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sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

A Rosa do Povo - Carlos Drummond de Andrade



Refeição Cultural

"A doença não me intimide, que ela não possa
chegar até aquele ponto do homem onde tudo se
                                         [explica.
Uma parte de mim sofre, outra pede amor,
outra viaja, outra discute, uma última trabalha,
sou todas as comunicações, como posso ser triste?
" ("Os últimos dias", CDA)


Último dia do ano, último livro do ano (foram 57 obras lidas). Ano passado li A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1945. Que livro! Cinquenta e cinco poemas porradas. Neste mês de dezembro, reli o livro dentro de um projeto de ler toda a poesia de Drummond em ordem cronológica. Com isso, reli os 4 livros que já conhecia e José, de 1942.

Que livro! Perfeito para os tempos que correm. Drummond diz que o livro é um livro que traz características de um tempo, de uma época, tanto do poeta quanto do mundo, que vivia a mortandade da 2ª Guerra Mundial, nazismo, fascismos, Estado Novo de Vargas. Não falo que o livro é perfeito para os tempos que correm!

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"E a matéria se veja acabar: adeus, composição
que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade.
Adeus, minha presença, meu olhar e minhas veias
                        [grossas,
meus sulcos no travesseiro, minha sombra no muro,
sinal meu no rosto, olhos míopes, objetos de uso
          [pessoal, ideia de justiça, revolta e sono, adeus,
vida aos outros legada.
" ("Os últimos dias", CDA)

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Difícil um poeta no qual meu Eu se veja melhor nos Eu-líricos dos poemas do que Drummond. Difícil alguém que me represente mais do que Drummond e seus personagens.

RETROSPECTIVA DE LEITURAS POÉTICAS

Com a releitura de A Rosa do Povo, encerro um ano de bastante leitura de poemas. Li os 5 livros iniciais de Drummond, são 170 poemas. Agora vou pras novidades, tudo que não conheço dele em 18 livros a ler.

No começo do ano li as poesias de Bertolt Brecht. Li uma coletânea de 260 poemas publicados entre 1913-1956. Que poemas, também! Demais!

No primeiro semestre, li poemas de outros poetas modernistas - Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira. De Mário li Pauliceia Desvairada (1922) e Losango Cáqui (1926). De Oswald li Pau-Brasil (1924). De Manuel Bandeira li Libertinagem (1930). Tudo releituras.

Em agosto li Espumas Flutuantes (1870), de Castro Alves. Reli também Distraídos venceremos (1987), de Paulo Leminski.

Finalmente, li o clássico Odisseia, de Homero, em versos, na tradução do maranhense Odorico Mendes, o patriarca da transcriação.

Por fim, li vários livros de Cecília Meireles, dentro de um projeto de ler as obras poéticas completas da poeta.

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Registro feito. Repito: de tudo que li, ninguém chega perto de Carlos Drummond de Andrade em relação à identificação entre Eu-lírico e Eu mesmo.

É isso.

William


Post Scriptum: fiz uma postagem de retrospectiva cultural do ano de 2021. Foram 57 obras lidas no ano. Para ler a postagem é só clicar aqui.


Bibliografia:

ANDRADE, Carlos Drummond. Nova Reunião: 23 livros de poesia - volume 1. 3ª edição - Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Ulysses - Penélope (A Cama)



Refeição Cultural

"(...) aí ele não ia acreditar no outro dia que a gente não fez alguma coisa marido tudo bem mas amante não dá pra enganar depois de eu dizer pra ele que a gente não faz mais nada claro que ele não acreditou..." (p. 1052)


Quinta-feira, 30 de setembro. Segundo ano da pandemia mundial de Covid. 

Terminei a releitura de Ulysses (1922), do escritor irlandês James Joyce. Essa experiência foi feita numa edição publicada em 2012, traduzida por Caetano W. Galindo. Foi presente do amigo Sérgio Gouveia.

A primeira vez que li este clássico da literatura mundial foi em 2001. Desta vez, a leitura foi bem melhor, aproveitei mais cada capítulo do livro. Mas foi cansativo, confesso. Foram 5 meses! Comecei a ler a obra dia 1º de maio, dia dos obreiros (rsrs). Não terminei a leitura pedindo mais. Terminei com um sentimento de missão cumprida.

PENÉLOPE (A CAMA) - CAPÍTULO 18

O último capítulo é demais, é um feito na história da literatura de todos os tempos. Setenta páginas em fluxo de pensamento, sem pontuação, a transcrição de uma pessoa pensando livremente madrugada afora, Marion Bloom, Molly. 

Por ser um monólogo interior, não tem censuras. E então lemos as coisas mais surpreendentes, escandalosas, livres que poderíamos imaginar em páginas de um livro de literatura.

Ler hoje é surpreendente, então imagino ler os pensamentos de Molly em 1922. Não à toa, há registros da época de queima de volumes do livro em alguns lugares do mundo.

"(...) ia ser muito melhor pro mundo ser governado pelas mulheres do mundo você não ia ver as mulheres saírem se matando e chacinando quando é que a gente vê uma mulher rolando por aí de bêbada que nem eles fazem ou jogando a última moedinha que têm e perdendo nos cavalos sim porque uma mulher não importa o que ela faça ela sabe quando parar claro que eles nem iam estar no mundo se não fosse a gente eles não sabem o que é ser mulher e ser mãe e como é que eles iam saber onde é que eles iam estar todos se não tivessem todos eles uma mãe pra cuidar deles..." (p. 1099)

Além de ser uma personagem livre em todos os seus atos e pensamentos, Molly pensa nas grandes questões de gênero que já se discutiam e que seriam bandeiras importantes nas lutas das causas das mulheres e dos movimentos libertários e progressistas.

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COMENTÁRIO FINAL

Essa releitura foi muito interessante. Por mais que tenhamos alguma lembrança de uma leitura feita duas décadas antes, a leitura de Ulysses foi praticamente uma leitura nova. O leitor de 52 anos é absolutamente outro leitor que aquele de 32 anos.

A tradução de Caetano W. Galindo também é muito diferente da tradução do Antônio Houaiss, edição que li na primeira vez. São diferentes, não me cabe dizer que uma é melhor que a outra.

Outro salto de qualidade nesta leitura foi aproveitar a oportunidade para ler em versos a obra referência do Ulysses de Joyce, a Odisseia de Homero. Li a tradução ("transcriação" segundo Campos) do maranhense Manuel Odorico Mendes, numa edição especial do professor Antonio Medina.

Também reli contos de Dublinenses (1914) e finalmente li Retrato do artista quando jovem (1916), a obra que introduz o personagem Stephen Dedalus, ainda jovem. Muitos críticos consideram tanto Dedalus quanto Bloom alter egos de Joyce.

SEGUIMOS LENDO OS CLÁSSICOS

Enfim, mais um clássico lido durante esta pandemia mundial de Covid. Li alguns clássicos exigentes neste ano e meio: ao Ulysses, de Joyce, somam-se: Decamerão (1353), de Boccaccio; Moby Dick (1851), de Herman Melville; O processo (1925), de Franz Kafka; e Madame Bovary (1856), de Gustave Flaubert.

Com o mundo como está, afirmo e reafirmo com muita convicção o pensamento de Italo Calvino: é melhor ler do que não ler os clássicos.

William

Um leitor


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


sexta-feira, 16 de julho de 2021

33. Odisseia - Homero



Refeição Cultural - Cem clássicos

Completei a leitura de mais uma obra da literatura clássica mundial, Odisseia, atribuída ao aedo Homero. Foi uma leitura engajada e eu a realizei de forma bem satisfatória, haja vista que a linguagem não é uma linguagem comum.

Essas postagens dos "cem clássicos" são postagens que estou fazendo aos poucos para avaliar o que já avancei no sonho, porque tenho um sonho antigo, quase da adolescência, em ler uma centena de obras clássicas da produção cultural do mundo. 

Já postei 33 obras, mas não quer dizer que só li essa quantidade. Alguns clássicos lidos ainda serão anotados aqui no blog. Sem contar que os critérios definidos para considerar uma obra "clássica" serão arbitrariamente definidos pelo autor do blog, eu mesmo.

Meu primeiro contato com a Odisseia foi em 2001, ano em que comecei a estudar na Universidade de São Paulo. Vejam como as coisas foram tardias para mim no mundo dos clássicos. Entrei na Faculdade de Letras da USP aos 32 anos. Para acompanhar as aulas de Literatura Grega no ciclo básico era urgente ler o clássico de Homero.

Minha edição em prosa da Odisseia foi da editora Cultrix, na tradução do professor Jaime Bruna, da USP. Eu a adquiri logo que comecei o curso. Tenho até a notinha dentro do livro. Paguei 19 reais no dia 18/4/01. Anotei no livro que terminei a leitura em julho daquele ano. Posso dizer que foi um dos primeiros clássicos que li ao entrar na universidade.

Agora, duas décadas depois, vivi a experiência de reler o clássico, e posso dizer que praticamente senti a sensação de ser a primeira leitura porque eu não me lembrava de quase nada.

