Dom Casmurro, uma alcunha nascida “Uma noite destas”. É evidente que esse pseudônimo não pode ter passado. É natural que haja essa lacuna a um falso-ser, um pseudo, criado há pouco.

... e, de memória, conservo alguma recordação...” C.II

            Já está dito que ele é um vazio, uma lacuna e que tem pouca, alguma recordação em sua memória. Mesmo assim, diz que escreverá a partir de suas reminiscências que vierem vindo.

Todas as senhas até agora nos levam à ideia de que a narração se mostrará um ato performativo e teatral por parte do “autor-narrador” Dom Casmurro.


BREVE LEITURA DOS CAPÍTULOS I AO X: ANALISANDO AS SENHAS


CAPÍTULO I. DO TÍTULO

Uma noite destas...
Não achei melhor título para a minha narração; Se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo.

Tempo: presente da enunciação.
Narração em primeira pessoa - EU, narrador alcunhado de Dom Casmurro.
CAPÍTULO II. DO LIVRO

Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro...

Não passou, mudou de ideia e resolveu explicar o motivo: para variar a monotonia, lembrou escrever um livro.

Tempo: mesmo momento da enunciação:

... ainda agora me treme a pena na mão...

e depois completa:

... vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo...

Eia, comecemos a evocação...

CAPÍTULO III. A DENÚNCIA

Ia a entrar na sala de visitas...

Começa aqui uma sequência de capítulos com verbos no pretérito imperfeito do indicativo, tradicional construção do passado do tipo “Era uma vez...”.

CAPÍTULO IV. UM DEVER AMARÍSSIMO!

José Dias amava os superlativos...

Veja que frase interessante no que diz respeito à verossimilhança:

... um silogismo completo, a premissa antes da consequência, a consequência antes da conclusão...

CAPÍTULO V. O AGREGADO

Nem sempre ia naquele passo vagaroso e rígido...

CAPÍTULO VI. TIO COSME

Tio Cosme vivia com minha mãe...

CAPÍTULO VII. D. GLÓRIA

Minha mãe era boa criatura...



No meio do capítulo interrompe a série “Era uma vez...” e volta ao presente da enunciação:

Tenho ali na parede o retrato dela, ao lado do do marido, tais quais na outra casa...

... Aqui os tenho aos dous bem casados de outrora...

Outra referência à questão de cópia e mimese, ideia de verossimilhança, que “parece dizer...”:

... São retratos que valem por originais...

CAPÍTULO VIII. É TEMPO

Mas é tempo de tornar àquela tarde de novembro...

Quer dizer, voltar ao capítulo III, onde começava a construir a história; é tempo de voltar às reminiscências do narrador sem-memória.

Este capítulo é enigmático. Começam a aparecer aqui as questões de “A vida é uma ópera”. Teoria aceita pelo narrador e explicada no capítulo seguinte, o nono.

Primeiro, afirma que aquela tarde “... foi o princípio da minha vida...

Lembremos que esse EU é o pseudônimo Dom Casmurro. Naquele momento, ele começa a criar seu passado, sua versão dos fatos. A criação da fábula, das personagens, do silogismo, em suma, da economia da obra.

Segundo, diz que antes “... foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em cena...

Os capítulos I e II falam sobre a questão da mimese, da cópia. Daquilo que não é o verdadeiro; do falso. Mas o que o leitor terá ali é a representação, onde “... o mais é também análogo e parecido...” e o que importa é a verossimilhança “... que é muita vez toda a verdade...”.

Por último, arremata confessando:

... Agora é que eu ia começar a minha ópera...

O narrador nos permite, com sua construção, fazer o paralelismo entre “A vida é uma ópera” e - essa história que vou contar é uma ficção, é minha versão da fábula.

Agora é que o EU – Dom Casmurro – ia começar sua ópera, história, narração ficcional.

No capítulo X, esse narrador explica que seu velho amigo Marcolini o fez crer que poderia ser aquele maestro, criador de partituras.


CAPÍTULO IX. A ÓPERA

Já não tinha voz, mas teimava em dizer que a tinha”. Volta a contar história.

Deus é o poeta

Alegoria do criador. Aqui é Machado de Assis.

A música é de Satanás... gênio essencialmente trágico

A música é alegoria de criação, peça de ficção; Satanás é alegoria do pseudônimo Dom Casmurro, do Bento velho (Santiago) – aquele que é todo ruína no presente da enunciação.

Rival de Miguel, Rafael e Gabriel...

Alegoria para Capitu, Escobar e Ezequiel, personagens da versão de história que ele criará para culpá-los.

