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terça-feira, 18 de agosto de 2026

Um apólogo - Machado de Assis



Refeição Cultural

Conto publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 1° de março de 1895 (com o título "A agulha e a linha") e depois reunido no livro de contos Várias histórias, em 1895.

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UM APÓLOGO

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu.

Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: — Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde  me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

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COMENTÁRIO DO BLOG

Este conto breve é muito interessante! Na primeira publicação, na Gazeta de Notícias, Machado de Assis o chamou de "A agulha e a linha", segundo o estudioso John Gledson. Quando a narrativa foi reunida em livro, o escritor a denominou "Um apólogo".

Apólogo é uma narrativa moral, um texto com personagens inanimados que ganham voz e ação (prosopopeia) e participam da história contada.

Nesta história que nos mostra a disputa de vaidade entre a agulha e a linha, debatendo entre elas qual seria mais importante, podemos observar que ambas têm seu valor no trabalho de coser as roupas que depois serão usadas pelos humanos em ocasiões diversas. 

No entanto, uma acabou "vencendo" o debate, como acontece hoje nas disputas alimentadas em redes antissociais que dominam o universo humano neste momento da história. 

Uma não realizaria o trabalho sem a outra na história. Linha sem agulha ou agulha sem linha demonstra a importância do trabalho conjunto. 

Poderíamos usar essa narrativa moral em diversos exemplos de nossa vida em sociedade. Precisamos uns dos outros. 

Uma obra pública financiada com recursos do governo federal e do estado ou município só saem do papel pela ação de ambos. Porém, governos locais usam omitir do povo a ação decisiva do governo federal.

Enfim, o conto machadiano, o apólogo, é mais atual que nunca, se pensarmos no cenário das eleições brasileiras de 2026. 

Lula recuperou o país após a tragédia bolsonarista, organizou a economia e está financiando estados e municípios em obras importantes. E os prefeitos e governadores, sem caráter ou ética, omitem essa informação por motivos políticos. 

Sigamos lendo literatura de qualidade e melhorando nossa interpretação do mundo. 

William 

18/08/26

sábado, 15 de agosto de 2026

A cartomante - Machado de Assis



Refeição Cultural

Após o conto, faço um breve comentário a respeito de impressões que tive na leitura.

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A CARTOMANTE 

Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras. 

— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade... 

— Errou! interrompeu Camilo, rindo. 

— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria... 

Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois... 

— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa. 

— Onde é a casa? 

— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca. 

Camilo riu outra vez: 

— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe. 

Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita coisa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranquila e satisfeita. 

Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando. 

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante. 

Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo. 

— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo, falava sempre do senhor. 

Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição. 

Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor. 

Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela, era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as coisas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração, não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as coisas que o cercam. 

Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas. 

Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato. 

Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo. 

Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível. 

— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a... 

Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas. 

No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas coisas com a notícia da véspera. 

— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel. 

Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a ideia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a ideia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto. 

Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a ideia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo. 

"Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim..." 

Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar, a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino. 

Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar à primeira travessa, e ir por outro caminho: ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a ideia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça: 

— Anda! agora! empurra! vá! vá! 

Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras coisas; mas a voz do marido sussurrava-lhe a orelhas as palavras da carta: "Vem, já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas coisas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários: e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais coisas no céu e na terra do que sonha a filosofia..." Que perdia ele, se...? 

Deu por si na calçada, ao pé da porta: disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve ideia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio. 

A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe: 

— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto... 

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo. 

— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não... 

— A mim e a ela, explicou vivamente ele. 

A cartomante não sorriu: disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela curioso e ansioso. 

— As cartas dizem-me... 

Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela: ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta. 

— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante. 

Esta levantou-se, rindo. 

— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato... 

E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço. 

— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar? 

— Pergunte ao seu coração, respondeu ela. 

Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis. 

— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá, tranquilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...

A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo. 

Tudo lhe parecia agora melhor, as outras coisas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo. 

— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro. 

E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer coisa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz. 

A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável. 

Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela. 

— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há? 

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

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COMENTÁRIO DO BLOG

Os contos de Machado de Assis são extraordinários! Fazia tempo que não relia este conto, publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 28 de novembro de 1884, e depois reunido a outros contos no livro Várias histórias, de 1895. As informações são de John Gledson, do livro 50 contos de Machado (2007, 14ª reimpressão).

Após descobrir o desfecho da história de Vilela, Camilo e Rita, e voltar ao texto, é muito interessante identificar as características que o escritor vai apresentando de cada um dos personagens e até os valores de época, daquela sociedade na qual os personagens estão inseridos culturalmente.

A descrição e caracterização de Rita não deixam dúvidas sobre a forma como as mulheres são vistas naquela sociedade. 

Rita: "uma dama formosa e tonta"; "era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa". Ela era mais velha que os amigos de infância, tinha 30 anos, enquanto Vilela tinha 29 e Camilo 26.

Em outro momento, quando o narrador aponta Rita como a responsável pela situação da trama, nos lembra um pouco da "mulher balzaquiana", coincidentemente nossa personagem tem 30 anos: "os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele..."

Vilela tem "porte grave", é formado em advocacia e foi da magistratura.

Já Camilo, que a família queria ver advogado, não se formou. "Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, com os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.".

A MULHER NA ÓTICA PATRIARCAL E MACHISTA

Como disse acima, o narrador dá o tom do que pensa aquela sociedade a respeito das mulheres: são serpentes, a origem do pecado e do mal.

"Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos!".