Li a Odisseia, na tradução de Manuel Odorico Mendes, numa edição especialíssima da Edusp, a cargo do professor Antonio Medina Rodrigues. Eu tive o privilégio de ser aluno do Medina e nunca - nunca - me esqueci das aulas dele na FFLCH. O cara era demais! Ele interpretava os deuses e suas sacanagens gesticulando em sala de aula. Algumas alunas ficavam vermelhas de vergonha (rsrs). Professor Medina, presente!

A leitura atual foi num contexto completamente diferente em relação à primeira leitura da epopeia homérica. Antes, iniciava um curso de Letras, agora sou um ex-bancário de banco público retirado das lides sindicais, lendo em casa num contexto de pandemia mundial de Covid-19.

O blog tem postagens a respeito da leitura caso alguma pessoa se interesse em ler.

Anoto por fim o projeto mental que acabei projetando a partir da leitura deste clássico grego em versos odoricianos. Vou ler na sequência, nessa trilha clássica, a Ilíada e a Eneida, ambas traduzidas por Odorico Mendes. Já as tenho. Depois vou ler A divina comédia, de Dante e, por fim, vou reler Os Lusíadas, de Camões. Um belo projeto de leitura, né não?

Assim como Medina e Haroldo de Campos, gostei muito da "transcriação" de Odorico Mendes. A edição do Medina traz um texto de Campos - "Odorico Mendes: o patriarca da transcriação" e traz apresentação e prefácio com diversos estudos do professor Medina: é uma obra à parte, diga-se de passagem. Explicações magníficas, inclusive sobre traduções.

Enfim, missão cumprida! Mais um clássico lido e mais projetos de leituras a realizar.

Leiam os clássicos!

William


Odisseia (Homero) - O fim (XXII a XXIV)



Refeição Cultural

"Na sala, circunspecto, ele examina
Se inda algum respirava, e em pó sangrento
Jaziam todos: qual a praia curva
Arrasta a malha os peixes, que, empilhados
Na areia, mudos cobiçando as vagas,
À luz do Sol em breve o alento exalem,
Tais os procos ali se amontoavam." (LIVRO XXII, v. 281-287, p. 365)


(esta postagem contém spoiler do final da Odisseia, alerta para quem não conhece ainda a história)


Finalizei a leitura dos últimos três livros da Odisseia, de Homero. Foram 75 dias de convivência com as desventuras de Ulisses, de Telêmaco, de Penélope, da deusa Palas (Minerva) e dos diversos personagens que constam nesta epopeia grega.

No livro XXII, conheci a ira de Ulisses (já havíamos ouvido falar da ira de Aquiles). A vingança do herói foi implacável em relação aos pretendentes de Penélope, que consumiam os rebanhos e patrimônio da família. Ele não perdoou sequer as servas que se relacionaram com os invasores. As cenas são dignas de um filme de Tarantino.


No livro XXIII, vemos o reencontro de Ulisses e Penélope. A deusa Palas até adia a chegada do dia, retardando a carroça com os ginetes que trazem o sol pela manhã... A Aurora dedirrósea...

"   Ele com isto em lágrimas rebenta,
Mais ao peito cingindo a casta esposa.
Da praia quando à vista os naufragados,
Por Netuno e por vagas sacudidos,
Poucos no vasto pélago nadando,
Sujos da maresia, à morte escapam,
Não têm maior prazer do que a rainha
Teve ali. Não despega os alvos braços
Do colo do consorte; e a ruiva Aurora
Os encontrara, se não fosse Palas:
A olhicerúlea, prolongando as sombras,
No Oceano a retinha em áureo trono,
Sem que até ao coche alípedes ginetes
Lampo e Faéton, que a luz no mundo espalham.
" (LIVRO XXIII, v. 174-187, p. 377)

Ainda neste livro XXIII temos uma espécie de resumo dos eventos que vimos ao longo da epopeia de Odisseu, nos versos 236 a 262.


No último livro, XXIV, vemos as almas dos pretendentes mortos chegarem ao Hades, e lá encontram outros heróis e guerreiros mortos na Guerra de Tróia. 

Ao ouvir sobre a vingança de Ulisses, narrada pela alma de Anfimédon, Agamêmnon se admira de Penélope, que foi fiel ao esposo enganando os pretendentes por 3 anos, fazendo e desfazendo a mortalha que tecia. Lembrando que Agamêmnon foi morto na traição, por sua esposa Clitemnestra e o amante.

"   Grita Agamêmnon: 'Venturoso Ulisses,
Possuis mulher de uma virtude rara!
Do varão que pudica amou primeiro
Nunca olvidou-se; obtém perene glória,
Que hão de inspirados celebrar cantores.
" (LIVRO XXIV, v. 155-160, p. 388)

Ulisses ainda reencontra seu pai, Laertes, e juntos - avô, pai e filho - enfrentam a fúria dos familiares dos pretendentes mortos por Ulisses. Mas os deuses não permitem que a guerra civil se inicie em Ítaca e atuam para impor a paz.

Termina assim a odisseia de Ulisses, após vinte anos de desventuras para retornar a sua Ítaca, esposa e filho, após os gregos vencerem os troianos.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


quinta-feira, 15 de julho de 2021

Odisseia (Homero) - Antes do massacre dos pretendentes e desafio do arco



Refeição Cultural

"Teoclimeno a vozes profetiza:
'Misérrimos, que noite vos rodeia
De alto a baixo! Que lúgubre ululado!
Estou já vendo lagrimosas faces,
Em sangue estas paredes e estes postes,
Cheio o vestíbulo e a brilhante sala
De espectros, que ao profundo Erebo descem!
Morre o Sol, e se esparge e adensa a treva!'" (LIVRO XX, v. 280-287, p. 342)


A leitura dos livros XX e XXI da Odisseia, de Homero, foi muito prazerosa. Não tive dificuldades com os decassílabos de Odorico Mendes. 

As notas do professor Medina auxiliam muito os leitores pouco familiarizados com a linguagem e com as referências históricas.

No início do Livro XX, Medina comentou: "Os antigos chamavam este livro simplesmente de 'Antes do Massacre dos Pretendentes'...". (p. 333)

Já no início do Livro XXI, Medina diz: "Este livro nos põe diante da célebre prova do arco, que antecipa o massacre dos pretendentes e que para Austin é o centro de todo aquele processo de autoconhecimento representado na Odisseia..." (p. 345)


O DESAFIO DE PENÉLOPE

"Vós que, pretexto de esposar-me, ausente
Meu marido, estragais toda esta casa,
Ouvi-me. O arco eis aqui do nobre Ulisses,
E eu proponho um certame: quem mais fácil
O atese e freche atravessando os olhos
Das machadinhas doze, hei de segui-lo
Da conjugal estância, farta e bela,
Da qual me lembrarei té nos meus sonhos'.
" (LIVRO XXI, v. 51-58, p. 347)


Faço só mais uma citação deste Canto, a da humilhação de um dos pretendentes, Eurímaco:

"   O arco Eurímaco ao lume aquenta e vira,
Mas nem sequer o verga; no orgulhoso
Peito suspira, e suspirando fala:
'Ai de mim e dos mais! Bem que as deseje,
Não choro as núpcias, que Ítaca e outras ilhas
Têm muitas belas; choro a clara prova
De superar-nos tanto o grande Ulisses:
Oh! Futuro desdouro!'...
" (CANTO XXI, v. 179-186, p. 350)


É isso! Os últimos três livros trarão o desfecho dessa epopeia homérica. Quem tiver interesse em ler a postagem anterior, é só clicar aqui. Quem tiver interesse em ver um vídeo onde comento essa leitura dos livros XX e XXI é só clicar aqui.

Abraços! Leiam e salvem seus cérebros e a essência do homo sapiens.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


quarta-feira, 7 de julho de 2021

Odisseia (Homero) - Ulisses reconhecido pela ama



Refeição Cultural

"   Palpando, a cicatriz conhece a velha,
Nem pode o pé suster; cai dentro a perna,
E a bacia retine e se derrama,
Dor a assalta e prazer; nos olhos água,
Presa às faces a voz, lhe afaga o mento,
E balbucia enfim: 'Tu és, meu filho,
És Ulisses; depois que te hei palpado,
Ora por meu senhor te reconheço'.
" (LIVRO XIX, v.354-361, p.328)


Leitura dos livros XVIII e XIX da epopeia, vimos cenas clássicas como a do encontro de Ulisses com sua ama, que o reconheceu ao tocar a cicatriz da ferida no joelho, feita por um javali quando ele ainda era uma criança.

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Também vemos o encontro de Ulisses com Penélope, vinte anos depois. Ela não o reconhece porque a deusa Minerva o disfarçou num velho forasteiro para que ele consiga realizar sua vingança, matando os inimigos em sua casa e retomando suas posses.

