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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Dom Quixote de La Mancha - Cervantes (7)


Eu com Cervantes em Toledo, 2009


Refeição Cultural

"Pagan a las veces justos por pecadores" (El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1, Miguel de Cervantes)


Tive o privilégio de ler o clássico de Miguel de Cervantes no início dos anos dois mil, eu havia entrado na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo naquele momento. Li uma edição comemorativa da Alfaguara na ocasião dos 400 anos de lançamento da obra.

Foi uma das maiores aventuras literárias de minha vida. Ri e chorei enquanto lia as aventuras e desventuras de Dom Quixote e de seu fiel escudeiro Sancho Pança.

Pegar e ler qualquer capítulo dos dois volumes é um ato de prazer, de satisfação e de comemoração à capacidade humana para a construção de coisas grandiosas quando os humanos se dedicam a fazer coisas boas. Miguel de Cervantes nos legou Dom Quixote e Sancho Pança. Só temos a agradecer a ele por isso.

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CAPÍTULO 7

"De la segunda salida de nuestro buen caballero don Quijote de la Mancha"


Os "amigos inquisidores" de nosso aficionado leitor, Alonso Quijana, ainda estavam expurgando os livros de sua biblioteca, alimentando a fogueira no quintal com volumes de cavalarias, poesia, novelas e quase tudo que o ancião tinha, quando o acamado cavaleiro começou seus delírios e chamou a atenção do cura e do barbeiro.


Aquella noche quemó y abrasó el ama cuantos libros había en el corral y en toda la casa; y tales debieron de arder, que merecían guardarse en perpetuos archivos; mas no lo permitió su suerte y la pereza del escrutiñador, y así se cumplió el refrán en ellos de que pagan a las veces justos por pecadores.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1 [Spanish Edition]” por “Miguel de Cervantes”)


Nosso cavaleiro andante encontra seu fiel escudeiro Sancho Pança:


En este tiempo solicitó don Quijote a un labrador vecino suyo, hombre de bien (si es que este título se puede dar al que es pobre), pero de muy poca sal en la mollera. En resolución, tanto le dijo, tanto le persuadió y prometió, que el pobre villano se determinó de salirse con él y servirle de escudero.” (ibidem)


Sancho Pança aceita convite do vizinho Alonso Quijana, agora cavaleiro andante:


Con estas promesas y otras tales, Sancho Panza (que así se llamaba el labrador) dejó su mujer e hijos, y asentó por escudero de su vecino.


Poderia um honrado cavaleiro ter ao seu lado um escudeiro montado num burrico?


En lo del asno reparó un poco don Quijote, imaginando si se le acordaba si algún caballero andante había traído escudero caballero asnalmente; pero nunca le vino alguno a la memoria; mas con todo esto determinó que le llevase, con presupuesto de acomodarle de más honrada caballería en habiendo ocasión para ello, quitándole el caballo al primer descortés caballero que topase.


E então, cavaleiro andante e fiel escudeiro tomaram as veredas do Campo de Montiel em busca de aventuras e ilhas a serem conquistadas:


Acertó don Quijote a tomar la misma derrota y camino que él había tomado en su primer viaje, que fue por el Campo de Montiel...


Sancho gostaria de ser rei para que sua companheira, Juana Gutiérrez, fosse rainha e os filhos infantes, mas ele não acreditava que isso pudesse acontecer:


- Yo lo dudo - replicó Sancho Panza-, porque tengo para mí que, aunque lloviese Dios reinos sobre la tierra, ninguno asentaría bien sobre la cabeza de Mari Gutiérrez. Sepa, señor, que no vale dos maravedís para reina; condesa le caerá mejor, y aun Dios y ayuda.


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Os comentários do capítulo anterior podem ser lidos aqui.

Sigamos lendo e nos mantendo humanos.

William

sábado, 17 de maio de 2025

Dom Quixote de La Mancha - Cervantes (6)


Dom Quixote, de Gustave Doré.


Refeição Cultural

"Causó risa al licenciado la simplicidad del ama, y mandó al barbero que le fuese dando de aquellos libros uno a uno, para ver de qué trataban, pues podía ser hallar algunos que no mereciesen castigo de fuego." (El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1. Miguel de Cervantes)


Nosso valoroso e bem-intencionado Alonso Quijana, um aficionado leitor de livros de cavalaria da região castelhana de La Mancha (no ano 1605), está dormindo em sua cama, após sofrer as primeiras desventuras como cavaleiro andante. Ele foi encontrado por um vizinho, Pedro Alonso, após uma surra que levou de mercadores de Toledo (leitura anterior aqui).

Enquanto dorme e se recupera, seus amigos - o sacerdote Pero Pérez (el cura) e o barbeiro maese Nicolás -, e sua ama e sobrinha, decidem queimar os livros do fidalgo leitor. Vão seguir a cartilha da "santa inquisição" e meter no fogo tudo o que cause transtorno à ordem vigente, no caso, os livros que mexeram com as ideias do pacato leitor.

A cena é perturbadora. Enquanto o leitor apaixonado por seus livros dorme e se recupera de suas aventuras com pauladas, socos e pontapés, as pessoas de sua confiança tacam fogo em seu bem mais precioso: sua biblioteca.

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CAPÍTULO 6

"Del donoso y grande escrutinio que el cura y el barbero hicieron en la librería de nuestro ingenioso hidalgo"


O escrutínio dos livros de nosso fidalgo leitor começa por "Los cuatro", de Amadís de Gaula, o primeiro livro do gênero de cavalarias impresso na Espanha. O inquisidor - o cura - o condenou ao fogo... e o salvou da fogueira o auxiliar do "licenciado", o barbeiro, que clamou pela vida do livro de Amadís.

Na inquisição dos livros de Alonso Quijana, tem uma passagem interessante: o cura fala sobre a questão da tradução, ao falar das obras do poeta italiano Ludovico Ariosto (1474-1533), afirmando que só salvará da fogueira os livros dele na língua original, pois a versão para outro idioma como, por exemplo, o castelhano, "tirava muito do valor natural da obra".

“y aquí le perdonáramos al señor capitán que no le hubiera traído a España y hecho castellano, que le quitó mucho de su natural valor; y lo mesmo harán todos aquellos que los libros de verso quisieron volver en otra lengua; que, por mucho cuidado que pongan y habilidad que muestren, jamás llegarán al punto que ellos tienen en su primer nacimiento.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1 [Spanish Edition]” por Miguel de Cervantes)

O que os leitores verão é que poucos livros de cavalaria se salvarão da condenação à fogueira. Os de poesia terão o mesmo destino, tirando um ou outro que os inquisidores vão pegar para si mesmos (roubo, né?), privando o senhor Alonso de sua biblioteca.

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LA GALATEA se salvou...

“- La Galatea, de Miguel de Cervantes - dijo el barbero. 

- Muchos años ha que es grande amigo mío ese Cervantes, y sé que es más versado en desdichas que en versos. Su libro tiene algo de buena invención, propone algo, y no concluye nada; es menester esperar la segunda parte, que promete; quizá con la enmienda alcanzará del todo la misericordia que ahora se le niega; y entre tanto que esto se ve, tenedle recluso en vuestra posada.”

Cervantes tinha uma obra publicada ainda no século anterior, o XVI. A novela pastoril "Primera parte de la Galatea", que foi publicada em 1585, em Alcalá de Henares (Wikipedia). 

