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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Livro: Minhas horas finais (Memórias de D. Pedro I de Portugal) - Leo Ricino



Refeição Cultural

LITERATURA E HISTÓRIA 


"(...) e só agora, aos quarenta e sete, estou a conseguir, por um motivo muito forte, me expor e falar espontaneamente de mim, inclusivamente desse meu problema pessoal, essa gaguez que sempre me acompanhou e da qual tive vergonha durante minha vida toda. Não poucas vezes acabei sendo mais cruel, como resultado da minha não aceitação dela e pela pequenez como ser humano que projetava em minha mente perturbada. Talvez." 


Li nesta semana um livro bem interessante. Aprendi muito sobre a história portuguesa, mesmo sendo um texto de ficção: Minhas horas finais (Memórias de D. Pedro I de Portugal), edição de 2019.

O autor - Leo Ricino - nos passa de forma leve e descontraída uma versão ficcional de como teria sido a vida e os instantes finais do 8° monarca português, D. Pedro I, que governou o Reino entre 1357 e 1367. Leo utiliza sua erudição em benefício dos leitores. 

No romance, o monarca D. Pedro I, o Justiceiro, já em seu leito de morte, ganha voz e escreve de punho uma autobiografia não formal, diferente daquela que constará nos anais da história. 

Leo nos esclarece que D. Pedro I de Portugal, em sua autobiografia, quer ficar conhecido em sua totalidade, em sua essência humana, e não somente com as formalidades oficiais do cargo, quer ir além da alcunha de "Justiceiro".

E aí, se preparem, leitor e leitora, pois vocês vão descobrir as maldades e vilanias do monarca português, ditas por ele mesmo, num momento no qual ele não tem nada a perder.

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"A raiva, a ira, a revolta e a sede de vingança ofuscam a clareza do pensamento e do agir, pois as decisões tomadas nos momentos de exacerbação da força sanguínea por todo o corpo carecem de claridade. E muito agi sob esses efeitos."

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Vamos viajar no tempo e nos costumes da Corte, veremos uma versão sobre Inês de Castro, famosa e conhecida por todos que já leram Camões ou que estudaram para vestibulares. 

Durante a leitura ficcional, os leitores sentem uma curiosidade incrível de ir aos manuais de história portuguesa para compilar história e ficção. Muito estimulante o método. 

Conhecemos o professor Leo e a professora Isabel, casal de amizade cativante, na Colônia dos Professores localizada na Praia Grande (SP). 

É isso, amig@s leitores. O livro está disponível no formato digital. Vale a pena ler essa ficção com pitadas de história. 

William 

24/07/26

terça-feira, 23 de julho de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural 

Osasco, 23 de julho de 2024. Terça-feira.


Em 2018, de volta a Osasco, após viver quatro anos em Brasília, moramos por alguns meses entre caixas e sacos de coisas, num apartamento alugado. 

Eu estava com a cabeça num momento ruim, deprimido, sem chão. Havia sofrido um processo destrutivo de lawfare em meu trabalho, e a injustiça que enfrentei quase me abateu.

Me lembro que tentei fazer coisas normais no cotidiano como, por exemplo, ler romances e livros que me chamaram a atenção. Um dos livros que tentei ler foi "Born To Run - Bruce Springsteen" (2016). Li cento e poucas páginas. 

Eu sempre gostei das músicas dele e algumas canções de Bruce Springsteen embalaram momentos marcantes de minha vida.

Anos depois do ano de 2018, ao olhar para trás, percebo o quanto aquele ano foi duro para mim. Pego como exemplo as leituras que fiz... elas se apagaram da minha mente. É como se eu nunca tivesse lido nada naquele ano duro.

Levei a autobiografia do roqueiro para ler um pouco durante a semana que passamos na Praia Grande e reli umas setenta páginas. 

Ao ver alguém contando seus primeiros anos de vida nos anos cinquenta e sessenta, eu percebo bem melhor o mundo hoje com a experiência que adquiri com o meu próprio percurso existencial, seja lendo as memórias de meu pai, seja lendo as do norte-americano Springsteen. 

O QUE É A VIDA?

A vida humana é uma síntese de acontecimentos diários que vão definindo a existência das pessoas, seja a do meu pai, seja a do Bruce, seja a minha existência. Veredas... veredas... e inventamos deuses e demônios, inventamos explicações para casualidades inexplicáveis como se algo tivesse programado aquilo.

Somos seres que imaginam e copiam coisas materiais e abstratas (abstrações), somos seres que vão vivendo, e vivendo vamos fazendo história, boas ou ruins.

É isso! Não tem mágica nenhuma nisso, a não ser a própria magia da vida... que um dia acaba, porque somos natureza.

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Luto - Expresso meus sentimentos pelo falecimento hoje da companheira Daniele Bittencourt, colega do BB de Curitiba, trabalhamos juntos nas lutas sindicais por muito tempo. Dani, presente! 

William 


sábado, 11 de maio de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 11 de maio de 2023. Início da madrugada de sábado.


A possibilidade de participar de uma reunião do nosso partido com a presença de José Dirceu me fez pegar na estante o livro de Memórias dessa figura importante de nossa história do partido e do país.

Zé Dirceu lançou o primeiro volume de suas Memórias em agosto de 2018 e dias depois do lançamento eu já estava com o livro em mãos. Li de supetão quase duzentas páginas naquele ano. 

Acabei não terminando a leitura. Aquele ano foi muito difícil para mim. Mesmo assim, garanto a vocês que o conteúdo histórico e biográfico do livro de Zé Dirceu é extraordinário para qualquer pessoa que se disponha a viajar pela história dele e do país, e é mais interessante ainda para um militante de esquerda e do partido, e que goste de história do Brasil.

Ao pegar o livro na estante nesta semana, acabei recomeçando a leitura desde o início. Além de não perder nada com a releitura, e sim o contrário, só ganhar com isso, tenho consciência de como minhas leituras foram complicadas naquele ano de 2018. Avalio que tudo que li naquele ano precisaria ser relido para um aproveitamento melhor.

A primeira anotação minha no livro de Zé Dirceu, ao final do primeiro capítulo, lendo o livro no início do mês de setembro daquele ano, me lembra que mesmo tendo saído de um processo de perseguição e assédio moral na instituição onde havia terminado um mandato eletivo, um processo fraudulento de lawfare, arquivado um tempo depois por falta de provas, tive que sofrer por muitos meses ainda o terror das ameaças que chegavam a mim por parte de meus adversários políticos no patronato já sob o regime de exceção de Temer e Bolsonaro.

O fim de meu mandato e trabalho em Brasília, a volta para Osasco em SP, e as ameaças constantes de um processo inventado com carta anônima para me prejudicar na carreira de décadas no banco público ao qual dediquei minha vida, e ainda a forma como me silenciaram politicamente após mais de duas décadas de representação da classe trabalhadora, fez com que o ano de 2018 fosse um ano dificílimo para mim e, além disso, vivíamos no país a ascensão do mal com a prisão de nosso presidente Lula, vítima daquela operação canalha de lawfare chamada de Lava Jato, e, para terminar o ano de forma trágica, a eleição do clã de milicianos ao poder central. Tudo isso pesou na minha vida naquele ano.

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AULA DE HISTÓRIA DO BRASIL

"Dependíamos do carcereiro que, como alertaria depois o líder negro sul-africano Nelson Mandela, passava a ser o ser humano mais importante em nossas vidas." (p. 89)


Amigas e amigos leitores, nessa releitura desses dias, viajei pela história do Brasil nos sete capítulos que li. As Memórias de Zé Dirceu são aulas de nossa história, contadas com uma fluidez incrível.

Pelos temas dos capítulos, vocês podem ter uma ideia do que vamos conhecer de história: 

1. Se não me falha a memória; 2. Os primeiros passos na política; 3. Coração de estudante; 4. A oposição e suas armas; 5. Às armas, cidadãos!; 6. A batalha da Maria Antônia; 7. Cabras marcados para morrer...


Enfim, conhecer a nossa história é fundamental, inclusive para termos uma melhor perspectiva do momento atual no qual nos encontramos, de uma complexidade ímpar na história política do Partido dos Trabalhadores e do Brasil.

Sigamos estudando, ouvindo as pessoas, lutando por um mundo mais justo e solidário, um mundo livre do capitalismo para que possamos existir, e sigamos compartilhando o conhecimento e as nossas opiniões e ideias de forma honesta e militante.

William Mendes


segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

201221 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 20 de dezembro de 2021. Segunda-feira.


Comecei a ler uma biografia de Karl Marx, a biografia escrita por José Paulo Netto. Se não for entusiasmo passageiro, pretendo ler e estudar Marx e o marxismo e me tornar um conhecedor das ideias e estudos de Karl Marx. Se for fogo de palha, logo logo o livro e a necessidade de estudar o marxismo ficarão pelos cantos do meu mundo onde ficam as coisas começadas e não terminadas.