"   À pressa o escano de tosões coberto,
Lhe trouxe a velha; ao divo herói sentado
Penélope interroga: 'Hóspede, vamos,
Quem és? De que família? De que pátria?'
" (LIVRO XVIII, v.76-79, p. 320)

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Outra cena antológica é a que se conta o estratagema de Penélope que tece e desfaz o manto para enrolar os pretendentes que querem desposá-la. A estratégia dela dura três anos, mas depois ela tem que terminar a confecção da mortalha. Ela conta isso ao velho hóspede, que na verdade é Ulisses.

"Saudosa a prantear consumo a vida!
Urgem-me os procos, e eu maquino enganos.
Um gênio me inspirou tramar imensa
Larga teia delgada, e assim lhes disse:
'- Amantes meus, depois de morto Ulisses,
Vós não me insteis, o meu lavor perdendo,
Sem que do herói Laertes a mortalha
Toda seja tecida, para quando
No sono longo o sopitar o fado:
Nenhuma Argiva exprobre-me um funéreo
Manto rico não ter quem teve tanto.' -
A diurna obra desfazia à noite,
E os entretive ilusos por três anos;
Mas, gastas luas e horas, veio o quarto,
E então, por traça de impudentes servas
Apanhando-me, encheram-me de afrontas,
E a concluir a teia me forçaram.
" (LIVRO XVIII, v. 103-119, p. 321)

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Nestes versos abaixo, vemos a origem do nome do herói Ulisses, dado a ele por seu avô materno Autólico.

"   Veio Autólico a Ítaca ubertosa
De seu neto ao nascer; e, mal cearam,
Põe-lhe o infante aos joelhos Euricléia:
'Tu o almejavas tanto, agora inventa
Um nome ao filho da querida filha'.
    Disse o avô: "Genro meu, minha Anticléia,
Eu ressentido contra muitos venho
De um e outro sexo na selvosa terra;
Um nome lhe imporei, chama-se Ulisses,
Crescido, a casa a visitar materna,
Vindo ao Parnaso, onde as riquezas tenho,
Hei de brindá-lo e despedir contente'.
" (LIVRO XIX, v. 306-317, p. 327)

Sobre o significado do nome, o tradutor Odorico Mendes fez nota explicando ao leitor:

"O nome Ulisses ou Odisseus vem do verbo odýssö, 'irar-se'. Querem muitos que a história da ferida, a qual vai seguindo, seja uma interpolação. Pode ser que haja acrescentamentos; porém, Homero, em ambos os seus poemas, não perde ocasião de contar-nos sucessos ainda mais longos, e estes, interessantes como pertencentes ao seu herói, é provável que os não quisesse omitir." (Nota 309-312, p. 327)


Enfim, foram dois livros ou cantos com episódios bem clássicos da Odisseia.

Estamos chegando ao fim de mais um clássico da literatura mundial.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


segunda-feira, 5 de julho de 2021

Odisseia (Homero) - De volta a Ítaca (XV a XVII)



Refeição Cultural

"   Aqui, deitado um cão, de orelhas tesas
A cabeça levanta, Argos tem nome:
Hoje langue, e o nutria o próprio Ulisses,
Antes que se embarcasse. Costumava
Lebre caçar e corças e veados;
Ora de bois e mus no esterco o deixam,
Que às portas se amontoa, enquanto os servos
Para estrume da lavra o não carregam.
Jazia ali de carrapatos cheio,
E meigo, assim que a seu senhor fareja,
As orelhas bulindo, agita o rabo;
Mas não pôde acercar-se. O bom Laércio
Uma lágrima enxuga às escondidas,
E questiona o pastor: 'Um cão tão belo
Pasmo que esteja, Eumeu, nesse monturo;
Talvez, com tanto garbo, ágil não fosse,
E à mesa por formoso é que o tratavam'.
(...)
    Argos nesse momento, após vinte anos
Seu dono a contemplar, morreu de gosto." (LIVRO XVII, v.213-229 e 241-242, p. 295-296)


A cena do encontro do cão Argos com seu dono, Ulisses, é de chorar. Na hora nos lembramos do cão da raça akita, Hachiko, da história de amizade entre o cachorro e seu dono. A Odisseia, de Homero, é tudo isso, é a referência clássica para diversas cenas reais e das narrativas ficcionais nos últimos 2800 anos.

No Livro XV, voltamos a ver o jovem Telêmaco, que abriu a epopeia nos primeiros quatro livros - a "Telemaquia". Vendo sua casa e patrimônio serem dilapidados pelos varões de Ítaca, que queriam desposar sua mãe, Penélope, o filho de Ulisses saiu em busca de informações sobre o pai nos primeiros cantos da epopeia.

Neste momento em que estou da leitura da Odisseia, Ulisses finalmente chegou a sua amada Ítaca, 20 anos depois de terminada a Guerra de Troia. Apoiado pela deusa Minerva, ele está disfarçado de velho e chega a sua casa para avaliar os intrusos e as condições para derrotá-los e retomar seu reino.

Cito abaixo, uma nota explicativa do professor Medina, a nota 1 do Canto XVII, que explica esta parte da epopeia.

"Este livro XVII é propriamente a narrativa da Volta de Ulisses a seu palácio. Embora a cena inicial seja recapitulativa e acessória, o desenvolvimento deste livro tem as mesmas grandes qualidades dos livros XIII e XIV. Ulisses e Eumeu vão para a cidade, encontram a fonte onde está o altar das ninfas, topam com o insolente servidor Melântio; depois, a chegada ao palácio, com o admirável episódio do cão Argos, que reconhece o dono, depois a cena em que Ulisses passa a mendigar de mesa em mesa, e amaldiçoa Antino. A resposta que Ulisses manda dizer a Penélope, através de Eumeu, faz com que haja íntima união entre este livro e o décimo nono, onde a conversa dos cônjuges realmente se realizará." (MEDINA, Nota 1 ao LIVRO XVII)

Caminhamos para os momentos finais dessa epopeia homérica.

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TRILHA CLÁSSICA

Meu planejamento de leitura nesta linha de clássicos antigos já está definida em minha mente. Terminando a Odisseia, vou ler a Ilíada, também na tradução em versos de Odorico Mendes. Um livro conta a Guerra de Troia e a "Ira de Aquiles" e o outro a volta atribulada de um dos heróis gregos - Odisseu, rei de Ítaca.

Depois da Ilíada, vou ler a Eneida, de Virgílio. Consegui adquirir a tradução de Odorico Mendes. Após a Guerra e a destruição de Troia, após acompanhar as desventuras de Odisseu (Ulisses na forma latina), vou ler a epopeia de Eneias, troiano sobrevivente que iria fundar uma nova civilização, Roma e o Império Romano.

Por fim, lida essa sequência clássica, vou fechar a trilha com a leitura de A divina comédia, de Dante Alighieri. Nela, o próprio autor da Eneida, o poeta Virgílio, guia Dante pelos mundos do além-túmulo. Até hoje, só li o "Inferno". Não segui na leitura do livro.

É isso, espero que os deuses e a Fortuna me permitam viver os próximos meses para empreender essa trilha literária clássica. Parte da cultura ocidental dos últimos 3 mil anos provém dessas obras e desses autores.

Alguém topa fazer esse roteiro de leitura?

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Na outra trilha clássica, estou na releitura de Ulysses, de James Joyce. Após Joyce, vou ler As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e Robinson Crusoe, de Daniel Defoe. Dessa trilha, li recentemente Moby Dick, de Herman Melville. 

Lembrando o final do clássico texto de Italo Calvino sobre "Por que ler os clássicos", ele nos ensina que "é melhor ler do que não ler os clássicos".

Seguimos lendo...

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


domingo, 6 de junho de 2021

Odisseia (Homero) - Ulisses chega a Ítaca (XIII)



Refeição Cultural

"Adormecido Ulisses desembarcam,
Nas mesmas colchas e lençóis envolto;
À sombra da oliveira os dons colocam,
À larga obtidos por mercê de Palas,
Fora da estrada, a fim que não lhos toque,
Antes que ele desperte um viandante,
Isto acabando, para a Esquéria voltam.
" (LIVRO XIII, v. 86-92, p. 239)


Finalmente, Ulisses chega a Ítaca, trazido pelos Feácios. As notas da edição que tenho são muito legais. O professor Medina nos explica que este Livro XIII da epopeia equivale ao início da segunda parte da Odisseia

"Calam-se todos: refere-se ao final da narração de Ulisses, contida nos livros IX-XII, feita para Alcino, e que conta os fatos que lhe haviam ocorrido desde a saída de Tróia até sua chegada à ilha de Calipso. O que lhe vai ocorrer depois, ou seja, o período que vai desde esta chegada até sua boa acolhida entre os Feácios é algo que já foi narrado por Ulisses a Alcino e Areta no fim do livro VII. O livro XIII se distingue totalmente dos anteriores e dá de fato início à segunda parte da Odisseia, onde a ação se desenvolverá de maneira bem mais lenta. Ulisses, uma vez acabado seu 'romance de aventuras', é novamente focalizado na corte de Alcino, e o rei dos Feácios vai preparar agora a viagem de volta do herói a Ítaca. Ora, tanto a viagem como o sonho de Ulisses lembram novamente uma profunda experiência dos limites do homem, arrematada simbolicamente com a transformação do navio dos Feácios num rochedo (daí por diante Atena se faz mais presente); Alcino pode ser, pois, entendido como o rei barqueiro que conduz as almas à ilha dos Bem-Aventurados, sendo, pois, todo episódio dos Feácios considerado como um poema escatológico." (Nota 1, LIVRO XIII, p. 235, Antonio Medina)

Outras duas partes deste livro (ou canto) merecem destaque: a polêmica acerca da possibilidade de se desembarcar dormindo o nosso herói ou não e a deusa Pala mudando a aparência de Ulisses para que ele consiga alcançar sua casa e realizar a sua vingança contra os homens que lá estão há 3 anos dilapidando seu patrimônio e querendo sua esposa.