... não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios...

Aqui, alegoria de quem está em sua posição de representante da elite, proprietário branco, católico e acima das leis feita para a “gentinha” como os Pádua. Também de quem fala a partir do momento da enunciação: um homem ressentido, que acredita ter sido traído e, morto de ciúmes, acha isso intolerável por se tratarem de “gentinha”.

Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico...

Fatos que ele narrará em suas reminiscências (imaginações) que se vinculam à ideia de traição por parte deles. Olhares, afagos, aparências que levam a conclusões, um silogismo completo para ele – muito ciumento – e que pretende apresentar como verdades absolutas para:

... com o fim de mostrar que valia mais que os outros, - e acaso para reconciliar-se com o céu, - compôs a partitura...

Aqui estamos de volta aos motivos de contar a versão da história de amor de Bentinho e Capitu, narrada por Dom Casmurro.

Deus (Machado)... consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta...

Criou o espaço ficcional.



... e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.

Criou as técnicas ficcionais com todas as possibilidades pertencentes à economia de um romance.

E, para finalizar tudo o que se explica no capítulo I - “... Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.”, Deus (Machado) completa:

- Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo (Satanás – Dom Casmurro – criador da ficção) os direitos de autor.

Satanás afirma ainda que alguns desconcertos da partitura acabam “fugindo à monotonia” conforme o objetivo (motivo) de escrever-se o livro.

Também há obscuridades; o maestro abusa... encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso...

É a chave que estamos desvendando. O maestro (Dom Casmurro) abusa muitas vezes, pois, como lembra tanto dos detalhes do passado se disse haver uma lacuna que é tudo?

As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. Tal é a opinião dos imparciais.

O narrador, de fato, constrói sua ficção com sinais que ajudarão na conclusão de sua tese – a traição. Olhares, afagos, muitas semelhanças ao longo da história. Toda a obra oferece verossimilhança à qual os leitores de seu tempo estão acostumados. (Locus social – seriam os imparciais?)

Os amigos do maestro (o segmento social ao qual pertence Dom Casmurro) querem que dificilmente se possa achar obra tão bem acabada...

Já não dizem o mesmo os amigos deste (poeta – aqui, o escritor Machado)... é absolutamente diversa (a obra) e até contrária ao drama...

Quer dizer, de fato, a produção literária que Machado vinha fazendo era bastante diversa e contrária ao estilo de literatura determinista e realista a que os leitores estavam acostumados.

... parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente é um plagiário.

Alegoria à técnica moderna criada por Machado de criar autores para suas obras.

No fim do capítulo, chama atenção o narrador ser chamado de “Caro Santiago” como se fosse para nos alertar desse emaranhado de nomes e alcunhas – Machado, Dom Casmurro, Santiago, Bentinho...

CAPÍTULO X. ACEITO A TEORIA

Aqui temos a confissão de Santiago, que aceita a teoria, poderia criar um livro, uma narração aonde viesse a contar a sua versão da história de amor entre Bentinho e Capitu, através de um pseudônimo - Dom Casmurro e, com uma boa imaginação (com a evocação das musas) poderia usar de técnicas retóricas para convencer aos leitores sobre suas razões.

... não só pela verossimilhança, que é muita vez toda a verdade, mas porque a minha vida se casa bem à definição. Cantei um duo terníssimo, depois um trio, depois um quatuor...”

 

 

APÓS ANÁLISE DAS SENHAS, UMA CONCLUSÃO DE LEITURA


            Machado faz crítica à categoria da representação. Não é a memória confiável que será utilizada pelo narrador, é uma evocação. É um boneco falando do passado, é um fingido.

Toda literatura é ficção, não é realidade. Pode ter verossimilhança, pode parecer, mas é mimese, é criação ficcional.

            O narrador – o Santiago, já maduro, alcunhado de Dom Casmurro – usará da retórica que aprendeu com os padres e como advogado, e convencido da teoria de que a vida é uma ópera, para tentar nos convencer que as memórias que ele escreverá são verdadeiras e verossímeis (na verdade é ficção feita pela máscara, pelo pseudônimo, partitura feita pelo maestro). É o puro falso.

A arte é um exercício que brinca e joga com o leitor, mas, esvazia tudo. Como os leitores não acreditariam no personagem narrador? Ele pertence a um locus, busca fazer com que seus leitores acreditem nele, por saber que pertencem à mesma posição dominante dele, ou seja, ele é homem branco, católico, proprietário em um país – Brasil do século XIX, machista, escravista, católico, patrimonialista e de família patriarcal. Porém, não é Santiago quem narra e sim sua alcunha.

