Mostrando postagens com marcador David Lynch. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador David Lynch. Mostrar todas as postagens

sábado, 5 de outubro de 2019

051019 - Diário e reflexões


Ver um ipê branco florido é uma boa referência
sobre a brevidade das coisas. É um instante e só!
Se você não observar quando viu, já era!

Refeição Cultural

Fiquei pensativo após ler um texto crítico sobre os movimentos poéticos no mundo ocidental e a questão das tradições e rupturas nas poéticas. O texto do poeta, ensaísta e crítico literário Octavio Paz tratou das diversas maneiras como as sociedades primitivas e a atual lidam com a temporalidade, com o passado, presente e futuro, e o texto é muito reflexivo. Ler comentários aqui.

Para fechar meu dia de leituras na sexta-feira, revi na madrugada o filme "Uma história real" (1999), de David Lynch, que retrata a história do norte-americano Alvin Straight, que nos anos noventa percorreu 390 km de estradas em um cortador de gramas para ver e reatar a relação com seu irmão que havia sofrido um derrame. Alvim realizou essa façanha com 73 anos de idade, com artrite, sem enxergar bem e não quis ajuda de ninguém para ir até lá. Ler a respeito aqui.

Parece-me que o senhor Tempo lembrou-se de mim com o passar do tempo e agora ele já me pauta os dias, o corpo, a mente. O texto de Octavio Paz explica aos leitores que, por um lado, certos tipos de sociedades e concepções religiosas lidam com o futuro baseando as perspectivas possíveis (ou únicas) como eternos retornos e voltas ao passado, gerando uma forma determinista de não-mudança; de maneira inversa, a concepção antagônica moderna de rupturas com as tradições, após o século XVIII, nos apresenta o futuro como o incerto e a certeza de mudanças em relação ao passado. Enfim, eterna volta ao passado ou a mudança como certeza de futuro, devo me situar talvez entre uma das visões de futuro possíveis.

Aos cinquenta anos de idade, tendo características pessoais de inconformidade com as coisas e com a curiosidade filosófica dos porquês das coisas serem como são, já acreditei em quase tudo nessa existência, quase tudo. Hoje não mais. Sou um animal humano desencantado com as soluções inteligentes, confesso, que a mente humana criou para explicar ou conformar o mundo com uma certa lógica justificável para as tragédias da vida e para o não sentido das coisas: religiões. As coisas são como são e são resultado de eventos naturais e de eventos impulsionados por aqueles que alteram a natureza de forma racional: animal humano.

Os tempos são de mudanças para o futuro. Essa afirmação é uma espécie de brincadeira, depois de ler Octavio Paz ontem. Os tempos são de exílio, de solidão. Essa afirmação sim é baseada na minha leitura da realidade. Após uma vida pertencente a alguma coisa, agora já não pertenço a quase nada. Não caibo mais na política de onde vim. Não caibo mais na família de onde vim. Não caibo mais no que viraram o país e povo que amava (de onde vim). Como disse, os tempos serão de solidão, daqui para o fim certo.

Mas atenção, o fim certo é tanto o instante seguinte como décadas adiante. Viver é preciso! Viver é bom! Viver é ver ipês, é ver pores do sol nunca iguais. Viver é o imponderável amanhã. Então, é territorializar-se novamente em algum lugar, é pertencer a algo a se criar. Viver e ser, pois as coisas são como são.

William

sexta-feira, 14 de março de 2008

Uma História Real - Filme de David Lynch, 1999


Richard Farnsworth em papel magistral.

Refeição Cultural - Uma História Real

Direção: David Lynch, 1999

Com: Richard Farnsworth (Alvin Straight), Sissy Spacek (Rose Straight), Harry Dean Stanton (Lyle Straight) e elenco.


Uma É engraçado!

Poucos filmes ou lembranças umedecem-me com relativa eficiência os sofridos olhos secos e ardidos. (é sempre bom qualquer vestígio de lágrima para aqueles que têm o problema de vista seca e ardor 24 horas por dia e noite)

Algo no filme me toca profundamente.

Não usaria o verbo "saber" para dizer o que é. O melhor é usar o verbo "sentir" para falar a respeito: sentir arrepios, sentir os olhos marejarem, sentir o coração apertado, sentir uma simpatia enorme por Alvin...

*Carregar uma amargura, um erro, por toda a vida, simplesmente porque não há nada a se fazer, a não ser conviver com aquilo;

*Lutar e vencer um dos sentimentos mais duros e mesquinhos que compõem a natureza humana: algo que poderíamos chamar rancor, orgulho; não-dar-o-braço-a-torcer, fazer-se-de-durão-a-qualquer-custo, falta colossal de humildade;

*A capacidade infinita e surpreendente de superação e inventividade do ser humano quando se deseja do fundo do coração atingir um objetivo;

*Aquela lentidão em que se passa o filme, a história, as paisagens, o cortador de gramas, a fala daquele velhinho tão único, mas ao mesmo tempo tão comum. Como precisaríamos de um pouco mais de lentidão nos dias de hoje!

Posso dizer que o filme me faz um bem danado. E é um paradoxo, pois aperta o peito e dá um nó geral na garganta. Mas também é esse um dos segredos da sétima arte.