A professora Maria Augusta da Costa Vieira, da FFLCH, diz que a publicação é de 1581, logo após Cervantes retornar dos 5 anos de cativeiro em Argel. Fui aluno dela na Letras.

O inquisidor, o sacerdote Pero Pérez, disse ser amigo do escritor Cervantes e livrou La Galatea do expurgo e da fogueira por acreditar que a segunda parte da obra, nunca publicada, poderia salvá-la da danação. (A novela pastoril é inacabada)

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COMENTÁRIO FINAL

As aventuras e desventuras do engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha estão entre nós há mais de quatro séculos. Elas nos inspiram há muito tempo.

O livro e os personagens começaram como uma crítica aos livros de cavalaria, os best sellers da época, e foram ganhando outras leituras ao longo de sua história de vida, de leituras e de leitores.

Ao ler qualquer capítulo dos dois volumes de Dom Quixote, e a qualquer tempo, a leitora e o leitor acabam por encontrar acontecimentos, conceitos e reflexões que valem para si e que podem contextualizar o momento da leitura. Essa é a magia de uma obra universal!

Ao longo de quatro séculos, livros foram expurgados e lançados ao fogo. 

Ao longo desses últimos quatro séculos, pessoas idealizaram e saíram por aí para desfazer injustiças e mudar o mundo para honra de si próprias e para o bem de suas comunidades.

O personagem Dom Quixote de La Mancha inspira seres humanos há mais de quatro séculos.

Leiam, leiam, amigas e amigos leitores, se desconectem por algumas horas das redes das big techs e salvemos a humanidade.

William


terça-feira, 4 de março de 2025

Dom Quixote de La Mancha - Cervantes (5)


Don Quijote em Toledo, Espanha.


Refeição Cultural

“-Yo sé quién soy - respondió don Quijote-, y sé que puedo ser no sólo los que he dicho, sino todos los Doce Pares de Francia y aun todos los nueve de la Fama, pues a todas las hazañas que ellos todos juntos y cada uno por sí hicieron, se aventajarán las mías.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1 [Spanish Edition]” por “Miguel de Cervantes”)


Sigo na aventura de acompanhar nosso cavaleiro andante em suas primeiras façanhas. Após os incidentes da primeira saída de Dom Quixote, já é dado a ele a primeira alcunha: "El herido Caballero del Bosque".

Depois de "salvar" o pobre Andrés do açoite (no capítulo anterior: aqui), Dom Quixote quis que um grupo de mercadores de Toledo enaltecesse a beleza sem igual de sua amada Dulcinea del Toboso.

Ele se deu mal no confronto com a turba (os mercadores) porque Rocinante escorregou no caminho. Levou muita pancada e não conseguiu mais se levantar.

Neste capítulo, o senhor Alonso Quijana é encontrado nessa situação por um vizinho, caído e todo moído de levar pauladas de um servo dos mercadores.

O bondoso conhecido - Pedro Alonso - vai levá-lo de volta pra casa.

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CAPÍTULO 5

"Donde se prosigue la narración de la desgracia de nuestro caballero"


Através de alguns trechos do capítulo 5 é possível compreender a criatividade e engenhosidade de Miguel de Cervantes no trato com seus leitores. 

Ele se mantém fiel ao que contratou com os leitores no "Prólogo", mas aos poucos nós leitores já vamos esquecendo o senhor Alonso Quijana e vamos nos envolvendo emocionalmente com Dom Quixote. 

Já vivi a experiência de ler os dois volumes do clássico cervantino. Depois que Dom Quixote sair novamente, a 2ª saída, já acompanhado de seu fiel escudeiro Sancho Pança, não nos lembraremos mais do senhor Quijana.

Seremos todos Dom Quixote.

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EXCERTOS

Senhor Alonso Quijana é encontrado pelo vizinho Pedro Alonso:

“Y quiso la suerte que, cuando llegó a este verso, acertó a pasar por allí un labrador de su mesmo lugar y vecino suyo que venía de llevar una carga de trigo al molino, el cual, viendo aquel hombre allí tendido, se llegó a él, y le preguntó que quién era, y qué mal sentía, que tan tristemente se quejaba. Don Quijote creyó sin duda que aquél era el marqués de Mantua, su tío, y así, no le respondió otra cosa sino fue proseguir en su romance, donde le daba cuenta de su desgracia y de los amores del hijo del emperante con su esposa, todo de la misma manera que el romance lo canta.”

O engenhoso cavaleiro andante está caído ao solo e segue esperando por um sábio ou sábia com alguma poção que o cure das feridas em batalha...

“-Señor Quijana - que así se debía de llamar cuando él tenía juicio y no había pasado de hidalgo sosegado -a caballero andante-, ¿quién ha puesto a vuestra merced desta suerte?”

Dom Quixote segue com suas lamúrias descrevendo cavaleiros e feiticeiros enquanto rola pelo chão todo moído. Ele entende que seu vizinho é um dos personagens que idealiza em sua cabeça. O vizinho insiste:

“-Mire vuestra merced, señor, ¡pecador de mí!, que yo no soy don Rodrigo de Narváez ni el marqués de Mantua, sino Pedro Alonso, su vecino; ni vuestra merced es Valdovinos, ni Abindarráez, sino el honrado hidalgo del señor Quijana.”

Nosso "Ferido Cavaleiro do Bosque" responde de forma convicta ao seu vizinho:

“-Yo sé quién soy - respondió don Quijote-, y sé que puedo ser no sólo los que he dicho, sino todos los Doce Pares de Francia y aun todos los nueve de la Fama, pues a todas las hazañas que ellos todos juntos y cada uno por sí hicieron, se aventajarán las mías.”

DE VOLTA AO LAR (fim da 1ª saída)

O vizinho chega com o senhor Alonso e encontra reunidos a ama e a sobrinha, o licenciado Pero Pérez - o cura - e o barbeiro senhor maese Nicolás, amigos do antes honrado fidalgo Alonso Quijana, leitor voraz de romances de cavalaria. Comentam que aquele tipo de leitura é coisa do demônio.

“Encomendados sean a Satanás y a Barrabás tales libros, que así han echado a perder el más delicado entendimiento que había en toda la Mancha.”

A sobrinha afirma:

“Mas yo me tengo la culpa de todo, que no avisé a vuestras mercedes de los disparates de mi señor tío, para que lo remediaran antes de llegar a lo que ha llegado, y quemaran todos estos descomulgados libros, que tiene muchos, que bien merecen ser abrasados, como si fuesen de herejes.”

Eles conversavam sobre as consequências da leitura daquelas histórias sem pé nem cabeça contadas nos livros de cavalaria, tão populares à época. 

Cervantes apresenta aqui a questão de se lançar os livros à fogueira, algo comum ao longo dos séculos e séculos, em um mundo dominado pela igreja e pelos monarcas.

O senhor Quijana segue sendo Dom Quixote e intervém na conversa ao redor dele, culpando o pobre pangaré nominado Rocinante:

“-Ténganse todos, que vengo mal ferido por la culpa de mi caballo: llévenme a mi lecho, y llámese, si fuere posible, a la sabia Urganda, que cure y cate de mis feridas.”

E vamos caminhando para o final do capítulo.

