Mostrando postagens com marcador Vietnã. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vietnã. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Diário e reflexões



Refeição Cultural

Osasco, 11 de julho de 2024. Quinta-feira.


BUDAPESTE - COMUNISMO COM TANQUES

Vou caminhando para os últimos episódios da série "Grandes dias do século XX", a Coleção História Viva que tenho guardada comigo há muito tempo, sem eu nunca ter reservado um tempo para assistir aos 12 DVDs. 

Como digo em minhas reflexões, sendo apreciador de história e cultura desde jovem adulto, fui adquirindo materiais de estudo por desejo de saber e nunca tive tempo suficiente para apreciar os materiais que tinha em casa.

Não sou inocente hoje como talvez tenha sido antes de ter a oportunidade de me politizar como membro da classe trabalhadora sindicalizado e depois como militante nas lutas por direitos. Toda fonte de informação tem um viés, um ponto de vista, uma preferência política e ideológica no mundo humano. Esse material que estou vendo não é diferente.

Este episódio 9 deixa claro o viés da produção do audiovisual, um viés contra o comunismo e as experiências reais de socialismo que o mundo vivenciou no século XX. Não é por isso que eu, como um cidadão de esquerda, vou deixar de assistir e avaliar o material.

Sigo com a opinião que a qualidade da coleção é muito boa e as imagens que esses documentários reuniram são extraordinárias. Que interessante ter em casa uma coletânea dessas!

-------------------------

Sinopse:

Com o fim da Segunda Guerra Mundial e o redesenho da Europa na Conferência de Yalta, o comunismo se estabeleceu na Hungria. A dureza do regime, porém, criou uma onda de descontentamento, que se materializou em uma insurreição, iniciada em 23 de outubro de 1956, em Budapeste. A URSS já não estava sob o comando de Stálin, morto em 1953. Mas o stalinismo ainda estava suficientemente entranhado no aparelho repressivo soviético para massacrar o movimento civil. A semente da liberdade, porém, havia sido plantada. Não demoraria para que Tchecoslováquia e Polônia também desafiassem Moscou, num claro sinal de que, cedo ou tarde, a Cortina de Ferro se abriria.

O episódio 9 se divide nos seguintes capítulos: "Josef Stálin", "Gomulka", "Sputnik" e "Dubcek".

-------------------------

CAPITALISMO COM TANQUES

Vi com atenção o documentário sobre os países citados neste episódio dos "Grandes dias do século XX". O foco no stalinismo e na União Soviética e à "falta de liberdades" do lado contrário ao capitalismo etc. Pois é!

Será que tem uma série com o foco no "capitalismo com tanques"? Os Estados Unidos da América são os responsáveis por dezenas de guerras cruentas e mortíferas ao longo do século XX e no quarto de século atual, usando a desculpa da "liberdade" para tomar posse das riquezas dos países dos outros em benefícios deles próprios. Pois é!

Só a título de exemplo, na mesma época abrangida pelo episódio, abordando Hungria, Tchecoslováquia e Polônia em "busca de liberdade", temos no mundo o Vietnã em busca de liberdade e sendo massacrado pelas bombas dos Estados Unidos para implantar lá o capitalismo. E aí?

Tenho minha opinião e algumas impressões sobre a história da sociedade humana. E uma de minhas certezas é a de que o mundo não ficou melhor para a classe trabalhadora com o fim da URSS e com a supremacia única do capitalismo violento de estado dos Estados Unidos. Ficou bem pior a vida do povo no mundo com o domínio do 1% de poderosos capitalistas fdp sem limites para seus abusos contra a humanidade.

Com a experiência de vida que tenho hoje, como uma pessoa da classe trabalhadora do final do século XX e das primeiras décadas do século XXI, do período mundial conhecido por ter deixado de ser bipolar - Estados Unidos e União Soviética ou de dois modelos sociais: capitalismo e socialismo - e ter se tornado unipolar, só os norte-americanos mandando no mundo, vejo que a humanidade caminha a passos largos para o fim. E isso é culpa do capitalismo, isso é culpa em grande parte dos governos dos EUA.

Se quisermos ter uma chance como espécie de podermos ver sobre a história do século XXI e XXII lá no século XXIII, teremos que derrotar o capitalismo neoliberal e o imperialismo de uns poucos fdp decidindo destruir o planeta e a vida na terra para atender alguns desejos pessoais dessa gente egoísta, bárbara e perigosa.

É o que penso.

William


terça-feira, 2 de abril de 2024

Vendo filmes (XV)


 

Refeição Cultural

Sem atitude e engajamento pessoal daquelas e daqueles que se importam com a vida, com o planeta Terra e com algo mais além de si mesmos, vamos perder a batalha que se trava neste momento na natureza


Os três filmes que comento abaixo são oportunidades para grandes reflexões de seus telespectadores. Eu demorei para escrever essa postagem por causa da dificuldade de colocar em poucas palavras algo pessoal que avalio valesse a pena comentar.

Dois dos filmes são apocalípticos, nos fazem ver e imaginar o fim do mundo, se não o fim do mundo como estamos acostumados no cotidiano, o fim de um mundo recheado de ilusões que nos cegam sobre a realidade caótica ao nosso redor e que ninguém para pra pensar. 

O que faz uma pessoa poder andar pelas ruas, pelo mundo, entre estranhos, tendo uma certeza ou sensação de que está segura e nada vai acontecer a ela pelo simples fato de encontrar-se com um estranho? 

Respondo: a sociabilidade humana, a solidariedade e o respeito ao outro como um ser que tem direitos humanos básicos como o direito à vida, assim como os familiares desse estranho e seus grupos de afinidade. E as leis e direitos nacionais e internacionais. Esse direito não é natural, não é da natureza, é uma criação e só se realizará e se manterá se for preservado por nós.