E para completar o papel das mulheres responsáveis pelos males daquela sociedade patriarcal e machista, de homens e pessoas ludibriadas pelas temíveis mulheres, quase bruxas, tem a figura da cartomante:

"era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos..."

Enfim, a história de Vilela, Camilo e Rita não poderia ter outro desfecho, sob o ponto de vista de uma sociedade que um século depois da história (1869) ainda permitia aos homens matarem mulheres por questões de honra.

Após um curto período de tempo entre o final do século XX e o ano corrente, 2026, chegou-se a mudar o código civil igualando direitos entre homens e mulheres e as leis no país, criou-se a Lei Maria da Penha, e no entanto, pasmem, vivemos uma epidemia de violência contras as mulheres no Brasil. Os índices de assassinato de mulheres crescem assustadoramente no país, principalmente em São Paulo.

A releitura do conto "A cartomante" me lembrou a universalidade dos textos de Machado de Assis, até quando ele descreve a questão da religião e a fé ou não em Deus.

AGNÓSTICO OU ATEU?

"Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando."

Me lembrei de uma palestra de Marcelo Gleiser, físico e astrônomo brasileiro, que me fez rever meu conceito sobre ser ateu, quando ele explicou exatamente o que Machado descreve sobre "negar é ainda afirmar" em relação a haver ou não um Deus. 

Gleiser explica que a ciência não pode provar a não existência de Deus, pois a ciência é baseada em afirmações categóricas, e o agnóstico não crê mas não pode afirmar que não exista um Deus de forma categórica. Foi o que entendi do vídeo que vi com ele.

Enfim, tive o prazer de reler um excelente conto de Machado de Assis hoje. Como seus textos são de domínio público, está disponível no blog para leitura.

Sigamos lendo e tentando nos fazer humanos e conhecedores de alguma coisa. Os tempos são de elogia à ignorância.

William

15/08/26

sábado, 27 de junho de 2026

Livro: Os cem melhores contos brasileiros do século - Italo Moriconi



Refeição Cultural

LITERATURA BRASILEIRA


Um dos livros iniciados há mais tempo e não finalizados por mim era a seleção de contos brasileiros do século vinte, organizados por Italo Moriconi. 

O livro foi lançado no ano 2000 e eu tenho a minha edição pelo menos desde 2004, por ter anotações datadas nas páginas.

Moriconi organizou os contos e autores por períodos cronológicos. A primeira parte - "De 1900 aos anos 30 - Memórias de ferro, desejos de tarlatana" - já havia lido todos os contos, alguns deles, diversas vezes. 

A segunda parte - "Anos 40/50 - Modernos, maduros, líricos" - também havia lido. Ao retomar a leitura, estava terminando a terceira parte - "Anos 60 - Conflitos e desenredos". 

Foi desse ponto adiante que segui lendo, agora, contos já conhecidos por mim e fui sendo apresentado a contos e autores novos. 

Se minha vista permitir - tive um descolamento do humor vítreo do olho esquerdo que me incomoda muito -, vou caminhar neste livrão até o fim. São 600 páginas. 

30/05/26

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De 1900 aos anos 30 - Memórias de ferro, desejos de tarlatana

Destaco dessa primeira seleção o conto "Pai contra mãe", de Machado de Assis. É um dos melhores contos do Bruxo do Cosme Velho, na minha opinião. A temática é a escravidão dos povos africanos e seus descendentes no Brasil e a forma como essa violência era naturalizada naquela sociedade. 

Também tenho muita admiração pelos contos "Baleia", de Graciano Ramos, que depois se transformaria no clássico "Vidas secas". E "O homem que sabia javanês", de Lima Barreto. Boa demais essa narrativa!

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Anos 40/50 - Modernos, maduros, líricos

De passar os olhos pelo índice de contos dos Anos 40/50, me lembrei na hora de "Nhola dos Anjos e a cheia do Corumbá", de Bernardo Elis. Sofri junto com os protagonistas... foda!

Destaco também "Viagem aos seios de Duília", de Aníbal Machado; "O peru de Natal", de Mário de Andrade; e "Afogado", de Rubem Braga. 

O caso com a Duília me fez pensar muito, à época, sobre a forma de lidar com as lembranças do passado. Rubem Braga nos fez sentir na pele o risco de morrer ao se aventurar no mar. E sempre recomendo o conto de Mário de Andrade a pessoas com relações paternas conflituosas. Demais essa narrativa!

Destaco ainda "Um cinturão", de Graciano Ramos. No livro de Moriconi, li o conto em 2011 e 2021. Ao relê-lo este ano (2026), no livro "Infância", fiquei muito impactado com a história do garoto. Horror!!!

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Anos 60 - Conflitos e desenredos

Da seção Anos 60, por meu gosto, e de memória, destaco "A máquina extraviada", de José J. Veiga, conto excepcional! 

Quando Moriconi organizou o livro, na virada do século, eu não havia lido ainda J. Veiga. Felizmente, em meados da segunda década deste século, peguei pra ler os livros do autor e li mais da metade da obra do escritor goiano. Ele é único!

Fernando Sabino também é excelente, seu conto "O homem nu" é muito bom.

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Anos 70 - Violência e paixão 

Gostei muito de alguns contos da seleção dos Anos 70. Os mais impactantes foram os três de Rubem Fonseca, nossa! O "Feliz ano novo" me deixou muito mal, são os acontecimentos ao redor da gente ainda hoje!

Amei o conto de Clarice Lispector! Os olhos enchem de lágrimas só de pensar no amor pela literatura. É mesmo uma "Felicidade clandestina".