Machado de Assis mostrará as possibilidades da técnica literária. O escritor é um mestre em mostrar pontos de vista, de não fechar as leituras possíveis, os ângulos observados. Alguns críticos como Suzano Santiago e Alfredo Bosi apontaram essa indeterminação no autor.

Os dois primeiros capítulos evidenciam para o leitor, através do narrador – a máscara, o pseudônimo – de que ele vai produzir ficção. É uma espécie de contrato. É representação produzindo representação. O capítulo IX dá sentido às senhas apresentadas nesses dois capítulos.

E a técnica é fantástica: não é Machado quem conta; não é também Bentinho; É Santiago através de seu pseudônimo Dom Casmurro.

É uma representação final de Santiago (após todos os fatos passados em sua vida), que é, por sinal, uma representação social feita por Machado de Assis. Aqui é importante lembrar um conceito moderno fundamental: literatura não é ciência; é ficção. Pode ser verossímil, mas não é verdade absoluta. É técnica narrativa.

Uma das discussões da crítica literária é a respeito das possibilidades de leitura de um texto literário no que diz respeito à historicidade dele.

A verossimilhança de uma criação literária pode não ocorrer em períodos distintos, não contemporâneos a ela. Aliás, como exemplo, poderíamos citar os romances românticos do século XIX sendo lidos pelos jovens nos dias de hoje. Fica difícil dar credibilidade a tudo que os heróis e mocinhas românticos faziam ou deixavam de fazer pelo amor idealizado.

A partir do 1880, Machado faz uma trilogia de estudos de técnica literária. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, faz paródia das teorias científicas e sociais da época, através do Humanitismo; em Quincas Borba, estuda os limites do imaginário e da loucura; finalmente em Dom Casmurro, faz uma paródia com a linguagem literária, com as teorias da representação.


Bibliografia:

ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Obras Completas. Editora Globo, 1997. (primeira edição em 1899)
e
Referências obtidas nas aulas ministradas pelo professor Hansen.

sábado, 18 de setembro de 2010

Lágrimas de Xerxes (1899) - Conto de Machado de Assis




Leitura de contos machadianos

Além do conto postado abaixo, tenho uma postagem analisando o conto em sala de aula com o professor Hansen (FFLCH-USP). A análise é muito legal. Leitura de Lágrimas de Xerxes, M.Assis.


Publicado originalmente em 1899


Lágrimas de Xerxes

Suponhamos (tudo é de supor) que Julieta e Romeu, antes que Frei Lourenço os casasse, travavam com ele este diálogo curioso:

JULIETA. Uma só pessoa?

FREI LOURENÇO. Sim, filha, e, logo que eu houver feito de vós ambos uma só pessoa, nenhum outro poder vos desligará mais. Andai, andai, vamos ao altar, que estão acendendo as velas... (Saem da cela e vão pelo corredor).

ROMEU. Para que velas? Abençoai-nos aqui mesmo. (Pára diante de uma janela). Para que altar e velas? O céu é o altar: não tarda que a mão dos anjos acenda ali as eternas estrelas; mas, ainda sem elas, o altar é este. A igreja está aberta; podem descobrir-nos. Eia, abençoai-nos aqui mesmo.

FREI LOURENÇO. Não, vamos para a igreja; daqui a pouco estará tudo pronto. Curvarás a cabeça, filha minha, para que olhos estranhos, se alguns houver, não cheguem a reconhecer-te...

ROMEU. Vã dissimulação; não há, em toda Verona, um talhe igual ao da minha bela Julieta, nenhuma outra dama chegaria a dar a mesma impressão que esta. Que impede que seja aqui? O altar não é mais que o céu.

FREI LOURENÇO. Mais eficaz que o céu.

ROMEU. Como?

FREI LOURENÇO. Tudo o que ele abençoa perdura. As velas que lá verás arder hão de acabar antes dos noivos e do padre que os vai ligar; tenho-as visto morrer infinitas; mas as estrelas...

ROMEU. Que tem? arderão ainda, nem ali nasceram senão para dar ao céu a mesma graça da terra. Sim, minha divina Julieta, a Via-Láctea é como o pó luminoso dos teus pensamentos, todas as pedrarias e claridades altas e remotas, tudo isso está aqui perto e resumido na tua pessoa, porque a lua plácida imita a tua indulgência, e Vênus, quando cintila, é com os fogos da tua imaginação. Aqui mesmo, padre. Que outra formalidade nos pedes tu? Nenhuma formalidade exterior, nenhum consentimento alheio. Nada mais que amor e vontade. O ódio de outros separa-nos, mas o nosso amor conjuga-nos.