A fase atual do capitalismo com sua consequente produção de miséria para a quase totalidade da espécie humana está fazendo com que desapareça a conquista social construída coletivamente por milênios de podermos viver em meio a estranhos, com direitos humanos minimamente estabelecidos e pactuados por todos, direitos que nos dão uma espécie de sensação de não sermos ameaçados por n motivos só por estarmos em lugares estranhos e com pessoas que nunca vimos na vida.

As corporações capitalistas e os homens por trás delas são responsáveis por modificar a espécie humana em outra coisa, em outro tipo de animal, e isso está acontecendo de uma forma acelerada como nunca houve nesta curta passagem do homo sapiens pela Terra. Ao nos coisificarmos no capitalismo, ao sermos coisas com valores de uso e não uso - mercadorias -, nossas vidas passam a ter níveis de importância, umas valendo mais e muitas valendo nada, podendo ser eliminadas.

Os filmes comentados abaixo me fizeram pensar do passado familiar ao presente e futuro coletivo. Os filmes não tratam da temática "capitalismo", mas podem ser pensados como cenários possíveis por causa dessa forma de nos colocarmos no único lugar no universo onde há condições para abrigar a multiplicidade de vidas que há aqui na Terra. Lugar que está sendo destruído por nós a partir do modo capitalista de utilizar a natureza.

Gosto de filmes assim. Sigo refletindo. E me esforçando para tentar fazer mais pessoas refletirem sobre a atualidade e a tendência ruim para onde estamos indo. Faço isso atualmente através de meus textos.

Abraços,

William Mendes

---

FILMES

A Estrada (2009) - Direção: John HillCoat. Baseado no livro homônimo de Cormac McCarthy. Com: Viggo Mortensen, Kodi-Smit-McPhee, Charlize Theron. 

Sinopse: num mundo pós-apocalíptico, quando de uma hora para outra a natureza colapsou, pai e filho pequeno tentam sobreviver pela estrada com a esperança de alcançar o Sul dos Estados Unidos indo para o mar.

Comentário: é um dos filmes distópicos mais impactantes que já vi. Relutei em rever porque a estória é foda demais. 

O que seria mais factível num mundo colapsado? Zumbis atacando pessoas ou pessoas sobreviventes atacando pessoas? Seria possível haver pessoas boas e solidárias ainda num cenário desses? 

Eu não sou muito fã de filmes de zumbis porque achava a ideia muito irreal. Não acho mais! Não acho, pois agora imagino o sentido metafórico de zumbis... as redes sociais e a manipulação de pessoas pelos algoritmos é uma realidade que está aí. Sob certo ponto de vista, estou cheio de zumbis ao meu redor, e eles podem me atacar como nos filmes, é só acionarem o apito de cachorro para esses zumbis agirem... quem diria que esse dia distópico chegaria...

O filme A Estrada não é dessa espécie de cenário distópico como no filme Guerra Mundial Z (comentário aqui), o filme retrata outro tipo de cenário apocalíptico. A natureza no planeta Terra colapsou de uma hora para outra e as condições de vida no mundo se tornaram inviáveis. Plantas e animais morreram. O que seria dos seres que ainda vivem enquanto houver o que comer? Por algum tempo, os sobreviventes vão procurar comidas estocadas, enlatados. E depois? O filme nos coloca neste cenário. É pavoroso!

Eu me senti entrando num cenário parecido com o do filme quando li o livro-denúncia de Eliane Brum - Banzeiro òkòtó: uma viagem à Amazônia centro do mundo (comentário aqui). Também é desesperador o que a jornalista nos conta. A natureza está sendo destruída de forma acelerada... foda isso! 

Amig@s, a natureza está morrendo assassinada por nós, a espécie humana. Enquanto escrevo esta frase me arrepio por clamor da consciência... Estamos causando uma extinção em massa, os mares e rios estão fervendo e não será possível a manutenção dos seres vivos nesses ambientes dessa forma. Estamos destruindo os biomas naturais que ainda existem por ganância, por falta de alternativa para a manutenção da vida de forma mais sustentável e ecológica. Devemos interromper o capitalismo se quisermos ter uma chance. 

Afirmo: - Socialismo ou o fim da vida humana!

O que mais me apavorou no filme A Estrada é que estamos caminhando para aquele cenário e nós podemos fazer algo agora, já, e não percebo que vamos agir para interromper o fim. E o ser humano é de uma inteligência extraordinária, com capacidade para criar soluções para nos salvar... mas teríamos que querer isso e formar maiorias para mudarmos o presente e sonharmos com um futuro alternativo.

Faremos isso? Você, amig@ leitor(a), está ao menos se preocupando com isso? Sem o envolvimento e engajamento pessoal daquelas e daqueles que se importam, vamos perder essa batalha pela manutenção da vida na Terra.

---

O Castelo de Vidro (2017) - Direção: Destin Daniel Creton. Com Brie Larson, Woody Harrelson, Naomi Watts e elenco.

Sinopse: filme baseado em fatos reais retrata a vida da família da jornalista Jeanette Walls, de pais libertários, a mãe pintora (Watts) e o pai (Harrelson) um faz tudo muito inteligente, e alcoólatra. As crianças tiveram que cuidar umas das outras ao longo da infância e adolescência.

Comentário: um filme que faz o espectador pensar na vida. A história da família Walls provavelmente toca cada pessoa em alguma reminiscência que ela tenha da família e do passado. Durante o filme, pensei no meu tio que acabou perdendo a vida para o alcoolismo, um cara muito inteligente, gente boa pra caramba, e que acompanhei o processo de sua derrota para o álcool, até a própria família não aguentar mais. A habilidade de fazer coisas diversas do pai de Jeanette me lembrou meu próprio pai, inventor de chuveiro de água quente com canos de PVC aquecidos pelo sol e tudo quanto é coisa inventada em casa. Me lembrou um pouco a infância porque me recordei de primos e primas sozinhos se virando desde pequenos. Como disse, a história da família Walls deve tocar em cada espectador de forma pessoal, pois muitos de nós temos histórias de família com aquelas situações que vimos ali. Gostei do filme! Gostei do desfecho da história.

