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domingo, 10 de junho de 2012

A FRATERNIDADE É VERMELHA - TROIS COULEURS: ROUGE

Capa original do filme. Fonte: Wikipedia.


Nesta madrugada, acabei de assistir à trilogia das cores de Krzysztof Kieslowski, cineasta polonês falecido em 1996, vítima de um infarto fulminante no auge da carreira.


O terceiro filme, A Fraternidade é Vermelha, é belíssimo.


É sobre a estória de uma jovem modelo que vive em Genebra - Valentine (Irene Jacob). Após atropelar uma cachorrinha pastor alemão, ela vai atrás do dono do animal - o juiz aposentado Joseph Kern (Jean-Louis Trintignant), que passa o dia escutando as ligações telefônicas dos vizinhos.


Neste filme da trilogia, além de vermos o renascer da esperança após cada tragédia pessoal, temos também a mão do acaso podendo mudar uma trajetória negativa da existência que pareceria inexorável.


A vida do juiz aposentado Joseph Kern, homem que viveu infeliz após uma traição na juventude, é um espelho do que poderia ser a vida do jovem juiz Auguste (Jean-Pierre Lorit), que padece do mesmo início de vida adulta que teve aquele juiz aposentado.


A esperança de uma virada na vida do jovem juiz está em Valentine, a jovem e bela modelo que busca viver dentro dos padrões de correção tanto social quanto de consciência. Ela se preocupa com o animalzinho atropelado, com o irmão problemático, com a mãe, com o juiz aposentado, com todo mundo.


CENA DO LIXO - NOSSA REDENÇÃO EM VALENTINE


Aliás, temos a bela cena da fraternidade neste filme. Os espectadores viram nos 3 filmes a cena de uma pessoa idosa tentando colocar uma garrafa no depósito de lixo na rua. A francesa Julie (Juliette Binoche) viu e nada fez para ajudar no primeiro filme. O polonês Karol (Zamachowski) também nada fez no segundo filme ao ver a cena. A nossa redenção vem com Valentine, que sai de seu momento de observação e vai em socorro da velhinha ao ajudá-la a colocar a garrafa no lixo.


COMENTÁRIO FINAL


A Liberdade guiando o povo - Eugène Delacroix (1830) 


A cena final após o naufrágio é muito interessante. É a Europa que estava ali representada. Era a esperança que havia duas décadas antes, a cena era o nascimento da União Europeia.


E agora? Do naufrágio real da crise europeia, que esperança há para franceses, poloneses, ingleses, suíços, espanhóis, portugueses, gregos e tantos outros?


Kieslowski não está mais entre nós para filmar os acasos e nos apresentar possíveis leituras e mudanças de rotas existenciais. Resta a nós mesmos cismarmos onde toda a crise europeia vai desaguar.


Na França, o povo escolheu um socialista para o próximo mandato presidencial. Na Espanha, escolheram um neoliberal. Em Portugal outro neoliberal. Extremas direita e esquerda crescem na Europa...


É isso! A ver...

A IGUALDADE É BRANCA - TROIS COULEURS: BLANC

Capa original do filme. Fonte: Wikipedia


Acabei de assistir ao terceiro filme da trilogia. Porém, antes de postar comentário sobre ele, preciso fazer um comentário sobre A Igualdade é Branca.


A estória é sobre o polonês Karol Karol (Zamachowski) que se casa com a francesa Dominique (Julie Delpy) e enfrenta uma separação por não conseguir satisfazê-la sexualmente. Ela pede o divórcio, ele enfrenta um tribunal onde pergunta onde estão seus direitos, pois acha que está sendo prejudicado por não falar a língua local, e depois ela o deixa na rua sem nada e ainda o trai na maior cara de pau.


Como no primeiro filme de Kieslowski, a cor branca está presente no filme o tempo inteiro. O filme se passa nos anos noventa. Comemorava-se a União Europeia. Vivia-se o mundo após o fim da União Soviética. Hoje, duas décadas depois, vemos a União Europeia se desintegrando com a crise mundial após 2008.


O mundo gira, gira e as coisas vão e voltam...


O tempo todo sentimos junto com Karol a dureza de ser um estrangeiro no país francês. De novo, duas décadas depois, vemos se repetir a mesma coisa com relação a todos que são estrangeiros nos países em crise na Europa.


IGUALDADE


A única igualdade que temos é de sermos todos pegos pelos ACASOS da vida. Não se pode escapar deles. Veremos isso ao longo dos três filmes e eles alinhavam e modelam a existência de todos nós.


Eu nem poderia começar a citar os acasos de minha existência que me fizeram ser o que sou e estar onde estou hoje. Jamais planejei nada disso. Jamais!


