Mostrando postagens com marcador Monteiro Lobato. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Monteiro Lobato. Mostrar todas as postagens

sábado, 5 de julho de 2025

Livro: Fábulas (1922) - Monteiro Lobato



Refeição Cultural

"- Na minha opinião, as fábulas mostram só duas coisas: primeiro que o mundo é dos fortes; e segundo que o único meio de derrotar a força é a astúcia..." (Fala do Visconde de Sabugosa, p.173)


O livro "Fábulas" de Monteiro Lobato foi publicado em 1922. Foi o segundo da coleção Sítio do Picapau Amarelo, saiu após "O Saci" (1921).

Estou lendo a obra um século depois. Eu concordo com a avaliação acima do personagem Visconde de Sabugosa. Só a astúcia para derrotar a força. 

Em que mundo vivia o autor um século atrás? Em que mundo vivemos hoje? Num mundo no qual a força se impõe contra a diplomacia e os consensos; em mundos que não querem mais conciliar.

A Alemanha e a Itália das primeiras décadas do século passado, o Japão lá no Extremo Oriente, se impuseram pela força (seriam o Eixo na 2a GM). Os Estados Unidos de Trump e o "Estado" de Israel de Netanyahu estão se impondo pela força. O império da força sem limites diplomáticos... esses são os tempos. 

---

O LOBO E O CORDEIRO

Outra fábula recontada por Monteiro Lobato um século atrás é mais atual que todas as outras: a do lobo e o cordeiro.

"Estava o cordeiro a beber num córrego, quando apareceu um lobo esfaimado, de horrendo aspecto.

- Que desaforo é esse de turvar a água que venho beber? disse o monstro arreganhando os dentes - Espere, que vou castigar tamanha má-criação!...

O cordeirinho, trêmulo de medo, respondeu com inocência:

- Como posso turvar a água que o senhor vai beber se ela corre do senhor para mim?

Era verdade aquilo e o lobo atrapalhou-se com a resposta...

(...)

O lobo furioso, vendo que com razões claras não vencia o pobrezinho, veio com uma razão de lobo faminto:

- Pois se não foi seu irmão, foi seu pai ou seu avô!

E - nhoc - sangrou-o no pescoço. 

     Contra a força não há argumentos." (p. 118/119)

---

COMENTÁRIO FINAL 

O livro contém 74 fábulas, algumas ótimas, muitas interessantes, e outras ruins e sem sentido.

Algumas fábulas são atemporais, vêm de séculos e séculos atrás. E suas lições permanecem sábias até hoje.

Foi o 4° livro que li de Monteiro Lobato nas últimas semanas. 

Fico com o ensinamento de Italo Calvino: é melhor ler que não ler os clássicos!

Sigo lendo e aprendendo.

William 


Bibliografia:

LOBATO, Monteiro. Fábulas. Ilustrado por Jótah. São Paulo: Lafonte, 2019.


quarta-feira, 2 de julho de 2025

Livro: O Saci (1921) - Monteiro Lobato

 


Refeição Cultural

"Dizem - respondeu o Saci - que, quando uma mulher tem sete filhos machos, o sétimo vira lobisomem na noite das sextas-feiras. Sai então pelos campos, invade os galinheiros (onde come um produto das galinhas que não é o ovo) e também assalta e devora os cães e as crianças que encontra pelo caminho..." (p. 79/80)


Ao pesquisar sobre a obra de Monteiro Lobato, vi que "O Saci" foi o primeiro volume da coleção Sítio do Picapau Amarelo, publicado em 1921.

Nesse primeiro livro, vemos personagens clássicas do folclore brasileiro como, por exemplo, a Mula Sem Cabeça, a Iara, o Lobisomem, o Negrinho do Pastoreio e o Boitatá. 

A Cuca e o Saci-Pererê são personagens que fizeram parte da infância das crianças brasileiras. A adaptação para exibição na TV se deu nos anos setenta, na Rede Globo em parceria com a TVE e o MEC (1977 a 1986). Quando pude ver alguma coisa sobre o Sítio, foram episódios dessa época.