---

Apocalipse Now (1979) - Direção: Francis Ford Coppola. Baseado no livro de Joseph Conrad "Heart of Darkness". Roteiro de John Milius e Coppola. Com: Marlon Brando, Martin Sheen, Robert Duvall, Laurence Fishburne, Dennis Hopper, Harrison Ford e elenco. 

Sinopse: filme retrata a Guerra no Vietnã. O Capitão Benjamin Willard (Sheen) das operações especiais dos EUA recebe a missão de encontrar e exterminar o Coronel Walter E. Kurtz (Brando) porque o governo norte-americano entende que Kurtz se tornou um renegado e enlouqueceu tendo um exército próprio que o trata como um semideus. Ele se encontra nas florestas do Camboja e Willard deve seguir até lá pelos rios com uma pequena embarcação e tripulação restrita.

Comentário: revi Apocalipse Now dias atrás e o filme é espetacular! A ideia da loucura é a chave para entender a questão das guerras do passado e do presente. Mas não só a ideia da loucura, mas a da razão também. Por trás de uma guerra há método, há cálculo, há homens com desejos de poder e vaidade sem preocupação alguma com qualquer pessoa, comunidade e com a natureza. A guerra é uma ação humana, demasiadamente humana!

Como são marcantes as cenas mais icônicas de Apocalipse Now

- A chegada dos helicópteros norte-americanos com alto-falantes tocando "Cavalgada das Walquírias", de Richard Wagner, ao vilarejo vietnamita e em seguida o bombardeio arrasando mulheres, idosos e crianças... tudo isso para liberar a praia para uns fdp surfarem... 

- O jovem negro dançando "(I Can't Get No) Satistaction", dos Rolling Stones, no pequeno barco subindo o rio rumo ao Camboja, em busca do Coronel Kurtz... depois o que os jovens norte-americanos fazem com pescadores vietnamitas no rio...

- Os momentos embalados pela trilha sonora "The End" do The Doors... (Puta merda! Demais). 

- O silêncio e o suspense na mata ao se procurar mangas e ao invés de topar com um soldado vietnamita dar de cara com um tigre...


ELES, SEMPRE ELES - Fiquei pensando nas razões da guerra no Vietnã e na loucura daquela guerra, do genocídio daquele povo, Napalm... Evidente que as imagens se multiplicam na mente e nos trazem os Estados Unidos da América como o causador de todas as guerras da modernidade, todas as tragédias humanitárias dos últimos dois séculos, eles, sempre eles, aqueles que se definiram como os donos do mundo... massacre dos palestinos com anuência deles, Ucrânia e Otan procurando a 3ª guerra em solo europeu com eles por trás, a miséria material da ilha cubana pelo bloqueio imposto por eles, as guerras de destruição em massa no Iraque, Líbia, Afeganistão etc para assentar uma empresa de petróleo em benefício da Roma atual... Que merda tudo isso! O golpe no Brasil por causa do Pré-Sal, hoje entregue a eles... Até quando? Quando essa Roma cairá definitivamente? Sei que vão cair atirando, mas uma hora esse império decadente vai acabar. Nada é para sempre!

---

A postagem anterior desta série sobre filmes pode ser lida aqui.


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Povo sem memória é povo condenado a sofrer


Onde ancorar nossa nau neste mundo da iniquidade?

Terminaram as "eleições" municipais brasileiras neste domingo. Sendo a urna eletrônica um instrumento seguro (seria?), o resultado do escrutínio mostra que o povo desta ex-colônia portuguesa deu permissão para os patrões bilionários e seus representantes levarem adiante a pauta de direita que vai trazer um retrocesso secular para aqueles que dependem da venda da força de trabalho de seus corpos para sobreviver.

Que falta faz ensinar história da luta de classes para os trabalhadores e seus familiares! É tão antigo e tão atual vermos a massa despolitizada sendo guiada para os matadouros através de ferramentas ideológicas bem manuseadas pelos donos de todos os meios de produção, os capitalistas que detêm os capitais, as terras, as armas, os cargos públicos dos poderes executivo, legislativo e judiciário, a "lei", o circo, as migalhas de pão para distribuir, e nossos corpos a soldo barato, pois com os empregos da terceirização total seremos somente coisas, gado, mantidos somente para manutenção da reposição do exército de reserva.

O povo que conheço tem a memória mais curta que a personagem Dory, do desenho "Procurando Nemo". Segundo parte de meus colegas bancários do BB, ativos e aposentados, o "País está quebrado" e então não temos o que fazer a não ser aceitar a PEC 241 e todas as merdas que os golpistas estão fazendo como entregar a nossa Petrobras e o Pré-sal para os articuladores do golpe contra o Brasil. Povo sem memória. Até o início de 2014, antes da Lava Jato fabricada nos EUA começar a foder as empresas e os empregos no País, além do foco central de tirar o PT do poder e todo o significado disso, estávamos resistindo à crise mundial melhor que qualquer outro país do mundo.

Em pouco menos de quarenta anos, vi o mundo dar uma volta quase completa em torno do eixo político e voltar ao mesmo ponto, com os poucos capitalistas dando todas as cartas no "Tabuleiro de war" chamado Terra.

Quando nasci, meus pais viviam sob o Brasil do AI-5. Estados Unidos financiavam golpes e ditaduras em Nuestra América. Ao mesmo tempo, ao menos um povo bravo enfrentava com brio os americanos: os vietnamitas expulsaram o invasor imperialista de sua casa.

Nos anos setenta e oitenta, cresci num mundo sem liberdade, onde o Estado podia sumir conosco, invadir nossa casa, torturar nossa gente em delegacias (nunca mudou), matar os nossos entes queridos e os veículos de comunicação da elite, que financiaram o golpe junto com os americanos, diziam que trabalhador que lutava contra toda aquela miséria era terrorista, comunista, corrupto (somos corruptos... sempre a mesma lorota). 