Os Feácios desembarcam Ulisses dormindo. O tradutor Odorico Mendes faz uma nota muito interessante, discutindo a posição de Aristóteles, que afirma na Poética que há inverossimilhança nesta questão. É fantástico! 

Leio dois séculos depois da tradução da Odisseia para o português um debate entre o maranhense Odorico Mendes (XIX) e Aristóteles (século V a.C.) sobre uma obra de alguns séculos antes da vida do filósofo, a Odisseia é do século VIII a.C.

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"Adormecido Ulisses desembarcam,
Nas mesmas colchas e lençóis envolto;
" (v. 86-87)

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NOTA DE ODORICO MENDES

"Na opinião de Aristóteles, seria esta inverossimilhança intolerável, se as belezas do estilo não fizessem esquecer a pequenez da invenção. Sem embargo da sentença do oráculo da Antiguidade, faria algumas observações a favor do poeta. A inverossimilhança consiste em desembarcarem a Ulisses dormindo sem que ele despertasse. Advirta-se, porém, que depois de quebrar-se o navio onde longamente padeceu, depois de nadar quase três dias com o auxílio da cintura de Leucotéia, depois de escalavrar as mãos nos rochedos, ainda não tinha assaz reparado as forças perdidas: o sono mais salutar foi o que dormiu no bosque antes de lhe aparecer Nausica; porquanto na cidade, onde esteve dois dias, pouco descansou, levando quase todo o tempo a narrar suas aventuras, o que por certo não lhe diminuía o cansaço. Necessariamente, ao chegar ao navio dos Feácios, devera cair em profunda modorra. Tenho visto mudarem-se muitos adormecidos, principalmente meninos, sem darem por si; e o que a idade faz nos meninos, podia fazer em Ulisses a extraordinária fadiga. Se Aristóteles tivesse passado por iguais trabalhos, talvez não teria despertado nem cochilado." (Nota 86-87, LIVRO XIII, p. 239, Odorico Mendes)

No fim deste canto fantástico da Odisseia, a deusa Pala, que agora irá acompanhar o herói até o fim de suas aventuras em Ítaca, decide disfarçá-lo na forma de um velho malvestido para que ele consiga chegar de surpresa e enfrentar aqueles que dilapidam sua casa e seu patrimônio, interessados em desposar Penélope.

"Vou, para ignoto seres, enrugar-te
A lisa pele dos flexíveis membros,
Sumir-te a loura coma, em despiciendos
Andrajos envolver-te, e aos vivos olhos
O brilho embaciar, para que a todos,
Mesmo a filho e mulher, pareças torpe.
" (LIVRO XIII, v. 304-309, p. 245)


Foram bons meus entendimentos de hoje sobre a Odisseia. A leitura dos clássicos da literatura mundial nos permite refletir sobre muitas questões culturais. Intertextualidades entre autores e críticos é uma delas.

Para ler a postagem anterior desta epopeia clássica, clique aqui.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


Odisseia (Homero) - Cila e Caríbdis (XII)



Refeição Cultural

"Cila é que me arrebata uns seis guerreiros
De esforço e brio; olhando para os bancos,
Pernas lhes vejo e braços pelos ares;
Na agonia final por mim bramavam.
" (LIVRO XII, v. 181-184, p. 227)


Neste domingo, retomei a leitura da Odisseia, de Homero. Minha edição é a da tradução do maranhense Odorico Mendes, edição a cargo do professor Medina, da FFLCH.

Neste Canto XII, Ulisses saiu do inferno (Hades) e agora enfrenta as predições que os deuses lhe anteciparam. Terá que enfrentar a tentação do canto das sereias, seus marinheiros com cera nos ouvidos e ele amarrado à viga de sua nau.

Superando esse obstáculo, terá pela frente os desafios tenebrosos de Cila e Caríbdis. Pela cena que ilustrei acima, vê-se que a predição se realizou. O mostro de várias pernas e cabeças Cila devora seis tripulantes da nau de Ulisses.

Mas suas desgraças não param por aí. Foi dito a ele que não permitisse que seus homens comessem os rebanhos que estavam pastando na Ilha dos rebanhos, porque os rebanhos eram do deus Sol. É óbvio que os caras mataram e comeram bois e ovelhas! São humanos, demasiadamente humanos...

O Canto ou Livro XII termina com a vingança dos deuses, que destroçam a nau de Ulisses. Ele se salva sozinho e vai parar na ilha de Calipso, onde passou muito tempo e já conhecemos essa parte da história, narrada nos livros anteriores da epopeia.

Ler aqui a postagem anterior, sobre a leitura do Livro XI.

Abraços a vocês, leitor@s que resistem ao mundo irracional do negacionismo e da destruição massiva do planeta pelo capitalismo.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


sexta-feira, 21 de maio de 2021

Odisseia (Homero) - Encontros no inferno (XI)



Refeição Cultural

"   Três vezes ao materno simulacro
Fui me abraçar, três vezes dissipou-se
Igual ao vento leve ou sono alado.
Mágoa pungiu-me acerba: 'A meus desejos
Te esquivas, minha mãe? Ao colo os braços,
Ambos nos deleitássemos de pranto
Pela casa Plutônica! És vácuo espectro,
Pela augusta Prosérpina enviado
Para agravar meus ais? - 'Não', contestou-me,
'Filho amado, oh!, misérrimo dos homens,
Não te engana a de Júpiter progênie;
É nossa condição depois da morte:
Os nervos carnes e ossos não mais ligam,
A fogueira os consome irresistível;
Tanto que a vida os órgãos desampara,
A alma como visão remonta e voa.
Quanto antes volve à luz, e tudo aprendas
Para à casta Penélope o narrares.'
" (LIVRO XI, v. 151-169, p. 210/211)


Hoje, li o Canto ou Livro XI da Odisseia, de Homero, na tradução de Odorico Mendes, em bela edição a cargo do Antonio Medina (Edusp), com ilustrações de Enio Squeff.

Nesta parte da epopeia de Odisseu (Odisseia), ele narra aos Feácios sua passagem pelo Hades (Inferno). Acho que ir ao inferno atrás de informações ou resolver alguma coisa deve ser complicado porque eu custei a ler o canto, foram quase duas horas. Até pesar o olho pesou. Deve ser coisas do inferno.

Odisseu (Ulisses em latim) vai em busca do adivinho tebano Tirésias para saber sobre sua volta para Ítaca. Lá encontra diversos heróis gregos como Aquiles, Agamêmnon e Ajax. Encontra também sua mãe. A cena que citei acima é muito bonita e triste.

Estava pensando enquanto lia a Odisseia, que vou ler as outras epopeias clássicas. Vou ler a Ilíada em seguida, também na tradução de Odorico Mendes. E depois da Ilíada, vou ler a Eneida, de Virgílio, na tradução de nosso maranhense também: consegui encontrar o livro e o comprei. 

Depois dessa trilogia Ilíada, Odisseia, Eneida, vou ler A divina comédia, de Dante Alighiere. Até hoje só li "O Inferno" e não li as outras duas partes da obra.

Aliás, a passagem de Ulisses pelo Hades nos lembra muito "O Inferno" de Dante.

Repito o que tenho refletido a respeito da vida e dos seres humanos que habitam o planeta Terra: essa vida sob pandemia mundial de coronavírus, sob a desgraça do bolsonarismo no Brasil e caminhando para o fim da vida na Terra sob a hegemonia do capitalismo não tem sido uma vida feliz e plena. A leitura é uma forma de achar razões para seguir, assim como as pessoas que amamos nos dão razões para viver.

Sigamos lendo, tentando não morrer de Covid-19 ou outras mortes severinas e amando as pessoas que amamos. A postagem anterior sobre a Odisseia está no link aqui.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


segunda-feira, 17 de maio de 2021

Odisseia (Homero) - Ulisses no Hades (X)



Refeição Cultural

"A augustíssima ninfa respondeu-me:
'Divo astuto Laércio, constranger-vos
Não quero; mas convém baixeis primeiro
De Prosérpina e Dite à feia estância
O vate a consultar cego Tirésias,
Único morto a quem a infernal Juno
O saber e o pensar tem conservado,
Não sendo os outros mais que aéreas sombras'." (LIVRO X, v. 363-370, p. 202/203)


ULISSES VAI AO INFERNO

O herói grego Odisseu (Ulisses em latim) está contando aos Feácios suas atribulações e desventuras após o fim da Guerra de Troia e de como não conseguiu retornar a sua bela Ítaca. Estou no Canto X da Odisseia, de Homero, na magnífica tradução do maranhense Odorico Mendes.