Li cerca de 40 páginas do livro sobre Marx. Muito interessante o que já li. O autor nos conta sobre a Alemanha do início do século XIX, a Alemanha onde nasceu Karl Marx em 1818. O que hoje conhecemos como Alemanha é bem diferente do que ela era naquela época. E a Alemanha estava numa condição muito diferente da Inglaterra, França e países baixos, em relação ao contexto econômico, social e político. Enfim, vamos estudar sem pressa, repito, sem pressa, Marx e o marxismo.

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RETROSPECTIVA E MEMÓRIAS

Estou revendo meus escritos e minhas realizações no ano de 2021. A base de minha retrospectiva pessoal é o que escrevo e registro nos blogs que mantenho. Já fiz uma postagem com uma breve retrospectiva de minha participação política nas lutas sociais deste ano (ver aqui).

A retrospectiva que vai dar bastante trabalho é a da revisão dos textos no blog Refeitório Cultural. Ao tempo em que releio o que escrevi, corrijo e melhoro a redação, vou contando quantos livros li neste ano, relembro momentos vividos, e vou imprimindo para encadernar a produção textual do ano. Neste ano a produção foi grande, voltei a escrever intensamente como fiz em 2016, o ano do golpe de Estado no Brasil.

Ao revisar as 22 postagens de janeiro, vi que li ou terminei a leitura de 3 livros naquele mês, leituras diversificadas porque li em português e espanhol: li Julio Cortázar, conheci as poesias de Bertolt Brecht, e li José J. Veiga. 

Naquele mês alimentava ainda o sonho de correr uma maratona, estava correndo longões muito bons, na casa dos 15K. Pensei em escrever narrativas curtas, cheguei a fazer três textos ficcionais, mas depois voltei aos gêneros discursivos aos quais estou mais acostumado.

Vai dar trabalho essa retrospectiva cultural porque são quase 300 postagens neste ano. Mas ler e reler e me ver nelas é parte do processo de me fazer e de me burilar. Sigamos.

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CLÁSSICOS

Estou em algumas trilhas de leituras que vão demorar a serem percorridas, mas isso é bom. Nas poesias, estou para ler as completas de Drummond e Cecília Meireles. São centenas e centenas de poesias feitas em décadas. Mas não tenho pressa, vou lendo. 

Ainda tenho programados nessas veredas da linguagem poética os livros a Ilíada, a Eneida, a Divina Comédia e depois vou reler Os Lusíadas. Por fim, Mensagem, de Fernando Pessoa. É coisa pra cacete! 

No entanto, se eu for sobrevivendo a esse mundo e a essa vida instável... seguirei lendo, estudando, tentando ser menos ignorante.

Após terminar a leitura de Crusoé, tenho trilhas enormes a percorrer em relação aos romances. O livro seguinte é o clássico de Jonathan Swift, Gulliver. Mas a sequência é enorme...

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Marx e outras leituras biográficas, políticas e filosóficas, romances clássicos, poesias, muita coisa pra estudar e escrever comentários até como forma de memorizar e apreender o que se leu e estudou. O blog tem esse papel.

O outro blog, A Categoria Bancária, é uma outra relação de amor. É uma vida dedicada às lutas políticas, sociais, sindicais. Dá um trabalho talvez maior ainda reler, corrigir, diagramar etc. É história, história minha e de nós todos. Ao revisar e reler, estou escrevendo memórias. Vou tentar seguir essa vereda também.

William


sexta-feira, 29 de outubro de 2021

291021 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 29 de outubro de 2021.


Ao caminhar por Osasco por 75' nesta sexta-feira dei sequência a minhas reflexões sobre a busca de sentidos e formas de significar a minha existência neste momento e num eventual futuro. Essas reflexões partem de algumas questões que me colocam a pensar sobre a vida e sobre o viver.

Já estava pensando sobre a vida e o viver quando li algumas páginas do livro de Hélio de Seixas Guimarães sobre Os leitores de Machado de Assis (2004), e no meu caso, inevitavelmente, sou pautado por meus escritos e a releitura deles nos blogs que mantenho há 15 anos. Uma das coisas que fiz durante minha vida pública foi escrever e isso teve sentido.

"Antonio Candido assinala na Formação da Literatura Brasileira que um dos possíveis critérios para diferenciar períodos e escolas seria 'a destinação pública da literatura', observando que 'o escritor, quando escreve, prefigura, conscientemente ou não, o seu público, a ele se conformando'. (GUIMARÃES, 2004, p. 40)

Quando releio postagens de meus blogs - o de cultura e o sobre a categoria bancária - tenho uma noção clara a respeito do escritor ou feitor dos textos naquela época em que era estudante de Letras e dirigente sindical. Meu lugar de fala dava sentido ao desejo de comunicação com determinado público leitor. Queria compartilhar conhecimento e queria influenciar e politizar trabalhadores. Hoje, os contextos são outros e estou perdido ao seguir escrevendo.

Na margem de página da citação acima escrevi que "foi assim com o blog na época da Cassi". Eu sabia exatamente o que estava fazendo e qual era o objetivo das postagens sobre o mandato e sobre a autogestão em saúde na qual era diretor eleito. E criei um público leitor do blog. Para aquele momento, meus textos tiveram sentido e meio milhão de visualizações confirmaram que aquilo foi importante. Hoje, nem os materiais que guardei da época têm mais sentido - livros, revistas, quilos de textos políticos e históricos.

Nas caminhadas desses dias, voltei a pensar numa lista de desejos e objetivos para me guiar por esses caminhos tão difíceis que compõem a jornada da vida. Num dos piores momentos de minha existência fiz isso e aquelas metas foram muletas para seguir caminhando mesmo quando queria interromper a jornada.

Ao olhar aqueles objetivos naquela velha folha de papel vejo que ter elencado aquelas coisas teve algum sentido, pois no final das contas estou aqui até hoje, décadas depois.

Realizei alguns daqueles desejos, eles fizeram parte da jornada de meu viver nesse meio século. Alguns objetivos realizados ou não perderam completamente o sentido de acordo com quem sou hoje. As veredas da vida, aliás, mudaram a maior parte das metas traçadas. Impressionante isso! Em boa parte da jornada não fui condutor de nada, fui conduzido... E isso não foi ruim! Fica muito claro que a jornada é muito muito mais importante que a chegada a algum lugar.

Nem vontade de escrever tenho tido mais. Não vejo sentido nisso. Por outro lado, parece a morte não escrever, não registrar as coisas. Esquisito isso! Mas tenho que encontrar sentidos e significar o viver, mesmo nas condições atuais do meio onde vivemos. O cenário onde exercemos nossa jornada da vida é bem desafiador: o caos e a destruição de nosso país, da vida das pessoas da classe trabalhadora e a destruição acelerada da vida no planeta Terra.

Para fazer uma lista de desejos ou de objetivos a dar rumo na jornada da vida - utopias - é preciso estar vivo e vivo com autonomia, com relativa saúde. Como as limitações físicas começam a me impedir de realizar algumas atividades físicas - creio que não irei correr uma maratona -, devo inventar algumas que me mantenham vivo, com o sangue fino, pressão e colesterol razoáveis, órgãos vitais funcionando.

Caminhar muito pode ser uma alternativa. E na caminhada, me desconectar de toda essa merda que virou o mundo virtual, o mundo paralelo que muda a realidade material. Isso se a pessoa caminhar sem aparelhos eletrônicos, sem ser um boi com cara no cocho.

Sei lá. Caminhar e pensar, ver se encontro alguns sentidos e rumos a seguir.

William


Bibliografia:

GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no século 19. São Paulo: Nankin Editorial: Editora da Universidade de São Paulo, 2004.


quarta-feira, 6 de outubro de 2021

061021 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 6 de outubro.


VER UM IPÊ BRANCO FLORIDO É COMO A VIDA: UMA OPORTUNIDADE ÚNICA


Que registrar neste blog neste momento?

Enquanto caminho pela manhã, penso um monte de coisas. Depois da caminhada, já era o que refleti. Alguma coisa poderia ser de interesse comum, outras coisas eram de interesse puramente pessoal. 

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CASSI - Outro dia, por exemplo, pensei em criar uma seção WIKI no blog Categoria Bancária para compartilhar gratuitamente o que sei sobre gestão em saúde. Fui gestor por 4 anos de uma autogestão de trabalhadores.

Seria uma seção "What I Know Is" (O que eu sei sobre), mas quando penso em começar os textos já vislumbro que o trabalho será de pouco alcance - desanimei de escrever para dez pessoas -, e qualquer produção de texto dá muito trabalho para quem a cria. Eu aprendi muita coisa sobre a Cassi, modelos assistenciais e autogestão de trabalhadores, mas avalio que o conhecimento valeu mais para aquele momento de luta. Naquela época do mandato eletivo, criei um público leitor. Começamos com alguns leitores e ao final do mandato, os textos eram lidos por centenas e milhares de leitores. Valeu para o momento.