Mas tudo ficava bem com o circo que havia. Tínhamos Chacrinha, Silvio Santos, futebol na televisão. Novelas... (não mudou nada, só os nomes... Faustão, Luciano Huck... ainda o Silvio Santos).

Veio a Constituição Cidadã de 1988 e nos garantiu diversos direitos civis, sociais, políticos, trabalhistas, humanos... (que estão sendo desfeitos por hora, por semana)

Anos noventa, depois de uma vida de miséria minha e de milhões de gentes como nós, vimos os governos Collor e FHC destruírem a coisa pública, dando e distribuindo a riqueza de nosso país e as empresas públicas do patrimônio nacional para amigos e para os estrangeiros que cobram os butins do apoio aos golpes lesa-pátria contra o povo brasileiro. Uma pequena elite, vagabunda e sem espírito nacionalista, sempre viveu em céu de brigadeiro no brazil-colônia.

Como a elite tupiniquim não é nacionalista como os árabes, nem é preciso financiar golpes com guerras civis como os imperialistas fizeram nos países árabes, para derrubar os governos nacionais e instalar as empresas americanas de petróleo no local (os países não existem mais). Aqui nossos vira-latas vendem tudo por uns trocados porque nunca foram nacionalistas.

Durante os anos dois mil, tivemos uma ascensão nunca vista em nosso país e nos países de Nuestra América com a eleição de governos de esquerda, ou nacionalistas, ou mais progressistas e populares. Diminuiu a miséria nauseabunda de séculos e séculos para os povos de ex-colônias portuguesas, espanholas, depois sob outros donos, ou seja, a tutela de ingleses e norte-americanos.

Com os novos estilos de golpes parlamentares-jurídicos-midiáticos, voltamos neste instante à condição de antes dos anos dois mil. Eu não concordo em ficar apedrejando com blá blá blá que a culpa é do PT e seus líderes, ou do chavismo, porque é simplista e desonesto o nosso lado da classe trabalhadora ficar realimentando o que a direita fez com propriedade ao organizar a retomada do poder secular. Os erros do PT devem ser analisados sob a ótica da característica do povo em nosso país: aqui não é terra de revolucionários e nosso povo não participa dos embates políticos, sequer como os nossos vizinhos latino-americanos. Fizeram repúblicas ao nosso redor quase um século antes de nós.

Estamos na merda e será difícil sair dela. No meu cálculo de cenário, serão anos e anos de sofrimento e miséria. Mas eu não isento o povo em ser manipulado tão facilmente e docilmente pelas ferramentas ideológicas dos donos do poder secular. Se quisessem, poderiam ser mais politizados e entender como as coisas funcionam no mundo.

Nós poderíamos começar a reação hoje, se a esquerda e os progressistas se unissem com um projeto único e não fossem demasiadamente humanos com seus pecados capitais como o principal deles - a vaidade.

Sem chance para nós neste momento. Na medida em que os golpistas foram avançando, nós da esquerda fomos nos dividindo mais ainda. Preciso que me provem que a esquerda consegue se unir novamente.

Gostaria de saber onde está a maior central sindical do país? E as demais centrais? Onde estão os líderes dos partidos de esquerda e dos movimentos sociais progressistas? Ninguém sabe, ninguém viu. Onde estão as lideranças dos trabalhadores? Estão todos divididos, estão todos disputando as máquinas e tentando eliminar "adversários" internos enquanto o País vira vinagre.

William


Post Scriptum:

Neste segundo turno, foi a primeira vez que votei nulo em minha vida de cidadão brasileiro. Acho isso triste, nunca quis fazer isso, mas já vivemos em estado de exceção, não há mais democracia.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Artigo: John J. Rambo, o personagem


Personagem John J. Rambo.
Imagem do primeiro filme 1982.


John J. Rambo, O Personagem

REFEIÇÃO CULTURAL – SOMOS O QUE SOMOS

10/01/13


INTRODUÇÃO

CONTRA ESTEREÓTIPOS

Começo este texto explicitando que eu detesto estereótipos e desde que adquiri um pouco mais de conhecimento com a idade adulta, passei a me vigiar para não me pegar utilizando de estereótipos para desqualificar pessoas e/ou coisas e reduzir e/ou eliminar um bom debate com uma saída clássica de utilizar uma imagem ou conceito estereotipado. Via de regra, isso é feito com frequência por pessoas que se consideram melhores que as outras.

Feito esse alerta, comento com tranquilidade o personagem Rambo. Como estou em férias, estou assistindo e lendo tudo quanto é coisa. Muitas dessas coisas vêm ao sabor do dia. Ou porque fucei na estante, ou porque reli meu blog ou porque deu vontade de ver, ler, ouvir algo ao olhar para o horizonte a partir da janela de meu apartamento.

A vista de meu horizonte, a partir 
da sacada de meu apartamento.

Certos livros, personagens e coisas dos anos setenta e oitenta poderiam ser consideradas vulgares e fúteis hoje pela geração anos noventa e dois mil. Só tem um problema: nada mudou em relação aos enlatados do mundo do entretenimento nessas décadas todas.

Os “Conan”, “Rocky”, “Rambo”, “Braddock” de ontem são os “Van Diesel”, “Jason Stathan”, os “Marvel” de hoje, que sozinhos salvam o mundo; os livros do Stephen King, do Morris West e outros do tipo “Best Sellers” são os livros de vampiros de hoje que vendem milhões para os atuais “jovens” até 35 anos; aliás, os vampiros só fizeram piorar, pois eles não morrem com luz, dão beijo na boca e se apaixonam; quem pode falar mal dos romances “Sabrina” que as meninas liam nos oitenta? Qual a diferença daqueles para todos os “tons” que vendem agora?