FREI LOURENÇO. Para sempre.

JULIETA. Conjuga-nos, e para sempre. Que mais então? Vai a tua mão fazer com que parem todas as horas de uma vez. Em vão o sol passará de um céu a outro céu, e tornará a vir e tornará a ir, não levará consigo o tempo que fica a nossos pés como um tigre domado. Monge amigo, repete essa palavra amiga.

FREI LOURENÇO. Para sempre.

JULIETA. Para sempre! amor eterno! eterna vida! Juro-vos que não entendo outra língua senão essa. Juro-vos que não entendo a língua de minha mãe.

FREI LOURENÇO. Pode ser que tua mãe não entendesse a língua da mãe dela. A vida é uma Babel, filha; cada um de nós vale por uma nação.

ROMEU. Não aqui, padre; ela e eu somos duas províncias da mesma linguagem, que nos aliamos para dizer as mesmas orações, com o mesmo alfabeto e um só sentido. Nem há outro sentido que tenha algum valor na terra. Agora, quem nos ensinou essa linguagem divina não sei eu nem ela; foi talvez alguma estrela. Olhai, pode ser que fosse aquela primeira que começa a cintilar no espaço.

JULIETA. Que mão celeste a terá acendido? Rafael, talvez, ou tu, amado Romeu. Magnífica estrela, serás a estrela da minha vida, tu, que marcas a hora do meu consórcio. Que nome tem ela, padre?

FREI LOURENÇO. Não sei de astronomias, filha.

JULIETA. Hás de saber por força. Tu conheces as letras divinas e humanas, as próprias ervas do chão, as que matam e as que curam... Dize, dize...

FREI LOURENÇO. Eva eterna!

JULIETA. Dize o nome dessa tocha celeste, que vai alumiar as minhas bodas, e casai-nos aqui mesmo. Os astros valem mais que as tochas da terra.

FREI LOURENÇO. Valem menos. Que nome tem aquele? Não sei. A minha astronomia não é como a dos outros homens. (Depois de alguns instantes de reflexão) Eu sei o que me contaram os ventos, que andam cá e lá, abaixo e acima, de um tempo a outro tempo, e sabem muito, porque são testemunhas de tudo. A dispersão não lhes tira a unidade, nem a inquietação a constância.

ROMEU. E que vos disseram eles?

FREI LOURENÇO. Coisas duras. Heródoto conta que Xerxes um dia chorou; mas não conta mais nada. Os ventos é que me disseram o resto, porque eles lá estavam ao pé do capitão, e recolheram tudo... Escutai; aí começam eles a agitar-se; ouviram-nos falar e murmuram... Uivai, amigos ventos, uivai como nos jovens dias das Termópilas.

ROMEU. Mas que te disseram eles? Contai, contai depressa.

JULIETA. Fala a gosto, nós te esperaremos.

FREI LOURENÇO. Gentil criatura, aprende com ela, filho, aprende a tolerar as demasias de um velho lunático. O que é que me disseram? Melhor fora não repeti-lo; mas, se teimais em que vos case aqui mesmo, ao clarão das estrelas, dir-vos-ei a origem daquela, que parece governar todas as outras... Vamos, ainda é tempo, o altar espera-nos... Não? teimosos que sois... Contar-vos-ei o que me disseram os ventos, que lá estavam em torno de Xerxes, quando este vinha destruir a Hélade com tropas inumeráveis. As tropas marchavam diante dele, a poder de chicote, porque esse homem cru amava particularmente o chicote e empregava-o a miúdo, sem hesitação nem remorso. O próprio mar, quando ousou destruir a ponte que ele mandara construir, recebeu em castigo trezentas chicotadas. Era justo; mas para não ser somente justo, para ser também abominável, Xerxes ordenou que decapitassem a todos os que tinham construído a ponte e não souberam fazê-la imperecível. Chicote e espada; pancada e sangue.

JULIETA. Oh! abominável!

FREI LOURENÇO. Abominável, mas forte. Força vale alguma coisa; a prova é que o mar acabou aceitando o jugo do grande persa. Ora, um dia, à margem do Helesponto, curioso de contemplar as tropas que ali ajuntara, no mar e em terra, Xerxes trepou a um alto morro feitiço, de onde espalhou as vistas para todos os lados. Calculai o orgulho que ele sentiu. Viu ali gente infinita, o melhor leite mungido à vaca asiática, centenas de milhares ao pé de centenas de milhares, várias armas, povos diversos, cores e vestiduras diferentes, mescladas, baralhadas, flecha e gládio, tiara e capacete, pelo de cabra, pele de cavalo, pele de pantera, uma algazarra infinita de coisas. Viu e riu; farejava a vitória. Que outro poder viria contrastá-lo? Sentia-se indestrutível. E ficou a rir e a olhar com longos olhos ávidos e felizes, olhos de noivado, como os teus, moço amigo...