Nesses dias, acabei sendo útil para a coletividade porque estive em algumas conversas virtuais sobre o tema com dirigentes da classe trabalhadora.

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EXPECTATIVA DE VIDA - A expectativa de vida do grupo social ao qual pertenço é alta, é mais alta que a do povo brasileiro em geral. Temos caixas de assistência à saúde e previdência na comunidade BB e isso alonga nossa expectativa de vida. O fato tem suas vantagens e desvantagens. Nos faz arrogantes e privilegiados, uma desvantagem ética. Também nos possibilita uma oportunidade social para demonstrar que associativismo e cooperativismo de grupos humanos podem trazer benefícios coletivos. Isso seria uma vantagem, se não estivéssemos caminhando para o cada um por si, uma estratégia dos nossos inimigos de classe que está dando certo. Azar o nosso!

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A BUSCA DE SENTIDOS - Enquanto caminhava, pensava na busca de sentidos para a vida. Por estarmos vivos temos que dar sentido à vida (opinião minha), ter objetivos e motivações ajudam no viver. O tempo todo temos que significar e ressignificar a existência da vida humana e das coisas. Evidente que essa coisa de significação é uma coisa própria da espécie homo sapiens. A natureza é. Mas os conceitos humanos devem ser lapidados. Ideologia. Narrativas. Passei a vida toda dizendo isso: "a natureza é, as coisas são como são". Ledo engano! Essa narrativa é utilizada por nossos inimigos de classe há milênios. A miséria da maioria humana em detrimento de alguns poucos não é uma coisa natural. É uma coisa construída por nós. O futuro é construído por nós hoje. Se quisermos derrotar o 1% que está inviabilizando a vida no planeta, temos que fazer isso a partir de hoje. O futuro é construído hoje por nós. 

Eu sou minha identidade. Minha identidade está em minha cultura, meu comportamento, meus sentimentos. Está em meu cérebro. Eu sou tudo que se acumulou em meus 86 bilhões de neurônios nesses 52 invernos. Sou o meio onde existi e existo. Não acredito em nada além do mundo material. Já acreditei em tudo além do mundo material. Hoje, não mais. Respeito o tempo de cada pessoa nessa vida, nesse mundo. Sou meu cérebro funcionando bem (ou mal), juntamente com o conjunto dos órgãos do meu corpo de homo sapiens. Um entupimento na corrente sanguínea, o coração parar de bombear o sangue, fígado rins pulmões e hormônios vários colapsarem e já era. Não serei mais nada. Não quero apressar o fim. Por isso ando corro e tento levar uma vida saudável - depois de abusar décadas de meu corpo. Algo dentro de mim não está bem - mas a quilometragem rodada é diferente da idade (já me corroí tanto em ódio e tristeza...). Acho que não duro a expectativa de vida do meu grupo social. Tenho consciência que viver depende também de mim, de meus atos. Alguma coisa faço por minha saúde. Não muito, mas faço. E sei que estar vivo é oportunidade. Viver é oportunidade.

A vida é uma oportunidade como a oportunidade de ver um ipê branco florido. As flores se mostram pra nós e pros polinizadores e duram uns dois dias. E só. E como vale a pena ver um ipê florido! É como a vida. Entendo que vale a pena estar vivo.

É isso!

William


sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Leitura: Câncer, eu? - Livro de Sergio Riede



Refeição Cultural

Sexta-feira, 1º de outubro. Segundo ano da pandemia de Covid-19. O "novo normal".

Acordei de madrugada e me levantei. Vi amanhecer o dia. Por esses dias, o som que toca na rádio natureza é o canto constante dos sabiás, a noite e madrugada toda, de manhã, de tarde. Coisa linda, de verdade!

Apesar de ter dormido só algumas horas, e saber que minha leitura não flui muito quando estou com sono, peguei o livro de nosso colega Sergio Riede para finalizar a leitura. Faltavam umas 50 páginas. Finalizei a leitura antes das 9 horas da manhã. Que livro interessante! Livro bem escrito, de leitura leve, apesar do tema pesado.

O livro Câncer, eu? tem a qualidade de mesclar características positivas de alguns gêneros literários. 

De cara, é um livro autobiográfico, e através da leitura dele conhecemos um Riede que não conhecíamos, nós que convivemos nas frentes de representação e gestão das entidades da classe trabalhadora e da comunidade Banco do Brasil. Riede nos conta histórias que nos fazem lembrar nossa própria infância, adolescência e vida como brasileiros das últimas décadas.

Câncer, eu? é um livro de crônicas, textos deliciosos, leves e que nos prendem a atenção, nos fazem pensar sobre as coisas cotidianas, acontecimentos e fatos da vida de todos nós. Os "causos" que Riede nos conta fazem a gente reviver a própria vida. Eu fiquei relembrando quando jogava futebol de botão; os saltos de paraquedas que fiz; os tempos de futebol. Para nós do BB, me lembrei do cotidiano de nossa vida bancária em uma das empresas públicas mais significativas da história do país.

(interrompi por instantes as reflexões sobre o livro do Riede para correr até a janela do apartamento para ver um casal de carcarás. Ao ouvir o crá-crá-crá deles aqui na região é impossível não se encantar com essas aves de rapina nas zonas urbanas. É sempre um alumbramento! Se já gostava da natureza urbana antes de morar 4 anos em Brasília, agora de volta a Osasco gosto mais ainda de aves, plantas, flores, e as luzes e sombras do céu)

O livro é uma espécie de livro de autoajuda, não só pela característica pessoal do autor, que demonstra uma forma muito positiva ao lidar com problemas cotidianos da vida humana, mas sobretudo por compartilhar conosco todas as etapas de enfrentamento do câncer, uma doença quase impronunciável pelo pavor que traz às pessoas. 

É um livro informativo, com capítulos jornalísticos. Assim como Riede, também fui gestor de nossa Caixa de Assistência, uma autogestão em saúde, e mesmo conhecendo um pouquinho do dia a dia de uma operadora de saúde, fui saber através do livro muita coisa sobre a doença câncer de próstata, o que é, como é, quais as possibilidades, protocolos e procedimentos, riscos, pós-operatório etc.

Sabemos que cada ser humano é único em suas idiossincrasias, vivências e valores e Riede nos presenteia com textos engraçados, reflexivos e com visão política, informativos e com rigor jornalístico, de maneira que o leitor comece a leitura e vá embora nela, sem dificuldade alguma. Quando peguei e vi já estava quase na metade do livro de mais de duzentas páginas.

O capítulo final - "A morte que quero ter" - pegou na veia... tô aqui pensando nas reflexões de Riede até agora. Cara, tem muito sentido o que ele nos conta ali. 

Tenho pensado muito na vida neste momento meu e do mundo. E essa pandemia que mudou tudo. E essa destruição da vida e de nossos mundos com desgraceiras humanas do tipo desse sujeito alçado à presidência do país. Essa questão do tempo que não se pode parar.

Enfim, a leitura do livro Câncer, eu?, do nosso colega Sergio Riede, valeu a pena para mim. Agradeço tudo que Riede compartilhou conosco sobre a doença, as etapas vividas, e suas histórias de vida.

Desejo muita saúde ao Riede e a todas e todos os colegas da classe trabalhadora. Se cuidem na medida das possibilidades que cada pessoa tem.

William

Deixo abaixo uma reflexão de Riede para tod@s nós:

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"DOENTE DE QUÊ?

(...) Foi duro tentar dialogar na última eleição presidencial com amigos que eu admirava pela inteligência, ouvindo um raciocínio que jamais vou conseguir alcançar: diziam que não votariam na esquerda por propostas que a esquerda sempre negou que iria implementar e que, em 16 anos no poder, não implementou; por outro lado, diziam que iriam votar no atual presidente apesar da enxurrada de declarações dele (atuais e anteriores) que contrariavam os valores e princípios dos meus interlocutores, utilizando o singelo argumento de que 'ele só fala isso da boca pra fora, no fundo é uma boa pessoa'. Ou seja, não iriam votar num candidato porque achavam que ele iria fazer o que ele nunca fez e o que nunca disse que iria fazer; mas votariam num outro porque acreditavam que o que ele sempre defendeu e continuava prometendo que faria, não seria feito. E o pior é que, quando confrontados com esses argumentos, tais amigos respondiam com a frase feita: 'Não dá pra conversar com vocês comunistas. É como jogar xadrez com pombos: defecam no tabuleiro, derrubam as peças e saem voando cantando vitória'." (RIEDE, 2020, p. 29)


Bibliografia:

RIEDE, Sergio. Câncer, eu? - Memórias alegres de um medo profundo. 1ª ed. São Paulo: Fontenele Publicações, 2020.


terça-feira, 8 de junho de 2021

080621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Como guerreiros pela liberdade e prisioneiros políticos, nós tínhamos a obrigação de nos aprimorar e nos fortalecer, e estudar era uma das poucas oportunidades de fazer isso." (MANDELA, 2012, p. 506)


A obrigação de nos aprimorar e nos fortalecer

A parte da leitura da autobiografia de Nelson Mandela em que estou é difícil porque a gente sofre junto com ele. Que dureza, quanta injustiça! Não é possível um ser humano com ética, educação, dignidade e um mínimo de humanidade tolerar as injustiças que se cometeram e se cometem contra milhares e milhões de pessoas ontem e hoje. Não é possível não se indignar com a injustiça.