Vamos fazer uns comentários sobre o personagem John J. Rambo e os quatro filmes da série. Os três primeiros filmes relembram a minha adolescência e os tempos duros da gente de quarenta e cinquenta anos que precisava trabalhar desde os dez ou onze anos para comer e ter alguma coisa em casa.

Hoje as crianças brasileiras perdem os amigos vizinhos porque a família comprou o segundo apartamento ou casa ou então comprou uma residência maior e melhor. (Que bom!)

Nos anos oitenta e noventa a gente mudava todo ano porque o aluguel ficava impossível de pagar com o salário baixo e vivíamos pra lá e pra cá. Era uma merda e uma miséria só. Foi nesse Brasil que eu e milhões de quarentões da classe trabalhadora crescemos.

Creio que personagens ficcionais duram décadas porque de alguma forma espelham ou realidades de pessoas e/ou sociedades, ou porque espelham imaginários populares ou também de sociedades.

Cartaz do primeiro filme, 1982.


RAMBO, PROGRAMADO PARA MATAR – 1982 (First Blood)

Este é o melhor dos filmes da série, na minha opinião. A história tem verossimilhança no que diz respeito ao tratamento que foi e é dado aos ex-combatentes norte-americanos.

Os Estados Unidos insistiram em uma guerra no Vietnã entre os anos sessenta e setenta que só fez vitimar os povos de lá e os soldados norte-americanos. Foi uma carnificina geral.

Neste primeiro filme, não tem como não simpatizar e torcer para que Rambo detone os policiais que o torturaram na cadeia. Infelizmente, essa é a coisa mais comum em qualquer departamento de polícia do mundo: espancarem cidadãos inocentes ou bandidos.

A fala final de Rambo é comovente. Na guerra, os soldados lidam com armamentos e veículos de milhões de dólares e quando voltam a ser civis não lhes dão emprego nem de guardadores de carros. Sem contar ele descrevendo a cena do aeroporto na volta do Vietnã, com as pessoas xingando os soldados de assassinos.

É um filme que aborda a questão dos traumas da guerra e das consequências dela para os ex-soldados e para o país que não sabe o que fazer com cidadãos que foram transformados em pessoas treinadas para matar outras pessoas.

Cartaz do 2º filme, 1985.


RAMBO II, A MISSÃO - 1985 (Rambo: First Blood part II)

Nesta sequência da série, o ex-boina verde Rambo parte em uma missão ao Vietnã, para procurar prisioneiros de guerra norte-americanos ainda em poder dos vietnamitas.

A ação da estória também se passa em 1985 e o filme conta com toda aquela construção ideológica norte-americana de que os inimigos são do mal e fazem barbaridades e eles são os melhores sujeitos do Planeta.

Eu era um trabalhador braçal adolescente quando o filme foi feito e lançado. Revendo-o nos dias atuais, fico imaginando o que Mikhail Gorbachev e os soviéticos acharam da sacanagem de um filme de guerra norte-americano colocar os russos ao lado dos vietnamitas em plena era da Glasnost e Perestroika, torturando soldado norte-americano com choque elétrico, facas incandescentes etc. Deve ter sido uma ofensa à inteligência da pequena parcela melhor informada de telespectadores e cinéfilos.


O TRAUMA DOS PRISIONEIROS DE GUERRA NORTE-AMERICANOS

Eu não sabia disso. Pesquisando um pouco na Wikipedia sobre a história do conflito e a questão dos prisioneiros de guerra norte-americanos (Vietnam War POWS/MIA issue, ou seja, prisioners of war e missing in action), foi possível entender o rebuliço que o filme Rambo II causou nos Estados Unidos.

O povo norte-americano tem ainda hoje um verdadeiro trauma e toda uma cultura alimentada pelas famílias de mais de mil soldados que foram considerados mortos ou desaparecidos na guerra sem os corpos retornarem. Houve até comissões investigando o caso. Uma grande parte dos desaparecidos seria da brigada de paraquedistas e não se sabe se morreram em combate ou aos montes ao saltarem dos aviões.

(Interessante, porque até isso acontece com Rambo quando tenta saltar a baixa altitude do avião no filme...)

Só nos anos noventa é que Estados Unidos e Vietnã finalizaram os acordos sobre a questão dos prisioneiros.

Julia Nickson no filme Rambo II, 1985.


MELHORES MOMENTOS: Finalizando o comentário sobre o filme, uma das melhores partes é durante a presença da bela Julia Nickson que interpreta a agente vietnamita Co Bao.

Também é o maior barato quando o soldado sacaneado Rambo (sob tortura) fala pelo rádio com o marechal Murdock (que o deixou lá) com toda a raiva do mundo dizendo: “Murdock, Murdock, estou indo pegá-lo!”.


Cartaz do 3º filme, 1988.


RAMBO III – 1988 (Rambo III)

Se já era um absurdo colocar os soviéticos como maníacos sanguinários em 1985 no segundo filme da série, imaginem neste em 1988.

Pesquisando um pouco sobre a invasão soviética no Afeganistão, entre 1979 e 1989, foi possível ver que realmente as maldades e massacres de civis ocorreram, como usam ocorrer em qualquer porcaria de guerra.

Como os soviéticos tinham muita dificuldade para enfrentar em solo e nas cavernas do deserto os afegãos guerrilheiros mujahedin, a maneira de obter vantagem momentânea durante a década de guerra era bombardear as cidades e os acampamentos afegãos.


OBSERVAÇÃO: Fui adolescente durante a década de oitenta, período final da chamada guerra fria entre o lado capitalista do mundo e o lado comunista. Tenho vagas lembranças do período.

Comparando o filme do Rambo III nos anos oitenta em missão “humanitária” no Oriente e um filme atual como “Mercenários” (2010), ainda prefiro o dos anos oitenta.

É isso.

DETALHE: Assisti aos três filmes do Rambo em videocassete com fitas VHS gravadas há mais de dez anos. É mole como sou antiquado? Como costumo dizer, as fitas serviram para aquilo que são. Vi os filmes normalmente.