ROMEU. Comparação falsa. O maior déspota do universo é um miserável escravo, se não governa os mais belos olhos femininos de Verona. E a prova é que, a despeito do poder, chorou.

FREI LOURENÇO. Chorou, é certo, logo depois, tão depressa acabara de rir. A cara embruscou-se-lhe de repente, e as lágrimas saltaram-lhe grossas e irreprimíveis. Um tio do guerreiro, que ali estava, interrogou-o espantado; ele respondeu melancolicamente que chorava, considerando que de tantos milhares e milhares de homens que ali tinha diante de si, e às suas ordens, não existiria um só ao cabo de um século. Até aqui Heródoto; escutai agora os ventos. Os ventos ficaram atônitos. Estavam justamente perguntando uns aos outros se esse homem feito de ufania e rispidez teria nunca chorado em sua vida, e concluíam que não, que era impossível, que ele não conhecia mais que injustiça e crueldade, não a compaixão. E era a compaixão que ali vinha lacrimosa, era ela que soluçava na garganta do tirano... Então eles rugiram de assombro; depois pegaram das lágrimas de Xerxes... Que farias tu delas?

ROMEU. Secá-las-ia, para que a piedade humana não ficasse desonrada.

FREI LOURENÇO. Não fizeram isso; pegaram das lágrimas todas e deitaram a voar pelo espaço fora, bradando às considerações: Aqui estão! olhai! olhai! aqui estão os primeiros diamantes da alma bárbara! Todo o firmamento ficou alvoroçado; pode crer-se que, por um instante, a marcha das coisas parou. Nenhum astro queria acabar de crer nos ventos. Xerxes! Lágrimas de Xerxes eram impossíveis; tal planta não dava em tal rochedo. Mas ali estavam elas; eles as mostravam, contando a sua curiosa história, o riso que servira de concha a essas pérolas, as palavras dele, e as constelações não tiveram remédio, e creram finalmente que o duro Xerxes houvesse chorado. Os planetas miraram longo tempo essas lágrimas inverossímeis; não havia negar que traziam o amargo da dor e o travo da melancolia. E quando pensaram que o coração que as brotara de si tinha particular amor ao estalido do chicote, deitaram um olhar oblíquo à terra, como perguntando de que contradições era ela feita. Um deles disse aos ventos que devolvessem as lágrimas ao bárbaro, para que as engolisse; mas os ventos responderam que não e detiveram-se para deliberar. Não cuideis que só os homens dissentem uns dos outros.

JULIETA. Também os ventos?

FREI LOURENÇO. Também eles. O Aquilão queria convertê-las em tempestades do mundo, violentas e destruidoras, como o homem que as gerara; mas os outros ventos não aceitaram a ideia. As tempestades passam ligeiras; eles queriam alguma coisa que tivesse perenidade, um rio, por exemplo, ou um mar novo; mas não combinaram nada e foram ter com o sol e a lua. Tu conheces a lua, filha.

ROMEU. A lua é ela mesma; uma e outra são a plácida imagem da indulgência e do carinho; é o que eu te disse há pouco, meu bom confessor.

JULIETA. Não, não creias nada do que ele disser, frei amigo; a lua é a minha rival, é a rival que alumia de longe o belo rosto do galhardo Romeu, que lhe dá um resplendor de opala, à noite, quando ele vem pela rua...

FREI LOURENÇO. Terão ambos razão. A lua e Julieta podem ser a mesma pessoa, e é por isso que querem o mesmo homem. Mas, se a lua és tu, filha, deves saber o que ela disse ao vento.

JULIETA. Nada, não me lembra nada.

FREI LOURENÇO. Os ventos foram ter com ela, perguntaram-lhe o que fariam das lágrimas de Xerxes, e a resposta foi a mais piedosa do mundo. Cristalizemos essas lágrimas, disse a lua, e façamos delas uma estrela que brilhe por todos os séculos, com a claridade da compaixão, e onde vão residir todos aqueles que deixarem a terra, para achar ali a perpetuidade que lhes escapou.