Post Scriptum em 2012:


Cena do filme com Sissy Spacek.
Sissy Spacek

Assistindo ao filme Carrie com a jovem Sissy Spacek em 1976 e a vendo no filme em 1999 em uma interpretação brilhante e difícil como a filha do personagem principal, vemos o quanto a atriz é merecedora de nossa admiração.

Palmas para Sissy Spacek...


Post Scriptum em julho de 2014:

Ao reler a postagem, acabei por assistir novamente ao filme. Cada vez que revejo a história de Alvin Straight, mais reflito sobre a vida.

No início de 2014 tive muitas decepções em relação a pessoas que considerava muito, algumas delas tinha afinidade como irmãos têm.

Alvin (73 anos) nos dá um exemplo de perseverança e de grandeza ao passar por cima do orgulho e ir ao encontro de seu irmão Lyle (que sofreu um derrame), atravessando 240 milhas (390 km) entre Iowa e Wisconsin para pôr fim a um rompimento que durou anos e que ocorreu num momento de bebedeira.

O que vivi no início deste ano me endureceu muito. Tive que superar rapidamente uma grande decepção e seguir. Estou agora muito focado em superar tudo isso, inclusive buscando a reconciliação e a unidade em nome de algo maior - o projeto da classe trabalhadora que representamos.

Nisso o filme é uma grande lição, superar rompimentos e ter força e determinação nesta tarefa que tenho pela frente.


Enredo (Wikipedia) - contém spoiler


Alvin Straight has not shown up to his regular bar meeting with his friends. He is eventually found lying on his floor at home, although he insists that he "just needs a bit of help getting up". His daughter Rose takes her reluctant father to see a doctor, who sternly admonishes Alvin to give up tobacco. He also tells Alvin that he should start using a walker. Alvin refuses. Alvin then learns that his brother Lyle has suffered a stroke. Longing to visit him, but unable to drive, Alvin gradually develops a plan to travel to Mount Zion on his riding lawn-mower and towing a small homemade travel-trailer, to the consternation of his family and friends.

Alvin's first attempt fails: after experiencing difficulty starting the old mower's motor, he doesn't get far before the machine breaks down. Alvin arranges for his mower to be transported back home on a flatbed truck, where he takes out his frustrations on the mower with a shotgun blast. At the John Deere dealer, he purchases a newer lawn tractor from a salesman who is generous but describes Alvin as being a smart man, "until now".

Alvin continues on his quest. He passes a young female hitchhiker who later approaches his campfire and says that she could not get a ride. In conversation, Alvin deduces that she is pregnant (although this is not physically obvious) and has run away from home. Alvin tells her about the importance of family by describing a bundle of sticks that is hard to break. The next day Alvin emerges from the trailer to find that she has left him a bundle of sticks tied together.

Later, a huge group of RAGBRAI cyclists race past him. He later arrives at the cyclists' camp and he is greeted with applause. He speaks with them about growing old. When he is asked about the worst part of being old, he replies, "remembering when you was young".

The next day, Alvin is troubled by the massive trucks passing him. He then interacts with a distraught woman who has hit a deer, and is being driven to distraction by the fact that she continually hits deer while commuting, no matter how hard she tries to avoid them. She drives away in a tearful huff, and Alvin, who had started to run short of food, cooks and eats the deer, then mounts the antlers above the rear doorway of his trailer as a tribute to the deer and the sustenance it had provided.

Alvin's brakes fail as he travels down a steep hill; he struggles to maintain control of the speeding tractor and finally manages to bring the vehicle to a complete stop. Some people help get Alvin's mower and trailer off the road. They later discover that the mower also has transmission problems.

Now beginning to run low on cash, Alvin borrows a cordless phone from a homeowner – gently refusing an invitation to come indoors – and calls Rose to ask her to send him his Social Security check. He then leaves money on the doorstep to pay for his telephone call. A local motorist offers Alvin a ride the rest of the way to Lyle's, but Alvin declines, stating that he prefers to travel his own way. An elderly war veteran takes him into town for a drink, and Alvin tells a story about how he is haunted by a memory of accidentally shooting one of his military comrades.

Alvin's tractor is fixed and he is presented with an exorbitant bill by the mechanics, who are twins and are constantly bickering. Alvin successfully negotiates the price down, and explains his mission, which he calls "a hard swallow to [my] pride," but "a brother is a brother." The mechanic twins seem to relate to this.

Later, Alvin camps in a cemetery and chats with a priest who recognizes Lyle's name and is aware of his stroke. The priest says that Lyle did not mention he had a brother. Alvin replies that "neither one of us has had a brother for quite some time." Alvin wants to make peace with Lyle and is emphatic that what happened ten years ago does not matter. "I say, 'Amen' to that, brother," the priest replies.

The next obstacle Alvin must overcome is apparent engine trouble, just a few miles from Lyle's house. Alvin stops in the middle of the road, unsure of how to proceed. A large farm tractor driving by then stops to help, but this time the problem was evidently just a few drops of bad gas, because the lawn-tractor's engine sputters to life again after sitting for a few minutes. The gracious farmer then leads the way on his own tractor, to make sure Alvin gets there okay.

Lyle's house is dilapidated. Using two canes, Alvin makes his way to the door. He calls for his brother. Lyle invites Alvin to sit down. Lyle looks at Alvin's mower-tractor contraption and asks if Alvin had ridden that thing just to see him. Alvin responds simply, "I did, Lyle." The two men sit together silently and look up at the stars.