Estou na parte das memórias de Mandela sobre os longos anos que ele e seus companheiros passaram na ilha de Robben, cumprindo uma sentença de prisão perpétua por lutarem pela liberdade de seu povo e por uma sociedade igualitária e de oportunidades para todos, e multirracial.

Nas dezenas de páginas que li hoje, Mandela nos conta as estratégias que eles desenvolveram para se organizarem dentro do presídio e lutarem por melhorias mínimas de tratamento. Como fizeram para se comunicar entre eles e para conseguir alguma informação sobre a vida lá fora. Como lidaram com guardas brancos violentos no presídio e como buscaram se aproximar de alguns brancos mais civilizados lá dentro.

É de apertar o peito quando Mandela nos conta o sentimento de impotência e tristeza mesmo para alguém que se prepara para ser um guerreiro pela liberdade ao lidar com as perdas de pessoas queridas. Nos primeiros 5 anos de prisão na ilha, Mandela soube da morte do chefe Luthuli (do CNA), e morreram sua mãe e seu filho mais velho, Madiba Thembekile. Nos dois casos, Mandela deveria ser o responsável pelos cuidados e rituais funerários e os brancos não permitiram isso.

Além das perdas, o regime dos brancos perseguiu implacavelmente sua esposa, Winnie Mandela. Prisões injustas, banimentos, invasão de sua casa, ela foi colocada na solitária, perdeu o emprego. Tudo muito desumano.

Aí me lembro do que fizeram com o nosso ex-presidente Lula. A mesma forma de guerra desproporcional dos órgãos do Estado contra uma pessoa, uma família, um segmento da sociedade. Uns desgraçados montaram toda uma farsa e destruíram a vida de um líder que passou a vida lutando para melhorar a vida de seu povo. A maldade não tem limites em certos grupos de animais humanos.

Mas Lula resistiu e está aí se colocando à disposição do povo pobre e trabalhador para reconstruirmos a vida da sociedade brasileira, dizimada pela Lava Jato, pelo golpe de Estado e pela ascensão do nazifascismo nas estruturas do país. Vários presos políticos desse período golpista brasileiro estão contribuindo também, escrevendo, contando suas histórias, nos incentivando a lutar e resistir. José Dirceu, José Genoino, Dilma Rousseff e outras lideranças do povo brasileiro.

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Estudar, ler, conhecer a história de nosso povo e as lutas que já foram empreendidas em busca da justiça, da igualdade, da oportunidade de uma vida comunitária mais solidária e cooperativa.

É isso que temos que fazer diariamente, diariamente! Nem que seja por meia hora, uma hora. Só assim, nos humanizamos e nos preparamos para suportar esses momentos duros que estamos vivendo num mundo sob pandemia, sob o domínio de uma minoria sobre a ampla maioria de seres humanos, sob o predomínio do ódio e ignorância usados como ferramentas de manipulação de massas.

Cada um de nós que tem algum tipo de conhecimento e consciência de classe - de classe trabalhadora que é o que somos - tem que resistir, sobreviver, estudar, e pensar formas de enfrentar e derrotar nossos inimigos. Buscar unidade e tentar dialogar com outras pessoas.

Sobreviver. Reorganizar a classe trabalhadora. Derrotar o inimigo que nos destrói e destrói o mundo.

Vamos juntos, prezados leitores e leitoras?

A cada um de acordo com suas necessidades e de acordo com suas possibilidades. Estudando e escrevendo, estou tentando compartilhar com vocês a experiência de uma vivência nas lutas sociais.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


quarta-feira, 2 de junho de 2021

020621 - Diário e reflexões



Refeição Cultural

"Apesar de eu ser uma pessoa gregária, amo a solidão ainda mais. Eu apreciava a oportunidade de ficar sozinho para planejar, pensar, conspirar. Mas uma pessoa pode se cansar da solidão. Eu me sentida terrivelmente isolado de minha família" (MANDELA. 2012, p. 327)


O momento atual do Brasil e do mundo nos entristece o tempo todo. Temos que buscar estratégias e ferramentas psicológicas para fugir à tristeza e demais sentimentos ruins que nos assaltam.

Quase todo mundo tem alguma pessoa querida lutando contra o vírus mortal Sars-Cov-2 (Covid-19) neste instante em que escrevo. Quase todo mundo tem alguma pessoa querida com algum tipo de depressão. Quase todo mundo perdeu pessoas queridas nesses tempos marcados pela morte e não pela vida e pela esperança de dias melhores. Só pela pandemia de coronavírus são quase meio milhão de mortos no Brasil.

Tenho pessoas queridas lutando contra a Covid-19. Tenho pessoas queridas com depressões diversas. Perdi diversas pessoas queridas nos últimos tempos. A referência da vida hoje é o risco da morte, que loucura! Posso estar aqui hoje e morrer em poucos dias pelo vírus, além das mortes severinas. 

Mas como diz meu poeta favorito, Carlos Drummond de Andrade, chegou um tempo em que não adianta morrer e a vida é uma ordem, a vida apenas e sem mistificação. E noutro poema ele diz que temos que viver seja como for e que o essencial é viver.

Outro dia, estava pensando sobre a importância de se registrar e se imprimir e distribuir a nossa história, a nossa luta de classes, os acontecimentos privados e coletivos de nossa vida de classe trabalhadora e de povo explorado pelos poucos usurpadores humanos que se apropriam das coisas do mundo através da violência e da manipulação.

Como eu saberia da história de lutas do povo negro sul-africano e de seus líderes como Nelson Mandela se ele não tivesse registrado em uma autobiografia tudo o que viveram durante décadas até alcançarem a liberdade do povo negro e o fim do apartheid? Tenho um livro de 800 páginas em mãos que conta essa história sob o ponto de vista de Mandela.

E se essa luta do povo negro sul-africano estivesse sendo travada nos últimos 10 ou 15 anos e só estivesse registrada de forma virtual, na internet, no YouTube, no Facebook, no Google? Vocês acham que essa história teria muitas chances de continuar existindo para as pessoas comuns e espalhadas por esse mundão se não estivesse em livros?

Se o filólogo judeu alemão Victor Klemperer não tivesse registrado em diários tudo o que viu acontecer com a língua alemã durante a ascensão e queda do regime nazista de Adolf Hitler e o 3º Reich, dificilmente nós conheceríamos como a língua alemã foi essencial para a implantação do regime nazista, como a língua foi manipulada para fazer toda uma nação apoiar aquilo que foi o nazismo. Ele registrou isso em livro e eu posso ler em casa essa história trágica. E se estivesse só na internet e só de forma virtual?

Eu insisto na sugestão para que os movimentos sociais, sindicais, estudantis e partidários do campo da esquerda e que representam as lutas da classe trabalhadora registrem e imprimam e distribuam (vender a preço de custo) a nossa história de lutas das últimas décadas porque as big techs donas do mundo virtual vão desaparecer com toda a nossa história de lutas "on-line". É fato! É óbvio! Elas fazem parte daquilo que combatemos! Procurem nossas histórias na internet, procurem! O pouco que registramos está desaparecendo... Me falem das conquistas e lutas dos bancários brasileiros das últimas duas décadas...

Editem e imprimam nossas histórias de lutas, seja na forma de diários dos lutadores, seja na forma de livros das entidades (que é um parto fazer porque tem ciumeira de quem vai brilhar mais), de períodos de lutas, por categoria, por tema, de qualquer forma, mas não permitam que a classe trabalhadora seja o maior segmento da sociedade humana (os 99%) pautado somente pelo ponto de vista dos poucos capitalistas donos de tudo.

William


Bibliografia:

MANDELA, Nelson. Longa caminhada até a liberdade. Tradução de Paulo Roberto Maciel Santos. Curitiba: Nossa Cultura, 2012.


segunda-feira, 15 de março de 2021

Livro: Becos da Memória - Conceição Evaristo



Refeição Cultural

INTRODUÇÃO

Estamos no mês de março. Estamos no Brasil de regime neofascista e genocida em consequência de um golpe de Estado ocorrido em 2016 - desta vez colocaram no poder os maiores corruptos e lesas-pátrias jamais colocados no poder somando todos os golpes brasileiros. O Brasil é o epicentro da pandemia mundial de Covid-19 e o regime no poder é o maior parceiro do vírus Sars-Cov-2. Brasil e brasileiros, párias do mundo!