JULIETA. Sim, eu diria a mesma coisa. (Olhando pela janela) Lume eterno, berço de renovação, mundo do amor continuado e infinito, estávamos ouvindo a tua bela história.

FREI LOURENÇO. Não, não, não.

JULIETA. Não?

FREI LOURENÇO. Não, porque os ventos foram também ao sol, e tu que conheces a lua, não conheces o sol, amiga minha. Os ventos levaram-lhe as lágrimas, contaram a origem delas e o conselho do astro da noite, e falaram da beleza que teria essa estrela nova e especial. O sol ouviu-os e redarguiu que sim, que cristalizassem as lágrimas e fizessem delas uma estrela; mas nem tal como o pedia a lua, nem para igual fim. Há de ser eterna e brilhante, disse ele, mas para a compaixão basta a mesma lua com a sua enjoada e dulcíssima poesia. Não; essa estrela feita das lágrimas que a brevidade da vida arrancou um dia ao orgulho humano ficará pendente do céu como o astro da ironia, luzirá cá de cima sobre todas as multidões que passam, cuidando não acabar mais e sobre todas as coisas construídas em desafio dos tempos. Onde as bodas cantarem a eternidade, ela fará descer um dos seus raios, lágrima de Xerxes, para escrever a palavra da extinção, breve, total, irremissível. Toda epifania receberá esta nota de sarcasmo. Não quero melancolias, que são rosas pálidas da lua e suas congêneres; — ironia, sim, uma dura boca, gelada e sardônica...

ROMEU. Como? Esse astro esplêndido...

FREI LOURENÇO. Justamente, filho; e é por isso que o altar é melhor que o céu; no altar a benta vela arde depressa e morre às nossas vistas.

JULIETA. Conto de ventos!

FREI LOURENÇO. Não, não.

JULIETA. Ou ruim sonho de lunático. Velho lunático disseste há pouco; és isso mesmo. Vão sonho ruim, como os teus ventos, e o teu Xerxes, e as tuas lágrimas, e o teu sol, e toda essa dança de figuras imaginárias.

FREI LOURENÇO. Filha minha...

JULIETA. Padre meu, que não sabes que há, quando menos, uma coisa imortal, que é o meu amor, e ainda outra, que é o incomparável Romeu. Olha bem para ele; vê se há aqui um soldado de Xerxes. Não, não, não. Viva o meu amado, que não estava no Helesponto, nem escutou os desvarios dos ventos noturnos, como este frade, que é a um tempo amigo e inimigo. Sê só amigo, e casa-nos. Casa-nos onde quiseres, aqui ou além, diante das velas ou debaixo das estrelas, sejam elas de ironia ou de piedade; mas casa-nos, casa-nos, casa-nos...

FIM

Fonte: UOL

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O Modernismo Brasileiro, aulas de 2002 (II)

Aulas do professor José Miguel Wisnik

(a responsabilidade pela interpretação do conteúdo é minha)

POÉTICA

Poética na poesia: uma ideia, uma concepção. Ela pode ser explicita - um conjunto de atitudes, tratados, manifestos, teorias da poesia -, como também pode ser implícita - poetas que simplesmente fazem poesia.

Como exemplo, podemos citar Mário de Andrade que escrevia poesia, mas também poéticas - criava e fazia tratados. Era ficcionista, poeta, pesquisador e teórico.

Percebemos nele a quebra de conceitos tradicionais como em Pauliceia Desvairada, lançada na Semana de Arte Moderna.

MODERNO = SIMULTANEIDADE

Podemos ilustrar um primeiro momento ou acontecimento da poesia moderna quando Baudelaire percebeu o seguinte:

Quando o poeta atravessa a rua, pode ser atropelado pelo carro veloz (puxado por cavalos na época) devido à pavimentação (moderna). Cai então sua auréola, ou seja, o poeta cai do seu mundo à parte, seu espaço diferenciado, e ele se torna um comum. O mundo urbano moderno tem muitos ritmos. Não é mais possível aquela cadência tradicional (métrica). Esta é a transformação metropolitana mudando os conceitos de arte.

O ruído passa a ser uma constante urbana.

Veja a música como exemplo. Até o século XIX, a nota musical era afinada, perfeita. Já no século XX, a música foi mudando, pulsando, trilando, batendo até chegarmos ao rock, ao funk e à batida eletrônica.

Muda-se a matéria da música em 1913, quando Ígor Stravinski causou choques com as quebras bruscas de ritmo em suas músicas.

Pablo Picasso em seu Cubismo também causou choque pela simultaneidade de suas figuras cubistas.