“Hiciéronle a don Quijote mil preguntas, y a ninguna quiso responder otra cosa sino que le diesen de comer y le dejasen dormir, que era lo que más le importaba. Hízose así, y el cura se informó muy a la larga del labrador del modo que había hallado a don Quijote. El se lo contó todo, con los disparates que al hallarle y al traerle había dicho, que fue poner más deseo en el licenciado de hacer lo que otro día hizo, que fue llamar a su amigo el barbero maese Nicolás, con el cual se vino a casa de don Quijote.”

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Amigas e amigos leitores, que romance extraordinário! A leitura de Dom Quixote foi uma das maiores aventuras literárias de minha vida.

William

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Dom Quixote de La Mancha - Cervantes (4)


Dom Quixote, do Centro
Fidel Castro Ruz, Cuba.

Refeição Cultural

“Y desta manera deshizo el agravio el valeroso don Quijote, el cual, contentísimo de lo sucedido, pareciéndole que había dado felicísimo y alto principio a sus caballerías, con gran satisfacción de sí mesmo iba caminando hacia su aldea, diciendo a media voz:

- Bien te puedes llamar dichosa sobre cuantas hoy viven en la tierra, ¡oh sobre las bellas bella Dulcinea del Toboso!...” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1 [Spanish Edition]” por “Miguel de Cervantes”)


CAPÍTULO 4

"De lo que le sucedió a nuestro caballero cuando salió de la venta"


Seguindo na releitura de nosso cavaleiro andante Dom Quixote de La Mancha, em verdade o senhor Alonso Quijano, que depois de uma aventura futura será também conhecido como Cavaleiro da Triste Figura, neste capítulo vamos ver a primeira aventura do herói.

“No había andado mucho, cuando le pareció que a su diestra mano, de la espesura de un bosque que allí estaba, salían unas voces delicadas, como de persona que se quejaba; y apenas las hubo oído, cuando dijo:”

Mal saiu da espelunca na qual foi sagrado cavaleiro pelo vendeiro, Dom Quixote e seu potente cavalo Rocinante (um pangaré, na verdade) vivenciam sua primeira chance de desfazer agravos e injustiças: encontram no caminho o jovem Andrés sendo açoitado por um vilão, sendo o vilão um lavrador de ovelhas que aplica um corretivo em seu empregado por ser displicente e perder uma ovelha por dia.

“-Gracias doy al cielo por la merced que me hace, pues tan presto me pone ocasiones delante, donde yo pueda cumplir con lo que debo a mi profesión, y donde pueda coger el fruto de mis buenos deseos. Estas voces, sin duda, son de algún menesteroso o menesterosa, que ha menester mi favor y ayuda.”

Dom Quixote agradece aos céus pela oportunidade e intervém naquela cena. Manda o vilão parar com o açoite, pergunta por que o rapaz estava apanhando e após a explicação de cada um deles - o lavrador explica os danos que Andrés lhe causa com o rebanho e Andrés diz que o lavrador não lhe paga sequer o salário em dia -, o cavaleiro fica do lado do mais fraco.

“Y si queréis saber quién os manda esto, para quedar con más veras obligado a cumplirlo, sabed que yo soy el valeroso don Quijote de la Mancha, el desfacedor de agravios y sinrazones; y a Dios quedad, y no se os parta de las mientes lo prometido y jurado, so pena de la pena pronunciada.” 

Nosso herói escolhe a versão de Andrés, dá uma lição de moral no lavrador, que se chama Juan Haldudo, se apresenta como o famoso cavaleiro que é e manda que o lavrador pague o que deve ao rapaz.

Após o êxito de sua missão de desfazer agravos e injustiças, sobe em Rocinante e vai embora...

E aí? Sabem o que aconteceu depois com o pobre Andrés?

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PELA HONRA DA BELA DULCINEA DEL TOBOSO

“Y habiendo andado como dos millas, descubrió don Quijote un gran tropel de gente, que, como después se supo, eran unos mercaderes toledanos que iban a comprar seda a Murcia. Eran seis, y venían con sus quitasoles, con otros cuatro criados a caballo y tres mozos de mulas a pie. Apenas los divisó don Quijote, cuando se imaginó ser cosa de nueva aventura; y por imitar, en todo cuanto a él le parecía posible, los pasos que había leído en sus libros, le pareció venir allí de molde uno que pensaba hacer; y así, con gentil continente y denuedo, se afirmó bien en los estribos, apretó la lanza, llegó la adarga al pecho, y, puesto en la mitad del camino, estuvo esperando que aquellos caballeros andantes llegasen (que ya él por tales los tenía y juzgaba);”

No capítulo, ainda tem a aventura seguinte, Dom Quixote encontra no caminho de volta a sua aldeia um grupo de mercadores de Toledo, exige que eles reconheçam a beleza sem igual de sua amada Dulcinea del Toboso e após um gozador do grupo perceber que o ancião é doido, tira um sarro da cara dele e enfurece o nosso herói.

Ao atacar os vilões, Rocinante escorrega e os dois rolam ladeira abaixo. Um dos empregados dos mercadores aproveita a condição do caído senhor Alonso Quijano e dá-lhe pauladas sem dó... 

O moço quase o mata de pancada, mesmo com os mercadores dizendo que não fizesse aquilo por se tratar de um idoso sem juízo.

Essas foram as primeiras aventuras de Dom Quixote, conhecidas como a primeira saída de nosso cavaleiro andante.

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COMENTÁRIO

Enquanto lia as desventuras do senhor Alonso Quijano, nosso eterno cavaleiro Dom Quixote de La Mancha, cavalgando pela Espanha em busca de oportunidades para desfazer agravos e situações injustas, ouvia as notícias políticas da semana no Brasil e no mundo.

A grande mídia divulgou nesta semana uma pesquisa que aponta queda expressiva na popularidade de nosso querido presidente Lula, uma das figuras mais importantes da história do Brasil e da classe trabalhadora brasileira. 

Lula está em seu terceiro mandato presidencial, após ter sofrido um lawfare criminoso que o deixou preso numa masmorra por 580 dias sem crime algum. Lula é odiado pela casa-grande e seus ideólogos por querer melhorar a condição de vida do povo pobre e trabalhador do Brasil.

Fiquei pensando nas personagens Dom Quixote, o jovem Andrés e o patrão que açoitava o empregado displicente. E a forma como se deu a "solução" quixotesca daquela desventura. Pensei no governo Lula no contexto atual.

Dom Quixote teve uma atitude correta, na minha leitura. Ao ver um homem açoitando um rapaz sem camisa, mesmo após o patrão justificar que estava dando um corretivo porque seu empregado estava lhe dando prejuízo, mandou que as chicotadas fossem interrompidas imediatamente.

O cavaleiro estava de passagem, ouviu as duas partes, ficou do lado do mais fraco, mandou que o senhor pagasse o que devia ao empregado, e seguiu seu caminho em busca de mais injustiças a corrigir. 

Dom Quixote confiou "no sistema", na palavra do dono do rebanho de ovelhas ("empresário"), que teria que cumprir com sua promessa. Era uma questão de honra cumprir o apalavrado. Assim mandavam os costumes da cavalaria andante. Eram as regras.