Circe sugere que Ulisses vá para o Inferno... Explico: a augusta ninfa Circe diz a Ulisses que desça ao Hades para consultar o sábio adivinho tebano Tirésias, para que o herói seja bem sucedido em sua jornada de volta para casa, Ítaca, onde o esperam a esposa Penélope e o filho Telêmaco.

O professor Medina, responsável pela edição que tenho da Odisseia, publicada pela Edusp, colocou uma nota tão importante nesta parte do canto que vou reproduzi-la abaixo. Ela ensina e esclarece muita coisa. Inclusive sobre o Ulysses, de Joyce, que estou relendo ao mesmo tempo em que leio a epopeia homérica.

É a quarta vez que me sentei para ler o clássico e postar algum comentário sobre ele. A postagem anterior pode ser lida aqui.

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TIRÉSIAS (nota do professor Antonio Medina para a Odisseia, na tradução de Odorico Mendes)

"Tirésias: adivinho tebano, que em jovem fora cegado por Atena, de quem havia revelado um segredo. Outra variante testemunha que a cegueira de Tirésias se deveu a uma vingança de Hera, que o punira porque, convidado a mediar uma discussão entre Zeus e sua esposa, Tirésias teria respondido que a mulher sente mais prazer no sexo do que o homem (Tirésias falava com saber de causa, porque sua natureza andrógina implicava o conhecimento dos dois sexos e portanto dos dois prazeres). Por favor de Prosérpina, conservou seus dons de vidente mesmo no Inferno. É uma das figuras mais vigorosas da história da literatura. Aparece também em Édipo-Rei e Antígona, de Sófocles, em As Fenícias e As Bacantes, de Eurípides, no livro III das Metamorfoses de Ovídio, em Mamelles de Tirésias, de Apollinaire, em Édipo, de André Gide, em The Waste Land de Eliot, e em muitos outros; e a Odisseia, no seu conjunto, conheceu sua mais célebre alegoria no romance Ulisses (1922) de James Joyce, onde se conta não apenas a história de Stephen, de Bloom e da cidade de Dublin em um dia. Bloom é Ulisses, Stephen é Telêmaco, Molly é Penélope (sem as virtudes desta), o Ciclope é um fanático irlandês encontrado numa taberna, Nausica é uma bela moça entrevista fugazmente na praia; algumas sugestões ultraparódicas da Odisseia, realizadas num contexto antiépico e 'irônico' estão em Os Ratos, de Dionélio Machado." (Nota 367 in: Odisseia, Edusp, p. 203)


Amig@s leitores, só lendo muito para suportar a tristeza que sinto perante a realidade brasileira. Eu não tenho como perdoar meus conterrâneos após o advento do bolsonarismo. Não tenho. Sei que sou um ser social, animal homo sapiens etc, mas quase que poderia afirmar que não quero mais saber dos seres humanos. Poucos valem a pena.

Ler é fundamental, ler é uma forma de resistência, é uma forma de sobreviver. Tenho tantas obras pra ler que gostaria de seguir vivendo.

William


Post Scriptum: até esta postagem eu não conhecia os clássicos dramáticos de Sófocles. Agora já conheço alguns. Li Édipo Rei e Antígona. Mais duas lacunas culturais preenchidas.


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


sábado, 15 de maio de 2021

Ulysses - Calipso (A Casa)



(*atualizado às 13h, 17/5/21)

Refeição Cultural

"   Abriu num chute a porta torta da casinha. Melhor cuidar pra não sujar essa calça pro enterro. Ele entrou, curvando a cabeça sob o lintel baixo. Deixando a porta entreaberta, em meio ao fedor da barrela mofada e a teias murchas ele soltou os suspensórios. Antes de sentar espiou por uma frincha as janelas do vizinho. O rei estava em sua tesouraria. Ninguém.
     Acocorado no tamborete ele desdobrou seu jornal virando as páginas em cima dos joelhos nus. Alguma coisa nova e fácil. Sem grandes pressas. Segurar um pouquinho (...)
     Tranquilamente leu, contendo-se, a primeira coluna e, cedendo mas resistindo, começou a segunda. A meio caminho, cedendo suas últimas resistências, ele deixou o intestino se aliviar tranquilamente enquanto lia, lendo ainda paciente, bem curada aquela constipaçãozinha de ontem. Espero que não seja grande demais fazer voltar as hemorroidas...
" (JOYCE, 2012, p. 181/182)


Um simples ato de um mortal humano, uma etapa básica de um dos sistemas constitutivos do organismo do homo sapiens: ingerir, triturar, digerir, defecar. Todo ser humano passa por essas etapas das funções do sistema digestório. Engraçado, a burguesia adora falar filmar divulgar a etapa do comer (o que chega a ser uma afronta em meio a tanta fome no mundo)... e essa mesma burguesia acha coisa de outro mundo a etapa seguinte, quando termina o processo da digestão. Culturas. Abstrações humanas.

Joyce fez seus personagens de ficção mais humanos que os humanos, os mortais humanos. Quase ninguém atenta para seus próprios pensamentos, seus fluxos de consciência. Que dirá contar eles para os outros... a gente pensa tanta merda durante nossas horas de vida. Joyce mostrou para seus leitores os pensamentos de seus personagens. As coisas mais comezinhas do pensar de seus personagens ao longo do dia. Essa é a aventura em Ulysses. É uma leitura diferente, exigente, mas seus personagens são nossa imagem e semelhança. São universais.

Estou relendo o clássico de Joyce após duas décadas da primeira aventura. Está vez, bem interessante e diferente, porque somos outros, eu, o tempo, a tradução, o contexto, tudo. 

Para fazer a aventura mais interessante ainda estou aproveitando para ler em poesia a Odisseia de Homero, na tradução fantástica do maranhense Odorico Mendes, eu só havia lido em prosa, e estou mexendo também com os outros joyces que tenho, relendo os Dublinenses, que já li diversas vezes, e quem sabe eu vá ler também o Retrato do artista quando jovem, que nos apresenta o jovem Stephen Dedalus, o Telêmaco do Odisseu irlandês de Joyce.

Na sequência dos capítulos, já passei por "Telêmaco", "Nestor", "Proteu", "Calipso" e "Lotófagos". São as relações que Joyce faz com a Odisseia grega.

Se eu não estivesse lendo a Odisseia nem saberia por que Joyce nomeou o capítulo segundo de "Nestor". Na epopeia homérica, Nestor é um velho sábio, guerreiro aqueu que lutou ao lado de Ulisses (Odisseu) em Troia e conseguiu voltar são e salvo para sua terra, Pilos. Na Odisseia, Telêmaco sai em busca de seu pai e o primeiro lugar no qual para em busca de informações é em Pilos, terra de Nestor. Como Nestor não tinha informações sobre Ulisses, Telêmaco segue até a terra dos feácios.

Stephen Dedalus já passou pela escola onde leciona, teve aquele diálogo com o reitor que lhe falou o que pensa sobre os judeus; depois Dedalus caminhou pela praia e lidamos com o difícil monólogo interior do personagem. Depois fomos para a casa dos Bloom.

Enfim, seguimos na leitura, seguimos na epopeia da vida, enquanto viajo por Dublin, pela Grécia antiga, viajo pela nossa existência ameaçada pelas diversas formas de mortes severinas, até por um reles vírus ao qual estamos expostos sem vacina, que já existe, mas que não tomamos porque estamos sob um regime político genocida, de homens maus, de bandidos, governantes que optaram por não comprar vacina para o povo, que deve se virar sozinho, sem auxílio de deuses nem de reis (porque nossos conhecidos colocaram eles lá no poder, os canalhas).

William


*Post Scriptum

Achei melhor mudar o título, coloquei "Calipso" no lugar de "Nestor" porque é mais adequado. A sequência da leitura após essa postagem está aqui.


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


segunda-feira, 10 de maio de 2021

Odisseia (Homero) - Ciclope Polifemo (IX)



Refeição Cultural

"    Renovo a taça ardente, que três vezes
Néscio esgotou. Sentindo-o já toldado,
Brando ajunto: 'Ciclope, não me faltes
À promessa. Meu nome tu perguntas?
Eu me chamo Ninguém, Ninguém me chamam
Vizinhos e parentes'. O ímpio e fero
Balbuciou: 'Ninguém, depois dos outros
Último hei de comer-te; eis meu presente'.
" (LIVRO IX, v.276-283, p. 183)


Manhã de segunda-feira, 10 de maio. Antes de lidar com as coisas do cotidiano de uma vida obreiro-retirada brasileira, daqui de minha Osasco-Ítaca, leio o Canto IX da Odisseia, de Homero.