Como disse nos comentários dos primeiros volumes que li dessa coleção (ler aqui), o leitor de hoje tem dificuldade com a linguagem de Monteiro Lobato em relação a diversas questões sensíveis como, por exemplo, a forma de tratamento a grupos sociais de nosso país.

No entanto, avalio que não é por isso que se deva desmerecer a importância inovadora da obra de Lobato nas primeiras décadas do século vinte no que diz respeito a uma literatura feita para crianças e adolescentes.

---

PERSONAGENS

Nas adaptações das lendas feitas por Monteiro Lobato, ele não segue necessariamente a tradição que a maioria das pessoas conhece. 

Na lenda da Mula Sem Cabeça, por exemplo, é mais conhecida a história na qual ela é concubina de um sacerdote. No entanto, no livro ela é esposa de um rei e come cadáveres de crianças no cemitério local.

Algumas histórias de Lobato são bem assustadoras se pensarmos o público-alvo e a sociedade na qual seus livros circulavam, crianças e o Brasil do início do século vinte.

A lenda do Boitatá do livro tem semelhança com uma das vertentes que encontrei ao pesquisar sobre a personagem folclórica. O próprio Pedrinho fala ao Saci que ele conhece a história da cobra de fogo como sendo fogo-fátuo.

Ao ler sobre o Lobisomem foi inevitável pensar qual dos filhos de minha avó Deolinda seria o lobisomem da família (risos). 

Minha avó teve nove filhos homens e o sétimo deve(ria) ter sido o bichão... não me lembro agora, mas se brincar é o meu pai... (os dois mais velhos já faleceram e um dos mais novos também). 

Brincadeira, meu pai é um dos mais velhos e não um dos mais novos. Ele não é o lobisomem da família. 

---

É isso! Sigamos lendo Monteiro Lobato. Já li 3 livros dele e tenho mais 4 em casa para ler.

William


Bibliografia:

LOBATO, Monteiro. O Saci. Ilustrado por Jótah. São Paulo: Lafonte, 2019.


quinta-feira, 19 de junho de 2025

Livro: Aventuras de Hans Staden (1927) - Monteiro Lobato



Refeição Cultural

"Aventuras de Hans Staden, o homem que naufragou nas costas do Brasil em 1553 e esteve oito meses prisioneiro dos índios tupinambás, narradas por Dona Benta aos seus netos Narizinho e Pedrinho."


Depois de ler "O Picapau Amarelo" (1939), agora foi a vez de ler "Aventuras de Hans Staden" (1927), da Coleção Sítio do Picapau Amarelo (1921-1947), de Monteiro Lobato.

Nesta aventura, Dona Benta conta aos netos eventos pesados se pensarmos o público infantil, pois o que mais tem na história é canibalismo, os tupinambás comeram gente do início ao fim.

Como leitor treinado, sempre busco adequar minha expectativa ao contexto no qual a obra foi lançada: a época, o lugar e as linhas gerais pretendidas pelo autor, se souber isso.

Disse no comentário sobre o primeiro volume que li de Monteiro Lobato (aqui) que ele é um escritor de seu tempo histórico. A linguagem usada por ele não me agrada como leitor do primeiro quarto do século XXI, acho ruim a forma como se trata a questão indígena, por exemplo. Mas não posso desconsiderar a importância da obra de Lobato.

Para compreender melhor o personagem retratado no volume procurei ler alguma coisa sobre Hans Staden. Eu não li o livro dele. Acho até que tenho uma edição em casa, mas não procurei a obra.

Por considerar o vanguardismo de Monteiro Lobato nas mais de duas dezenas de livros da Coleção Sítio do Picapau Amarelo, avalio que está boa a forma como ele contou a história do personagem capturado pelos tupinambás em meados do século XVI no Brasil.

Sigamos com a leitura de Monteiro Lobato.

William


Bibliografia:

LOBATO, Monteiro. Aventuras de Hans Staden. Ilustrado por Jótah. São Paulo: Lafonte, 2022.


domingo, 8 de junho de 2025

Livro: O Picapau Amarelo (1939) - Monteiro Lobato



Refeição Cultural

"- E agora, Visconde? Que fazer?