Acontece que assim que virou as costas, o patrão se viu novamente na condição anterior, secular, da lei dos mais fortes e dos donos do poder, ele e o rapaz achariam a solução entre os dois (a livre iniciativa), e Juan Haldudo deu uma sova tão grande no pobre Andrés que este quase morreu... 

Me digam se essa não é a realidade em cada esquina do nosso imenso Brasil. 

De que adianta hoje um governo simpático ao povo trabalhador, que tenta conciliar as relações entre capital e trabalho, um governante que me parece um cavaleiro andante solitário tentando desfazer agravos e injustiças num mundo dominado por um Congresso todo de representantes dos patrões, dos caras das bancadas da bala, do boi e da bíblia, e do agro, sem sensibilidade alguma para os milhões de Andrés? O povo tem conseguido perceber melhorias em sua vida? Como reduzir o preço dos alimentos?

E os milhões de Andrés, como bem explica o sociólogo Jessé Souza, em sua tese sobre o Coringa e a vingança dos humilhados, são os miseráveis ressentidos que só sabem que estão se f... e que querem se vingar das injustiças do sistema que os humilha e derruba... presas fáceis para os manipuladores que conseguem impor suas versões das causas da realidade miserável...

Andrés, o personagem, vai culpar o Quixote por seus infortúnios. Tá na cara isso!

Assim estamos no mundo, independente dos acertos e erros de nosso governo. Temos avanços importantes para o povo e mesmo os avanços não são percebidos porque tem muita sacanagem dos poderosos contra nós. A vida em cada esquina tá uma merda! Estamos sozinhos contra esses fdp da casa-grande e sua violência tanto física quanto psicológica.

Eu tenho escrito sobre minhas impressões de mundo atual pós advento das plataformas das big techs e sua capacidade de manipular sentimentos e comportamentos humanos. Fomos alterados por essas máquinas, não somos mais os mesmos. Pioramos como seres humanos. Pioraram a gente. Para o lucro dos donos das big techs.

Mesmo que Lula entregasse avanços e conquistas como política de governo, a população será levada a sentir-se como se no Haiti estivesse. As plataformas têm poder para isso. Ouçam o que estou dizendo faz tempo! É a pós-verdade!

É isso. É uma leitura minha de leitor e de político.

Faz anos defendo que os países e os governos progressistas criem suas próprias plataformas nacionais de comunicação e também defendo que Lula fale diretamente com o povo diariamente, como AMLO e Claudia Sheinbaun no México.

Nosso governo e a esquerda precisam fazer algo diferente do que faziam antes, os tempos e as condições são outras.

Por fim, precisamos de unidade na esquerda! Unidade! Os inimigos são poderosos! E não estão para brincadeira.

William


Post Scriptum: o texto anterior sobre Dom Quixote pode ser lido aqui.


domingo, 2 de fevereiro de 2025

Dom Quixote de La Mancha - Cervantes (3)


Dom Quixote em Toledo, Espanha.

Refeição Cultural

“Contó el ventero a todos cuantos estaban en la venta la locura de su huésped, la vela de las armas y la armazón de caballería que esperaba.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1 [Spanish Edition]” por “Miguel de Cervantes”)

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CAPÍTULO 3

"Donde se cuenta la graciosa manera que tuvo don Quijote en armarse caballero"


Na sequência da leitura sobre as aventuras do senhor Alonso Quijano, que ficou meio doido de tanto ler livros de cavalarias, lá na longínqua Espanha de 1605, Miguel de Cervantes segue nos contando a história (estória) mantendo-se fiel ao contrato que fez com os leitores no Prólogo da obra.

O livro se trata de uma "invectiva" contra os livros de cavalaria, tão em moda na época. Uma invectiva é uma espécie de repreensão, crítica, insulto.

A essa altura do livro, ainda no início, alguns leitores já vão se apegando ao senhor de uns cinquenta anos que decidiu incorporar o espírito de um cavaleiro andante para sair pelo mundo consertando as coisas tortas e injustas em benefício de sua república e de si mesmo, ganhando com isso fama e o amor da amada Dulcinea del Toboso, outra idealização.

Neste capítulo, Dom Quixote pede ao dono da espelunca (vendeiro) que o abençoe como cavaleiro, realizando a cerimônia tradicional que todo mundo conhece porque está descrita nos livros de cavalaria. O senhor Quijano acha que está em um castelo e o proprietário já percebeu que ele está doido.


“El ventero, que vio a su huésped a sus pies, y oyó semejantes razones, estaba confuso mirándole, sin saber qué hacerse ni decirle, y porfiaba con él que se levantase; y jamás quiso, hasta que le hubo de decir que él le otorgaba el don que le pedía.” 


O capítulo é tão claro nos passos que vão acontecendo, que o dono da espelunca avisa a todos os fregueses que o idoso está doido e pergunta ao senhor Quijano se ele tem dinheiro porque tudo tem custo ali.


“Preguntóle si traía dineros; respondió don Quijote que no traía blanca, porque él nunca había leído en las historias de los caballeros andantes que ninguno los hubiese traído.” 


Nosso ilustre cavaleiro estranha a pergunta porque nunca leu que cavaleiros tinham que pagar as coisas.

O vendedor esperto passa a lábia no velhinho e explica que isso era coisa básica. Poderíamos dizer que a cena clássica de quatro séculos atrás não é diferente do que acontece hoje com os manipuladores e seus manipulados.


“y así, tuviese por cierto y averiguado que todos los caballeros andantes (de que tantos libros están llenos y atestados), llevaban bien herradas las bolsas, por lo que pudiese sucederles; y que asimesmo llevaban camisas y una arqueta pequeña llena de ungüentos para curar las heridas que recebían, porque no todas veces en los campos y desiertos donde se combatían y salían heridos, había quien los curase, si ya no era que tenían algún sabio encantador por amigo, que luego los socorría trayendo por el aire, en alguna nube, alguna doncella o enano con alguna redoma de agua de tal virtud, que, en gustando alguna gota della, luego al punto quedaban sanos de sus llagas y heridas, como si mal alguno hubiesen tenido; mas que, en tanto que esto no hubiese, tuvieron los pasados caballeros por cosa acertada que sus escuderos fuesen proveídos de dineros y de otras cosas necesarias, como eran hilas y ungüentos para curarse; y cuando sucedía que los tales caballeros no tenían escuderos (que eran pocas y raras veces), ellos mesmos lo llevaban todo en unas alforjas muy sutiles, que casi no se parecían, a las ancas del caballo, como que era otra cosa de más importancia; porque, no siendo por ocasión semejante, esto de llevar alforjas no fue muy admitido entre los caballeros andantes; y por esto le daba por consejo (pues aún se lo podía mandar como a su ahijado, que tan presto lo había de ser), que no caminase de allí adelante sin dineros y sin las prevenciones referidas, y que vería cuán bien se hallaba con ellas cuando menos se pensase.”


O interessante é que das explicações que o sacana do vendeiro dá, ele diz que cavaleiros andantes precisam ter um ajudante (um escudeiro) e isso nos dará a oportunidade de conhecer depois Sancho Pança.

Enfim, talvez por isso os leitores vão aos poucos ampliando a empatia com o famoso cavaleiro andante. 