Cartaz do 4º filme, 2008.


RAMBO IV – 2008 (John Rambo)

Quando assisti a esse filme no ano do lançamento, foi mais porque havia visto antes o bom fechamento que Stallone deu à série Rocky, em 2006.

Uma coisa no filme Rambo IV me chamou a atenção: o quanto aumentou o poder letal das armas de guerra manuseadas pelos exércitos, paraexércitos, mercenários e bandidos em geral.

Diferente do esforço do Rambo III, que buscou dar verossimilhança ao enredo sobre a invasão soviética no Afeganistão, não encontrei nada sobre massacres parecidos ao que o filme retrata naquele país, atual República da União de Myanmar. Não estou dizendo com isso que não possa ter ocorrido. Eu não encontrei informação a respeito. Deve ser só ficção do enredo mesmo.

Era uma ditadura de fato que governava Myanmar na época em que o filme foi rodado, mas aparentemente com o mesmo grau repulsivo de violência que toda ditadura tem. Aliás, violência muito semelhante à praticada pelos norte-americanos nos países onde eles invadem.


REFLEXÕES FINAIS

COMO PROTEGER E SALVAR AS VIDAS HUMANAS? COM PRECE? NA BALA? NA DIPLOMACIA?

Chamou minha atenção no quarto filme (2008) o debate entre Rambo e os missionários quando eles foram contratá-lo para levá-los pelo Rio Salween até as aldeias que estavam sofrendo massacres. Rambo pergunta com que armamento os transmissores da palavra de Deus estão indo para a região que sofre genocídio e execuções em massa. Eles dizem que são contra armas e contra violência.

Fala sério! Tá na cara que quem pratica atrocidades está pouco se lixando para palavra de deuses ou pacifistas. Ontem e hoje, matar pessoas e tirar a vida humana se tornou algo tão banal que não sabemos onde vamos parar. Os valores das sociedades capitalistas e do dinheiro e das coisas materiais chegou num ponto que será preciso uma grande inversão de valores para a vida em sociedade continuar no planeta. Aliás, o pouco valor da vida foi o mesmo nas ditaduras de Stalin e outras por aí. (o lugar-comum é só falar das ditaduras de direita e fascistas como as de Hitler e Mussolini)

O pior de tudo é que não estou vendo nos jovens com suas caras enfiadas nas redes e nos jogos, com seus fones de ouvido, uma chama de mudança voltando a dar valor à vida humana. Parece que a vida humana é igual às vidas nos videogames.


A foice e o martelo. Símbolo de 
revoluções proletárias no mundo.


OS TRABALHADORES TERIAM ARMAMENTO PARA A REVOLUÇÃO?

Nos anos oitenta, eu era adolescente e o mundo era completamente diferente do que é hoje nos anos dois mil do século XXI. Hoje sou sindicalista, eleito pelos trabalhadores e tenho muito mais consciência política do que nos anos oitenta.

Lembro-me de um debate que travei com um companheiro do PSTU em uma assembleia dos bancários em 2008 ou 2009. Falávamos sobre as possibilidades reais de revoluções socialistas como foram aquelas na Rússia, na China e em Cuba nas décadas primeiras do século XX.

Na minha tese, que fica mais evidente à medida que vejo o quanto avança o poder de morte e destruição das armas em poder dos capitalistas, seria muito difícil a tomada de poder da classe trabalhadora através de revolução armada.

Cada dia que passa, fica mais desproporcional o poder de fogo e destruição de quem é financiado pelo capital e de quem quer se insurgir contra os exércitos do capital. Hoje, os Estados Unidos vivem em função dessas empresas de guerra.

A hora que eles virarem suas miras contra nós latino-americanos, por exemplo, fodeu! 

Não há exército nenhum aqui para proteger nossas águas, terras, petróleo, nações e povos contra invasões dos americanos imperialistas.

De que valem organizações como ONU, OEA, OTAN, OIT etc? Nada!


O MUNDO E OS GRUPOS PRECISAM DE PESSOAS COM ALGO A MAIS

Na verdade, apesar da história das sociedades e das mudanças sociais passarem por grandes eventos a envolverem as massas e grandes contingentes humanos, as decisões e os rumos dos acontecimentos partiram e partem de pessoas ou pequenos grupos.

É aí que fazem diferença aqueles que têm um algo a mais, seja para a direita, seja para a esquerda, seja a favor do status quo, seja contrário a ele.

Olhemos para trás e olhemos ao nosso redor. Quando um lado da batalha entre campos ideológicos antagônicos está melhor, faltam lideranças e pessoas com algo a mais do outro lado. E quando a coisa se inverte, idem.

Segue sendo uma missão de qualquer grupo, identificar e preparar pessoas para serem grandes líderes e terem algo a mais que possa fazer a diferença nos momentos mais decisivos da vida e da história. É preciso dar base sólida a grandes homens e mulheres. É preciso que se tenham princípios sólidos que não caiam com a dor e o risco de morte.

Nós da esquerda estamos fazendo isso para mudar e salvar o mundo da destruição total em andamento através do capitalismo voraz e do fetiche da matéria e consumismo?

Creio que não. Faltam muitos líderes como... (eu ia citar alguns líderes, mas deixo por conta de cada um elencar os seus).

É isso. Já refleti bastante pra mim mesmo em meu blog após assistir aos quatro filmes sobre o personagem John J. Rambo.

Valeu a diversão e as pesquisas que fiz...

William Mendes

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Vietnã revisitado - ótima matéria da Revista do Brasil

(Foto: Nguyen Huy Kham/Reuters)
Vietnã revisitado



Viagem ao país do “socialismo de mercado”

Por: Bernardo Kucinski

Publicado em 20/07/2010

Eu e minha mulher somos de gerações que viveram cada minuto da Guerra do Vietnã (1959-1975), uma das mais sangrentas de todos os tempos. Por isso, nossa visita de 18 dias a esse país, e também ao Camboja – vizinho do sudeste asiático também atingido por conflitos decorrentes da Guerra Fria – teve um sentido muito especial. Eu, um pouco mais velho, ainda lembro o cerco de Dien Bien Phu, comandado pelo general Giap, que forçou os franceses à rendição. Milhares de soldados emergiram de repente das florestas próximas, a pé e de bicicleta, surpreendendo e subjugando a prepotência francesa.