"Toda arte abala, choca, pois faz a pessoa mudar" (frase do professor)

Essa nova experiência moderna (estética) modifica. A poesia supõe a Poética.

Um dia, quando Mário de Andrade comprou uma obra de Victor Brecheret (um Cristo de Trancinha) sentiu uma explosão interior e criou sua Pauliceia.

A cidade (e região) de São Paulo, em sua história, sempre esteve atrás das cidades mais antigas do Brasil.
Salvador - século XVII
As Minas - século XVIII
Rio de Janeiro - século XIX
São Paulo - século XX

Até o século XVIII, mal se falava português em São Paulo. Como era o centro de convergência das linhas férreas que traziam o café dos outros estados para depois ir ao Porto de Santos, começou a crescer e crescer desordenadamente, sem projetos. Cresceu do nada. Esta é a Pauliceia Desvairada.

O prefácio desta obra é uma definição de Poética.

SIMULTANEIDADE
Assim como na música, a poesia moderna é um "cacho de sensações". Blocos de sensações não-lineares que se chocam.

"Poema de sete faces": é um poema polifônico dentro do que Mário de Andrade queria e pregava. Drummond o realiza.

O livro "Itinerário de Pasargada" é a Poética de Manuel Bandeira.

O poema "Procura da poesia" de Drummond é outra demonstração de Poética marcante.

"Os sapos" poema de Bandeira foi lido na Semana de Arte Moderna. É uma sátira do Parnasianismo. Bandeira era pós-simbolista.

Em 1930, Manuel Bandeira eclode como modernista com sua "Poética".

MACUNAÍMA
Rapsódia brasileira. Macunaíma é um mito de uma tribo indígena. Mário se encantou com este mito da Cultura Popular Rural. "É o retrato do Brasil", foi uma condensação do que ele pensava.

Recomendação de leitura: "Roteiro de Macunaíma" de Cavalcante Proença.

"Macunaíma" é uma colagem. Quando Mário foi acusado de plágio, ele afirmou que sim: "-plagiei sim, o Brasil!"

O Modernismo teve grande repercussão para o século XX.

Quem financiou o Modernismo? A Burguesia Paulista industrializada e advinda do café. Porém, o Modernismo trouxe à tona as contradições sociais.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Leitura: Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, de 1925



Refeição Cultural

Prefácio de Paulo Prado

No prefácio de Paulo Prado, de 1924, na apresentação da Poesia Pau-Brasil, com vários excertos do "Manifesto da Poesia Pau-Brasil", já se diz aos leitores sobre a radicalidade da obra.

TRECHOS DO PREFÁCIO

"Não só mudaram as ideias inspiradoras da poesia, como também os moldes em que ela se encerra. Encaixar na rigidez de um soneto todo o baralhamento da vida moderna é absurdo e ridículo. Descrever com palavras laboriosamente extraídas dos clássicos portugueses e desentranhadas dos velhos dicionários, o pluralismo cinemático de nossa época, é um anacronismo chocante, como se encontrássemos num Ford um tricórnio..." p. 58

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"Sejamos agora de novo, no cumprimento de uma missão étnica e protetora, jacobinamente brasileiros. Libertemo-nos das influências nefastas das velhas civilizações em decadência. Do novo movimento deve surgir, fixada, a nova língua brasileira, que será como esse 'Amerenglish' que citava o Times referindo-se aos Estados Unidos" p. 59

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"Nesta época apressada de rápidas realizações a tendência é toda para a expressão rude e nua da sensação e do sentimento, numa sinceridade total e sintética" p. 59

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"Grande dia esse para as letras brasileiras. Obter, em comprimidos, minutos de poesia (...) A nova poesia não será nem pintura nem escultura nem romance. Simplesmente poesia com P grande, brotando do solo natal, inconsciente. Como uma planta" p. 59

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AGORA VAMOS APRESENTAR AOS LEITORES E LEITORAS ALGUNS TRECHOS DE PAU-BRASIL

Por ocasião da Descoberta do Brasil

ESCAPULÁRIO

No Pão de Açúcar
De Cada Dia
Dai-nos Senhor
A Poesia
De Cada Dia

FALAÇÃO (*este poema-programa é uma redução, com alterações, do "Manifesto da Poesia Pau-Brasil")

Dois momentos que gosto bastante nesta parte:

"(...)

A língua sem arcaísmos. Sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros"

(...)

Contra a argúcia naturalista, a síntese. Contra a cópia, a invenção e a surpresa." 

Comentário: a brasilidade em Oswald de Andrade, nos modernistas!