“Hechas, pues, de galope y aprisa las hasta allí nunca vistas ceremonias, no vio la hora don Quijote de verse a caballo y salir buscando las aventuras; y ensillando luego a Rocinante subió en él, y abrazando a su huésped le dijo cosas tan extrañas, agradeciéndole la merced de haberle armado caballero, que no es posible acertar a referirlas. El ventero, por verle ya fuera de la venta, con no menos retóricas, aunque con más breves palabras, respondió a las suyas, y sin pedirle la costa de la posada, le dejó ir a la buen hora.”


Ao final do capítulo, nosso ilustre Dom Quixote está armado cavaleiro e já está apto a enfrentar todos os desafios e agravos que aparecerem diante de si.


“-Dios haga a vuestra merced muy venturoso caballero y le dé ventura en lides.”


Amigas e amigos leitores, se tiverem oportunidade, leiam o clássico de Cervantes.

William

02/02/25


segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Dom Quixote de La Mancha - Cervantes (2)

 

El Quijote de La Habana.

Refeição Cultural

"-¡Dichosa edad, y siglo dichoso aquel donde saldrán a luz las famosas hazañas mías, dignas de entallarse en bronces, esculpirse en mármoles y pintarse en tablas, para memoria en lo futuro! ¡Oh tú, sabio encantador, quienquiera que seas, a quien ha de tocar el ser cronista desta peregrina historia!, ruégote que no te olvides de mí buen Rocinante, compañero eterno mío en todos mis caminos y carreras.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1 [Spanish Edition]” por “Miguel de Cervantes”)

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CAPÍTULO 2

"Que trata de la primera salida que de su tierra hizo el ingenioso don Quijote"


Primeiro, Miguel de Cervantes estabelece no "Prólogo" seu contrato com os leitores, deixando claro que seu livro e seus personagens são uma tiração de sarro dos populares livros de cavalaria da época. (Ler aqui)

Em seguida, Cervantes nos apresenta no "Capítulo 1" o nascimento do personagem e as pessoas de seu entorno, incluindo seu cavalo Rocinante e sua amada Dulcinea del Toboso. (Ler aqui)

Agora, no "Capítulo 2" os leitores acompanham a primeira saída de Dom Quixote em busca de aventuras, ele precisa passar por uma cerimônia que o torne um cavaleiro.

Após andar pela região de La Mancha o dia todo, Dom Quixote e Rocinante vão parar numa espelunca cheia de populares, gente sem apreço pela "ética cavaleiresca".

As cenas descritas por Cervantes são hilárias. 

“Estando en esto, llegó acaso a la venta un castrador de puercos; y así como llegó, sonó su silbato de cañas cuatro o cinco veces, con lo cual acabó de confirmar don Quijote que estaba en algún famoso castillo y que le servían con música, y que el abadejo eran truchas, el pan candeal, y las rameras damas, y el ventero, castellano del castillo; y con esto daba por bien empleada su determinación y salida. Mas lo que más le fatigaba era el no verse armado caballero, por parecerle que no se podría poner legítimamente en aventura alguna sin recebir la orden de caballería.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1 [Spanish Edition]” por “Miguel de Cervantes”)

COMENTÁRIO:

Quando se tem a oportunidade de conhecer a ciência por trás das técnicas narrativas, quando se estuda a crítica e a exegese das obras literárias, a leitura ganha novas perspectivas, antes despercebidas pelos leitores. 

São inumeráveis as observações que podem surgir ao se ler o começo do clássico de Cervantes. 

Uma das questões que marcam os personagens cervantinos é que mesmo sendo alertado de início a que se destina a obra - no Prólogo -, pouco depois de seu lançamento, Dom Quixote e Sancho Pança ganham vida própria e assim seguiu ao longo dos séculos. 

Já na primeira saída, a qualidade da narrativa dá a impressão de que não se trata de uma ficção, e sim de uma descrição realista do que vai ocorrendo com o senhor de seus cinquenta anos que se vestiu de cavaleiro, montou no seu pangaré e saiu por aí para lutar com moinhos de vento e gigantes malvados.

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"¡Oh tú, sabio encantador, quienquiera que seas, a quien ha de tocar el ser cronista desta peregrina historia!, ruégote que no te olvides de mí buen Rocinante, compañero eterno mío en todos mis caminos y carreras.”

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É incrível! O sábio encantador Miguel de Cervantes nos legou para sempre as histórias de Dom Quixote, Sancho Pança e Rocinante!

A leitura do clássico de Cervantes é aventura única na vida de um leitor há mais de 400 anos.

William Mendes 

13/01/25


Post Scriptum: a leitura do próximo capítulo e comentário seguinte pode ser lida aqui.


quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Dom Quixote de La Mancha - Cervantes (1)



Refeição Cultural

"En efecto, llevad la mira puesta a derribar la máquina mal fundada destos caballerescos libros, aborrecidos de tantos y alabados de muchos más; que si esto alcanzáredes, no habriades alcanzado poco." (Prólogo)


De novo cito o "contrato" entre autor do livro e leitores da obra: "El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha", publicado em 1605, é uma narrativa criada por Miguel de Cervantes para denunciar "a máquina infundada dos livros de cavalarias" da época, que eram muito populares.

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CAPÍTULO 1

"Que trata de la condición y ejercicio del famoso hidalgo don Quijote de la Mancha"

A abertura da história e apresentação do fidalgo senhor Quijana que conheceremos como o famoso cavaleiro Dom Quixote é uma delícia!

"En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivia un hidalgo..."

Em seguida há uma descrição da condição econômica do fidalgo. 

Depois os leitores conhecem a ama e a sobrinha do fidalgo:

"Tenía en su casa un ama que pasaba de los cuarenta, y una sobrina que no llegaba a los veinte, y un mozo de campo y plaza, que así ensillaba el rocín como tomaba la podadera..."

Após os leitores conhecerem a condição econômica bem mediana do fidalgo e as pessoas que viviam com ele, o narrador vai descrever o fidalgo:

"Frisaba la edad de nuestro hidalgo con los cincuenta años; era de complexión recia, seco de carnes, enjuto de rostro, gran madrugador y amigo de la caza..."

E então o narrador diz aos leitores que a história é baseada em fatos reais, que o importante é que a narrativa não vai se desviar da verdade. Vejam a técnica narrativa do romance ficcional de Cervantes, é muito inovadora.

"Quieren decir que tenía el sobrenombre de Quijada o Quesaba (que en esto hay alguna diferencia en los autores que deste caso escriben), aunque por conjeturas verosímiles se deja entender que se llamaba Quijana. Pero esto importa poco a nuestro cuento; basta que en la narración dél no se salga un punto de la verdad."

Outro personagem que conhecemos no início da história é o cura, com quem o senhor Quijana debatia as aventuras dos heróis dos livros de cavalarias:

"Tuvo muchas veces competencia con el cura de su lugar (que era hombre docto, graduado en Sigüenza)... (uma ironia de Cervantes)

E também conhecemos o barbeiro local:

"(...) mas maese Nicolás, barbero del mesmo pueblo, decía que ninguno llegaba al Caballero del Febo..."

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LEU TANTO SEM DORMIR QUE SEU CÉREBRO SECOU

O senhor Quijana lia tantos livros de cavalaria, de dia e de noite, que deixou de cuidar de seus afazeres e acabou ficando meio doido, o narrador diz que seu cérebro secou.