Essa imagem dos homens pequeninos, magrelas e quase invisíveis vencendo a soldadesca ocidental hiperequipada – primeiro os franceses, depois os americanos – acompanhou toda a guerra em que foram despejados 8 milhões de toneladas de bombas e 72 milhões de litros de desfolhantes químicos, matando 3 milhões de vietnamitas e queimando um milhão de hectares de mata nativa. Os B-52 americanos despejaram no Vietnã três vezes mais bombas do que em toda a Segunda Guerra Mundial.


Foi também a guerra mais criticamente coberta pelo jornalismo ocidental. No Museu de Guerra que visitamos em Saigon, hoje chamada Cidade de Ho Chi Min, uma exposição homenageia 134 fotógrafos de 11 nacionalidades que morreram na cobertura do confronto ou foram levados à loucura pelas atrocidades que testemunharam. Ali estava a foto emblemática dessa guerra, a da criança nua correndo desesperada depois de atingida pelas bombas incendiárias de Napalm.


O país hoje é um formigueiro em atividade, onde todos correm para recuperar o tempo perdido. A renda per capita ainda é muito baixa, US$ 700 por ano, um décimo da nossa. O salário mínimo também é um décimo do nosso: US$ 30. Embora todos os preços sejam baixos, esses valores dão uma ideia do tipo de vida, ainda austera, que levam os vietnamitas.


A guerra consumiu gerações inteiras. A maioria esmagadora da população hoje é de jovens, o que talvez explique o predomínio da motocicleta como meio de transporte. Quase não há transporte coletivo e são poucos os carros. Enxames de motos dominam as ruas. A moto mais barata vem da China e custa US$ 300, diz nosso guia, senhor Tchin. Equivale a dez meses de salário mínimo. Em Cidade de Ho Chi Minh há 4 milhões de motos para 2 milhões de famílias. O veículo está para o corpo do vietnamita como o celular está para os nossos sentidos. “Sem ela você não existe”, diz Tchin. Num parque de Hanói vi uma cena emblemática: duas motos “namorando”. Isso mesmo, estavam estacionadas, uma encostada na outra, um pouco atrás de seus respectivos donos, recostados na grama.


Dono do destino


O regime político é de partido único, o Partido Comunista do Vietnã, fundado em 1922. Falamos tanto em China e em Cuba, e esquecemos que esse pequeno e populoso país – de 86 milhões de habitantes – também deve ser analisado como uma experiência de “socialismo real”. A soviética colapsou, a chinesa caminha rapidamente para o capitalismo total. E a vietnamita? Uma grande diferença entre o Partido Comunista do Vietnã e os demais é o fato de ele ter proposto e conduzido desde o início uma guerra de libertação nacional, não uma revolução social. Depois da expulsão dos americanos e da unificação do país, adotaram o modelo de economia planificada, com metas quantitativas de produção. Mas logo o abandonaram, assustados pelo colapso da União Soviética e sua própria estagnação econômica.


Desde 1987 os dirigentes vietnamitas chamam sua experiência de “socialismo de mercado”. Deixam ao mercado a determinação de preços e emulam a competição e o esforço pessoal de cada um, mas não deixam que o mercado mande no destino do país. Esse destino, diz vagamente o partido, ainda é o socialismo.


A experiência parece agradar à população, embora alguns aspectos a assustem. Por exemplo, discrepâncias entre serviços médicos públicos e privados, fato que nós brasileiros conhecemos bem. A produção cresce 7% ao ano em média, com indústria e serviços superando em valor a agricultura, uma medida de modernização. Em toda a parte se veem novas escolas e hospitais. Estradas modernas cortam o Delta do Mekong (onde o rio desemboca no mar). No campo, uma reforma agrária deu a cada família 360 metros quadrados por pessoa – numa família de quatro, são 1.440 metros quadrados para plantar o arroz. O Vietnã é um dos maiores exportadores mundiais desse grão.


Apesar de proliferação de bandeiras vermelhas e faixas alusivas à guerra, nada no cotidiano lembra um regime comunista, como o imaginamos, ou qualquer regime movido por uma ideologia ou um sentido de missão ou redenção histórica. Esse contraste foi o que mais me impressionou. No topo, uma estrutura de Estado, comandada por partido único, fortemente marcada pela ideologia, fraseologia e procedimentos típicos da abordagem marxista, como se vê pelos documentos oficiais.


Na base, uma economia capitalista parecida com qualquer outra, com empresas de todos os tipos, inclusive estrangeiras, comércio totalmente privado, povo laborioso que não dá a menor pelota para a ideologia, voltado à necessidade de vencer na vida, educar os filhos o melhor possível.


Ninguém liga se você é do Partido Comunista ou não, isso não é assunto no cotidiano. Não precisa ser membro do partido para ter emprego, diz o nosso guia. Para ser professor precisa? Não, mas para ser diretor de escola precisa. Ou seja, o partido funciona como uma espécie de qualificação. Faz no Estado vietnamita o papel que faz o diploma de curso superior nos concursos públicos do nosso sistema. Com a diferença, entre outras, de que com a qualificação vem o controle. Para fazer carreira no serviço público, virar um dirigente, precisa ser do partido. No partido se dão as discussões, as decisões e se cobra a obediência.


Sem medo


Nas ruas, o ambiente é de liberdade. Não se nota medo de falar, medo de vigilância, controles do ir e vir. Nada disso. Nadinha. Os jornais denunciam corrupção nas licitações de obras públicas. Uma comissão especial vai estudar como reduzir a corrupção. Falam da exploração do trabalho infantil. Uma campanha vai tentar acabar com isso. Parece Brasil.