Estamos em um dos países mais racistas do mundo, país onde a escravidão humana permanece até hoje, de forma disfarçada desde 13 de maio de 1888, quando deram uma canetada jogando na miséria milhões de pessoas de pele preta para que morressem de fome sem pão, sem terra, sem trabalho. País com 5 séculos de escravidão. País que mais mata negros no mundo, de morte matada e de morte morrida (matada também, sem direitos de cidadania).

Neste domingo, 14 de março de 2021, completaram-se 3 anos do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, metralhados por milicianos do Rio de Janeiro, a mando de alguém ainda não revelado pelas autoridades. O Brasil não é para amadores. As forças políticas que organizaram o golpe e a destruição do país estão no poder, infiltradas em todas as instituições da sociedade através de seus representantes, serventes, lacaios e capitães do mato modernos. 

(Sabem quem foi solto neste 14 de março, dia do assassinato de Marielle Franco? O deputado troglodita e fascista que se elegeu às custas de quebrar uma placa em homenagem à Marielle... ele estava preso por ameaçar autoridades e neste domingo foi para prisão domiciliar... esse é o Brasil: solto no dia da morte de Marielle!)

BECOS DA MEMÓRIA

"Escrevo como uma homenagem póstuma à Vó Rita, que dormia embolada com ela, a ela que nunca consegui ver plenamente, aos bêbados, às putas, aos malandros, às crianças vadias que habitam os becos de minha memória. Homenagem póstuma às lavadeiras que madrugavam os varais com roupas ao sol. Às pernas cansadas, suadas, negras, aloiradas de poeira do campo aberto onde aconteciam os festivais de bola da favela..." (p. 17)

A "introdução" no início da postagem é a descrição do contexto em que peguei para ler neste domingo pela manhã o livro Becos da Memória, da escritora Conceição Evaristo, livro escrito por ela nos anos oitenta e publicado em 2006 e depois republicado em outras edições - a minha é de 2017 pela Pallas Editora. É o 3º livro que tenho o privilégio de ler desta intelectual mineira, mulher negra e com uma escrita que nos toca profundamente e nos põe a pensar a vida e o mundo após cada leitura sua. (ler aqui sobre Ponciá Vicêncio e aqui sobre Olhos D'Água)

Amig@s, passei o dia de domingo na companhia das personagens do livro Becos da Memória. Foi inevitável passar o dia revirando os becos de minha memória. Lia Evaristo e via o bairro Marta Helena, onde cresci em Uberlândia, Minas Gerais. Lia Evaristo e visitava as diversas casinhas onde moramos, onde morei (em MG e em SP). Lia Evaristo e via a condição da gente pobre, favelada, da gente preta, da gente miscigenada de peles multicores, mas com cabelo "ruim", como ensinam os brancos que cultuam os preconceitos.

Li Evaristo e passei o dia visitando os becos de minha memória... eu tenho pele branca, tenho irmã preta, tenho família de pele multicor. Família de cabelo "ruim". Todos viemos da pobreza descrita na obra de Evaristo, que aborda o mundo miserável e as condições injustas e absurdas da gente de pele preta escravizada e depois "libertada" na condição de morte sem pão, sem terra, sem trabalho, como os ascendentes da personagem Maria-Nova.

Evaristo nos conta, na edição que tenho, um pouco da história e da gênese do romance. É bem interessante.

"Foi o meu primeiro experimento em construir um texto ficcional con(fundindo) escrita e vida, ou, melhor dizendo, escrita e vivência. Talvez na escrita de Becos, mesmo que de modo quase que inconsciente, eu já buscasse construir uma forma de escrevivência."

GÊNESE: "Em poucos meses, minha memória ficcionalizou lembranças e esquecimentos de experiências que minha família e eu tínhamos vivido, um dia. Tenho dito que Becos da memória é uma criação que pode ser lida como ficções da memória. E, como a memória esquece, surge a necessidade de invenção."

NADA É VERDADE, NADA É MENTIRA: "Entre o acontecimento e a narração do fato, há um espaço em profundidade, é ali que explode a invenção. Nesse sentido venho afirmando: nada que está narrado em Becos da memória é verdade, nada que está narrado em Becos da memória é mentira. Ali busquei escrever a ficção como se estivesse escrevendo a realidade vivida, a verdade."

BANZO: "Na roça, às vezes, meu pai contava histórias e dizia sempre de uma dor estranha, que nos dias de muito sol, apertava o peito dele. Uma dor que era eterna como Deus e como o sofrimento.

     "Totó entendia, era menino, mas, de vez em quando, sentia aquela punhalada no peito. Uma dor aguda, fria, que sem querer fazia com que ele soltasse fundos suspiros. O pai de Totó chamava aquela dor de banzo." (p. 19/20)

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BANZO... uma dor no peito que podemos muito bem nominar a dor que sentimos desde o golpe de Estado no Brasil, desde aquela sessão do congresso em que o lixo fascista falou de Ustra... aquela dor que passamos a sentir no peito ao ver as ofensas a Dilma, ao ver a prisão injusta de Lula, ao ver as 270 mil mortes por Covid-19 por culpa do regime fascista, a dor no peito a cada absurdo, a cada perda, a cada humilhação que sofremos como brasileiros por sermos do país dos bolsonaros. Banzo...

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Amig@s leitores, leitura profunda! Passei o domingo visitando os becos da memória...

- Marielle vive porque seus ideais são os nossos ideais!

William


Bibliografia:

EVARISTO, Conceição. Becos da Memória. 1. ed. - Rio de Janeiro: Pallas, 2017.


terça-feira, 2 de junho de 2020

Lembranças - Capítulo 5



Um de meus quatorze saltos de paraquedas.

Os tempos são de reclusão e isolamento em casa por causa da pandemia mundial do novo coronavírus. A mortandade afeta a vida das pessoas no Brasil e no mundo: neste momento em que escrevo, temos 6,3 milhões de casos confirmados e 379.709 mortos pela Covid-19 no mundo, sendo 31.199 brasileiros (site da Johns Hopkins University). 

Nossa tragédia é ainda maior porque estamos vivendo sob um regime de ódio e intolerância, o país se desfaz desde o golpe de Estado em 2016. Estamos à beira de um novo golpe por parte do clã de inumanos que chegou ao poder graças à destruição da política promovida por parte dos donos dos meios de comunicação empresariais e bilionários da casa-grande e seus partidos e representantes para tirar do poder os líderes populares do Partido dos Trabalhadores - Lula e Dilma.

Aqueles que podem e que acatam as recomendações das autoridades de saúde do mundo civilizado estão em casa. É o nosso caso.

Ao longo de minha vida adulta, enquanto trabalhava e estudava as horas todas da vida de proletário, fui adquirindo livros, revistas, mídias diversas e gravando vídeos sobre cultura em geral, pois queria ser uma pessoa com conhecimentos diversos. 

A verdade é que ainda aos trinta anos eu não passava de um acumulador de coisas; a dificuldade de estudar o que tinha continuou sendo uma realidade. Aliás, ao me tornar dirigente da classe trabalhadora, aí é que o tempo mudou radicalmente e assumi uma jornada integral de lutas sindicais.

Ao olhar para trás, vejo que tudo que fiz foi às custas de quase não dormir de tanto me dedicar ao mandato de saúde na Cassi. Antes, foram anos de dedicação às atividades de coordenação de negociações do maior banco público do país e da área de formação da Contraf-CUT. Antes ainda, no trabalho dedicado na organização sindical do Sindicato onde fui diretor.

Cheguei até aqui com lacunas culturais insuperáveis; a vida é assim, a realidade se impõe e a gente faz o que tem que ser feito. Tenho a consciência que fiz o que era possível, e minha vida foi uma vida antes do movimento sindical e outra após entrar para o movimento com quase trinta anos de idade.

Algumas lembranças desta postagem são da fase de minha vida anterior ao movimento sindical, só a da visita ao Empire State é do período de sindicalista. Busquei na adrenalina uma forma de escape ao ódio, a uma provável depressão e às frustrações que senti durante muito tempo em minha vida. Citei só alguns eventos relevantes, porque a gente cansa de pensar nesses tempos duros que vivemos.

Estando em casa, revezo os afazeres domésticos com estudos e com o fuçar nas coisas acumuladas. Tenho centenas de fitas cassete e um aparelho que ainda funciona. A hora que quebrar, quebrou, porque não tem onde consertar. Foi assim que assisti a fita sobre o dia de meu primeiro salto de paraquedas no início dos anos dois mil. Fiz quatorze saltos na época e foi uma das coisas mais emocionantes que fiz na vida.