Merecem meu destaque "O elo partido", de Otto Lara Resende; "A balada do falso Messias", de Moacyr Scliar; e "A maior ponte do mundo", de Domingos Pellegrini.

Ao final do conto "Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon", de José Cândido de Carvalho, pensei em mim e no Sindicato, e depois em minha volta pra casa... me vi como Lulu Bergantim. 

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Anos 80 - Roteiros do corpo

Alguns contos desta seleção me incomodaram muito, ou me fizeram refletir sobre o tema abordado. Isso é muito bom! Até concluí que devo seguir lendo contos para dar a mim mesmo a oportunidade da novidade no meu cotidiano, em termos de histórias ficcionais. 

O conto de Ivan Ângelo, "Bar", foi um soco no meu queixo, fiquei muito tempo com o maxilar doído.

Na temática da luta permanente das mulheres pelo direito aos próprios corpos e vidas, gostei dos contos "Intimidade", de Edla Van Steen, "I love my husband", de Nélida Piñon, e de "Flor do cerrado", de Maria Amélia Mello. Muito bom também "Aqueles dois", de Caio Fernando Abreu.

Adorei "Obscenidades para uma dona-de-casa", de Ignácio de Loyola Brandão. 

Destaco ainda o conto de João Ubaldo Ribeiro, "O santo que não acreditava em Deus". Ao comentar sobre ele com a esposa, ela disse que tem um filme baseado na estória. 

O "Conto (não conto)", de Sérgio Sant'Anna, foi um dos melhores textos da seleção dos Anos 80.

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Anos 90 - Estranhos e intrusos

Na seleção de contos dessa década final do século vinte, alguns textos mexeram comigo também, um certo incômodo na leitura. Alguns pelo tema, outros pela forma da narrativa. 

Sérgio Sant'Anna é destaque com o conto "Estranhos". Tema bem diferente do seu "Conto (não conto)" da década anterior. Nesse de agora é sexo na veia. O outro tem uma pegada filosófica. 

O conto "Olho", de Myriam Campelo, é daqueles que a gente lê escondido, com vergonha de alguém saber que lemos aquilo, que alguém teve coragem de escrever aquilo. Me lembrei do Alberto Manguel falando sobre suas leituras infantis de livros proibidos da estante de seu pai (Uma História da Leitura).

O conto de Marina Colasanti "A nova dimensão do escritor Jeffrey Curtain" me deixou muito pensativo, dormi com ele e ainda penso a respeito. Mexeu comigo, me fez escrever um de meus textos da série "Instantes".

Para fechar meus destaques da seleção dos Anos 90, cito Luis Fernando Verissimo e seu pequeno e belo "Conto de verão n° 2: Bandeira Branca". De arrepiar e emocionar o leitor. Pelo menos este leitor que vos fala.

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Comentário final 

E então, duas décadas depois de iniciada a leitura de Os cem melhores contos brasileiros, na opinião de Italo Moriconi, concluí o livro. Já era tempo, né?

A crítica literária tem algumas vertentes quando se pensa o papel da literatura na sociedade humana. 

Quando fiz faculdade de Letras, li o texto do professor Antonio Candido "O direito à literatura" e fui convencido pelo mestre que a literatura é um direito humano fundamental, pois fabular nos faz humanos.

Independente da maneira como se escreve e se lê literatura - romances, contos, crônicas e demais formas de textos artísticos - as narrativas ficcionais nos agregam vivências, experiências e aprendizados que nos modificam, nos transformam em outras pessoas, ou seja, as personas ficcionais alteram nossas personas reais. Isso é bom!

Ler um livro como esse com dezenas de autoras e autores brasileiros que não conhecia ou até já tinha ouvido falar, mas que nunca havia lido nada de suas autorias nos dá uma consciência incrível do quanto sabemos pouco ou quase nada de tudo. 

Sou formado em Letras, já li bastante se comparar minha bagagem com as médias de leitores do país, mas sei que não conheço quase nada de literatura brasileira e universal.

Reconheço com humildade esse fato e me disponho a seguir lendo e escrevendo aqui sobre minhas refeições culturais, enquanto a natureza me permitir.

Claro, como defini desde o início, tudo que souber quero partilhar de forma gratuita com as pessoas. Quando se compartilha conhecimento estamos atuando para melhorar as pessoas e o mundo. 

William 

27/06/26

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Instantes de leituras



Refeição Cultural

"(...) para aquela coisa clandestina que era a felicidade." (p. 314)

No conto "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector, sobre uma menina que conseguiu emprestado o livro "As Reinações de Narizinho", de Monteiro Lobato.

Comentário: fiquei pensando na felicidade clandestina pelo simples fato de poder ler... não tive muita felicidade quando não pude ler e quando pude ler e não li... talvez a felicidade seja alguma coisa clandestina mesmo.

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"Queria e já não podia contar. E não poder contar o isolava definitivamente, como se, a partir dali, tivesse mudado de lado, passado para a outra margem. Dava adeus ao que vinha sendo, a tudo que era - ao dia-a-dia, aos negócios, ao confortável cotidiano. Mas lutava. Para qualquer nova emergência, não seria apanhado desprevenido. Obsessivamente, arquivava, armazenava traço por traço do sócio, seu rosto de sempre, inesquecível, doravante inescamoteável." (p. 323)

Comentário: no conto "O elo partido", dos anos setenta, Otto Lara Resende nos apresenta um executivo que começa a ter uns lapsos de memória no seu cotidiano. O tema é muito atual por causa das inúmeras doenças neurológicas que acometem as pessoas neste início de segundo quarto de século XXI.