“En resolución, él se enfrascó tanto en su lectura, que se le pasaban las noches leyendo de claro en claro, y los días de turbio en turbio; y así, del poco dormir y del mucho leer se le secó el celebro, de manera que vino a perder el juicio.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1", Spanish Edition, Miguel de Cervantes)

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CORRER O MUNDO EM BUSCA DE AVENTURAS PARA SUA HONRA E PARA DESFAZER SITUAÇÕES AGRAVADAS

O fidalgo, já ancião para a época, se prepara para sair pelo mundo em busca de aventuras para honrar a si mesmo e para desfazer todo gênero de agravo que encontre.

“En efecto, rematado ya su juicio, vino a dar en el más extraño pensamiento que jamás dio loco en el mundo, y fue que le pareció convenible y necesario, así para el aumento de su honra, como para el servicio de su república, hacerse caballero andante, e irse por todo el mundo con sus armas y caballo a buscar las aventuras, y a ejercitarse en todo aquello que él había leído que los caballeros andantes se ejercitaban, deshaciendo todo género de agravio, y poniéndose en ocasiones y peligros, donde acabándolos, cobrase eterno nombre y fama.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1", Spanish Edition, Miguel de Cervantes)

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O CAVALO ROCÍN VIROU O FAMOSO ROCINANTE

Depois de quatro dias pensando que nome poderia dar ao seu cavalo, o fidalgo encontrou o nome ideal.

“y así, después de muchos nombres que formó, borró y quitó, añadió, deshizo y tornó a hacer en su memoria e imaginación, al fin le vino a llamar Rocinante, nombre, a su parecer, alto, sonoro y significativo de lo que había sido cuando fue rocín, antes de lo que ahora era, que era antes y primero de todos los rocines del mundo.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1", Spanish Edition, Miguel de Cervantes)

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DOM QUIXOTE... DE LA MANCHA

Após colocar nome em seu cavalo, o fidalgo levou mais oito dias pensando em um nome para si mesmo. Até que lhe veio o nome: Dom Quixote.

Para honrar sua linhagem e sua pátria, acrescentou o "de La Mancha" ao nome do cavaleiro andante.

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A DAMA AMADA PELO CAVALEIRO ANDANTE

Faltava ainda a escolha de uma amada a quem dirigir seus pensamentos, atos e bravuras. E lembrando que "el caballero andante sin amores era árbol sin hojas y sin frutos, y cuerpo sin alma".

Finalmente, escolheu sua doce amada entre as mulheres das cercanias. Uma lavradora chamada Aldonza Lorenzo. Ela seria a doce Dulcinea del Toboso.

“halló a quien dar nombre de su dama! Y fue, a lo que se cree, que en un lugar cerca del suyo había una moza labradora de muy buen parecer, de quien él un tiempo anduvo enamorado, aunque, según se entiende, ella jamás lo supo ni se dio cata dello. Llamábase Aldonza Lorenzo, y a ésta le pareció ser bien darle título de señora de sus pensamientos; y buscándole nombre que no desdijese mucho del suyo, y que tirase y se encaminase al de princesa y gran señora, vino a llamarla Dulcinea del Toboso, porque era natural del Toboso, nombre, a su parecer, músico y peregrino y significativo, como todos los demás que a él y a sus cosas había puesto.” (de “El ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Parte 1", Spanish Edition, Miguel de Cervantes)

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É isso! Temos aí tudo pronto para as primeiras aventuras de nosso cavaleiro andante Dom Quixote, seu cavalo Rocinante e tudo por honra de si mesmo e pela amada Dulcinea del Toboso.

William Mendes 

14/11/24


Post Scriptum: a sequência da leitura e comentários pode ser lida aqui.


sábado, 9 de novembro de 2024

Dom Quixote de La Mancha - Miguel de Cervantes (Prólogo)



Refeição Cultural

Toda vez que pego um clássico da literatura mundial e o leio fico pensando na produção daquela criação humana, a condição em que ela foi feita, na pessoa que produziu aquela coisa, na época em que aquilo veio a público - ou não, só muito mais tarde -, tento imaginar o lugar do mundo onde aquilo foi produzido. Acreditem: um texto antigo tem muita história consigo, Alberto Manguel conta um pouco sobre essa história no livro "Uma história da leitura".

Quando li a história de Dom Quixote tinha pouco mais de trinta anos de idade. Havia acabado de entrar em uma faculdade de Letras e me atrevi a ler a obra em espanhol. Foi uma aventura marcante em minha vida de leitor. Eu ria, e chorava, e ficava puto, e depois inconformado, e ficava impressionado, surpreso com os ditados e sabedorias que lia, ria de novo, chorava, achava sacanagem alguns acontecimentos, outros achava inacreditáveis. Era como se não estivesse lendo uma obra ficcional. Foi uma aventura marcante a leitura do clássico de Miguel de Cervantes.

PRÓLOGO 

O prólogo da obra já é um acontecimento. A gente tenta imaginar as pessoas que sabiam ler e que tiveram acesso à leitura quatro séculos atrás lendo aquele prólogo "desocupado leitor...". 

O autor anuncia o que os leitores desocupados vão ler:

"y, pues, esta vuestra escritura no mira a más que a deshacer la autoridad y cabida que en el mundo y en el vulgo tienen los libros de caballerías..."

Cervantes faz o contrato com os leitores e avisa que a história é "una invectiva contra los libros de caballerías" e mesmo avisados de que a obra é feita para tirar um sarro daquelas histórias mirabolantes de cavaleiros da época, nós não conseguimos ver de forma fria o personagem Dom Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança. 

São apaixonantes demais essas duas figuras! Nos envolvemos com elas, não tem jeito. Nos apaixonamos por aquele senhor e seu servidor e amigo, mesmo sendo eles criações para se tirar sarro dos cavaleiros ficcionais da época.

"Procurad también que, leyendo vuestra historia, el melancólico se mueva a risa, el risueño la acreciente, el simple no se enfade, el discreto se admire de la invención, el grave no la desprecie, ni el prudente deje de alabarla."

Olha eu aí na descrição de Cervantes. Ou facetas de mim, num momento ou outro da vida. Como falei no início, quando li a obra posso ter sido o melancólico que riu ou o prudente que a louvou, pois era visto pelos conhecidos como pessoa sisuda e que quase não ria.

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CONCEIÇÃO EVARISTO ME DEIXOU PENSATIVO

Enfim, fiquei pensando nas obras literárias e autores e autoras ao ver ontem uma entrevista da querida Conceição Evaristo. 

Imaginem vocês que momento ímpar eu vivi na minha vida ao passar três horas conversando com ela num voo entre o Panamá e Cuba... Foi um acontecimento na minha vida de fã e leitor.

William Mendes

09/11/24


Post Scriptum: a leitura com comentários segue aqui.


sábado, 4 de maio de 2019

Leitura - La invención del "Quijote" (F. Ayala)


Texto de Ayala está na edição da Alfaguara,
comemorativa do IV centenário da obra.

Refeição Cultural

Releitura do texto crítico de Francisco Ayala sobre a obra máxima de Miguel de Cervantes, Don Quijote de La Mancha (1605-1615).