É isso! Depois que entrei para o movimento sindical, a adrenalina passou a ser a luta de classes. Tem adrenalina a mil para quem está à frente de uma das principais categorias profissionais do país, a dos bancários, que trabalham para os donos do mundo capitalista. Tem violência policial contra nós, tem assédio moral, tem muita doença profissional. É adrenalina na veia organizar trabalhadores e enfrentar o patronato e seus lacaios - os capitães do mato da burocracia e a repressão.

Respeito muito essa categoria e sua organização. Por duas décadas, ajudei a organizá-la.

No entanto, o texto hoje foi de relembrar adrenalinas de outra natureza.


Do céu, a gente curtia o Rio de Piracicaba (SP) quando voava.

NAS ALTURAS, NAS CAVERNAS, NA AÇÃO RADICAL, ADRENALINA PARA LIDAR COM A TRISTEZA E A RAIVA DAS INJUSTIÇAS DO MUNDO

ME LEMBRO que a vontade de saltar de paraquedas começou naquele dia em que vi na televisão um pessoal fazendo saltos de paraquedas e surfando no ar - Skysurf. Aquilo foi fascinante! O homem não satisfeito com andar, com saber nadar, inventa uma prancha de surfe; o homem não satisfeito em andar e nadar, inventa uma forma de voar, depois inventa uma forma de saltar e flutuar no ar; não satisfeito em andar, nadar, surfar, voar, saltar e flutuar no ar, o homem inventa uma maneira de surfar no ar... é demais. Estávamos nos anos noventa. Eu decidi que iria saltar de paraquedas. E olha que eu nunca havia voado! Um tempo depois o objetivo seria realizado. Numa manhã de sábado do ano dois mil, lá íamos nós, um grupo de amigos, para Piracicaba no interior de São Paulo, realizarmos o sonhado salto de paraquedas. Havia dois tipos de saltos: o salto acoplado a um profissional, tipo mais comum de experiência, e o salto sozinho para aqueles que se inscrevessem no curso de paraquedismo. Eu e o Sérgio decidimos fazer o curso e saltar sozinhos, sem estar acoplados aos instrutores, e nossos amigos fizeram o salto acoplados. Durante toda a manhã, ficamos em sala de aula aprendendo sobre os procedimentos técnicos do paraquedismo, a mochila e os equipamentos, altura de lançamento, abertura do paraquedas, verificação do velame e manuseio dos batoques para se certificar que o paraquedas não estava com nenhum problema de dirigibilidade, paraquedas de emergência, freios, altímetro, posição do vento, vento de cauda, vento de nariz, aproximação do local de pouso etc. Ao rever a gravação é sempre a mesma emoção, arrepio, lágrimas nos olhos e o sentimento de super-homem. Foram vários os momentos de adrenalina ao máximo: entrar no avião, levantar voo, a abertura da porta lá no céu, chegar até a porta, olhar lá para baixo, sair do avião e se pendurar na asa, receber o "ok" do instrutor e soltar as mãos... a queda... o vazio e o frio no estômago... a abertura do paraquedas... a sensação de estar vivo e salvo e voando... gritos no ar... os pássaros lá embaixo... o silêncio do céu e o som do vento no voo de descida... a chegada ao solo. A sensação incrível de que você realizou aquilo. Foi inesquecível saltar de paraquedas. Eu não fiz o curso inteiro porque os saltos eram caros (30 aulas), mas fiz 14 saltos e foi algo incrível na minha vida.

ME LEMBRO que o convite foi meio por acaso. Meu primo e alguns amigos iriam para Brotas, no interior de São Paulo, acampar e fazer rapel nas belas cachoeiras da região. Aceitei o convite e fui com eles. Foram dois dias incríveis! Na época não havia a estrutura que tem hoje na região, era tudo muito rústico nos anos noventa. A experiência mais radical foi logo a primeira cachoeira que descemos, a Cachoeira Saltão, com 75 metros de altura e no negativo, a pessoa fica totalmente dependurada. O frio na barriga ao entrar na água lá em cima e se preparar para a saída já sob a água é incrível. Quando me pendurei, minha mão ficou um pouco presa sob o peso da corda e levei uma bela esfolada. Mas isso não atrapalhou minha descida. Foram minutos de muita emoção. Durante a descida, aprendi com o colega que estava descendo em uma corda ao lado como se fazia para travar o mosquetão e fazer o crucifixo pendurado de cabeça para baixo: demais! No outro dia, depois de acampar e dormir, fizemos descidas na Cachoeira do Astor, com cerca de 30 metros. Mais uma vez, meu corpo e mente ganhavam novas experiências com adrenalina a mil.

ME LEMBRO da escuridão, do barulho da água em meio ao breu total, e do vento úmido da cachoeira lá no fundo da terra. O guia tinha pedido que apagássemos o fogo da lanterna de Carbureto. A sensação foi de medo e de pequeneza. A gente se sente um nada no meio daquilo. Bastavam as lanternas não voltarem a funcionar para termos dificuldade de voltar à superfície, pois não enxergávamos nada na frente do nariz. A caminhada até aquela cachoeira no fundo da terra tinha durado quase uma hora porque o trecho era muito radical, estreito, com locais onde a água gelada estava até o peito, momentos em que só passava no trecho o corpo da gente de perfil. A descida naquela caverna pouco frequentada foi uma das coisas mais irresponsáveis que fiz na minha vida. Acho que o guia era inclusive um amador, que nos propôs uma caverna fora do roteiro mais tradicional do Petar (Parque Estadual e Turístico do Alto Ribeira), a 300 km de São Paulo, indo para o Sul. Já havíamos visitado a famosa Caverna do Diabo, no dia anterior. Linda, grande, iluminada, com passarelas para turistas. Uma infinidade de estalactites e estalagmites, colunas magistrais, formações deslumbrantes. Mas aquela caverna radical, com uma hora pra ir e uma pra voltar no fundo da terra, com água até o peito, breu total e cachoeira no final foi uma coisa de louco. Felizmente deu tudo certo e posso dizer que fiz algo extremamente arriscado em termos de cavernas.

ME LEMBRO que aquele era o dia de ir embora de Nova York, era um sábado, se não me engano. Havia sido uma semana cheia de experiências com os movimentos sociais dos trabalhadores norte-americanos. Estivemos lá para contribuir com as experiências dos brasileiros na organização sindical. Participamos de várias atividades realizadas pelas organizações e movimentos sociais e o tempo para conhecer alguma coisa na cidade foi bem curto. Eu gostaria, ao menos, de visitar o Empire State Building, antes de voltar ao Brasil. Como sairíamos do hotel na hora do almoço, me arrisquei a sair bem cedo para a visita ao famoso prédio. Estava um frio absurdo, já havia nevado naquela semana. Fui à pé, porque era perto de onde eu estava. Chegando perto, comecei a admirar a imponência daquela construção. A decepção inicial foi descobrir que havia uma fila enorme para enfrentar antes de entrar. Eu não poderia desistir assim, tão cedo. Encarei a fila de olho no relógio. Tinha uns agentes ou guias nas calçadas vendendo bilhetes caríssimos para os endinheirados passarem na frente, entrando direto. Que merda de sistema... A hora avançava e não chegava minha vez de entrar no saguão. Mais uma decepção, dentro do saguão havia outra fila gigante. Quase desisti por causa da hora. Mas fiquei mais um pouco. Teria que fazer uma visita sem muito tempo lá em cima. Enfim, consegui subir até o mirante do edifício. O Empire State tem 381 metros de altura, que somados com a antena chegam a 443 metros, são 102 andares. Eu sou apaixonado por altura e valeu muito a pena ver a cidade de Nova York do alto do Empire State. Estava tão frio lá em cima que minhas mãos congelavam para tirar fotos e quase não conseguia apertar o clique da máquina fotográfica. A volta foi uma loucura por causa da hora. Perdi o horário do checkout no hotel, mas depois deu tudo certo e ficou na lembrança aquele passeio de última hora na Quinta Avenida da Ilha de Manhattan.