Nos primeiros quatro cantos da epopeia homérica, a "Telemaquia", tomamos conhecimento do que se passa em Ítaca, terra de Odisseu (Ulisses em latim), guerreiro grego que enfrentou os troianos e muitos anos após a vitória ainda não havia retornado para sua esposa Penélope, seu filho Telêmaco e seu reino. Telêmaco sai em busca de notícias de seu pai. Ver postagem sobre essa leitura aqui.

Nos cantos seguintes, de V a VIII, soubemos de Ulisses, cativo da ninfa Calipso. Em uma assembleia dos deuses do Olimpo, decide-se que a ninfa deve deixar o grego partir. Em uma jangada ele parte, Netuno (Poseidon) fica puto com tudo isso e dificulta as coisas para o herói. Mas ele é salvo de novo pela deusa Palas Atena (Minerva). O herói vai parar na ilha dos Feácios, donde está agora nos cantos que começo, do IX adiante. Fiz uma postagem sobre essa leitura: ver aqui.

O canto IX é uma das passagens mais empolgantes da Odisseia porque os gregos irão enfrentar o gigante ciclope Polifemo. A coisa é violenta e sanguinária. As cenas nada ficam a dever em relação ao anime Ataque dos Titãs (Shingeki no Kyojin). Esse ainda não assisti, mas está na fila dos animes a ver.

As cenas são fortes... (tirem as crianças da frente da postagem).

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"Ei-lo, sevo e em silêncio, a dois agarra,
No chão como uns cãezinhos os machuca,
E o cérebro no chão corre espargido;
Os membros rasga, e lhes devora tudo,
Fibra, entranha, osso mole ou meduloso,
Qual faminto leão...
" (LIVRO IX, v.218-223, p. 181)

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É forte a cena, heim! (No vídeo, no final, eu confundi e falei "Canto V", mas na verdade é Canto IX, sorry!)

Depois, quando Ulisses usa de suas artimanhas para enfrentar o gigante, vamos ver outra cena forte. O ciclope ficou bêbado após Ulisses lhe oferecer vinho e ao dormir assim chapadão soluça e vomita pedaços dos guerreiros comidos. Amig@s, isso foi escrito há milhares de anos!

Enfim, estou lendo a Odisseia em versos, na tradução fantástica do maranhense Odorico Mendes, em edição belíssima a cargo do professor Medina, da FFLCH, mestre já falecido, mas que tive o privilégio de ser aluno nas aulas de literatura grega.

Leiam, amigas e amigos leitores, porque leitura é uma forma de alimento d'alma, de nosso ser, já que nossa essência está na absorção das experiências que acumulamos ao longo da vida. Minha leitura da Odisseia é motivada pela minha releitura de Ulysses, de James Joyce, já que o clássico da Literatura Irlandesa tem como referência o clássico grego.

William



Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Odisseia (Homero) - Ulisses e os Feácios (V a VIII)



Refeição Cultural

"   'Despede-o já', replica-lhe Mercúrio;
'Nunca irrites a Júpiter, nem queiras
Irado experimentá-lo.' Disse, e foi-se.
     Dócil, a ninfa se dirige à praia
Onde Ulisses longânimo gastava
A doce vida, os olhos nunca enxutos,
Saudoso e enfastiado, pois com ela
Por comprazer dormia constrangido.
E gemebundo, o ponto contemplando,
Passava o dia em litoral penedo.
Rosto a rosto lhe fala a deusa augusta:
'Cesse o pranto, infeliz, não te consuma
Parte, consinto. Abate a bronze troncos
De alto soalho ajeita ampla jangada,
Em que o sombrio páramo atravesses:
De pão te hei de prover e de água e vinho,
De agasalhada roupa; auras favônias
Te levarão seguro à terra cara,
Se esta for dos Supremos a vontade,
Que em saber e juízo me superam'.
" (LIVRO V, v.108-127, p. 128/129)


Nesta quarta-feira, dediquei minhas horas de leitura ao clássico de Homero, a Odisseia. Depois dos primeiros 4 cantos (ler comentário aqui), a "Telemaquia", desta vez li os cantos de V a VIII, que tratam do contato e recepção dos Feácios a Ulisses, após este partir da ilha de Calipso, onde estava retido.

Ao ler a passagem acima, me lembrei da "Introdução" ao Ulysses, de James Joyce, um texto magnífico do intelectual Declan Kiberd, texto que abre a edição que ganhei de meu amigo Sérgio Gouveia. Vamos começar a leitura nos próximos dias. 

O Ulisses grego é o dócil herói que Joyce decidiu ter por modelo para o seu Bloom, um "homem feminil" como diz Kiberd. Nestes cantos que li hoje o Ulisses é um "chorão", alguém emotivo e saudoso de sua bela Penélope, seu filho Telêmaco e sua Ítaca.

À medida que vou lendo o clássico homérico vou me lembrando das aulas que tive na universidade. O papel das narrativas épicas na cultura do povo grego é muito interessante: a forma como os gregos lidavam com os mitos, os deuses gregos com suas características humanas (antropomorfismo), as tradições e costumes, enfim, tudo volta à memória com a leitura da epopeia.

A leitura do clássico grego ao tempo em que vou ler o Ulysses de Joyce é uma estratégia que tende a enriquecer ambas as leituras e torná-las muito mais agradáveis e cheias de sentido.

É isso. Viajar nos clássicos enquanto não podemos viajar na vida real é uma forma de resistência ao momento em que vivemos: um mundo sob pandemia mundial de Covid-19 e o Brasil sob uma pandemia trágica de bolsonarismo, a banalidade do mal.

Se tiverem que preencher seus tempos ociosos, leiam os clássicos, dividam seus tempos dedicados a outras formas de cultura deixando um bocadinho para a leitura de obras que impactaram e influenciaram a história da cultura humana.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


sábado, 1 de maio de 2021

Ulysses - Introdução de Declan Kiberd



Refeição Cultural

Sábado, 1º de maio. No mundo do trabalho é um dia de lutas e reflexões da classe trabalhadora. Este é um dos piores 1º de Maio do povo brasileiro em sua história. Tragédia total sob o regime fascista e genocida de milicianos alçados ao poder pelos grupos que executaram um golpe de Estado no Brasil em 2016. 

Desemprego, fome do povo, destruição dos direitos sociais e patrimônios públicos, destruição da Amazônia, Pantanal e ecossistemas, aparelhamento do Estado pelo crime organizado, mais de 400 mil mortos por Covid-19. Este é o cenário no qual nos encontramos. Estou em casa, numa condição privilegiada em relação aos meus pares da classe trabalhadora. Sigo focado em ler, obter conhecimento, me tornar uma pessoa melhor, dar significado às coisas.

Vou iniciar a releitura de um grande clássico da literatura mundial, um dos romances mais impactantes do século XX: Ulysses, do escritor irlandês James Joyce, publicado em 1922. Li esta obra aos trinta anos. Agora vou me aventurar nela novamente. Eu sou outro, o mundo é outro, é provável que a obra seja outra, ao menos para mim. 

A leitura será bem interessante. Ganhei de presente a edição que vou ler, traduzida por Caetano W. Galindo e com uma introdução do irlandês Declan Kiberd. O presente foi de meu amigo Sérgio Gouveia, estudamos juntos na USP e hoje ele é professor e mora no interior de São Paulo. Vamos ler juntos o livro nas próximas semanas. Fizemos isso semanas atrás com o Moby Dick, do norte-americano Herman Melville.

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"Em considerações como essas é possível encontrar a resposta para questão tantas vezes feita pelos leitores do Ulysses: se Joyce queria embasar sua narrativa numa lenda antiga, por que se voltou para os mitos gregos, e não para os gaélicos? Cúchulainn já tinha sido apropriado pelos nacionalistas militantes de Dublin, cuja política era incompatível com o pacifista e internacionalista Joyce. Desde sua juventude, ele se sentiu mais atraído pela humanidade calorosa de Ulisses. O herói épico não queria ir à Troia, recordava Joyce, porque considerava que a guerra não passava de um pretexto empregado pelos mercadores em sua busca por novos mercados. A analogia com a Europa contemporânea mergulhada na carnificina para garantir lucro aos barões da indústria do aço não se perderia naquele que se autointitulava um 'artista socialista'." (p. 19)

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A introdução de Kiberd é uma senhora introdução! São quase 90 páginas. Comecei a leitura do livro por ela porque já conheço a obra e não vou me decepcionar com eventual spoiler (e há). As informações e as reflexões do autor a respeito de Joyce, do Ulysses e do contexto da época são simplesmente fantásticas!

Lembra do cenário que descrevi sobre nós, brasileiros: destruição do país, fome e desemprego, 400 mil mortos etc? Joyce escreveu Ulysses entre 1914 e 1921, ou seja, durante a 1ª Guerra Mundial. Ele teve que se deslocar durante a guerra e seguiu escrevendo assim mesmo, em meio ao morticínio que o mundo viveu.

Li umas 30 páginas hoje e as reflexões a partir da leitura foram profundas. Novos conhecimentos após ler Kiberd: a relação entre Ulysses e a Odisseia de Homero; a questão do pacifismo em Joyce, em Leopold Bloom e no Odisseu grego (Ulisses na forma latina). Quanta informação obtive hoje, informação que vai fazer a releitura do clássico ser muito mais proveitosa que a primeira vez!