O que posso dizer dos filmes da trilogia é que são encantadores, poéticos e nos deixam pensando, cismando. Talvez não seja o caso de ficar falando sobre eles, somente cismando...

domingo, 3 de junho de 2012

A LIBERDADE É AZUL - TROIS COULEURS: BLEU

Capa do filme - fonte: Wikipedia.


Assisti ao filme A liberdade é azul (1993), do polonês Krzysztof Kieslowski (1941-1996). Primeiro filme da trilogia das cores.


A ESTÓRIA


Muito já se escreveu sobre o filme. Então, também comentarei aqui o meu sentimento de hoje.


O filme conta a estória de Julie (Juliette Binoche), que perde em um acidente de carro a filha de 5 anos e o esposo - um compositor famoso.


Após um primeiro momento de desespero por ter que viver após a perda de sua família, ela decide desfazer todos os vínculos com o passado e tentar sobreviver. A partir daí, acompanhamos a belíssima interpretação da bela Juliette Binoche em conduzir sua personagem a buscar se libertar de tão grande tragédia e seguir a vida.


Duas coisas ela carrega consigo daquela vida interrompida: um móbile de pedras azuis de sua filha e algo imaterial - a música que vinha sendo composta por seu marido (ou ela?) para um evento de unificação da Europa. A música está em sua cabeça e a domina em determinados momentos.


O filme transmite muita dor... isso é marcante nas expressões de Julie.


Também conta com algo forte nos filmes de Kieslowski: O ACASO que está em tudo na existência e muda o rumo constantemente das coisas.


INFORMAÇÕES EXTRAS


Ganhei a caixa com a trilogia (versão 2006, a mais completa) de meu amigo e companheiro de formação sindical - o mineiríssimo Carlindo de Oliveira, formador do Dieese. A versão tem mais de uma hora de extras. Partilho com vocês algumas informações que me surpreenderam como, por exemplo, a fala do Kieslowski pouco antes de morrer. Ele me deixou cismando.


- uma das cenas que nos doem as pernas durante o filme é aquela em que Julie sai raspando sua mão pelo muro e relva com muita raiva de tudo. A mão dela fica toda ferida. A CENA FOI VERDADEIRA!


Como eles precisavam gravar e não tinha proteção para a cena, Juliette Binoche fez aquilo de verdade e ficou com marcas na mão por quase um ano.


- Tem uma entrevista com Kieslowski feita após a gravação do terceiro filme da trilogia e pouco antes dele morrer. Ele me pareceu o técnico de futebol Muricy Ramalho dando entrevista. Seco, direto e reto na resposta.


O diretor Kieslowski afirmava ao entrevistador que havia se aposentado e que não iria fazer mais nada além de viver. O entrevistador ficou insistindo sobre o que ele ia fazer e ele disse: NADA! vou respirar, comer, dormir... viver como vocês brasileiros que gostam da vida!


QUEDEI CISMANDO na fala dele ao dizer que só fazia filme porque era a profissão dele. Sem essa de que era feliz com isso, ou que fazia o que gostava. Direto e simples assim!




COMENTÁRIOS E REFLEXÃO FINAL


A questão da LIBERDADE, do ACASO e do FAZER O QUE TEM QUE SER FEITO ficou na minha cabeça.


NÃO ACREDITO QUE SOMOS LIVRES. Como ser livres se nos apegamos a algo ou se algo se apega a nós e então criamos o vínculo e depois do vínculo o compromisso e por fim aquele negócio de ser responsável por aquilo que você cativou (vinculou)? Já vimos isso em Sartre.


O ACASO FEZ TODA A MINHA EXISTÊNCIA. Estou sindicalista, casado e com filho (que está me destratando com ingratidão) porque as coisas foram acontecendo e me tirando de coisas que eu buscava. Entrei no sindicato quando estudava para sair do bb e havia acabado de entrar na Usp. Virei pai, me esforcei para contribuir na formação daquele garotinho que agora se acha no direito de me desrespeitar.


Sobre FAZER O QUE TEM QUE SER FEITO digo somente que estou fazendo TUDO o que posso para ser um dirigente sindical, representante da classe trabalhadora. Não amo, não sou feliz com nada na minha vida, MAS ACORDO PARA FAZER BEM FEITO TUDO O QUE FAÇO, COM ÉTICA E CARÁTER. Só isso!


Quem acompanha meu blog sabe que eu sempre quis ser intelectual, ler e viver em função de estudar e ser um erudito. Não deu certo e não tenho tempo sequer de dormir ou praticar algum esporte hoje em dia.


Foda-se!


Amanhã vou ser um bom sindicalista. A vida vai me levar as pessoas que amo (como leva de todo mundo) e vou respirando, lutando e andando por aí. Ser assim a vida inteira nunca me atrapalhou fazer bem feito o que tem que ser feito.