Um regime benigno, quando comparado aos vizinhos Camboja e Laos, nos quais ainda se veem mendigos nas ruas e o analfabetismo chega a 50%. Tenta melhorar a vida de todos. A educação básica é obrigatória. Doze anos de escola, tempo integral, oito horas por dia. O analfabetismo caiu de 70% para 3%. Por toda a parte há bandos de estudantes. Quem não mandar filho para a escola fica com a ficha suja na prefeitura. Pode até ter dificuldade na hora de procurar emprego. Aí sim, tem um controle estrito, mas é algo mais parecido, digamos, com o do nosso Bolsa Família, ou o sistema japonês de controle comunitário.


O ensino básico não é totalmente gratuito porque os pais precisam pagar pelo material gasto no ensino: giz, papel e tudo o mais. Também é costume dar uma gratificação ao professor para compensar os salários, que são muito baixos. Tudo isso custa pouco, lembra a nossa antiga “caixinha escolar”. As famílias podem pagar sem sacrifício, mas a prática tem a função importante de atribuir valor ao que o Estado provê. Essa foi a grande revolução econômica introduzida pelo PC do Vietnã, a partir do seu 6º Congresso, em 1987. Trabalhar com o conceito de valor. Acabar com os preços artificiais, fixados burocraticamente e sem relação com os custos.


Os comunistas vietnamitas, ao contrário de muita gente que se diz de esquerda no Brasil, concluíram que a revolução tecnológica iniciada nos anos 70, em especial a instauração de graus elevados de competição em escala global, obrigam todas as economias a trabalhar com o conceito de valor e abandonar o princípio do igualitarismo na remuneração do trabalho, pelo qual todos ganhavam o mesmo, fossem mais preparados ou menos preparados, mais dedicados ou mais acomodados. O que parece amarrar tudo isso, segundo alguns documentos do partido, é a existência de um projeto nacional, de que tudo o que se faz tem de estar subordinado a objetivos nacionais e sociais, por sua vez modificados ou retificados a cada número de anos.


Essa viagem também me fez recordar o Brasil da era JK. A corrida para recuperar o tempo perdido lembra os 50 anos em 5 de Juscelino. As novas estradas, a relativa pobreza daquela época, ao mesmo tempo o burburinho do crescimento. Até a paisagem do Vietnã lembra o Brasil dos anos 1950. Há cajueiros por toda a parte, mangueiras, abacateiros e bananeiras. A grande diferença está na estrutura das vilas e pequenas cidades vietnamitas, todas erguidas ao longo das estradas. Na frente, os pequenos prédios da largura de uma porta de loja, ao fundo os campos de arroz. De repente surge um prédio público, quase sempre novo em folha, uma escola, um hospital, um quartel, num estilo francês colonial leve, com dois ou três pavimentos, pintado na cor amarelo ocre, como a lembrar que um dia aquelas terras foram território colonial francês.


Guerra quente


A batalha da cidade de Dien Bien Phu, no então Vietnã do Norte, marcou a primeira grande derrota de poderosas tropas ocidentais contra as modestas mas disciplinadas forças vietnamitas. A batalha vencida pelos asiáticos em 1954 representou o fim da colonização francesa na Indochina.


A Guerra do Vietnã, deflagrada cinco anos depois, já não era anticolonização. Foi o segundo grande conflito (depois da Guerra da Coreia, 1950-1955) detonado pela Guerra Fria, que durante metade do século 20 opôs o mundo capitalista liderado pelos Estados Unidos ao bloco socialista liderado pela ex-União Soviética.

A partir de 1959, o confronto envolveu diretamente Vietnã do Norte (comunista) e do Sul (capitalista). A partir de 1964, os Estados Unidos enviaram tropas e armamentos para campos de batalha que se estendiam, além dos dois países, por Laos e Camboja.

Os vietcongues e suas táticas de guerrilha, tendo a selva como aliada, deram canseira aos invasores. No final da década de 1960, o fracasso da intervenção norte-americana estava exposto.


Em 1968, os norte-vietnamitas invadiram o Sul e tomaram a embaixada americana. A reação dos EUA desencadeou o período mais sangrento da guerra. O mundo assistia pela TV às atrocidades das batalhas. Cresceu a resistência mundial à intervenção, inclusive dentro dos EUA. Sem apoio, o governo americano aceitou em 1973 um acordo de cessar-fogo. Dois anos depois retirou de vez suas tropas. Em 1976 foi criada a República Socialista do Vietnã, unificando Norte e Sul.



Fonte: Revista do Brasil - Edição 49 - Julho de 2010

domingo, 9 de janeiro de 2011

Platoon (1986) de Oliver Stone

Foto do Wikipédia - a informação diz que a cena do filme foi inspirada em foto de Art Greenspon

Platoon

Nem parece que eu tinha menos de 18 anos quando assisti ao filme Platoon no cinema em 1987. Tanto tempo já! Tão pouco mudou!

Depois do Vietnã, os Estados Unidos já fizeram massacres no Iraque, no Afeganistão, no Iraque novamente. Agora estão na fase de criação de álibis para ver se fazem uma guerrinha com o Irã, talvez com a Coréia do Norte.

A música tema do filme é profundamente envolvente. Sentimos toda a tristeza da guerra. Sentimos uma dor inexplicável. Aos que quiserem recordar a música é só buscarem na rede mundial de computadores por “Adagio for Strings” composta por Samuel barber.

É interessante saber que o filme é feito por uma pessoa que esteve lá e que voltou diferente após tudo o que viu.

À tarde, antes de assistir a Platoon, eu havia revisto o final do filme Náufrago e já estava tocado por aquela história sobre a vida – sobre achar uma razão para se agarrar à vida.

Por enquanto, nada mais a comentar. Só a sentir... a cismar...