É isso. Estamos começando essa viagem. Também estou lendo a Odisseia de Homero, só que agora em versos, na "transcriação" do intelectual maranhense Odorico Mendes. São viagens, viagens. É uma das coisas que podemos fazer neste momento de nossas vidas, recolhidas no isolamento social para evitar o contágio e morte pelo novo coronavírus: viajar através da literatura.

Abraços aos leitores e leitoras que por acaso passarem por aqui.

William


Bibliografia:

JOYCE, James. Ulysses. Tradução de Caetano W. Galindo. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.


sexta-feira, 30 de abril de 2021

Odisseia (Homero) - Telemaquia, Livro I a IV



Refeição Cultural

"Já farta a vista, em limpa cuba os lavam
E ungem de óleo as escravas, que, em felpudos
Albornozes, e túnicas macias,
Do soberano a par os apoltronam.
De gomil de ouro às mãos verte uma delas
Água em bacia argêntea, a mesa lustra,
Que enche a modesta afável despenseira
De pães e das presentes iguarias;
Escudelas de várias novas carnes
O trinchante apresenta e copos de ouro.
Dá-lhes a destra e fala Menelau:
'Comei, saboreai; depois da ceia,
Saberemos quem sois. De escura estirpe
Certo não vindes, mas de heróis cetrados:
Gérmen vil não rebenta em plantas nobres'.
" (LIVRO IV, v.36-50, p. 104)


Nesta quinta-feira, 29 de abril, comecei a leitura da Odisseia, de Homero. Estou centrado na leitura dos clássicos da literatura mundial e esta obra atribuída ao aedo Homero podemos considerá-la como o clássico dos clássicos. Deu um trabalhão chegar aonde queria chegar na leitura do dia - os 4 primeiros cantos ou livros, também chamados "Telemaquia" -, mas cheguei. Estou focado nos meus objetivos literários.

A escolha da Odisseia como uma das leituras da vez teve um contexto, como quase tudo na vida. Um acaso que leva a outro, veredas que escolhemos e seguimos. 

Quando li Moby Dick, nas últimas seis semanas, um amigo decidiu ler o clássico de Melville também. Ao terminarmos, ele me propôs lermos Ulisses, de Joyce. Topei. Vamos viajar por Dublin e pela linguagem joyceana nas próximas semanas. Para incrementar minha releitura de Ulisses, resolvi ir à fonte de referência e inspiração do escritor irlandês: a Odisseia. E em versos, que não é tarefa fácil. Eis porque Homero foi o desafio linguístico do dia e dos próximos dias.

Desde que passamos a viver sob a condição de isolamento social e perda da normalidade no cotidiano de nossas vidas, com a pandemia mundial de Covid-19, passei a perseguir com um pouco mais de firmeza o meu desejo de ler uma centena de obras clássicas. A primeira leitura de peso dessa fase pandêmica foi a leitura do Decameron, de Giovanni Boccaccio, de 1353. Foram mais de 800 páginas. Li uma narrativa por dia, em cem dias. Depois fui lendo outros clássicos e não clássicos. E aqui estou com mais uma empreitada literária.

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ODISSEIA

Li os 4 primeiros cantos da Odisseia na tradução de Odorico Mendes e numa edição especialíssima da Edusp a cargo do professor Antonio Medina Rodrigues. Poderia dizer que li a "transcriação" do nosso tradutor maranhense, como diz o crítico e poeta Haroldo de Campos. O professor Medina nos diz que os 4 cantos iniciais podem ser chamados de "Telemaquia" porque têm o jovem Telêmaco como objeto. Telêmaco vai voltar lá no Canto XV.

A leitura não é fácil. É um tremendo exercício para meus 86 bilhões de neurônios que atuam em conjunto dentro do cérebro - O verdadeiro criador de tudo -, como nos explica em livro o neurocientista Miguel Nicolelis (estou lendo o livro).

Uma das coisas que me chamam a atenção desde a época das aulas sobre a cultura grega é a forma de tratamento aos forasteiros, aos outros. Primeiro, as pessoas eram acolhidas em casa, tinham suas mãos e pés lavados, eram alimentadas e só depois disso é que se perguntava aos forasteiros quem eram, de onde vinham, o que queriam, como se poderia ajudá-los. Na Odisseia esse traço cultural aparece a todo momento (veja na citação acima).

CAVALO DE TRÓIA

O herói Ulisses (Odisseu no original em grego) será imortalizado na cultura mundial, assim como outros heróis gregos (Ajax, Aquiles etc). Uma passagem bastante clássica é uma referência sobre o Cavalo de Tróia, uma ideia do nosso herói Ulisses, o "engenhoso". Nesta passagem abaixo, Menelau fala com a esposa, Helena, sobre o engenho de Ulisses. Helena é aquela tida como responsável pela guerra entre gregos e troianos.

"O marido aplaudiu-a: 'Sim, consorte,
Muito hei peregrinado, heróis vi muitos;
Paciente, engenhoso, e forte e sábio,
Quando ideou, quanta mostrou constância,
No cavalo artefato, em que os melhores
Clade e exício aos Trojúgenas levamos!...
" (LIVRO IV, v.210-216, p. 109)

A linguagem poética não é simples porque não é prosaica e por diversos outros motivos. Mas com um pouco de esforço, os leitores conseguem vencer a barreira linguística e seguir adiante. Muitos livros têm notas explicativas que ajudam bastante. Esta edição a cargo do professor Medina tem notas muito boas.

Demorei quase uma hora por canto ou "livro", sério mesmo! Mas fiz a leitura do jeito que acho ideal. Lia em voz alta, relia. Só o Canto IV foi mais truncado, porque o dia avançava e tive muitas interrupções, aí ficou mais difícil.

Enfim, seguimos nas leituras clássicas.

William


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. - 2. ed. - São Paulo: Ars Poetica: Editora da Universidade de São Paulo, 1996. - (Coleção Texto & Arte; 5).


terça-feira, 27 de abril de 2021

Viagens linguísticas



Refeição Cultural

Terminada a aventura a bordo do Pequod, passando um tempo de meus dias atribulados junto ao capitão Acab e sua tripulação, à caça da baleia branca Moby Dick, me preparo agora para novas aventuras literárias, novas viagens a novas culturas e novas viagens para dentro de mim mesmo, meu cérebro e o que sou.

Eu e o amigo Sérgio Gouveia vamos embarcar na companhia de Leopold Bloom e vamos perambular pela Dublin do início do século XX durante o longo dia 16 de junho de 1904. Para meu amigo, será a novidade de um dos romances mais icônicos da literatura mundial; para mim, será a releitura da obra duas décadas após minha epopeia joyceana. 

Ulisses, de James Joyce, é sobretudo uma viagem linguística. Assim como outras obras do gênero romance com linguagens pouco comuns aos leitores, o romance de Joyce é uma leitura exigente. Me deu trabalho da primeira vez. Vamos ver agora.

Para tornar mais interessante a leitura do Ulisses de Joyce, decidi ler ao mesmo tempo a obra referência de Ulisses, a Odisseia, de Homero. E vou ler a Odisseia em versos, coisa que nunca terminei, pois comecei e larguei. Já li a Odisseia em prosa para tomar conhecimento do clássico e atender às necessidades acadêmicas.

Sendo assim, daqui a poucos dias começo a viagem pela Dublin de Leopold Bloom, Molly Bloom e Stephen Dedalus. Antes, vou fazer a arrumação necessária da casa, deixada um pouco de lado durante a viagem a bordo do baleeiro Pequod.

Para iniciar as novas viagens linguísticas, li entre ontem à noite e hoje de manhã mais de 50 páginas de ensaios e textos críticos contidos na minha edição especial da Odisseia, uma edição da Edusp à cargo do professor Antonio Medina, já falecido. Tive aula com o Medina na FFLCH e nunca mais vou me esquecer daquelas aulas. Eram fantásticas! 

Os textos que li do professor Medina e do poeta e crítico Haroldo de Campos foram centrais para iniciar a leitura da Odisseia e de Ulisses. Os textos abordaram a questão da linguagem, das traduções e foram motivados por causa da figura polêmica do tradutor da edição que tenho, Manuel Odorico Mendes, um grande intelectual maranhense do século XIX.

Odorico Mendes é tratado de forma dura e até descortês pelo crítico de literatura brasileira Sílvio Romero e também por nosso mestre Antonio Candido. Em sua defesa lemos Haroldo de Campos e o professor Medina. Quanta reflexão pude ler nas 50 páginas de críticas de minha edição! Talvez comente durante as leituras dos clássicos parte dos conceitos apreendidos ali.

E não é que fui até a estante para dar uma olhada em qual tradução em verso eu tinha da Ilíada de Homero e para minha surpresa também é uma tradução de Odorico Mendes! A gente nem sabe tudo o que tem em casa...

Enfim, vamos começar a arrumação da casa, porque depois vamos embarcar em longas viagens, em viagens fantásticas, sem dúvida! Alguém mais se habilita para essas viagens?