ME LEMBRO que no final dos anos oitenta e ainda nos anos noventa, eu ia quase todos os anos visitar meus familiares em Barra do Garças (MT), no Vale do Araguaia. Além de ter tios e primos morando lá, sempre gostei muito de regiões com montanhas e abundância em natureza. A cidade conta com um mirante no alto da Serra Azul (700 metros) que permite um olhar panorâmico da região, e lá no alto tem uma imagem do Cristo Redentor. Eu tinha o hábito de subir várias vezes ao "Cristo", enquanto estava na cidade. Era uma subida e tanto. A trilha era escorregadia porque era feita em meio às pedras e ainda hoje me pergunto se era mais difícil subir ou descer, porque ambos percursos pra cima e pra baixo são bem difíceis. Tenho lembranças de passar horas sozinho lá em cima olhando o vale, o rio Araguaia, ouvindo o silêncio da montanha e o som do vento. Chegava um burburinho de cidade ativa em algumas horas do dia. Fui pesquisar na internet e vi que hoje o local é um parque estadual, me pareceu que não se pode mais subir no mirante a hora que der vontade como eu fazia na minha juventude. Eu já sabia que o percurso havia ganhado uma escadaria, já até subi pelas escadas, mas que o acesso era difícil eu não sabia. São 1.200 degraus do pé da serra até o mirante. Enfim, tenho saudosas lembranças daquela serra, da cidade, do balneário de águas quentes, das temporadas de praia no Araguaia, da pastelaria do meu tio Léo, dos encontros em família, dos dias que passava afastado na "roça". Meus tios ainda vivem lá, minha prima se mudou e meus primos faleceram tragicamente jovens. Boas lembranças e saudades. Experimentei muita adrenalina lá também.


Durante um certo tempo em minha vida, o prazer e o escape dos problemas do mundo era acampar, viajar para algum lugar com montanhas, cachoeiras, praia, rio, caverna, mato.

Meu sonho era fazer alpinismo, escalar grandes montanhas; fazer bungee jumping, mergulho e outros esportes radicais. Mas sempre faltou tempo e dinheiro, pois toda atividade assim é muito cara. Fiz algumas coisas. Valeu a pena. Ficaram as lembranças.

William

Post Scriptum:

Capítulo 1, ler aqui.
Capítulo 2, ler aqui.
Capítulo 3, ler aqui.
Capítulo 4, ler aqui.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Lembranças - Capítulo 4



Eu e os companheiros Cacaio e Marcel, no
Congresso da Fetec CUT SP em 2006.
(não sei qual de nossos fotógrafos tirou essa)

"Ontem

Até hoje perplexo
ante o que murchou
e não eram pétalas.

De como o banco
não reteve forma,
cor ou lembrança.

Nem esta árvore
balança o galho
que balançava.

Tudo foi breve
e definitivo.
Eis está gravado

não no ar, em mim,
que por minha vez,
escrevo, dissipo.

(A rosa do povo, 1945, C.D.A.)


Estamos no ano de dois mil e vinte. Século vinte e um. Ao olhar para trás e pinçar lembranças de meio século de existência, fazemos vários exercícios ao mesmo tempo. Refletimos sobre aonde chegamos; supomos aonde poderíamos ter chegado caso as veredas escolhidas ou trilhadas fossem outras; olhamos para o instante atual e para aonde vamos ainda. Até que a vida cesse.

Pode ser que nossa impressão das coisas não seja a mais adequada para classificar um tempo, um lugar e uma tendência em relação ao amanhã porque nosso olhar é inevitavelmente atomizado. No entanto, fazemos isso enquanto humanos pensantes. Ao viver cinco décadas é possível avaliar, comparar, traçar esboços sobre ontem, hoje e amanhã. Ainda mais quando tentamos ao longo da vida estudar a história humana e ver no que deram as coisas do passado.

A minha consciência de cidadão foi moldada e desenvolvida em contextos diversos ao longo da vida. Na primeira década, fui criança feliz, de lembranças felizes. Na segunda década, foram tempos de rupturas, despedidas da inocência, dificuldades financeiras e revolta: raiva e ódio de tudo e todos. Na terceira década, novas mudanças na vida, emprego público, estudos universitários, novas revoltas, tentativas vãs de se tornar uma pessoa feliz e cidadã. Nas últimas duas décadas, a maior experiência adquirida na vida: a representação de classe e as lutas coletivas no movimento sindical e popular. Essa fase me salvou e me fez uma pessoa melhor.

Neste momento em que estou fora da política, em que não pertenço mais aos quadros do movimento organizado de lutas da classe trabalhadora, um turbilhão de coisas atormentam nossa consciência: sensações, sentimentos, revoltas, pusilanimidades, outras mais. Eu me revolto em ver a passividade do povo brasileiro frente à hecatombe a qual nos submetemos. O país, o povo, as instituições estão sendo sacrificadas em benefício dos donos da casa grande e dos deuses do império do norte e o silêncio impera nos matadouros sanguinolentos.

Não resolveriam meus tormentos algum companheiro vir me dizer que ao invés de apontar a fraca reação dos movimentos organizados eu, euzinho, deveria fazer algo, sair por aí organizando a resistência. Não funciona assim a organização de uma luta coletiva. A resistência a um regime autoritário, à tirania, ao poder totalitário dos capitalistas e poderosos deve ser organizada e dirigida de forma estratégica e pensada a partir de organizações coletivas. Sem essa de "movimento espontâneo das massas".

E é isso que me revolta: não perceber a resistência e não vê-la acontecer a partir das organizações formais da classe trabalhadora. Tenho a noção das dificuldades, por exemplo, que o movimento sindical está enfrentando após os ataques desferidos pelos golpistas ocupando posições estratégicas no Estado tomado por golpe. As reformas após o Golpe de 2016 esgotaram os recursos dos sindicatos, feriram de morte cada organização dos trabalhadores, mas cada membro dessas organizações tem um mandato e um mandato é muita coisa. Repito o que disse por tanto tempo aos companheiros e companheiras do movimento organizado. Um mandato deve ser exercido até o limite do possível.

Enfim, a classe trabalhadora precisa resistir à destruição de nosso mundo. Não só com boa vontade ou com posturas conciliatórias, pois não se concilia e ou negocia sem o outro lado estar disposto a isso. É preciso juntar indignação, tesão em lutar contra as injustiças, inteligência tática e estratégica, capacidade para se reinventar e, sobretudo, é hora de resgatar os princípios, as concepções e práticas sindicais que nortearam a criação do Novo Sindicalismo e a Central Única dos Trabalhadores - CUT -, movimento de massas exitoso que vigorou do final dos anos setenta até as experiências dos governos do Partido dos Trabalhadores na Presidência da República. Percebo que os movimentos sindical, partidário e estudantil refluíram perigosamente nos dias que correm.


A IMPORTÂNCIA DA ALTERIDADE, DA OPOSIÇÃO E DO DIFERENTE NA FORMAÇÃO DA GENTE E NA EXISTÊNCIA DAS INSTITUIÇÕES HUMANAS

- ME LEMBRO que a proposta chegou à reunião da Executiva com a melhor das intenções. A liderança que a trouxe havia feito um grande esforço para construir a unidade com as mais diversas forças atuantes no movimento, incluindo a oposição, e se a proposta fosse endossada por aquele fórum e pela diretoria do Sindicato começaríamos a campanha salarial dos bancários em 2005, em tese, com menos embates entre as forças do movimento e mais focados no embate com os banqueiros. Mesmo não sendo mais diretor executivo porque decidimos no nosso coletivo político que eu iria desempenhar outro papel a partir de 2005, estava naquela reunião porque era representante de São Paulo na Comissão de Empresa dos Funcionários do BB (CEBB ou COE) e o sindicato tinha definido que as representações em instâncias de outros graus - federação, confederação e central -  participariam das reuniões da Executiva. A proposta em pauta era definir por indicação das forças políticas os delegados e delegadas de nossa base para os encontros regionais e nacionais - BB, Caixa e Conferência Nacional. Apesar de ter um certo sentido a construção de unidade proposta, pedi a palavra e apontei algumas questões que deveriam ser levadas em consideração em relação àquela proposta de início de campanha salarial. A mais importante delas era o fato de que não haveria assembleia geral para início do processo de campanha da categoria. No movimento, existem diversas formas de definição de delegação para encontros, conferências, congressos e demais fóruns coletivos, mas o mais tradicional e representativo ainda é a assembleia de base. Meu questionamento causou um certo mal-estar e a reunião ficou bastante tensa a partir daquele momento. Cada dirigente apresentava seus argumentos a favor da proposta. Insisti que não começar a campanha salarial com assembleia de base poderia comprometer todo o processo e macular nossa história cutista. A reunião foi interrompida. O tema voltou um ou dois dias depois. Vocês podem imaginar a "correria" que foi. O prazo foi suficiente para boas reflexões e conversas com mais lideranças do movimento. Acredito que todos aprendemos com aquele processo. A decisão foi realizar assembleia. A direção e os funcionários do Sindicato fizeram a convocação da base com um excelente debate político e a campanha começou e terminou de forma muito positiva. Uma posição contrária, e respeitada, em meio às demais valeu a pena. Se o processo na época fosse o simples "vamos votar e contar os votos" tudo poderia ter sido diferente, com perdas a todos. Naquele dia, fiz o papel do jurado nº 8, o senhor Davis (Henry Fonda), no clássico "Doze homens e uma sentença", de 1957.