O texto começa assim:

"Quien se proponga considerar el proceso de creación de la prodigiosa figura literaria de don Quijote, hará bien en detenerse, ante todo, a medir el alcance del siguiente hecho: para el lector actual, el protagonista de la novela - o, mejor dicho, la pareja protagonista - posee una existencia anterior al texto mismo. Don Quijote y Sancho constituyen ante él, en efecto, dos presencias inmediatas, dos seres ficticios de quienes ha oído hablar antes que hubiera pensado siquiera en ponerse a leer su historia, dos hombres cuya imagen ha visto reproducida muchas veces, cuyo carácter le es familiar, y algunos de cuyos hechos le han sido referidos o conoce como proverbiales..."

Ayala levanta questões de criação literária muito interessantes. 

Importante lembrar aos leitores que o clássico Dom Quixote passou por diversos tipos de interpretação ao longo de quatro séculos. A obra foi compreendida corretamente como sátira aos romances de cavalaria, comuns naquela época; mas teve também por parte de críticos e leitores interpretações das mais variadas formas, principalmente no período romântico, quando se viam sentidos metafóricos nas figuras do Quixote e de Sancho.

Com o passar do tempo, houve também uma inversão de percepção na leitura da obra. Para os leitores do século XVII, o cenário e o cotidiano descritos nas aventuras do cavaleiro manchego eram reconhecidos pelos leitores, tinham verossimilhança com o dia a dia deles. O que chamava a atenção dos leitores pelo ineditismo e loucura eram justamente as figuras estrambóticas de Dom Quixote e Sancho Pança.

Passados séculos de existência da obra, hoje o que nos é "comum" e conhecido são justamente as figuras dos protagonistas, mesmo para a imensa maioria de pessoas que nunca leu o clássico, e nos custa acreditar que o cenário e o cotidiano descritos no romance cervantino eram um espelho da realidade do século XVII.

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"El texto de 1615 cuenta ya con el conocimiento que el lector tiene de sus protagonistas como entes dotados de existencia autónoma. Y, en verdad, la posición de ese lector de 1615 frente al Quijote es esencialmente idéntica a la del lector actual, en contraste con la de aquel que en 1605 comenzara a leer las palabras: 'En un lugar de la Mancha...' Don Quijote existía ahora por sí mismo; Cervantes había operado con pleno éxito la creación de su héroe."
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Enfim, a releitura deste texto crítico reavivou em mim a figura fantástica do Quixote e de seu mais que encantador escudeiro, Sancho Pança.

Obra eterna. Chorei e ri muito quando li Dom Quixote.

William


Post Scriptum:

Leiam AQUI os comentários que fiz da leitura do texto de Ayala em 2008.

sábado, 7 de maio de 2016

Ilusões Perdidas - Balzac



As Ilusões perdidas e suas 800 páginas de
estudos de costumes da sociedade francesa
burguesa da primeira metade do século 19.

Refeição Cultural


"A avareza começa onde cessa a pobreza" (Ilusões perdidas, Honoré de Balzac)


Nesta semana que passou, recebi um comentário interessante na postagem que fiz dizendo que estava lendo o primeiro volume da coleção A comédia humana, de Honoré de Balzac. O colega Joel Bueno me recomendou algo que ouvi por longos anos dos mestres de literatura na Faculdade de Letras, da USP. Disse para largar o "chato" do Rónai e pegar de vez o Balzac.

Os professores falavam isso para nós nas aulas de literatura, fossem elas portuguesa, espanhola, hispano-americana ou brasileira. Me lembro da professora Maria Augusta Costa Vieira dizendo isso sobre os dois grossos tomos do Don Quijote de la Mancha. Eu acabei pegando uma edição especial e lendo por 3 meses a fan-tás-ti-ca história do cavaleiro da triste figura e seu fiel escudeiro. Até hoje não li as diversas críticas contidas em mais de uma centena de páginas de minha edição especial de comemoração dos 400 anos do lançamento da obra, feita pela Alfaguara.

Como o volume nº 1 da imensa obra balzaquiana não chegou a Brasília e sim lá em Osasco (não estou com ele ainda), olhei, olhei e escolhi o volume 7 de A comédia humana. Escolhi nada mais nada menos que Ilusões perdidas para começar a namorar com ela hoje (sei que minhas jornadas de trabalho e luta não me permitem ler um livrão desses de sentada).


LEITURAS E LEITURAS

Interessante a questão de adequar a onda mental para determinado tipo de leitura. Quando li Os lusíadas, de Camões, gastei várias idas e voltas para entrar no ritmo da leitura e poder navegar por mares nunca dantes navegados. 

Imaginem quando consegui ler até o final as quase mil páginas de Ulisses, de James Joyce. Devo ter recomeçado umas oito vezes até meu cérebro entrar naquele ritmo e deslanchar. Me lembro que cheguei a ler até a página trezentos e voltar ao início porque achei que não estava boa a leitura.

Como na atualidade só leio dezenas de súmulas técnicas a respeito de saúde e coisas do mundo da gestão da saúde e, às vezes, artigos políticos, meu cérebro está destreinado para leitura literária. Fiquei algum tempinho nas primeiras 5 páginas para entender direito o que estava lendo, o contexto da história, o ritmo do autor etc. Não sei se isso acontece com vocês, amantes de leituras.

Enfim, viram a citação acima sobre a avareza e a pobreza? É só um aperitivo do que já vi nas primeiras páginas das Ilusões perdidas. O autor tem um estilo de linguagem ferina. Soube que Machado de Assis teve influências de Balzac. Me pareceu muito o estilo de críticas irônicas e aguçadas à sociedade como costumo ler no Mestre do Cosme Velho, este sim, já de minha afinidade.

Abraços aos meus amigos leitores.

William

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Y del mucho leer, se le secó el celebro...


Eu e Miguel de Cervantes, Toledo (ESP). 2009.

"En resolución, él se enfrascó tanto en su lectura, que se le pasaban las noches leyendo de claro en claro, y los días de turbio en turbio; y así, del poco dormir y del mucho leer, se le secó el celebro de manera que vino a perder el juicio..."


Em meu trabalho atual, de gestor de entidade de saúde, eleito pelos trabalhadores, há dias em que me lembro muito desta frase famosa sobre nosso Cavaleiro da Triste Figura...

E de tanto ler, seu cérebro secou...

Aff! E o pior é que não é literatura. São súmulas, estudos, trocentas páginas sobre questões de saúde etc.

William Mendes

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Dom Quixote - Em quadrinhos



Capa da edição.

Refeição Cultural

Li neste domingo pela manhã, um HQ de Dom Quixote, da L&PM. Muito bem feito, tanto em relação às aventuras escolhidas quanto nas imagens.


Aqui temos a formosíssima Dulcineia e a figura do
valoroso cavaleiro andante.

O quadrinho respeitou as três saídas do cavaleiro da triste figura, a primeira onde ele sai sozinho e volta logo para sua terra. A segunda saída já com o seu fiel escudeiro Sancho Pança e a terceira saída, onde foi mais longe chegando a Barcelona e lá conhece seu maior infortúnio.


Por fim, a clássica dupla de cavaleiro e fiel escudeiro, 
com seus belos animais, o Rocinante e o burrinho.

- Oh amantes da leitura e dos clássicos, como é bom curtir momentos de prazer com as grandes obras!