("Dava adeus ao que vinha sendo, a tudo que era..." - pensei na minha dificuldade de ver as letras na página por causa das manchas escuras e opacas entre mim e o mundo, fruto do descolamento de humor vítreo nesta semana... adeus ao que vinha sendo, a tudo que era... - não quero me deprimir, tenho meus textos nos blogs para finalizar a sistematização...)

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"Zequinha pegou a Magnum. Jóia, jóia, ele disse. Depois segurou a doze, colocou a culatra no ombro e disse: ainda dou um tiro com esta belezinha nos peitos de um tira, bem de perto, sabe como é, pra jogar o puto de costas na parede e deixar ele pregado lá." (p. 336)

Ao ler o conto "Feliz ano novo", de Rubem Fonseca, uma porrada no leitor, fiquei pensando minhas teorias sobre o instante da vida, sobre o inesperado, o imponderável que vem e muda tudo num segundo, como aconteceu com as pessoas que cruzaram o caminho dos personagens do conto.

De repente se tromba com um Zequinha ou um Pereba, de repente se acorda com a vista toda fodida, sem enxergar mais, de repente um AVC ou infarto. E a vida nunca mais será a mesma...

Feliz ano novo pra vocês, amig@s leitores, pois todo dia é novo.

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"- Já falaram, já comeram biscoitinhos de araruta e licor de jenipapo. Agora é trabalhar!

E sem mais aquela, atravessou a sala da posse, ganhou a porta e caiu de enxada nos matos que infestavam a Rua do Cais..." (p. 362)

Comentário: ao ler o conto "Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon", de José Cândido de Carvalho, e após um curto diálogo em casa, fiquei um tempo pensando na minha vida. Vi em segundos as décadas de existência e as pessoas que fizeram parte do meu ambiente cultural...

Concluí que fui uma espécie de Lulu Bergantim e o Sindicato foi a prefeitura de Curralzinho na minha vida de Lulu. Independente de meus problemas, trabalhei pra caralho lá. Depois voltei pro lugar de onde vim. É isso.

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"A moça chegou com sapatinho baixo, saia curta, cabelos lisos castanhos arrumados em rabo-de-cavalo, sorriu dentes branquinhos muito pequenos, como de primeira dentição, e falou o senhor me deixa telefonar? de maneira inescapável." (p. 434)

Comentário: o conto "Bar", de Ivan Ângelo, na seleção de contos dos Anos 80, lido neste momento, no Brasil de 2026, no Brasil pós abertura da Caixa de Pandora com o Golpe de 2016 "Com o Supremo, com tudo", do Brasil revolucionado por Bolsonaro e o bolsonarismo, do Brasil da epidemia de violência de gênero, é de uma realidade estrutural incrível em relação à condição das mulheres! É como se fosse mais uma notícia cotidiana dessa epidemia macabra que assola o país... terminei a leitura querendo exterminar os homens... (e sei que não é assim que se resolve a questão).

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terça-feira, 26 de maio de 2026

Livro: Sussurros Metropolitanos - Sandro Sedrez dos Reis



Refeição Cultural

LITERATURA BRASILEIRA 


"Todas as histórias passam por términos..." (Sandro Sedrez)


Após ler dois livros de não ficção, leituras que considerei exigentes e cansativas, dei-me o direito ao prazer das estórias ficcionais. 

Em literatura, estórias ficcionais nos colocam em contato com histórias de personagens que poderiam ser qualquer um de nós, leitores do mundo.

Peguei na estante o livro Sussurros Metropolitanos (2024), de Sandro Sedrez dos Reis. 

O autor é meu amigo, trabalhamos juntos na área de gestão de saúde, e após uma vida de serviços prestados à comunidade do Banco do Brasil, Sandro está se dedicando a nos presentear com suas narrativas marcantes. 

Logo após a aquisição do livro, li os três primeiros contos, da primeira parte da obra, e gostei muito das estórias: "Uma História de Café da Manhã ", "Visitas, Mimos & Segredos" e "Tá descendo?".

Depois, me envolvi com as outras diversas leituras que faço ao mesmo tempo e guardei os Sussurros Metropolitanos

Recentemente, decidi mudar um pouco minha estratégia de leituras: vou ler um livro de cada vez ou, no máximo, dois livros com temáticas bem diferentes. 

Foi com essa nova estratégia de leituras que escolhi retomar e terminar o livro Sussurros Metropolitanos

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Almas e Rodas (p. 93)

Uma delícia de narrativa! A personagem Lúcia é encantadora. O nosso mundo está carente de lúcias e beatrizes.

- Ninguém solta a mão de ninguém, não é, Nina?

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Memória (p. 125)

Que diferença um gesto pode fazer na vida de alguém?

Narrativa incrível! O final da estória é de arrepiar!

Ao que parece, ao nos apresentar personagens como Lúcia ("Almas e Rodas") e Vicente, o autor nos lembra que a esperança no ser humano pode estar ao redor de cada um de nós, nas pessoas comuns do cotidiano. 

Assim seja, Sandro!

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Voz nos Trilhos (p. 153)

Para alguém que cresceu em cidades do interior como eu (Uberlândia, MG), causos como o investigado por Walter e Werner são comuns. 

Cantos, becos e passagens entre um lugar e outro são locais propícios para os sussurros da noite. 

Narrativa envolvente!

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Desfolha Outonal (p. 179)

Amig@s leitores, esse escritor, Sandro Sedrez, sabe pegar a gente de jeito...

Nossa! Essa estória bateu fundo neste leitor que vos escreve...