- ME LEMBRO que a gestora responsável pela área que cuidava da organização das conferências de saúde da Cassi, área que fazia a relação com as unidades administrativas e com as CliniCassi, veio me dizer meio sem jeito que a coordenação do Conselho de Usuários daquele Estado onde haveria conferência mandou me dizer que não era preciso que eu fosse ao encontro. Depois soube que não era pra eu ir lá. Ser gestor eleito da maior autogestão do país não seria algo simples, tínhamos noção clara do desafio que enfrentávamos. Ainda mais porque eu havia aceito a missão de participar do processo eleitoral consciente que, se fosse eleito, teria que manter minha postura em relação aos princípios, concepções e práticas sindicais que aprendi como dirigente do maior sindicato de bancários do país e da nossa confederação. Eu nunca abri mão de fazer trabalho de base e estar próximo aos representados. Disse para nossa gestora que a agenda estava mantida e eu estaria na conferência conforme planejado. Chegando ao estado, fiz tudo que estava previsto, visitar órgãos do banco, fazer reunião com o Conselho de Usuários e fazer minha palestra na conferência. Não fui destratado em momento algum, as provocações políticas foram aquelas às quais estávamos acostumados. Eu tenho muito respeito ao processo político porque a política é a melhor alternativa para a solução de conflitos nas sociedades humanas. O inverso da política é a violência e a guerra, é a intolerância e o desejo de extermínio do outro. Neste caso específico, eu voltei ao Estado outras vezes e, felizmente, conseguimos criar uma relação de muito respeito com as lideranças de outros campos políticos, relação que chega a me emocionar. É possível superar diferenças com humildade e convicção naquilo que acreditamos.

- ME LEMBRO que quando assumi o Complexo São João do Banco do Brasil senti aquele frio na espinha porque sabia da história daquele local, a famosa Agência Centro (018). No Sindicato, tínhamos algumas estratégias de trabalho de base por parte da diretoria e dos funcionários políticos. Politicamente, nos organizávamos por regionais e por coletivos de bancos. Nosso coletivo do BB foi uma verdadeira escola política para mim. Após a campanha salarial de 2003, acabei sendo escolhido para fazer parte da Diretoria Executiva do Sindicato, sem pasta inicialmente e depois fui para a Organização. Ao deixar de ser o responsável político pelas questões do BB nas regionais Oeste e Osasco, entendemos que era importante que eu mantivesse o trabalho de base que vinha fazendo, mesmo estando na Executiva. Definimos que eu seria responsável pelo São João, que era ao lado do Edifício Martinelli, sede do Sindicato. Evidente que seria difícil conciliar os trabalhos da Executiva e o trabalho de base num local gigante com 22 dependências à época e quase dois mil funcionários. Com as estratégias que aprendi de OLT nas regionais anteriores, fui a campo. Caderneta na mão, firmeza e humildade para ouvir os bancários, e começamos o trabalho de base, andar por andar. Foi uma das experiências sindicais que mais me exigiram formação política porque havia muitos colegas de forças políticas distintas, ou seja, havia uma forte oposição à corrente majoritária da direção do Sindicato, a Articulação Sindical/CUT. Como eu mapeava tudo, me lembro que eram perto de uns 40 militantes de oposição, parte mais radicalizada, parte com mais diálogo. Tratei logo de organizar uma militância de no mínimo uns 40 colegas que apoiavam o nosso trabalho no local. Foram tempos nos quais os bancários se acostumaram a participar de muitas reuniões com posições diferentes, história do movimento, definições de táticas e estratégias para lutar por nossos direitos. Eu acho que nunca estudei tanto em minha vida (quer dizer, depois estudei do mesmo tanto na direção da Cassi). Ao voltar da base, já tratava de estudar mais ainda os temas que discutíamos e lia e escrevia e pesquisava e conversava com os dirigentes mais experientes etc. O debate ser bem feito no São João era fundamental para qualquer definição política do movimento porque a proximidade com o Auditório Azul no Martinelli e com a quadra dos bancários na Tabatinguera fazia com que a maior parte de uma reunião de base fosse oriunda de complexos como o São João. Ainda me lembro de dezenas de colegas do período, da oposição e próximos a nós. Muitos são amigos até hoje. Eu sou muito grato ao fato de ter havido tanto pensamento e posição política diferente no local onde eu era responsável. Me fez crescer como dirigente e como ser humano. Acredito que fizemos um trabalho honesto e ético naquele complexo do BB. Ganhamos assembleias importantes no período, com debates respeitosos entre os diferentes. Não ir para o TST em 2004 foi uma das assembleias marcantes em minha vida. Havíamos feito intensamente esse debate com as bases no BB, dos prejuízos que isso nos causaria. A decisão foi apertada e a contagem foi por urnas. Mais de mil votantes. Ganhamos por cerca de 100 votos. Praticamente o único sindicato no país que votou contra a ida ao TST naquele período de longa greve de um mês. Enfim, a democracia e a política são fundamentais em nossas vidas. Eu sempre dizia nas reuniões que os bancários não deveriam votar nos colegas por serem seus conhecidos; deveriam votar nas propostas e nas consequências delas. Vejam o que deu parte grande de nossos colegas da ativa e aposentados votarem no inumano que chegou ao poder por fraudes em 2018. O voto sempre terá consequências.

- ME LEMBRO de algumas posições políticas que tive e que foram derrotadas no movimento sindical. Entendo que isso faz parte da política e da democracia. Uma vez, houve uma assembleia específica do Banco do Brasil na base de nosso Sindicato para decidir sobre as regras da PLR. A direção do banco e a direção do movimento estão sempre disputando suas teses e suas preferências em relação às formas de distribuição dos recursos apartados para o pagamento de lucros e resultados. A direção do banco tem preferência por alocar mais recursos para o topo da pirâmide, os gestores e setores de confiança deles; a direção do movimento busca equalizar o máximo possível a distribuição dos recursos para o conjunto dos trabalhadores, sem excluir ninguém, por entender que todos contribuíram para a produção daquele resultado. Para vocês terem uma ideia do que estamos falando, antes de 2003, do governo do PT e da assinatura de Acordo de PLR com a confederação da CUT, a direção do banco distribuiu recursos a título de PLR por diversos semestres entre 1998 e 2002 excluindo dependências de receber, não pagando nada para milhares de bancários e a diferença entre o que se pagava para os altos executivos e os escriturários era absurda. Só com a greve de 2003 é que os funcionários do BB passaram a receber PLR com regras contratadas com a CNB/CUT, sem excluir ninguém e com regras claras a todos. Ia contando sobre uma assembleia de PLR em que fiz a defesa de rejeição da proposta e a maioria foi favorável a ela. A direção do banco sempre teve birra com funcionários mais antigos de casa. Toda negociação e propostas patronais sempre queriam favorecer gente nova e deixar de lado os mais antigos. Foi assim que estourou a greve de 2003, quando a direção propôs índice de 6,6% mais duas letras de antiguidade, prejudicando os colegas das letras E11 e E12, que teriam reajustes menores. O banco propôs que a regra de PLR seria não pagar os escriturários e caixas na parte relativa aos salários de acordo com o que cada um ganhava. Propôs pagar a média da função (E6), pois não queria pagar mais aos caixas e escriturários antigos (sabemos que esse segmento sempre foi vanguarda do movimento). A estratégia tinha uma lógica, puxar para o lado do banco os funcionários novos. Ao fim das negociações, eu não concordei com isso. Meus companheiros da direção ficaram divididos, mas acabei ficando sozinho porque existe uma lógica pragmática em final de negociações coletivas. Eu entendo isso. Pedi licença aos companheiros para me posicionar contrário, porque a questão me incomodava muito. Na assembleia fiz a fala explicando que isso era uma disputa ideológica por parte da direção do banco e que deveríamos forçar mais para retirar esse detalhe do item de porcentagem do salário (individual ou a média E6). Outra pessoa defendeu que era pegar ou largar, não me lembro se dirigente ou bancário de base. A assembleia aprovou a proposta de PLR. A vida seguiu. Mas não tenho o que reclamar. Ao longo dos anos, nós melhoramos muito a PLR do BB para os bancários e eu tive participação importante nisso, em sempre puxar parte substancial do montante apartado para a base da pirâmide, para as funções básicas e médias de carreira.

São muitas lembranças que temos sobre a importância de permitir o debate de ideias nas definições políticas no movimento sindical e político, nas mais diversas instâncias da sociedade humana.

Hoje, vivemos um dos piores momentos da história da luta de classes no Brasil. O mal chegou ao poder e estamos sendo destruídos, tudo, os direitos civis, sociais e políticos. 

Temos que construir unidade nas representações da classe trabalhadora para enfrentarmos as representações daqueles que estão no poder e representam a classe patronal, representam os donos de todos os meios de produção e que avançam para uma exploração cada vez maior da imensa maioria do povo.

William


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