Bibliografia:

CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote. Clássicos da Literatura em Quadrinhos. L&PM Editores. Tradução de Alexandre Boide. Adaptação e roteiro: Philippe Chanoinat e Djian. Desenhos e cores: David Pellet. Impresso no Brasil em 2012.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Don Quijote de La Mancha – Leituras (3)



El Quijote, obra que fotografei 
em Toleto - ESP.


Don Quijote de La Mancha – Leituras (3)

PRIMEIRA PARTE

DEL INGENIOSO HIDALGO DON QUIJOTE DE LA MANCHA

CAPÍTULO II


Que trata de la primera salida que de su tierra hizo el ingenioso don Quijote


"Hechas, pues, estas prevenciones, no quiso aguardar más tiempo a poner en efecto su pensamiento, apretándole a ello la falta que él pensaba que hacía en el mundo su tardanza, según eran los agravios que pensaba deshacer, tuertos que enderezar, sinrazones que enmendar y abusos que mejorar y deudas que satisfacer. Y así, sin dar parte a persona alguna de su intención y sin que nadie le viese, una mañana, antes del día, que era uno de los calurosos del mes de julio, se armó de todas sus armas, subió sobre Rocinante, puesta su mal compuesta celada, embrazó su adarga, tomo su lanza y por la puerta falsa de un corral salió al campo, con grandísimo contento y alborozo de ver con cuánta facilidad había dado principio a su buen deseo..."


Esta é a famosa primeira saída de nosso valoroso cavaleiro manchego. Ele saiu sozinho. Só na segunda saída é que ele estará acompanhado de seu fiel escudeiro Sancho Pança.


“Yendo, pues, caminando nuestro flamante aventurero, iba hablando consigo mismo y diciendo:

- ¿Quién duda sino que en los venideros tiempos, cuando salga a luz la verdadera historia de mis famosos hechos, que el sabio que los escribiere no ponga, cuando llegue a contar esta mi primera salida tan de mañana, de esta manera?: ‘Apenas había el rubicundo Apolo tendido por la faz de la ancha y espaciosa tierra las doradas hebras de sus hermosos cabellos, y apenas los pequeños y pintados pajarillos con sus harpadas lenguas habían saludado con dulce y meliflua armonía la venida de la rosada aurora, que, dejando la blanda cama del celoso marido, por las puertas y balcones del manchego horizonte a los mortales se mostraba, cuando el famoso caballero don Quijote de la Mancha, dejando las ociosas plumas, subió sobre su famoso caballo Rocinante y comenzó a caminar por el antiguo y conocido campo de Montiel’.

Y era la verdad que por él caminaba. Y añadió diciendo:

- Dichosa edad y siglo dichoso aquel adonde saldrán a luz las famosas hazañas mías, dignas de entallarse en bronces, esculpirse en mármoles y pintarse en tablas, para memoria en lo futuro. ¡Oh tú, sabio encantador, quienquiera que seas, a quien ha de tocar el ser coronista de esta peregrina historia! Ruégote que no te olvides de mi buen Rocinante, compañero eterno mío en todos mis caminos y carreras…


Cervantes e a técnica de simular a realidade no Quixote

O engenhoso autor usa uma estrutura narrativa onde o narrador, que se apresenta como não-autor original da obra, fornece dados e locais com o intuito de transparecer que a história que está contando é verídica e que está nos anais das localidades dos feitos ocorridos.


“Casi todo aquel día caminó sin acontecerle cosa que de contar fuese, de lo cual se desesperaba, porque quisiera topar luego luego con quien hacer experiencia del valor de su fuerte brazo. Autores hay que dicen que la primera aventura que le avino fue la del Puerto Lápice; otros dicen que la de los molinos de viento; pero lo que yo he podido averiguar en este caso, y lo que he hallado escrito en los anales de la Mancha es que él anduvo todo aquel día, y, al anochecer, su rocín y él se hallaron cansados y muertos de hambre, y que, mirando a todas partes por ver si descubriría algún castillo o alguna majada de pastores donde recogerse y adonde pudiese remediar su mucha hambre y necesidad, vio, no lejos del camino por donde iba, una venta, que fue como si viera una estrella que, no a los portales, sino a los alcázares de su redención le encaminaba. Diose priesa a caminar y llegó a ella a tiempo que anochecía…”


A cena das mulheres e do vendeiro dando de comer e beber a dom Quixote é a primeira aventura do cavaleiro porque com os arranjos e adaptações que ele fez em sua armadura e viseira, não era possível retirá-la para nada.


“Pusiéronle la mesa a la puerta de la venta, por el fresco, y trújole el huésped una porción del mal remojado y peor cocido bacallao y un pan tan negro y mugriento como sus armas; pero era materia de grande risa verle comer, porque, como tenía puesta la celada y alzada la visera, no podía poner nada en la boca con sus manos si otro no se lo daba y ponía, y, así, una de aquellas señoras servía de este menester. Mas al darle de beber, no fue posible, ni lo fuera si el ventero no horadara una caña, y, puesto el un cabo en la boca, por el otro le iba echando el vino; y todo esto lo recibía en paciencia, a trueco de no romper las cintas de la celada*. Estando en esto, llegó acaso a la venta un castrador de puercos, y así como llegó, sonó su silbato de cañas cuatro o cinco veces, con lo cual acabó de confirmar don Quijote que estaba en algún famoso castillo y que le servían con música y que el abadejo eran truchas, el pan candeal y las rameras damas y el ventero castellano del castillo, y con esto daba por bien empleada su determinación y salida. Mas lo que más le fatigaba era el no verse armado caballero, por parecerle que no se podría poner legítimamente en aventura alguna sin recibir la orden de caballería…”


*TRADUÇÃO DO TRECHO EM SUBLINHADO:


"Pratinho para boa risota era vê-lo comer; porque, como tinha posta a celada e a viseira alçada, não podia meter nada para a boca por suas próprias mãos; e por isso uma daquelas senhoras o ajudava em tal serviço. Agora o dar-lhe de beber é que não foi possível, nem jamais o seria, se o vendeiro não furara os nós de uma cana, e, metendo-lhe na boca uma das extremidades dela, lhe não vazasse pela outra o vinho. Com tudo aquilo se conformava o sofrido fidalgo, só por se lhe não cortarem os atilhos da celada..."




COMENTÁRIO

Fantástico, não é?

A literatura é uma das criações mais maravilhosas do gênio humano.

Eu sempre alimentei o sonho de ler muito e conhecer as grandes obras dos grandes autores universais.

Estou com quarenta e tantos anos. Teria muito tempo para ler literatura ainda. Mas a vida não é exatamente como a gente gosta ou planeja.

Desde adolescente, não pude ler muito porque era trabalhador braçal e fui um dos milhões de subproletários e proletários do mundo que têm que trabalhar até a morte e ainda estudar o mínimo necessário.

Não vou chorar as pitangas aqui e rezar aquele terço de lamentos. Terei ainda pouco tempo para ler nos próximos anos de minha vida. É assim.

Oh caros leitores e leitoras do mundo, não percam a oportunidade de lerem!



Bibliografia:

CERVANTES, Miguel de. Don Quijote de La Mancha. Edición del IV Centenario. Real Academia Española y Asociación de Academias de La Lengua Española. Alfaguara 2005.


CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de. Dom Quixote de La Mancha. Edição da Abril Cultural, 1978, SP, sob licença do Círculo do Livro S.A. Tradução de Viscondes de Castilho e Azevedo.