Após o término do conto, só foi possível enxugar a lágrima, calçar o tênis e sair para caminhar... respirar entre as árvores. 

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Invisível (p. 197)

Uma estória dramática a do personagem Joaquim, ou Quincas.

O autor nos coloca em enredos nos quais poderíamos figurar como personagens principais. 

A identificação do leitor com os personagens, os acontecimentos e os sentimentos amplia muito a experiência da leitura. 

Torci muito por Joaquim nesta narrativa. 

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Um dia de (Ro)Tina(S) (p. 213)

Sandro tem uma habilidade incrível de nos transportar para a história que nos conta, para nos colocar ao lado dos personagens e de seus dramas e sentimentos. 

Ao lado de Tina, vivi por instantes os desafios de milhões de mães solo no Brasil e no mundo. Refleti sobre muita coisa. 

Literatura também é isso.

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Conexão (p. 241)

O autor fechou com chave de ouro o livro através deste conto.

Haveria um destino desenhado para cada pessoa ou ser vivente? Como compreender os acasos e as veredas que a vida nos apresenta?

A história de Endrigo nos põe a pensar...

De fato, os aeroportos são lugares cheios de histórias...

Assim como a vida da gente.

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COMENTÁRIO FINAL 

O escritor Sandro Sedrez dos Reis é escritor refinado, criador de textos bem escritos e muito reflexivos.

As narrativas que nos conta trazem questões muito contemporâneas, tanto pessoais quanto coletivas, da vida em sociedade. 

Sandro tem a habilidade de colocar os leitores no cenário das histórias que conta, nos vemos nas cafeterias, nas ruas, ao lado das personagens. 

Seus textos nos dão prazer, algo raro hoje em dia, um prazer intelectual e popular, pois suas personagens são gente como a gente.

Valeu muito a leitura! Estou pensativo por causa de várias histórias que vivi com os Sussurros Metropolitanos

William 

26/05/26

domingo, 15 de março de 2026

Livro: Infância - Graciliano Ramos



Refeição Cultural 

LITERATURA BRASILEIRA 


"Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um braço, açoitando-me. Talvez as vergastadas não fossem muito fortes: comparadas ao que senti depois, quando me ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certamente o meu choro, os saltos, as tentativas para rodopiar na sala como carrapeta, eram menos um sinal de dor que a explosão do medo reprimido. Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os pulmões, movia-me, num desespero." (G. RAMOS, "Um cinturão", p. 32)


Graciliano Ramos tinha 53 anos de idade quando publicou o livro Infância, em 1945. É um livro duro, sem meias palavras. A infância do personagem foi muito dura, de violência gratuita no cotidiano. A criança do romance é ele mesmo, o garoto que nasceu em 1892 no agreste de Alagoas.

São 39 capítulos de memórias do personagem adulto que conta sua infância no interior do Nordeste nos últimos anos do século XIX e início do século XX. 

O adulto narrador do romance é um escritor maduro e com uma obra de referência na literatura brasileira: Graciliano Ramos. Porém, as memórias do escritor, na forma de romance, são as memórias de todos nós, são universais.

A crítica literária tem longa história de estudos sobre discursos narrativos que mesclam realidade e ficção em obras literárias. Toda memória tem um quê de ficção porque preenchemos lacunas e damos sentidos a ela.

A técnica literária e a capacidade ímpar de Graciliano Ramos em mergulhar leitores em suas memórias da infância nos faz ver em cada capítulo - que para mim são contos - as nossas histórias pessoais e cotidianas da infância e adolescência.

Fui escrevendo minhas impressões enquanto ainda lia o romance, antes de finalizar os 39 capítulos. Não queria que a leitura acabasse... As histórias do livro são como as passagens da bíblia para as pessoas religiosas. O ideal seria ter a obra à cabeceira da cama. Cada parágrafo é uma lição, uma reflexão, um prazer ao ler texto bem escrito.

Certa vez, enquanto era aluno de Letras, fiz um poema abordando três autores que me influenciavam naquele momento (com uns trinta anos de idade): Caeiro, Drummond e Graciliano Ramos (ler aqui). Dizia que, ao final de meu desenvolvimento com a escrita, queria chegar à técnica literária de Ramos. O que desejava ser como escritor é o que leio em Infância. Demais!

As histórias da leitura e dos leitores, como nos contou magnificamente Alberto Manguel (um exemplo aqui) são únicas ao longo dos tempos. O personagem de Infância nos conta que até os nove anos de idade, seguia sem conseguir ler e entender o sentido dos textos. Sendo a história do escritor, vemos que aquela criança se tornou um dos melhores escritores do país.

Após ler mais algumas histórias - a do capítulo "Fernando" é fascinante -, avancei para as últimas cinco do livro. Repito: o romance-bíblia deveria ficar na cabeceira da cama para sempre. Queria escrever assim!

(E pensar que quis ser literato e professor, até entrei em uma faculdade de Letras e as veredas da vida me levaram a ser sindicalista...)

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"Às vezes o homem se excedia: amarrava os braços do garoto com uma corda, espancava-o rijo, abria a porta, e a desesperada humilhação exibia-se aos transeuntes, fungava, tentava enxugar as lágrimas e assoar-se. O choro juntava-se ao catarro, pingava no paletó e na camisa - e o pano molhado tinha um cheiro nauseabundo, mistura de formiga e mofo." ("A criança infeliz", p. 237)

Esse era o método de ensino no país no início do século XX...

Amigos leitores, cada conto (capítulo) é uma história comum a inumeráveis crianças do Brasil e do mundo, do passado e do presente...