O Visconde coçou as palhinhas do pescoço. Não achou remédio. Os sábios são criaturas indecisas; não resolvem nada." (Monteiro Lobato, O Picapau Amarelo, p. 148)*


O Sítio do Picapau Amarelo e seus personagens fizeram parte de minha infância de alguma forma, pelo que me lembro. Acho que assistia às aventuras de Pedrinho, Narizinho, a boneca Emília e o Visconde de Sabugosa através da televisão nos anos oitenta. 

Ao pesquisar a respeito de qual série televisiva tive contato na infância, vi que foi a da adaptação da Rede Globo em parceria com a TVE e MEC, exibida entre os anos de 1977 e 1986, período no qual eu tinha entre 8 e 17 anos.

Os livros, contos ou textos políticos de Monteiro Lobato eu nunca tinha lido. Essa edição que li foi uma dessas que compramos em bancas de livros expostas em corredores de shopping center. Foram 15 reais bem investidos, na minha avaliação. O que se faz hoje com esse valor? Pode-se comprar um livro de Monteiro Lobato!

---

FÁBULAS E FAZ DE CONTA ENTRE CRIANÇAS E ADULTOS

Ao ler os livros de fantasia e mundo do faz de conta das fábulas infantis e infanto-juvenis que fizeram parte da infância de muita gente e avaliar o que virou o mundo humano nas primeiras décadas do século XXI, mundo no qual grupos de pessoas põem celular na cabeça para contatar extraterrestres para salvá-los de uma suposta ditadura esquerdista no Brasil, fico pensativo sobre a condição lastimável da espécie humana neste momento da história. 

A fantasia e faz de conta atualmente dominam a mente de adultos como, por exemplo, aqueles seguidores de uma seita messiânica liderada por um certo clã de políticos de extrema-direita no país. 

Acho que são diferentes as fantasias e abstrações criadas na literatura e outras formas de cultura e as manipulações de massa feitas pelos donos do poder e suas máquinas com objetivos de ganhos pessoais em detrimento de prejudicar as massas manipuladas.

Ou seja, vamos ler mais literatura e acessar mais formas de cultura e ficar menos nas redes sociais cujas donas são as corporações chamadas big techs que hoje atuam para mudarem o comportamento de seus usuários de forma criminosa.

É minha opinião.

---

PRODUÇÕES CULTURAIS RETRATAM OS MUNDOS

Uma questão do mundo atual que se discute em relação à produção de cultura de outras épocas é sobre as qualidades e defeitos dos criadores das produções culturais em suas épocas e contextos. Escritores e outros intelectuais das artes são seres sociais e são sujeitos de suas épocas.

A linguagem e formas de tratamento no livro de Monteiro Lobato, escrito em 1939 no Brasil, podem ser consideradas hoje inadequadas, racistas e preconceituosas. Este leitor que leu o livro agora em 2025 acha isso.

No entanto, as obras literárias e culturais ao longo da história humana retratam o mundo e a visão das pessoas daquele mundo em qualquer tempo e lugar. 

Óbvio que cada pessoa é diferente em uma determinada comunidade humana. O ser humano Monteiro Lobato em 1939 pode ser que tenha sido racista, xenófobo, misógino, elitista ou qualquer outra forma de avaliar comportamentos e ideias das pessoas em 2025.

No entanto, achar que só Monteiro Lobato ou só fulano ou cicrano usava a linguagem que o escritor usa para criar romances ficcionais na primeira metade do século XX no Brasil é tapar o sol com a peneira, ou seja, não considerar aquele mundo no qual vivia o escritor. 

É isso que penso após décadas de vivência e contato com a educação e formação política que tive a oportunidade de acessar como ser humano que já mudou radicalmente de opinião e visão de mundo por causa do contato com outros tipos de pensamentos nas suas mais diversas formas de apresentação aos outros.