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História do Brasil

Trecho da seção "Gandavo"

PAÍS DO OURO

Todos têm remédio de vida
E nenhum pobre anda pelas portas
A mendigar como nestes Reinos


Trecho da seção "Frei Vicente do Salvador"

AS AVES

Há águias de sertão
E emas tão grandes como as de África
Umas brancas e outras malhadas de negro
Que com uma asa levantada ao alto
Ao modo de vela latina
Correm com o vento


Trecho da seção "Frei Manoel Calado"

CIVILIZAÇÃO PERNAMBUCANA

As mulheres andam tão louçãs
E tão custosas
Que não se contentam com os tafetás
São tantas as joias com que se adornam
Que parecem chovidas em suas cabeças e gargantas
As pérolas e rubis e diamantes
Tudo são delícias
Não parece esta terra senão um retrato
Do terreal paraíso


Trecho da seção "J.M.P.S (da cidade do porto)"

VÍCIO NA FALA

Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados

Comentário: Fabuloso! A poesia está nos fatos. Este é nosso retrato. "povo burro" = povo culto, puro e sábio

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Poemas da colonização

O GRAMÁTICO

Os negros discutiam
Que o cavalo sipantou
Mas o que mais sabia
Disse que era
Sipantarrou


O CAPOEIRA

- Qué apanhá sordado?
- O quê?
- Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada


RELICÁRIO

No baile da Corte
Foi o Conde d'Eu quem disse
Pra Dona Benvinda
Que farinha de Suruí
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
É comê bebê pitá e caí

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São Martinho

O VIOLEIRO

Vi a saída da lua
Tive um gosto singulá
Em frente da casa tua
São vortas que a mundo dá

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rp 1

DITIRAMBO

Meu amor me ensinou a ser simples
Como um largo de igreja
Onde não há nem um sino
Nem um lápis
Nem uma sensualidade


NOVA IGUAÇU

Confeitaria Três Nações
Importação e Exportação
Açougue Ideal
Leiteria Moderna
Café do Papagaio
Armarinho União
No país sem pecados

Comentário: um poema substantivos...

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Postes da Light

ANHANGABAÚ

Sentados num banco da América folhuda
O cow-boy e a menina
Mas um sujeito de meias brancas
Passa depressa
No Viaduto de ferro


MÚSICA DE MANIVELA

Sente-se diante da vitrola
E esqueça-se das vicissitudes da vida
Na dura labuta de todos os dias
Não deve ninguém que se preze
Descuidar dos prazeres da alma

Comentário: e eu que deixei de exercer isso, heim!


PRONOMINAIS

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

Comentário: - Pau-Brasil!!!


BIBLIOTECA NACIONAL

A Criança Abandonada
O Doutor Coppelius
Vamos com Ele
Senhorita Primavera
Código Civil Brasileiro
A arte de ganhar no bicho
O Orador Popular
O Pólo em Chamas

Comentário: de novo, substâncias... Pau-Brasil!!! Essas eram as leituras do Brasil de então...


DIGESTÃO

A couve mineira tem gosto de bife inglês
Depois do café e da pinga
O gozo de acender a palha
Enrolando o fumo
De Barbacena ou de Goiás
Cigarro cavado
Conversa sentada


HÍPICA

Saltos records
Cavalos da Penha
Correm jóqueis de Higienópolis
Os magnatas
As meninas
E a orquestra toca
Chá
Na sala de cocktails

Comentário: substâncias... a vida social. Este poema nos lembra o "Rondó dos cavalinhos", de Manuel Bandeira. Perfeita crítica social!

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Roteiro das Minas

PAISAGEM

Na atmosfera violeta
A madrugada desbota
Uma pirâmide quebra o horizonte
Torres espirram do chão ainda escuro
Pontes trazem nos pulsos rios bramindo
Entre fogos
Tudo novo se desencapotando

Comentário: me lembra Drummond


LONGO DA LINHA

Coqueiros
Aos dois
Aos três
Aos grupos
Altos
Baixos

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Lóide Brasileiro

CANÇÃO DE REGRESSO À PÁTRIA

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá

Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra

Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte para lá

Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte para São Paulo
Sem que eu veja a rua 15
E o progresso de São Paulo

Comentário: Oswald de Andrade também tem o seu poema "Recife"... ao modo de "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias.

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LAUS DEO

Enfim, o livro de Oswald de Andrade é tudo de bom!!

William


Bibliografia:

ANDRADE, Oswald de. Pau-Brasil. 8ª edição - São Paulo: Globo, 2002. (Obras completas de Oswald de Andrade"