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COMENTÁRIO FINAL

A leitura do livro Infância (1945) foi marcante para mim, foi uma leitura de reencontro com Graciliano Ramos. Uma leitura de descoberta e de compreensão a respeito do escritor que sempre admirei e do qual eu não conhecia seu passado, seu ambiente de aculturamento e formação.

O posfácio "Graciliano Ramos e o Sentido do Humano", de Octavio de Faria, que faz parte da minha edição do livro, ampliou ainda mais a minha compreensão a respeito da poética do escritor.

Um dos livros impactantes em minha vida, que me levou inclusive a escrever uma crônica relativa à minha infância e adolescência, é justamente Angústia (1936), considerado por Octavio de Faria, a obra principal de Graciliano Ramos. 

Ao ler o livro no início dos anos dois mil e após entrar na faculdade de Letras, me lembrei de meus dias de ajudante de encanador ao ler as reflexões do personagem Luís da Silva (ler aqui).

Eu já havia tido o privilégio de ler Caetés (1933), São Bernardo (1934) e Vidas secas (1938), além de Angustia. Cheguei a escrever em um poema que meu sonho era alcançar o estilo Graciliano Ramos de escrever após uma suposta evolução na produção literária. Utopia! G. Ramos é único!

Ao ler Infância, neste momento de meu viver, compreendi a obra toda de Graciliano Ramos. Agora vejo claramente Fabiano e toda a dureza do enredo de Vidas Secas. Como não entender Paulo Honório, de São Bernardo?

Ao terminar a leitura demorada de Infância, porque lia um capítulo ou conto e parava, concluí que a minha natureza psicológica é mais Graciliano Ramos que qualquer outro autor pelo qual nutro admiração. 

Machado de Assis, Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade são deuses para mim, assim como Graciliano Ramos. Mas quando olho para a minha vida, o meu percurso da infância até aqui, sou Graciliano. E minha infância até os dez anos foi o inverso da dele, mas a adolescência minha... foi a infância dele: miséria e violências sociais.

Não tenho outra opção em minha vida torta de leitor repleto de lacunas culturais a não ser ler Memórias do Cárcere (1953), do autor espelho de minha psicologia, daquilo que se costuma chamar alma. 

Espero que dê certo completar o percurso dos romances do mestre Graciliano Ramos. Ele teria muito que escrever para nós, quando faleceu no auge de sua produção, como aconteceu a Guimarães Rosa.

Viva a literatura!

William

sábado, 3 de maio de 2025

Livro: Primeiras Estórias - João Guimarães Rosa



Refeição Cultural

"Sua mulher, Tia Liduína, então morreu, quase de repente, no entrecorte de um suspiro sem ai e uma ave-maria interrupta..." (Nada e a nossa condição, Rosa, p. 74)


Sabadão... eu indeciso se sigo lendo mais uns contos de Rosa, se me perco na política - meu tempo tá encurtando à jato (e já não apito nada) -, se pego firme na sistematização de meus textos de uma vida, ameaçados de inexistir nas nuvens inimigas. Dilemas de quem tem a noção do tempo indo.

Quisera eu, quando meu fim chegar, daqui a um minuto ou vinte anos, que fosse ao modo de dona Liduína. Sonho de consumo daqueles que sabem da morte como parte da vida.

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NADA E A NOSSA CONDIÇÃO

Eu fiquei pensando no nome do conto de Rosa... "Nada e a nossa condição".

No fim, o nada é algo que faz parte do todo. Os nadas fazem parte do todo. Eu sou nada. E, no entanto, pertenço ao todo. Natureza...

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UM MOÇO MUITO BRANCO

"Ela, que, a partir dessa hora, despertou em si um enfim de alegria, para todo o restante de sua vida, donde um dom..." (p. 94)

Alegria

Ao ler o conto, me lembrei da resposta de Rubem Alves ao entrevistador Abujamra, que lhe perguntou certa vez "A vida é uma causa perdida?", e Alves responde que sim por sabermos que vamos morrer, mas cita Guimarães Rosa que falava da alegria nos momentos de distração. 

A moça do conto, ganhou em sua vida, o dom da alegria.

Profundo isso!

Gostaria de ter tido esse dom.

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LUAS-DE-MEL

"No mais, mesmo, da mesmice, sempre vem a novidade. Naquela véspera, eu andava meio relaxo, fraco; eu já declinava para nãoezas? Nos primeiros de novembro. Sou quase de paz, o quanto posso..." (p. 96)

É sempre isso. Quando leio Guimarães Rosa, automaticamente me vem à cabeça Uberlândia, me vem o Mato Grosso, anos oitenta, minha família e o mundo onde cresci.

Apesar de ser, em suas narrativas, uma língua inventada pelo escritor, em grande parte, relembro a língua de onde vivi nos anos oitenta.

Guimarães Rosa me transporta ao passado do Brasil onde vivi.

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Comecei a ler esse pequeno livro de contos de Guimarães Rosa há mais de vinte anos. Nunca terminei.

Li pela primeira vez "As margens da alegria" em 2003. Alguns contos eu já li várias vezes nesse tempo todo. 

Agora, decidi ler os contos que não havia lido ainda. 

Uma vez, li em voz alta, na cozinha da casa de meus pais em Uberlândia, o conto "A terceira margem do rio". De repente, comecei a chorar, soluçar... e quase não consegui acabar a estória. 

Com "Sorôco, sua mãe, sua filha" a emoção também é no limite.

"Famigerado" é um dos contos mais marcantes do livro.