Boas leituras, amigas e amigos leitores!

William


sábado, 17 de março de 2012

Odorico Mendes: O patriarca da transcriação in "Odisseia", de Homero


Por: Haroldo de Campos

(Como havia prometido, segue o belo e esclarecedor texto do intelectual Haroldo de Campos abrindo a Odisseia de Homero, na edição do professor Antonio Medina Rodrigues)

(para facilitar a leitura, criei parágrafos para o "respiro" do leitor, pois o original tem apenas um parágrafo. Peço licença ao mestre Haroldo de Campos)

Odorico Mendes - Wikipedia

Odorico Mendes (1799-1864) é o patriarca da tradução criativa - da "transcriação" - no Brasil. Pertence nominalmente ao pré-romantismo neoclássico. Sousândrade, também helenista e fileleno, seu discípulo, ainda mais radical nas inovações lexicais e sintáticas da língua, chamava-o "pai rococó" (e na medida em que o período Rococó seja, "em muito, uma derivação e uma particularização do Barroco", na expressão de Emilio Carilla, essa caracterização poética poderá mesmo assumir valor estilístico-epocal). 

O pioneirismo odoriciano no enfoque dos problemas da tradução (tanto na prática desta, como nas notas teóricas que deixou a respeito) só poderá ser devidamente avaliado se pusermos em relevo, como traço marcante de todo seu trabalho no campo, a concepção de um sistema coerente de procedimentos que lhe permitisse helenizar ou latinizar o português, em lugar de neutralizar a diferença dessas línguas originais, rasurando-lhe as arestas sintáticas e lexicais em nossa língua. 

Em "Da Tradução como Criação e como Crítica" (ensaio de 1962, hoje em Metalinguagem & Outras Metas, São Paulo, Perspectiva, 1992), tive a ocasião, há exatamente 30 anos, de rebater a crítica preconceituosa de Sílvio Romero, que considerava as traduções de Odorico "monstruosidades" escritas em "português macarrônico". Esse juízo depreciativo, não obstante o ponto de vista em contrário de filólogos, maiores ou menores, como João Ribeiro, Silveira Bueno e Martins de Aguiar (o primeiro dos quais, este, um espírito de muito bom quilate, soube apreciar também o bizarro Sousândrade e o desabusado Oswald), acabou por prevalecer e dar o tom. 

Pouco pesou o elogio tributado por José Veríssimo a Odorico, chamando-o "insigne tradutor", já que este apelativo foi de imediato neutralizado com um juízo desqualificador do trabalho da tradução como um todo, reputado por Veríssimo tarefa para "homens de pouco engenho" (o autor da História e dos Estudos de literatura brasileira, aliás, não era amigo de "extravagâncias"; no mesmo texto em que malcompreendeu o nosso Simbolismo, desconsiderou Sousândrade, o discípulo maior de Odorico, indigitando-o como culpável mestre dos "nefelibatas" patrícios, cultores, segundo o crítico, de uma "forma estéril e manca de esnobismo").

Importa, sim, destacar, neste contexto, que a sentença condenatória de Sílvio Romero recebeu contemporaneamente o endosso de Antonio Candido. O autor da Formação da Literatura Brasileira (1959) carrega ainda mais na tinta, usando expressões como "bestialógico", "preciosismo do pior gosto", "pedantismo arqueológico" e "ápice de tolice", para se referir ao legado tradutório do maranhense (caracterizações depreciativas essas que mais relevam, se tivermos em mente a recepção benévola que o conceituado crítico reserva para outro tradutor de período pouco anterior, o Pe. Sousa Caldas, 1762-1814, autor, pelo flanco da Vulgata latina, de versões indiretas dos Salmos bíblicos, dessoradas por um tardo-classicismo de pendor árcade e por uma equivocada concepção quanto à natureza da poesia hebraica).

A propósito  do conceito "macarrônico", usado pejorativamente por Sílvio Romero, lembrei que "o preconceito contra o maneirismo não pode ter mais vez para a sensibilidade moderna, configurada por escritores como o Joyce das palavras-montagem e o nosso Guimarães Rosa, das inesgotáveis invenções vocabulares" (algumas delas, aliás, ainda hoje indigitadas por um crítico conservador, Wilson Martins, como sendo - precisamente - "monstruosidades"...).

Em "A Palavra Vermelha de Hoelderlin", estudo de 1967 (A Arte no Horizonte do Provável, São Paulo, Perspectiva, 1969; várias reedições), aproximei o caso das traduções greco-latinas de Odorico ao das transposições sofoclianas de Hoelderlin (tratadas, à época de seu aparecimento, como "um dos mais burlescos produtos do pedantismo"). Lembrei o represtígio desse ousado labor tradutório hoelderliniano junto ao círculo de Stefan George e na ensaística de Walter Benjamin. Insisti então na necessidade de se reconsiderar o legado odoriciano, inspirado por preceitos não diversos, em essência, daqueles sustentados por Rudolf Pannwitz e endossados por W. Benjamin, no sentido de que o tradutor, ao invés de "fixar-se no estágio em que, por acaso, se encontra sua língua", deve tomar rumo oposto e mais árduo, ou seja, "submetê-la ao impulso violento que vem da língua estrangeira".

Uma noção que Odorico terá haurido, a seu modo, em fonte vernácula, na Carta em Defesa da Língua (1790) de seu mestre Filinto Elísio: "O modo de aperfeiçoar a língua materna é enxertando nela o precioso das outras. Temos o exemplo antigo da língua romana, que se fez abastada com as riquezas que tirou da grega".

Recentemente ("Para Transcriar a ilíada", Revista USP, nº 12, dez./jan./fev. 1991-92), procurei mostrar que o veredicto com o qual Sílvio Romero interditara o acesso das traduções odoricianas ao decorum das letras pátrias poderia ser posto facilmente ao revés, desde que o lêssemos a contrapelo, através do crivo filosófico da "desconstrucionista" Gramatologia (1967) de J. Derrida, para quem: "O futuro só se pode antecipar na forma do perigo absoluto. Ele é o que rompe absolutamente com a normalidade constituída e por isso somente se pode anunciar, apresentar-se, sob a espécie da monstruosidade". A empresa odoriciana, de fato, pode-se dizer, projetou-se no futuro. Basta referir que, na França contemporânea, um dos feitos mais notáveis em matéria de tradução criativa é, justamente, uma subversiva Eneida recriada por Pierre klossowski (Gallimard, 1964), que se rebela contra as convenções gramaticais rígidas do país de Malherbe, no empenho de reconfigurar o "aspecto deslocado" da sintaxe latina, num gesto antinormativo que o teórico da tradução Antoine Berman (L'Épreuve de l'Etranger, Gallimard, 1984), examinando o caso de klossowski ao lado do de Hoelderlin, faz corresponder a uma crise do "etnocentrismo" em cultura.

Das mais oportunas, portanto, a iniciativa da Edusp de apresentar ao público esta admirável Odisseia brasileira de Odorico Mendes, reintroduzindo uma obra fundamental, há muito esgotada, no fluxo sanguíneo de nossa literatura, e fazendo-o numa cuidadosa reedição, a cargo de Antônio Medina Rodrigues, professor de grego e estudioso do notável humanista maranhense. 

Medina, autor de duas dissertações universitárias sobre as traduções odoricianas (uma, de mestrado, sobre a Eneida Brasileira; outra, doutoral, sobre o contributo homérico do grande maranhense), levou a efeito um meticuloso trabalho de apuração e comentário do texto desta Odisseia em vernáculo, cuja primeira publicação só ocorreu anos após a morte de seu recriador brasileiro. 

Deu-nos, assim, com o estudo introdutório que também elaborou para este volume, um paradigma de como tratar criteriosamente, no nível editorial, o texto complexamente belo desta rapsódia helênica, onde raia, revisualizada e ressonorizada em nossa língua, a "dedirrósea Aurora" de Odorico, - que fora rhododáctylos Éos em Homero e haveria de ser "a homérea rododáctila Aurora" em Sousândrade - elos, todos eles, entreunidos, de uma só música.

...................................HAROLDO DE CAMPOS, 1992


Bibliografia:

HOMERO. Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes. Edição de Antonio Medina Rodrigues. Edusp. 




COMENTÁRIO DO BLOG:

O texto de Haroldo de Campos é sobretudo uma aula de crítica literária e de filologia. Espero que os alunos de letras que aqui chegarem, apreciem o teor da defesa de Campos no que diz respeito à criatividade necessária para se enfrentar o desafio da tradução.

Eu li o Ulisses de James Joyce, na tradução de nosso filólogo Antônio Houaiss. Uma tradução brasileira feita em 1966. Agora tem uma nova tradução de Bernardina da Silva Pinheiro de 2005, a qual é especializada em tradução de literatura. O texto e os desafios enfrentados por ela devem ter sido muito interessantes e gostaria de ler a nova tradução da obra de Joyce.

Traduzir é ter criatividade para buscar repercutir em outra língua a intenção do autor original.

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