Mais complicado para uma criança ou adolescente do que ler um romance de Monteiro Lobato com linguagem da época do Brasil da primeira metade do século XX é uma criança ou adolescente em 2025 conviver no meio de gente que põe celular na cabeça em grupo no meio da rua pedindo intervenção de extraterrestres por qualquer que seja o motivo. O exemplo que essas crianças estão recebendo de seus adultos vai ferrar geral o mundo no qual todos nós vivemos hoje e amanhã.

Vou ler mais Monteiro Lobato.

William


*Post Scriptum: ia me esquecendo. Por que usei a citação acima sobre os sábios que não resolvem nada? No instante que li, me lembrei na hora dos debates que tinha quando sindicalista e acadêmico a respeito das diferenças abissais entre a academia e o mundo sindical na hora de definir reivindicações, estratégias e táticas e soluções para os conflitos entre capital e trabalho. Os sindicalistas, mesmo acadêmicos ou com bagagem intelectual, têm uma diferença enorme em relação aos professores e intelectuais que tanto admiramos: na hora do conflito, da greve por exemplo, os sindicalistas estão com milhares de pessoas na busca de solução para aquele conflito real nas ruas e nos locais de trabalho, o ideal passa longe da solução para aquele conflito. Aprendi isso e respeito muito essa condição do sindicalista, que busca achar solução intermediária que seja decidida pelo conjunto de trabalhadores envolvidos. Via de regra, o acadêmico vai espinafrar a solução encontrada porque ela não leva ao socialismo ou à mudança de condição social etc. Muitas vezes, greves longas sem acordos intermediários acabam por só negociar os dias parados, sem avanço algum para os trabalhadores.


Bibliografia:

LOBATO, Monteiro. O Picapau Amarelo. Ilustrado por Jótah. São Paulo: Lafonte, 2019.


sábado, 7 de junho de 2025

Instantes (14h56)



Refeição Cultural

Leituras que nos fazem pensar... 

O romance de ficção científica de Miguel Nicolelis me deixou muito pensativo nos últimos dias... até um relâmpago pela janela do banheiro me assustou! Pensei no cataclismo oriundo da tempestade solar, que já ocorreu em 1859 e pode ocorrer a qualquer momento. É por questões como essa que afirmo que a humanidade precisa salvar nosso conhecimento e cultura em meios físicos. Essas nuvens digitais onde armazenam a produção humana das últimas décadas são como as nuvens do céu... se desfazem com qualquer ventinho.

Monteiro Lobato, escritor e intelectual de seu tempo, é uma de minhas lacunas culturais. Meu consolo é saber que não adianta me martirizar por ter tido que gastar meu tempo de vida tentando sobreviver como um cidadão pobre num país miserável dominado por uma elite desgraçada e fdp. Até li alguma coisa em décadas de venda de meu corpo e minhas horas de vida. Lobato não tinha lido ainda. Estou lendo um de seus romances infanto-juvenis, de 1939. Nunca é tarde para adquirir cultura.

Peguei na portaria a excelente revista do Mino Carta e sua equipe e, cansado das desgraças distópicas da política, comecei a leitura pelo fim, pela seção Plural, que aborda temas culturais. 

Estou vendo os episódios da série The Last of Us... pesado o clima. O corpo fica em choque. No entanto, ler as notícias políticas do Brasil dominado por um parlamento como o nosso é o mesmo que assistir à narrativa de fim do mundo da ficção. Aqueles 450 fdp estão lá para acabar com o mundo. Resta saber quem será o último de nós. 

William 

07/06/25

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Instantes (18h12)



Refeição Cultural

Anoiteceu. Quais alimentos culturais tenho degustado?

Estou lendo nesta semana Monteiro Lobato. Também estou lendo o romance do neurocientista Miguel Nicolelis. Ouvi algumas entrevistas e uma aula do professor João Cezar de Castro Rocha, o cara é um intelectual admirável!

São refeições culturais que alimentam nosso espírito, nossa mente humana. 

Pensei várias vezes em escrever sobre política e me posicionar. Me segurei e não escrevi nada. Não alteraria o mundo atual, o que estou nele.

As narrativas ficcionais infanto-juvenis do século passado de Monteiro Lobato e a ficção científica de Miguel Nicolelis pelo menos me fazem pensar o mundo. 

William 

04/06/25