E assim, vou finalizar minha leitura do Primeiras Estórias (1962), do mestre Guimarães Rosa. Já é tempo de finalizar coisas antigas não concluídas.

Retomarei o trabalho de sistematização dos meus textos em seguida.

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Post Scriptum:

DARANDINA

"Pois, de repente, sem espera, enquanto o outro perorava, ele se despia. Deu-se à luz, o fato sendo, pingo por pingo. Sobre nós, sucessivos, esvoaçantes - paletó, cueca, calças - tudo a bandeiras despregadas. retombando-lhe a camisa, por fim, panda, aérea, aeriforme, alva. E feito o forró! - foi - balbúrdias. Na multidão havia mulheres, velhas, moças, gritos, mouxe-trouxe, e trouxe-mouxe, desmaios. Era, no levantar os olhos, e o desrespeitável público assistia - a ele in puris naturalibus..." (p. 132)

A gente sabe tão pouca coisa nesta vida, tão nada, que às vezes até se surpreende, mesmo entrado décadas na existência.

Após ler este conto de Guimarães Rosa, Darandina, eu fui pesquisar alguma coisa sobre ele e me surpreendi com a grandeza da estória. Tem revista universitária com o nome do conto, tem diversos trabalhos acadêmicos e ensaios muito interessantes sobre ele. O texto é gigante! Eu nunca tinha me dado conta dele... tão nada, tão pequeno somos quando se trata de conhecer literatura... (eu, né, eu, não falo pelos outros, só por mim).

Teria que renascer e ter foco na literatura desde que me entendesse por gente para poder dar conta de um mínimo que queria conhecer sobre literatura... (mas como não há mágica na vida, minha única unicazinha vida foi essa que já se vai definhando...)

Li um estudo acadêmico analisando o conto "Darandina" e o conto "O alienista", do bruxo do Cosme Velho. A temática da loucura, ou da razão, ou da "desrazão", e fiquei encantado com o texto e as interpretações do autor.

Fiquei pensando uns instantes sobre os 21 contos do livro Primeiras Estórias, de 1962. Muitos personagens e casos contados no livro são exatamente essa questão da razão e "desrazão" das coisas humanas.

Olha, nenhuma frase ou texto comentando obras como essa de Guimarães Rosa dá conta da imensidão de coisas contidas ali. Dá não!

Temos que lidar com humildade com o nosso pouco saber das coisas.

Sigamos lendo alguma coisinha enquanto somos, estamos.

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É isso! 

Will i am 


Bibliografia:

ROSA, Guimarães. Primeiras Estórias. Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1988.

sábado, 26 de abril de 2025

Livro: Papéis Avulsos (I) - Machado de Assis



Refeição Cultural 

"Este título de Papéis Avulsos parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para o fim de os não perder. A verdade é essa, sem ser bem essa. Avulsos são eles, mas não vieram para aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma mesma família, que a obrigação do pai fez sentar à mesma mesa." (Advertência, Machado de Assis, outubro de 1882)


1. O alienista

2. Teoria do medalhão 

3. A chinela turca

4. Na arca


Ao trabalhar na revisão e encadernação de minhas postagens nos blogs, fiquei satisfeito com a constatação de ter começado o Refeitório Cultural com Machado de Assis. 

Os textos do Bruxo do Cosme Velho são de domínio público e comecei o blog de cultura com o conto "O alienista", lá em 2007. Este clássico poderia ser lido de tempo em tempo ao longo da vida das leitoras e dos leitores. Já o li inúmeras vezes nas últimas duas décadas. Ele nos faz entender o Brasil e os seres humanos, por isso seu caráter universal. 

Os primeiros textos do blog têm relação com o mestre Machado de Assis. 

A minha edição de Papéis Avulsos está dividida em dois volumes. Já li todos os contos muitas vezes. 

Ao lermos a "Teoria do medalhão", percebe-se a universalidade da gente vulgar que ocupa as casas-grandes e a tal Faria Lima. Janjão recebe instruções de seu pai como essa gente do "agro pop" e seu universo sertanejo. Pai e filho são os caracteres da "Elite do atraso" descrita pelo sociólogo Jessé Souza. 

Da mesma forma, vemos a atualidade da crítica de Machado ao compor no conto "A arca" os novos capítulos introduzidos no Gênesis. Somos essa coisa humana descrita no conto através dos filhos de Noé, Sem e Jafé. Parece que a gente não tem jeito mesmo...

"O melhor drama está no espectador e não no palco"

A lição do conto "A chinela turca" está aí para qualquer um de nós avaliarmos...

Leiam Machado de Assis, leiam! 

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Post Scriptum:

O ALIENISTA

Ao ler o conto "Darandina", do livro Primeiras Estórias (1962), de João Guimarães Rosa, conheci mais um clássico brasileiro com a temática da reflexão sobre a razão e a "desrazão", sobre a loucura e as tentativas de se compreender ou até de se tratar as diversas formas de loucura, ou suposta loucura, haja vista que a questão é estudada há séculos pela sociedade humana e até hoje poderíamos questionar o que é sanidade e o que é loucura, ou o que seria considerado "normal" ao longo do tempo.

Rezar para pneu e colocar aparelhos celulares na cabeça pedindo intervenções de seres alienígenas é algo considerado normal ou loucura?

Percebem a atualidade do tema? Seres humanos habitantes de um país chamado Brasil, já avançado o século XXI, fizeram isso. É um caso documentado. Esses seres são seguidores de uma seita liderada por um clã de políticos com sobrenome "Bolsonaro".

Eu já li diversas vezes o clássico de Machado de Assis em diversas épocas diferentes da vida política do país e até em momentos pessoais nos quais questionava a mim mesmo sobre a normalidade ou anormalidade das coisas. Quantas vezes me peguei refletindo se eu estava ficando louco ou se o mundo ao meu redor estava louco... aí recorria ao dr. Simão Bacamarte...

Enfim, é isso! Sigamos lendo e refletindo e tentando compreender a vida e o mundo no qual existimos.

William 


sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Livro: O Covil dos Inocentes, Henry Bugalho



Refeição Cultural 

Sexta-feira, 20 de dezembro de 2024.


Henry Bugalho é bom romancista. Quando li Margot Adormecida vi que o escritor tem talento (comentário aqui). 

Meses depois da primeira leitura de obra dele, li A Impureza da Minha Mão Esquerda, um livro de contos excelentes. Cada estória melhor que a outra (comentário aqui). 

Agora li O Covil dos Inocentes, romance baseado nas investigações do detetive Vico, personagem de Bugalho que compõe um conjunto de contos após o romance principal. 

Henry Bugalho usa linguagem prosaica e coloquial em suas narrativas. Os enredos têm boas amarrações. Seus textos são de leitura fluida e fácil.

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SUMÁRIO DO LIVRO

O Covil dos Inocentes 

Pós-escrito a "O Covil dos Inocentes"

ALGUNS OUTROS CONTOS DO DETETIVE VICO

- O Amante 

- A Enfermeira e o Sargento

- Amor Fraternal

- Roleta-Russa

- Obra do Diabo

- O Inventariante

- O Diário Vermelho 

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Ainda tenho alguns livros de Henry Bugalho para ler em meu Kindle: 

- Porteiros do Fascismo

- Rei dos Judeus

- O Personagem e outras Fábulas Filosóficas 

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É isso! Sigamos nas leituras. 

William Mendes 


quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Quarta-feira, 20 de novembro de 2024.


Dia da Consciência Negra

*Conceição Evaristo

Pela manhã, li um conto de nossa querida escritora Conceição Evaristo. Li "Aramides Florença", do livro Insubmissas lágrimas de mulheres.

Aos poucos, vou entendendo melhor o conceito de escrevivência. Já li alguns livros de Evaristo e seus textos são muito potentes, são delicados e duros ao mesmo tempo. 


Insubmissas lágrimas de mulheres.

A escritora aborda temas da vida cotidiana do povo preto e pobre, sobretudo de mulheres pretas e pobres, mas ela tem um jeito único de narrar as histórias duras de personagens que podem ser reais ou fictícias e que representam todas as situações reais da vida das pretas e pretos e pobres do Brasil.

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*"Eu, capitão"

Vi nesta semana o filme "Io Capitano" (2023) em cartaz no 19º Festival de Cinema Italiano. O filme do diretor Matteo Garrone narra a saga de dois primos de Dakar, Senegal, para realizar o sonho de irem trabalhar na Europa, para terem mais oportunidades na vida. 

Seydou e Moussa enfrentam os perigos do deserto do Saara, os horrores dos centros de detenção na Líbia e os perigos da travessia do Mediterrâneo. Eles são menores de idade e os espectadores vão mergulhar na realidade cotidiana dos imigrantes que saem de seus locais de origem rumo a países mais desenvolvidos do Norte global na luta pela sobrevivência. 


Cena da travessia do deserto do Saara.

Eu sofro muito durante a sessão de filmes com essa temática da realidade da miséria humana provocada, muitas vezes, pela maldade e crueldade de alguns animais humanos. No meu caso, filmes assim não são entretenimento. Mas são filmes muito necessários. 

O diretor Matteo Garrone consegue dar uma leveza na história quando foca Seydou com sua família, na relação de amor entre as pessoas e nas pequenas vitórias da vida cotidiana.

A arte traz sempre a esperança de transformar as pessoas pela catarse, pelo impacto que causa em quem tem contato com ela. A história de Seydou e Moussa foi perfeita para pensar a questão da consciência negra sendo eu um branco num dos países que mais assassinam e exploram pessoas afrodescendentes há séculos.

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*Ato da consciência negra

Hoje foi dia de atos e reflexões pelo Brasil para marcar o Dia da Consciência Negra. Em São Paulo, os movimentos se reuniram na Avenida Paulista para depois sair em marcha. Ouvimos boa música, manifestações de lideranças e pude trocar ideia com amigos.

Como tinha um compromisso no final da tarde, fui no horário marcado pela organização, 13 horas, para poder participar por algumas horas do ato.


Ato na Avenida Paulista.

Encontrei companheiros e conhecidos por lá durante as três horas em que estive na Paulista. Tive a impressão que a participação não foi muito grande. Avalio que os sindicatos e partidos poderiam ter jogado peso na convocação e lotado o ato. Vi poucos sindicalistas e quase ninguém com mandato parlamentar. 

Fiquei pensando no tema atual do identitarismo e da luta de classes sob a ótica dos debates no campo da esquerda. 

Penso que o sindicalismo e os partidos de esquerda não jogarem peso em um evento que tem uma temática identitária não agrega esses movimentos à causa central, a luta de classes. 

Vi o desenvolvimento dessa questão nos últimos trinta anos. Questões de raça, gênero, orientação etc não deveriam ser questões somente dos interessados diretos. Vira uma coisa meio de reciprocidade, um grupo só se envolve com seu tema de interesse e mais nada. É minha leitura.

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É isso.

Mais um dia de vida.

William Mendes